{"id":81429,"date":"2025-08-28T20:11:38","date_gmt":"2025-08-28T20:11:38","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=81429"},"modified":"2025-09-04T23:16:09","modified_gmt":"2025-09-04T23:16:09","slug":"moreno-e-o-morenismo-um-debate-com-o-mrt-e-a-fracao-trotsquista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2025\/08\/28\/moreno-e-o-morenismo-um-debate-com-o-mrt-e-a-fracao-trotsquista\/","title":{"rendered":"Moreno e o morenismo: Um debate com o MRT e a Fra\u00e7\u00e3o Trotsquista"},"content":{"rendered":"\n<p>Por: Mariucha Fontana e Jer\u00f4nimo Castro, do PSTU-Brasil<br>Recentemente, dois militantes do MRT (Movimento Revolucion\u00e1rio dos Trabalhadores), a se\u00e7\u00e3o brasileira da FT (Fra\u00e7\u00e3o Trotsquista), escreveram um longo artigo \u201c<a href=\"https:\/\/www.esquerdadiario.com.br\/Os-dilemas-da-LIT-QI-em-sua-autocritica-a-Nahuel-Moreno-e-a-atualidade-da-revolucao-permanente\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Debate Os dilemas da LIT-QI em sua autocr\u00edtica a Nahuel Moreno e a atualidade da Revolu\u00e7\u00e3o Permanente<\/a>\u201d partindo de polemizar com o artigo \u201c<a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/sobre-las-situaciones-de-la-lucha-de-clases-en-nivel-nacional-e-internacional\/\">Sobre as situa\u00e7\u00f5es da luta de classes em nivel nacional e internacional<\/a>\u201d, um entre v\u00e1rios textos de atualiza\u00e7\u00e3o program\u00e1tica que a Liga Internacional dos Trabalhadores (LIT-QI) vem produzindo nos \u00faltimos anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles retomam neste longo artigo suas diferen\u00e7as te\u00f3ricas com Moreno formuladas desde os anos 90, e as entrela\u00e7am com as diferen\u00e7as program\u00e1ticas e pol\u00edticas concretas com a LIT e o PSTU, para reafirmar suas concep\u00e7\u00f5es e tamb\u00e9m a pol\u00edtica que aplicaram em cada caso.<\/p>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio dos anos 90, um extenso trabalho da FT (Pol\u00eamica com a LIT-QI e o legado te\u00f3rico de Nahuel Moreno) apresentou o que seriam os eixos ordenadores da sua cr\u00edtica a Moreno: o \u201cobjetivismo\u201d; a sua contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 teoria da Revolu\u00e7\u00e3o Permanente, que seria \u201cetapista\u201d; sua interpreta\u00e7\u00e3o do que \u00e9 uma revolu\u00e7\u00e3o, que acabaria por lev\u00e1-lo a ser partid\u00e1rio de qualquer revolu\u00e7\u00e3o sob qualquer dire\u00e7\u00e3o; e, subsidiariamente, sua interpreta\u00e7\u00e3o da Segunda Guerra Mundial e da etapa entre 1945\/1989.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir desta base te\u00f3rica, em mais de uma ocasi\u00e3o, a FT criticou as correntes que se reivindicam morenistas, em especial a LIT, diante dos muitos acontecimentos da luta de classes. Sobre a Palestina, no enfrentamento ao governo Ch\u00e1vez, nas revolu\u00e7\u00f5es \u00c1rabes, no Brasil, na revolu\u00e7\u00e3o e Guerra Civil S\u00edria, na guerra da Ucr\u00e2nia, etc.<\/p>\n\n\n\n<p>Em nossa opini\u00e3o, em que pese n\u00e3o haver uma liga\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica entre teoria e pol\u00edtica, podemos buscar na teoria os erros pol\u00edticos que algu\u00e9m, alguma corrente ou organiza\u00e7\u00e3o cometa. No entanto, n\u00e3o vemos que nossa interven\u00e7\u00e3o, na grande maioria dos casos que os companheiros citam, estavam equivocadas, e muito menos, que, no geral, o corpo te\u00f3rico do morenismo ou a atualiza\u00e7\u00e3o e contribui\u00e7\u00e3o que Moreno faz \u00e0 teoria da Revolu\u00e7\u00e3o Permanente esteja errada. Pelo contr\u00e1rio, Moreno, ao nosso ver, foi quem melhor defendeu e deu sequ\u00eancia \u00e0 elabora\u00e7\u00e3o da teoria da Revolu\u00e7\u00e3o Permanente de Trotsky nos p\u00f3s-Segunda Guerra Mundial<\/p>\n\n\n\n<p>A FT diz que Moreno n\u00e3o defende a teoria da Revolu\u00e7\u00e3o Permanente, e sim a \u201cRevolu\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica\u201d, que ele seria \u201cetapista\u201d. Isso n\u00e3o corresponde \u00e0 verdade. Quer\u00edamos registrar que consideramos essa metodologia de fazer a discuss\u00e3o muito ruim, porque, ao debater com uma inverdade ou uma p\u00e9ssima caricatura, acaba por interditar o debate, ou o di\u00e1logo que os companheiros nos cobram estabelecer com sua corrente e suas elabora\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas.<\/p>\n\n\n\n<p>Seria imposs\u00edvel em um artigo que n\u00e3o fosse muito grande responder sem superficialidade a todas as diferen\u00e7as que temos com a FT. Vamos, portanto, nos centrar em alguns aspectos.<\/p>\n\n\n\n<p>Faremos adiante um artigo mais aprofundado apenas sobre a teoria da Revolu\u00e7\u00e3o Permanente, no qual pretendemos demonstrar a riqueza das elabora\u00e7\u00f5es de Moreno sobre as revolu\u00e7\u00f5es concretas que ele buscou responder, e intervir.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">1 \u2013 A import\u00e2ncia de n\u00e3o jogar a crian\u00e7a junto com a \u00e1gua do banho, nem fazer esquemas reversos<\/h4>\n\n\n\n<p>Moreno, evidentemente, n\u00e3o \u00e9 isento de erros, como nenhum marxista o \u00e9. Ele, ali\u00e1s, sempre foi muito autocr\u00edtico, e o primeiro a reconhecer e corrigir erros dos quais se autocriticava. N\u00f3s, da LIT-QI e do PSTU, com certeza cometemos muito mais erros do que cometeu Moreno. E n\u00e3o vemos problema em nos autocriticarmos por eles. Pelo contr\u00e1rio, \u00e9 preciso aprender com os erros.<\/p>\n\n\n\n<p>E tamb\u00e9m n\u00e3o somos dogm\u00e1ticos. Assim como Moreno criticou e atualizou Trotsky, n\u00f3s n\u00e3o vemos problema em criticar e atualizar Moreno ou Trotsky, ou em atualizar a teoria e o programa perante mudan\u00e7as na realidade. Do contr\u00e1rio, n\u00e3o ser\u00edamos morenistas, trotskistas e leninistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Vivemos, ali\u00e1s, um intenso processo de atualiza\u00e7\u00e3o e de elabora\u00e7\u00e3o program\u00e1tica na LIT-QI e no PSTU, que os companheiros talvez desconhe\u00e7am ou n\u00e3o acompanhem. O texto de 2020 com o qual os companheiros polemizam \u00e9 um entre v\u00e1rios produzidos e publicados nos \u00faltimos anos, tais como \u201cElei\u00e7\u00f5es\u201d (2015) \u201cSobre as Etapas\u201d (2017), \u201cQuest\u00e3o Nacional\u201d, \u201cOpress\u00f5es\u201d, \u201cChina \u2013 uma pot\u00eancia imperialista emergente\u201d, \u201cR\u00fassia imperialista\u201d, \u201cMeio Ambiente\u201d; \u201cDebates sobre Materialismo Hist\u00f3rico\u201d, \u201cAgita\u00e7\u00e3o e Propaganda\u201d, \u201cRela\u00e7\u00e3o Partido e Sindicato\u201d, entre v\u00e1rios outros.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse processo, e tamb\u00e9m em anteriores processos de elabora\u00e7\u00e3o, temos desenvolvido cr\u00edticas e apontado erros nossos, em primeiro lugar, e tamb\u00e9m erros de Moreno.<\/p>\n\n\n\n<p>Vemos tra\u00e7os e problemas de objetivismo e esquematismo em alguns textos destinados especialmente \u00e0 populariza\u00e7\u00e3o, ou \u00e0 tentativa de categorizar momentos espec\u00edficos de processos de forma pedag\u00f3gica, como em \u201cRevolu\u00e7\u00f5es do S\u00e9culo XX\u201d ou \u201cConceitos Pol\u00edticos B\u00e1sicos\u201d, que, se lidos e assimilados ao p\u00e9 da letra, como um manual, podem levar a um esquematismo, a um determinismo e ao objetivismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 isso o que caracteriza a maioria ou a totalidade da elabora\u00e7\u00e3o program\u00e1tica e pol\u00edtica de Moreno para interven\u00e7\u00e3o na luta de classes, e nos processos revolucion\u00e1rios do p\u00f3s-Guerra at\u00e9 os anos 80 do s\u00e9culo passado. Muito pelo contr\u00e1rio. Embora haja tamb\u00e9m erros de progn\u00f3sticos (o que \u00e9 muito comum em todos autores marxistas) e de an\u00e1lise, que independem de formula\u00e7\u00e3o te\u00f3rica. Alguns processos lhe escaparam, talvez um dos mais importantes tenha sido n\u00e3o ter visto que, na China, a restaura\u00e7\u00e3o capitalista havia ocorrido em 1978.<\/p>\n\n\n\n<p>A crise e a divis\u00e3o do MAS (Movimento ao Socialismo) argentino, e da pr\u00f3pria LIT-QI no final dos 90, levaram v\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es a uma leitura dogm\u00e1tica e a uma vis\u00e3o objetivista, apoiando-se em progn\u00f3sticos que n\u00e3o se cumpriram, ou levando ao p\u00e9 da letra alguns textos, convertendo-se, no nosso modo de ver, em caricaturas do morenismo. Muitas vezes distorcendo a realidade para expressar desejos ou for\u00e7\u00e1-la a entrar em esquemas objetivistas.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9, por\u00e9m, um bom caminho tentar corrigir esses tipos de erros com um esquema subjetivista reverso, que, na nossa maneira de ver, com todo o respeito, impregna a arma\u00e7\u00e3o te\u00f3rica da FT, que tamb\u00e9m tem origem na corrente morenista, tendo nascido da ruptura nos anos 80 de uma parte da juventude do MAS argentino (partido de Nahuel Moreno).<\/p>\n\n\n\n<p>Isso porque um esquema subjetivista, igualmente, nos distancia da realidade, da dial\u00e9tica e de uma formula\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria capaz de unir estrat\u00e9gia e t\u00e1tica para dar uma resposta fecunda e eficaz, especialmente a processos revolucion\u00e1rios que sempre s\u00e3o muito mais ricos do que qualquer esquema.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">A quest\u00e3o da Revolu\u00e7\u00e3o Permanente e a atualiza\u00e7\u00e3o de Moreno<\/h4>\n\n\n\n<p>Em 1930, Trotsky escreveu seu livro, a Revolu\u00e7\u00e3o Permanente. Foi um longo processo onde ele incorporou e ajustou sua teoria \u00e0s experi\u00eancias concretas da luta de classes e das diversas revolu\u00e7\u00f5es que presenciou. Em sua primeira vers\u00e3o, de 1905\/1906, a teoria da Revolu\u00e7\u00e3o Permanente era uma explica\u00e7\u00e3o\/programa para a Revolu\u00e7\u00e3o Russa que se desenrolava, e foi apresentada na sua primeira forma final em Balan\u00e7o e Perspectiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Era, num sentido, a continua\u00e7\u00e3o da elabora\u00e7\u00e3o de Marx, que em 1850, ao escrever sobre a Revolu\u00e7\u00e3o Alem\u00e3, termina com a frase, \u201c<em>nosso grito de guerra ser\u00e1 viva a revolu\u00e7\u00e3o permanente\u201d<\/em>. Vale a pena destacar que apesar do nome coincidente, a teoria da Revolu\u00e7\u00e3o Permanente de Marx e Trotsky eram diferentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa teoria da revolu\u00e7\u00e3o debateu com outras, como a de L\u00eanin, que, concordando com Trotsky sobre o papel da burguesia, dava um peso maior \u00e0 participa\u00e7\u00e3o do campesinato na revolu\u00e7\u00e3o, e via a necessidade de uma ditadura democr\u00e1tica do proletariado e do campesinato, como etapa burguesa revolucion\u00e1ria, antes da revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria socialista, com o objetivo de cumprir todas as tarefas democr\u00e1tico burguesas. Ainda que, quando a revolu\u00e7\u00e3o Russa de 1906 chegou em seu momento auge, L\u00eanin escreveu: \u201cN<em>\u00f3s somos partid\u00e1rios da revolu\u00e7\u00e3o ininterrupta. N\u00e3o haveremos de parar na metade do caminho.