{"id":81275,"date":"2025-07-16T22:58:35","date_gmt":"2025-07-16T22:58:35","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=81275"},"modified":"2025-07-16T22:58:37","modified_gmt":"2025-07-16T22:58:37","slug":"raymar-aguado-eterno-estudante-e-dissidente-de-esquerda-a-greve-foi-uma-vitoria-total-para-os-universitarios-cubanos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2025\/07\/16\/raymar-aguado-eterno-estudante-e-dissidente-de-esquerda-a-greve-foi-uma-vitoria-total-para-os-universitarios-cubanos\/","title":{"rendered":"Raymar Aguado, eterno estudante e dissidente de esquerda: &#8220;A greve foi uma vit\u00f3ria total para os universit\u00e1rios cubanos&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p>Entrevista de El Estornudo, com Raymar Aguado, artista e ativista do Socialismo Cr\u00edtico, setor da vanguarda cubana de esquerda contra a ditadura de Castro. Raymar, nessa entrevista, faz um balan\u00e7o da recente mobiliza\u00e7\u00e3o estudantil em Cuba, al\u00e9m de falar sobre o panorama art\u00edstico na ilha.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Raymar Aguado, escritor e ativista cubano \/ Foto: Leyla Mancebo Bada<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/revistaelestornudo.com\/author\/senenalonsoalum\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong><em>Sen\u00e9n Alonso Alum<\/em><\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>23 de Junho de 2025<\/em><\/strong><strong><em><\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Raymar Aguado Hern\u00e1ndez nasceu em Havana em outubro de 2000. Muito em breve ele se interessaria por arte e literatura. Em 2019, ingressou na Faculdade de Psicologia da Universidade de Havana (UH), mas s\u00f3 estudou at\u00e9 o terceiro ano. &#8220;Sa\u00ed da carreira em 2022 por v\u00e1rios motivos&#8221;, ele me diz, &#8220;o principal motivo foi toda a confus\u00e3o que se formou com a <a href=\"https:\/\/rialta.org\/magazine\/columnas\/de-ciudadela-la-peor-generacion\/#google_vignette\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">&#8220;A Pior Gera\u00e7\u00e3o&#8221;<\/a>&#8220;.<\/p>\n\n\n\n<p>Em outubro daquele ano, um grupo de jovens autores cubanos planejava apresentar um volume com alguns de seus pr\u00f3prios textos. Eram cr\u00f4nicas e pe\u00e7as de ensaios, narrativas e poesias. Entre seus membros estavam<a href=\"https:\/\/revistaelestornudo.com\/author\/lisbethmoyaglez\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Lisbeth Moya<\/a>,<a href=\"https:\/\/revistaelestornudo.com\/etiqueta\/julio-llopiz-casal\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Julio Ll\u00f3piz-Casal<\/a>,<a href=\"https:\/\/revistaelestornudo.com\/author\/adrianaf\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Adriana Fonte<\/a>, Hamed Toledo,<a href=\"https:\/\/revistaelestornudo.com\/author\/manuel\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Manu de la Cruz<\/a>, Jairo Ar\u00f3stegui,<a href=\"https:\/\/revistaelestornudo.com\/author\/mel\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Mel Herrera<\/a>,<a href=\"https:\/\/revistaelestornudo.com\/author\/ricardoacostarana\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Ricardo Acostarana<\/a>e<a href=\"https:\/\/revistaelestornudo.com\/dos-jovenes-detenidos-el-11-j-replican-a-la-revista-alma-mater\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Sal\u00e3o Alexander<\/a>. O painel liter\u00e1rio em que esta antologia seria &#8220;estreada&#8221;, coordenado pelo livreiro Alejandro Mainegra e ele mesmo<a href=\"https:\/\/rialta.org\/author\/raymar-aguado\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Raymar Aguado<\/a>, foi adiado v\u00e1rias vezes at\u00e9<a href=\"https:\/\/rialta.org\/censura-en-cuba-de-un-conversatorio-con-jovenes-escritores-y-editores-criticos-del-oficialismo-isleno\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">seu cancelamento definitivo<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>A Pior Gera\u00e7\u00e3o foi, antes e depois, um gesto, um sinal inacabado, esse espa\u00e7o liminal ou sublime em que o cansa\u00e7o e a ruptura geralmente coincidem.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Foram semanas de muita press\u00e3o da Seguran\u00e7a do Estado&#8221;, continua Raymar Aguado, ent\u00e3o especialista em Artes Visuais e Cr\u00edtica da Associa\u00e7\u00e3o Hermanos Sa\u00edz (AHS), &#8220;eles me enviaram amea\u00e7as por meio de amigos ou pessoas envolvidas com o assunto&#8221;. Ap\u00f3s esses eventos, ele pediu para deixar a AHS e abandonou suas responsabilidades institucionais: &#8220;Os funcion\u00e1rios da Associa\u00e7\u00e3o que me enfrentaram n\u00e3o tiveram nem sequer o m\u00ednimo decoro para reagir ao que estava acontecendo&#8221;. Tal cen\u00e1rio parece o menos comprometedor para os burocratas do Estado: uma &#8220;ren\u00fancia volunt\u00e1ria&#8221;. De qualquer forma, tinha a &#8220;senten\u00e7a proferida&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Raymar Aguado escreve h\u00e1 anos em&nbsp; m\u00eddia <em>online<\/em> independente&nbsp; . Em um deles, <a href=\"https:\/\/jovencuba.com\/autor\/raymarah\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><em>La Joven Cuba<\/em><\/a>, ele publicou um texto sobre o Congresso Nacional da AHS pelo qual lhe formaram&#8221;enorme alarido&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos tr\u00eas anos seguintes, sua oposi\u00e7\u00e3o ao regime cubano se acentuou. Em junho de 2025, ap\u00f3s <a href=\"https:\/\/revistaelestornudo.com\/protestas-universitarios-cubanos-tarifas-etecsa-internet\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">o&#8221;tarifa\u00e7o&#8221;<\/a>aplicado desde 1\u00ba de junho pela Companhia de Telecomunica\u00e7\u00f5es de Cuba S.A. (<a href=\"https:\/\/revistaelestornudo.com\/etiqueta\/etecsa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">ETECSA<\/a>), sua voz tem sido uma das mais proeminentes em apoio aos protestos da universidade contra essa medida. Raymar Aguado fez causa comum com o descontentamento estudantil, o sintoma mais recente do t\u00e9dio sociopol\u00edtico no pa\u00eds. Consequentemente, a seguran\u00e7a do Estado<a href=\"https:\/\/rialta.org\/represion-cuba-activistas-protesta-estudiantil-aguado\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"> o interrogou e o acusou<\/a> de &#8220;mercen\u00e1rio&#8221;, &#8220;verme&#8221; e &#8220;fracassado&#8221;. Ele continua firme, n\u00e3o se quebra.<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, Raymar Aguado est\u00e1 estudando para a Laurea em Humanidades no Centro F\u00e9lix Varela em Havana.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Em sua <em>bio<\/em> <\/strong><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/raymar_a_h_cubao\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>do Instagram<\/strong><\/a><strong>, voc\u00ea se identifica, entre outros qualificativos, como &#8220;eterno estudante&#8221;. \u00c9 por isso que voc\u00ea apoiou a greve dos estudantes universit\u00e1rios cubanos contra o aumento da taxa da ETECSA? Em outras palavras, voc\u00ea \u00e9 movido apenas por pertencimento ou apego a determinados setores ou h\u00e1 algo mais ecum\u00eanico, no sentido secular do termo, em suas motiva\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Meu apoio \u00e0 greve estudantil \u00e9 simplesmente uma extens\u00e3o do meu ativismo. Como ativista e cidad\u00e3o cubano afetado pelo aumento da taxa da ETECSA de v\u00e1rias maneiras, ficar \u00e0 margem de um evento de tamanha relev\u00e2ncia nunca foi uma op\u00e7\u00e3o. Embora, \u00e9 claro, haja uma simpatia geracional que tamb\u00e9m influencia o quanto consigo me identificar com aqueles que tiveram a coragem de liderar, a partir das salas de aula da universidade, uma a\u00e7\u00e3o que inequivocamente ter\u00e1 consequ\u00eancias. Sabemos que o aparato repressivo do Estado cubano nunca poupa quando se trata de retaliar contra qualquer sinal de rebeli\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Sempre serei um estudante; acho que \u00e9 o pre\u00e7o mais justo para pessoas como eu: intrusos, desconfort\u00e1veis em todos os lugares, sem respeito pelo dogm\u00e1tico ou pelo modal, conflituosos por natureza e por sorte. Porque sem atrito n\u00e3o pode haver crescimento.<\/p>\n\n\n\n<p>De qualquer forma, j\u00e1 tenho 24 anos. Cerca de dois anos atr\u00e1s, talvez menos, eu deveria ter me formado em Psicologia se n\u00e3o tivesse decidido deixar a carreira em 2022, quando v\u00e1rios fatores me levaram a agir impulsivamente. Um desses fatores foi a press\u00e3o exercida pelo Departamento de Seguran\u00e7a do Estado (DSE) contra mim e v\u00e1rias pessoas envolvidas na realiza\u00e7\u00e3o do painel liter\u00e1rio A Pior Gera\u00e7\u00e3o (LPG). Naquela \u00e9poca eu n\u00e3o sabia como lidar com as diferentes amea\u00e7as e, infelizmente, a paran\u00f3ia foi mais forte&#8230; Durante o \u00faltimo interrogat\u00f3rio a que fui submetido, um dos oficiais n\u00e3o hesitou em me lembrar que eu &#8220;n\u00e3o era e nunca seria&#8221; um estudante universit\u00e1rio, que eles j\u00e1 haviam conseguido me tirar e que n\u00e3o me deixariam entrar novamente na Universidade de Havana.