{"id":81580,"date":"2025-10-03T22:39:52","date_gmt":"2025-10-03T22:39:52","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=81580"},"modified":"2025-10-03T22:39:53","modified_gmt":"2025-10-03T22:39:53","slug":"navios-de-guerra-no-caribe-militarizando-a-guerra-contra-as-drogas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2025\/10\/03\/navios-de-guerra-no-caribe-militarizando-a-guerra-contra-as-drogas\/","title":{"rendered":"Navios de guerra no Caribe: Militarizando a guerra contra as drogas"},"content":{"rendered":"\n<p>Por: James Marsh (Workers\u2019 Voice \u2013 Estados Unidos)<\/p>\n\n\n\n<p>A guerra contra as drogas, assim como a guerra contra o terrorismo, demonstrou ser uma guerra contra um conceito suficientemente abstrato para oferecer respaldo ret\u00f3rico a uma ampla gama de pol\u00edticas imperialistas estadunidenses.<\/p>\n\n\n\n<p>O presidente Donald Trump, em seu mais recente apelo \u00e0 ret\u00f3rica da guerra contra as drogas como pretexto para levar adiante objetivos militares, est\u00e1 mobilizando o ex\u00e9rcito dos Estados Unidos no Caribe. Ao mesmo tempo em que sua administra\u00e7\u00e3o <a href=\"https:\/\/workersvoiceus.org\/2025\/08\/13\/trumps-police-state-ambitions-ice-expanded-while-troops-enter-d-c\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">envia a Guarda Nacional ao pa\u00eds para combater a criminalidade<\/a> (ou, na verdade, para realizar um teste do uso das for\u00e7as militares como forma de exercer vigil\u00e2ncia pol\u00edtica aterrorizando \u00e0s comunidades oper\u00e1rias), est\u00e1 enviando os Fuzileiros Navais e a Marinha ao Mar do Caribe. Trump enviou sete navios de guerra, um submarino nuclear e milhares de soldados como parte do que descreveu como opera\u00e7\u00f5es contra os cart\u00e9is.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi parte dessa opera\u00e7\u00e3o um ataque armado em 2 de setembro contra uma embarca\u00e7\u00e3o supostamente operada pelo cartel do <em>Tren de Aragua<\/em>, que estaria transportando drogas ilegais da Venezuela aos Estados Unidos. Segundo Trump, 11 pessoas a bordo da embarca\u00e7\u00e3o morreram no ataque. Observadores internacionais julgaram o ataque como viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse ataque a uma embarca\u00e7\u00e3o civil e o envio da Marinha norte-americana amplia a longa sombra da interven\u00e7\u00e3o militar que ascende sobre a Venezuela. O pa\u00eds j\u00e1 foi palco de tentativas de golpe de Estado em 2002, por for\u00e7as da oposi\u00e7\u00e3o com apoio dos Estados Unidos, e em 2020 com participa\u00e7\u00e3o direta de mercen\u00e1rios estadunidenses. Em abril deste ano, o ex\u00e9rcito venezuelano tamb\u00e9m declarou ter descoberto planos para um ataque de falsa bandeira que incriminaria a Venezuela por atacar uma plataforma de petr\u00f3leo da <em>Exxon Mobil<\/em> em \u00e1guas do territ\u00f3rio disputado de Essequibo\/Guiana Essequiba, o que serviria de pretexto para uma invas\u00e3o. O presidente Nicol\u00e1s Maduro est\u00e1 preparando 4,5 milh\u00f5es de milicianos em resposta \u00e0 amea\u00e7a representada pelos navios de guerra estadunidenses que permanecem na regi\u00e3o costeira do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Junto \u00e0 crescente amea\u00e7a de interven\u00e7\u00e3o militar na Venezuela, a narrativa de que o objetivo principal das movimenta\u00e7\u00f5es seria combater os cart\u00e9is de drogas \u00e9 question\u00e1vel. Karoline Leavitt, secret\u00e1ria de imprensa da Casa Branca de Trump, declarou em 19 de agosto: \u201cO regime de Maduro n\u00e3o \u00e9 o governo leg\u00edtimo da Venezuela. \u00c9 um cartel do narcotr\u00e1fico. Maduro n\u00e3o \u00e9 um presidente leg\u00edtimo. \u00c9 um l\u00edder desertor desse cartel da droga\u201d. Essas acusa\u00e7\u00f5es, acompanhadas de poucas provas, tentam usar a ret\u00f3rica da guerra contra as drogas para deslegitimar Maduro e justificar uma mudan\u00e7a de regime.