<\/em>\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>E tamb\u00e9m com a de Bukharin, que via a Revolu\u00e7\u00e3o Permanente como um salto sobre as tarefas democr\u00e1ticas, passando direto para as tarefas socialistas da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o de 1917 passou as teorias, e as pr\u00e1ticas, em revista. L\u00eanin, nas Teses de Abril, adere, de conte\u00fado, \u00e0 l\u00f3gica da Revolu\u00e7\u00e3o Permanente. Trotsky, por sua vez, se incorpora ao partido Bolchevique, e, na pr\u00e1tica, incorpora esse elemento \u00e0 sua teoria da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, quando a III Internacional discute a revolu\u00e7\u00e3o nos pa\u00edses coloniais e semicoloniais, nas Teses do Oriente, a vers\u00e3o que sai vitoriosa \u00e9 um retorno \u00e0 compreens\u00e3o da Ditadura Democr\u00e1tica do Proletariado e do Campesinato, especialmente porque nem L\u00eanin, e nem Trotsky, pensavam que o Oriente estaria maduro para a revolu\u00e7\u00e3o socialista.<\/p>\n\n\n\n<p>A vers\u00e3o final da teoria da Revolu\u00e7\u00e3o Permanente ser\u00e1 fruto da segunda Revolu\u00e7\u00e3o Chinesa, quando Trotsky se enfrentar\u00e1 com a politica da III Internacional, j\u00e1 sob St\u00e1lin, de capitula\u00e7\u00e3o ao partido burgu\u00eas nacionalista chin\u00eas, o Koumitang.<\/p>\n\n\n\n<p>Em sua vers\u00e3o final, Trotsky concluir\u00e1 que n\u00e3o existem pa\u00edses n\u00e3o maduros para a revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria, que nos pa\u00edses atrasados ela se dar\u00e1 em uma alian\u00e7a do proletariado com o campesinato pobre, contra a burguesia local e o imperialismo, dirigida socialmente pelo proletariado e, politicamente, pelo partido revolucion\u00e1rio do proletariado e vinculada \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o mundial, que definir\u00e1 o futuro da humanidade. Portanto, a teoria da Revolu\u00e7\u00e3o Permanente, foi, at\u00e9 a\u00ed, incorporando novos elementos a partir de acontecimentos e experi\u00eancias. N\u00e3o poderia ser de outra forma, pois, como n\u00e3o cansamos de repetir, mas nem sempre de compreender, a teoria n\u00e3o \u00e9 um dogma, mas um guia para a a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>No Programa de Transi\u00e7\u00e3o, Trotsky abre uma outra possibilidade para a din\u00e2mica da revolu\u00e7\u00e3o. Ele dir\u00e1:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>\u201c<em>N\u00e3o se deve negar categ\u00f3rica e antecipadamente a possibilidade te\u00f3rica de que, sob a influ\u00eancia de uma combina\u00e7\u00e3o de circunst\u00e2ncias excepcionais (guerra, derrota, quebra financeira, ofensiva revolucion\u00e1ria das massas etc.), os partidos pequeno-burgueses, inclu\u00eddos a\u00ed os stalinistas, possam ir mais longe do que queriam no caminho da ruptura com a burguesia<\/em>.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Quando a domina\u00e7\u00e3o nazifascista colapsou na Europa, emergiu um mundo onde, por um lado, os EUA se firmaram como pot\u00eancia imperialista hegem\u00f4nica, e, por outro, a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica que, ao mesmo tempo que fazia um contraponto pol\u00edtico aos EUA, era sua principal parceira na manuten\u00e7\u00e3o da ordem mundial. E havia dezenas de novos Estados Oper\u00e1rios, conquistas importantes. Mas que, por sua vez, ao terem chegado a esta condi\u00e7\u00e3o pela via da ocupa\u00e7\u00e3o militar russa (no caso do Leste Europeu), ou de revolu\u00e7\u00f5es feitas por camponeses e ex\u00e9rcitos guerrilheiros dirigidos por partidos stalinistas ou reformistas, refor\u00e7aram o prest\u00edgio dessas dire\u00e7\u00f5es e dificultaram o surgimento de dire\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p>A Quarta Internacional se reorganizou neste contexto, depois de ter passado a maioria dos anos da guerra sem um funcionamento org\u00e2nico, e tendo sofrido uma extensa sangria de quadros, principalmente v\u00edtimas do stalinismo e do fascismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Era necess\u00e1rio explicar e intervir nesse novo mundo e atualizar a teoria da revolu\u00e7\u00e3o. E essa tarefa levou, como era inevit\u00e1vel, a crises e rupturas. Pelo menos tr\u00eas grandes respostas foram dadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Houve aqueles que negaram o surgimento dos novos Estados Oper\u00e1rios, uma vez que seu surgimento e o regime que eles expressavam n\u00e3o estariam dentro das normas estabelecidas pela teoria da Revolu\u00e7\u00e3o Permanente. Houve os que conclu\u00edram que o que se havia dado era exatamente aquilo que o corpo te\u00f3rico da Revolu\u00e7\u00e3o Permanente previa. E houve os que, admitindo que havia tido revolu\u00e7\u00f5es e expropria\u00e7\u00f5es, reconheceram que essas n\u00e3o se deram da forma como estava sendo esperada, que se havia dado a hip\u00f3tese menos prov\u00e1vel, com a qual Trotsky trabalhou no Programa de Transi\u00e7\u00e3o, e que era preciso encarar de frente esta nova realidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, por exemplo, foi emblem\u00e1tica: um setor, vendo corretamente que a dire\u00e7\u00e3o n\u00e3o era revolucion\u00e1ria, considerou que Cuba n\u00e3o fez uma revolu\u00e7\u00e3o socialista, n\u00e3o originou um novo Estado Oper\u00e1rio e continuou capitalista; um outro setor, reconhecendo que houve revolu\u00e7\u00e3o e havia um novo Estado Oper\u00e1rio, chegou \u00e0 conclus\u00e3o que sua dire\u00e7\u00e3o era revolucion\u00e1ria. E os que, como Moreno, analisaram, n\u00e3o sem grande dificuldade no in\u00edcio, que houve uma revolu\u00e7\u00e3o que expropriou a burguesia e criou um novo Estado Oper\u00e1rio, por\u00e9m que sua dire\u00e7\u00e3o era pequeno-burguesa e contrarrevolucion\u00e1ria; portanto Cuba era um novo Estado Oper\u00e1rio burocratizado.<\/p>\n\n\n\n<p>A esses processos se somaram outros: As revolu\u00e7\u00f5es anticoloniais na \u00c1frica que levaram ao poder grupos guerrilheiros armados, mas que n\u00e3o expropriaram a burguesia (ainda que em alguns casos como o da Arg\u00e9lia um governo oper\u00e1rio e campon\u00eas retrocede ao capitalismo). V\u00e1rias revolu\u00e7\u00f5es pol\u00edticas derrotadas na Alemanha, Hungria, Tchecoslov\u00e1quia e Pol\u00f4nia. Finalmente, houve revolu\u00e7\u00f5es que derrubaram ditaduras, regimes bonapartistas e, em seu lugar, colocaram democracias burguesas.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante desses acontecimentos que atravessaram a segunda metade do S\u00e9culo XX foi necess\u00e1rio resgatar o legado de Trotsky, mas tamb\u00e9m atualiz\u00e1-lo, e foi isso que Moreno fez.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Nahuel Moreno<\/h4>\n\n\n\n<p>\u00c9 no contexto do P\u00f3s-guerra, de mudan\u00e7as estruturais importantes no mundo, que atualizaram o problema do imperialismo, da crise de dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, da rela\u00e7\u00e3o entre pa\u00edses coloniais, semicoloniais e as metr\u00f3poles, que Nahuel Moreno surge como um dos dirigentes da Quarta Internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 bom que se diga que a crise de dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria tinha dois p\u00f3los: de um lado as vit\u00f3rias sobre o nazifascismo na Segunda Guerra Mundial fortaleceram o stalinismo como dire\u00e7\u00e3o de amplos setores do movimento de massas e da classe trabalhadora, e, neste mesmo polo, da contrarrevolu\u00e7\u00e3o, na Europa Ocidental se fortalecem os partidos sociais democratas que fizeram uma s\u00e9rie de concess\u00f5es \u00e0s massas, no que seriam os Estados de bem-estar social.<\/p>\n\n\n\n<p>No outro p\u00f3lo, o da constru\u00e7\u00e3o de uma dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria e alternativa a estas duas potentes organiza\u00e7\u00f5es que se ancoravam no controle dos Estados do Leste (o stalinismo) ou na administra\u00e7\u00e3o dos Estados burgueses da Europa (social democracia), a IV Internacional saiu da guerra praticamente destru\u00edda. Seus quadros haviam sido perseguidos, presos e mortos por todas as pot\u00eancias beligerantes, inclusive antes da guerra eclodir. O imperialismo democr\u00e1tico, o imperialismo nazifascista e o stalinismo, todos eles participaram, com distintos pesos e medidas, da persegui\u00e7\u00e3o \u00e0 IV Internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Moreno foi parte da dire\u00e7\u00e3o que elaborou a explica\u00e7\u00e3o correta sobre os novos Estados oper\u00e1rios burocraticamente deformados (pois j\u00e1 nasciam com uma deforma\u00e7\u00e3o), diferenciando-os do russo que havia se degenerado. Ao mesmo tempo, foi parte daqueles que reconheceram que na Iugosl\u00e1via e China haviam ocorrido revolu\u00e7\u00f5es, e que, na medida que expropriavam a burguesia, se tornavam Estados Oper\u00e1rios, mas que suas dire\u00e7\u00f5es n\u00e3o eram revolucion\u00e1rias, apesar de avan\u00e7arem al\u00e9m do que eram suas inten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas foi a Revolu\u00e7\u00e3o Cubana a grande prova pela qual passou Moreno, em que ele, no in\u00edcio, cometeu uma s\u00e9rie de erros, do qual se autocriticou, mas n\u00e3o o erro de n\u00e3o reconhecer ou de negar uma revolu\u00e7\u00e3o. Ele reconhecer\u00e1 que Cuba \u00e9 o primeiro pa\u00eds socialista das Am\u00e9ricas, que sua revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 um marco na hist\u00f3ria do continente e buscar\u00e1, incessantemente, dialogar com a poderosa vanguarda que surge deste processo. Como o esquema subjetivista da FT explicaria a Revolu\u00e7\u00e3o Cubana?