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso \u00e9 fundamental acompanhar essa gera\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria que liderou a greve. Ao estar ao seu lado, compartilhando experi\u00eancias, conselhos e implantando protocolos de apoio, os alunos ficam menos vulner\u00e1veis \u00e0 repress\u00e3o e a ideias desesperadas, como abandonar a carreira. Existem outras maneiras de enganar e confrontar os repressores.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A greve estudantil foi apenas um m\u00e9todo de protesto contra a arbitrariedade monopolista da ETECSA ou existem outras leituras para este evento? Em outras palavras, se tiv\u00e9ssemos sido reembolsados das taxas anteriores, mais acess\u00edveis ou &#8220;justas&#8221;, tudo deveria ter voltado ao &#8220;normal&#8221;?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 muitas leituras da greve. Alguns s\u00e3o breves e simplistas, outras muito adocicadas em contraste com a realidade. Mas a verdade \u00e9 que a greve aconteceu. Talvez n\u00e3o na escala esperada, talvez sem atingir seus objetivos. Mas o mero evento foi uma vit\u00f3ria contra a arbitragem pol\u00edtica nas universidades cubanas.<\/p>\n\n\n\n<p>A greve foi uma vit\u00f3ria total dos universit\u00e1rios cubanos. Em tr\u00eas ou quatro dias, eles tiveram que correr ao DSE e a todos os tipos de funcion\u00e1rios pela maioria das universidades para explicar o inexplic\u00e1vel: o aumento da taxa. E essa medida, como qualquer ajuste empobrecedor e arbitr\u00e1rio, n\u00e3o tem outra explica\u00e7\u00e3o que n\u00e3o seja violenta. Assim chegamos \u00e0 repress\u00e3o, aos processos intimidat\u00f3rios contra os estudantes, \u00e0s chantagens de familiares, \u00e0s amea\u00e7as de expuls\u00e3o, ao incitamento \u00e0 emigra\u00e7\u00e3o&#8230; em suma, \u00e0s pr\u00e1ticas coercitivas t\u00edpicas do autoritarismo cubano.<\/p>\n\n\n\n<p>A greve parou, sim, talvez antes de ser consolidada. Mas foi detida pela influ\u00eancia e jogo sujo dos \u00f3rg\u00e3os repressivos do Estado. \u00c9 por isso que a &#8220;vit\u00f3ria&#8221; trapaceira sobre os estudantes significa n\u00e3o significa mais do que outro cap\u00edtulo da arbitrariedade do poder pol\u00edtico sobre o povo. Em contextos totalit\u00e1rios como o nosso, qualquer articula\u00e7\u00e3o popular que consiga pelo menos existir, pode ser anotada como vit\u00f3ria.&nbsp; Venceu-se o medo, o desamparo legal, a impunidade com que o governo \u00e9 pintado. Venceu-se a falsa narrativa de bem-estar que \u00e9 imposta, o discurso do benef\u00edcio social e ao do suposto apoio da maioria.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, como o cen\u00e1rio repressivo era previs\u00edvel, uma vez que faculdades como o MATCOM [Matem\u00e1tica e Computa\u00e7\u00e3o] da UH se declararam em greve, a luta n\u00e3o era mais contra o aumento da taxa, mas contra a repress\u00e3o e suas consequ\u00eancias. Pouco ou nada foi alcan\u00e7ado al\u00e9m do s\u00edmbolo. Mas \u00e9 mais uma marca in\u00e9dita em mais de 60 anos de hist\u00f3ria. Pouco ou nada, para <em>&nbsp;a realpolitik<\/em>, foi alcan\u00e7ado em <a href=\"https:\/\/revistaelestornudo.com\/etiqueta\/11j-cuba\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">11 de julho de 2021<\/a>, mas para a hist\u00f3ria de Cuba sob o castrismo \u00e9 uma data mais do que relevante.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Os estudantes s\u00e3o um sujeito civil bastante firme e organizado para conseguir uma &#8220;mudan\u00e7a&#8221; em Cuba, seja l\u00e1 o que isso signifique?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Essa \u00e9 uma pergunta dif\u00edcil, porque, como voc\u00ea bem insinua, o que \u00e9 uma mudan\u00e7a em Cuba? Al\u00e9m disso, como voc\u00ea mede isso? Se compararmos o tempo presidencial de Ra\u00fal Castro com o de Fidel Castro, encontraremos tantas diferen\u00e7as quanto o fato de o modelo econ\u00f4mico\/pol\u00edtico ser algo substancialmente diferente; nada a ver uma coisa com a outra, nem mesmo no n\u00edvel do discurso. Quase se pode dizer que Ra\u00fal construiu tudo o que seu irm\u00e3o rejeitou. Por outro lado, podemos dizer que algo mudou em Cuba al\u00e9m das miragens? O autoritarismo continuou, o enriquecimento desproporcional da casta militar \u2013 que tamb\u00e9m se tornou empresarial com Ra\u00fal \u2013, a precariza\u00e7\u00e3o da maioria do povo, o extrativismo e a depend\u00eancia econ\u00f4mica de monop\u00f3lios ou outros regimes. Em suma, <a href=\"https:\/\/revistaelestornudo.com\/ultimo-invierno-los-castro-la-otra-isla-del-gatopardo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">nada havia mudado, mas tudo era diferente<\/a>. O mesmo pode ser dito sobre <a href=\"https:\/\/revistaelestornudo.com\/la-era-diaz-canel-opinion-adonis\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">o per\u00edodo de D\u00edaz-Canel<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa &#8220;mudan\u00e7a&#8221; \u00e9 abstrata demais para ser medida, \u00e9 simb\u00f3lica e subjetiva demais para ser definida em moldes de defini\u00e7\u00e3o. Porque eventos como <a href=\"https:\/\/www.presidencia.gob.cu\/media\/filer\/public\/2022\/05\/07\/palabras_a_los_intelectuales_1961.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">&#8220;Palavras aos Intelectuais&#8221;,<\/a> Playa Gir\u00f3n, a Campanha de Alfabetiza\u00e7\u00e3o, a Crise de Outubro, o bloqueio\/embargo, a microfra\u00e7\u00e3o, a Limpeza de Escambray, a Safra dos Dez Milh\u00f5es, <a href=\"https:\/\/revistaelestornudo.com\/etiqueta\/caso-padilla\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">o caso Padilla<\/a>, o Congresso de Educa\u00e7\u00e3o e Cultura de 71, a Constitui\u00e7\u00e3o de 76, os eventos da embaixada peruana, <a href=\"https:\/\/revistaelestornudo.com\/marielitos-2\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">o \u00eaxodo do Mariel<\/a>,&nbsp; a queda da URSS, a crise dos balseiros, <a href=\"https:\/\/revistaelestornudo.com\/etiqueta\/periodo-especial\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">o Per\u00edodo Especial<\/a>, o Maleconazo, o caso Eli\u00e1n, a tomada provis\u00f3ria do poder por Ra\u00fal Castro em 2006, as diretrizes de 2011, <a href=\"https:\/\/revistaelestornudo.com\/etiqueta\/gaesa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">o GAESA<\/a>, a normaliza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es com os Estados Unidos, a era Obama, o primeiro mandato de Trump, a marcha do orgulho 11M em Prado,&nbsp; a pandemia COVID-19, o <a href=\"https:\/\/revistaelestornudo.com\/etiqueta\/movimiento-san-isidro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">MSI,<\/a> <a href=\"https:\/\/revistaelestornudo.com\/etiqueta\/27n\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">27N<\/a>, <a href=\"https:\/\/revistaelestornudo.com\/etiqueta\/tarea-ordenamiento\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">a reorganiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica<\/a>, o <a href=\"https:\/\/revistaelestornudo.com\/11-j-un-ano-republica-proteatas-cuba\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">11J<\/a> e o posterior ciclo de protestos, o \u00eaxodo em massa sem precedentes ou a crise estrutural de hoje&#8230;, s\u00e3o eventos que significaram uma mudan\u00e7a em toda a extens\u00e3o da palavra.<\/p>\n\n\n\n<p>Se falamos de uma mudan\u00e7a de governo ou do fim do regime de Castro&#8230; isso \u00e9 outra coisa. Sinceramente, n\u00e3o acredito que venha do corpo estudantil, mas no ponto de n\u00e3o retorno em que Cuba se encontra, qualquer fa\u00edsca poderia ser o catalisador necess\u00e1rio para o impulso popular de come\u00e7ar a destronar o castrismo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que \u00e9 ou o que se tornou a Federa\u00e7\u00e3o Estudantil Universit\u00e1ria (FEU)?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Durante d\u00e9cadas, a FEU nada mais foi do que um ap\u00eandice dependente dos ditames da UJC [Uni\u00e3o de Jovens Comunistas], que nada mais \u00e9 do que uma extens\u00e3o do PCC [Partido Comunista] autorit\u00e1rio. Em suma, outra organiza\u00e7\u00e3o disfuncional, que realiza um trabalho parasit\u00e1rio sobrevivendo \u00e0 base das imposi\u00e7\u00f5es do governo e algum subs\u00eddio ocasional para atividades com fins ideol\u00f3gicos, bem como pelas regalias de diferentes tipos que seus altos funcion\u00e1rios recebem. \u00c9 muito triste ver como uma organiza\u00e7\u00e3o com uma imensa tradi\u00e7\u00e3o de luta estudantil, e da qual grande parte da juventude enfrentou todos os tipos de regimes, atualmente constitui uma ferramenta a servi\u00e7o de um poder que nega os direitos do corpo estudantil enquanto os silencia e reprime.