{"id":81403,"date":"2025-08-22T01:12:18","date_gmt":"2025-08-22T01:12:18","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=81403"},"modified":"2025-10-10T23:07:53","modified_gmt":"2025-10-10T23:07:53","slug":"leonidas-iza-somos-todxs-nos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2025\/08\/22\/leonidas-iza-somos-todxs-nos\/","title":{"rendered":"Leonidas Iza somos todxs n\u00f3s"},"content":{"rendered":"\n<p><em><sub>Este artigo, originalmente publicado na Revista Crisis, \u00e9 reproduzido aqui pela Liga Internacional dos Trabalhadores (LIT-QI) em solidariedade a Leonidas Iza, dirigente ind\u00edgena do Equador que vem sofrendo graves amea\u00e7as e persegui\u00e7\u00f5es por sua luta em defesa dos direitos do povo trabalhador e dos povos origin\u00e1rios. Consideramos fundamental dar visibilidade a sua voz e refor\u00e7ar a den\u00fancia contra toda tentativa de intimida\u00e7\u00e3o e criminaliza\u00e7\u00e3o das lutas sociais.<\/sub><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 d\u00e9cadas, vemos nosso pa\u00eds vizinho sofrer os males do Narcoestado: entre as mortes causadas pela viol\u00eancia paraestatal em setores marginalizados e os desaparecimentos e execu\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7as populares, a experi\u00eancia colombiana nos mostrou em primeira m\u00e3o que o Narcoestado representa um banho de sangue para o povo e para a organiza\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante da viol\u00eancia extrema que come\u00e7a a se abater sobre os corpos de lideran\u00e7as populares como Leonidas Iza, \u00e9 importante revisitar alguns marcos de sentido que v\u00eam sendo constru\u00eddos h\u00e1 v\u00e1rios anos, mas que s\u00f3 agora come\u00e7am a concretizar suas implica\u00e7\u00f5es e consequ\u00eancias, com muita evid\u00eancia, na vida das pessoas e na organiza\u00e7\u00e3o da sociedade civil em defesa da vida, dos direitos e dos territ\u00f3rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Em primeiro lugar, devemos entender que vivemos um momento hist\u00f3rico de extrema convuls\u00e3o, no qual as for\u00e7as imperiais que controlam o fluxo de capital \u2014 e, portanto, a pr\u00f3pria vida no planeta \u2014 disputam a distribui\u00e7\u00e3o dos recursos a controlar. A guerra interimperialista entre os BRICS e o Ocidente significa que n\u00f3s, no Sul, estamos enfrentando m\u00e1quinas mais radicais de extra\u00e7\u00e3o de mais-valia, seja humana ou extra-humana. Como esse lucro extra \u00e9 extra\u00eddo? Na forma de 1. m\u00e3o de obra barata, tanto nos centros quanto nas periferias; 2. minerais e petr\u00f3leo baratos; 3. energia e alimentos baratos; e 4. trabalhos de cuidado gratuitos.<\/p>\n\n\n\n<p>Para garantir que a explora\u00e7\u00e3o do trabalho humano e extra-humano seja suficiente para sustentar a maquinaria produtiva dos Nortes, o imperialismo exige que os Estados do Sul adotem uma forma espec\u00edfica de controle sobre o territ\u00f3rio e as popula\u00e7\u00f5es. No Equador, a forma de Estado que vem se configurando na \u00faltima d\u00e9cada resultou em um Narcoestado autorit\u00e1rio, que pode se tornar um Narcoestado fascista, se permitirmos.<\/p>\n\n\n\n<p>Por que um Narcoestado? Porque o Estado como institui\u00e7\u00e3o \u2014 do Poder Executivo ao sistema de justi\u00e7a e aos aparatos repressivos \u2014 \u00e9 permeado por estruturas ligadas a economias il\u00edcitas, como o narcotr\u00e1fico, e suas economias derivadas, como a extors\u00e3o, o tr\u00e1fico de armas e o tr\u00e1fico de pessoas. Por que um governo autorit\u00e1rio? Porque Daniel Noboa demonstrou uma centraliza\u00e7\u00e3o de poder desde muito cedo: com a declara\u00e7\u00e3o do Conflito Armado Interno em 9 de janeiro de 2024 e os subsequentes estados de emerg\u00eancia que