{"id":81915,"date":"2025-11-21T17:25:20","date_gmt":"2025-11-21T17:25:20","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=81915"},"modified":"2025-11-21T17:40:58","modified_gmt":"2025-11-21T17:40:58","slug":"armadilha-moralista-antifeminismo-e-feminismo-no-debate-sobre-a-emancipacao-da-mulher","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2025\/11\/21\/armadilha-moralista-antifeminismo-e-feminismo-no-debate-sobre-a-emancipacao-da-mulher\/","title":{"rendered":"Armadilha moralista: antifeminismo e feminismo no debate sobre a emancipa\u00e7\u00e3o da mulher"},"content":{"rendered":"\n<p>O debate entre feminismo e antifeminismo hoje se d\u00e1 quase inteiramente no terreno da moral. A extrema direita e o liberal-conservadorismo mobilizam uma guerra cultural baseada em caricaturas: \u201co feminismo odeia homens\u201d, \u201cdestr\u00f3i a fam\u00edlia\u201d, \u201cquer privil\u00e9gios\u201d. Em resposta, parte do pr\u00f3prio feminismo \u2014 inclusive setores que se reivindicam socialistas \u2014 entra no mesmo terreno, defendendo uma \u201clista de servi\u00e7os\u201d (\u201co feminismo trouxe o voto, os direitos, a p\u00edlula\u201d) ou reduzindo a opress\u00e3o a comportamentos, linguagem e boas inten\u00e7\u00f5es individuais.<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa disputa, a hist\u00f3ria desaparece. A opress\u00e3o surge como produto de seres malvados; a resist\u00eancia, como benevol\u00eancia de pessoas iluminadas. Mas o marxismo ensina que <strong>nenhuma rela\u00e7\u00e3o social se explica por moral, e nenhuma transforma\u00e7\u00e3o nasce de vontades individuais<\/strong>. A hist\u00f3ria se move por for\u00e7as profundas, n\u00e3o por inten\u00e7\u00f5es piedosas.<\/p>\n\n\n\n<p>A cr\u00edtica coerente ao antifeminismo deve come\u00e7ar recolocando esse debate no seu devido terreno: o terreno <strong>material, hist\u00f3rico e estrutural<\/strong> da opress\u00e3o das mulheres sob o capitalismo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A moraliza\u00e7\u00e3o antifeminista: a hist\u00f3ria transformada em caricatura<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O antifeminismo dominante opera em duas chaves morais:&nbsp; a personaliza\u00e7\u00e3o do feminismo e o vitimismo conservador. Na primeira, por meio de perguntas como: \u201cO que o feminismo fez por voc\u00ea?\u201d Ou afirma\u00e7\u00f5es do tipo: \u201cQuem deu o voto \u00e0s mulheres foram os homens\u201d. \u201cFeministas querem privil\u00e9gios\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa l\u00f3gica, o feminismo \u00e9 tratado como um sujeito, um ente. A hist\u00f3ria vira uma grande novela, com o movimento social de personagem. Mas, quando se personaliza, se apaga o que h\u00e1 de mais importante: <strong>as condi\u00e7\u00f5es que tornam necess\u00e1ria a luta das mulheres<\/strong>. N\u00e3o h\u00e1 feminismo sem a realidade material que o produz.<\/p>\n\n\n\n<p>A segunda chave usa uma t\u00e1tica que inverte o agente da opress\u00e3o: \u201cOs homens est\u00e3o sendo perseguidos\u201d. \u201cQuerem destruir a fam\u00edlia\u201d. \u201cAs feministas causam divis\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O opressor se apresenta como v\u00edtima. E o conflito social, em vez de ser visto como produto das rela\u00e7\u00f5es de classe, aparece como guerra moral entre indiv\u00edduos. Nada disso \u00e9 estrutural. E \u00e9 por isso que o antifeminismo s\u00f3 se sustenta na des-historiciza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O limite das respostas feministas dominantes<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O problema \u00e9 que a maior parte das respostas aceitas publicamente tamb\u00e9m fica no plano moral. Seja atrav\u00e9s de uma <strong>\u201clista de servi\u00e7os do feminismo\u201d<\/strong>, cuja defesatransforma-o em \u201cagente do bem\u201d: \u201cO feminismo trouxe o voto\u201d. \u201cO feminismo trouxe a p\u00edlula\u201d. \u201cO feminismo acabou com isso ou aquilo\u201d. E nesse caso, ao responder no mesmo plano, refor\u00e7a-se a l\u00f3gica que reduz lutas estruturais a escolhas morais.