{"id":81328,"date":"2025-07-24T22:08:16","date_gmt":"2025-07-24T22:08:16","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=81328"},"modified":"2025-08-08T21:20:30","modified_gmt":"2025-08-08T21:20:30","slug":"as-politicas-de-trump-a-disputa-eua-china-e-a-crise-da-ordem-mundial-parte-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2025\/07\/24\/as-politicas-de-trump-a-disputa-eua-china-e-a-crise-da-ordem-mundial-parte-1\/","title":{"rendered":"As pol\u00edticas de Trump, a disputa EUA-China e a crise da ordem mundial &#8211; Parte 1"},"content":{"rendered":"\n<p>Por: Felipe Alegria e Ricardo Ayala<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Parte 1<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>1. A &#8220;pol\u00edtica tarif\u00e1ria&#8221; de Trump<\/p>\n\n\n\n<p>2. As pol\u00edticas agressivas e chantageadoras de Trump n\u00e3o refletem a for\u00e7a do imperialismo americano, mas a necessidade de reconstruir sua hegemonia em tempos de crise<\/p>\n\n\n\n<p>3. Uma estrat\u00e9gia global para reafirmar a supremacia americana<\/p>\n\n\n\n<p>4. A batalha pela superioridade tecnol\u00f3gica<\/p>\n\n\n\n<p>5. Manter a supremacia militar<\/p>\n\n\n\n<p>6. Preservar o dom\u00ednio do sistema financeiro internacional<\/p>\n\n\n\n<p>7. Transformar a democracia liberal americana em um regime presidencial Bonapartista<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Parte 2<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>8. China, o grande inimigo<\/p>\n\n\n\n<p>9. A UE em uma encruzilhada dif\u00edcil<\/p>\n\n\n\n<p>10. O futuro e a luta de classes<\/p>\n\n\n\n<p>**********************************************************************<\/p>\n\n\n\n<p>PARTE 1<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 um verdadeiro terremoto na divis\u00e3o mundial do trabalho (DMT), originada pelo choque aberto entre a natureza global das cadeias de produ\u00e7\u00e3o e o fechamento das fronteiras nacionais dentro das quais operam. Trump, jogando com as desigualdades entre os pa\u00edses, usa tarifas de acesso ao mercado norte-americano de forma briguenta e reacion\u00e1ria, visando favorecer at\u00e9 as \u00faltimas consequ\u00eancias um setor industrial que, no entanto, n\u00e3o conhece fronteiras e n\u00e3o est\u00e1 sujeito a tarifas. Estamos nos referindo \u00e0s Big Techs, em sua incessante acumula\u00e7\u00e3o de capital.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o um pequeno n\u00facleo de empresas que podem ser contadas nos dedos das m\u00e3os, americanas e chinesas, no topo da cadeia de valor, ignorando completamente as fronteiras nacionais e no centro da atual acumula\u00e7\u00e3o capitalista. Enquanto isso, o restante das empresas, no \u00e2mbito das atuais cadeias de produ\u00e7\u00e3o, est\u00e3o sujeitas a tarifas, que vinculam os pa\u00edses \u00e0 sua hierarquia dentro da DMT. As Big Techs dependem e se alimentam dessa DMT, sem estar sujeitas \u00e0s fronteiras nacionais.<\/p>\n\n\n\n<p>A situa\u00e7\u00e3o atual, com a presid\u00eancia de Trump, trouxe essa contradi\u00e7\u00e3o ao \u00e1pice. O capitalismo imperialista, sujeito \u00e0 med\u00edocre base da propriedade privada e do lucro, incapaz de permitir que novos dispositivos e avan\u00e7os flores\u00e7am globalmente e irrestritamente, submete-os \u00e0s limita\u00e7\u00f5es dos Estados-na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Trump n\u00e3o pretende reindustrializar os Estados Unidos, mas sim trazer para o pa\u00eds as ind\u00fastrias de ponta da tecnologia (semicondutores) e, ao mesmo tempo, impor uma domina\u00e7\u00e3o colonial ao resto do mundo, n\u00e3o apenas aos pa\u00edses semicoloniais, mas tamb\u00e9m subjugando pa\u00edses imperialistas de segundo e terceiro escal\u00f5es a n\u00edveis sem precedentes. Basta observar os embargos \u00e0 China na guerra pela supremacia tecnol\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p>Trump imp\u00f5e aos pa\u00edses semicoloniais rela\u00e7\u00f5es semelhantes \u00e0s do s\u00e9culo XIX, baseadas no parasitismo que L\u00eanin j\u00e1 denunciava. O exemplo da tarifa sobre o Brasil \u00e9 esclarecedor. Ele imp\u00f5e uma tarifa de 50% e a justifica dizendo que a Justi\u00e7a brasileira n\u00e3o pode condenar Bolsonaro, seu aluno, pela tentativa de golpe. No entanto, toda a imprensa burguesa s\u00e9ria brasileira alerta que o caso Bolsonaro n\u00e3o passa de uma cortina de fuma\u00e7a. O que realmente est\u00e1 por tr\u00e1s da medida de Trump s\u00e3o os interesses de Zuckerberg (Meta), Visa e MasterCard, a oposi\u00e7\u00e3o ao acordo firmado com a China para a constru\u00e7\u00e3o de uma ferrovia para transportar soja do Brasil at\u00e9 o porto de Chancay, no Pac\u00edfico (constru\u00eddo e administrado pela empresa chinesa Cosco), reduzindo 10 dias nas exporta\u00e7\u00f5es brasileiras&#8230; al\u00e9m das cr\u00edticas aos discursos de Lula sobre o multilateralismo e o lugar do d\u00f3lar no mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>O jornal O Globo, que n\u00e3o \u00e9 exatamente uma imprensa nacionalista, explica que antes do lan\u00e7amento do sistema de pagamento eletr\u00f4nico instant\u00e2neo &#8220;PIX&#8221;, controlado pelo Banco Central e totalmente gratuito, <em>&#8220;Meta havia anunciado que lan\u00e7aria um servi\u00e7o de pagamento pelo WhatsApp. O Brasil seria uma esp\u00e9cie de modelo para Mark Zuckerberg, dono do Meta, expandir a opera\u00e7\u00e3o para outros mercados. Havia grande expectativa porque o servi\u00e7o de mensagens [WhatsApp] era quase onipresente no pa\u00eds<\/em>&#8220;, e acrescenta: &#8220;<em>mas o PIX rapidamente pegou no gosto dos brasileiros<\/em>&#8230; <em>Hoje, \u00e9 usado por 93% da popula\u00e7\u00e3o adulta do pa\u00eds (&#8230;) e se tornou o m\u00e9todo de pagamento mais popular no Brasil. O PIX substituiu o dinheiro f\u00edsico, os recibos e os cart\u00f5es de d\u00e9bito [Visa e Mastercard&#8230;], principalmente. Com o desenvolvimento de ferramentas como o PIX Parcelado e o PIX Autom\u00e1tico, ele tamb\u00e9m come\u00e7a a competir com os cart\u00f5es de cr\u00e9dito, um segmento que continua crescendo no pa\u00eds.&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>No artigo, tamb\u00e9m veremos como as Big Techs, intimamente associadas ao Pent\u00e1gono e aos neg\u00f3cios militares, est\u00e3o desempenhando um papel fundamental no genoc\u00eddio israelense em Gaza e na Cisjord\u00e2nia. Por outro lado, como veremos ao longo do texto, &nbsp;a ordem mundial defendida por Trump, a servi\u00e7o das Big Techs, leva \u00e0 aplastar toda dissid\u00eancia, primeiramente a do movimento de massas americano, e tamb\u00e9m a do resto do mundo, e finalmente a dos setores burgueses que n\u00e3o se enquadram em uma ordem mundial onde n\u00e3o existe \u201ccaf\u00e9 para todos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>* * *<\/p>\n\n\n\n<p>O d\u00e9ficit comercial dos EUA est\u00e1 interligado ao funcionamento de um sistema monet\u00e1rio cujo padr\u00e3o \u00e9 o d\u00f3lar e, para sua manuten\u00e7\u00e3o, os EUA devem permanecer no topo do sistema financeiro global, e seus oligop\u00f3lios tecnol\u00f3gicos devem continuar a ditar o ritmo da revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p>Para tanto, Trump se esfor\u00e7a para reformar o DMT, trazendo setores tecnol\u00f3gicos estrat\u00e9gicos (microprocessadores, baterias, etc.) para os EUA, acabando com a depend\u00eancia da cadeia de suprimentos da China e de pa\u00edses cujo futuro ainda est\u00e1 por ser determinado, especialmente Taiwan.<\/p>\n\n\n\n<p>Os EUA, como analisamos no artigo, t\u00eam um super\u00e1vit significativo na balan\u00e7a de servi\u00e7os. Mas essa terminologia esconde mais do que revela sobre o conte\u00fado desses servi\u00e7os. Gustavo Machado, pesquisador do ILAESE e estudioso de O Capital, ao ler o rascunho deste artigo, faz uma observa\u00e7\u00e3o valiosa sobre a acumula\u00e7\u00e3o de capital pelas Big Techs, mascarada na contabiliza\u00e7\u00e3o da balan\u00e7a de servi\u00e7os. Essa observa\u00e7\u00e3o, sem d\u00favida, extrapola o escopo deste artigo:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c&#8230;<em>Elas vendem servi\u00e7os porque meramente vendem o direito de uso de bens cuja propriedade permanece nas m\u00e3os de empresas americanas. Quando pagamos ao Google, Windows, ChatGPT etc., n\u00e3o estamos comprando o produto, mas sim pagando pelo direito de us\u00e1-lo. A nova revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica em curso criou uma infinidade desses produtos b\u00e1sicos<\/em>. <em>Esse processo \u00e9 chamado de \u201cservitiza\u00e7\u00e3o\u201d, que n\u00e3o \u00e9 a substitui\u00e7\u00e3o de bens por servi\u00e7os, mas a substitui\u00e7\u00e3o da venda de bens pelo pagamento do direito de us\u00e1-los.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Essa forma de acumula\u00e7\u00e3o de capital coloca as Big Techs para al\u00e9m das fronteiras dos estados. Essas empresas ultrapassam as fronteiras nacionais, tornando-as obsoletas, sonegando impostos, tarifas e regulamenta\u00e7\u00f5es concorrenciais.<\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8220;Tudo isso est\u00e1 ligado&#8221;<\/em>, acrescenta Gustavo, &#8220;<em>\u00e0 nova revolu\u00e7\u00e3o digital, que centralizou o uso de todos os equipamentos eletr\u00f4nicos em nuvens e data centers, de modo que computadores, televisores e smartphones nada mais s\u00e3o do que pontos de contato com essas redes. Essa revolu\u00e7\u00e3o tem sido a salva\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica dos Estados Unidos nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas, pois eles lideram o setor de software com ampla margem, superando gigantescos monop\u00f3lios globais (Google, Microsoft, Meta, Apple, Amazon etc.).