{"id":81208,"date":"2025-06-30T19:43:14","date_gmt":"2025-06-30T19:43:14","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=81208"},"modified":"2025-06-30T19:43:16","modified_gmt":"2025-06-30T19:43:16","slug":"os-anos-de-terror-e-fome","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2025\/06\/30\/os-anos-de-terror-e-fome\/","title":{"rendered":"Os anos de terror e fome"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Este artigo faz parte da s\u00e9rie\u00a0<\/strong><a href=\"https:\/\/www.corrienteroja.net\/banner-el-franquismo-no-murio-con-franco\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><em>&#8220;O franquismo n\u00e3o morreu com Franco&#8221;,<\/em><\/a><strong>\u00a0que publicamos ao longo de 2025 para marcar os 50 anos da morte do ditador.<br><\/strong>Por: Roberto Laxe<\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\"><strong>I- A autarquia como instrumento pol\u00edtico<\/strong><\/h6>\n\n\n\n<p>Uma frase comum usada para definir a situa\u00e7\u00e3o no Estado Espanhol ap\u00f3s a vit\u00f3ria de Franco sobre a Rep\u00fablica e a Revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 que aqueles foram os &#8220;anos de fome&#8221;. Dessa forma, generalizando sem apontar culpados, nos apresentam esses anos como se fossem um acidente natural ou um produto da guerra, sem nenhum respons\u00e1vel pelo ocorrido, e acima de tudo, tentam esconder o que esses &#8220;anos de fome&#8221; significaram para a classe oper\u00e1ria e o povo do Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 verdade que a d\u00e9cada de 1940 foi a da Segunda Guerra Mundial, que rompeu as rela\u00e7\u00f5es entre as pot\u00eancias e dificultou a abertura pol\u00edtica. Tamb\u00e9m \u00e9 verdade que o regime de Franco deveu sua exist\u00eancia \u00e0 ajuda militar e financeira da Alemanha e da It\u00e1lia, sem a qual jamais teria vencido a Guerra Civil. Essa d\u00edvida teve que ser paga n\u00e3o apenas em dinheiro, mas tamb\u00e9m em suprimentos e produtos para alimentar seus ex\u00e9rcitos, o que empobreceu ainda mais a popula\u00e7\u00e3o espanhola.<\/p>\n\n\n\n<p>A autarquia sobre a qual o regime de Franco foi inicialmente constru\u00eddo n\u00e3o visava estabilizar a economia ap\u00f3s a guerra, como defendem at\u00e9 mesmo setores da intelectualidade progressista. Pelo contr\u00e1rio, fazia parte das ferramentas pol\u00edticas utilizadas para aterrorizar a popula\u00e7\u00e3o, um objetivo central do regime de Franco durante a guerra e o longo per\u00edodo do p\u00f3s-guerra. Ao mesmo tempo em que ocorriam execu\u00e7\u00f5es em massa, centenas de milhares de pessoas eram aprisionadas em condi\u00e7\u00f5es de exterm\u00ednio, e assim por diante, o regime de Franco atacou todas as conquistas sociais e trabalhistas que a classe oper\u00e1ria havia conquistado durante os anos da Rep\u00fablica e da Revolu\u00e7\u00e3o, causando um decl\u00ednio de d\u00e9cadas nas condi\u00e7\u00f5es de vida da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A pol\u00edtica econ\u00f4mica aut\u00e1rquica de Franco reduziu a nada as condi\u00e7\u00f5es de vida e a resist\u00eancia oper\u00e1ria e popular, enquanto os setores burgueses e arrivistas lumpens \u2013 os defensores da &#8220;p\u00e1tria&#8221; \u2013 que a haviam impulsionado, se enriqueceram. Tal como anunciou em 1940, Serrano S\u00fa\u00f1er, um dos homens mais poderosos do regime e &#8220;cunhado&#8221; de Franco, como era conhecido: <em>&#8220;Se necess\u00e1rio, dir\u00edamos com alegria: n\u00e3o temos p\u00e3o, mas temos uma p\u00e1tria, que vale muito mais do que qualquer outra coisa.