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 por isso que a marca deixada pela greve estudantil \u00e9 t\u00e3o relevante. Pelo menos por alguns dias, a FEU \u2013 ou uma parte da FEU \u2013 aspirou ser novamente essa trincheira de rebeldia para o corpo estudantil. Aqueles que falam sobre isso ser algo j\u00e1 acordado entre a FEU e o poder pol\u00edtico falam por ignor\u00e2ncia. Incomoda-me muito ver opin\u00f3logos at\u00e9 publicando textos pseudocient\u00edficos e muito mal informados sobre o tema da greve sem ter tido a dec\u00eancia ou a coragem de ir \u00e0s universidades e conhecer a realidade da boca dos estudantes.<\/p>\n\n\n\n<p>A greve foi um movimento org\u00e2nico que surgiu dentro do corpo estudantil. Esses estudantes fazem parte da FEU e suas maiores ferramentas legais para enfrentar o poder pol\u00edtico est\u00e3o em sua filia\u00e7\u00e3o a essa organiza\u00e7\u00e3o. \u00c9 muito f\u00e1cil criticar comodamente e questionar sua legitimidade para fazer exig\u00eancias de organiza\u00e7\u00f5es arbitradas pelo Estado. O dif\u00edcil \u00e9 ser um estudante universit\u00e1rio em Cuba e se expor de frente a um aparato governamental que se escuda atr\u00e1s de narrativas convenientes para lavar sua imagem, como o suposto apoio do corpo estudantil.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como resultado da greve estudantil, voc\u00ea compartilhou <\/strong><a href=\"https:\/\/rialta.org\/solidaridad-jovenes-socialistas-argentina-cuba\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>v\u00e1rios v\u00eddeos em solidariedade aos estudantes universit\u00e1rios cubanos<\/strong><\/a><strong>, enviados diretamente por grupos progressistas na Am\u00e9rica Latina. Voc\u00ea \u00e9 o elo entre esses grupos e Cuba? Boa parte da esquerda em nosso continente, em algum momento de sua exist\u00eancia pol\u00edtica, foi apoiadora ou disc\u00edpula do castrismo, pelo menos em termos de sua presen\u00e7a na m\u00eddia ou de seu discurso oficial. O que mudou (se \u00e9 que mudou alguma coisa) para que alguns porta-vozes se posicionem contra o governo cubano?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A esquerda, como a direita, n\u00e3o s\u00e3o posi\u00e7\u00f5es monol\u00edticas, nem uniformes em todas as suas variantes. Logicamente, t\u00eam nuances, diferentes modos filos\u00f3ficos, grupos rivais, programas chocantes. Em suma, falar sobre &#8220;a esquerda do continente&#8221; \u00e9 como falar sobre as pessoas que usam t\u00eanis Nike na Patag\u00f4nia. N\u00e3o \u00e9 descritivo porque n\u00e3o h\u00e1 estudo de amostra, n\u00e3o estamos falando de algo espec\u00edfico. Posso dizer que quem usa t\u00eanis Nike \u00e9 esportista? Claro que n\u00e3o. \u00c9 por isso que dizer que &#8220;a esquerda do continente&#8221; tem sido historicamente pr\u00f3-castrista \u00e9 ignorar as infinitas diferen\u00e7as que existem entre tantos coletivos de esquerda na Am\u00e9rica Latina. Essa homogeneiza\u00e7\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno muito comum na imprensa independente cubana, o que denota uma total ignor\u00e2ncia da posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de muitos grupos de esquerda, sua rela\u00e7\u00e3o com o castrismo e seus programas de luta em rela\u00e7\u00e3o a Cuba.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro eu gostaria de rever um pouco a hist\u00f3ria. Desde os primeiros anos da Revolu\u00e7\u00e3o, o castrismo encontrou seus cr\u00edticos mais ferrenhos em coletivos de esquerda, principalmente trotskistas, anarquistas e socialistas que, mesmo antes de 1959, tra\u00e7avam firmemente sua oposi\u00e7\u00e3o ao stalinista e autorit\u00e1rio Partido Popular Socialista (PSP), do qual emergiram muitos dos l\u00edderes que definiriam as linhas pol\u00edticas e partid\u00e1rias do novo governo. Entre os coletivos podemos destacar os membros do Partido Revolucion\u00e1rio dos Trabalhadores (POR-T), de filia\u00e7\u00e3o trotskista, que desde sua funda\u00e7\u00e3o em fevereiro de 1960 se opuseram \u00e0 verticalidade das medidas impostas pelo governo \u00e0 classe trabalhadora e ao caminho autorit\u00e1rio do castrismo para promover o projeto revolucion\u00e1rio. Denunciaram a exclus\u00e3o dos setores populares e da classe trabalhadora das decis\u00f5es sobre modelos de produ\u00e7\u00e3o e processos de trabalho, e apontaram a centraliza\u00e7\u00e3o e o planejamento estatal arbitr\u00e1rio como as principais causas das baixas taxas de produ\u00e7\u00e3o nos primeiros anos. Al\u00e9m disso, pediram a independ\u00eancia dos sindicatos do Estado e o estabelecimento da democracia oper\u00e1ria e popular, al\u00e9m de exigir o direito ao sistema multipartid\u00e1rio e \u00e0 liberdade de express\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas posi\u00e7\u00f5es intransigentes logo encontraram a repress\u00e3o castrista, f\u00f3rmula essencial para a imposi\u00e7\u00e3o e posterior manuten\u00e7\u00e3o do regime. Em 1960, um expurgo sindical removeu milhares de representantes eleitos de seus cargos em suas bases em 1959, a fim de colocar outros mais convenientes. Esse tra\u00e7o inquestion\u00e1vel do autoritarismo stalinista foi um dos maiores alarmes para inflamar a oposi\u00e7\u00e3o de esquerda. At\u00e9 Che Guevara, que sem d\u00favida \u00e0s vezes parecia ser e foi um dos opositores de mais alto n\u00edvel naqueles anos \u2013 para provar isso basta estudar seus relat\u00f3rios, an\u00e1lises econ\u00f4micas e estrat\u00e9gicas, seus debates p\u00fablicos e sua correspond\u00eancia com Fidel Castro e outros l\u00edderes \u2013 denunciou a falta de democracia sindical que havia sido imposta e a pantomima que surgiu em seu lugar.<\/p>\n\n\n\n<p>No mesmo ano de 1960, a firme oposi\u00e7\u00e3o trotskista \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de um partido \u00fanico que unisse o M-26-7 [Movimento 26 de Julho], o Diret\u00f3rio Revolucion\u00e1rio e o PSP, desencadeou uma persegui\u00e7\u00e3o estatal muito grande contra o trotskismo, em particular contra o POR-T. Isso foi realizado principalmente por funcion\u00e1rios do PSP, que acusaram os trotskistas de serem provocadores, incitadores da agress\u00e3o dos EUA, instrumentos do FBI e da CIA, contrarrevolucion\u00e1rios e outros r\u00f3tulos cl\u00e1ssicos que se repetiram ao longo da hist\u00f3ria do regime com o fim de desacreditar.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, em 1961, a invas\u00e3o da Ba\u00eda dos Porcos serviu de desculpa para acelerar a repress\u00e3o pol\u00edtica contra o trotskismo. Assim, eles censuraram a d\u00e9cima edi\u00e7\u00e3o do jornal POR-T chamada <em>Voz Proletaria<\/em>, e confiscaram chapas de impress\u00e3o e outros meios de impress\u00e3o, bem como uma tentativa editorial do livro de LeonTrotsky <em>A Revolu\u00e7\u00e3o<\/em> <em>Permanente<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos maiores art\u00edfices disso foi o pr\u00f3prio Che Guevara, que tentou n\u00e3o raro desacreditar o movimento trotskista cubano \u2013 chamando-os de &#8220;subversivos&#8221; e ignorando seus direitos como cidad\u00e3os \u2013 embora mais tarde tenha tido que se retratar quando sua pr\u00f3pria posi\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a se chocar com o stalinismo j\u00e1 institucionalizado. Ainda em 1964, aproximadamente, ele resgatou da pris\u00e3o v\u00e1rias v\u00edtimas da ca\u00e7ada trotskista de 61 e do expurgo realizado no ano seguinte pelo nefasto <a href=\"https:\/\/revistaelestornudo.com\/los-explotes-anibal-escalante\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">An\u00edbal Escalante<\/a>. A repress\u00e3o contra o trotskismo foi realizada de diferentes maneiras: expuls\u00e3o dos locais de trabalho, internamento em campos de trabalhos for\u00e7ados, ex\u00edlio compuls\u00f3rio, pris\u00f5es e san\u00e7\u00f5es criminais, intimida\u00e7\u00e3o, viol\u00eancia f\u00edsica, ridiculariza\u00e7\u00e3o p\u00fablica; em suma, as pr\u00e1ticas totalit\u00e1rias que durante d\u00e9cadas o castrismo n\u00e3o deixou de materializar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1966 e sem o apoio interno de Che Guevara \u2013 que havia amadurecido politicamente em rela\u00e7\u00e3o ao stalinismo e, sem d\u00favida, at\u00e9 ent\u00e3o poderia ser considerado um de seus maiores inimigos \u2013 o peso repressivo contra o trotskismo e o resto das oposi\u00e7\u00f5es de esquerda andaria de m\u00e3os dadas com o pr\u00f3prio Fidel Castro, que descreveu o trotskismo, textualmente, como &#8220;essa coisa desacreditada, essa coisa anti-hist\u00f3rica, essa coisa fraudulenta que emana de elementos t\u00e3o comprovadamente a servi\u00e7o do imperialismo ianque, como \u00e9 o programa da Quarta Internacional&#8221;. Esse interesse imediato de Fidel por esses grupos dentro da ilha foi apenas um efeito de sua rela\u00e7\u00e3o cada vez mais pr\u00f3xima com a URSS e os c\u00f3digos de depend\u00eancia ideol\u00f3gica que esta impunha. Com a prote\u00e7\u00e3o de Castro, l\u00edderes do PSP como Blas Roca ou L\u00e1zaro Pe\u00f1a, sabendo que poderiam agir impunemente, lan\u00e7aram outra ofensiva contra essa esquerda que levou a novas pris\u00f5es. Depois de 1966, a hist\u00f3ria repressiva contra o trotskismo e seus afiliados se repetiu in\u00fameras vezes.