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Este setor n\u00e3o est\u00e1 sujeito \u00e0 desindustrializa\u00e7\u00e3o, visto que a maior parte de seu n\u00facleo de inova\u00e7\u00e3o e c\u00f3digo-fonte prim\u00e1rio s\u00e3o produzidos nos Estados Unidos. Uma pesquisa r\u00e1pida e aproximada que realizei mostra que: 1. No Google (Alphabet), 60-70% do c\u00f3digo principal \u00e9 desenvolvido nos EUA. 2. Na Microsoft, 70% do desenvolvimento de produtos-chave (Windows, Azure) \u00e9 feito nos EUA. 3. No Meta (Facebook), 80% da inova\u00e7\u00e3o em algoritmos e produtos \u00e9 feita nos Estados Unidos. Essas empresas produzem bens, mercadorias: \u00e9 a ind\u00fastria digital. Mas seus produtos, que valem bilh\u00f5es ou mesmo centenas de bilh\u00f5es de d\u00f3lares, n\u00e3o s\u00e3o vendidos como mercadorias; em vez disso, bilh\u00f5es de pessoas, direta ou indiretamente (por meio de publicidade), pagam por seu uso. \u00c9 o que hoje se chama de &#8220;servitiza\u00e7\u00e3o&#8221;, que, do ponto de vista da contabilidade econ\u00f4mica oficial, n\u00e3o \u00e9 contabilizada na balan\u00e7a comercial, mas sim na balan\u00e7a de servi\u00e7os\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Se us\u00e1ssemos o crit\u00e9rio apontado por Gustavo e inclu\u00edssemos as Big Techs na balan\u00e7a comercial dos Estados Unidos, ela teria um super\u00e1vit enorme. Na verdade, estamos diante de um supergolpe que usa um suposto d\u00e9ficit comercial como desculpa para impor uma nova ordem na qual as Big Techs reinam supremas. O problema \u00e9 que isso exige a semicoloniza\u00e7\u00e3o das cadeias de suprimentos chinesas e significa que a China \u00e9 o principal inimigo a ser derrotado, com seus data centers, sua moeda digital e suas empresas que integram mensagens instant\u00e2neas e vendas online (um passo \u00e0 frente de Zuckerberg).<\/p>\n\n\n\n<p>A China, como uma nova pot\u00eancia imperialista, tende a reproduzir o mesmo tipo de hierarquia na divis\u00e3o global do trabalho que os EUA promovem, concentrando alta tecnologia e valor na China e estendendo os escal\u00f5es inferiores de sua cadeia produtiva para suas \u00e1reas de influ\u00eancia. Hoje, como explicamos no artigo, a China luta para sobreviver ao bloqueio trumpista, em meio a uma consider\u00e1vel e crescente superprodu\u00e7\u00e3o de capital. Ao mesmo tempo, quanto mais a China sobe na hierarquia produtiva e aumenta sua produtividade, mais incapaz se torna de gerar trabalho suficiente para sua popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 uma luta entre os EUA e a China que s\u00f3 o futuro resolver\u00e1, e &nbsp;est\u00e1 determinada pelos tempos: quanto tempo levar\u00e1 para a China sair desse impasse? Os Estados Unidos entrar\u00e3o em recess\u00e3o antes? E se um, o outro ou ambos forem alvo de uma revolta das massas trabalhadoras? E, junto com isso, qual ser\u00e1 o curso da guerra na Ucr\u00e2nia diante da agress\u00e3o russa, o desenvolvimento da batalha contra o genoc\u00eddio sionista, a crise e a resposta de massas na Europa e nos pa\u00edses semicoloniais da Am\u00e9rica Latina e dos v\u00e1rios continentes? Aqui est\u00e3o os pontos-chave da situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>1. A &#8220;pol\u00edtica tarif\u00e1ria&#8221; de Trump<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Uma das grandes narrativas da campanha eleitoral de Donald Trump foi que, por meio da imposi\u00e7\u00e3o generalizada de tarifas, ele acabaria com o d\u00e9ficit comercial dos EUA, traria a ind\u00fastria de volta ao pa\u00eds e levaria a um forte aumento do emprego. Ele tamb\u00e9m financiaria os gastos federais e reduziria os impostos. Os EUA, em suma, retornariam a uma nova era de ouro.<\/p>\n\n\n\n<p>Certamente, o conflito tarif\u00e1rio est\u00e1 desempenhando um papel de destaque nestes primeiros meses do governo Trump. Mas o problema, na verdade, n\u00e3o s\u00e3o as tarifas. A pol\u00edtica tarif\u00e1ria de Trump \u00e9 um dos v\u00e1rios mecanismos que ele utiliza para enfrentar o decl\u00ednio do imperialismo americano e os desafios \u00e0 sua hegemonia.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando os Estados Unidos, a grande pot\u00eancia ocidental vencedora da Segunda Guerra Mundial, mantinham a supremacia produtiva e tecnol\u00f3gica indiscut\u00edvel \u2014 isto \u00e9, durante a chamada Guerra Fria e depois, quando promoveram a globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal \u2014 sua bandeira era o livre com\u00e9rcio. Por um per\u00edodo inteiro, os Estados Unidos mantiveram uma generosidade comercial ego\u00edsta em rela\u00e7\u00e3o a v\u00e1rios pa\u00edses, inicialmente Europa e Jap\u00e3o, necess\u00e1ria para a expans\u00e3o dos neg\u00f3cios de suas multinacionais. O mesmo pode ser dito de sua expans\u00e3o para a China. A globaliza\u00e7\u00e3o significou que a cadeia de valor industrial, com seus projetos, mat\u00e9rias-primas, componentes e montagens, tornou-se global, espalhando-se pelo mundo, com \u00eanfase particular na China, para onde um grande n\u00famero de empresas industriais, com forte presen\u00e7a norte-americana, foram realocadas. A globaliza\u00e7\u00e3o deu origem ao que conhecemos como Quim\u00e9rica, onde a China, com uma classe oper\u00e1ria barata e marginalizada, tornou-se a grande oficina das multinacionais norte-americanas (e de outros pa\u00edses europeus e Jap\u00e3o).