&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Alguns setores sociais lan\u00e7aram-se como hienas sobre as propriedades da burguesia que haviam apoiado a Rep\u00fablica. O saque dessas propriedades, juntamente com o mercado negro\/contrabando gerado pelas medidas aut\u00e1rquicas, foi uma das formas pelas quais se produziu uma esp\u00e9cie de acumula\u00e7\u00e3o primitiva de capital e est\u00e1 na origem de muitas fortunas que sobrevivem at\u00e9 hoje: a lei de anistia de 1976 n\u00e3o apenas perdoou os crimes dos agentes de Franco, mas tamb\u00e9m de todos aqueles que enriqueceram com trabalho escravo, pilhagem de riquezas e tr\u00e1fico il\u00edcito.<\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\"><strong>Os dados sobre a fome<\/strong><\/h6>\n\n\n\n<p>N\u00e3o foram os &#8220;anos de fome&#8221;, foi uma fome causada pelo regime para disciplinar uma popula\u00e7\u00e3o que, contra todas as probabilidades, resistira ao ataque de todos os fascistas europeus e \u00e0 &#8220;neutralidade&#8221; das chamadas pot\u00eancias &#8220;democr\u00e1ticas&#8221;, como a Gr\u00e3-Bretanha e a Fran\u00e7a \u00e0 cabe\u00e7a. Uma fome que, entre 1939 e 1944, causou a morte de mais de 200.000 pessoas por inani\u00e7\u00e3o ou por m\u00e1 nutri\u00e7\u00e3o, n\u00famero que alguns historiadores estimam em 600.000. Enquanto os milh\u00f5es restantes, mais de 20 milh\u00f5es, exceto uma minoria burguesa agrupada em torno do regime, tiveram seus alimentos racionados e foram subalimentados por meio de cart\u00f5es de racionamento.<br>Estes cart\u00f5es vigoraram at\u00e9 abril de 1952 e, como tudo sob o regime de Franco, especialmente nos primeiros anos, serviram para controlar a popula\u00e7\u00e3o. Eram uns cart\u00f5es com cupons, inicialmente para fam\u00edlias, que em 1943 se tornaram cart\u00f5es individuais, permitindo maior controle do governo. Cada pessoa era designada a uma loja espec\u00edfica para comprar itens racionados, cuja quantidade geralmente variava a cada semana ou m\u00eas. A imprensa era respons\u00e1vel por publicar a ra\u00e7\u00e3o di\u00e1ria de cada produto, bem como os locais onde ele poderia ser adquirido.<\/p>\n\n\n\n<p>Havia cart\u00f5es de racionamento de primeira, segunda e terceira categoria, dependendo do status social, sa\u00fade ou situa\u00e7\u00e3o familiar do consumidor. Homens adultos tinham acesso a 100% dos alimentos \u2014 que variava de acordo com o trabalho \u2014, enquanto mulheres adultas e maiores de 60 anos recebiam 80% da ra\u00e7\u00e3o. Menores de 14 anos recebiam 60%. A ra\u00e7\u00e3o padr\u00e3o para um homem adulto era de 400 gramas di\u00e1rias de p\u00e3o, 250 gramas de batatas, 100 gramas de leguminosas secas, 10 gramas de caf\u00e9, 30 gramas de a\u00e7\u00facar, 125 gramas de carne, 25 gramas de bacon, 75 gramas de bacalhau, 200 gramas de peixe fresco e 5 decilitros de \u00f3leo.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, essas quantidades nunca foram respeitadas, pois as mesmas pessoas que o produziam e distribu\u00edam as desviavam para o mercado negro e contrabando, vendendo-as a pre\u00e7os 200 vezes mais altos. Para encobrir estes grandes negociantes do mercado negro ligados ao regime (militares, falangistas etc.), eles acusavam os republicanos e os setores pobres da sociedade que sobreviviam do chamado &#8220;mercado negro dos pobres&#8221;, o que hoje chamar\u00edamos de &#8220;economia informal&#8221;, que nada mais era do que esconder parte de suas propriedades e vend\u00ea-las para se sustentar.<\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\"><strong>Autarquia, a pol\u00edtica como \u201ceconomia concentrada\u201d<\/strong><\/h6>\n\n\n\n<p>A situa\u00e7\u00e3o da Espanha no final da Guerra Civil era a de um pa\u00eds devastado por um conflito armado de tr\u00eas anos de dura\u00e7\u00e3o, durante o qual uma grande quantidade de recursos altamente valiosos para um Estado como a Espanha foi sacrificado, resultando em:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>Perdas materiais severas.<\/strong>\u00a0A produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola caiu 20%, os rebanhos de cavalos ca\u00edram 26% e os de gado ca\u00edram 10%. A produ\u00e7\u00e3o industrial caiu 30%.