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante v\u00e1rias d\u00e9cadas, a ret\u00f3rica sobre o combate aos cart\u00e9is da droga na Am\u00e9rica Latina serviu repetidamente como pretexto para que os Estados Unidos intensificassem suas for\u00e7as policiais em Estados colaboradores a fim de salvaguardar seus investimentos no exterior e intervir militarmente para expandir sua hegemonia. Desde o golpe no Panam\u00e1 at\u00e9 a luta contra a guerrilha na Col\u00f4mbia, essa ret\u00f3rica buscou justificar agress\u00f5es militares expl\u00edcitas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Contrainsurg\u00eancia e interven\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O fim da Guerra Fria marcou uma transi\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica dos EUA sobre a Am\u00e9rica Latina, pois consolidou as conquistas obtidas por meio de t\u00e1ticas de contrainsurg\u00eancia e interven\u00e7\u00e3o militar, e passou das narrativas da Guerra Fria ao marco da guerra contra as drogas como justificativa para suas pol\u00edticas.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante a Guerra Fria, os EUA realizaram interven\u00e7\u00f5es militares em toda a Am\u00e9rica Latina, desde o golpe de 1973 no Chile at\u00e9 a invas\u00e3o de Granada em 1983, entre muitas outras.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Am\u00e9rica Central, a Revolu\u00e7\u00e3o Sandinista de 1979 na Nicar\u00e1gua abriu um per\u00edodo de resist\u00eancia guerrilheira \u00e0s ditaduras que se instalaram na Guatemala e em El Salvador nos anos 1980. Os EUA combateram essa amea\u00e7a ao seu poder apoiando o terrorismo de Estado e os paramilitares de direita. As t\u00e1ticas de contrainsurg\u00eancia levaram as organiza\u00e7\u00f5es guerrilheiras \u00e0 capitula\u00e7\u00e3o, e seus l\u00edderes aceitaram acordos de paz no final da d\u00e9cada de 1980, de maneira que seus grupos se incorporaram \u00e0 pol\u00edtica institucional.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a queda da URSS e \u00e0 medida que a Guerra Fria terminava, o enfraquecimento das guerrilhas de esquerda debilitou tamb\u00e9m a justificativa para a cont\u00ednua inger\u00eancia militar norte-americana nos assuntos latino-americanos. No entanto, os EUA ainda tinham ambi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que exigiam interven\u00e7\u00f5es militares cont\u00ednuas. Uma das novas justificativas passou a ser o combate ao narcotr\u00e1fico.<\/p>\n\n\n\n<p>Exemplo disso foi a invas\u00e3o do Panam\u00e1 em 1989. O general Manuel Noriega foi a autoridade estadunidense no Panam\u00e1 durante anos e colaborou estreitamente com ag\u00eancias de intelig\u00eancia norte-americanas. &nbsp;Ao fim da d\u00e9cada de 1980, a rea\u00e7\u00e3o crescente contra seu governo ditatorial tornou-se um transtorno para Washington, j\u00e1 que os partidos neoliberais civis pareciam colaboradores mais atrativos.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de a CIA saber h\u00e1 tempos da rela\u00e7\u00e3o de Noriega com o narcotr\u00e1fico, esse fator foi usado como pretexto para derrub\u00e1-lo. Os EUA invadiram o Panam\u00e1 e, como justificativa, acusaram Noriega de narcotr\u00e1fico e crime organizado. Ainda que o general tivesse recebido subornos de milh\u00f5es de d\u00f3lares do Cartel de Medell\u00edn, outras hist\u00f3rias eram pura inven\u00e7\u00e3o, como a de que supostamente consumia coca\u00edna com prostitutas durante a invas\u00e3o ao inv\u00e9s de ficar com sua esposa. Apenas dois anos antes, esse mesmo Noriega recebera uma carta de elogio diretamente do diretor da Administra\u00e7\u00e3o de Repress\u00e3o \u00e0s Drogas dos Estados Unidos (DEA) por colaborar em opera\u00e7\u00f5es antidrogas.