<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">2 \u2013 As Revolu\u00e7\u00f5es do S\u00e9culo XX (o livro e a elabora\u00e7\u00e3o de Moreno)<\/h4>\n\n\n\n<p>A interpreta\u00e7\u00e3o de Nahuel Moreno sobre as revolu\u00e7\u00f5es do P\u00f3s-Segunda Guerra Mundial constitui um dos eixos centrais da cr\u00edtica elaborada pela Fra\u00e7\u00e3o Trotskista. Seu leque de obje\u00e7\u00f5es \u00e9 amplo, abrangendo desde o conceito de revolu\u00e7\u00e3o em si e a extens\u00e3o da no\u00e7\u00e3o de excepcionalidade, at\u00e9 a discuss\u00e3o sobre a \u201crevolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica\u201d, vista pela FT como uma nova forma de etapismo ou semi-etapismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Para fundamentar essa cr\u00edtica, as fontes prim\u00e1rias da FT s\u00e3o a obra \u201cAs Revolu\u00e7\u00f5es do S\u00e9culo XX\u201d e o Curso de Quadros ministrado por Moreno sobre o tema, publicado postumamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes, por\u00e9m, de adentrar o m\u00e9rito da discuss\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1rio destacar um problema recorrente nas cr\u00edticas: um aparente desconhecimento da teoria morenista. Um exemplo recente est\u00e1 expresso em artigo de militantes do MRT\/FT no Brasil, que afirma que a Moreno teria \u201cescapado\u201d \u00e0 an\u00e1lise dos impactos da pol\u00edtica imperialista gestada a partir dos anos 1970, que se aprofundou com o fim da Guerra Fria. Segundo o artigo, os EUA, para compensar o decl\u00ednio de sua hegemonia p\u00f3s-Vietn\u00e3, passaram a apoiar \u201ctransi\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas\u201d pelo mundo. Essa acusa\u00e7\u00e3o s\u00f3 pode derivar de um desconhecimento da obra de Moreno, pois foi ele quem cunhou e desenvolveu o conceito de \u201crea\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica\u201d para explicar precisamente essa pol\u00edtica \u201cdemocratizante\u201d do imperialismo como um mecanismo para desviar e conter processos revolucion\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>A complexidade do per\u00edodo torna-se ainda mais evidente ao analisar as revolu\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que ent\u00e3o ocorreram. Embora a classe oper\u00e1ria tenha sido o sujeito social de muitas delas, em nenhuma esteve presente como sujeito pol\u00edtico da forma prevista pela teoria da Revolu\u00e7\u00e3o Permanente.<\/p>\n\n\n\n<p>Ademais, a an\u00e1lise da FT sobre os processos de descoloniza\u00e7\u00e3o na \u00c1frica mostra-se profundamente insuficiente. Eles resumem, por exemplo, que movimentos como o Mau Mau (Qu\u00eania) e a luta de Patrice Lumumba (Congo) lograram apenas uma \u201cindepend\u00eancia formal como semicol\u00f4nias\u201d, e que a Arg\u00e9lia, ap\u00f3s alcan\u00e7ar um \u201cgoverno oper\u00e1rio e campon\u00eas\u201d, retrocedeu para um Estado burgu\u00eas semicolonial. Sobre as col\u00f4nias portuguesas, afirmam que as lideran\u00e7as pequeno-burguesas (como o MPLA) n\u00e3o instauraram Estados oper\u00e1rios nem mesmo deformados.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa leitura nos parece equivocada por ser teleol\u00f3gica e determinista, como se o resultado final estivesse contido de forma inelut\u00e1vel no in\u00edcio do processo, julgando-o com a lente de hoje, cinquenta anos depois. Ao faz\u00ea-lo, a FT desconsidera o contexto hist\u00f3rico real: o que chamam de \u201capenas independ\u00eancia formal\u201d representou, em seu momento, gigantescas vit\u00f3rias t\u00e1ticas. Essas revolu\u00e7\u00f5es, que antecederam e sucederam a Revolu\u00e7\u00e3o Portuguesa (outro evento crucial ignorado pela FT), foram grandes acontecimentos hist\u00f3ricos que, dentro dos marcos da revolu\u00e7\u00e3o permanente, se desenrolaram de forma inesperada.<\/p>\n\n\n\n<p>Elas n\u00e3o avan\u00e7aram e posteriormente retrocederam devido precisamente \u00e0 aus\u00eancia de uma dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria com influ\u00eancia de massas. No entanto, influenciaram milh\u00f5es mundialmente e exigiam uma resposta pol\u00edtica correta. Era necess\u00e1rio reconhecer seu car\u00e1ter progressivo para disputar a dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica naqueles pa\u00edses e dialogar com os setores de vanguarda em todo o mundo tocados por elas, com o objetivo final de construir uma alternativa revolucion\u00e1ria. Em suma, foram processos que, embora no final tenham sido derrotados, desviados ou congelados, foram em sua origem eventos monumentais da luta de classes.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">O exemplo da Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos \u2013 Portugal<\/h4>\n\n\n\n<p>Para tomar um exemplo, a revolu\u00e7\u00e3o portuguesa foi outro grande desafio do trotskismo no p\u00f3s-guerra. Um levante militar de jovens capit\u00e3es cansados da guerra colonial desencadeou um amplo processo revolucion\u00e1rio. O imperialismo reagiu com um leque de pol\u00edticas que ia de um plano bonapartista contrarrevolucion\u00e1rio do Movimento das For\u00e7as Armadas-PC, por um lado, \u00e0 proposta de uma normaliza\u00e7\u00e3o democr\u00e1tico-burguesa parlamentarista com o PS e seus aliados da burguesia imperialista portuguesa, por outro, e ao mesmo tempo a tentativa de estrangulamento econ\u00f4mico provocado pela sabotagem imperialista de conjunto.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso tudo nos marcos de uma situa\u00e7\u00e3o que, de conjunto, se caracterizava como revolucion\u00e1ria e um regime com importantes germes de poder dual, ainda que s\u00f3 abarcasse um setor minorit\u00e1rio do movimento de massas.<br>Neste contexto, uma parte do movimento trotskista apresentava um programa m\u00ednimo e democr\u00e1tico para a revolu\u00e7\u00e3o portuguesa, de retirada das tropas de Angola, sem ligar essas tarefas democr\u00e1ticas defensivas aos germes do poder oper\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Moreno, ao contr\u00e1rio, como pode ser lido no seu livro \u201cRevolu\u00e7\u00e3o e contrarrevolu\u00e7\u00e3o em Portugal\u201d, orientou que era preciso que os revolucion\u00e1rios tivessem como centro defender, desenvolver e centralizar as comiss\u00f5es oper\u00e1rias e os comit\u00eas de soldados, dar-lhes a perspectiva da revolu\u00e7\u00e3o socialista, combin\u00e1-los com todas as tarefas que as massas portuguesas enfrentavam. Ele dizia que qualquer pol\u00edtica que n\u00e3o fosse fortalecer os germes de organismos de duplo poder, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o socialista, n\u00e3o era trotskista, mas \u201cpoumismo\u201d de diferentes tipos, que, apesar de na forma defenderem aparentemente um programa bolchevique-leninista, no conte\u00fado defendiam a democracia burguesa e se negavam a enfrentar o governo contrarrevolucion\u00e1rio do MFA-PC.<\/p>\n\n\n\n<p>Moreno, que apostava no aprofundamento das conquistas democr\u00e1ticas como forma de desenvolver os elementos de duplo poder e a organiza\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria classe oper\u00e1ria, afirmava que<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>\u201cse a revolu\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria n\u00e3o chega a impor-se, a tend\u00eancia de Portugal imperialista n\u00e3o deixa d\u00favidas: o seu atraso conden\u00e1-lo-\u00e1 a se transformar em submetr\u00f3pole, ou seja, s\u00f3cio-menor de outros imp\u00e9rios mais poderosos na explora\u00e7\u00e3o da classe oper\u00e1ria e das col\u00f4nias; e a curto prazo, n\u00e3o est\u00e1 descartada a perda total da sua influ\u00eancia nas col\u00f3nias, que o levar\u00e1 a transformar-se diretamente numa semicol\u00f4nia. Portugal, para manter a sua atual independ\u00eancia do capital estrangeiro, s\u00f3 tem uma alternativa: o socialismo, que o faria superar o seu atraso sem cair sob o dom\u00ednio dos grandes monop\u00f3lios internacionais.\u201d.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Dessa vis\u00e3o n\u00e3o existe qualquer possibilidade de se concluir que Moreno trabalhava com uma estrat\u00e9gia de \u201crevolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica\u201d, ou que qualquer revolu\u00e7\u00e3o valia.<\/p>\n\n\n\n<p>Na revolu\u00e7\u00e3o portuguesa, como na interven\u00e7\u00e3o nas outras revolu\u00e7\u00f5es, pode-se encontrar erros de Moreno, mas com certeza n\u00e3o se encontrar\u00e1 nenhuma pista que leve \u00e0 conclus\u00e3o de que ele tinha uma concep\u00e7\u00e3o e estrat\u00e9gia etapista do processo que se desenvolvia. Ao contr\u00e1rio, o que se v\u00ea \u00e9 a busca de Moreno por encontrar os caminhos que permitam o desenvolvimento permanente da revolu\u00e7\u00e3o portuguesa. Como a FT explicaria a revolu\u00e7\u00e3o portuguesa? N\u00e3o existiu uma revolu\u00e7\u00e3o em Portugal? O 25 de abril foi irrelevante? Pelo fato de que ela acabou sendo congelada e depois retrocedeu via rea\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, os revolucion\u00e1rios n\u00e3o deveriam intervir nela?<\/p>\n\n\n\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos confirmou na pr\u00e1tica a tese de Moreno: as revolu\u00e7\u00f5es frequentemente come\u00e7am sob bandeiras democr\u00e1ticas e s\u00f3 podem se completar sob dire\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria. A aus\u00eancia de um partido revolucion\u00e1rio com peso de massas permitiu que o processo fosse canalizado para a institucionalidade parlamentar, mas nem por isso deixou de ser um marco revolucion\u00e1rio de alcance internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>O mesmo tratamento superficial, ou pouco atento, \u00e9 dado aos m\u00faltiplos processos de derrubada de ditaduras que se d\u00e3o a partir dos anos 70, em especial depois da derrota do Vietn\u00e3. Em uma s\u00e9rie de pa\u00edses, ditaduras mais ou menos longas foram derrubadas, em processos distintos: Portugal, Espanha, Nicar\u00e1gua, Argentina, Brasil, para citar alguns casos. Era preciso entender esses processos para intervir neles.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o nos parece que esses fen\u00f4menos sejam iguais, e Moreno n\u00e3o os tratou como se fossem. N\u00e3o os tratou gen\u00e9rica e superficialmente, pelo contr\u00e1rio, ele buscou entend\u00ea-los a fundo na sua especificidade, para intervir na realidade e construir tanto as pontes necess\u00e1rias para Outubro, como para disputar contra as sa\u00eddas bonapartistas, de \u201crea\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica\u201d ou reformistas no concreto, n\u00e3o em abstrato, e para construir partidos revolucion\u00e1rios de vanguarda com incid\u00eancia e influ\u00eancia de massas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio, portanto, olhar para o conjunto destes processos e se perguntar, primeiro, se ocorreram nas revolu\u00e7\u00f5es da segunda metade do S\u00e9culo XX as previs\u00f5es estritas de Trotsky da mec\u00e2nica da revolu\u00e7\u00e3o, e, se n\u00e3o, o que houve? As revolu\u00e7\u00f5es da segunda metade do s\u00e9culo rejeitaram a teoria da Revolu\u00e7\u00e3o Permanente?