{"id":81241,"date":"2025-07-09T22:24:04","date_gmt":"2025-07-09T22:24:04","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=81241"},"modified":"2025-07-09T22:24:06","modified_gmt":"2025-07-09T22:24:06","slug":"a-independencia-dos-estados-unidos-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2025\/07\/09\/a-independencia-dos-estados-unidos-2\/","title":{"rendered":"A independ\u00eancia dos Estados Unidos"},"content":{"rendered":"\n<p>Por: Alejandro Iturbe<em><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Hoje (04\/07) marca um novo anivers\u00e1rio da independ\u00eancia dos Estados Unidos. Reproduzimos o texto de um artigo escrito em 2016 sobre este importante fato. Acreditamos que este texto mant\u00e9m toda a sua validade tanto nas suas considera\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas como na sua refer\u00eancia ao presente quando afirmamos que <\/em><em><strong>&#8220;<\/strong><\/em><strong><em>a burguesia imperialista dos EUA \u00e9 a mais odiada pelos trabalhadores e pelas massas do mundo&#8221;.<\/em><\/strong> <em>Deve-se acrescentar que a figura de Trump e suas pol\u00edticas (como apoiar o genoc\u00eddio sionista em Gaza, bombardear o Ir\u00e3 e atacar duramente os imigrantes que vivem nos EUA) aumentam ainda mais esse \u00f3dio.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>H\u00e1 240 anos, em 4 de julho de 1776, os representantes das 13 col\u00f4nias da Gr\u00e3-Bretanha na Am\u00e9rica do Norte, reunidos na cidade de Filad\u00e9lfia, votaram pela independ\u00eancia e pela forma\u00e7\u00e3o de uma nova rep\u00fablica com um presidente e parlamento pr\u00f3prios que seriam eleitos pelo sistema de voto popular. A nova rep\u00fablica adotou o nome de Estados Unidos da Am\u00e9rica.<\/em><em><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A declara\u00e7\u00e3o de independ\u00eancia foi um ponto de inflex\u00e3o em um processo que j\u00e1 vinha acontecendo h\u00e1 mais de 10 anos. Para entender isso, \u00e9 necess\u00e1rio considerar as caracter\u00edsticas da coloniza\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica nesses territ\u00f3rios.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A coloniza\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A partir do in\u00edcio do s\u00e9culo XVI, as principais pot\u00eancias da \u00e9poca iniciaram uma pol\u00edtica de constru\u00e7\u00e3o de imp\u00e9rios coloniais em territ\u00f3rios fora da Europa. Nesse caminho, a coroa brit\u00e2nica estabeleceu sua primeira col\u00f4nia na Am\u00e9rica do Norte (at\u00e9 ent\u00e3o habitada por povos nativos em est\u00e1gio de desenvolvimento comunista primitivo) em 1607 (Jamestown, Virg\u00ednia). Essa coloniza\u00e7\u00e3o ent\u00e3o se expandiu rapidamente pela regi\u00e3o da costa atl\u00e2ntica.<\/p>\n\n\n\n<p>Diferente de outras possess\u00f5es coloniais, que se destinavam \u00e0 extra\u00e7\u00e3o de metais e minerais preciosos (ou seja, uma economia voltada para a pilhagem de recursos e, portanto, transit\u00f3ria), as col\u00f4nias da Am\u00e9rica do Norte se desenvolveram centralmente em torno da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola destinada a ser exportada para a metr\u00f3pole, de car\u00e1ter muito mais est\u00e1vel e permanente.<\/p>\n\n\n\n<p>Com base nisso, os dois setores centrais de colonos que se estabeleceram nos novos territ\u00f3rios (os puritanos protestantes ingleses e os cat\u00f3licos irlandeses) o fizeram com a perspectiva de transform\u00e1-los em sua &#8220;p\u00e1tria&#8221; e neles poder prosperar livremente de acordo com suas id\u00e9ias e convic\u00e7\u00f5es. Ambos os setores eram bons agricultores e produtores de artesanato.