{"id":81576,"date":"2025-10-03T00:50:58","date_gmt":"2025-10-03T00:50:58","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=81576"},"modified":"2025-10-03T00:51:00","modified_gmt":"2025-10-03T00:51:00","slug":"liberdade-de-vestir-liberdade-de-ser-a-resistencia-das-mulheres-turcas-contra-o-autoritarismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2025\/10\/03\/liberdade-de-vestir-liberdade-de-ser-a-resistencia-das-mulheres-turcas-contra-o-autoritarismo\/","title":{"rendered":"Liberdade de vestir, liberdade de ser: a resist\u00eancia das mulheres turcas contra o autoritarismo"},"content":{"rendered":"\n<p>Por: \u00c9rika Andreassy<\/p>\n\n\n\n<p>A decis\u00e3o da feminista turca Berrin S\u00f6nmez de retirar o hijab que usava h\u00e1 d\u00e9cadas em protesto contra o governo de Recep Tayyip Erdo\u011fan abriu um debate internacional sobre liberdade de vestimenta, laicidade e opress\u00e3o das mulheres. Seu gesto, profundamente pol\u00edtico, sintetiza uma realidade que vai al\u00e9m da escolha individual: trata-se de uma resposta direta ao avan\u00e7o de um regime autorit\u00e1rio que, ao mesmo tempo que refor\u00e7a a islamiza\u00e7\u00e3o for\u00e7ada da vida social, retira direitos e intensifica a repress\u00e3o contra a classe trabalhadora e, em particular, contra as mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p>A Turquia \u00e9 um exemplo de como a burguesia utiliza o controle sobre o corpo feminino como instrumento pol\u00edtico. Desde a sa\u00edda do pa\u00eds da Conven\u00e7\u00e3o de Istambul, marco internacional no combate \u00e0 viol\u00eancia de g\u00eanero, o governo aprofundou pol\u00edticas de silenciamento, censura e criminaliza\u00e7\u00e3o das mulheres que se organizam. O gesto de S\u00f6nmez deve ser entendido nesse contexto: n\u00e3o como uma simples decis\u00e3o pessoal, mas como den\u00fancia de que o Estado se utiliza da religi\u00e3o e da moral patriarcal para impor submiss\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O marxismo revolucion\u00e1rio n\u00e3o trata o uso do v\u00e9u como uma quest\u00e3o abstrata de \u201ccostume\u201d ou \u201ccultura\u201d. O que est\u00e1 em jogo \u00e9 a liberdade de escolha das mulheres, algo sistematicamente negado pelo capitalismo. Sob regimes autorit\u00e1rios, como o de Erdo\u011fan, as mulheres sofrem dupla opress\u00e3o: como classe explorada e como g\u00eanero subordinado. Assim, o Estado ora criminaliza a nudez e a autonomia sexual, ora obriga \u00e0 mod\u00e9stia e ao recato, dependendo de qual ideologia mais serve \u00e0 sua domina\u00e7\u00e3o. \u00c9 a mesma l\u00f3gica que, em outros lugares, criminaliza o aborto, naturaliza a viol\u00eancia dom\u00e9stica e privatiza a maternidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, \u00e9 preciso destacar que n\u00e3o se trata de uma \u201cguerra cultural\u201d entre Ocidente e Oriente, como pregam setores liberais e imperialistas. A luta das mulheres na Turquia \u00e9 parte da luta mundial contra a opress\u00e3o das mulheres e contra o capitalismo que a sustenta e reproduz. Da mesma forma que mulheres latino-americanas enfrentam a criminaliza\u00e7\u00e3o do aborto, ou que trabalhadoras nos EUA resistem \u00e0s novas leis restritivas, as mulheres turcas enfrentam a imposi\u00e7\u00e3o religiosa estatal. Em todos esses casos, est\u00e1 em disputa a autonomia sobre o pr\u00f3prio corpo e a vida.<\/p>\n\n\n\n<p>O que vemos \u00e9 que a liberdade real s\u00f3 pode ser conquistada pela organiza\u00e7\u00e3o coletiva. Gestos individuais, como o de Berrin S\u00f6nmez, tornam-se potentes quando alimentam um movimento de massas, capaz de enfrentar n\u00e3o apenas as opress\u00f5es mas tamb\u00e9m a explora\u00e7\u00e3o capitalista que \u00e9 sua base material. As mulheres turcas j\u00e1 deram mostras de sua for\u00e7a: em 2013, estiveram na linha de frente dos protestos de Gezi; recentemente, protagonizaram mobiliza\u00e7\u00f5es contra os feminic\u00eddios e contra a retirada da Conven\u00e7\u00e3o de Istambul. S\u00e3o essas lutas que podem abrir caminho para uma transforma\u00e7\u00e3o mais profunda.<\/p>\n\n\n\n<p>Do ponto de vista revolucion\u00e1rio, defendemos que a luta das mulheres na Turquia \u2014 assim como em todo o mundo \u2014 deve estar vinculada \u00e0 luta contra o regime burgu\u00eas e por um governo oper\u00e1rio e popular. A emancipa\u00e7\u00e3o feminina n\u00e3o vir\u00e1 da moderniza\u00e7\u00e3o capitalista, nem da imposi\u00e7\u00e3o de modelos \u201cocidentais\u201d, mas sim da destrui\u00e7\u00e3o de todas as formas de explora\u00e7\u00e3o. Defender o direito de usar ou n\u00e3o o v\u00e9u, de escolher ou n\u00e3o a maternidade, de viver livre de viol\u00eancia, s\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel plenamente em uma sociedade socialista, onde as mulheres n\u00e3o sejam mercadorias nem propriedade de ningu\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>O gesto de Berrin S\u00f6nmez ressoa porque simboliza algo maior: a recusa a ser silenciada. Transform\u00e1-lo em for\u00e7a material exige organiza\u00e7\u00e3o, solidariedade internacional e um programa revolucion\u00e1rio que una as bandeiras da classe trabalhadora e das mulheres contra o capitalismo e o machismo. A luta pela liberdade de vestir \u00e9, no fundo, a luta pela liberdade de ser \u2014 e essa s\u00f3 ser\u00e1 conquistada derrubando o sistema que nos oprime.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: \u00c9rika Andreassy A decis\u00e3o da feminista turca Berrin S\u00f6nmez de retirar o hijab que usava h\u00e1 d\u00e9cadas em protesto contra o governo de Recep Tayyip Erdo\u011fan abriu um debate internacional sobre liberdade de vestimenta, laicidade e opress\u00e3o das mulheres. 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