<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">A quest\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o<\/h4>\n\n\n\n<p>Pensamos que Moreno est\u00e1 correto em constatar que as revolu\u00e7\u00f5es n\u00e3o aconteceram tal qual previu Trotsky em seu \u00faltimo livro dedicado ao tema, nem tampouco que essa teoria foi rejeitada pelas novas revolu\u00e7\u00f5es. Elas reafirmaram e enriqueceram a teoria da Revolu\u00e7\u00e3o Permanente, confirmando um aspecto que aparece no Programa de Transi\u00e7\u00e3o. Ou seja, de que as revolu\u00e7\u00f5es, por uma s\u00e9rie de fatores, podem ir al\u00e9m daquilo que desejavam suas dire\u00e7\u00f5es. Mas tamb\u00e9m, como diz Moreno, isso tem um limite. Porque, diz ele na tese II do livro Atualiza\u00e7\u00e3o do Programa de Transi\u00e7\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>\u201cenquanto os aparatos sigam controlando o movimento de massas, todo triunfo revolucion\u00e1rio se transforma inevitavelmente em derrota [\u2026] nesta \u00e9poca todo avan\u00e7o que n\u00e3o seja seguido de outro avan\u00e7o significa um retrocesso. Da\u00ed que a burocracia com sua pol\u00edtica de freio por um lado, de defesa de seus privil\u00e9gios frente \u00e0s massas, por outro, est\u00e1 obrigada a lutar contra a mobiliza\u00e7\u00e3o permanente dos trabalhadores, a transformar seus triunfos em uma derrota da revolu\u00e7\u00e3o permanente\u201d.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, esse processo que pode ocorrer em n\u00edvel nacional, em sua ess\u00eancia coletiva, ou, do ponto de vista da revolu\u00e7\u00e3o mundial \u00e9 imposs\u00edvel, o que s\u00f3 reafirma, nas palavras de Moreno, que somos ainda mais defensores da teoria da Revolu\u00e7\u00e3o Permanente, e de que consideramos que a crise da humanidade \u00e9 a crise da dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Querer reduzir, portanto, a interpreta\u00e7\u00e3o de Moreno ao texto Revolu\u00e7\u00f5es do S\u00e9culo XX \u00e9 um reducionismo tremendo, por v\u00e1rios motivos. Em primeiro lugar este livro foi escrito originalmente como uma s\u00e9rie de notas para ajudar em um curso que estava sendo preparado sobre o tema e s\u00f3 foi publicado na forma de livro em 1986. Em segundo lugar, porque ignora os livros, textos e contribui\u00e7\u00f5es de Moreno sobre o tema. H\u00e1 no m\u00ednimo dezenas (sen\u00e3o centenas) de textos de Nahuel Moreno sobre a Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, a Revolu\u00e7\u00e3o Portuguesa, angolana, nicaraguense, o processo revolucion\u00e1rio na Am\u00e9rica Central, as revolu\u00e7\u00f5es pol\u00edticas na Hungria, Pol\u00f4nia, e um vasto etc.<\/p>\n\n\n\n<p>No conjunto destes textos pode se encontrar muita coisa, pode-se concordar ou discordar de Moreno, mas com certeza n\u00e3o est\u00e1 plasmado neles a id\u00e9ia de \u201cqualquer revolu\u00e7\u00e3o com qualquer dire\u00e7\u00e3o\u201d. Muito menos a id\u00e9ia objetivista de que estes processos avan\u00e7avam sem contradi\u00e7\u00e3o a nosso favor. Pelo contr\u00e1rio, pari passu com o entusiasmo militante pelo ascenso das massas e os triunfos de suas lutas, Moreno sempre aponta os limites e contradi\u00e7\u00f5es destes mesmos processos.<\/p>\n\n\n\n<p>Moreno expressou diversas vezes em sua obra que a dial\u00e9tica entre derrotas e vit\u00f3rias era invertida frente \u00e0 dial\u00e9tica que sustentava a vis\u00e3o evolutiva da social democracia e do stalinismo, que diziam que o caminho do proletariado estava cheio de derrotas que levavam ao triunfo. Para Moreno, \u201c<em>enquanto o proletariado n\u00e3o superar a sua crise de dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria n\u00e3o poder\u00e1 derrotar o imperialismo mundial. E todas as suas lutas, como consequ\u00eancia disso, estar\u00e3o cheias de triunfos que nos levar\u00e3o inevitavelmente a derrotas catastr\u00f3ficas<\/em>\u201d (Atualiza\u00e7\u00e3o do Programa de Transi\u00e7\u00e3o). Quer dizer, vit\u00f3rias t\u00e1ticas e grandes conquistas, mas que se converter\u00e3o em derrotas estrat\u00e9gicas, se refor\u00e7arem o peso das dire\u00e7\u00f5es contrarrevolucion\u00e1rias e n\u00e3o prolet\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, ao mesmo tempo, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma possibilidade de superar as dire\u00e7\u00f5es contrarrevolucion\u00e1rias confundindo o movimento de massas com suas dire\u00e7\u00f5es, ou as revolu\u00e7\u00f5es com as dire\u00e7\u00f5es que eventualmente as conduzam.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso, no entanto, n\u00e3o nega o fato de que esse livro, Revolu\u00e7\u00f5es do S\u00e9culo XX, no af\u00e3 de tentar categorizar e tornar did\u00e1ticos v\u00e1rios momentos espec\u00edficos de processos concretos, realmente peca por esquematismo e simplifica\u00e7\u00f5es que devem ser superados. O livro de fato n\u00e3o expressa a obra de Moreno sobre estes mesmos processos.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra coisa \u00e9 a cr\u00edtica feita ao curso de 1984, tamb\u00e9m sobre esse tema, e que foi transcrito e publicado como livro em 1992. Ao contr\u00e1rio do que expressa a FT, independente do acerto de algumas ou de todas as cr\u00edticas que faz Moreno a algumas das teses da Revolu\u00e7\u00e3o Permanente de Trotsky, nos parece sumamente correta a forma aberta e a metodologia com a qual ele encara o debate sobre a revolu\u00e7\u00e3o permanente nesta escola e sobre como atualiz\u00e1-la, sem esquematismo ou determinismo.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Sem medo de chamar as revolu\u00e7\u00f5es pelo seu nome<\/h4>\n\n\n\n<p>A FT chamou os grandes levantes \u00e1rabes do in\u00edcio da d\u00e9cada de 2010, de Primavera \u00c1rabe, mas nunca de revolu\u00e7\u00f5es \u00e1rabes.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de mais nada, v\u00e1rias correntes morenistas, muitas vezes abusaram do conceito de revolu\u00e7\u00e3o, e neste contexto, tamb\u00e9m de \u201crevolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica\u201d, transformando qualquer crise do regime ou ascenso do movimento de massas em revolu\u00e7\u00f5es, e a queda destes regimes em revolu\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas. Isso, por\u00e9m, repetimos, \u00e9 uma caricatura do morenismo, e n\u00e3o tem nada a ver com o conceito cunhado por Nahuel Moreno, nem com os fen\u00f4menos pol\u00edticos que ele buscava explicar.<\/p>\n\n\n\n<p>Moreno quando chama um fen\u00f4meno de revolu\u00e7\u00e3o aplica o mesmo conte\u00fado de Trotsky na sua introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Hist\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o Russa quando diz:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>\u201cA caracter\u00edstica mais incontest\u00e1vel da Revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 a interven\u00e7\u00e3o direta das massas nos acontecimentos hist\u00f3ricos. Comumente, o Estado, mon\u00e1rquico ou democr\u00e1tico, domina a na\u00e7\u00e3o; a Hist\u00f3ria \u00e9 feita pelos especialistas da mat\u00e9ria: monarcas, ministros, burocratas, parlamentares, jornalistas. Todavia, nas curvas decisivas, quando um velho regime se torna intoler\u00e1vel \u00e0s massas, estas destroem as muralhas que as separam da arena pol\u00edtica, derrubam os seus representantes tradicionais e, intervindo deste modo, criam uma posi\u00e7\u00e3o de partida para um novo regime. Seja isto um bem ou um mal, cabe aos moralistas julgarem-no. Quanto a n\u00f3s, tomamos os fatos tal como se apresentam em seu desenvolvimento objetivo. A hist\u00f3ria de uma Revolu\u00e7\u00e3o, para n\u00f3s, inicialmente, \u00e9 a narrativa de uma irrup\u00e7\u00e3o violenta das massas nos dom\u00ednios onde se desenrolam seus pr\u00f3prios destinos.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Ou seja, para Moreno, assim como tamb\u00e9m para Trotsky e para L\u00eanin, revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 a a\u00e7\u00e3o das massas, sua irrup\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria, quando criam uma posi\u00e7\u00e3o de partida para um novo regime. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que Trotsky, diferente do MRT\/FT, diz que \u201cAs revolu\u00e7\u00f5es s\u00e3o imposs\u00edveis at\u00e9 que se tornem inevit\u00e1veis\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>No texto \u201cArgentina: Uma revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica triunfante\u201d, Moreno tenta explicar justamente por que o que est\u00e1 ocorrendo na Argentina \u00e9 uma revolu\u00e7\u00e3o. Ele vai demonstrar que o processo argentino se d\u00e1 sem condicionamento, sem controle da oligarquia e do ex\u00e9rcito; que abriu uma crise nas for\u00e7as armadas, houve uma forte mobiliza\u00e7\u00e3o popular e esta forte mobiliza\u00e7\u00e3o popular foi o que precedeu \u00e0 derrubada do regime e a crise nas for\u00e7as armadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Comparando com outros processos da pr\u00f3pria Argentina, onde tinha havido a passagem de governos reacion\u00e1rios, bonapartistas ou semi-bonapartistas para governos democr\u00e1ticos, Moreno observa que na maioria, sen\u00e3o em todos os casos anteriores, pese haver mais ou menos mobiliza\u00e7\u00f5es populares, o que ocorreu foi o controle, a dosifica\u00e7\u00e3o, a passagem controlada pelas institui\u00e7\u00f5es burguesas. Um tipo de \u201creforma\u201d democr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p>Moreno observa, al\u00e9m disso, que pode haver ainda um outro exemplo, que \u00e9 que o pr\u00f3prio regime organize sua substitui\u00e7\u00e3o, mantendo os elementos centrais que o compunham, o que ele chamou de Bismarkismo Senil. Uma transi\u00e7\u00e3o controlada desde cima e mantendo elementos centrais do regime bonapartista.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Moreno esta revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, que faz cair um regime ditatorial e faz subir um regime democr\u00e1tico, \u00e9 por sua composi\u00e7\u00e3o social, oper\u00e1ria e popular, uma revolu\u00e7\u00e3o que objetivamente tem impulso anticapitalista e est\u00e1 diretamente ligada \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o socialista. Objetivamente, n\u00e3o h\u00e1 um interregno entre uma e outra, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio esperar consolidar as conquistas democr\u00e1ticas, ao contr\u00e1rio, se deveria come\u00e7ar imediatamente a aproveitar as mobiliza\u00e7\u00f5es das massas e as conquistas democr\u00e1ticas para levar adiante a luta pela revolu\u00e7\u00e3o socialista, embora seu devir, seu desenvolvimento e continuidade tenha v\u00e1rias possibilidades, caminhos e alternativas em disputa.