{"id":81481,"date":"2025-09-05T16:17:21","date_gmt":"2025-09-05T16:17:21","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=81481"},"modified":"2025-10-10T23:06:32","modified_gmt":"2025-10-10T23:06:32","slug":"50-anos-do-massacre-de-la-plata","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2025\/09\/05\/50-anos-do-massacre-de-la-plata\/","title":{"rendered":"50 anos do massacre de La Plata"},"content":{"rendered":"\n<p>Por: Alicia Sagra<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 se passaram 50 anos desde que, em 5 de setembro de 1975, eu, juntamente com outros companheiros, vivemos as piores horas de nossas vidas. Naquela manh\u00e3, ao chegar \u00e0 sede do PST, na regional de La Plata, soubemos que cinco corpos haviam sido encontrados na Balandra e que cinco companheiros que haviam ido apoiar a tomada da Petroqu\u00edmica Sul-Americana n\u00e3o haviam retornado. Eram Laucha, Adriana, Hugo, Ana Mar\u00eda e Lidia.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 se passaram 50 anos desde que, juntamente com Susana e Graciela Zald\u00faa, irm\u00e3s de Adriana, percorremos as delegacias em busca de informa\u00e7\u00f5es, mas sem encontrar nada. Horas depois, com companheiros vindos da sede central em Buenos Aires, conseguimos identificar os corpos de nossos camaradas. O de Laucha estava terrivelmente espancado e o de Adrianita tinha 79 ferimentos de bala de Itaka.<\/p>\n\n\n\n<p>Faz cinquenta anos que outros tr\u00eas companheiros, Diky, Orcarcito e Ana Mar\u00eda, ian denunciar o fato em uma reuni\u00e3o do Minist\u00e9rio de Obras P\u00fablicas. N\u00e3o conseguiram. A meio quarteir\u00e3o de nossas instala\u00e7\u00f5es, na Rua 8, entre as ruas 54 e 55, um carro os interceptou diante de numerosas pessoas. Eles desapareceram em minutos. Seus corpos crivados de balas apareceram no dia seguinte, quando realiz\u00e1vamos o vel\u00f3rio dos primeiros cinco companheiros.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O Contexto Pol\u00edtico e Social<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A verdadeira dimens\u00e3o deste crime n\u00e3o pode ser compreendida sem analisar o contexto em que ocorreu.<\/p>\n\n\n\n<p>No final da d\u00e9cada de 1960 e in\u00edcio da d\u00e9cada de 1970, a ditadura de Ongan\u00eda<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a> estava em cheque pelas lutas oper\u00e1rias e populares, cujo \u00e1pice foi o &#8220;Cordobazo&#8221;. Para evitar que esse processo colocasse em risco seu poder, a burguesia argentina recorreu ao grande l\u00edder popular, Juan Domingo Per\u00f3n<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, que estava banido at\u00e9 ent\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Per\u00f3n, com seu governo, conseguiu uma certa &#8220;tr\u00e9gua social&#8221;, embora n\u00e3o tenha impedido completamente a resposta oper\u00e1ria ao seu plano de austeridade (houve mais de 30 conflitos em 1974) e n\u00e3o tenha conseguido domar as organiza\u00e7\u00f5es guerrilheiras que continuavam sua guerra privada contra as For\u00e7as Armadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1973, L\u00f3pez Rega, Ministro da Previd\u00eancia Social e secret\u00e1rio particular de Per\u00f3n, fundou a Alian\u00e7a Anticomunista Argentina (Tr\u00edplice A), uma organiza\u00e7\u00e3o policial armada composta por setores da burocracia sindical e fac\u00e7\u00f5es fascistas. Seu objetivo inicial era enfrentar as organiza\u00e7\u00f5es guerrilheiras. Mas esse objetivo se ampliou.<\/p>\n\n\n\n<p>A morte de Per\u00f3n (1\u00ba de julho de 1974) acelerou o conflito social. L\u00f3pez Rega, que havia se tornado o homem forte do governo de Isabel Per\u00f3n, tentou um golpe semifascista, rompendo o acordo burgu\u00eas vigente.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa tentativa foi derrotada pela greve geral e pelas mobiliza\u00e7\u00f5es massivas de junho-julho de 1975, que confrontaram o brutal pacote econ\u00f4mico conhecido como &#8220;Plano Rodrigo&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa luta oper\u00e1ria contou com o apoio da burguesia e da burocracia, que viram seus interesses amea\u00e7ados pela tentativa de L\u00f3pez Rega.