<\/p>\n\n\n\n<p>As col\u00f4nias prosperaram e se expandiram. As do Norte (regi\u00e3o conhecida como Nova Inglaterra), a parti da base agr\u00edcola dos fazendeiros, tamb\u00e9m fabricavam material naval e processavam peles. As do Sul se especializaram no cultivo de planta\u00e7\u00f5es (tabaco, algod\u00e3o e arroz). Nesse contexto, foram desenvolvidos centros urbanos, comerciais, administrativos e portu\u00e1rios, pequenos mas em permanente expans\u00e3o, como Filad\u00e9lfia, Nova York, Boston e Charleston.<\/p>\n\n\n\n<p>E tamb\u00e9m uma burguesia arraigada com crescentes interesses pr\u00f3prios. Essa burguesia estava atravessada por uma divis\u00e3o estrutural: a do Norte desenvolveu-se com base no trabalho assalariado, enquanto a do Sul o fez com o trabalho de escravos negros trazidos da \u00c1frica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Aumentam as contradi\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As contradi\u00e7\u00f5es de ambos os setores com a coroa brit\u00e2nica crescem cada vez mais. Especialmente a partir de 1763, quando houve um aumento acentuado dos impostos. Entre eles, o destinado ao autofinanciamento das tropas brit\u00e2nicas instaladas nas col\u00f4nias, o dos selos postais e o dos produtos importados monopolisticamente pela coroa, como o ch\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim come\u00e7ou uma rebeli\u00e3o civil na qual a cidade de Boston (Massachusetts) foi a vanguarda. Um exemplo disso foi a chamada Revolta do Ch\u00e1 (1774), na qual patriotas (disfar\u00e7ados de \u00edndios de pele vermelha) jogaram uma carga de ch\u00e1 importado no mar. Al\u00e9m de seu car\u00e1ter essencialmente simb\u00f3lico, esse evento \u00e9 considerado um marco nesse confronto [1]. Foi uma express\u00e3o de uma campanha generalizada de boicote aos produtos brit\u00e2nicos, que incluiu a forma\u00e7\u00e3o de &#8220;comit\u00eas de patriotas&#8221; para promov\u00ea-la e garanti-la (na verdade, a estrutura b\u00e1sica de um partido de independ\u00eancia).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Come\u00e7a a guerra<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, em 1775 come\u00e7aram a haver confrontos entre tropas brit\u00e2nicas e mil\u00edcias patriotas. Londres declara Massachusetts um &#8220;estado hostil&#8221; e envia tropas para refor\u00e7ar a guarni\u00e7\u00e3o de Boston.<\/p>\n\n\n\n<p>A &#8220;guerra revolucion\u00e1ria&#8221; (como \u00e9 conhecida na hist\u00f3ria estadunidense) j\u00e1 estava aberta. As mil\u00edcias independentistas crescem em n\u00famero e s\u00e3o refor\u00e7adas por tropas de outras col\u00f4nias. Tamb\u00e9m recebem apoio em armamentos das pot\u00eancias coloniais em confronto com a Gr\u00e3-Bretanha (como Fran\u00e7a, Espanha e Holanda).<\/p>\n\n\n\n<p>George Washington (natural da col\u00f4nia da Virg\u00ednia e coronel aposentado do Ex\u00e9rcito Brit\u00e2nico) \u00e9 nomeado comandante geral do ex\u00e9rcito rebelde de 16.000 homens. Depois de v\u00e1rias batalhas, derrotam os brit\u00e2nicos e passam a controlar Boston. Mais tarde, a guerra se move e se estende para as outras col\u00f4nias.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A Declara\u00e7\u00e3o de Independ\u00eancia e o Triunfo Definitivo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, um congresso de representantes das col\u00f4nias, que funcionava na Filad\u00e9lfia (inicialmente convocado contra o imposto de selo e por outras demandas), havia sido transformado (desde 1774) em um &#8220;congresso continental&#8221;. Em 4 de julho de 1776, declara independ\u00eancia e o nascimento de um novo pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>A guerra contra a coroa brit\u00e2nica continua e segue incorporando territ\u00f3rios at\u00e9 1781, quando alcan\u00e7a seu triunfo definitivo. A Gr\u00e3-Bretanha aceita formalmente sua derrota