<\/p>\n\n\n\n<p>E alerta para os problemas que surgem dessa vit\u00f3ria democr\u00e1tica, o que ele chamar\u00e1 primeiro de contrarrevolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, e logo de rea\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, mas cujo conte\u00fado \u00e9 a pol\u00edtica da burguesia e do imperialismo, de buscar esvaziar as mobiliza\u00e7\u00f5es e as lutas diretas dos trabalhadores, e com isso frear a revolu\u00e7\u00e3o, canalizando tudo para as elei\u00e7\u00f5es e os organismos e institui\u00e7\u00f5es do regime.<\/p>\n\n\n\n<p>Moreno aqui n\u00e3o est\u00e1 defendendo revolu\u00e7\u00e3o por etapas. Est\u00e1 constatando que se iniciou uma revolu\u00e7\u00e3o que avan\u00e7ou uma fase e obteve conquistas parciais, que ser\u00e3o usadas pela burguesia para que n\u00e3o seja permanente, para que seja congelada, para que se desvie, para que retroceda; e para a necessidade de se enfrentar a rea\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, de lutar pela perman\u00eancia da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Obviamente, como toda revolu\u00e7\u00e3o que n\u00e3o tem \u00e0 frente um partido revolucion\u00e1rio, este processo tende a ser desviado, congelado ou derrotado em algum momento. Vejamos, se n\u00e3o existisse o Partido Bolchevique na R\u00fassia, o mais prov\u00e1vel \u00e9 que a Revolu\u00e7\u00e3o de Fevereiro tivesse parado a\u00ed e retrocedido; ou tivesse sido derrotada por Kornilov, ou afogada no pr\u00e9-parlamento (nesse terreno, o livro Li\u00e7\u00f5es de Outubro do Trotsky, publicado pela Sundermann, \u00e9 uma aula contra a espera de \u201crevolu\u00e7\u00f5es puras\u201d, facilismos, determinismos e esquemas gerais).<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, outras revolu\u00e7\u00f5es, como a cubana, por exemplo, n\u00e3o parou nas tarefas democr\u00e1ticas como a Argentina, parou na expropria\u00e7\u00e3o da sua pr\u00f3pria burguesia, mas, por falta de uma dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, prolet\u00e1ria e consequente, em seguida se transformou num freio para que as demais revolu\u00e7\u00f5es latino-americanas avan\u00e7assem para outras Cubas ou novos Vietn\u00e3s.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao ver o processo brasileiro, em que milh\u00f5es tomaram as ruas em 84, Moreno vaticina que estava iniciando a revolu\u00e7\u00e3o (democr\u00e1tica) brasileira, achava que havia se aberto uma crise revolucion\u00e1ria e que os militares e a ditadura haviam perdido o controle do processo, embora avaliasse ter sido um processo menos profundo que o argentino, porque n\u00e3o colocou em completa crise as For\u00e7as Armadas, pilar do Estado burgu\u00eas. N\u00e3o existiu uma crise revolucion\u00e1ria e nem completo descontrole, e Moreno errou nisso. Mas, de fato, foi aberto ali um processo muito menos controlado do que o da Espanha, por exemplo (que tinha uma dire\u00e7\u00e3o de massas firmando o Pacto de la Moncloa). No Brasil, ao contr\u00e1rio, esse momento n\u00e3o foi o come\u00e7o do ocaso de um PC de massas e da reconstru\u00e7\u00e3o de um PSOE pelas m\u00e3os da burguesia, mas sim do surgimento do \u00fanico partido de massas com corte de classe do p\u00f3s-Guerra, como constata Perry Anderson. O PT nascente, votou contra a Constitui\u00e7\u00e3o que saiu da Constituinte de 88 (a mais avan\u00e7ada que o Brasil j\u00e1 teve). O processo acabou sendo controlado, as For\u00e7as Armadas sa\u00edram intactas e, inclusive, mantiveram um entulho autorit\u00e1rio na Constitui\u00e7\u00e3o, que hoje faz diferen\u00e7a, como vimos na tentativa de golpe de Bolsonaro, quase 40 anos depois.<\/p>\n\n\n\n<p>A transi\u00e7\u00e3o brasileira n\u00e3o foi, com certeza, como a argentina. Mas isso n\u00e3o significa que tenha sido a transi\u00e7\u00e3o pactuada por cima, sem mais, preparada milimetricamente pelos militares e a burguesia. Ao contr\u00e1rio, os anos que v\u00e3o de 84 a 89 s\u00e3o os que alcan\u00e7aram os mais altos \u00edndices de participa\u00e7\u00e3o direta da classe oper\u00e1ria e do \u201cpovo\u201d na vida do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Moreno erra ao confundir, ou dar a entender, que a situa\u00e7\u00e3o pr\u00e9-revolucion\u00e1ria j\u00e1 \u00e9 revolucion\u00e1ria e que se abriu uma crise revolucion\u00e1ria. Mas tem toda a raz\u00e3o sobre a din\u00e2mica da luta de classes no Brasil, e por isso foi capaz de armar a constru\u00e7\u00e3o de uma das organiza\u00e7\u00f5es trotskistas mais oper\u00e1rias e mais enraizadas num processo objetivo e hist\u00f3rico de um pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>A situa\u00e7\u00e3o pr\u00e9-revolucion\u00e1ria de fato foi desviada pelos mecanismos da rea\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, mas com idas e vindas foi se fechar anos depois, tendo participa\u00e7\u00e3o decisiva do PT, que, do papel relativamente progressivo que cumpriu nos 80, passou a cumprir um papel totalmente contrarrevolucion\u00e1rio p\u00f3s-89, indo ao pacto com Collor.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Erros de Moreno, erros nossos (da LIT e do PSTU) e erros da FT\/MRT<\/h4>\n\n\n\n<p>O texto dos companheiros do MRT\/FT diz que \u201cn\u00e3o vamos \u00e0 raiz\u201d dos nossos erros, que eles debitam \u00e0 sua interpreta\u00e7\u00e3o de que Nahuel Moreno n\u00e3o defenderia a teoria da Revolu\u00e7\u00e3o Permanente e sim da \u201cRevolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica\u201d, sendo, portanto, etapista.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, dizem que a Moreno teria escapado a pol\u00edtica de rea\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica do imperialismo. Mas, como dissemos, n\u00e3o \u00e9 verdade que Moreno n\u00e3o defende a teoria da Revolu\u00e7\u00e3o Permanente, e tamb\u00e9m nos parece at\u00e9 um desconhecimento das obras de Moreno afirmar que tenha escapado a Moreno a pol\u00edtica de rea\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica do imperialismo (quando esse termo foi inclusive cunhado por ele).<\/p>\n\n\n\n<p>Avaliamos na LIT-QI (e no PSTU), que um dos erros importantes de Moreno, contraditoriamente, adveio de lhe ter escapado um fato perante o qual, devemos dizer, ele estava teoricamente mais preparado. At\u00e9 a FT reivindica o livro A Ditadura Revolucion\u00e1ria do Proletariado, onde Moreno, contra Mandel, defende que a burocracia n\u00e3o tem uma dupla natureza, e que a restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo deve partir dela.<\/p>\n\n\n\n<p>Moreno viveu um enorme ascenso de massas na Am\u00e9rica Latina, no qual ergueu importantes partidos, sem descuidar de processos como a Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos ou o processo da Espanha. Mas Moreno n\u00e3o viu a restaura\u00e7\u00e3o capitalista na China em 78 e nem na URSS em 86, apesar da grande elabora\u00e7\u00e3o e acerto te\u00f3rico que tinha sobre esse tema.<\/p>\n\n\n\n<p>Avaliamos na LIT que um dos nossos erros datam das Teses de 1985 e de uma an\u00e1lise hist\u00f3rica, da terceira etapa, na qual, supostamente, teria se mantido uma correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as est\u00e1vel em escala mundial desde 1943 at\u00e9 1989-1990.<\/p>\n\n\n\n<p>Em \u201cSobre as Etapas\u201d, um texto votado em 2017 pela LIT-QI e que pode ser acessado&nbsp;<a href=\"https:\/\/archivoleontrotsky.org\/view?mfn=23753\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>, \u00e9 poss\u00edvel ao leitor ter acesso \u00e0 totalidade dessa avalia\u00e7\u00e3o, a qual reproduzimos a seguir apenas uma parte, de maneira muito resumida.<\/p>\n\n\n\n<p>Ocorre, que h\u00e1 um aspecto do qual n\u00e3o fomos conscientes at\u00e9 muito tempo depois e que teve uma import\u00e2ncia decisiva para o desenvolvimento dos acontecimentos: o giro restauracionista da burocracia stalinista, primeiro na China, a partir de 1978, com as Quatro Moderniza\u00e7\u00f5es, e depois na URSS, a partir 1986, com a Perestroika.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir do momento em que a burocracia colocou em marcha um plano consciente de restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo, sua pol\u00edtica exterior deixou de se basear na manuten\u00e7\u00e3o do pacto de coexist\u00eancia pac\u00edfica do final da Segunda Guerra Mundial para buscar, diretamente, um pacto de integra\u00e7\u00e3o, sem disfarces, ao sistema mundial de Estados e \u00e0 divis\u00e3o mundial do trabalho, dominados pelo imperialismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, ap\u00f3s a viagem do ent\u00e3o primeiro-ministro da Rep\u00fablica Popular da China, Deng Xiaoping, a Washington, em 1979, produziram-se dois fatos fundamentais: os investimentos da Coca-Cola e da Boeing na China, abrindo caminho para uma onda generalizada de investimentos das grandes transnacionais, e a invas\u00e3o do Vietn\u00e3 pelo ex\u00e9rcito chin\u00eas, atuando como apoio direto ao imperialismo norte-americano para estabilizar o Sudeste da \u00c1sia.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u201cesfor\u00e7o de moderniza\u00e7\u00e3o da economia chinesa\u201d n\u00e3o era nada al\u00e9m de um plano consciente de destrui\u00e7\u00e3o dos pilares econ\u00f4micos do Estado oper\u00e1rio burocratizado. J\u00e1 n\u00e3o est\u00e1vamos diante de um Estado oper\u00e1rio, mas sim de um Estado burgu\u00eas a servi\u00e7o direto da restaura\u00e7\u00e3o capitalista (O Veredito da Hist\u00f3ria, Mart\u00edn Hern\u00e1ndez). \u201cO bilhete de entrada da China na ordem capitalista mundial\u201d, que teve seu pacto de sangue na invas\u00e3o ao Vietn\u00e3, teve, da mesma forma, outras express\u00f5es, como a colabora\u00e7\u00e3o militar com o imperialismo na \u00c1frica (Angola) ou o reconhecimento da ditadura de Marcos, nas Filipinas, e a de Pinochet no Chile.