<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Esgotamento das reservas de ouro e divisas<\/strong><\/li>\n\n\n\n<li><strong>Deteriora\u00e7\u00e3o da infraestrutura<\/strong>, principalmente ferrovi\u00e1ria, embora menor do que a sofrida pelos pa\u00edses beligerantes na\u00a0<strong>Segunda Guerra Mundial.<\/strong>\u00a0Por exemplo, na Espanha, 34% das locomotivas foram perdidas, enquanto essas porcentagens foram maiores na Fran\u00e7a (76%), It\u00e1lia (50%) e Gr\u00e9cia (82%). O mesmo se aplica \u00e0 capacidade el\u00e9trica instalada, que caiu 0,9% na Espanha, 2,8% na Fran\u00e7a, 5,4% na It\u00e1lia e 3,1% na Gr\u00e9cia.<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Graves perdas humanas.<\/strong>\u00a0Estima-se que as perdas populacionais tenham sido entre 1,1% a 1,5% da popula\u00e7\u00e3o, semelhantes \u00e0s sofridas pela It\u00e1lia (0,9%) e pela Fran\u00e7a (1,4%) durante a Guerra Mundial, embora inferiores \u00e0s da Gr\u00e9cia, que perdeu 7%. A popula\u00e7\u00e3o ativa espanhola, no entanto, perdeu entre 2,7% e 4%, superior \u00e0 da It\u00e1lia (2%) ou da Fran\u00e7a (3%), embora tamb\u00e9m muito inferior \u00e0 da Gr\u00e9cia (18%). Al\u00e9m dos mortos durante a guerra, houve tamb\u00e9m mortes na repress\u00e3o pol\u00edtica subsequente, o ex\u00edlio de cerca de 200.000 cidad\u00e3os e a pris\u00e3o de outros 300.000, perdas que prejudicaram seriamente o capital humano dispon\u00edvel.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Nessa situa\u00e7\u00e3o, segundo Juan Antonio Suances, Ministro do Com\u00e9rcio e Ind\u00fastria da \u00e9poca, primeiro presidente do INI \u2013 Instituto Nacional da Ind\u00fastria, e um dos ide\u00f3logos da autarquia espanhola: &#8220;<em>Autarquia \u00e9 o conjunto de meios, circunst\u00e2ncias e possibilidades que, garantindo a um pa\u00eds por si s\u00f3 sua exist\u00eancia, sua honra, sua liberdade de movimento e, consequentemente, sua total independ\u00eancia pol\u00edtica, permitem seu desenvolvimento normal e satisfat\u00f3rio e a satisfa\u00e7\u00e3o de suas justas necessidades espirituais e materiais<\/em>.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Essa defini\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00edpica da ret\u00f3rica nacionalista de Franco para ocultar a realidade: a Espanha era um estado altamente dependente do capital estrangeiro, oscilando entre o Eixo Franco-Brit\u00e2nico e o Eixo Alem\u00e3o-Italiano; portanto, a verdade \u00e9 que a autarquia foi uma ferramenta fundamental para completar a derrota militar da classe oper\u00e1ria por meio da fome e da pobreza.<\/p>\n\n\n\n<p>A classe oper\u00e1ria a e o povo do Estado tinham resisitido \u00e0s m\u00e1quinas de guerra nazista, italiana e franquista por tr\u00eas anos. Ao longo do caminho, tinham aberto as portas para a revolu\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria quando, em 19 de julho de 1936, detiveram o golpe por meio da autoorganiza\u00e7\u00e3o, enquanto o governo da Rep\u00fablica estava paralisado pelo golpe militar. A maior parte da burguesia se colocou ao lado do golpe, que apoiou e financiou maci\u00e7amente. Uma vez derrotada a revolu\u00e7\u00e3o e a rep\u00fablica, chegou \u00e0 hora de acertar as contas.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando a burguesia decide entregar o poder a arrivistas como os fascistas, ela n\u00e3o busca uma vit\u00f3ria parcial na luta de classes, que pode at\u00e9 manter algumas das conquistas sociais do passado; em vez disso, ela busca varrer todas as conquistas oper\u00e1rias e populares, sejam elas trabalhistas, pol\u00edticas ou sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>O regime de Franco, assim como lutou contra os avan\u00e7os da Rep\u00fablica em mat\u00e9ria de igualdade de g\u00eanero, revogando toda a sua legisla\u00e7\u00e3o e colocando o aparato ideol\u00f3gico do regime nas m\u00e3os do Catolicismo Nacional (em ambas as suas vers\u00f5es, a da Igreja e a da Falange<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a>), buscou apagar todos os vest\u00edgios de progressos anteriores em quest\u00f5es sociais e trabalhistas sob o nome de &#8220;autarquia&#8221;. Para tanto, n\u00e3o hesitou em sabotar os projetos modernizadores da sociedade promovidos pela Rep\u00fablica, provocando um retorno ao passado.