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas quando L\u00f3pez Rega, derrotado, fugiu do pa\u00eds, o principal inimigo da burguesia e dos burocratas tornou-se o movimento oper\u00e1rio, e o principal perigo, suas crescentes lutas. \u00c9 a\u00ed que surge o famoso chamado de Ricardo Balb\u00edn, a principal figura da oposi\u00e7\u00e3o burguesa, para enfrentar a &#8220;guerrilha fabril&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele afirmou que isso foi reafirmado em um documento emitido pela Embaixada dos Estados Unidos em Buenos Aires em 2 de dezembro de 1975<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A Triple A agiu com a aprova\u00e7\u00e3o do governo peronista e de toda a burguesia.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Essa defini\u00e7\u00e3o de &#8220;guerrilha industrial&#8221;, feita pelo pr\u00f3prio Balb\u00edn e pelos EUA, \u00e9 o que explica por que, quando nossos companheiros foram mortos, La Plata era uma zona liberada.<\/p>\n\n\n\n<p>Cinco minutos ap\u00f3s o sequestro dos \u00faltimos tr\u00eas companheiros, registramos um boletim de ocorr\u00eancia. N\u00e3o recebemos resposta. Juntamente com Enrique Broquen, advogado do nosso partido, esperamos pelo Chefe de Pol\u00edcia por tr\u00eas horas; no final, fomos informados de que ele n\u00e3o estava na cidade. Os companheiros que foram registrar o boletim de ocorr\u00eancia na prefeitura descobriram que nem o governador nem o vice-governador estavam na cidade; o boletim de ocorr\u00eancia foi recebido por um secret\u00e1rio. O l\u00edder radical Ricardo Balb\u00edn tamb\u00e9m n\u00e3o estava em La Plata, onde residia.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa cumplicidade de toda a burguesia \u00e9 a causa raiz das mortes e a explica\u00e7\u00e3o de por que, nesses 50 anos, n\u00e3o houve progresso na investiga\u00e7\u00e3o dos fatos nem na puni\u00e7\u00e3o dos respons\u00e1veis. Apesar da luta dos trabalhadores que derrubou a ditadura militar, da constante batalha das fam\u00edlias, do Argentinazo de 2001 e das den\u00fancias do &#8220;Governo dos Direitos Humanos&#8221;, os crimes continuam impunes.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Vingaremos nossos companheiros com a luta oper\u00e1ria e popular<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em dois dias, perdemos oito companheiros, entre eles dirigentes regionais, como Roberto &#8220;Laucha&#8221; Locertales, que havia sido um carism\u00e1tico l\u00edder estudantil e ativista nos Estaleiros R\u00edo Santiago, recentemente demitido; quadros pol\u00edticos como Adriana Zald\u00faa, dirigente estudantil; Hugo Frigerio, dirigente sindical do Minist\u00e9rio de Obras P\u00fablicas; e Carlos &#8220;Diky&#8221; Po. Vedan, dirigente sindical do Minist\u00e9rio da Previd\u00eancia Social; companheiros de base como Oscarcito Lucatti, Ana Mar\u00eda Guzner, Patricia Claverie e Lidia Agostini.<\/p>\n\n\n\n<p>Como disse Nahuel Moreno um ano antes, em 29 de maio de 1974, diante dos assassinados no massacre de Pacheco: todos eles, com suas virtudes e seus defeitos, com seus diferentes pap\u00e9is partid\u00e1rios, eram grandes, porque grande \u00e9 seu partido, a ideologia que defendem \u00e9 grande e grande \u00e9 o objetivo pelo qual deram suas vidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Pudemos nos despedir dos companheiros assassinados em Pacheco com um grande ato, onde Moreno afirmou que o fascismo n\u00e3o se discute, se combate, e convocou as organiza\u00e7\u00f5es presentes, muitas delas guerrilheiras, a organizar uma autodefesa comum, de assembleias oper\u00e1rias, de organiza\u00e7\u00f5es locais, de militantes. Nenhuma organiza\u00e7\u00e3o respondeu positivamente. Essa autodefesa comum n\u00e3o foi realizada, e os assassinatos de ativistas oper\u00e1rios e militantes revolucion\u00e1rios continuaram.