<\/p>\n\n\n\n<p>O plano de restaura\u00e7\u00e3o na URSS, colocado em marcha com a Perestroika, em 1986, logo teve seu reflexo tamb\u00e9m na pol\u00edtica exterior da burocracia sovi\u00e9tica, que empreendeu uma linha ativa de normaliza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es internacionais com o imperialismo norte-americano, que culminaria nos Acordos de Washington em 1987. A assinatura do Acordo de Esquipulas nesse mesmo ano, liquidando a revolu\u00e7\u00e3o nicaraguense e centro-americana, foi uma importante pe\u00e7a desta pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>A plena incorpora\u00e7\u00e3o de milh\u00f5es de trabalhadores chineses ao mercado mundial n\u00e3o s\u00f3 permitia \u00e0s grandes corpora\u00e7\u00f5es imperialistas baratear notavelmente o custo de seus produtos e incrementar seus lucros, mas pressionou decisivamente a baixa dos sal\u00e1rios dos trabalhadores de todo o mundo, nos pa\u00edses imperialistas e nos pa\u00edses semicoloniais.<\/p>\n\n\n\n<p>Era o in\u00edcio da globaliza\u00e7\u00e3o, que inaugurava uma nova divis\u00e3o mundial do trabalho, integrando a China e sua enorme classe oper\u00e1ria ao mercado mundial. O dec\u00e1logo da globaliza\u00e7\u00e3o seria sacramentado em 1988 no conhecido Consenso de Washington, que unificou os organismos multilaterais imperialistas (FMI, Banco Mundial etc.), definindo as medidas do programa neoliberal: libera\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio e das travas para investimento estrangeiro, corte dos gastos p\u00fablicos, garantia do super\u00e1vit prim\u00e1rio para assegurar o pagamento da d\u00edvida, privatiza\u00e7\u00f5es generalizadas e desregulamenta\u00e7\u00e3o do sistema financeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma vez que a burocracia colocou em marcha os planos de restaura\u00e7\u00e3o capitalista, sua a\u00e7\u00e3o mudou de natureza. J\u00e1 n\u00e3o se tratava da continuidade da velha pol\u00edtica contrarrevolucion\u00e1ria para cumprir os pactos com o imperialismo, mas sim de uma pol\u00edtica diretamente a servi\u00e7o de sua plena inser\u00e7\u00e3o no mercado mundial imperialista. Se a China j\u00e1 n\u00e3o era um Estado oper\u00e1rio desde 1978, a invas\u00e3o do Vietn\u00e3 e o apoio militar \u00e0 guerrilha contrarrevolucion\u00e1ria angolana j\u00e1 eram atos de um Estado burgu\u00eas restauracionista. A partir de 1986, a atua\u00e7\u00e3o da burocracia russa nos \u201cconflitos regionais\u201d da \u201cguerra fria\u201d obedecia ao mesmo padr\u00e3o. Um dos pilares do per\u00edodo aberto em 1943, o pacto contrarrevolucion\u00e1rio entre o imperialismo e a burocracia era substitu\u00eddo por um \u201cnovo pacto\u201d de submiss\u00e3o, que afetou por completo os aparatos burocr\u00e1ticos que estavam encabe\u00e7ando os principais enfrentamentos na Am\u00e9rica Latina, na \u00c1frica e na \u00c1sia.<\/p>\n\n\n\n<p>A contraofensiva liderada por Reagan e Thatcher, iniciada nos anos 1980, foi colhendo vit\u00f3rias por pontos que, combinadas com o giro restauracionista da burocracia chinesa em 1978 (e, mais tarde, 1986, da russa), conseguiu vit\u00f3rias importantes do imperialismo que mudaram a situa\u00e7\u00e3o. Isso come\u00e7ou a inverter a curva descendente do final do boom, deu andamento a uma recupera\u00e7\u00e3o das taxas de lucro e preparou a decolagem dos anos 1990 (que incluiu a semicoloniza\u00e7\u00e3o \u2013 via Uni\u00e3o Europeia \u2013 dos pa\u00edses do Leste Europeu, onde o capitalismo tinha sido restaurado).<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto subvalorizamos tamb\u00e9m a forte derrota da greve mineira brit\u00e2nica pelas m\u00e3os do governo de Margaret Thatcher. Essa derrota golpeava profundamente uma das classes oper\u00e1rias mais importantes da Europa e incidia com for\u00e7a no continente inteiro. Vinha, al\u00e9m disso, depois da grave derrota dos controladores a\u00e9reos, em 1981, nos EUA, no in\u00edcio do mandato de Reagan.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao n\u00e3o enxergar esse processo, v\u00edamos que mesmo os ataques de Reagan e Tatcher tinham um tempo curto de validade, diminuindo a devida import\u00e2ncia ao fator chave da crise de dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria. Por outro lado, mesmo se a situa\u00e7\u00e3o fosse revolucion\u00e1ria na Am\u00e9rica Latina, os resultados da luta sempre devem estar sujeitos a progn\u00f3sticos alternativos, j\u00e1 que dependem, de maneira decisiva, da dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das classes em luta. As Teses de 85 s\u00e3o unilaterais, Moreno morre em 1987 e o MAS elabora as Teses objetivistas de 90.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s da LIT s\u00f3 identificamos corretamente a restaura\u00e7\u00e3o capitalista ap\u00f3s alguns anos da explos\u00e3o do MAS, precisamente em 95 (ver o livro Veredicto da Hist\u00f3ria). O que significou um importante avan\u00e7o na nossa elabora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas custamos em ver, al\u00e9m de outras quest\u00f5es ou limites importantes, todo efeito da mudan\u00e7a da divis\u00e3o mundial do trabalho ocorrida no mundo e, o papel de exportador de commodities especialmente da Am\u00e9rica do Sul e como isso (junto com os sucessivos \u201cajustes neoliberais\u201d) teria profundas consequ\u00eancias estruturais nos pa\u00edses, nas classes sociais, etc.<\/p>\n\n\n\n<p>Recentemente, em 2023, tamb\u00e9m com atraso, chegamos \u00e0 conclus\u00e3o de que a China \u00e9 uma pot\u00eancia imperialista emergente, assim como a R\u00fassia, a segunda pot\u00eancia militar do planeta, \u00e9 uma pot\u00eancia imperialista regional. E no Brasil, tamb\u00e9m com certo atraso, estamos construindo um programa de transi\u00e7\u00e3o mais concreto para o pa\u00eds, a partir de atualizar os desafios da revolu\u00e7\u00e3o permanente brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p>Pensamos que a FT\/MRT est\u00e3o mais atrasados do que n\u00f3s em toda elabora\u00e7\u00e3o sobre o mundo de hoje, o que leva a erros graves, como, por exemplo, n\u00e3o defender uma mobiliza\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica da juventude cubana (e LGBTI\u2019s) contra uma ditadura capitalista, associada a diversos imperialismos (exceto o norte-americano).<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o somos arrogantes, nem consideramos que temos todas as respostas. Ao mesmo tempo, consideramos que a nossa dire\u00e7\u00e3o, e tamb\u00e9m as demais dire\u00e7\u00f5es de todas as demais organiza\u00e7\u00f5es que vieram do morenismo, somos todos muito inferiores ao que foi Moreno em sua \u00e9poca. Somos pass\u00edveis de cometer muito mais erros e unilateralidades do que Moreno. Isso n\u00e3o quer dizer que nos conformemos com isso, pelo contr\u00e1rio. Mas n\u00f3s levamos muito a s\u00e9rio que precisamos ser cada dia mais oper\u00e1rios, mais marxistas e mais internacionalistas. E que, para isso, precisamos ter capacidade de encarar de frente nossos erros e lutar para corrigi-los.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, sinceramente, e com todo o respeito, n\u00e3o vemos que basta apontar, como faz a FT, que n\u00e3o estamos em uma etapa (ou o nome que queiramos dar), em que n\u00e3o vai haver \u201cfevereiros que expropriam\u201d e voltar \u00e0 norma de Trotsky (o que todos j\u00e1 sabemos), para responder os desafios do nosso tempo. N\u00e3o vivemos hoje nos anos 50 e 60. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o vivemos nos anos 30 e 40. Defendemos a atualidade da Revolu\u00e7\u00e3o Permanente, como Moreno tamb\u00e9m o fez. Mas, insistimos que esquemas, sejam objetivistas ou subjetivistas, como avaliamos serem as formula\u00e7\u00f5es do MRT\/FT, n\u00e3o respondem \u00e0 realidade, e \u00e0 necessidade de forjar uma dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria e oper\u00e1ria nos processos tais quais ocorrem hoje, formulando um verdadeiro programa de transi\u00e7\u00e3o para a realidade tal qual ela \u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>E pensamos que as respostas da FT e do MRT aos principais desafios postos hoje no mundo, especialmente \u00e0s revolu\u00e7\u00f5es, s\u00e3o equivocadas. A ambi\u00e7\u00e3o de Moreno de responder de forma revolucion\u00e1ria \u00e0 realidade, buscando construir partidos revolucion\u00e1rios com influ\u00eancia e capacidade de incid\u00eancia no movimento de massas \u00e9 nossa ambi\u00e7\u00e3o, e um desafio enorme.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">3 \u2013 Nossas pol\u00eamicas sobre Palestina, Ucr\u00e2nia, Revolu\u00e7\u00f5es \u00c1rabes e Brasil<\/h4>\n\n\n\n<p>Para a FT, ao contr\u00e1rio de L\u00eanin e Trotsky, n\u00e3o se pode falar de revolu\u00e7\u00f5es se for\u00e7as pequeno-burguesas ou at\u00e9 burguesas lideram a luta das massas, ou se for\u00e7as imperialistas nelas interv\u00e9m. Com esse crit\u00e9rio n\u00e3o reconheceram as revolu\u00e7\u00f5es \u00e1rabes e t\u00eam uma postura abstencionista nos processos revolucion\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin dizia: \u201c<em>Quem espere a revolu\u00e7\u00e3o pura n\u00e3o a ver\u00e1 jamais. Ser\u00e1 um revolucion\u00e1rio de palavra, que n\u00e3o compreende a verdadeira revolu\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A FT trabalha com a concep\u00e7\u00e3o de revolu\u00e7\u00e3o pura e se abst\u00e9m de disputar os rumos das revolu\u00e7\u00f5es reais, dos processos revolucion\u00e1rios que podem ter in\u00fameros desfechos: serem aplastadas, derrotadas por pontos, obterem alguma vit\u00f3ria parcial ou incompleta, ou se tiverem uma dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria que seja capaz de acertar no processo e influenciar a maioria da vanguarda e das massas, pode ser vitoriosa.<\/p>\n\n\n\n<p>A FT transforma a teoria da Revolu\u00e7\u00e3o Permanente em um dogma normativo. Se o processo n\u00e3o corresponde ao \u201cmodelo cl\u00e1ssico\u201d, n\u00e3o \u00e9 revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A LIT-QI reconhece que cometeu um erro grave no Egito no decorrer do processo, do qual faz autocr\u00edtica. Mas isso n\u00e3o nega que houve uma revolu\u00e7\u00e3o no Egito e tamb\u00e9m que L\u00edbia, S\u00edria, Tun\u00edsia, etc., viveram um processo revolucion\u00e1rio, e que era preciso estar com as massas na revolu\u00e7\u00e3o para disputar a sua dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Por uma Palestina livre do rio ao mar<\/h4>\n\n\n\n<p>Consideramos erradas tamb\u00e9m as posi\u00e7\u00f5es da FT e do MRT sobre a Palestina e sobre a guerra da Ucr\u00e2nia. Em ambos processos a FT demonstra que tem enorme dificuldade em trabalhar com as quest\u00f5es democr\u00e1ticas. E na Palestina, especialmente, na nossa opini\u00e3o, demonstra n\u00e3o entender a Teoria da Revolu\u00e7\u00e3o Permanente e nem a metodologia do Programa de Transi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A nossa pol\u00eamica, da LIT, com a FT sobre a Palestina \u00e9 tomada muito bem&nbsp;<a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/la-fraccion-trotskista-y-su-postura-en-la-guerra-de-gaza\/\">nesse artigo<\/a>&nbsp;de V\u00edctor Alay, do qual extra\u00edmos uma parte para esse nosso artigo.