<\/p>\n\n\n\n<p>Os n\u00edveis de renda ca\u00edram e n\u00e3o se recuperou at\u00e9 meados da d\u00e9cada de 1950, o consumo despencou e os produtos b\u00e1sicos de primeira necessidade permaneceram racionadas at\u00e9 1952. A vida cotidiana dos espanh\u00f3is era dominada pela fome, escassez de energia e doen\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>A evolu\u00e7\u00e3o da atividade econ\u00f4mica ap\u00f3s a guerra foi bastante desastrosa, e este per\u00edodo poderia ser descrito como mais de uma d\u00e9cada perdida. O crescimento do PIB durante a d\u00e9cada de 1940 foi muito baixo, e a renda per capita s\u00f3 recuperou o n\u00edvel de 1935 em 1953. Essa desacelera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica marcou uma ruptura com o crescimento lento, mas constante, iniciado em 1840. No \u00faltimo s\u00e9culo e meio, a Espanha n\u00e3o sofreu outro per\u00edodo de empobrecimento semelhante ao experimentado entre 1936 e 1950.<\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\"><strong>II- As bases do \u201cmilagre espanhol\u201d<\/strong><\/h6>\n\n\n\n<p>O franquismo fez de maneira contrarrevolucion\u00e1ria o que a burguesia espanhola n\u00e3o conseguiu fazer de maneira revolucion\u00e1ria durante todo o s\u00e9culo XIX: levar o Estado espanhol ao capitalismo em todos os aspectos.<\/p>\n\n\n\n<p>A &#8220;Espanha&#8221; que entrou na guerra civil e na revolu\u00e7\u00e3o era uma &#8220;Espanha&#8221; fundamentalmente rural, com um proletariado concentrado em certas \u00e1reas (Catalunha, Pa\u00eds Basco, Ast\u00farias e cidades isoladas do resto do territ\u00f3rio); uma &#8220;Espanha&#8221; onde as rela\u00e7\u00f5es pr\u00e9-capitalistas no campo eram a norma, com os propriet\u00e1rios de terras andaluzes e os caciques galegos \u2014 onde ainda predominava uma forma pr\u00e9-capitalista de propriedade da terra, o contrato foral \u2014 sendo os maiores expoentes dessas rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o industrial que permitiu \u00e0s sociedades europeias, principalmente inglesa e francesa, levar a revolu\u00e7\u00e3o burguesa at\u00e9 sua conclus\u00e3o, industrializando-as e proletarizando-as, atingiu a sociedade espanhola de maneira muito marginal.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante o per\u00edodo da Restaura\u00e7\u00e3o, posterior \u00e0 Primeira Rep\u00fablica, a burguesia espanhola havia pactuado com a decr\u00e9pita aristocracia que vivia das rendas do antigo imp\u00e9rio e tinha adotado como seus, os piores v\u00edcios dessa aristocracia, enriquecer-se \u00e0 custa do er\u00e1rio p\u00fablico sem promover em nada a capacidade produtiva do sistema: seu lema foi definido por um intelectual org\u00e2nico daquela burguesia, Miguel de Unamuno, quando cunhou a m\u00e1xima de que para o espanhol \u00e9 uma quest\u00e3o de &#8220;<em>que o inventem<\/em>&#8220;.<\/p>\n\n\n\n<p>A Segunda Rep\u00fablica foi a \u00faltima tentativa de um setor da burguesia hisp\u00e2nica de incorporar a &#8220;Espanha&#8221; ao grupo das na\u00e7\u00f5es capitalistas desenvolvidas. Mas sua fraqueza cong\u00eanita em romper esse pacto com os latifundi\u00e1rios e a Igreja \u2014 tamb\u00e9m com os grandes interesses fundi\u00e1rios \u2014, a fase do capitalismo em que surgiu, o interregno entre as duas Guerras Mundiais (o que alguns chamam de &#8220;Guerras Civis Europeias&#8221;) e o prel\u00fadio da Segunda Guerra Mundial, com as contradi\u00e7\u00f5es interimperialistas