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa invas\u00e3o intensificou a ret\u00f3rica de criminaliza\u00e7\u00e3o como justificativa para a derrubada de regimes, baseada na premissa de que, para erradicar o narcotr\u00e1fico, os EUA teriam direito de intervir nos assuntos pol\u00edticos de outros pa\u00edses.<\/p>\n\n\n\n<p>As opera\u00e7\u00f5es de contrainsurg\u00eancia e o uso ret\u00f3rico da guerra \u00e0s drogas como justificativa para interven\u00e7\u00e3o militar se fundiram como parte do Plano Col\u00f4mbia. Lan\u00e7ado em 2000, come\u00e7ou como um plano para que os Estados Unidos proporcionassem ajuda econ\u00f4mica estrat\u00e9gica para fortalecer o Estado colombiano nas negocia\u00e7\u00f5es com grupos guerrilheiros de esquerda, como as For\u00e7as Armadas Revolucion\u00e1rias da Col\u00f4mbia (FARC). Contudo, seguindo os mandos do imperialismo estadunidense, a opera\u00e7\u00e3o se distanciou da ajuda econ\u00f4mica, tendo como centro o financiamento do ex\u00e9rcito colombiano e de paramilitares de direita. As FARC, que operavam em comunidades camponesas simpatizantes nas regi\u00f5es cocaleiras e vendiam coca\u00edna para financiar suas opera\u00e7\u00f5es, foram rotuladas como a \u201cnarcoguerrilha\u201d por tr\u00e1s do tr\u00e1fico de coca\u00edna, transformando os esfor\u00e7os de contrainsurg\u00eancia em parte da Guerra \u00e0s Drogas.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora o Plano Col\u00f4mbia tenha visto os paramilitares aterrorizarem as comunidades camponesas, o fortalecimento do ex\u00e9rcito colombiano e o enfraquecimento das FARC como um espinho no flanco da hegemonia dos Estados Unidos na regi\u00e3o, praticamente nada fez contra a venda de coca\u00edna. A fumiga\u00e7\u00e3o de herbicidas nos campos de coca, feita com avi\u00f5es, obrigou os camponeses a entrarem ainda mais na Amaz\u00f4nia. Durante a vig\u00eancia do Plano Col\u00f4mbia, o cultivo de coca aumentou e o pre\u00e7o da coca\u00edna exportada da Col\u00f4mbia diminuiu. Apesar de n\u00e3o ter conseguido frear o tr\u00e1fico de coca\u00edna, a opera\u00e7\u00e3o foi apresentada como um modelo para a militariza\u00e7\u00e3o da guerra contra as drogas.<\/p>\n\n\n\n<p>O fim da Guerra Fria n\u00e3o significou o fim das t\u00e1ticas de contrainsurg\u00eancia e das interven\u00e7\u00f5es militares dos EUA na Am\u00e9rica Latina. Pelo contr\u00e1rio, fez com que elas fossem enquadradas no discurso da guerra contra as drogas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Militariza\u00e7\u00e3o do Estado policial<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O papel dos Estados Unidos na guerra contra as drogas na Am\u00e9rica Latina tem sido o de colaborar com partidos de direita para usar as opera\u00e7\u00f5es antidrogas como pretexto para militarizar o Estado policial. A guerra contra o terrorismo apenas aprofundou essa din\u00e2mica.<\/p>\n\n\n\n<p>A ret\u00f3rica da guerra contra o terrorismo pretendia afirmar que os territ\u00f3rios sem governo e os Estados fracos em qualquer parte do mundo amea\u00e7avam os Estados Unidos, servindo como poss\u00edveis ref\u00fagios para c\u00e9lulas terroristas. Apesar da falta de evid\u00eancias de atividade terrorista isl\u00e2mica na Am\u00e9rica Latina, a l\u00f3gica dessa narrativa sugeria que os Estados Unidos precisavam exercer controle ou fortalecer governos colaboracionistas em toda a Am\u00e9rica Latina e no mundo inteiro \u2013 uma forma conveniente de encobrir a ordem imperialista de controlar e vigiar os mercados globais.