{"id":81387,"date":"2025-08-15T20:47:40","date_gmt":"2025-08-15T20:47:40","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=81387"},"modified":"2025-10-10T23:08:39","modified_gmt":"2025-10-10T23:08:39","slug":"ditadura-de-angola-responde-a-levante-popular-com-massacre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2025\/08\/15\/ditadura-de-angola-responde-a-levante-popular-com-massacre\/","title":{"rendered":"Ditadura de Angola responde a levante popular com massacre"},"content":{"rendered":"\n<p>Por: PSTU Brasil<\/p>\n\n\n\n<p>A infla\u00e7\u00e3o, o desemprego e os ataques aos sal\u00e1rios levaram a uma onda de protestos em Angola contra o governo neoliberal de Jo\u00e3o Louren\u00e7o, do Movimento Popular de Liberta\u00e7\u00e3o de Angola (MPLA), partido que est\u00e1 h\u00e1 50 anos no poder. No fim de julho, a revolta contra o corte dos subs\u00eddios aos combust\u00edveis explodiu com a greve dos taxistas em Luanda, espalhando manifesta\u00e7\u00f5es por todo o pa\u00eds, apesar de duramente reprimidas.<\/p>\n\n\n\n<p>O Opini\u00e3o Socialista entrevistou Jos\u00e9 Gomes Hata, do movimento Terceira Divis\u00e3o e ex-preso pol\u00edtico. Hata come\u00e7ou no rap contestador e participou dos protestos de 2011 e 2012. Foi preso em 2015, acusado de conspira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">No \u00faltimo dia 28, teve in\u00edcio a greve dos taxistas, convocada contra o aumento dos combust\u00edveis. Mas, a greve tamb\u00e9m foi apoiada por uma parcela muito grande da popula\u00e7\u00e3o, que saiu espontaneamente \u00e0s ruas, em protesto. Por que houve esse apoio popular t\u00e3o grande?<\/h4>\n\n\n\n<p>S\u00e3o v\u00e1rias quest\u00f5es que, em tr\u00eas dias, levaram \u00e0 explos\u00e3o. Resumindo brevemente: Angola tornou-se independente em 1975, ap\u00f3s s\u00e9culos de colonialismo. Em 1991-92 houve elei\u00e7\u00f5es multipartid\u00e1rias, mas o pa\u00eds mergulhou numa guerra civil at\u00e9 2002. O MPLA est\u00e1 no poder desde a independ\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>O petr\u00f3leo sempre teve papel central na economia e Angola e o pa\u00eds \u00e9 o segundo maior produtor da \u00c1frica. Mas, entre 2011 e 2012, uma recess\u00e3o agravou as condi\u00e7\u00f5es de vida, principalmente dos jovens. Foi a\u00ed que come\u00e7aram os primeiros protestos.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir desse momento, come\u00e7aram a surgir crises pol\u00edticas em Angola, porque o Estado n\u00e3o tinha dinheiro. Por causa disso, como nossa economia \u00e9 petrodependente, tivemos que recorrer ao Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI), que entrou em Angola e, como sabemos, trouxe suas famosas recomenda\u00e7\u00f5es ligadas a cortes de verbas nos setores sociais, afetando inclusive os combust\u00edveis, que eram subvencionados pelo Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>Nossa d\u00edvida externa, hoje, consome mais de 60% do or\u00e7amento do Estado. Ou seja, a maior parte \u00e9 usada para pagar a d\u00edvida. Desde ent\u00e3o, o governo tem aumentado de forma excessiva o pre\u00e7o dos combust\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">E isso mexe no bolso de todo mundo, n\u00e3o s\u00f3 os taxistas\u2026<\/h4>\n\n\n\n<p>Sim. O litro de combust\u00edvel custava pouco mais de 100 kwanzas; mas, o objetivo do governo do MPLA \u00e9 elevar os pre\u00e7os dos combust\u00edveis at\u00e9 800 kwanzas (aproximadamente R$ 4,80). A primeira tentativa de aumento aconteceu em 2023. Mas a sociedade reagiu com protestos.<\/p>\n\n\n\n<p>O governo angolano aumentou o pre\u00e7o dos combust\u00edveis em 33%, chegando a 400 kwanzas por litro. Isso num pa\u00eds com sal\u00e1rio m\u00ednimo de 30 mil kwanzas (cerca de R$ 180) e infla\u00e7\u00e3o de quase 20%, entre maio e junho.