agu\u00e7adas ao extremo, levaram essa burguesia a trilhar caminhos abertamente contrarrevolucion\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Para abra\u00e7ar a causa do fascismo em ascens\u00e3o por toda a Europa, bastava a amea\u00e7a de uma revolu\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria; uma amea\u00e7a que foi visualizada em 14 de abril de 1931, tornou-se realidade nas Ast\u00farias em 1934 e deu um salto qualitativo em fevereiro de 1936 com a vit\u00f3ria da Frente Popular. A porta para a transforma\u00e7\u00e3o socialista da sociedade estava aberta, e isso empurrou definitivamente a burguesia para os bra\u00e7os do fascismo em sua forma espanhola, <em>o falangismo<\/em> e todas as suas variantes &#8220;hisp\u00e2nicas&#8221;, do <em>carlismo<\/em>, do tradicionalismo e de outros grupos reacion\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\"><strong>Da autarquia ao plano de estabiliza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h6>\n\n\n\n<p>O fim da Segunda Guerra Mundial teve um duplo efeito: primeiro, o mundo que dela emergiu teve um vencedor incontest\u00e1vel no \u00e2mbito do capitalismo, os Estados Unidos, que se tornaram a pot\u00eancia hegem\u00f4nica; segundo, isso foi feito sob a bandeira do &#8220;antifascismo&#8221;, e o regime de Franco ficou como um p\u00e1ria no cen\u00e1rio mundial, pois constitu\u00eda a terceira grande ditadura fascista europeia, e a \u00fanica que n\u00e3o havia ca\u00eddo (o caso da ditadura portuguesa \u00e9 uma exce\u00e7\u00e3o, pois estava sob a &#8220;prote\u00e7\u00e3o&#8221; do imperialismo brit\u00e2nico).<\/p>\n\n\n\n<p>Os resultados da Segunda Guerra Mundial traduziram-se na abertura, a n\u00edvel europeu e global, na d\u00e9cada de 1950, dos chamados &#8220;trinta anos gloriosos&#8221; e da sua contrapartida social, o &#8220;<em>Estado de bem-estar social<\/em>&#8220;. Com base na recupera\u00e7\u00e3o da taxa de lucro em meio \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o maci\u00e7a de for\u00e7as produtivas provocada pela guerra, nos benef\u00edcios da reconstru\u00e7\u00e3o de uma Europa devastada (Plano Marshall) e de um Jap\u00e3o e Extremo Oriente semi-destru\u00eddos, e no decl\u00ednio brutal das condi\u00e7\u00f5es de vida da classe oper\u00e1ria em grande parte da Europa e da \u00c1sia, reduzida ao m\u00ednimo de subsist\u00eancia, o capital estabilizou-se ap\u00f3s a &#8220;<em>longa noite da pedra<\/em>&#8221; durante os anos da Primeira e Segunda Guerra Mundial.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, a Segunda Guerra Mundial teve outro vencedor inesperado, que a m\u00eddia de propaganda europeia e norte-americana agora querem esconder: a URSS e a expropria\u00e7\u00e3o da burguesia em v\u00e1rios pa\u00edses. Um ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o mundial j\u00e1 n\u00e3o estava sob o dom\u00ednio da lei do valor e das leis do mercado; mesmo de forma burocr\u00e1tica, nos Estados onde a burguesia foi expropriada, o monop\u00f3lio do com\u00e9rcio exterior e do planejamento econ\u00f4mico permitiu-lhes escapar da explora\u00e7\u00e3o capitalista direta.<\/p>\n\n\n\n<p>O chamado &#8220;bloco socialista&#8221; foi formado em torno deles, com a URSS como refer\u00eancia, o que estava em aberta contradi\u00e7\u00e3o com o bloco capitalista encabe\u00e7ado pelos EUA e pela OTAN.<\/p>\n\n\n\n<p>Estes \u00faltimos, tanto por raz\u00f5es geopol\u00edticas de fortalecimento frente ao bloco &#8220;socialista&#8221;, quanto por raz\u00f5es econ\u00f4micas, a &#8220;Espanha&#8221; de Franco era um campo virgem para investimentos do imperialismo norte-americano e, secundariamente, do imperialismo europeu, devido aos seus baixos sal\u00e1rios e \u00e0 legisla\u00e7\u00e3o repressiva da ditadura (proibi\u00e7\u00e3o de greves e de organiza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias).<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, dentro da pr\u00f3pria Espanha, o capitalismo se recuperava da devasta\u00e7\u00e3o da guerra, um capitalismo que permanecera imperialista, tanto em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s col\u00f4nias africanas \u2013 Marrocos, Saara, Guin\u00e9 e Fernando P\u00f3 \u2013 quanto em suas rela\u00e7\u00f5es com as ex-col\u00f4nias americanas. Os capitalistas espanh\u00f3is olhavam para elas e, sob a nostalgia do &#8220;antigo imp\u00e9rio&#8221;, da &#8220;identidade hisp\u00e2nica&#8221;, buscavam uma sa\u00edda para o seu crescimento. Estavam sendo criadas as condi\u00e7\u00f5es para que a sociedade espanhola emergisse da autarquia do p\u00f3s-guerra e desse o salto rumo ao desenvolvimentismo e \u00e0 industrializa\u00e7\u00e3o da sociedade.<\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\"><strong>O plano de estabiliza\u00e7\u00e3o de 59<\/strong><\/h6>\n\n\n\n<p>Para enfrentar esses desafios, os velhos slogans <em>falangistas<\/em> eram in\u00fateis. Eles tiveram que se renovar e se apresentar \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es internacionais, ao FMI e ao Banco Mundial, com as credenciais de um Estado livre de suas antigas alian\u00e7as com o fascismo e o nazismo. Tiveram que abrir suas portas ao capital internacional e vincular a economia espanhola \u00e0 nova divis\u00e3o internacional do trabalho resultante da Segunda Guerra Mundial. A visita do presidente americano Dwight D. Eisenhower em 1959 foi o endosso de que o regime precisava.<\/p>\n\n\n\n<p>Dois anos antes, em fevereiro de 1957, ocorreu uma mudan\u00e7a de governo sob os ausp\u00edcios de Carrero Blanco, o que significou uma perda de influ\u00eancia dos setores mais nacionalistas do Regime em postos-chave da Administra\u00e7\u00e3o e a entrada de um grupo de ministros, composto por Alberto Ullastres (Com\u00e9rcio), Mariano Navarro Rubio (Fazenda) e L\u00f3pez Rod\u00f3 como chefe da Secretaria T\u00e9cnica Geral da Subsecretaria da Presid\u00eancia, da qual dependia o Escrit\u00f3rio de Coordena\u00e7\u00e3o e Programa\u00e7\u00e3o Econ\u00f4mica.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos tinham em comum a orienta\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica, a filia\u00e7\u00e3o ao Opus Dei e uma s\u00f3lida forma\u00e7\u00e3o intelectual na \u00e1rea econ\u00f4mica. Esses novos ministros rapidamente perceberam a insustent\u00e1vel situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e come\u00e7aram a impor alguma ordem \u00e0 pol\u00edtica econ\u00f4mica, come\u00e7ando por romper com a pol\u00edtica aut\u00e1rquica que at\u00e9 ent\u00e3o dominava o regime de Franco.<\/p>\n\n\n\n<p>O objetivo mais que evidente era estabelecer uma posi\u00e7\u00e3o no mundo emergindo da guerra. Mas, como este j\u00e1 estava dividido por um &#8220;chefe&#8221; indiscut\u00edvel, os Estados Unidos, que investia na recupera\u00e7\u00e3o de seus antigos concorrentes, Europa e Jap\u00e3o, e dominava a ind\u00fastria e as finan\u00e7as globais, o Estado espanhol n\u00e3o teve escolha a n\u00e3o ser &#8220;vender-se&#8221; aos investidores como um lugar de baixos sal\u00e1rios, terras baratas e muita luz solar.<\/p>\n\n\n\n<p>O plano de estabiliza\u00e7\u00e3o apontava justo nessa dire\u00e7\u00e3o com cinco pontos centrais:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>A conversibilidade da peseta e o aumento da taxa de c\u00e2mbio com o d\u00f3lar de 42 para 60 pesetas, com o objetivo de estabilizar a peseta. Isso foi acompanhado por empr\u00e9stimos estrangeiros substanciais de organiza\u00e7\u00f5es internacionais e do pr\u00f3prio governo dos EUA.<\/li>\n\n\n\n<li>Aumento das taxas de juros para atrair capital internacional, limitar empr\u00e9stimos banc\u00e1rios e congelar sal\u00e1rios.<\/li>\n\n\n\n<li>Promover o investimento estrangeiro com uma nova legisla\u00e7\u00e3o sobre investimento estrangeiro que permitisse a participa\u00e7\u00e3o de capital estrangeiro em empresas espanholas.