{"id":81661,"date":"2025-10-18T14:23:58","date_gmt":"2025-10-18T14:23:58","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=81661"},"modified":"2025-10-25T02:42:09","modified_gmt":"2025-10-25T02:42:09","slug":"equador-o-paro-nao-para","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2025\/10\/18\/equador-o-paro-nao-para\/","title":{"rendered":"Equador | O \u201cParo\u201d n\u00e3o para"},"content":{"rendered":"\n<p>Por: Lena Souza e Vero Chulde<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;<em>El Paro no para<\/em> \u2013 A Paraliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o acaba&#8221;. Esta \u00e9 a consigna que ressoa em todo o Equador. Em meio a atropelos vindos de cima e rebeli\u00f5es vindas de baixo, a luta do povo equatoriano continua. Tens\u00f5es e contradi\u00e7\u00f5es se aprofundam em meio a uma valente resist\u00eancia que enfrenta a repress\u00e3o estatal, a manipula\u00e7\u00e3o da m\u00eddia e a criminaliza\u00e7\u00e3o do protesto social.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Atropelos vindo de cima<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Embora o governo de Daniel Noboa se sustente, por um lado, na for\u00e7a bruta da repress\u00e3o e, por outro, na desinforma\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica disseminada pela grande m\u00eddia aliada ao poder econ\u00f4mico e pol\u00edtico, as contradi\u00e7\u00f5es internas do regime n\u00e3o podem mais ser ocultadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos \u00faltimos dias, enquanto se desatava a violenta repress\u00e3o na prov\u00edncia de Imbabura, particularmente na cidade de Otavalo, o aparato midi\u00e1tico do governo tentou vincular a resist\u00eancia popular com a minera\u00e7\u00e3o ilegal e com os atentados de grupos narcotraficantes, como o carro-bomba em Guayaquil e outros incidentes violentos. No entanto, as mentiras n\u00e3o se sustentam: os pr\u00f3prios ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o que repetiram as vers\u00f5es oficiais foram for\u00e7ados a retificar.<\/p>\n\n\n\n<p>O Ministro do Interior, John Reimberg, acabou admitindo que o ataque foi obra do grupo criminoso organizado &#8220;Los Lobos&#8221;, desmentindo as declara\u00e7\u00f5es anteriores do Ministro dos Transportes, Roberto Luque, e do Governador de Guayas, Humberto Plaza, que haviam insinuado que os manifestantes estavam por tr\u00e1s desses atos.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa contradi\u00e7\u00e3o exp\u00f5e a dupla moral do governo, que est\u00e1 mobilizando mais de 5.000 efetivos das for\u00e7as de seguran\u00e7a para atacar brutalmente manifestantes em Otavalo e outras cidades, enquanto nas regi\u00f5es mais afetadas pelo narcotr\u00e1fico, criminosos continuam agindo impunemente, assassinando autoridades locais, extorquindo comerciantes e semeando o terror sem nenhuma resposta real do Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, na semana passada, a grande m\u00eddia, que repete a narrativa oficial \u2013 segundo a qual os manifestantes s\u00e3o &#8220;terroristas&#8221; e &#8220;violentos&#8221; \u2013 foi for\u00e7ada a reconhecer fatos que contradizem sua pr\u00f3pria narrativa. Em um dos casos mais emblem\u00e1ticos, um jornalista de uma das principais redes de televis\u00e3o do pa\u00eds foi agredido pelas for\u00e7as de seguran\u00e7a enquanto cobria as manifesta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, dezenas de ataques foram registrados contra a imprensa comunit\u00e1ria e independente, cujas reportagens sobre repress\u00e3o, invas\u00f5es ilegais e deten\u00e7\u00f5es arbitr\u00e1rias de l\u00edderes sociais s\u00e3o sistematicamente silenciadas ou invisibilizadas pela grande m\u00eddia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Assassinatos e Criminaliza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"843\" height=\"559\" src=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Assassinados.