{"id":81812,"date":"2025-11-04T21:34:22","date_gmt":"2025-11-04T21:34:22","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=81812"},"modified":"2025-11-06T21:08:47","modified_gmt":"2025-11-06T21:08:47","slug":"os-verdadeiros-guardioes-da-floresta-indigenas-quilombolas-e-camponeses","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2025\/11\/04\/os-verdadeiros-guardioes-da-floresta-indigenas-quilombolas-e-camponeses\/","title":{"rendered":"Os verdadeiros guardi\u00f5es da floresta: ind\u00edgenas, quilombolas e camponeses"},"content":{"rendered":"\n<p>Em janeiro, ind\u00edgenas ocuparam a Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o no Par\u00e1 em protesto contra o fim do ensino presencial, e sua mobiliza\u00e7\u00e3o for\u00e7ou o governo a recuar. Na COP 30, espera-se uma onda de protestos ainda maior, com povos ind\u00edgenas, camponeses e quilombolas marchando juntos para levar suas reivindica\u00e7\u00f5es por direitos territoriais e sociais e denunciar a viol\u00eancia do latif\u00fandio.<\/p>\n\n\n\n<p>Os povos origin\u00e1rios estabelecem uma rela\u00e7\u00e3o com a natureza radicalmente oposta \u00e0 l\u00f3gica capitalista. Em suas sociedades, n\u00e3o vigora a propriedade privada da terra, nem a concentra\u00e7\u00e3o dos meios de vida por uma classe privilegiada. S\u00e3o comunidades sem divis\u00f5es de classe, organizadas a partir de princ\u00edpios coletivos.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa estrutura social distinta gera uma racionalidade ambiental profundamente diferente. A prioridade \u00e9 assegurar a reprodu\u00e7\u00e3o da vida comunit\u00e1ria, mantendo as rela\u00e7\u00f5es sociais que permitem uma rela\u00e7\u00e3o equilibrada com o territ\u00f3rio. Todas as atividades \u2014 produtivas, culturais, espirituais \u2014 orientam-se pelo bem comum e pelo bem-estar coletivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto isso, o capitalismo imp\u00f5e uma l\u00f3gica de conquista e domina\u00e7\u00e3o: a natureza deve ser submetida ao lucro, transformada em mercadoria a servi\u00e7o de quem det\u00e9m o capital.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa mesma rela\u00e7\u00e3o de cuidado e pertencimento se repete entre muitas comunidades tradicionais \u2014 seringueiros, ribeirinhos, quilombolas e outros grupos camponeses \u2014, que desenvolvem pr\u00e1ticas agr\u00edcolas e de manejo voltadas para a preserva\u00e7\u00e3o dos bens comuns.<\/p>\n\n\n\n<p>Os n\u00fameros confirmam essa realidade. Nos \u00faltimos 30 anos (1990-2020), o desmatamento em Terras Ind\u00edgenas foi de apenas 1,1 milh\u00e3o de hectares, contra 47,2 milh\u00f5es em \u00e1reas privadas. Embora as invas\u00f5es de garimpeiros, madeireiros e grileiros tenham elevado a taxa de destrui\u00e7\u00e3o recentemente, o contraste segue gritante.<\/p>\n\n\n\n<p>Com os quilombolas n\u00e3o \u00e9 diferente: entre 1985 e 2022, a perda de vegeta\u00e7\u00e3o nativa em seus territ\u00f3rios foi de apenas 4,7%, ante 25% em \u00e1reas privadas. Eles ocupam cerca de 0,5% do territ\u00f3rio nacional, mas s\u00e3o guardi\u00f5es fundamentais da floresta.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, defender a demarca\u00e7\u00e3o de todas as terras ind\u00edgenas, a titula\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios quilombolas, o reconhecimento das posses camponesas e uma reforma agr\u00e1ria radical e adaptada \u00e0 diversidade dos camponeses brasileiros \u00e9 condi\u00e7\u00e3o para manter as florestas em p\u00e9, como bem sabia Chico Mendes.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\">Entrevista<\/mark>: <strong>Osmarino Am\u00e2ncio: \u201cPara n\u00f3s, povos da floresta, capitalismo verde \u00e9 uma trag\u00e9dia\u201d<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"281\" height=\"179\" src=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Osmarino-e-Chico-Mendes.