<\/li>\n\n\n\n<li>Com o objetivo de limitar o d\u00e9ficit p\u00fablico, foi proposta uma reforma tribut\u00e1ria para aumentar a arrecada\u00e7\u00e3o de receitas e limitar os gastos p\u00fablicos. Tal como analisa Ram\u00f3n Tamam\u00e9s em seu livro &#8220;A Estrutura Econ\u00f4mica da Espanha&#8221;, publicado em 1960, a &#8220;Espanha&#8221; ap\u00f3s o Plano de Estabiliza\u00e7\u00e3o se basearia em tr\u00eas pilares: primeiro, a nacionaliza\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria pesada por meio do Instituto Nacional de Estat\u00edstica e Censos (INI); segundo, o investimento estrangeiro maci\u00e7o em ind\u00fastrias realocadas para exporta\u00e7\u00e3o; at\u00e9 mesmo Hollywood trouxe a filmagem de grandes sucessos de bilheteria para a &#8220;Espanha&#8221;; terceiro, a &#8220;cria\u00e7\u00e3o&#8221; das bases da economia espanhola, agora livre de vest\u00edgios do antigo regime, a constru\u00e7\u00e3o de moradias e obras p\u00fablicas com base no lema &#8220;<em>vamos fazer um pa\u00eds de propriet\u00e1rios, n\u00e3o de prolet\u00e1rios<\/em>&#8220;, e o turismo, que se tornaria famoso gra\u00e7as ao slogan publicit\u00e1rio de M. Fraga no in\u00edcio dos anos 1960: &#8220;<em>A Espanha \u00e9 diferente<\/em>&#8220;.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\"><strong>Consequ\u00eancias pol\u00edticas: do fascismo ao bonapartismo<\/strong><\/h6>\n\n\n\n<p>A cis\u00e3o dentro do regime entre o tecnocr\u00e1tico &#8220;Opus Dei&#8221; e os falangistas ideol\u00f3gicos ligados ao fascismo \u00e9 a principal manifesta\u00e7\u00e3o dessa mudan\u00e7a e da abertura das fronteiras.<\/p>\n\n\n\n<p>A retomada da economia, o desenvolvimento tanto da ind\u00fastria leve em m\u00e3os privadas quanto da ind\u00fastria pesada em torno do INI, a mecaniza\u00e7\u00e3o do campo que expulsa milh\u00f5es de pessoas para as cidades e a emigra\u00e7\u00e3o, levaram ao ressurgimento de um novo movimento oper\u00e1rio n\u00e3o vinculado \u00e0s velhas estruturas socialistas e anarquistas (UGT e CNT), que foram as principais v\u00edtimas da repress\u00e3o, mas em torno de novas organiza\u00e7\u00f5es que come\u00e7aram a ser conhecidas como &#8220;<em>comiss\u00f5es oper\u00e1rias<\/em>&#8220;; organiza\u00e7\u00f5es que inicialmente eram toleradas pelo pr\u00f3prio regime, como parte daquela nova imagem &#8220;aberta&#8221; que queriam apresentar ao mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>A repress\u00e3o em massa \u2014 &#8220;os m\u00e9todos de guerra civil contra a classe oper\u00e1ria&#8221;, que Trotsky aponta como uma das caracter\u00edsticas de um Estado fascista \u2014 \u00e9 substitu\u00edda pela repress\u00e3o seletiva contra o crescente ativismo oper\u00e1rio e estudantil. Os campos de concentra\u00e7\u00e3o e exterm\u00ednio desaparecem, e a pol\u00edcia pol\u00edtica (BPS) se especializa em reprimir organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e sindicais que come\u00e7am a ganhar vida nova, desferindo golpes duros como a execu\u00e7\u00e3o de Juli\u00e1n Grimau<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Mas esses n\u00e3o s\u00e3o mais os massacres das d\u00e9cadas de 1930 e 1940, mas sim assassinatos seletivos de l\u00edderes oper\u00e1rios e populares.<\/p>\n\n\n\n<p>O regime est\u00e1 ciente de que, se quiser ingressar na incipiente Comunidade Econ\u00f4mica Europeia, dever\u00e1 apresentar uma face &#8220;amig\u00e1vel&#8221; e n\u00e3o fascista, visto que a luta contra o nazismo e o fascismo ainda \u00e9 recente entre a popula\u00e7\u00e3o do velho continente. De fato, se h\u00e1 algo que galvaniza a solidariedade internacional, \u00e9 a luta antifranquista. As mobiliza\u00e7\u00f5es em toda a Europa em apoio ao antifranquismo s\u00e3o a\u00e7\u00f5es maci\u00e7as, assim como as manifesta\u00e7\u00f5es de centenas de milhares de pessoas em toda a Europa em resposta \u00e0 execu\u00e7\u00e3o de Grimau.