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa ret\u00f3rica foi aplicada contra o M\u00e9xico durante a Guerra a Terrorismo. A fronteira entre EUA e M\u00e9xico foi descrita na m\u00eddia como um \u201cfront aberto\u201d da guerra ao terrorismo, oferecendo n\u00e3o s\u00f3 uma porta de entrada a trabalhadores imigrantes, mas tamb\u00e9m a supostos ex\u00e9rcitos terroristas, o que motivou a constru\u00e7\u00e3o do muro e o refor\u00e7o da vigil\u00e2ncia fronteiri\u00e7a. As barreiras, que inclu\u00edam cerca de 120 km de cercas ao longo da fronteira em 2005, foram ampliadas para aproximadamente 1.000 km em 2011. Alguns analistas militares, durante o governo Obama, apontaram a corrup\u00e7\u00e3o e os cart\u00e9is como justificativa para classificar o M\u00e9xico como um \u201cEstado falido\u201d, com a necessidade de uma resposta mais contundente contra os cart\u00e9is.<\/p>\n\n\n\n<p>No M\u00e9xico, a militariza\u00e7\u00e3o da disputa entre o Estado e os cart\u00e9is foi impulsionada pelo partido conservador PAN com a Opera\u00e7\u00e3o Michoac\u00e1n em 2006. A opera\u00e7\u00e3o utilizou a pol\u00edcia federal e for\u00e7as militares, focando especialmente no Cartel do Golfo, respons\u00e1vel pelo aumento da criminalidade violenta. A escalada da guerra \u00e0s drogas tamb\u00e9m levou \u00e0 redu\u00e7\u00e3o das liberdades civis, j\u00e1 que, sob a pol\u00edtica de <em>arraigo<\/em>, cidad\u00e3os suspeitos de participar do crime organizado podiam ser detidos sem julgamento por at\u00e9 80 dias. Essa pol\u00edtica era usada para manter os acusados em celas de deten\u00e7\u00e3o e extrair informa\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s de tortura. A opera\u00e7\u00e3o foi expandida com apoio dos EUA como parte da Iniciativa M\u00e9rida, lan\u00e7ada em 2007.<\/p>\n\n\n\n<p>A Iniciativa M\u00e9rida, tamb\u00e9m chamada de Plano M\u00e9xico, inspirou-se nas t\u00e1ticas de contrainsurg\u00eancia do Plano Col\u00f4mbia. Assim como ele, a ret\u00f3rica do combate ao narcotr\u00e1fico serviu de pretexto para atacar for\u00e7as guerrilheiras de esquerda em comunidades camponesas, ao mesmo tempo em que fortalecia o ex\u00e9rcito mexicano contra a guerrilha zapatista em Chiapas. Tamb\u00e9m ampliou o controle neocolonial estadunidense sobre as institui\u00e7\u00f5es mexicanas, j\u00e1 que o financiamento e o treinamento refor\u00e7aram os v\u00ednculos entre os EUA e as for\u00e7as repressivas locais.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim como o Plano Col\u00f4mbia, a Iniciativa M\u00e9rida n\u00e3o acabou com o narcotr\u00e1fico, mas o reorganizou. O grande benefici\u00e1rio da guerra antidrogas no M\u00e9xico foi o Cartel de Sinaloa, que escapou da repress\u00e3o dirigida contra rivais, como o Cartel do Golfo, ao colaborar com ag\u00eancias antidrogas. A DEA chegou a acordos com l\u00edderes do Cartel de Sinaloa, o que permitiu a continuidade do contrabando de drogas em troca de informa\u00e7\u00f5es, al\u00e9m de armar o cartel mediante o contrabando de armas, no que ficou conhecido como Opera\u00e7\u00e3o R\u00e1pido e Furioso.