<\/p>\n\n\n\n<p>Durante esse per\u00edodo, particularmente durante a era Quim\u00e9rica, o enorme d\u00e9ficit comercial norte-americano com a China, longe de ser um problema, foi o reverso de uma gigantesca transfer\u00eancia de valor da China (do valor criado por sua classe oper\u00e1ria) para os Estados Unidos, consequ\u00eancia da troca desigual entre os dois pa\u00edses, fruto da enorme vantagem tecnol\u00f3gica norte-americana e da produtividade resultante.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, reduzir a troca econ\u00f4mica \u00e0 balan\u00e7a comercial oficial \u00e9 um engano grosseiro, pois ignora a balan\u00e7a de servi\u00e7os, que representa as enormes receitas cobradas pelas grandes empresas americanas de alta tecnologia pelo uso de seus produtos. A balan\u00e7a comercial tamb\u00e9m n\u00e3o inclui os servi\u00e7os financeiros cobrados por seus bancos e institui\u00e7\u00f5es financeiras, que dominam os mercados globais. E esquecem, \u00e9 \u00f3bvio, de incluir nos c\u00e1lculos a transfer\u00eancia de lucros de multinacionais, bancos e fundos de investimento americanos para o exterior.<\/p>\n\n\n\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de empregos, os mesmos trumpistas, como Stephen Miran, chefe do Conselho de Assessores Econ\u00f4micos de Trump, revelam sua demagogia ao limitar o retorno da ind\u00fastria \u00e0 manufatura de alta tecnologia, vinculada ao controle da tecnologia e suas aplica\u00e7\u00f5es militares. Esses processos de manufatura, no entanto, s\u00e3o irrelevantes para a cria\u00e7\u00e3o de empregos.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema para o imperialismo americano n\u00e3o \u00e9 o d\u00e9ficit comercial com a China, mas o fim da Quim\u00e9rica e o fato de a China ter se tornado um s\u00e9rio concorrente tecnol\u00f3gico e representar uma amea\u00e7a para a continuidade de sua hegemonia. Este, e nada mais, \u00e9 o seu maior problema.<\/p>\n\n\n\n<p>As tarifas que Trump est\u00e1 negociando buscam desacelerar o desenvolvimento chin\u00eas, exacerbar sua superprodu\u00e7\u00e3o de capital e torpedear a expans\u00e3o de suas cadeias de suprimentos e montagem em pa\u00edses vizinhos, sobre os quais ele anunciou a imposi\u00e7\u00e3o de tarifas comerciais exorbitantes entre 25% e 40%. Ao mesmo tempo, Trump busca estabelecer um embargo comercial \u00e0s exporta\u00e7\u00f5es de alta tecnologia dos EUA para a China (particularmente aquelas relacionadas a semicondutores de ponta) e tamb\u00e9m impedir que outros pa\u00edses se juntem \u00e0s redes tecnol\u00f3gicas chinesas. No entanto, os EUA tamb\u00e9m sofrem com uma forte depend\u00eancia da China em grande parte de sua cadeia de suprimentos, especialmente no que diz respeito \u00e0s terras raras, onde esta \u00faltima atualmente mant\u00e9m um quase monop\u00f3lio.<\/p>\n\n\n\n<p>As tarifas anunciadas por Trump sobre pa\u00edses semicoloniais s\u00e3o exorbitantes, com praticamente todos tendo que pagar um ped\u00e1gio de mais de 25% para vender nos EUA, obrigando-os a vender suas exporta\u00e7\u00f5es a pre\u00e7os de banana.<\/p>\n\n\n\n<p>Representam a imposi\u00e7\u00e3o de um n\u00edvel de pilhagem nitidamente maior do que o que sofreram por d\u00e9cadas e buscam a subservi\u00eancia aos EUA. As consequ\u00eancias negativas para os trabalhadores desses pa\u00edses ser\u00e3o enormes. O caso da tarifa de 50% sobre o Brasil (com quem os EUA t\u00eam super\u00e1vit comercial) \u00e9 uma express\u00e3o extrema da pol\u00edtica de Trump. O argumento do impeachment de Bolsonaro para justific\u00e1-lo, al\u00e9m de sua indec\u00eancia, esconde a defesa dos interesses de grandes empresas de tecnologia e financeiras americanas.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso da Uni\u00e3o Europeia (UE), maior parceira comercial dos EUA, Trump acaba de amea\u00e7ar em carta com tarifas gerais de 30%, o que, segundo o Comiss\u00e1rio Europeu de Com\u00e9rcio, Maros Sefcovic, &#8220;<em>praticamente proibiria o com\u00e9rcio<\/em>&#8220;. \u00c9 uma pol\u00edtica extremamente agressiva que Trump ousa implementar, aproveitando-se das diferen\u00e7as de interesses entre os v\u00e1rios Estados-membros da UE, que Trump procura exacerbar. Da mesma forma, o que Trump causou no Jap\u00e3o e na Coreia do Sul, que est\u00e3o amea\u00e7ados ou j\u00e1 punidos com uma tarifa geral de 25%, tamb\u00e9m \u00e9 um verdadeiro choque.