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, a consolida\u00e7\u00e3o da luta interna entre os setores capitalistas &#8220;tecnocr\u00e1ticos&#8221; ligados ao OPUS e os antigos falangistas pressiona o regime, com Franco como figura central, a atuar como mediador entre ambos. Assim, enquanto o governo \u00e9 assumido pelos &#8220;tecnocratas&#8221;, a Falange e a Igreja continuam controlando os mecanismos ideol\u00f3gicos e de propaganda.<\/p>\n\n\n\n<p>O regime de Franco n\u00e3o \u00e9 mais uma ditadura fascista \u00e0 moda antiga, apoiada por uma pequena burguesia urbana e rural empobrecida pela crise social dos anos 1930; ao contr\u00e1rio, no calor do chamado &#8220;desenvolvimentismo&#8221;, surge uma nova classe m\u00e9dia, em cujas mesas caem as migalhas desse desenvolvimentismo e que exige nova estrutura cultural e ideol\u00f3gica: o &#8220;<em>homem dos 600<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\"><strong>[3]<\/strong><\/a><\/em>&#8221; consumista e as conquistas incipientes do movimento oper\u00e1rio em termos de condi\u00e7\u00f5es de trabalho, como f\u00e9rias remuneradas.<\/p>\n\n\n\n<p>O regime criado ap\u00f3s a vit\u00f3ria de 39 adaptou-se aos novos tempos, transformando-se numa ditadura bonapartista, com o general Franco, figura de proa intoc\u00e1vel at\u00e9 a sua morte.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a>&nbsp; Falange \u2013 grupo pol\u00edtico nacionalista extremista, fundado na Espanha em 1933, ndt;<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> Juli\u00e1n Grimau Garc\u00eda foi um pol\u00edtico espanhol, membro do Partido Comunista de Espanha, executado durante o Estado franquista (de Francisco Franco), em 1963, ndt;<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> Referencia ao carro Seat 600, produzido em 1957, o utilit\u00e1rio mais popular no Estado Espanhol, que marcou a era de seu desenvolvimento, ndt;<\/p>\n\n\n\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Rosangela Botelho<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este artigo faz parte da s\u00e9rie\u00a0&#8220;O franquismo n\u00e3o morreu com Franco&#8221;,\u00a0que publicamos ao longo de 2025 para marcar os 50 anos da morte do ditador.Por: Roberto Laxe I- A autarquia como instrumento pol\u00edtico Uma frase comum usada para definir a situa\u00e7\u00e3o no Estado Espanhol ap\u00f3s a vit\u00f3ria de Franco sobre a Rep\u00fablica e a Revolu\u00e7\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":81209,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"Roberto Laxe","footnotes":""},"categories":[3512,3677],"tags":[229,483,9193,5103],"class_list":["post-81208","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-estado-espanhol","category-europa-mundo","tag-corriente-roja","tag-franquismo","tag-o-franquismo-nao-morreu-com-franco","tag-roberto-laxe"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/franquismo-terror.png","categories_names":["Estado Espanhol","Europa"],"author_info":{"name":"lena","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/b9eb35b4c023b96c29c4a145a82c6c381b68f2c889c5427106ad5aab6df45b9d?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":"Roberto Laxe","tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/81208","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=81208"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/81208\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":81210,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/81208\/revisions\/81210"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/81209"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=81208"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=81208"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=81208"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}