<\/p>\n\n\n\n<p>Pensamos que, em abstrato, todos temos acordo em ser parte da Resist\u00eancia Palestina e, unidos no seu campo militar, n\u00e3o implica em acordo e apoio pol\u00edtico \u00e0 dire\u00e7\u00e3o do Hamas. Mas, isso n\u00e3o quer dizer, que qualquer cr\u00edtica ao Hamas \u00e9 v\u00e1lida.<\/p>\n\n\n\n<p>Um aspecto que a FT critica duramente \u00e9 a tomada de prisioneiros de guerra (mal chamados ref\u00e9ns) pelos milicianos palestinos. Mas a crise pol\u00edtica em Israel, provocada pelos familiares dos prisioneiros demonstra a utilidade pol\u00edtica desse m\u00e9todo.<\/p>\n\n\n\n<p>Os companheiros argumentam que um dos grandes motivos dessa sua cr\u00edtica aos \u201cm\u00e9todos do Hamas\u201d \u00e9 porque considera estes um grande obst\u00e1culo para a confraterniza\u00e7\u00e3o entre os palestinos e a classe trabalhadora israelense. E, apesar de reconhecerem que a classe trabalhadora israelense \u00e9 majoritariamente sionista, e que joga um papel fundamental na coloniza\u00e7\u00e3o e no regime de apartheid, em apoio \u00e0 limpeza \u00e9tnica, dizem que a confraterniza\u00e7\u00e3o entre os palestinos e os trabalhadores e a juventude israelense \u00e9 \u201ca \u00fanica possibilidade de emancipa\u00e7\u00e3o para ambos povos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema dessa tese da FT \u00e9 que o sionismo \u00e9, sobretudo, um Estado colonial e terrorista criado sobre o roubo das terras dos palestinos e da sua limpeza \u00e9tnica, um Estado com um sistema de apartheid. A maioria dos israelenses, incluindo seus trabalhadores, \u00e9 uma popula\u00e7\u00e3o que veio do exterior e que vive sobre uma terra roubada. O Estado de Israel \u00e9 um enclave militar dos EUA em uma regi\u00e3o estrat\u00e9gica do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma Palestina laica, democr\u00e1tica e n\u00e3o racista, do rio ao mar, s\u00f3 pode ter lugar sobre a destrui\u00e7\u00e3o do Estado de Israel (uma formula\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria que n\u00e3o vemos nos textos da FT), como diz V\u00edctor Alay. Isto significa que s\u00f3 haver\u00e1 uma minoria de judeus n\u00e3o sionistas que aceitar\u00e3o conviver em paz e igualdade de direitos com os palestinos, em uma Palestina laica, democr\u00e1tica e n\u00e3o racista.<\/p>\n\n\n\n<p>A vit\u00f3ria sobre o Estado de Israel vir\u00e1 da luta do povo palestino, inclu\u00edda a luta armada, da solidariedade ativa dos povos dos pa\u00edses \u00e1rabes e isl\u00e2micos da regi\u00e3o (que dever\u00e3o se enfrentar com suas covardes burguesias) e da solidariedade dos trabalhadores e da juventude do resto do mundo. Por suposto, a colabora\u00e7\u00e3o de uma pequena minoria israelense anti-sionista ser\u00e1 sem d\u00favida relevante, mas defender que a confraterniza\u00e7\u00e3o \u00e9 \u201ca \u00fanica possibilidade de emancipa\u00e7\u00e3o de ambos povos\u201d \u00e9 um erro grave.<\/p>\n\n\n\n<p>T\u00e3o ou mais grave \u00e9 o recha\u00e7o da FT em defender a consigna \u201cPalestina laica, democr\u00e1tica e n\u00e3o racista, do rio ao mar\u201d. A FT n\u00e3o se sente c\u00f4moda com esta palavra de ordem hist\u00f3rica e central do trotskismo ante o conflito palestino e a substituiu por uma \u201cPalestina Oper\u00e1ria e Socialista\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Os companheiros da FT pensam que defender a palavra de ordem \u201cPalestina laica, democr\u00e1tica e n\u00e3o racista, do rio ao mar\u201d equivale a defender uma \u201cetapa democr\u00e1tica\u201d e renunciar ao car\u00e1ter socialista da revolu\u00e7\u00e3o palestina. Mas se equivocam totalmente, porque essa palavra de ordem na atualidade \u00e9 a principal palavra de ordem do programa para a revolu\u00e7\u00e3o socialista na Palestina e em toda a regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao inv\u00e9s de integrar esta palavra de ordem em um programa de transi\u00e7\u00e3o, de combin\u00e1-la com demandas econ\u00f4micas e sociais, transit\u00f3rias e socialistas, e de dar uma dimens\u00e3o regional e internacional \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o palestina (que culmina na luta por uma federa\u00e7\u00e3o socialista do Oriente M\u00e9dio e Norte da \u00c1frica), a FT a substitui por uma \u201cPalestina oper\u00e1ria e socialista\u201d. Isso representa um ultimato sect\u00e1rio que impede construir a unidade e a luta das massas palestinas, da regi\u00e3o e a unidade destas com as massas pr\u00f3-palestinas de todo o mundo e, tamb\u00e9m, com a pequena e valente minoria judaica israelense antissionista. Equivale a lhes impor como condi\u00e7\u00e3o que estejam de acordo com uma Palestina oper\u00e1ria e socialista, em lugar de dar passos juntos e conduzi-las pelo caminho da revolu\u00e7\u00e3o socialista a partir da luta comum por uma Palestina democr\u00e1tica, laica e n\u00e3o racista, do rio ao mar. Na verdade, essa posi\u00e7\u00e3o da FT reflete uma profunda incompreens\u00e3o do que significa a revolu\u00e7\u00e3o permanente, e se choca com a metodologia do Programa de Transi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Trotsky diz no Programa de Transi\u00e7\u00e3o que nos \u201cpa\u00edses atrasados\u201d temos que \u201ccombinar a luta pelas tarefas mais elementares da independ\u00eancia nacional e da democracia burguesa com a luta socialista contra o imperialismo mundial\u201d. E agrega \u201cas demandas democr\u00e1ticas, transit\u00f3rias e as tarefas da revolu\u00e7\u00e3o socialista n\u00e3o est\u00e3o separadas em \u00e9pocas hist\u00f3ricas distintas, e sim surgem imediatamente umas das outras\u201d.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Esta mesma metodologia aplicou Trotsky na Espanha em princ\u00edpios dos anos 30, em plena luta contra a monarquia, quando escrevia aos trotskistas espanh\u00f3is chamando-os a p\u00f4r-se \u00e0 frente da luta pelas reivindica\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas: \u201c<em>N\u00e3o compreender isto seria cometer a maior falta sect\u00e1ria. Colocando \u00e0 frente as consignas democr\u00e1ticas, o proletariado n\u00e3o quer com isso dizer que Espanha vai para a revolu\u00e7\u00e3o burguesa. S\u00f3 poderiam colocar assim a quest\u00e3o frios pedantes recheados de f\u00f3rmulas rotineiras<\/em>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Ucr\u00e2nia<\/h4>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m pode negar a interven\u00e7\u00e3o dos EUA e da UE na guerra da Ucr\u00e2nia, assim como o car\u00e1ter pr\u00f3-imperialista e anti-oper\u00e1rio de Zelensky. Mas o problema \u00e9 que isso n\u00e3o elimina o fato de que estamos perante uma guerra de agress\u00e3o nacional da segunda pot\u00eancia militar do mundo contra uma na\u00e7\u00e3o semicolonial \u00e0 qual quer submeter pela viol\u00eancia. Uma guerra, cujo objetivo \u00e9 o controle militar, econ\u00f4mico e pol\u00edtico de um pa\u00eds, que tem recursos, os quais Putin considera essenciais para seu projeto imperialista de Grande R\u00fassia, inspirado no antigo imp\u00e9rio Czarista. Estamos perante uma guerra justa de liberta\u00e7\u00e3o nacional contra um imperialismo regional e seu ex\u00e9rcito invasor.<\/p>\n\n\n\n<p>Os revolucion\u00e1rios devem, portanto, estar incondicionalmente no campo militar da Ucr\u00e2nia e lutar pela vit\u00f3ria militar da na\u00e7\u00e3o oprimida e invadida, sem que isto implique nenhum tipo de apoio pol\u00edtico a Zelensky, nem \u00e0 Otan. Pelo contr\u00e1rio, \u00e9 preciso denunciar seus planos e manobras e trabalhar pela organiza\u00e7\u00e3o independente do proletariado ucraniano frente \u00e0 Zelensky, \u00e0 Otan, \u00e0 UE e ao FMI.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas esse enfrentamento pol\u00edtico com Zelensky, e pela independ\u00eancia pol\u00edtica e organizativa do proletariado ucraniano, devemos fazer, sendo no campo militar, \u201cos melhores soldados contra Putin\u201d. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel desmascarar a Otan, nem Zelensky fora das trincheiras ucranianas, ou com uma postura de \u201cnem-nem\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A FT denuncia a guerra da Ucr\u00e2nia como uma guerra reacion\u00e1ria desde o in\u00edcio, como uma guerra interimperialista (ou uma \u201cguerra por procura\u00e7\u00e3o\u201d dos EUA e da UE\/Otan contra a R\u00fassia de Putin), como se n\u00e3o existisse uma guerra justa de liberta\u00e7\u00e3o nacional. Ao ponto de se colocar contr\u00e1ria \u00e0 entrega de armas \u00e0 Ucr\u00e2nia. Fez, inclusive, campanha de agita\u00e7\u00e3o na Europa em defesa de \u201cnenhum tanque para Ucr\u00e2nia\u201d. S\u00e3o coisas muito diferentes o envio de tropas imperialistas, o que todo mundo deve se opor frontalmente, e envio de armas para os combatentes de uma guerra justa. Putin deve ter ficado agradecido com a campanha da FT.<\/p>\n\n\n\n<p>Nem a UE, nem os EUA entregaram as armas necess\u00e1rias \u00e0 defesa da Ucr\u00e2nia. Isso fica ainda mais n\u00edtido agora, com a interven\u00e7\u00e3o de Trump e dos EUA em favor de Putin e de uma \u201cpaz com anexa\u00e7\u00f5es\u201d. Para aprofundar sobre essa quest\u00e3o, indicamos&nbsp;<a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/la-fraccion-trotskista-el-contraste-entre-gaza-y-ucrania\">este artigo<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Brasil 2016: n\u00e3o teve golpe<\/h4>\n\n\n\n<p>O MRT reproduz a narrativa do PT de que ocorreu um \u201cgolpe\u201d no Brasil em 2016, quando Dilma Rousseff sofreu impeachment (um mecanismo do regime democr\u00e1tico burgu\u00eas para mudar governos e impedir maior crise do regime).<\/p>\n\n\n\n<p>O MRT soma-se ao PT e ao PSOL e calunia o PSTU como apoiador de um golpe no Brasil. O que o MRT n\u00e3o faz \u00e9 explicar a realidade do Brasil em sua totalidade. Omitindo partes centrais da hist\u00f3ria, ajuda a livrar a cara do PT que governou por 14 anos ininterruptos o pa\u00eds, nos marcos do Consenso de Washington.