{"id":81390,"date":"2025-08-15T21:36:05","date_gmt":"2025-08-15T21:36:05","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=81390"},"modified":"2025-10-10T23:08:16","modified_gmt":"2025-10-10T23:08:16","slug":"eleicoes-na-bolivia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2025\/08\/15\/eleicoes-na-bolivia\/","title":{"rendered":"Elei\u00e7\u00f5es na Bol\u00edvia"},"content":{"rendered":"\n<p>Por: Al\u00edcia Sagra<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pesquisas indicam que candidatos de direita venceriam.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em 17 de agosto, em meio a uma grave crise econ\u00f4mica, pol\u00edtica e social, ser\u00e3o realizadas elei\u00e7\u00f5es na Bol\u00edvia. 7,5 milh\u00f5es de pessoas est\u00e3o registradas para votar: presidente e vice-presidente, 36 senadores (4 por regi\u00e3o) e 130 deputados<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Oito candidatos concorrem \u00e0 presid\u00eancia. Dois deles representam fac\u00e7\u00f5es do MAS. O advogado Eduardo del Castillo, candidato oficial do MAS (o presidente Luis Arce retirou sua candidatura), de 38 anos, foi ministro de 2020 a 2025, e Andr\u00f3nico Rodr\u00edguez, de 36 anos, presidente do Senado, candidato pela Alian\u00e7a Popular, foi l\u00edder dos cocaleiros. Ele era considerado o sucessor de Evo Morales, mas atualmente os &#8220;evistas&#8221; o consideram um traidor. Evo Morales, que n\u00e3o conseguiu legalizar nenhum candidato, chama o voto nulo.<\/p>\n\n\n\n<p>Os outros seis candidatos s\u00e3o identificados com setores de direita. Entre eles, os que parecem prov\u00e1veis s\u00e3o Samuel Doria Medina, da Alian\u00e7a Unidade, e Jos\u00e9 (Tuto) Quiroga, da Alian\u00e7a Liberdade.<\/p>\n\n\n\n<p>Quiroga foi eleito vice-presidente em 1997 pela chapa de Banzer e assumiu a presid\u00eancia por 12 meses quando Banzer se aposentou devido a problemas de sa\u00fade (2001-2002). Ele se declara admirador de Milei. Anunciou a necessidade de &#8220;encolher&#8221; o Estado, aprovar uma reforma tribut\u00e1ria, eliminar subs\u00eddios, privatizar empresas estatais, criminalizar bloqueios de estradas e prender Evo Morales.<\/p>\n\n\n\n<p>Medina \u00e9 um empres\u00e1rio de La Paz, considerado o segundo maior empres\u00e1rio boliviano e um dos mais proeminentes da Am\u00e9rica Latina. Foi membro do MIR e Ministro do Planejamento (1991-1993) no governo de Jaime Paz Zamora. Agora, apresenta-se como um candidato diferente, um empres\u00e1rio que passa por cima das quest\u00f5es pol\u00edticas. Defende o fechamento de institui\u00e7\u00f5es estatais, medidas de austeridade e a suspens\u00e3o do controle de pre\u00e7os. Declara-se admirador do sistema de seguran\u00e7a imposto por Bukele em El Salvador.<\/p>\n\n\n\n<p>Por sua vez, os candidatos &#8220;de esquerda&#8221; n\u00e3o prop\u00f5em nenhuma medida anticapitalista ou minimamente anti-imperialista. Por exemplo, Andr\u00f3nico fala apenas de uma &#8220;industrializa\u00e7\u00e3o soberana&#8221; do setor de minera\u00e7\u00e3o, com planos para estabelecer a produ\u00e7\u00e3o estatal de metais como l\u00edtio, prata e cobre, juntamente com um certo grau de austeridade e a cessa\u00e7\u00e3o gradual dos subs\u00eddios aos combust\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p>A novidade \u00e9 que, pela primeira vez em 20 anos, os candidatos de direita lideram as pesquisas. Nas pesquisas realizadas em agosto, Castillo aparece com 2%, Andr\u00f3nico com 8,4%, enquanto Medina e Tuto Quiroga empatam tecnicamente com 24%. O n\u00famero de votos nulos pode chegar a 15%. Os indecisos est\u00e3o entre 5 e 14%.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por que isso est\u00e1 acontecendo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 a mesma velha hist\u00f3ria: a frustra\u00e7\u00e3o dos movimentos trabalhista e de massa com os chamados &#8220;governos progressistas&#8221; que, diante da eclos\u00e3o de uma crise econ\u00f4mica, n\u00e3o hesitam em implementar medidas imperialistas, jogando a crise sobre os ombros dos trabalhadores, dos pobres e dos despossu\u00eddos. A vit\u00f3ria eleitoral de Milei, como antes a de Bolsonaro, n\u00e3o pode ser explicada sem partir da frustra\u00e7\u00e3o com os governos kirchneristas e do Partido dos Trabalhadores. Na Bol\u00edvia, isso se agrava com a vergonhosa disputa entre Arce e Evo Morales sobre quem seria o candidato presidencial. Essa disputa incluiu a divis\u00e3o e o confronto de organiza\u00e7\u00f5es sociais, o uso de bloqueios de estradas, uma tentativa de autogolpe, acusa\u00e7\u00f5es de corrup\u00e7\u00e3o e pedofilia, confrontos com a pol\u00edcia, resultando em pris\u00f5es, feridos e mortos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como se chegou a essa situa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A exist\u00eancia de um presidente ind\u00edgena criou grandes expectativas, n\u00e3o apenas na Bol\u00edvia, mas em toda a Am\u00e9rica Latina. Como afirmamos em outros artigos, isso s\u00f3 poderia ter acontecido como um subproduto das revolu\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias e populares de 2003-2005.