<\/p>\n\n\n\n<p>O anarquismo, que desde 1960 foi proibido pelo novo governo, sofreu um destino pior. Eles tamb\u00e9m foram expulsos da Confedera\u00e7\u00e3o de Trabalhadores Cubanos, atual Central de Trabalhadores de Cuba (CTC). A oposi\u00e7\u00e3o de anarquistas e socialistas libert\u00e1rios ao castrismo baseia-se no princ\u00edpio l\u00f3gico da horizontalidade promovido pelo anarquismo, completamente contr\u00e1rio \u00e0s pr\u00e1ticas totalit\u00e1rias que se estabeleceram em Cuba inclusive &nbsp;desde os primeiros anos da Revolu\u00e7\u00e3o. Muitos militantes anarquistas foram presos com senten\u00e7as muito altas de at\u00e9 20 anos por supostas &#8220;atividades contrarrevolucion\u00e1rias&#8221;; outros receberam pena de morte ou pris\u00e3o perp\u00e9tua. Outro n\u00famero morreu em circunst\u00e2ncias suspeitas: na pris\u00e3o, poucos dias depois de serem libertados, sozinhos em suas casas e assim por diante. A alian\u00e7a do PSP com o Estado se dedicou a varrer a milit\u00e2ncia anarquista em Cuba desde o nascimento da Revolu\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que era outra posi\u00e7\u00e3o de esquerda contr\u00e1ria ao stalinismo centralizado e autorit\u00e1rio ao qual a lideran\u00e7a de Castro se agarraria.<\/p>\n\n\n\n<p>O anarquismo cubano, com uma imensa tradi\u00e7\u00e3o de luta oper\u00e1ria e estudantil durante o processo republicano, com imensas conquistas durante os anos trinta e quarenta em termos de direitos de cidadania, com uma participa\u00e7\u00e3o mais do que relevante na derrubada das ditaduras de Machado e <a href=\"https:\/\/revistaelestornudo.com\/batista-el-hombre-esta-aqui\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Batista<\/a>, bem como com uma incr\u00edvel assertividade nas solu\u00e7\u00f5es horizontais e democr\u00e1ticas para os problemas do povo,&nbsp;&nbsp; representava n\u00e3o apenas um perigo para o castrismo, mas tamb\u00e9m uma terr\u00edvel amea\u00e7a ao sistema totalit\u00e1rio que estava sendo forjado e que alguns anos depois se consolidou.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo assim, o trabalho realizado na segunda d\u00e9cada do s\u00e9culo 21, especialmente pelos coletivos agrupados em torno da Oficina Libert\u00e1ria Alfredo L\u00f3pez e no espa\u00e7o social da ABRA, foi uma demonstra\u00e7\u00e3o de que a chama anarquista ainda estava em vigor em Cuba. Embora o ass\u00e9dio e a repress\u00e3o por parte da pol\u00edcia pol\u00edtica e do DSE &nbsp;tenham sido uma constante, esse movimento deixou grandes li\u00e7\u00f5es de autogest\u00e3o e f\u00f3rmulas para violar a burocracia autorit\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro exemplo, bastante famoso, \u00e9 o fechamento abrupto pela DSE do jornal marxista <em>Pensamiento Cr\u00edtico<\/em> em 1971, que foi acompanhado pela dissolu\u00e7\u00e3o do Departamento de Filosofia da UH. Essa revista era um espa\u00e7o de debate filos\u00f3fico, pol\u00edtico e econ\u00f4mico fundado em 1967 pelo conhecido Grupo da rua K, onde se reuniam intelectuais ligados ao Departamento de Filosofia e Letras. Qual foi seu delito? Aplicar rigorosamente a an\u00e1lise da economia e da filosofia marxista e p\u00f3s-marxista \u00e0 gest\u00e3o de um governo autodenominado socialista, bem como analisar criticamente cada mil\u00edmetro do que estava acontecendo no panorama pol\u00edtico, social e cultural da ilha. A influ\u00eancia de um marxismo heterodoxo sobre a juventude e a intelectualidade cubana sempre representou um perigo de acordo com o esquema sovietizado e est\u00e1tico promovido pelo castrismo. As perspectivas da revista foram acusadas de serem &#8220;revisionistas e contrarrevolucion\u00e1rias&#8221; pela propaganda oficial, e seus membros submetidos ao ostracismo e chantagem pol\u00edtica. O principal objetivo da investida contra o <em>Pensamento Cr\u00edtico<\/em> era fechar espa\u00e7os para posi\u00e7\u00f5es socialistas que se colocassem dissidentes diante da narrativa institucional.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 segredo que, ap\u00f3s os acontecimentos do &#8220;caso Padilla&#8221;, grande parte da esquerda internacional, especialmente na Am\u00e9rica Latina, rompeu com as pol\u00edticas do castrismo. Assim, aos poucos, o castrismo foi baixando suas m\u00e1scaras e tem sido cada vez mais dif\u00edcil ocultar seu rosto frente \u00e0 opini\u00e3o internacional, especialmente quando o fetiche revolucion\u00e1rio que o levou a ser uma atra\u00e7\u00e3o tur\u00edstica para a esquerda mundial, principalmente a europeia e a americana, praticamente j\u00e1 n\u00e3o resta nem a mem\u00f3ria. As express\u00f5es de apoio atrasado e desinformado que permanecem dentro da esquerda ao castrismo v\u00eam principalmente de coletivos stalinistas que ainda jogam a palha revolucion\u00e1ria uns nos outros, porque \u00e9 mais uma maneira de ser <em>legal<\/em> do que de ser coerente ou de militar com sinceridade na esquerda.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o notarei o apoio de grupos afiliados ao chamado progressismo latino-americano, como o peronismo (kirchnerismo), o chavismo, o correismo, o MAS na Bol\u00edvia, o PT no Brasil, ou os etceteras do chamado &#8220;socialismo do s\u00e9culo 21&#8221;, porque al\u00e9m de seus membros nem mesmo se considerarem de esquerda, nenhuma de suas pr\u00e1ticas os aproxima dos princ\u00edpios do socialismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre os grupos que enviaram sua solidariedade \u00e0 greve estudantil, digo que s\u00e3o coletivos de muitos pa\u00edses do mundo, a maioria deles da Am\u00e9rica Latina, militantes de uma esquerda anti-stalinista e, al\u00e9m disso, antiautorit\u00e1ria e democr\u00e1tica. \u00c9 por isso que s\u00e3o grupos que se op\u00f5em a modelos como o castrismo e exemplos semelhantes de burocracias centralizadas ou ditaduras militarizadas, como o caso de Ortega-Murillo e Maduro. Em seus respectivos pa\u00edses, eles representam uma frente de oposi\u00e7\u00e3o muito grande ante qualquer oficialismo e alguns alcan\u00e7aram enorme for\u00e7a pol\u00edtica de suas coaliz\u00f5es, como aconteceu com a Frente de Esquerda da Argentina na \u00faltima elei\u00e7\u00e3o, onde sua candidata Myriam Bregman conquistou os primeiros assentos nas prim\u00e1rias. A liga\u00e7\u00e3o entre esses grupos e Cuba \u00e9 hist\u00f3rica, especialmente na ala trotskista, que desde a d\u00e9cada de 1960 apresentaram sua oposi\u00e7\u00e3o ao castrismo ap\u00f3s todo o processo repressivo contra os movimentos em Cuba.<\/p>\n\n\n\n<p>No campo mais recente, a conex\u00e3o do movimento esquerdista internacionalista com o caso de Cuba se intensifica como resultado dos protestos populares de 11 de julho de 2021 e com a cria\u00e7\u00e3o de coletivos de esquerda contr\u00e1rios ao castrismo, como os Socialistas de Afilia\u00e7\u00e3o em Luta, do qual sou membro. Durante anos, o trabalho em conjunto com organiza\u00e7\u00f5es de diferentes tipos da esquerda internacional nos permitiu realizar uma s\u00e9rie de a\u00e7\u00f5es na ilha, que v\u00e3o desde o apoio a familiares de <a href=\"https:\/\/revistaelestornudo.com\/etiqueta\/presos-politicos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">presos pol\u00edticos<\/a>, campanhas contra a repress\u00e3o ou pela liberta\u00e7\u00e3o de ativistas e prisioneiros de consci\u00eancia, a publica\u00e7\u00e3o de textos e declara\u00e7\u00f5es sobre a situa\u00e7\u00e3o atual em Cuba na imprensa internacional.&nbsp; bem como a publica\u00e7\u00e3o do livro <em>Cuba 11J. Perspectivas contra-hegem\u00f4nicas dos protestos sociais<\/em> (<a href=\"https:\/\/marx21.net\/2023\/07\/11\/libro-cuba-11j\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Marx21.net, 2023<\/a>), coordenado por Alexander Hall Lujardo, a fim de desmontar a narrativa do governo sobre os protestos de julho de 2021 perante a opini\u00e3o internacional. Coletivos massivos como a Liga Internacional Socialista (LIS), a Liga Internacional dos Trabalhadores-Quarta Internacional (LIT-QI), o Movimento Socialista dos Trabalhadores (MST), o Marx21, a Corrente Socialista Internacional (IST), a Unidade Internacional dos Trabalhadores-Quarta Internacional (UIT-QI), bem como v\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es estudantis, das quais os v\u00eddeos foram enviados principalmente em apoio \u00e0 greve, apoio ao povo de Cuba e aos coletivos pol\u00edticos ilha \u00e9 constante, altru\u00edsta e com n\u00edveis muito altos de comprometimento.