<\/p>\n\n\n\n<p>As t\u00e1ticas da Iniciativa M\u00e9rida n\u00e3o s\u00f3 fizeram parte de um projeto de proibi\u00e7\u00e3o que fracassou grandemente, como tamb\u00e9m militarizaram o Estado policial e levaram a cabo opera\u00e7\u00f5es de contrainsurg\u00eancia, o que fortaleceu as for\u00e7as repressivas no M\u00e9xico em benef\u00edcio dos interesses estadunidenses. No contexto da ret\u00f3rica da guerra ao terrorismo, isso refor\u00e7a a ideia da classe dominante de que os EUA devem redobrar esfor\u00e7os para expandir seu controle sobre regi\u00f5es sem governo em todo o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>O papel dos EUA na militariza\u00e7\u00e3o das for\u00e7as policiais de Estados colaboradores usa a guerra contra as drogas como cobertura para o controle neocolonial sobre comunidades da classe trabalhadora na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Trump e os ataques com m\u00edsseis no Caribe<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Trump, usando a narrativa da luta contra os cart\u00e9is para justificar o destacamento militar enviado \u00e0 Am\u00e9rica Latina, designou uma lista deles como grupos terroristas. Essa acusa\u00e7\u00e3o constitui a base legal do ataque a\u00e9reo realizado recentemente em \u00e1guas internacionais na costa da Venezuela. Essa designa\u00e7\u00e3o dos cart\u00e9is como combatentes ilegais, sem as prote\u00e7\u00f5es legais de assumidos criminosos ou soldados inimigos, busca justificar a\u00e7\u00f5es militares que ignoram liberdades civis e direitos humanos. Como em tantas outras opera\u00e7\u00f5es militares empreendidas sob o pretexto da guerra \u00e0s drogas, tamb\u00e9m h\u00e1 uma amea\u00e7a de interven\u00e7\u00e3o militar, particularmente contra a Venezuela.<\/p>\n\n\n\n<p>No M\u00e9xico, a designa\u00e7\u00e3o dos cart\u00e9is como terroristas e a presen\u00e7a da Marinha no Golfo do M\u00e9xico levantam a amea\u00e7a de uma expans\u00e3o da guerra com drones. O governo Trump enviou tropas para a fronteira entre os Estados Unidos e o M\u00e9xico e est\u00e1 realizando voos de vigil\u00e2ncia com drones sobre o M\u00e9xico. Assim como no recente ataque com m\u00edsseis no Caribe, fontes do ex\u00e9rcito estadunidense sugeriram que Trump poderia estar preparando uma a\u00e7\u00e3o militar unilateral contra os cart\u00e9is no M\u00e9xico, violando a soberania mexicana. As amea\u00e7as de agir militarmente contra os cart\u00e9is revelam como o governo americano se d\u00e1 o direito de intervir nos assuntos internos de suas neocol\u00f4nias.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Venezuela, a narrativa de que as a\u00e7\u00f5es militares combatem o narcotr\u00e1fico \u00e9 ainda mais question\u00e1vel. Para come\u00e7ar, as for\u00e7as enviadas \u00e0 Venezuela em agosto s\u00e3o numerosas demais para serem utilizadas na luta contra as drogas. Al\u00e9m disso, o principal fluxo do narcotr\u00e1fico passa pelas \u00e1guas do Pac\u00edfico, n\u00e3o pelo Caribe, ou seja: enviar a Marinha para o sul do Caribe n\u00e3o seria especialmente \u00fatil para a luta contra as drogas. E talvez o mais importante, as a\u00e7\u00f5es contra os cart\u00e9is ocorrem ao mesmo tempo que o governo Trump, sem fundamentos, acusa o presidente Maduro de ser l\u00edder de um cartel.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora alguns observadores tenham sugerido que a movimenta\u00e7\u00e3o atual \u00e9 muito pequena para ser considerada uma invas\u00e3o aberta, o envio de tropas militares continua sendo uma amea\u00e7a para tentar uma mudan\u00e7a de regime. A lideran\u00e7a populista da Venezuela sob o presidente Maduro consolidou uma ditadura militar, com pol\u00edticas nacionalistas (neste caso, a nacionaliza\u00e7\u00e3o das rendas do petr\u00f3leo) que representam uma barreira \u00e0 extra\u00e7\u00e3o petrol\u00edfera no pa\u00eds por parte das corpora\u00e7\u00f5es multinacionais norte-americanas. Tendo em vista a s\u00e9rie de tentativas de golpe de Estado apoiadas pelos Estados Unidos no pa\u00eds, a amea\u00e7a de uma interven\u00e7\u00e3o imperialista continua alta. Ao rotular o governo venezuelano como \u201cnarcoterrorista\u201d, os ataques a\u00e9reos contra os cart\u00e9is amea\u00e7am uma a\u00e7\u00e3o militar mais ampla destinada a uma mudan\u00e7a de regime.