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre junho e julho, os sal\u00e1rios do funcionalismo p\u00fablico atrasaram, pois a prioridade foi pagar a d\u00edvida externa. O combust\u00edvel sobe, o transporte encarece, mas o sal\u00e1rio segue o mesmo \u2014 e o setor p\u00fablico ainda \u00e9 o maior empregador.<\/p>\n\n\n\n<p>A sociedade reagiu! Primeiro, protestos contra o aumento dos combust\u00edveis; depois, mobiliza\u00e7\u00f5es estudantis e, em seguida, [entrou em cena] a Associa\u00e7\u00e3o dos Taxistas. Eles planejavam uma greve pac\u00edfica, parando suas atividades. Mas, na v\u00e9spera, o Servi\u00e7o de Investiga\u00e7\u00e3o Criminal sequestrou o vice-presidente da Associa\u00e7\u00e3o, gerando confus\u00e3o. No dia seguinte, sem t\u00e1xis nas ruas, a revolta cresceu. Fam\u00edlias, com fome, saquearam mercados para levar comida para casa.<\/p>\n\n\n\n<p>A pol\u00edcia partiu contra os manifestantes, disparando, assassinando mulheres, crian\u00e7as e at\u00e9 idosos, o que resultou em mais de 100 mortos e 1.500 feridos. Mas esses s\u00e3o dados oficiais do Minist\u00e9rio do Interior. Acredito que os n\u00fameros s\u00e3o muito superiores, porque uma ditadura n\u00e3o funciona com transpar\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois, a pol\u00edcia passou a perseguir pessoas at\u00e9 em suas casas, interpelando quem passava na rua, sem rela\u00e7\u00e3o com os atos: pessoas saindo de hospitais, indo \u00e0 igreja ou em atividades cotidianas, que foram interpeladas e assassinadas. H\u00e1 v\u00eddeos horripilantes que mostram a crueldade desse regime.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Greve de taxistas em Luanda, que culminou em diversos protestos pela capital angolana<\/em><\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Como as pessoas est\u00e3o reagindo, ap\u00f3s irem \u00e0s ruas e sofrerem com essa viol\u00eancia repressiva?<\/h4>\n\n\n\n<p>Olhe, h\u00e1 rea\u00e7\u00f5es distintas. Uma classe pequeno-burguesa, que controla as m\u00eddias tradicionais (r\u00e1dios, jornais, TVs), refor\u00e7a o discurso do sistema para legitimar repress\u00e3o, as mortes e a mis\u00e9ria, adjetivando os manifestantes como v\u00e2ndalos. Do outro lado, h\u00e1 vozes jovens, contestadoras, que reconhecem que essa explos\u00e3o social \u00e9 consequ\u00eancia de 50 anos de ditadura.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a resist\u00eancia continua. \u00c9 um momento de crise, mas, como indica a palavra, \u00e9 tamb\u00e9m de tomada de posi\u00e7\u00e3o e consci\u00eancia. H\u00e1, claramente, mais cr\u00edtica. Existe uma indigna\u00e7\u00e3o coletiva, fruto das \u00faltimas repress\u00f5es. <\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">O que ser\u00e1 feito nos pr\u00f3ximos dias?<\/h4>\n\n\n\n<p>Est\u00e3o marcados protestos em Angola e no exterior, nos consulados angolanos pelo mundo. No Brasil, ocorrer\u00e3o na sexta-feira (8 de agosto), no Rio, em S\u00e3o Paulo e Bras\u00edlia. Convido todos a comparecerem, em massa, para gritarmos juntos contra a ditadura e os assassinatos, pela liberdade de express\u00e3o e contra a inger\u00eancia do FMI em Angola.<\/p>\n\n\n\n<p>Temos alertado para a profundidade do problema angolano. Ele n\u00e3o se resume \u00e0 altern\u00e2ncia pol\u00edtica. \u00c9 mais profundo: passa pela defini\u00e7\u00e3o do tipo de Estado que queremos. H\u00e1 multinacionais, d\u00edvida externa e quest\u00f5es de soberania sobre recursos. N\u00e3o basta destituirmos o governo. \u00c9 crucial que os recursos de Angola sirvam aos angolanos. O problema angolano \u00e9 muito mais profundo e precisamos confrontar os males criados pelo Estado e pelo sistema capitalista.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: PSTU Brasil A infla\u00e7\u00e3o, o desemprego e os ataques aos sal\u00e1rios levaram a uma onda de protestos em Angola contra o governo neoliberal de Jo\u00e3o Louren\u00e7o, do Movimento Popular de Liberta\u00e7\u00e3o de Angola (MPLA), partido que est\u00e1 h\u00e1 50 anos no poder. 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