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-81664\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Assassinados.jpeg 843w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Assassinados-300x199.jpeg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Assassinados-768x509.jpeg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 843px) 100vw, 843px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>At\u00e9 o momento, organiza\u00e7\u00f5es de direitos humanos relataram centenas de pris\u00f5es arbitr\u00e1rias, desaparecimentos e pelo menos tr\u00eas pessoas assassinadas pelas for\u00e7as de seguran\u00e7a durante os protestos. A terceira v\u00edtima foi Jos\u00e9 Alberto Guam\u00e1n Izama, membro da comunidade Kichwa, de 30 anos, pai de dois filhos e agricultor da comunidade de Chachibiro, em San Rafael de Otavalo. Ele morreu ap\u00f3s ser baleado no peito pelas for\u00e7as de seguran\u00e7a na \u00faltima quinta-feira, durante o 24\u00ba dia da paralisa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o falecimento de Guam\u00e1n, agora s\u00e3o tr\u00eas mortes confirmadas durante a paralisa\u00e7\u00e3o nacional iniciada em 22 de setembro em protesto contra o decreto que eliminou o subs\u00eddio ao diesel. As outras v\u00edtimas s\u00e3o Efra\u00edn Fu\u00e9rez, dirigente comunitario de Imbabura, que recebeu tr\u00eas tiros nas costas, e Rosa Elena Paqui, uma mulher Kichwa de 61 anos de Saraguro, que morreu ap\u00f3s sofrer uma parada card\u00edaca causada pela inala\u00e7\u00e3o de g\u00e1s lacrimog\u00eaneo disparado pelas for\u00e7as repressivas durante um protesto na provincia de Loja.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas mortes n\u00e3o s\u00e3o fatos isolados: s\u00e3o o resultado direto da repress\u00e3o brutal do governo contra um povo que exige justi\u00e7a, dignidade e o direito de viver sem fome ou exclus\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-video\"><video controls src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/WhatsApp-Video-2025-10-18-at-13.13.00-1.mp4\"><\/video><figcaption class=\"wp-element-caption\">O momento em que Jos\u00e9 Guaman foi atingido por um disparo dos militares que invadiram e reprimiram os manifestantes em Otavalo em 14\/10\/2025<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Por baixo: rebeli\u00f5es na base e justi\u00e7a ind\u00edgena frente a dirigentes que negociam sem consultar<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto Daniel Noboa mant\u00e9m sua ret\u00f3rica &#8220;valente&#8221;, afirmando que n\u00e3o ceder\u00e1 \u00e0 press\u00e3o social, as bases ind\u00edgenas e camponesas continuam sua luta. Nesta quinta-feira, em meio a uma aparente tr\u00e9gua, negocia\u00e7\u00f5es ocorreram com alguns\/as dirigentes. Ap\u00f3s mais de tr\u00eas semanas de paralisa\u00e7\u00e3o e confrontos na prov\u00edncia de Imbabura, uma delega\u00e7\u00e3o governamental liderada pelo Ministro do Interior, John Reimberg, reuniu-se em Otavalo com representantes da Federa\u00e7\u00e3o Ind\u00edgena e Camponesa de Imbabura (FICI) e da Uni\u00e3o das Organiza\u00e7\u00f5es Camponesas de Cotacachi (UNORCAC), entre eles Mes\u00edas Flores, Martha T\u00faquerres e Manuel Catucuago. A CONAIE n\u00e3o esteve representada na reuni\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A reuni\u00e3o, que durou aproximadamente cinco horas, chegou em um acordo parcial que o governo divulgou como o fim da paralisa\u00e7\u00e3o na prov\u00edncia, embora muitas comunidades n\u00e3o o reconheceram.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Principais pontos do acordo:<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u2022 Estabelecimento de mesas t\u00e9cnicas entre o governo e as organiza\u00e7\u00f5es locais para analisar as demandas territoriais.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u2022 Analisar o congelamento do pre\u00e7o do diesel<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u2022 Rever os procedimentos judiciais e libertar alguns detentos presos durante os protestos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u2022 Assist\u00eancia m\u00e9dica aos feridos e \u00e0s fam\u00edlias das v\u00edtimas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u2022 Retirada progressiva das for\u00e7as policiais e militares das comunidades mobilizadas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Embora esses\/as dirigentes tenham concordado em iniciar conversas com representantes do governo, a maioria das bases rejeitou