conseguiram estabelecer o movimento e o controle permanente das For\u00e7as Armadas e da Pol\u00edcia Nacional em todo o pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse elemento \u00e9 fundamental porque corrobora que a militariza\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio tamb\u00e9m abriu um maior alcance territorial ao crime organizado, uma vez que o aparato repressivo do Estado \u00e9 altamente permeado por economias il\u00edcitas. Neste segundo mandato, Noboa conseguiu impor quatro leis econ\u00f4micas urgentes, que violam frontalmente os direitos mais b\u00e1sicos, fundindo minist\u00e9rios e secretarias. Al\u00e9m disso, imp\u00f5e-se uma narrativa que, al\u00e9m de presumir um ataque \u00e0 democracia \u2014 por mais burguesa que seja \u2014, ataca reiteradamente Leonidas Iza, a Frente Nacional Antiminera\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m o Tribunal Constitucional.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim como a burguesia e o Estado passaram por sua evolu\u00e7\u00e3o na \u00faltima d\u00e9cada, as organiza\u00e7\u00f5es populares tamb\u00e9m passaram por sua pr\u00f3pria evolu\u00e7\u00e3o. Ao longo de nossa hist\u00f3ria como organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil, Leonidas Iza Salazar emergiu como uma lideran\u00e7a popular, transcendendo dois marcos continentais da luta popular \u2014 outubro de 2019 e junho de 2022 \u2014 sua lideran\u00e7a dentro do Movimento Ind\u00edgena, para se tornar uma lideran\u00e7a popular de amplo alcance.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante do atual cen\u00e1rio turbulento, onde o Narcoestado s\u00f3 promete precariedade e morte, a \u00fanica for\u00e7a capaz de conter o avan\u00e7o perverso da superexplora\u00e7\u00e3o contra os povos e a natureza \u00e9 a organiza\u00e7\u00e3o popular. Se h\u00e1 algo em que os setores populares e a burguesia concordam, \u00e9 que Leonidas Iza Salazar representa a possibilidade de constru\u00e7\u00e3o do Poder Popular Plurinacional. Portanto, atacar a legitimidade e a vida do companheiro Leonidas \u00e9 um dos principais objetivos estrat\u00e9gicos do poder estatal, que atualmente tamb\u00e9m representa os interesses do imperialismo extrativista e das economias il\u00edcitas.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, atacar Leonidas acaba sendo tamb\u00e9m um ataque \u00e0 possibilidade de organiza\u00e7\u00e3o da sociedade civil. Em outras palavras, o Estado equatoriano, em 18 de agosto, atacou a vida de todxs. Aqueles que lutam pela terra, pela \u00e1gua, pela sa\u00fade, pela educa\u00e7\u00e3o, pelo IESS (Sistema Integrado de Seguridade Social), pelas crian\u00e7as, pelos animais, pela cultura, pelo trabalho decente, pelas institui\u00e7\u00f5es, pela vida.<\/p>\n\n\n\n<p>O quarto atentado \u00e0 vida de Leonidas Iza demonstra a intencionalidade de um dispositivo espec\u00edfico de controle social. Em \u00faltima an\u00e1lise, o discurso de \u00f3dio do capitalismo leva a cen\u00e1rios como o atual, em que mercen\u00e1rios pagos, neste caso &#8220;servidores p\u00fablicos&#8221; \u2014 que como &#8220;servidores&#8221; servem apenas para defender seus senhores e como &#8220;p\u00fablicos&#8221; s\u00f3 t\u00eam o sal\u00e1rio \u2014 atentam contra a vida da figura mais importante da organiza\u00e7\u00e3o popular equatoriana. Na verdade, s\u00e3o encarregados de executar e impor o \u00f3dio que seus donos exalam nos panfletos erroneamente rotulados como &#8220;imprensa&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Os grandes genocidas da Alemanha, quando confrontados com seus supostos crimes, negaram responsabilidade com o \u00fanico argumento de &#8220;cumprir ordens&#8221;. E assim, qualquer assassino de aluguel faz justi\u00e7a com as pr\u00f3prias