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2. A pol\u00edtica agressiva e chantagista de Trump n\u00e3o reflete a for\u00e7a do imperialismo americano, mas sim a necessidade de reconstruir sua hegemonia em tempos de crise.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Por muitas d\u00e9cadas, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, da qual emergiu como o grande vencedor, os EUA t\u00eam sido a pot\u00eancia dominante indiscut\u00edvel. Sua hegemonia avassaladora baseou-se em sua supremacia econ\u00f4mica, baseada em produtividade superior, seu tamanho e seu indiscut\u00edvel dom\u00ednio financeiro global. Durante todo esse per\u00edodo, os EUA se apoiaram nas chamadas institui\u00e7\u00f5es multilaterais, onde, sob sua dire\u00e7\u00e3o, as regras eram acordadas, dando um ar de democracia e permitindo, em uma situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica favor\u00e1vel, que as diversas pot\u00eancias e burguesias semicoloniais tamb\u00e9m compartilhassem dos despojos. \u00c9 evidente que, quando necess\u00e1rio, os EUA impuseram diretamente sua vontade, como quando Nixon p\u00f4s fim ao padr\u00e3o-ouro ou Reagan imp\u00f4s o Acordo do Plaza. O \u00e1pice (e est\u00e1gio final) desse processo foi a globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal, com o famoso &#8220;Consenso de Washington&#8221; e a total liberdade de circula\u00e7\u00e3o de capitais e mercadorias.No pano de fundo desse processo, \u00e9 n\u00edtido, sempre estiveram as For\u00e7as Armadas dos EUA, com seu gigantesco arsenal, suas mais de 700 bases ao redor do mundo e suas interven\u00e7\u00f5es militares seletivas, que se prolongaram ao longo do tempo, al\u00e9m de suas opera\u00e7\u00f5es secretas (golpes militares na Indon\u00e9sia, Chile, etc.).<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, a supremacia americana come\u00e7ou a entrar em crise com o surgimento do imperialismo chin\u00eas a partir de 2008. Como aponta o artigo <em>&#8220;China, a Pot\u00eancia Imperialista Emergente em Conflito com os Estados Unidos&#8221;<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a>: &#8220;Os Estados Unidos continuam a manter a hegemonia econ\u00f4mica global, apoiada por uma produtividade geral que supera a da China, \u00e0 qual se deve somar seu dom\u00ednio financeiro global (e, evidentemente, geopol\u00edtico e militar). Os Estados Unidos continuam sendo a principal pot\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de bens de consumo finais (ind\u00fastria digital, equipamentos el\u00e9tricos e eletr\u00f4nicos de ponta, produtos farmac\u00eauticos e aeroespacial). A China, no entanto, j\u00e1 det\u00e9m uma participa\u00e7\u00e3o de 12,24% no total mundial nesse setor e \u00e9, ao mesmo tempo, a maior produtora global de meios de produ\u00e7\u00e3o (30,83% em 2023). \u00c9, de longe, a &#8216;superpot\u00eancia manufatureira global&#8217; e, no final de 2024, parecia ser a principal economia mundial em termos de &#8220;paridade de poder de compra&#8221; de seu PIB; perdendo apenas para Estados Unidos, medido em d\u00f3lares correntes<\/em>\u201d. A tudo isso se soma o fator determinante de sua ascens\u00e3o como grande pot\u00eancia tecnol\u00f3gica. A abordagem agressiva de Trump, expressa em sua guerra tarif\u00e1ria e pol\u00edtica de embargos, demonstra a deteriora\u00e7\u00e3o da primazia econ\u00f4mica dos EUA em setores de ponta e, de modo geral, reflete a perda de influ\u00eancia global.<\/p>\n\n\n\n<p>Sob Trump, os EUA come\u00e7aram a operar fora das institui\u00e7\u00f5es multilaterais<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. A hegemonia financeira americana, antes t\u00e3o decisiva, tamb\u00e9m come\u00e7ou a apresentar fissuras diante da magnitude da d\u00edvida federal e do peso emergente de outras moedas no com\u00e9rcio global.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>3. Uma estrat\u00e9gia global para reafirmar a supremacia americana<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A ofensiva tarif\u00e1ria de Trump, atualmente ocupando lugar de destaque na m\u00eddia mundial, \u00e9 apenas parte de uma estrat\u00e9gia global para tentar renovar a supremacia americana. Ela integra v\u00e1rios elementos:<\/p>\n\n\n\n<p>a) Garantir a manuten\u00e7\u00e3o da superioridade tecnol\u00f3gica dos EUA sobre a China.<\/p>\n\n\n\n<p>b) Preservar o dom\u00ednio dos EUA no sistema financeiro global.<\/p>\n\n\n\n<p>c) Reformular a divis\u00e3o global do trabalho: 1\/ Concentrando a produ\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica estrat\u00e9gica 2\/ sufocando o desenvolvimento e a expans\u00e3o chinesas e exacerbando sua superprodu\u00e7\u00e3o e excedente de capital; 3\/ espremendo os demais pa\u00edses; e 4\/ submetendo os pa\u00edses semicoloniais a um n\u00edvel qualitativamente maior de pilhagem.<\/p>\n\n\n\n<p>d) Anular a UE como um potencial polo alternativo, marginalizando-a internacionalmente e fomentando divis\u00f5es dentro dela.