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para dar exemplos, estamos atualmente trabalhando com a LIS em uma campanha pela liberta\u00e7\u00e3o de presos pol\u00edticos que \u00e9 sequela de uma que ocorreu h\u00e1 cerca de dois anos para a liberta\u00e7\u00e3o de prisioneiros na Nicar\u00e1gua, que resultou na liberta\u00e7\u00e3o de cerca de 200 presos pol\u00edticos que estavam nas garras da ditadura de Ortega-Murillo. Para esta campanha contamos com ju\u00edzes internacionais, altos funcion\u00e1rios de organiza\u00e7\u00f5es internacionais e de direitos humanos, al\u00e9m do apoio de in\u00fameras personalidades e l\u00edderes pol\u00edticos de esquerda. Este \u00e9 um passo mais do que importante no processo de quebra do castrismo. H\u00e1 anos a LIS vem fazendo trabalho diplom\u00e1tico na quest\u00e3o de Cuba, principalmente com a quest\u00e3o dos presos pol\u00edticos, mas tamb\u00e9m contra a censura, a persegui\u00e7\u00e3o e as campanhas internacionais de difama\u00e7\u00e3o contra ativistas. Para isso, realizaram a\u00e7\u00f5es em frente aos consulados cubanos em v\u00e1rios pa\u00edses e entregaram relat\u00f3rios sobre a situa\u00e7\u00e3o cubana \u00e0s autoridades competentes. Da mesma forma, esta e outras organiza\u00e7\u00f5es prestam apoio a exilados e v\u00edtimas de sistemas como o de Castro, colaboram de diferentes maneiras com o ativismo na ilha, contra a precariedade e com vistas ao fim do autoritarismo, pela democratiza\u00e7\u00e3o e justi\u00e7a em Cuba.<\/p>\n\n\n\n<p>A solidariedade da esquerda internacional n\u00e3o \u00e9 um gesto isolado ou &#8220;inusitado&#8221;, como v\u00e1rios meios de comunica\u00e7\u00e3o independentes e a oposi\u00e7\u00e3o de direita quiseram pintar. \u00c9 o resultado de muitos anos de luta contra um sistema empobrecedor, antidemocr\u00e1tico, antipopular e antioper\u00e1rio como o de Cuba, que se pinta como &#8220;socialista&#8221; enquanto reprime, mata de fome, silencia e empobrece. Grande parte da imprensa e muitos setores da oposi\u00e7\u00e3o precisam fazer a tarefa sobre o trabalho da esquerda na luta contra o castrismo, porque por causa dessa opacidade e falta de apoio que \u00e9 dada a ativistas de esquerda como eu e outros que pertencem ao SeL, em muitos casos nos encontramos em um cen\u00e1rio de total vulnerabilidade contra a repress\u00e3o do Estado,&nbsp; onde apenas a dignidade e a firmeza nos mant\u00eam de p\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 alguns dias comentei em um grupo de WhatsApp que, desde meu primeiro interrogat\u00f3rio com o DSE, h\u00e1 v\u00e1rios anos, praticamente sendo ainda adolescente, o ass\u00e9dio e a repress\u00e3o contra mim s\u00f3 aumentaram. Dentro desses processos, minha posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de esquerda tem sido, em muitos casos, a justificativa usada por toneladas de pessoas, principalmente ativistas, para n\u00e3o me apoiar. Assim, outros amigos e eu estamos expostos h\u00e1 anos, tendo que ceder \u00e0s vezes para que n\u00e3o nos desapare\u00e7am definitivamente do mapa, mas com a consci\u00eancia tranquila e dispostos a entregar nossos corpos \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p>Dissid\u00eancia do castrismo de esquerda \u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de grande coer\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Seja nas redes sociais ou em outras plataformas, voc\u00ea sempre documenta de maneira muito prolixa seus encontros com o aparato repressivo da Seguran\u00e7a do Estado em Cuba. Existe alguma raz\u00e3o especial para isso? Quantas vezes voc\u00ea foi interrogado? Por que? Voc\u00ea tem medo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 aproximadamente dois anos, em vista do <a href=\"https:\/\/revistaelestornudo.com\/alina-barbara-y-jenny-pantoja-de-la-academia-a-la-calle-hasta-las-ultimas-consecuencias\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">julgamento<\/a> injustamente realizado contra a professora <a href=\"https:\/\/revistaelestornudo.com\/alina-barbara-lopez-entrevista\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Alina B\u00e1rbara L\u00f3pez Hern\u00e1ndez<\/a>, v\u00e1rios dos amigos que a acompanhavam em suas atividades pol\u00edticas receberam uma intima\u00e7\u00e3o para interrogat\u00f3rio por oficiais do DSE ou diretamente um cerco policial em nossas casas para impedir nossa liberdade de movimento. No meu caso, recebi uma convoca\u00e7\u00e3o para a unidade Zanja y Dragones [em Havana], onde algu\u00e9m que se identificou como primeiro-tenente Evelio estava me esperando.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Naquele dia, al\u00e9m de in\u00fameras amea\u00e7as, como de costume, Evelio me disse que a partir daquele momento eles estariam cientes de cada passo que eu desse, que nada lhes escaparia. A tal insol\u00eancia, s\u00f3 podia responder com uma maior. \u00c9 por isso que minha resposta foi que a partir daquele momento minha vida seria p\u00fablica, e que nenhum detalhe dela estaria fora das redes sociais. Nesse mesmo dia fui levado em uma viatura para minha casa, onde ficaria detido, sem liberdade de movimentos, at\u00e9 &#8220;novo aviso&#8221;. Foi a\u00ed que minha tarefa autobiogr\u00e1fica come\u00e7ou (hahaha).<\/p>\n\n\n\n<p>Antes daquele dia em novembro de 2023, tive tr\u00eas encontros com oficiais do DSE e passei pelo ass\u00e9dio quando o painel do LPG. Naquela \u00e9poca, pensei que fazer den\u00fancias p\u00fablicas me deixaria vulner\u00e1vel aos poderes repressivos. Ent\u00e3o descobri que era o contr\u00e1rio, que s\u00f3 a den\u00fancia p\u00fablica garante uma certa blindagem contra o aparato coercitivo do Estado. Desta forma, tanto a imprensa independente e internacional, como ativistas e observadores, podem ser conscientes, ecoados e denunciados. \u00c9 uma das formas mais eficazes de enfrentar a repress\u00e3o. \u00c9 por isso que sempre tornarei p\u00fablica qualquer tentativa de viol\u00eancia estatal contra mim.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m uma forma de mostrar ao povo cubano que, embora o medo da repress\u00e3o seja leg\u00edtimo, enfrentar o DSE e outras inst\u00e2ncias repressivas do Estado n\u00e3o \u00e9 uma tarefa imposs\u00edvel. O castrismo e seus capangas sempre se pintaram para o mundo e para n\u00f3s mesmos como impenetr\u00e1veis e inquebr\u00e1veis. O trabalho de muitos ativistas desmente esse pseudo-triunfalismo que s\u00f3 sobrevive de chantagens e amea\u00e7as. Confrontar um poder repressivo requer convic\u00e7\u00f5es s\u00f3lidas, \u00e9 claro, mas acima de tudo um senso abrangente de justi\u00e7a. J\u00e1 n\u00e3o sei mais quantas vezes fui interrogado; foram muitas e por raz\u00f5es diferentes, mas sempre que saio de um interrogat\u00f3rio, vou convencido de que n\u00e3o ser\u00e1 o \u00faltimo.<\/p>\n\n\n\n<p>Medo sempre se tem, embora cada vez sinta menos. Chegar\u00e1 o dia em que n\u00e3o terei nenhum. Como sempre digo: quando se luta por dignidade e justi\u00e7a, n\u00e3o pode haver medo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Vamos falar sobre palavras. <\/strong><a href=\"https:\/\/revistaelestornudo.com\/author\/carlosm\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Carlos Manuel \u00c1lvarez<\/strong><\/a><strong> escreveu em <\/strong><a href=\"https:\/\/www.anagrama-ed.es\/libro\/cronicas\/los-intrusos\/9788433919205\/CR_129\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong><em>Los intrusos <\/em><\/strong><\/a><strong><em>&nbsp;<\/em><\/strong><strong>(Anagrama, 2023): &#8220;Aquele que n\u00e3o se atreveu a dizer algo era um escravo tanto quanto aquele que acreditava que algo n\u00e3o podia deixar de ser dito&#8221;. Em um fragmento anterior, ele alude explicitamente ao termo &#8220;ditadura&#8221;, uma palavra constantemente em disputa dentro do espa\u00e7o p\u00fablico cubano. Voc\u00ea acha que \u00e9 necess\u00e1rio usar esta ou outras palavras semelhantes para se referir ao governo da ilha? Por que alguns l\u00edderes progressistas n\u00e3o o fazem apesar de reconhecerem que o Estado cubano &#8220;n\u00e3o \u00e9 democr\u00e1tico&#8221;? Voc\u00ea usa?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em Cuba existe um regime militar autorit\u00e1rio, repressivo e antidemocr\u00e1tico; isso \u00e9 inquestion\u00e1vel. Cham\u00e1-lo de ditadura ou n\u00e3o \u00e9 um terreno disputado devido \u00e0s muitas manipula\u00e7\u00f5es do termo que foram feitas em rela\u00e7\u00e3o a regimes t\u00e3o maus ou consideravelmente piores que o de Castro.<\/p>\n\n\n\n<p>As chamadas novas direitas resgataram o fetiche, um pouco at\u00e9 sexual, com regimes como o de Franco e Pinochet sob o argumento mal informado de que n\u00e3o eram ditaduras, mas governos &#8220;salvadores do mal comunista&#8221; em seus respectivos pa\u00edses. \u00c9 por isso que se vinculam aos programas e discursos de l\u00edderes autorit\u00e1rios, repressivos e antidemocr\u00e1ticos, como nos casos de Nakib Bukele, <a href=\"https:\/\/revistaelestornudo.com\/javier-milei-argentina-elecciones-ultraderecha-populismo-perfil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Javier Milei<\/a> ou Viktor Orb\u00e1n. Idolatram as pol\u00edticas de personagens da estatura de <a href=\"https:\/\/revistaelestornudo.com\/etiqueta\/donald-trump\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Donald Trump<\/a> e gostariam de se ver no espelho de outros como Elon Musk. Essa ascens\u00e3o reacion\u00e1ria \u00e9 um processo sintom\u00e1tico do desgaste e quase colapso sofridos pelas democracias liberais do Ocidente, bem como da persist\u00eancia ao longo do tempo de modelos como o imposto em Cuba.