<\/p>\n\n\n\n<p>O que o MRT omite na sua narrativa e na sua an\u00e1lise? Primeiro que a classe oper\u00e1ria e a classe trabalhadora se voltaram de vez contra Dilma porque o seu governo promoveu um verdadeiro estelionato eleitoral. Depois de prometer, na campanha eleitoral de 2014, que n\u00e3o retiraria direitos \u201cnem que a vaca tussa\u201d, nomeou um ministro banqueiro para aplicar o projeto neoliberal que a burguesia exigia, retirando direitos trabalhistas (isso se somou \u00e0s den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o). A classe oper\u00e1ria, especialmente do Sul e do Sudeste, se virou em mais de 80% contra o governo, assim como o grosso da classe trabalhadora. O governo Dilma se tornou um dos governos mais impopulares da hist\u00f3ria do pa\u00eds, caindo para apenas 6% de popularidade. Os setores m\u00e9dios sa\u00edram \u00e0s ruas em 2015 sob dire\u00e7\u00e3o dos liberais contra Dilma (ainda que n\u00e3o pela pauta dos liberais; a maioria era contra as privatiza\u00e7\u00f5es e a favor dos servi\u00e7os p\u00fablicos). A direita bolsonarista, com 1,5% de apoio e muito minorit\u00e1ria entrou tamb\u00e9m nas manifesta\u00e7\u00f5es (o que tinha feito de outra forma tamb\u00e9m em 2013).<\/p>\n\n\n\n<p>A maioria da burguesia que, de in\u00edcio, era contra o impeachment, se deslocou majoritariamente em favor do impeachment, para colocar no lugar de Dilma, seu vice, do MDB, Michel Temer, na medida em que Dilma perdeu a capacidade de seguir aplicando todo o receitu\u00e1rio que ela queria. O PSTU foi contra o impeachment, porque significaria tirar um governo de colabora\u00e7\u00e3o de classes para colocar um democr\u00e1tico burgu\u00eas pela a\u00e7\u00e3o do parlamento e disse isso aos trabalhadores; mas concordamos com os trabalhadores que esse governo era muito ruim e que precisar\u00edamos nos mobilizar para tirar todos eles, incluindo o vice e permitir, no m\u00ednimo, novas elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Temer (MDB), o vice da Dilma (PT), diga-se de passagem, n\u00e3o foi evidentemente escolhido pelo PSTU, mas pelo PT. E como diz o ditado popular, \u201cJabuti n\u00e3o sobe em \u00e1rvore, se algum estiver em cima de uma \u00e9 porque algu\u00e9m o colocou l\u00e1\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O impeachment e as manobras parlamentares e mesmo a luta judicial est\u00e3o dentro das regras do regime democr\u00e1tico burgu\u00eas. Tanto n\u00e3o teve golpe algum, que fica dif\u00edcil ao MRT explicar como ap\u00f3s um golpe (brando?) a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as, ao inv\u00e9s de retroceder avan\u00e7a? Como o MRT explica a maior Greve Geral do Brasil em 2017, ap\u00f3s a grande derrota imposta por \u201cum golpe\u201d? Acontece que o MRT usa a mesma narrativa do PT de que Bolsonaro \u00e9 produto do \u201cgolpe de 2016\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, na verdade, Bolsonaro, se do ponto de vista hist\u00f3rico \u00e9 produto de mais de 20 anos de governos do PSDB e do PT e da decep\u00e7\u00e3o com o PT, do ponto de vista espec\u00edfico da conjuntura, \u00e9 produto direto da n\u00e3o continuidade da Greve Geral de 2017, por responsabilidade da burocracia sindical e especialmente da CUT e do PT.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa narrativa de que impeachment \u00e9 golpe, e de debitar essencialmente a um movimento reacion\u00e1rio a crise do governo Dilma, al\u00e9m de tudo o mais, n\u00e3o ajuda a armar corretamente a vanguarda e a classe trabalhadora, para quando aparece na realidade um verdadeiro projeto golpista e uma tentativa verdadeira de golpe, como foi a tentativa bolsonarista de 8 J.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais impressionante ainda \u00e9 que n\u00e3o consiga explicar porque o PT se d\u00e1 t\u00e3o bem com tantos supostos \u201cgolpistas\u201d, como Renan Calheiros (MDB) ou Geraldo Alckmin, atual vice de Lula (ex PSDB, hoje PSB) e tantos outros, que hoje comp\u00f5em o seu governo.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">4 \u2013 Porque somos Morenistas<\/h4>\n\n\n\n<p>Ser morenista n\u00e3o significa repetir f\u00f3rmulas prontas nem negar erros eventualmente cometidos. Significa reivindicar um m\u00e9todo antidogm\u00e1tico profundamente enraizado no marxismo revolucion\u00e1rio, que parte da realidade viva da luta de classes para formular o programa e a pol\u00edtica. Essa heran\u00e7a \u00e9 o oposto do formalismo que caracteriza a FT.<\/p>\n\n\n\n<p>A FT diz que supera Moreno dialeticamente, porque reivindica duas de suas obras, A Ditadura Revolucion\u00e1ria do Proletariado e A Trai\u00e7\u00e3o da OCI (publicada no Brasil pela editora Sundermann com o nome \u201cOs governos de Frente Popular na Hist\u00f3ria\u201d).<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o dois grandes livros, mas n\u00e3o s\u00e3o as \u00fanicas elabora\u00e7\u00f5es de Nahuel Moreno que n\u00f3s reivindicamos. Moreno foi, do nosso ponto de vista, o trotskista do p\u00f3s-Guerra que n\u00e3o cedeu ao revisionismo e que melhor respondeu \u00e0 realidade do seu tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Achamos que prescindir das \u201c4 teses sobre a coloniza\u00e7\u00e3o espanhola e portuguesa da Am\u00e9rica\u201d, por exemplo, implica em um d\u00e9ficit muito importante para compreender a Am\u00e9rica Latina. Deixar de lado o \u201cMorena\u00e7o\u201d, editado no Brasil com o t\u00edtulo \u201cO Partido e a Revolu\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 prescindir de conhecer e estudar n\u00e3o apenas uma an\u00e1lise marxista de in\u00fameros pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina nos anos 70 e toda pol\u00eamica com o Mandelismo sobre a sua capitula\u00e7\u00e3o ao guerrilheirismo, mas, especialmente, deixar de ter acesso \u00e0 uma aula sobre pol\u00edtica e sobre a metodologia do programa de transi\u00e7\u00e3o. Uma vis\u00e3o dial\u00e9tica em que as tarefas m\u00ednimas, democr\u00e1ticas e transit\u00f3rias n\u00e3o cumprem tal papel em si mesmas, independente das circunst\u00e2ncias, e sim que \u201ctarefas m\u00ednimas podem cumprir papel transit\u00f3rio e tarefas transit\u00f3rias podem ter papel m\u00ednimo\u201d, a depender da luta de classes. Neste livro, Moreno tamb\u00e9m comete alguns erros. Ao envergar a vara na pol\u00eamica pol\u00edtica (o livro \u00e9 um documento de Congresso) d\u00e1 uma \u00eanfase equivocada \u00e0s palavras de ordem para a a\u00e7\u00e3o e apresenta uma vis\u00e3o limitada do papel da teoria e da propaganda. Mas, esses erros n\u00e3o inviabilizam o livro e s\u00e3o corrigidos em A Trai\u00e7\u00e3o da OCI (publicada no Brasil no livro \u201cOs governos de Frente Popular na Hist\u00f3ria\u201d pela Editora Sundermann). Ambos os livros juntos s\u00e3o uma importante aula sobre a metodologia do programa de transi\u00e7\u00e3o e sobre como fazer pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>As escolas de Moreno, ou livros como Revolu\u00e7\u00e3o e Contra Revolu\u00e7\u00e3o em Portugal, confirmam um trabalho para nada esquem\u00e1tico, em que a revolu\u00e7\u00e3o permanente \u00e9 aplicada em processos revolucion\u00e1rios n\u00e3o como um dogma. Preocupado em intervir na realidade e construir partidos revolucion\u00e1rios com capacidade de incid\u00eancia no curso dos acontecimentos e da hist\u00f3ria. E tamb\u00e9m em construir uma Internacional revolucion\u00e1ria, justamente porque a revolu\u00e7\u00e3o permanente bate de frente com a teoria stalinista do socialismo em um s\u00f3 pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Moreno n\u00e3o era para nada algu\u00e9m que achava ter uma receita ou um esquema no qual enfiar a realidade dentro. N\u00e3o operava com um esquema objetivista, nem subjetivista. Antes de mais nada, Moreno, com erros e acertos, buscou sempre entender e intervir concretamente nas revolu\u00e7\u00f5es reais.<\/p>\n\n\n\n<p>Para procurar estar \u00e0 altura do nosso tempo, da mesma forma como devemos voltar a Marx, L\u00eanin e Trotsky, devemos aprender tamb\u00e9m de Moreno.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo os que nos consideramos morenistas, e devemos a ele o tributo da nossa exist\u00eancia, estamos muito longe de superar a sua capacidade para responder ao mundo de hoje, como ele, com acertos e erros, respondeu ao seu tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas reivindicando Moreno e sendo morenistas, n\u00e3o deixaremos de criticar ou atualizar Moreno, pois ele tamb\u00e9m faria isso.<\/p>\n\n\n\n<p>E, sim, procurando n\u00e3o cair num esquema subjetivista reverso, \u00e9 preciso afastar os tra\u00e7os de objetivismo que, repetimos, n\u00e3o marcam a totalidade da obra de Moreno e nem a sua atua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O desafio que temos diante de n\u00f3s \u00e9 o mesmo que orientou a vida de Moreno: construir partidos revolucion\u00e1rios enraizados na classe, capazes de intervir nas revolu\u00e7\u00f5es reais e de disputar a sua dire\u00e7\u00e3o at\u00e9 o final.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: Mariucha Fontana e Jer\u00f4nimo Castro, do PSTU-BrasilRecentemente, dois militantes do MRT (Movimento Revolucion\u00e1rio dos Trabalhadores), a se\u00e7\u00e3o brasileira da FT (Fra\u00e7\u00e3o Trotsquista), escreveram um longo artigo \u201cDebate Os dilemas da LIT-QI em sua autocr\u00edtica a Nahuel Moreno e a atualidade da Revolu\u00e7\u00e3o Permanente\u201d partindo de polemizar com o artigo \u201cSobre as situa\u00e7\u00f5es da luta [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":81430,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"Mariucha Fontana, Jer\u00f4nimo Castro","footnotes":""},"categories":[49,10],"tags":[8803,756,904,6041],"class_list":["post-81429","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-polemica","category-teoria","tag-jeronimo-castro-2","tag-mariucha-fontana","tag-moreno","tag-mrt"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/palestina.jpg","categories_names":["Pol\u00eamica","TEORIA"],"author_info":{"name":"lena","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/b9eb35b4c023b96c29c4a145a82c6c381b68f2c889c5427106ad5aab6df45b9d?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":"Mariucha Fontana, Jer\u00f4nimo Castro","tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/81429","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=81429"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/81429\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":81431,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/81429\/revisions\/81431"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/81430"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=81429"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=81429"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=81429"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}