<\/p>\n\n\n\n<p>O governo de Evo foi aceito pela burguesia e pelo imperialismo como uma forma de desviar os processos revolucion\u00e1rios que desafiavam o poder. Esse objetivo foi alcan\u00e7ado. Sob esse governo, o processo foi canalizado para o sistema burgu\u00eas. Mas, como o processo revolucion\u00e1rio era profundo, Evo foi for\u00e7ado a implementar, e a burguesia a aceitar, pol\u00edticas de reivindica\u00e7\u00e3o cultural e participa\u00e7\u00e3o camponesa e ind\u00edgena, que representaram importantes conquistas democr\u00e1ticas para os povos oprimidos. Isso foi acompanhado por uma conjuntura econ\u00f4mica internacional favor\u00e1vel (pre\u00e7os das mat\u00e9rias-primas) que possibilitou o crescimento econ\u00f4mico conhecido como &#8220;o milagre boliviano&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas essa realidade come\u00e7ou a mudar em 2014, com uma queda consider\u00e1vel nas exporta\u00e7\u00f5es de g\u00e1s. Isso foi acompanhado por uma deteriora\u00e7\u00e3o da imagem de Evo ap\u00f3s a repress\u00e3o \u00e0 marcha ind\u00edgena em defesa do TIPNIS<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Ele tamb\u00e9m come\u00e7ou a ser questionado por sua \u00faltima reelei\u00e7\u00e3o, que desrespeitou as disposi\u00e7\u00f5es da Constitui\u00e7\u00e3o. Essa queda foi explorada pela direita para promover o golpe militar de 2019.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar da confian\u00e7a em Evo a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o era a mesma. O movimento de massas n\u00e3o aceitou a solu\u00e7\u00e3o militar e houve uma resist\u00eancia muito forte que n\u00e3o permitiu a estabiliza\u00e7\u00e3o do governo golpista. Assim, nas elei\u00e7\u00f5es de 2020, o MAS venceu novamente com Luis Arce, indicado por Morales do ex\u00edlio, como presidente.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica era muito diferente, e Arce deu continuidade ao que Evo j\u00e1 havia come\u00e7ado: entregando recursos naturais, especialmente l\u00edtio, e n\u00e3o conseguindo controlar os graves problemas de escassez de combust\u00edvel, falta de d\u00f3lares e aumento do pre\u00e7o dos alimentos, o que provocou constantes protestos de trabalhadores e populares ao longo de sua gest\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, Evo retornou e come\u00e7ou a lutar para reconquistar seu lugar no MAS e, principalmente, para se tornar o futuro presidente da Bol\u00edvia, com todas as vantagens materiais que o cargo traz.<\/p>\n\n\n\n<p>Nenhum dos lados saiu vitorioso dessa luta, e hoje se fala do retorno da direita, que havia sido esmagada pela resist\u00eancia oper\u00e1ria e popular em 2020, e do fim do ciclo do MAS.<\/p>\n\n\n\n<p>Certamente, surgir\u00e3o explica\u00e7\u00f5es sobre a guinada \u00e0 direita, culpando as massas trabalhadoras. Mas esses governos, que parecem &#8220;progressistas&#8221;, t\u00eam uma ret\u00f3rica de esquerda, mas administram o Estado capitalista e n\u00e3o hesitam em implementar planos de austeridade e repress\u00e3o, s\u00e3o os que abrem caminho para governos mais reacion\u00e1rios. E grande parte da responsabilidade recai sobre as organiza\u00e7\u00f5es e\/ou lideran\u00e7as que se dizem revolucion\u00e1rias, mas, em vez de reivindicar uma organiza\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria independente, reivindicam confian\u00e7a e, \u00e0s vezes, participa\u00e7\u00e3o nesses governos.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o nos cansaremos de repetir que n\u00e3o h\u00e1 atalhos; a \u00fanica maneira poss\u00edvel de avan\u00e7ar na solu\u00e7\u00e3o dos nossos problemas \u00e9 por meio da organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria para lutar por uma nova sociedade, uma sociedade socialista, baseada na luta pelo poder da classe oper\u00e1ria e dos setores populares.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> No sistema eleitoral boliviano, 63 deputados s\u00e3o eleitos por distrito eleitoral, 60 dos quais s\u00e3o eleitos proporcionalmente aos votos recebidos pelos candidatos presidenciais. Sete cadeiras s\u00e3o reservadas para representantes ind\u00edgenas. Aqueles que votam nesses deputados especiais n\u00e3o votam nas circunscri\u00e7\u00f5es uninominais de cada circunscri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> A repress\u00e3o foi motivada pelo objetivo de construir uma megaestrada atrav\u00e9s do TIPNIS, territ\u00f3rio ind\u00edgena do Parque Isidoro S\u00e9cure.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: Al\u00edcia Sagra Pesquisas indicam que candidatos de direita venceriam. Em 17 de agosto, em meio a uma grave crise econ\u00f4mica, pol\u00edtica e social, ser\u00e3o realizadas elei\u00e7\u00f5es na Bol\u00edvia. 7,5 milh\u00f5es de pessoas est\u00e3o registradas para votar: presidente e vice-presidente, 36 senadores (4 por regi\u00e3o) e 130 deputados[1]. Oito candidatos concorrem \u00e0 presid\u00eancia. 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