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O termo &#8220;ditadura&#8221; perde todo o rigor descritivo que pode ter no exato momento em que o mandato de Miguel D\u00edaz-Canel em Cuba \u00e9 chamado assim e n\u00e3o o de Rafael Videla na Argentina, por exemplo. Ou o adjetivo ditador \u00e9 imposto a Gustavo Petro na Col\u00f4mbia, que foi eleito democraticamente, sob os fundamentos da lei de seu pa\u00eds, e n\u00e3o a Nayib Bukele, que cumpre um mandato inconstitucional, altamente repressivo e contr\u00e1rio ao que estipulam as leis salvadorenhas. Quando o castrismo \u00e9 chamado de &#8220;ditadura&#8221; sem meias medidas, e, por exemplo, o pinochetismo, a Junta Militar Argentina ou qualquer outro regime estabelecido e patrocinado pelas pol\u00edticas dos EUA na Am\u00e9rica Latina durante o Plano Condor s\u00e3o chamados de &#8220;governo militar&#8221;, a palavra &#8220;ditadura&#8221; perde toda a sua condi\u00e7\u00e3o e se torna um instrumento oportunista e mal\u00e9volo de manipula\u00e7\u00e3o discursiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Gostaria de me concentrar aqui no caso de Augusto Pinochet, que chegou ao poder de forma antidemocr\u00e1tica em setembro de 1973 ao levar a cabo um golpe de Estado contra o governo eleito do <a href=\"https:\/\/revistaelestornudo.com\/etiqueta\/chile\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Chile<\/a>, presidido por Salvador Allende. Reparo neste caso porque \u00e9 o mais fetichizado e arvorado pelas novas direitas, sob o argumento de que deu origem ao &#8220;livre mercado&#8221; e &#8220;salvou&#8221; a economia chilena.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O governo de Pinochet foi uma pantomima projetada e dirigida pelo arquiteto do mal do mundo que conhecemos hoje: Henry Kissinger. O Chile foi o projeto neoliberal que serviria de exemplo para a expans\u00e3o na Argentina, Brasil, Uruguai, Paraguai e, em certa medida, no Peru, durante o Plano Condor e depois o materializaria em escala global a partir da d\u00e9cada de 1980. Um processo de depend\u00eancia extrativista e empobrecimento da maioria, segundo o qual governos assassinos garantiam a efic\u00e1cia do plano.<\/p>\n\n\n\n<p>Para dar alguns dados, a pobreza no Chile de Pinochet n\u00e3o caiu abaixo de 40% da popula\u00e7\u00e3o, atingindo seu pico no per\u00edodo de cinco anos 80-85, quando permaneceu acima de 45% at\u00e9 87; houve uma enorme crise em 1982, quando o &#8220;crescimento econ\u00f4mico&#8221; &#8211; pelo qual Pinochet \u00e9 t\u00e3o aplaudido &#8211; foi de -12%. Isso para n\u00e3o se atentar \u00e0 gest\u00e3o dos direitos miner\u00e1rios, trabalhistas e salariais e \u00e0s nacionaliza\u00e7\u00f5es de empresas e bancos para posterior venda a investidores estrangeiros. Nada&#8230; vendendo o pa\u00eds em peda\u00e7os enquanto os nacionais eram torturados, assassinados e empobrecidos. O n\u00famero de assassinatos com fins pol\u00edticos durante o regime de Pinochet foi de mais de duas mil pessoas, 150 menores, mais de mil desaparecidos e centenas de milhares de exilados. Da mesma forma, durante a ditadura na Argentina, foram contadas entre 15.000 e mais de 30.000 v\u00edtimas, incluindo mortos e desaparecidos. No Brasil, o saldo foi de mais de 430 mortes e desaparecimentos pol\u00edticos, al\u00e9m de mais de oito mil outras v\u00edtimas causadas por a\u00e7\u00e3o direta do Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>O mesmo acontece na \u00e9poca contempor\u00e2nea; pessoas pat\u00e9ticas como Javier Milei recebem aplausos alienados enquanto a pobreza aumenta em seus pa\u00edses, imp\u00f5em medidas discriminat\u00f3rias, cometem todo tipo de fraudes econ\u00f4micas, reprimem a popula\u00e7\u00e3o civil e as organiza\u00e7\u00f5es de oposi\u00e7\u00e3o, censuram e imp\u00f5em marcos ideol\u00f3gicos, mas a opini\u00e3o midi\u00e1tica e a imprensa hegem\u00f4nica n\u00e3o se atrevem a descrev\u00ea-los nem mesmo como autorit\u00e1rios. O que dizer do caso de Benjamin Netanyahu em <a href=\"https:\/\/revistaelestornudo.com\/etiqueta\/conflicto-israel-palestina\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Israel<\/a>; no \u00faltimo ano e meio, assassinou mais de 60.000 pessoas em Gaza, aproximadamente 20.000 menores de 18 anos. Ele \u00e9 o mesmo que lidera um pa\u00eds militarizado, com servi\u00e7o militar obrigat\u00f3rio sem distin\u00e7\u00e3o de g\u00eanero, o principal art\u00edfice das crises de guerra mais imprudentes dos \u00faltimos anos; algu\u00e9m que reprime aqueles que se op\u00f5em \u00e0s suas pol\u00edticas e mant\u00e9m um estado de apartheid contra a popula\u00e7\u00e3o civil palestina. Ent\u00e3o, Netanyahu \u00e9 um ditador ou n\u00e3o? Muito pouco \u00e9 questionado sobre a opini\u00e3o ocidental sobre esta quest\u00e3o quando Netanyahu, mais do que um ditador, \u00e9 um genocida.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para muit\u00edssimas pessoas nos Estados Unidos, na Europa ou em pa\u00edses com interesses semelhantes, chamar de ditador Hugo Ch\u00e1vez, N\u00e9stor ou Cristina Kirchner, Luiz Ignacio Lula ou Rafael Correa, para dar alguns exemplos, \u00e9 um salvo-conduto; enquanto isso, seus queixos tremem ao apontar minimamente os crimes contra a humanidade de governos como os Estados Unidos ou Israel. \u00c9 por isso que encontramos aqueles que gritam a palavra &#8220;ditador&#8221; como se, apenas por diz\u00ea-lo, tivessem explicado tudo. &#8220;Fidel era um ditador!&#8221; Sim, claro, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida sobre isso. Mas agora ouse dizer que Pinochet foi, que Franco foi, que Netanyahu \u00e9, ou que a pol\u00edtica externa dos Estados Unidos \u00e9 o pior e mais mortal ditador da era contempor\u00e2nea. N\u00e3o reconhec\u00ea-lo \u00e9 simplesmente carecer da verdade, desconhecer a hist\u00f3ria e viver ancorado no oportunismo do discurso em que o ditador \u00e9 quem conv\u00e9m e n\u00e3o quem realmente \u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Cuba, governa uma ditadura militar\/empresarial e partid\u00e1ria; dizer o contr\u00e1rio \u00e9 ignorar o cen\u00e1rio que a ilha sofre h\u00e1 d\u00e9cadas. Mas \u00e9 tendencioso e covarde qualificar o castrismo enquanto se aplaude ou se justifica outros regimes e sistemas de governos que s\u00e3o muito mais autorit\u00e1rios, repressivos, empobrecedores e mortais. \u00c9 uma quest\u00e3o de \u00e9tica e rigor hist\u00f3rico. As palavras s\u00e3o uma tecnologia a servi\u00e7o do poder; por isso saber us\u00e1-las \u00e9 um ato de coragem.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Em uma de suas <em>postagens <\/em>nas redes sociais, voc\u00ea fala sobre o &#8220;pronunciamento parcial diante das injusti\u00e7as do mundo&#8221;. Voc\u00ea menciona os casos de Cuba, <\/strong><a href=\"https:\/\/revistaelestornudo.com\/israel-palestina-tierra-cananea-toda-idealogia-exterminio\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Palestina<\/strong><\/a><strong>, Haiti, Sud\u00e3o, Congo e <\/strong><a href=\"https:\/\/revistaelestornudo.com\/inmigracion-estados-unidos-travel-ban-trump-cuba\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>&nbsp;as pol\u00edticas anti-imigra\u00e7\u00e3o<\/strong><\/a><strong> de Trump nos&nbsp; Estados Unidos. Voc\u00ea assegura tamb\u00e9m que \u00abo ativismo \u00e9 coer\u00eancia e dignidade pol\u00edtica\u00bb. A que voc\u00ea se refere com isso?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Se um grande fardo nos \u00e9 imposto pelo castrismo, \u00e9 a falsa identidade excepcional com a qual sempre se quer pintar Cuba. Essa pr\u00e1tica foi assumida tanto pelos setores hist\u00f3ricos da oposi\u00e7\u00e3o do ex\u00edlio quanto por grande parte da popula\u00e7\u00e3o. Sob essa l\u00f3gica, e dentro do jogo bipolar de extremos em que nos encontramos, em Cuba h\u00e1 a pior ditadura da hist\u00f3ria da Am\u00e9rica Latina ou a maior Revolu\u00e7\u00e3o do Ocidente. Em ambos os casos, as gargalhadas seriam mais do que compreens\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p>A narrativa instaurada de que os problemas de Cuba s\u00e3o insuper\u00e1veis e que se estaria melhor em qualquer lugar do mundo ou que o castrismo \u00e9 um dos piores males da humanidade e que a fome, o empobrecimento, a escassez e tantas outras car\u00eancias s\u00e3o caracter\u00edsticas \u00fanicas do sistema cubano, \u00e9 uma &#8220;verdade&#8221; institucionalizada em muitos espa\u00e7os de opini\u00e3o, assim como em parte da imprensa independente que luta, de certa forma, contra o triunfalismo ac\u00e9falo da m\u00eddia oficial. No final, estamos testemunhando uma fun\u00e7\u00e3o maluca segundo a qual em Cuba ou todos os males repousam sob o sol ou a bonan\u00e7a sagrada de uma revolu\u00e7\u00e3o sempre vitoriosa. \u00c9 por isso que \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil deixar de olhar para o umbigo cubano e atender, sem preconceitos convenientes, \u00e0s realidades de outras latitudes, onde todos os dias h\u00e1 uma disputa entre a vida e a morte, como nos exemplos que voc\u00ea cita.