qualquer negocia\u00e7\u00e3o sem consulta pr\u00e9via, exigindo que a paralisa\u00e7\u00e3o continue at\u00e9 que as principais reivindica\u00e7\u00f5es sejam atendidas: o restabelecimento do subs\u00eddio ao diesel, a liberta\u00e7\u00e3o dos detidos, o esclarecimento dos assassinatos cometidos pelas for\u00e7as de seguran\u00e7a e o respeito aos territ\u00f3rios comunit\u00e1rios diante da minera\u00e7\u00e3o e da militariza\u00e7\u00e3o. O governo anunciou a liberta\u00e7\u00e3o de doze detentos, que estavam em pris\u00f5es de alto risco. No entanto, as comunidades receberam a not\u00edcia com cautela, pois muitos dos detidos permanecem processsados e sem garantias judiciais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u201cN\u00e3o se negocia com sangue derramado\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Entre as comunidades, permanece um profundo sentimento de descontentamento com os\/as dirigentes que decidiram negociar sem o consentimento das assembleias. Em v\u00e1rios territ\u00f3rios, mecanismos de justi\u00e7a ind\u00edgena foram aplicados contra aqueles que, segundo a base, &#8220;agiram pelas costas do povo&#8221;. Dirigentes comunit\u00e1rios expressaram que &#8220;n\u00e3o se pode negociar enquanto companheiros est\u00e3o sendo assassinados, desaparecidos e presos&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar das tentativas do governo de projetar uma imagem de calma, a luta continua ativa. Enquanto focos de resist\u00eancia permanecem em Imbabura, as mobiliza\u00e7\u00f5es continuam em outras prov\u00edncias. Em Quito, estudantes da Universidade Central do Equador voltaram \u00e0s ruas em apoio \u00e0 paralisa\u00e7\u00e3o, denunciando a repress\u00e3o e exigindo justi\u00e7a para os manifestantes assassinados. No sul, o povo Saraguro tem mantido bloqueios na rodovia Loja-Cuenca, reafirmando sua rejei\u00e7\u00e3o ao aumento do pre\u00e7o do diesel e \u00e0 militariza\u00e7\u00e3o de seus territ\u00f3rios. Da mesma forma, o povo Kitu Kara e organiza\u00e7\u00f5es urbanas bloquearam intermitentemente as estradas de acesso \u00e0 capital, enquanto em prov\u00edncias como Cotopaxi, Chimborazo e Pastaza, os bloqueios de estradas e as manifesta\u00e7\u00f5es populares persistem, demonstrando que a luta se estende para al\u00e9m das dire\u00e7\u00f5es e que o pa\u00eds continua mobilizado a partir das bases.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Uma tr\u00e9gua fr\u00e1gil e uma segunda-feira incerta<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Por enquanto, prevalece uma calma tensa, mas a tr\u00e9gua pode se romper a qualquer momento. Organiza\u00e7\u00f5es locais alertam que, se n\u00e3o houver respostas concretas e respeito \u00e0s decis\u00f5es coletivas, as mobiliza\u00e7\u00f5es ser\u00e3o retomadas com maior for\u00e7a na pr\u00f3xima segunda-feira.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Continuidade hist\u00f3rica da resist\u00eancia a partir das bases<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os povos n\u00e3o esperam ordens ou intermedi\u00e1rios, mas agem coletivamente, com suas pr\u00f3prias formas de tomada de decis\u00e3o, justi\u00e7a e organiza\u00e7\u00e3o. Esta nova fase de resist\u00eancia, que combina a mem\u00f3ria de outras revoltas com a experi\u00eancia cotidiana de repress\u00e3o e pobreza, questiona n\u00e3o apenas o governo Noboa, mas tamb\u00e9m um modelo pol\u00edtico que tenta domesticar a rebeli\u00e3o popular.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto o governo tenta impor um estado de emerg\u00eancia permanente, o povo equatoriano demonstra que a dignidade n\u00e3o se rende. O <em>Paro<\/em> n\u00e3o para, porque a luta do povo equatoriano \u00e9 pela vida, pela justi\u00e7a e pela soberania diante de um modelo que s\u00f3 oferece viol\u00eancia e mis\u00e9ria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: Lena Souza e Vero Chulde &#8220;El Paro no para \u2013 A Paraliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o acaba&#8221;. Esta \u00e9 a consigna que ressoa em todo o Equador. Em meio a atropelos vindos de cima e rebeli\u00f5es vindas de baixo, a luta do povo equatoriano continua. 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