<\/p>\n\n\n\n<p>Seja pela personaliza\u00e7\u00e3o da opress\u00e3o. Isto \u00e9, a opress\u00e3o vista como quest\u00e3o de atitudes, machismo cotidiano, empatia, autoestima, respeito. Claro que essas express\u00f5es existem. Mas, como diria Kollontai, a opress\u00e3o da mulher n\u00e3o \u00e9 um erro de sentimentos masculinos, mas uma fun\u00e7\u00e3o social necess\u00e1ria ao capital.<br>Quando se moraliza, esconde-se a base material da opress\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Feminismo n\u00e3o causa a luta: \u00e9 produto dela<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O feminismo n\u00e3o explica a luta. \u00c9 a luta que explica o feminismo. O feminismo \u00e9 resultado de necessidades objetivas produzidas pelo desenvolvimento hist\u00f3rico. Surge porque o capitalismo industrializou a reprodu\u00e7\u00e3o social e empurrou mulheres para o trabalho assalariado. O processo de proletariza\u00e7\u00e3o feminina tensionou a moral patriarcal tradicional, mas enquanto defendia os ideais de igualdade e liberdade, a burguesia liberal exclu\u00eda as mulheres da cidadania.<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria da luta das mulheres mostra que <strong>nenhum<\/strong> <strong>avan\u00e7o veio como concess\u00e3o volunt\u00e1ria. <\/strong>O voto feminino, por exemplo, n\u00e3o foi \u201cdado pelos homens\u201d (nem pelo feminismo enquanto abstra\u00e7\u00e3o). Foi <strong>conquistado pelas mulheres organizadas<\/strong>, num contexto espec\u00edfico.<\/p>\n\n\n\n<p>As sufragistas inglesas foram presas, espancadas, fizeram greves de fome. Nos EUA, na Fran\u00e7a, na Am\u00e9rica Latina, mulheres organizaram marchas, jornais, sindicatos, clubes pol\u00edticos e enfrentaram a repress\u00e3o. Direitos sociais s\u00e3o sempre resultado da luta. O Estado os formaliza apenas quando a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as obriga.<\/p>\n\n\n\n<p>O voto feminino s\u00f3 foi aprovado porque antes houve um processo de press\u00e3o social imposs\u00edvel de ignorar. Quando antifeministas dizem que \u201chomens deram direitos\u201d, est\u00e3o apenas descrevendo quem ocupava o Estado, n\u00e3o quem determinou a mudan\u00e7a. A causa real est\u00e1 na luta das mulheres, n\u00e3o no g\u00eanero de quem assinou o documento.<\/p>\n\n\n\n<p>O feminismo burgu\u00eas cl\u00e1ssico surgiu limitado pela defesa da igualdade formal, mas isso n\u00e3o reduz sua import\u00e2ncia hist\u00f3rica: ele expressa um est\u00e1gio real da luta das mulheres. Parafraseando Marx: a humanidade faz sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, mas n\u00e3o faz como quer. Ao mesmo tempo a produ\u00e7\u00e3o capitalista faz crescer o antagonismo entre igualdade jur\u00eddica e desigualdade real. A divis\u00e3o sexual do trabalho tornou-se mecanismo central de organiza\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por que o antifeminismo \u00e9 reacion\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Se entendemos que o feminismo expressa necessidades hist\u00f3ricas objetivas, o antifeminismo aparece em sua verdadeira forma: um movimento burgu\u00eas reacion\u00e1rio que busca restaurar e refor\u00e7ar pilares fundamentais da ordem capitalista.<\/p>\n\n\n\n<p>O antifeminismo \u00e9 reacion\u00e1rio porque defende as bases materiais da opress\u00e3o das mulheres no capitalismo: fam\u00edlia nuclear, depend\u00eancia econ\u00f4mica, trabalho dom\u00e9stico n\u00e3o remunerado, controle dos corpos. Portanto \u00e9 um movimento <strong>anti-emancipa\u00e7\u00e3o<\/strong> das mulheres enquanto setor oprimido da classe trabalhadora. Atua como bra\u00e7o ideol\u00f3gico do capital disciplinando a for\u00e7a de trabalho feminina, legitimando a superexplora\u00e7\u00e3o e naturalizando desigualdades. Al\u00e9m de desviar a aten\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o, culpabilizando as mulheres e ocultando o papel do Estado e do capital.