em 1782 e, em 1784, reconhece o novo pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Uma grande revolu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A independ\u00eancia dos Estados Unidos deve ser caracterizada como uma das grandes revolu\u00e7\u00f5es burguesas da \u00e9poca, junto com a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa (1789). Nela, dois processos foram combinados. A primeira \u00e9 a luta da burguesia ascendente para ter seu pr\u00f3prio Estado e suas pr\u00f3prias institui\u00e7\u00f5es aut\u00f4nomas (destruindo no processo as institui\u00e7\u00f5es da monarquia). A este respeito, antecipou o processo na Fran\u00e7a em mais de uma d\u00e9cada e se tornou a primeira rep\u00fablica moderna.<\/p>\n\n\n\n<p>A segunda foi a luta anticolonial contra os imp\u00e9rios que as pot\u00eancias dominantes (Gr\u00e3-Bretanha, Fran\u00e7a, Holanda, Portugal e Espanha) constru\u00edram nos s\u00e9culos anteriores. Nesse sentido, estava 25 anos \u00e0 frente do processo haitiano de 1801 (embora este \u00faltimo tivesse um elemento nitidamente distintivo: foi a \u00fanica revolu\u00e7\u00e3o anticolonial realizada por escravos e n\u00e3o pela burguesia nacional).<\/p>\n\n\n\n<p>Esse car\u00e1ter revolucion\u00e1rio burgu\u00eas foi expresso tanto no texto da Declara\u00e7\u00e3o de Independ\u00eancia quanto na Constitui\u00e7\u00e3o votada em 1787, com garantias democr\u00e1ticas muito amplas.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, essa revolu\u00e7\u00e3o deixou pendente um problema democr\u00e1tico grav\u00edssimo: a quest\u00e3o da escravid\u00e3o, que foi conscientemente evitada na declara\u00e7\u00e3o de independ\u00eancia e na constitui\u00e7\u00e3o para evitar a divis\u00e3o entre os dois setores burgueses que convergiam (o pr\u00f3prio George Washington era propriet\u00e1rio de escravos).<\/p>\n\n\n\n<p>Essa diferen\u00e7a explodiria na Guerra de Secess\u00e3o (1861), quando v\u00e1rios estados do sul se opuseram \u00e0 pol\u00edtica de aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o promovida pelo presidente Abraham Lincoln e se separaram da Uni\u00e3o para formar os Estados Confederados. Depois de uma longa e sangrenta guerra, que terminou com o triunfo dos unionistas, a escravid\u00e3o foi legalmente abolida. Mas a quest\u00e3o da opress\u00e3o, discrimina\u00e7\u00e3o e repress\u00e3o dos negros permanece at\u00e9 hoje uma caracter\u00edstica constitutiva do capitalismo dos EUA.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Uma expans\u00e3o permanente<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A din\u00e2mica burguesia estadunidense tinha, desde sua pr\u00f3pria conforma\u00e7\u00e3o como burguesia independente, uma n\u00edtida pol\u00edtica expansiva. Na pr\u00f3pria guerra pela independ\u00eancia, ela foi expressa (a oeste dos Montes Apalaches) como uma &#8220;guerra contra os \u00edndios&#8221;, uma vez que os povos nativos se aliaram aos brit\u00e2nicos por medo (como realmente aconteceu depois) de que a nova na\u00e7\u00e3o avan\u00e7asse para desloc\u00e1-los de seus territ\u00f3rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1803, a Louisiana (originalmente uma col\u00f4nia francesa) foi incorporada. Em 1819, a Fl\u00f3rida foi definitivamente comprada dos espanh\u00f3is. Junto com isso, os Estados Unidos cresceram e incorporaram novos territ\u00f3rios a oeste (na grande pradaria central da Am\u00e9rica do Norte) deslocando violentamente os \u00edndios americanos (um processo que foi eufemisticamente chamado de &#8220;conquista do Oeste&#8221;).