<\/p>\n\n\n\n<p>O envio da Marinha tamb\u00e9m pode ser uma tentativa de os EUA obterem concess\u00f5es da Venezuela atrav\u00e9s da intimida\u00e7\u00e3o, como t\u00e1tica de diplomacia de canhoneiras. Apesar da nacionaliza\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo, a Venezuela permite que empresas estadunidenses como a Chevron atuem no pa\u00eds como s\u00f3cios na extra\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo \u2013 o que mostra sua disposi\u00e7\u00e3o em negociar com capitalistas norte-americanos. Outra frente de negocia\u00e7\u00e3o \u00e9 o territ\u00f3rio disputado do Essequibo\/Guiana Essequiba, ao redor do rio Essequibo entre a Venezuela e a Guiana, onde os EUA t\u00eam interesse particular pela influ\u00eancia sobre quais empresas ter\u00e3o direito \u00e0 explora\u00e7\u00e3o das jazidas de petr\u00f3leo da costa.<\/p>\n\n\n\n<p>Utilizar a narrativa da guerra contra as drogas como pretexto para a\u00e7\u00f5es militares na Am\u00e9rica Latina n\u00e3o \u00e9 novidade para o governo estadunidense, como demonstram os esfor\u00e7os contra as FARC e os zapatistas e a invas\u00e3o do Panam\u00e1. A militariza\u00e7\u00e3o de medidas antidrogas tamb\u00e9m traz consigo um hist\u00f3rico preocupante de retrocessos das liberdades civis e fortalecimento do Estado policial.<\/p>\n\n\n\n<p>O movimento oper\u00e1rio deve se opor \u00e0s interven\u00e7\u00f5es imperialistas. Devemos exigir o fim da desastrosa guerra contra as drogas. E devemos exigir que os Estados Unidos mantenham suas m\u00e3os longe da Venezuela.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: James Marsh (Workers\u2019 Voice \u2013 Estados Unidos) A guerra contra as drogas, assim como a guerra contra o terrorismo, demonstrou ser uma guerra contra um conceito suficientemente abstrato para oferecer respaldo ret\u00f3rico a uma ampla gama de pol\u00edticas imperialistas estadunidenses. O presidente Donald Trump, em seu mais recente apelo \u00e0 ret\u00f3rica da guerra contra [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":81581,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"James Marsh","footnotes":""},"categories":[3519,167],"tags":[9229,8848],"class_list":["post-81580","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-eua","category-venezuela","tag-james-marsh","tag-works-voice"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/EUA.jpeg","categories_names":["Estados Unidos","Venezuela"],"author_info":{"name":"lena","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/b9eb35b4c023b96c29c4a145a82c6c381b68f2c889c5427106ad5aab6df45b9d?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":"James Marsh","tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/81580","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=81580"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/81580\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":81582,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/81580\/revisions\/81582"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/81581"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=81580"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=81580"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=81580"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}