<\/p>\n\n\n\n<p>O antifeminismo cumpre tr\u00eas fun\u00e7\u00f5es fundamentais no capitalismo contempor\u00e2neo:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>a) Econ\u00f4mica: <\/strong>ao reduzir os custos com a reprodu\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho; pagar sal\u00e1rios menores e manter as mulheres como ex\u00e9rcito de reserva utilizado para pressionar o valor da for\u00e7a de trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>b) Pol\u00edtica: <\/strong>ao apoiar projetos reacion\u00e1rios, reproduzindo a l\u00f3gica de ataque aos direitos democr\u00e1ticos e persegui\u00e7\u00e3o aos movimentos sociais. Ou seja, \u00e9 um instrumento de regimes autorit\u00e1rios, n\u00e3o opini\u00e3o individual.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>c) Subjetiva\/ideol\u00f3gica: <\/strong>ao oferecer ao homem precarizado uma falsa catarse. Num contexto de perda de direitos, redu\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rios e desemprego estrutural, o antifeminismo oferece um inimigo (\u201co feminismo\u201d); uma explica\u00e7\u00e3o falsa para a queda do status masculino, a crise de autoridade e a fragiliza\u00e7\u00e3o do papel tradicional do homem. E um lugar simb\u00f3lico de poder quando o poder real se dissolve. Em outras palavras, o antifeminismo canaliza a frustra\u00e7\u00e3o para o alvo errado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>N\u00e3o basta defender o feminismo \u2014 \u00e9 preciso defender a emancipa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A resposta eficaz ao antifeminismo n\u00e3o \u00e9 \u201cprovar que o feminismo \u00e9 bom\u201d. \u00c9 recolocar o problema onde ele pertence: na <strong>hist\u00f3ria real<\/strong>. \u00c9 mostrar que o feminismo nada mais \u00e9 do que <strong>express\u00e3o program\u00e1tica de necessidades materiais concretas<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO feminismo\u201d n\u00e3o d\u00e1 nada e n\u00e3o tira nada. Todos os direito conquistados pelas mulheres no capitalismo foi <strong>arrancado na luta<\/strong>. J\u00e1 o antifeminismo reage a essas <strong>lutas e suas conquistas.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No fundo, o debate real n\u00e3o \u00e9 entre feminismo e antifeminismo. \u00c9 entre <strong>emancipa\u00e7\u00e3o<\/strong> e <strong>rea\u00e7\u00e3o<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>O capitalismo produz a opress\u00e3o das mulheres e dela se alimenta. A perspectiva marxista afirma que a liberta\u00e7\u00e3o das mulheres \u00e9 incompat\u00edvel com a manuten\u00e7\u00e3o desse sistema, que utiliza a opress\u00e3o para superexplorar as mulheres, dividir a classe e manter a domina\u00e7\u00e3o burguesa. Por isso a emancipa\u00e7\u00e3o das mulheres \u00e9 insepar\u00e1vel da emancipa\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora.<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa perspectiva, nenhum feminismo que fique limitado \u00e0 igualdade formal ou \u00e0 moralidade dos comportamentos \u00e9 suficiente. O antifeminismo n\u00e3o teme o feminismo enquanto nome. Ele teme as mulheres organizadas enquanto for\u00e7a hist\u00f3rica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O debate entre feminismo e antifeminismo hoje se d\u00e1 quase inteiramente no terreno da moral. A extrema direita e o liberal-conservadorismo mobilizam uma guerra cultural baseada em caricaturas: \u201co feminismo odeia homens\u201d, \u201cdestr\u00f3i a fam\u00edlia\u201d, \u201cquer privil\u00e9gios\u201d. 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