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Palestina, principalmente em Gaza, h\u00e1 mais de seiscentos dias a popula\u00e7\u00e3o sofre um dos maiores crimes do s\u00e9culo 21. J\u00e1 lhe disse que o Estado de Israel, e suas pol\u00edticas genocidas, sob o pretexto de &#8220;combater o terrorismo&#8221;, aniquilou mais de 60 mil pessoas, dessas 20 mil menores; feriu centenas de milhares em graus variados; deixou uma regi\u00e3o devastada, com bombardeios di\u00e1rios, usando a fome como arma de guerra, impedindo a entrada de ajuda humanit\u00e1ria, assassinando jornalistas, m\u00e9dicos, volunt\u00e1rios de organiza\u00e7\u00f5es da ONU e todo tipo de viol\u00eancia imagin\u00e1vel. Mesmo assim, grande parte da oposi\u00e7\u00e3o cubana e da direita se filiam e subscrevem as narrativas vitimistas do governo e porta-vozes israelenses, que justificam com mentiras a desumaniza\u00e7\u00e3o, o apartheid e a morte impostos ao povo palestino.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso \u00e9 consequ\u00eancia da ignor\u00e2ncia, doutrina\u00e7\u00e3o e falta de objetividade a que est\u00e3o sujeitos. Aplicam regras de tr\u00eas arbitr\u00e1rias: &#8220;se o governo cubano supostamente ap\u00f3ia a Palestina e eu sou contra o governo cubano, ent\u00e3o sou contra a Palestina&#8221;. Para esse tipo de pessoa, comparar Fidel a Hitler \u00e9 mais f\u00e1cil do que reconhecer que o Estado de Israel est\u00e1 cometendo genoc\u00eddio na Palestina. Algo que, por mais absurdo que seja, n\u00e3o deixa de ser perigosa para o futuro deste pa\u00eds e para as aspira\u00e7\u00f5es de viver em democracia.<\/p>\n\n\n\n<p>Com os exemplos do Congo, Sud\u00e3o ou Haiti, que s\u00e3o os que voc\u00ea mencionou, acontece algo semelhante. Muito poucas pessoas em nosso pa\u00eds podem falar com voc\u00ea com objetividade sobre o que est\u00e1 acontecendo nessas regi\u00f5es, onde ocorrem crimes inimagin\u00e1veis contra a humanidade. Somente no Congo, mais de dez milh\u00f5es de mortes por assassinato, fome e trabalho for\u00e7ado foram registradas nos \u00faltimos 20 anos. O tr\u00e1fico de pessoas, o trabalho infantil e a escravid\u00e3o s\u00e3o constantes em diferentes \u00e1reas desse pa\u00eds que, al\u00e9m disso, s\u00e3o controladas por grupos paramilitares financiados por transnacionais multimilion\u00e1rias como a Apple, que est\u00e1 sendo <a href=\"https:\/\/www-bbc-com.translate.goog\/news\/articles\/cn8g540wz3jo?_x_tr_sl=en&amp;_x_tr_tl=es&amp;_x_tr_hl=es&amp;_x_tr_pto=tc&amp;_x_tr_hist=true\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">acusada<\/a> perante tribunais internacionais pelos crimes de incorporar os chamados &#8220;minerais de sangue&#8221; em seus produtos. Outras empresas como Tesla, Xiaomi, Huawei, entre outras, tamb\u00e9m foram apontadas por causas semelhantes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O Sud\u00e3o e o Haiti est\u00e3o passando por um processo de massacre e limpeza \u00e9tnica disfar\u00e7ado de &#8220;guerra civil&#8221;; pot\u00eancias estrangeiras financiam guerrilheiros paramilitares ou ex\u00e9rcitos regulares para gerar caos interno e desestabiliza\u00e7\u00e3o. Os n\u00fameros de mortes e deslocamentos s\u00e3o muito altos e as possibilidades de repara\u00e7\u00e3o s\u00e3o praticamente nulas.<\/p>\n\n\n\n<p>Como escrevi h\u00e1 alguns dias na hist\u00f3ria que voc\u00ea mencionou: a oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s diferentes for\u00e7as opressoras n\u00e3o pode ser setorial ou baseada em conveni\u00eancias ideol\u00f3gicas ou estrat\u00e9gicas. A diverg\u00eancia, para ser honesta, deve enfrentar todas as inst\u00e2ncias de poder. Uma solidariedade matizada que ignora diferentes tipos de sistemas e modelos opressivos ou que justifica diferentes tipos de atrocidades n\u00e3o \u00e9 real ou sincera.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 in\u00fatil haver &#8220;solidariedade&#8221; com o corpo estudantil e o povo cubano que enfrenta o aumento da taxa da ETECSA, enquanto se aplaudem as medidas repressivas do governo Trump contra o corpo estudantil e v\u00e1rios grupos de oposi\u00e7\u00e3o nos Estados Unidos, por exemplo. Nem a &#8220;solidariedade&#8221; seria sincera no caso inverso.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 in\u00fatil postar &#8220;abaixo o castrismo&#8221; enquanto se aplaudem outros modelos autorit\u00e1rios e repressivos como os impostos por Nayib Bukele ou Javier Milei em El Salvador e na Argentina, respectivamente. \u00c9 in\u00fatil pedir &#8220;solidariedade&#8221; para os cubanos quando, ao mesmo tempo, se apoiam as medidas anti-imigra\u00e7\u00e3o de Trump e seu tratamento desumanizador de muitos compatriotas e irm\u00e3os na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 hip\u00f3crita falar parcialmente diante das injusti\u00e7as do mundo. Ainda mais quando h\u00e1 um genoc\u00eddio em curso contra o povo palestino, uma explora\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica e assassina contra o povo do Congo e um massacre disfar\u00e7ado de &#8220;guerra civil&#8221; contra os povos do Sud\u00e3o e do Haiti.<\/p>\n\n\n\n<p>O objetivo n\u00e3o \u00e9 outro sen\u00e3o conscientizar que n\u00e3o existem viol\u00eancias estruturais isoladas; a maioria \u2013 e n\u00e3o digo todas por medo de ser categ\u00f3rico \u2013 \u00e9 transversalizada pelas mesmas l\u00f3gicas de explora\u00e7\u00e3o e subjuga\u00e7\u00e3o. S\u00e3o regidas por paradigmas de domina\u00e7\u00e3o que buscam criar brechas entre as pessoas: sejam elas de classe, geogr\u00e1ficas, pol\u00edticas, raciais, \u00e9tnicas, de g\u00eanero, de identidade, etc. Ningu\u00e9m est\u00e1 isento do ataque sofrido em outras regi\u00f5es ou latitudes; ficar \u00e0 margem \u00e9 ing\u00eanuo e denota falta de empatia e humanismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Cuba e os cubanos devem desaprender essa falsa consci\u00eancia de que somos o umbigo do mundo, que tivemos o melhor ou o pior, e aprender a olhar al\u00e9m de nossos narizes para assim saborear a realidade e saber que o castrismo n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico mal que amea\u00e7a a ilha.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Al\u00e9m de ativista e eterno estudante, voc\u00ea tamb\u00e9m \u00e9 cr\u00edtico de arte. H\u00e1 uma faceta &#8220;est\u00e9tica \/ identidade&#8221; que voc\u00ea reivindica implacavelmente: a <\/strong><a href=\"https:\/\/revistaelestornudo.com\/etiqueta\/reparto\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>m\u00fasica repartera<\/strong><\/a><strong>*<\/strong><strong>. Infelizmente, os expoentes desse g\u00eanero n\u00e3o s\u00e3o exatamente os mais comprometidos com as causas sociais. H\u00e1 exce\u00e7\u00f5es espec\u00edficas, \u00e9 claro, como o Axere e sua m\u00fasica <\/strong><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=8gxEx_KmyeM\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>&#8220;La hora&#8221;,<\/strong><\/a><strong> dedicada aos estudantes que protagonizaram a greve. Por outro lado, artistas de grande influ\u00eancia como Bebeshito ou Charly e Johayron, entre outros, preferem ficar \u00e0 margem do que est\u00e1 acontecendo na ilha. Voc\u00ea ainda acredita, mesmo assim, que &#8220;o reparto \u00e9 a voz de um povo, a voz de Cuba&#8221;, como <\/strong><a href=\"https:\/\/hypermediamagazine.com\/arte\/musica\/el-clavo-de-la-chancleta\/tiradera-de-esencia-y-conciencia-pauta-ii\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>escreveu<\/strong><\/a><strong> h\u00e1 alguns anos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O reparto n\u00e3o est\u00e1 desconectado da realidade pol\u00edtica do pa\u00eds; nunca foi e \u00e9 imposs\u00edvel que esteja. O reparto \u00e9, em grande parte, o narrador e o term\u00f4metro do clima social na ilha. \u00c9 o instrumento que assume e descreve o ritmo dos bairros cubanos, onde a maioria vive e sobrevive. \u00c9 de onde se constr\u00f3i a exegese de um pa\u00eds que vai al\u00e9m do castrismo, porque o reparto opera a partir da Cuba profunda, de \u00e1reas inexploradas para muitos, de espa\u00e7os de total excepcionalidade. O reparto sabe perfeitamente o que est\u00e1 acontecendo em Cuba, por isso amplifica e combate de maneiras diferentes. Mas acontece que, para o ativismo &#8220;ilustrado&#8221;, se as coisas n\u00e3o acontecem como ditam seus paradigmas, s\u00e3o ineficientes ou n\u00e3o s\u00e3o. E nada est\u00e1 mais longe desse c\u00e2none do que o reparto.