m\u00e3os, executando um mandato que j\u00e1 lhe foi confiado em termos institucionais (ordem do Estado) e sociais (discurso de \u00f3dio), independentemente de pertencer a for\u00e7as repressivas regulares ou irregulares. Os discursos de \u00f3dio s\u00e3o eficazes para o poder pol\u00edtico do Estado porque generalizam seus pr\u00f3prios argumentos na opini\u00e3o p\u00fablica: s\u00f3 assim algu\u00e9m que, no sentido mais literal, est\u00e1 morrendo de fome acaba defendendo um narcotraficante que \u00e9 pessoalmente respons\u00e1vel por sua explora\u00e7\u00e3o. Este \u00e9 o dilema do pobre de direita. O \u00f3dio \u00e0 pr\u00f3pria classe se estabelece a tal ponto que o cidad\u00e3o comum acaba defendendo um exterm\u00ednio social dirigido contra si mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>A imprensa corporativa, a vanguarda midi\u00e1tica da rea\u00e7\u00e3o \u2014 elemento central na manuten\u00e7\u00e3o do poder \u2014 lava as m\u00e3os de um ato de terrorismo de Estado, a ponto de defend\u00ea-lo, legitim\u00e1-lo e at\u00e9 mesmo exigi-lo. \u201cO terrorista Iza sequestrou tr\u00eas policiais\u201d acaba repercutindo nos c\u00edrculos de opini\u00e3o digitais. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que a normaliza\u00e7\u00e3o, a distor\u00e7\u00e3o e a relativiza\u00e7\u00e3o dos fatos materiais se mostram uma constante em meio \u00e0 cortina de fuma\u00e7a que acaba sendo o \u201cNovo\u201d Equador. Se Correa e companhia estabeleceram o marketing pol\u00edtico como instrumento de controle social, e Bukele o profissionalizou, Noboa acabou por aperfei\u00e7o\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>A imund\u00edcie humana que a classe pol\u00edtica representa como um todo tamb\u00e9m se reflete no equil\u00edbrio de poder entre as classes: empres\u00e1rios s\u00e3o venerados por explorar a imensa maioria da classe trabalhadora, rotulados como plebeus subumanos a serem escravizados, enquanto nossos l\u00edderes populares s\u00e3o criminalizados, infamados e at\u00e9 assassinados, sob o mandato expresso de um Narcoestado e de uma maioria esmagadora que o aplaude.<\/p>\n\n\n\n<p>Em meio \u00e0 lucidez de um momento hist\u00f3rico em que o n\u00e3o-futuro \u00e9 hegem\u00f4nico, professado por um empres\u00e1rio megaloman\u00edaco com conota\u00e7\u00f5es napole\u00f4nicas, o infame ato do quarto atentado contra a vida do l\u00edder popular mais significativo e resoluto da hist\u00f3ria contempor\u00e2nea do Equador demonstra o seguinte: um Estado burgu\u00eas, por mais narco que possa ser ou por mais convencido que esteja de manejar um pa\u00eds inteiro como sua pr\u00f3pria fazenda, continua temendo uma classe organizada e digna, \u00e0 altura de enfrentar o explorador, sem os complexos coloniais que assolam as pessoas &#8220;de bem&#8221; e, \u00f3bvio, bem branqueadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Que a classe exploradora saiba: por tr\u00e1s do camarada Leonidas Iza, h\u00e1 um povo inteiro, pronto para defend\u00ea-lo com unhas e dentes. Leonidas Iza n\u00e3o est\u00e1 sozinho, pois soube defender com dignidade a causa justa e o projeto hist\u00f3rico da classe trabalhadora: uma sociedade de justi\u00e7a, uma sociedade bela.<\/p>\n\n\n\n<p>Leonidas Iza tem um poncho \u00e0 prova de balas chamada &#8220;povo&#8221;. Resistimos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este artigo, originalmente publicado na Revista Crisis, \u00e9 reproduzido aqui pela Liga Internacional dos Trabalhadores (LIT-QI) em solidariedade a Leonidas Iza, dirigente ind\u00edgena do Equador que vem sofrendo graves amea\u00e7as e persegui\u00e7\u00f5es por sua luta em defesa dos direitos do povo trabalhador e dos povos origin\u00e1rios. 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