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s o Massacre de La Plata, n\u00e3o pudemos realizar uma grande cerim\u00f4nia de despedida de nossos m\u00e1rtires, como a que realizamos um ano antes para nossos companheiros em Pacheco; n\u00e3o havia condi\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a para isso.<\/p>\n\n\n\n<p>O que pudemos realizar foi uma pequena cerim\u00f4nia em frente \u00e0 funer\u00e1ria, onde realizamos um vel\u00f3rio, com a presen\u00e7a de uma grande delega\u00e7\u00e3o de oper\u00e1rios da Petroqu\u00edmica Sudamericana e guardados a 50 metros de dist\u00e2ncia por um Falcon verde sem licen\u00e7a que fez quest\u00e3o de ser notado<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. O camarada Ernesto Gonz\u00e1lez falou em nome da Dire\u00e7\u00e3o Nacional para se despedir de nossos companheiros. Eu tive a honrosa e triste tarefa de me despedir de Laucha, meu grande amigo e camarada, cujo corpo seria levado por sua fam\u00edlia para sua cidade natal.<\/p>\n\n\n\n<p>Ali, al\u00e9m de homenagear nossos camaradas e dar uma explica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica para os acontecimentos, tivemos que responder aos companheiros que, de luto por suas perdas e sofrendo a press\u00e3o da guerrilha, perguntavam: Vamos ficar de bra\u00e7os cruzados? Respondemos dizendo que n\u00e3o acredit\u00e1vamos em vingan\u00e7a individual, que, como disse Trotsky, a burguesia sempre pode substituir o policial ou ministro assassinado. Ir\u00edamos vingar nossos companheiros construindo o partido e com a luta oper\u00e1ria e popular, e que a vingan\u00e7a final viria quando, por meio dessa luta, destru\u00edssemos o capitalismo e constru\u00edssemos o socialismo na Argentina e no mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, nos unimos \u00e0s demandas das fam\u00edlias por julgamento e puni\u00e7\u00e3o para os culpados materiais. Mas, em rela\u00e7\u00e3o aos culpados intelectuais, a burguesia como um todo reafirmamos o compromisso que assumimos h\u00e1 50 anos e aos nossos m\u00e1rtires do Massacre de La Plata dizemos: Presentes, at\u00e9 o socialismo, sempre!<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Em 1966 aconteceu o golpe militar que imp\u00f4s a ditadura de Ongan\u00eda, e depois Levingston e Lanusse.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> Em um artigo na Revista de Am\u00e9rica, em mar\u00e7o de 1976, dissemos: &#8220;A classe oper\u00e1ria, por meio de sua luta, imp\u00f4s a derrota da odiada ditadura militar e conduziu o governo ao movimento que sintetizou para ela todas as conquistas obtidas e a possibilidade de expandi-las. Um objetivo exatamente oposto \u00e0quele para o qual a burguesia convocou Per\u00f3n e que ele aceitou: p\u00f4r fim \u00e0s lutas oper\u00e1rias e salvar o capitalismo argentino (&#8230;)&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a>\u201c O terrorismo \u00e9 um fato e um modo de vida na Argentina. As atividades de guerrilha na zona rural de Tucum\u00e1n e nas \u00e1reas urbanas de C\u00f3rdoba e Buenos Aires t\u00eam sido objeto de coment\u00e1rios e an\u00e1lises intermin\u00e1veis \u200b\u200bem todo o mundo. No entanto, outra forma de guerrilha, provavelmente ainda mais insidiosa e que recebeu muito pouca aten\u00e7\u00e3o at\u00e9 agora, est\u00e1 em plena opera\u00e7\u00e3o na Argentina. \u00c9 a guerra que a guerrilha industrial est\u00e1 travando, operando no ch\u00e3o de f\u00e1brica, no sindicato (&#8230;).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\">[4]<\/a> O Falcon verde, sem placa, era o ve\u00edculo usado pela Tr\u00edplice A em suas opera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: Alicia Sagra J\u00e1 se passaram 50 anos desde que, em 5 de setembro de 1975, eu, juntamente com outros companheiros, vivemos as piores horas de nossas vidas. 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