<\/p>\n\n\n\n<p>Acho v\u00e1lido esclarecer que o reparto n\u00e3o \u00e9 apenas o pa-pa-pau-pa-pa e todo o fen\u00f4meno est\u00e9tico que o cerca; o reparto vai muito al\u00e9m&#8230; tanto que \u00e9 a tradu\u00e7\u00e3o art\u00edstica de um estilo de vida e de uma realidade perif\u00e9rica ignorada por grande parte da oposi\u00e7\u00e3o. Essa terra de ningu\u00e9m que nega tanto o oficialismo castrista como a <em>oposi\u00e7\u00e3o dominante<\/em> \u00e9 onde vive a maioria em Cuba. Portanto, vale falar sobre democracia que, em qualquer sentido \u2013 mesmo nos mais oportunistas \u2013 sempre levar\u00e1 em conta o que a maioria estima e aceita. A\u00ed vai o reparto \u00f3rf\u00e3o no meio de um debate pol\u00edtico onde n\u00e3o \u00e9 permitido participar por causa dos t\u00f3picos discriminat\u00f3rios de sempre: por ser vulgar, favela, indecente, etc. T\u00f3picos que se aplicam novamente \u00e0 maioria cubana. Uma maioria perif\u00e9rica, racializada, com n\u00edveis de educa\u00e7\u00e3o &#8220;baixos&#8221; para certos padr\u00f5es, faminta, for\u00e7ada a cometer crimes por necessidade ou porque os v\u00edcios v\u00eam \u00e0 tona, sufocada por uma crise que, em muitos casos, \u00e9 sobrevivida com base no reparto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 l\u00f3gicas que fora do bairro e suas din\u00e2micas s\u00e3o imposs\u00edveis de entender e explicar. N\u00e3o \u00e9 a mesma coisa um piquete ao redor de uma buzina no Trillo Park atacando <a href=\"https:\/\/revistaelestornudo.com\/wampi-rey-habana-disco-regueton-reparto-musics-cuba\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Wampi<\/a> que um concerto de Wampi no Jhonny com um <em>cover <\/em>de dois mil 500 pesos. A primeira \u00e9 reparto; a segunda, apropria\u00e7\u00e3o cultural e extrativismo. A primeira responde ao peso identit\u00e1rio de um g\u00eanero que nasce e \u00e9 contado a partir do bairro \u2013 embora isso tenha mudado muit\u00edssimo; a segunda, \u00e0s l\u00f3gicas mercantilistas de diferentes espa\u00e7os com pol\u00edticas firmes de exclus\u00e3o social que estabelecem as brechas discriminat\u00f3rias de classe e que nada mais fazem do que ado\u00e7ar o pa\u00eds e a noite, encobrindo o empobrecimento majorit\u00e1rio gerado pelo castrismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Tenho o firme crit\u00e9rio de que a oposi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica est\u00e1 mais ali, nos espa\u00e7os de resist\u00eancia \u00e0 desigualdade, \u00e0 fome, \u00e0 marginaliza\u00e7\u00e3o e ao empobrecimento, do que no ativismo legitimado como &#8220;pol\u00edtico&#8221;. Por isso tamb\u00e9m tenho o firme crit\u00e9rio de que a maior dissid\u00eancia em Cuba se encontrar\u00e1 nos espa\u00e7os excepcionais onde nasce o reparto. Na m\u00e3e for\u00e7ada a criar os filhos sozinha, no irm\u00e3o mais velho que mant\u00e9m sua casa, na av\u00f3 que sai para buscar seus pesos para chegar ao fim do m\u00eas, etc. \u00c9 a\u00ed que est\u00e1 o principal nicho da oposi\u00e7\u00e3o em Cuba e onde a oposi\u00e7\u00e3o legitimada e vis\u00edvel n\u00e3o chega, mas o reparto sim. A raz\u00e3o \u00e9 muito f\u00e1cil: a segunda, com sua linguagem popular, sua g\u00edria cubana, sua falta de preconceito e sua familiaridade, chega; a primeira, de suas cadeiras de linhagem, sua altura moral, seu verbo incisivo, sua pose exemplar e sua dist\u00e2ncia, repele.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas pessoas n\u00e3o merecem que ningu\u00e9m queira dar li\u00e7\u00f5es a elas de como se desenvolver ante os poderes opressivos. Grande parte da oposi\u00e7\u00e3o acima mencionada afirma sob a suposi\u00e7\u00e3o de que &#8220;estou lutando por seus direitos e voc\u00ea n\u00e3o faz nada&#8221;, mas nunca parou para ouvir as perguntas-chave das pessoas: por quem voc\u00ea realmente luta?&nbsp; Voc\u00ea \u00e9 como eu ou acha que \u00e9 melhor do que eu? \u00c9 por isso que ativistas como Luis Manuel Otero Alc\u00e1ntara tiveram tanto impacto nas pessoas, e \u00e9 simples de entender: porque falavam com as pessoas, dialogavam com as pessoas e faziam parte dessas pessoas. Nunca se pintaram mais ou menos, nunca procuraram dar li\u00e7\u00f5es, mas convocar. Da\u00ed tamb\u00e9m o sucesso de <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=pP9Bto5lOEQ\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">&#8220;Patria y Vida&#8221;<\/a> acima de qualquer outra can\u00e7\u00e3o: era uma can\u00e7\u00e3o que falava ao poder, mas na voz do povo. De &#8220;Patria y Vida&#8221; n\u00e3o \u00e9 relevante quem a cantou, ou quem a distribuiu, ou quem ganhou o Grammy de prata. O fundamental dessa m\u00fasica \u00e9 que as pessoas a tornaram sua, como tantas outras.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Fazer pol\u00edtica em Cuba n\u00e3o \u00e9 simplesmente ser confrontador ou cr\u00edtico do sistema. Fazer pol\u00edtica tamb\u00e9m \u00e9 incidir nos bairros, fazer ajuda social, apoiar fam\u00edlias vulner\u00e1veis, tentar facilitar a vida das pessoas que sofrem e padecem de um grande mal. Fazer pol\u00edtica tamb\u00e9m \u00e9 muitas vezes ter o dom e a brejeirice de saber que voc\u00ea \u00e9 mais \u00fatil em um determinado lugar, onde voc\u00ea pode influenciar e transformar a realidade, do que estar nas listas de m\u00e1rtires que amanh\u00e3 podem ser recolhidas nos livros de hist\u00f3ria. Existem muitos her\u00f3is ocultos e sem capas. Muitas pessoas que fazem dissid\u00eancia efetiva que come\u00e7a da ajuda m\u00fatua ou apoio aos desfavorecidos. A\u00ed est\u00e3o muitos expoentes do reparto, incluindo alguns que voc\u00ea mencionou. Mais al\u00e9m da opul\u00eancia e dos dividendos que geram com a m\u00fasica, sabem redistribuir e lembram que em seus bairros h\u00e1 pessoas que n\u00e3o t\u00eam o que comer; articulam maneiras de garantir que, pelo menos em alguns lares cubanos, a fome n\u00e3o seja um motivo a mais para chorar.<\/p>\n\n\n\n<p>Como eu dizia, o \u00fanico problema de Cuba n\u00e3o \u00e9 o castrismo e a \u00fanica maneira de fazer ativismo e colaborar na constru\u00e7\u00e3o de uma Cuba democr\u00e1tica, digna e solid\u00e1ria n\u00e3o \u00e9 gritando &#8220;Abaixo a ditadura!&#8221; Existem maneiras que s\u00e3o eficazes e protegem voc\u00ea do medo leg\u00edtimo da repress\u00e3o, que acabam com sua carreira \u2013 que na maioria dos artistas que ainda est\u00e3o em Cuba n\u00e3o est\u00e1 consolidada \u2013 ou que te obriguem a emigrar como j\u00e1 fizeram com tantos outros. Mas, al\u00e9m disso, para quem prefere a faceta mais frontal e irreverente, sobram exemplos no reparto. Assim, a qualquer momento, o pr\u00f3prio Rei do Reparto, <a href=\"https:\/\/revistaelestornudo.com\/5371-2\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Chocol<\/a><a href=\"https:\/\/revistaelestornudo.com\/5371-2\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">a<\/a><a href=\"https:\/\/revistaelestornudo.com\/5371-2\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">te MC,<\/a> tem um caminh\u00e3o de m\u00fasicas onde ataca o regime sem muita hesita\u00e7\u00e3o. <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=QuuJxOf5XVg\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">&#8220;Fogo na PNR&#8221; <\/a><em>&nbsp;<\/em>\u00e9 uma delas, e o que dizer de suas transmiss\u00f5es ao vivo. El Chacal, Lenier, Yomil e outros trouxeram m\u00fasicas muito s\u00f3lidas quando foi o 11J. Mais al\u00e9m do que as fofocas dizem sobre se eles colaboram ou n\u00e3o com o regime, a\u00ed est\u00e3o as can\u00e7\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Um pouco al\u00e9m das formalidades, e concentrando-se nos fatos, h\u00e1 tamb\u00e9m o caso de <a href=\"https:\/\/www.americatevepr.com\/cuba\/yan-crey-el-joven-reguetonero-cubano-condenado-14-anos-prision-el-combinado-del-este-participar-las-protestas-del-11j-n5359881\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Yan Crey<\/a>, um jovem expoente do reparto condenado a 22 anos de pris\u00e3o por sedi\u00e7\u00e3o ap\u00f3s participar dos protestos do 11J. Antes de sua pris\u00e3o, ele gravou com El Choco, Wildey e Anuvis. Ele n\u00e3o ficar\u00e1 preso como Charly e Johayron ou Bebeshito, e talvez n\u00e3o tenha a consci\u00eancia pol\u00edtica de Axere, para tomar como exemplo aqueles que voc\u00ea mencionou, mas a\u00ed est\u00e1 ele: um de nossos prisioneiros do 11J, preso e julgado arbitrariamente por exercer seu direito de protesto, \u00e9 um cantor de reparto. Mas isso n\u00e3o deve surpreender ningu\u00e9m, pois, sem d\u00favida, pode-se dizer que uma porcentagem majorit\u00e1ria da juventude e das massas populares que sa\u00edram \u00e0s ruas naquele dia e depois continuaram o ciclo de protestos populares contra o regime se identificam como, e s\u00e3o, reparteros. A\u00ed est\u00e3o os v\u00eddeos das <a href=\"https:\/\/revistaelestornudo.com\/la-conga-de-la-protesta-en-santiago-de-cuba\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">congas em Santiago de Cuba<\/a>, em protesto contra os apag\u00f5es, onde as pessoas cantam refr\u00f5es e depois elevam o tom com um &#8220;Ei, pol\u00edcia, pinga&#8221;. Um g\u00eanero musical \u00e9 muito mais do que seus expoentes, e o reparto, por outro lado, \u00e9 muito mais do que um g\u00eanero musical.<\/p>\n\n\n\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: L\u00edlian Enck<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista de El Estornudo, com Raymar Aguado, artista e ativista do Socialismo Cr\u00edtico, setor da vanguarda cubana de esquerda contra a ditadura de Castro. 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