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-81814\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p><em>O Opini\u00e3o entrevistou Osmarino Am\u00e2ncio, l\u00edder seringueiro que, ao lado de Chico Mendes, lutou contra a destrui\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia por meio dos \u201cempates\u201d, piquetes realizados pelas comunidades que impediam o desmatamento.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Como voc\u00ea avalia a pol\u00edtica ambiental do governo Lula?<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A gente s\u00f3 escuta a ideia do agroneg\u00f3cio e a pol\u00edtica governamental fazendo a parceria com o setor da burguesia agr\u00e1ria. Por tr\u00e1s dos discursos bonitos nas COPs, o que chega pra n\u00f3s na floresta \u00e9 que o governo Lula continua a mesma cartilha: defende os megaprojetos na Amaz\u00f4nia, as hidrovias, as estradas para o escoamento do agroneg\u00f3cio, as barragens e a explora\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Mas e as pol\u00edticas defendidas pela ministra Marina Silva? \u00c9 Capitalismo verde?<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o solu\u00e7\u00f5es de mercantiliza\u00e7\u00e3o da natureza. Quando era ministra, Marina Silva procurou favorecer o \u201cmercado verde\u201d, criou a lei de gest\u00e3o de florestas p\u00fablicas que privatiza as florestas, colocando-as para as madeireiras, ind\u00fastrias farmac\u00eauticas e biopirataria. E essa mercantiliza\u00e7\u00e3o vem com a roupagem dos Cr\u00e9ditos de Carbono, o tal do REDD, que vira moeda de especula\u00e7\u00e3o na Bolsa de Valores. A empresa paga e compra o direito de continuar poluindo e desmatando. Ent\u00e3o, sob o capitalismo, a &#8220;sustentabilidade&#8221; virou uma fachada para a especula\u00e7\u00e3o financeira.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses projetos imp\u00f5em proibi\u00e7\u00f5es aos moradores da floresta, impedindo que eles possam fazer seus ro\u00e7ados, tirar madeira para construir suas casas, oferecendo em troca uma mis\u00e9ria. E agora tem fazendeiro grilando terras das comunidades, dizendo que aquela \u00e1rea de floresta preservada \u00e9 sua, para registrar ilegalmente a posse, usando a pr\u00f3pria vegeta\u00e7\u00e3o para justificar a &#8220;reserva legal&#8221;. Desse jeito eles continuam desmatando, mas usam a &#8220;reserva legal&#8221; como fachada. Tem empresa que faz isso tamb\u00e9m para vender cr\u00e9dito de carbono. A gente chama isso de grilagem verde.<\/p>\n\n\n\n<p>O capitalismo \u00e9 capitalismo, seja ele verde, vermelho ou amarelo. E para n\u00f3s, povos da floresta, para os ind\u00edgenas e quilombolas, ele \u00e9 sempre uma trag\u00e9dia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Como foi a luta travada por voc\u00ea e o Chico Mendes pelas Reserva Extrativistas?<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Foi um processo que chamamos de um processo revolucion\u00e1rio na luta pela reforma agr\u00e1ria adequada aos seringueiros. Uma luta pelo socialismo, que n\u00f3s n\u00e3o reivindicamos a propriedade privada. A gente n\u00e3o queria t\u00edtulos de propriedades, reivindicamos o usufruto dos seringueiros. A gente tamb\u00e9m se inspirou na cria\u00e7\u00e3o das Terras Ind\u00edgenas. E criamos a Alian\u00e7a dos Povos da Floresta que juntou seringueiros e ind\u00edgenas na mesma luta. A gente aprendeu que se a gente cair, a floresta cai junto. E \u00e9 a nossa uni\u00e3o que garantiu a nossa sobreviv\u00eancia, nossos direitos e a floresta em p\u00e9. Essa li\u00e7\u00e3o \u00e9 mais viva do que nunca hoje. Precisamos refundar essa Alian\u00e7a para fazer o empate contra os megaprojetos do agroneg\u00f3cio e desse governo.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em janeiro, ind\u00edgenas ocuparam a Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o no Par\u00e1 em protesto contra o fim do ensino presencial, e sua mobiliza\u00e7\u00e3o for\u00e7ou o governo a recuar. 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