<\/p>\n\n\n\n<p>e) Assegurar a continuidade da supremacia militar dos EUA em uma corrida armamentista desenfreada. Essa supremacia est\u00e1 associada \u00e0 hegemonia tecnol\u00f3gica e ao papel econ\u00f4mico central da ind\u00fastria de armamentos dos EUA, na qual as grandes empresas de tecnologia desempenham um papel significativo.<\/p>\n\n\n\n<p>f) 1\/ obrigar seus aliados europeus e asi\u00e1ticos a pagar pelo envio de suas tropas e redistribu\u00ed-las e concentr\u00e1-las na regi\u00e3o do Indo-Pac\u00edfico, enfrentando a China; 2\/ delegar a Israel o papel de gendarme do Oriente M\u00e9dio, apoiando o genoc\u00eddio palestino e reconfigurando o Oriente M\u00e9dio em torno dos Acordos de Abra\u00e3o com os regimes reacion\u00e1rios do Golfo; e 3\/ Entregar parte da Ucr\u00e2nia a Putin, \u00e0s custas do povo ucraniano, e distanciar a R\u00fassia da China.<\/p>\n\n\n\n<p>g) Modificar o padr\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o nos EUA, reduzindo sal\u00e1rios, aposentadorias\/pens\u00f5es e direitos trabalhistas, cortando servi\u00e7os b\u00e1sicos (Medicare, Medicaid, educa\u00e7\u00e3o, benef\u00edcios sociais) e reduzindo impostos para os ricos. As deporta\u00e7\u00f5es de trabalhadores imigrantes visam impor o terror, reduzir seus sal\u00e1rios e degradar suas condi\u00e7\u00f5es de trabalho a um estado de semiescravid\u00e3o. Elon Musk e, posteriormente, Sergey Brin (cofundador do Google) estiveram entre as primeiras figuras p\u00fablicas a exigir uma semana de trabalho de 60 horas ou mais, imitando o magnata chin\u00eas Jack Ma (Alibaba), um ferrenho defensor do sistema 996 (das 9h \u00e0s 21h, seis dias por semana) em vigor em amplos setores econ\u00f4micos na China.<\/p>\n\n\n\n<p>h) Avan\u00e7ar, para tudo isso, em dire\u00e7\u00e3o ao presidencialismo autorit\u00e1rio: um regime pol\u00edtico definido por severos cortes nos direitos democr\u00e1ticos e pelo desaparecimento do equil\u00edbrio de poder caracter\u00edstico de uma democracia liberal, em favor de um regime presidencialista bonapartista praticamente sem controles. Uma pol\u00edtica que, longe de se limitar aos Estados Unidos, promovem ativamente em todo o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>4. A Batalha pela Superioridade Tecnol\u00f3gica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Acabamos de assinalar que uma prioridade vital para os Estados Unidos \u00e9 manter sua hegemonia tecnol\u00f3gica. Essa hegemonia est\u00e1 particularmente ligada \u00e0s suas grandes empresas de tecnologia (big tech), seus desenvolvimentos em Intelig\u00eancia Artificial (IA) e os semicondutores de ponta associados (chips). Sem d\u00favida, o inimigo a ser derrotado aqui \u00e9 a China.<\/p>\n\n\n\n<p>No artigo j\u00e1 mencionado da revista Marxismo Vivo n\u00ba 41, afirmamos: <em>\u201cLogo ap\u00f3s a posse de Trump, grandes empresas de tecnologia americanas anunciaram na Casa Branca, um investimento multimilion\u00e1rio de US$ 500 bilh\u00f5es. O objetivo: garantir o monop\u00f3lio americano em IA, necess\u00e1rio para a apropria\u00e7\u00e3o global dos superlucros tecnol\u00f3gicos e para a hegemonia global americana.\u201d [No entanto] \u201co surgimento, alguns dias depois, da sala de bate-papo chinesa sobre IA, DeepSeek, questionou esses planos e lan\u00e7ou d\u00favidas sobre a primazia americana em IA e o papel que a China desempenhar\u00e1 neste campo vital.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Da mesma forma, o novo chip da Huawei (Ascend 920C) para IA deve ser destacado. Ele representa um avan\u00e7o significativo, concede \u00e0 China um grau significativo de autonomia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Nvidia e permite que ela comercialize seus produtos no chamado Sul Global, come\u00e7ando pelo Sudeste Asi\u00e1tico, criando uma \u00e1rea vinculada ao seu modelo tecnol\u00f3gico.<\/p>\n\n\n\n<p>Os EUA atualmente mant\u00eam a hegemonia tecnol\u00f3gica, embora o final da hist\u00f3ria ainda n\u00e3o seja conhecido. N\u00e3o \u00e9 de surpreender que Jake Sullivan, ex-Conselheiro de Seguran\u00e7a Nacional de Biden, tenha declarado em uma confer\u00eancia intitulada Projeto Especial de Estudos Competitivos (16 de setembro de 2022) que <em>&#8220;a China n\u00e3o teria permiss\u00e3o para liderar a IA porque o dom\u00ednio geopol\u00edtico do pa\u00eds estava subordinado \u00e0 hegemonia neste campo&#8221;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>As Big Techs, ou seja, as Sete Magn\u00edficas (Alphabet\/Google, Amazon, Apple, Meta\/Zuckerberg, Microsoft, Nvidia, Tesla), al\u00e9m dos demais oligop\u00f3lios tecnol\u00f3gicos do Vale do Sil\u00edcio, como OpenAI, Palantir (Peter Thiel) e Anduril, integraram seus neg\u00f3cios ao complexo militar-industrial, juntamente com as j\u00e1 cl\u00e1ssicas Boeing, Lockheed Martin, Northrop Grumman e General Dynamics. Uma fus\u00e3o entre a elite tecnol\u00f3gica americana e a elite militar est\u00e1 ocorrendo diante de nossos olhos, manifestada na recente nomea\u00e7\u00e3o pelo Pent\u00e1gono de quatro tenentes-generais entre os executivos seniores da Meta, OpenAI e Palantir. Portanto, n\u00e3o \u00e9 de surpreender que essas empresas de alta tecnologia estejam desempenhando um papel fundamental, como colaboradoras necess\u00e1rias do ex\u00e9rcito israelense, no genoc\u00eddio palestino, como a Relatora Especial da ONU, Francesca Albanese, acaba de denunciar.