<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das express\u00f5es mais brutais dessa expans\u00e3o (como uma antecipa\u00e7\u00e3o do monstro que seriam no futuro) foi o roubo de todo o Norte do M\u00e9xico (cerca de 50% do territ\u00f3rio que pertencia a este pa\u00eds). Este roubo foi iniciado pela cria\u00e7\u00e3o artificial da Rep\u00fablica do Texas e sua posterior incorpora\u00e7\u00e3o aos Estados Unidos (1845) e continuou com a guerra entre os dois pa\u00edses (1846-1848). Como resultado, o M\u00e9xico perdeu (al\u00e9m do Texas), o territ\u00f3rio que corresponde aos atuais estados da Calif\u00f3rnia, Novo M\u00e9xico, Arizona, Colorado e Utah.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1867, os Estados Unidos compraram o territ\u00f3rio do Alasca (separado do territ\u00f3rio central pelo Canad\u00e1) do imp\u00e9rio russo. Em 1898, eles invadiram e dominaram o arquip\u00e9lago havaiano (no extremo leste do Pac\u00edfico). Ambos os territ\u00f3rios foram posteriormente incorporados como estados membros da Uni\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Tendo consolidado seu dom\u00ednio do Atl\u00e2ntico \u00e0 costa do Pac\u00edfico, e do Canad\u00e1, no norte, ao Rio Bravo, no sul, a burguesia estadunidense come\u00e7ou sua expans\u00e3o na Am\u00e9rica Latina. Come\u00e7ou com o que chamou de &#8220;quintal&#8221;: Am\u00e9rica Central e Caribe. No final do s\u00e9culo XIX, entrou em guerra com a Espanha para garantir a &#8220;independ\u00eancia&#8221; de Cuba. Na mesma guerra, transformou Porto Rico em um &#8220;estado associado&#8221;. Dividiu o Panam\u00e1 da Col\u00f4mbia para garantir a constru\u00e7\u00e3o e o controle do primeiro canal interoce\u00e2nico. Transformou outros pa\u00edses da Am\u00e9rica Central em &#8220;rep\u00fablicas bananeiras&#8221; dominadas pela empresa United <em>Fruit<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir da\u00ed, continuou seu avan\u00e7o em dire\u00e7\u00e3o ao sul americano e, a partir da Segunda Guerra Mundial, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 sua transforma\u00e7\u00e3o na pot\u00eancia imperialista econ\u00f4mica e militarmente hegem\u00f4nica \u00e0 qual est\u00e3o subordinadas as outras pot\u00eancias e as burguesias nacionais das semicol\u00f4nias (e das col\u00f4nias que ainda existem).<\/p>\n\n\n\n<p>Sustentou essa domina\u00e7\u00e3o com uma pol\u00edtica agressiva de golpes de Estado, apoio a ditaduras sangrentas, repetidas invas\u00f5es e guerras localizadas. Em seu pa\u00eds, apesar do impressionante desenvolvimento econ\u00f4mico e da imensa riqueza que possui e saqueia do mundo, construiu uma sociedade feroz e desigual (a mais injusta dos pa\u00edses desenvolvidos), onde muitos trabalhadores brancos e, especialmente, das minorias negras e latinas s\u00e3o superexplorados, discriminados e reprimidos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 certamente a burguesia imperialista mais odiada pelos trabalhadores e massas do mundo. N\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia: \u00e9 o principal inimigo que devemos derrotar para construir o mundo socialista que almejamos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas esse \u00f3dio mais do que justificado hoje n\u00e3o deve nos fazer esquecer que, em sua origem, foi uma burguesia revolucion\u00e1ria, que realizou uma das maiores revolu\u00e7\u00f5es burguesas da hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>[1] O nome <em>Tea Party,<\/em> adotado por uma corrente de extrema-direita do Partido Republicano, deve-se \u00e0 reivindica\u00e7\u00e3o dessa revolta.<\/p>\n\n\n\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: L\u00edlian Enck<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: Alejandro Iturbe Hoje (04\/07) marca um novo anivers\u00e1rio da independ\u00eancia dos Estados Unidos. Reproduzimos o texto de um artigo escrito em 2016 sobre este importante fato. 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