<\/p>\n\n\n\n<p>Os oligop\u00f3lios tecnol\u00f3gicos e o complexo militar-industrial, intimamente ligados, juntamente com os principais bancos e fundos de investimento de Wall Street, &nbsp;formam o n\u00facleo central do capitalismo americano. O gabinete Trump \u00e9 sua express\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>5. Manuten\u00e7\u00e3o da Supremacia Militar<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A supremacia militar \u00e9 a \u00e1rea onde o dom\u00ednio dos EUA permanece mais firmemente estabelecido e onde Trump se apoia com particular intensidade, como vimos na pol\u00edtica de moderniza\u00e7\u00e3o do arsenal, em sua estreita colabora\u00e7\u00e3o com Israel no genoc\u00eddio palestino e no bombardeio das instala\u00e7\u00f5es nucleares do Ir\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>Estamos vivenciando uma poderosa onda de rearmamento, na qual testemunhamos novos desenvolvimentos militares a cada semana, incluindo a moderniza\u00e7\u00e3o e o refor\u00e7o de arsenais nucleares, bem como o surgimento massivo de armas de nova gera\u00e7\u00e3o, equipadas com novas tecnologias, particularmente IA, e adaptadas a novos modos de guerra, em muitos casos testados na Ucr\u00e2nia e em Gaza.<\/p>\n\n\n\n<p>Os EUA lideram os gastos militares globais (US$ 997 bilh\u00f5es\/ano), seguidos de longe pela China (US$ 314 bilh\u00f5es), em terceiro lugar pela R\u00fassia (US$ 149 bilh\u00f5es) e, de longe, pela Alemanha (US$ 88,5 bilh\u00f5es), Reino Unido (US$ 81,8 bilh\u00f5es), Fran\u00e7a (US$ 64,7 bilh\u00f5es)<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[3]<\/a> e outros.<\/p>\n\n\n\n<p>Em meio a um rearmamento descontrolado, Trump est\u00e1 trabalhando em duas dire\u00e7\u00f5es: de um lado, fazendo com que seus aliados na Europa e na \u00c1sia paguem pelo envio global de suas tropas e, de outro, tentando redistribuir e concentrar suas for\u00e7as na regi\u00e3o do Indo-Pac\u00edfico, frente a China<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\">[4]<\/a>, enquanto delega as fun\u00e7\u00f5es de gendarme do Oriente M\u00e9dio ao estado genocida de Israel e, ao mesmo tempo, busca um acordo com a R\u00fassia de Putin. Em uma demonstra\u00e7\u00e3o repulsiva de servilismo dos pa\u00edses europeus da OTAN (cujos sistemas militares n\u00e3o s\u00e3o europeus, mas, acima de tudo, nacionais), Trump obteve recentemente um aumento em seus or\u00e7amentos militares para 5% do PIB. Esse aumento brutal, que acarreta severos ataques ao Estado de bem-estar social, faz parte da manuten\u00e7\u00e3o da depend\u00eancia tecnol\u00f3gica dos sistemas de armas americanos e \u00e9 acompanhado por enormes encomendas de grandes empresas de armas americanas. O mais recente carregamento de armas americanas para a Ucr\u00e2nia ser\u00e1 pago pelos pa\u00edses europeus da OTAN.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isso fortalece consideravelmente a ind\u00fastria de armas dos EUA, refor\u00e7a o peso econ\u00f4mico global de suas exporta\u00e7\u00f5es e mant\u00e9m a primazia pol\u00edtica e militar dos EUA. Por exemplo, os ca\u00e7as F-35, fabricados pela Lokheed Martin, que s\u00e3o as aeronaves militares mais avan\u00e7adas usadas pela maioria dos pa\u00edses da UE, n\u00e3o podem decolar sem a permiss\u00e3o do Pent\u00e1gono.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>6. Preservar o Dom\u00ednio do Sistema Financeiro Internacional<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Um dos objetivos centrais de Trump \u00e9 manter o dom\u00ednio do sistema financeiro mundial, em vigor desde a Segunda Guerra Mundial, baseado no papel do d\u00f3lar como moeda universal e de reserva, dominante no com\u00e9rcio e nas finan\u00e7as globais. Como resultado, uma verdadeira montanha de d\u00edvida federal \u2013 25% dos t\u00edtulos do Tesouro \u2013 \u00e9 detida por outros pa\u00edses. Esse papel do d\u00f3lar \u00e9 o &#8220;privil\u00e9gio exorbitante&#8221; de que falava o ex-presidente franc\u00eas Giscard d&#8217;Estaign: aquele que permite aos EUA financiar seus d\u00e9ficits or\u00e7ament\u00e1rios e comerciais com dinheiro de terceiros pa\u00edses.<\/p>\n\n\n\n<p>O d\u00f3lar n\u00e3o corre o risco de ser destronado no curto prazo. No entanto, o tamanho da d\u00edvida federal (que n\u00e3o goza mais do mais alto status de solv\u00eancia concedido pelas ag\u00eancias de classifica\u00e7\u00e3o de risco) abre importantes brechas em seu papel como moeda universal. De acordo com o Federal Reserve de St. Louis (membro do Federal Reserve), a d\u00edvida federal em 2024 era de 120,7% do PIB dos EUA (US$ 40 trilh\u00f5es). A ag\u00eancia de classifica\u00e7\u00e3o de risco Moody&#8217;s prev\u00ea que a d\u00edvida atingir\u00e1 135% at\u00e9 2035, com um d\u00e9ficit federal de 9% do PIB (contra 6,4% em 2024). O Escrit\u00f3rio de Or\u00e7amento do Congresso indicou que a lei tribut\u00e1ria recentemente aprovada aumentar\u00e1 a d\u00edvida federal em US$ 3,3 trilh\u00f5es em 10 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isso representa um enorme aumento nos gastos p\u00fablicos, dedicados ao pagamento de juros crescentes e, como um c\u00edrculo vicioso, amea\u00e7ando o papel internacional do d\u00f3lar. Somam-se a isso os efeitos das tarifas de Trump, que tamb\u00e9m fortalecer\u00e3o o papel de outras moedas (como o yuan e o euro) no com\u00e9rcio global.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>7. Transformar a democracia liberal americana em um regime presidencial bonapartista<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A estrat\u00e9gia de Trump tem como componente fundamental a transforma\u00e7\u00e3o da democracia liberal americana em um regime presidencial bonapartista. Isso significa dissolver a tradicional separa\u00e7\u00e3o de poderes em favor de um poder presidencial ilimitado, impor severas restri\u00e7\u00f5es \u00e0s liberdades e direitos democr\u00e1ticos, reprimir a dissid\u00eancia, estabelecer um controle r\u00edgido da popula\u00e7\u00e3o, subjugar a m\u00eddia e militarizar o pa\u00eds. Em um artigo recente, Robert Reich<a href=\"#_ftn5\" id=\"_ftnref5\">[5]<\/a> denuncia &#8220;<em>o perigo inerente do superbanco de dados da Palantir<a href=\"#_ftn6\" id=\"_ftnref6\"><strong>[6]<\/strong><\/a> [obtido da opera\u00e7\u00e3o DOGE de Elon Musk] para todos os americanos [que inclui dados pessoais, de emprego, m\u00e9dicos, banc\u00e1rios e de m\u00eddia social], alimentado por intelig\u00eancia artificial&#8221;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Essa pol\u00edtica, longe de se limitar aos EUA, abrange o resto do mundo e se expressa na colabora\u00e7\u00e3o aberta de Trump com a AfD alem\u00e3, Bolsonaro, Meloni, Orb\u00e1n, Milei, Bukele e outras for\u00e7as de extrema direita.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Publicado na revista Marxismo Vivo n\u00fam. 21<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> Trump encurralou a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio (OMC), retirou-se da OMS, do Tribunal Penal Internacional (TPI), do Conselho de Direitos Humanos da ONU e do Acordo de Paris das Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas. A UNESCO j\u00e1 o fez em 2017. E n\u00e3o teve escr\u00fapulos em pedir a anexa\u00e7\u00e3o do Panam\u00e1, Canad\u00e1 e Groenl\u00e2ndia (ambos membros da OTAN), contra os preceitos da ONU.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> Segundo o Instituto SIPRI de Estocolmo<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\">[4]<\/a> O ponto de maior tens\u00e3o militar contra a China \u00e9, sem d\u00favida, o Estreito de Taiwan e o Mar da China Meridional. Em setembro de 2024, a Almirante Lisa Franchetti, ent\u00e3o chefe das For\u00e7as Navais dos EUA, declarou que os combates navais no Mar Vermelho e o mar Negro servia para &#8220;preparar um ataque chin\u00eas a Taiwan&#8221;: &#8220;Estou muito focado em 2027&#8221;. O novo Secret\u00e1rio de Defesa de Trump, Pete Hegseth, observou em um memorando interno que a defesa de Taiwan \u00e9 o \u00fanico cen\u00e1rio para o qual uma grande guerra est\u00e1 planejada, o que significa fortalecer a presen\u00e7a militar dos EUA na regi\u00e3o, particularmente submarinos, bombardeiros, drones, unidades especiais e fuzileiros navais.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\" id=\"_ftn5\">[5]<\/a> https:\/\/open.substack.com\/pub\/robertreich\/p\/palantir-the-worst-of-the-corporate?utm_campaign=post&amp;utm_medium=web<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref6\" id=\"_ftn6\">[6]<\/a> A Palantir \u00e9 uma empresa de tecnologia do Vale do Sil\u00edcio de propriedade de Peter Thiel, um extremista de direita radical. De origem sul-africana, ele \u00e9 um dos maiores apoiadores de Trump e padrinho do vice-presidente Vance. Intimamente ligado ao Pent\u00e1gono, ele \u00e9 um participante da linha de frente do genoc\u00eddio palestino em Gaza e na Cisjord\u00e2nia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: Felipe Alegria e Ricardo Ayala Parte 1 1. A &#8220;pol\u00edtica tarif\u00e1ria&#8221; de Trump 2. As pol\u00edticas agressivas e chantageadoras de Trump n\u00e3o refletem a for\u00e7a do imperialismo americano, mas a necessidade de reconstruir sua hegemonia em tempos de crise 3. Uma estrat\u00e9gia global para reafirmar a supremacia americana 4. 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