{"id":81115,"date":"2025-06-05T22:55:47","date_gmt":"2025-06-05T22:55:47","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=81115"},"modified":"2025-06-05T22:55:48","modified_gmt":"2025-06-05T22:55:48","slug":"eletricidade-um-bem-essencial-nas-maos-da-ganancia-de-empresas-privadas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2025\/06\/05\/eletricidade-um-bem-essencial-nas-maos-da-ganancia-de-empresas-privadas\/","title":{"rendered":"Eletricidade: um bem essencial nas m\u00e3os da gan\u00e2ncia de empresas privadas"},"content":{"rendered":"\n<p>Por: Antonio Rodr\u00edguez \/ Corriente Roja<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O recente apag\u00e3o na Espanha n\u00e3o s\u00f3 se tornou o maior de sua hist\u00f3ria, mas tamb\u00e9m est\u00e1 entre os maiores do mundo em popula\u00e7\u00e3o afetada nos \u00faltimos anos<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Como apontou o f\u00edsico e pesquisador do CSIC Antonio Turiel, o apag\u00e3o seria consequ\u00eancia direta de um modelo energ\u00e9tico em que a l\u00f3gica do lucro de curto prazo prevalece sobre a responsabilidade estrutural. O que aconteceu em 28 de abril foi, na realidade, um acidente anunciado como resultado de uma rede el\u00e9trica desequilibrada, vulner\u00e1vel e, por fim, colapsada. Mas o mais grave n\u00e3o \u00e9 a falha t\u00e9cnica. \u00c9 a falta de previs\u00e3o e responsabilidade das grandes empresas de eletricidade (Iberdrola, Endesa, Naturgy, etc.) em um mercado onde a maximiza\u00e7\u00e3o do lucro \u00e9 fundamental.<\/p>\n\n\n\n<p>O epis\u00f3dio tamb\u00e9m revela sua dimens\u00e3o pol\u00edtica. Tanto a ex-ministra Teresa Ribera \u2013 agora comiss\u00e1ria em Bruxelas \u2013 quanto o presidente Pedro S\u00e1nchez est\u00e3o cientes da natureza do problema. As declara\u00e7\u00f5es subsequentes de S\u00e1nchez apontaram imediatamente que o apag\u00e3o era, em grande parte, responsabilidade das grandes empresas de energia. Mas, mais uma vez, a covardia do governo e suas decis\u00f5es pol\u00edticas subsequentes demonstraram mais que qualquer medida futura passa por n\u00e3o incomodar as empresas que det\u00eam o poder, e muito. Poder para condicionar pol\u00edticas, silenciar a m\u00eddia e moldar o discurso p\u00fablico, se necess\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O apag\u00e3o foi real e a gan\u00e2ncia tamb\u00e9m.<\/strong> E se n\u00e3o quisermos que isso aconte\u00e7a novamente, a solu\u00e7\u00e3o \u00e9 acabar com a impunidade daqueles que gerenciam a energia como se fosse sua fazenda particular. Se quisermos que colapsos desta magnitude n\u00e3o voltem a acontecer no futuro, <strong>temos de exigir mais investimento e menos especula\u00e7\u00e3o, menos opacidade e mais regulamenta\u00e7\u00e3o<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>A evolu\u00e7\u00e3o do setor el\u00e9trico h\u00e1 muito se tornou uma selva onde prevalecem os interesses privados. Em primeiro lugar, devemos come\u00e7ar a quebrar o mito de que o franquismo j\u00e1 controlava o setor durante a ditadura. Longe disso, deve-se notar que as grandes empresas privadas dominavam o mercado com base em um sistema de monop\u00f3lios regionais onde cada uma delas administrava um territ\u00f3rio espec\u00edfico. Iberduero, Uni\u00f3n El\u00e9ctrica, Hidroel\u00e9ctrica Espa\u00f1ola e Sevillana eram as quatro grandes empresas da \u00e9poca. O regime de Franco n\u00e3o s\u00f3 evitou nacionalizar o setor el\u00e9trico, mas tamb\u00e9m fortaleceu a posi\u00e7\u00e3o dos grandes produtores de eletricidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A privatiza\u00e7\u00e3o do setor el\u00e9trico na Espanha \u00e9 um exemplo paradigm\u00e1tico de como a transfer\u00eancia de ativos p\u00fablicos para m\u00e3os privadas pode priorizar o lucro econ\u00f4mico sobre o bem-estar social. Esse processo, promovido pelos governos do Partido Socialista Oper\u00e1rio Espanhol (PSOE) e do Partido Popular (PP) desde a d\u00e9cada de 1980, transformou a eletricidade, um servi\u00e7o b\u00e1sico, em um neg\u00f3cio dominado por um oligop\u00f3lio de empresas privadas.<\/p>\n\n\n\n<p>O resultado foi um aumento sustentado dos pre\u00e7os, menos soberania energ\u00e9tica e a entrada de fundos de investimento e magnatas dos neg\u00f3cios, como Amancio Ortega, que alcan\u00e7ou a posi\u00e7\u00e3o de maior acionista privado da Red El\u00e9ctrica, na gest\u00e3o de infraestruturas chave.<\/p>\n\n\n\n<p>A Red El\u00e9ctrica de Espa\u00f1a (REE), criada em 1985 como uma empresa p\u00fablica do Instituto Nacional da Ind\u00fastria (INI), foi concebida para unificar e gerenciar a rede de transmiss\u00e3o de eletricidade de alta tens\u00e3o do pa\u00eds. No entanto, num contexto de privatiza\u00e7\u00f5es impulsionadas pela integra\u00e7\u00e3o do Estado espanhol na Comunidade Econ\u00f4mica Europeia, o processo de venda a capitais privados iniciou-se na d\u00e9cada de 1980 e consolidou-se em 1999, quando a Sociedad Estatal de Participaciones Industriales (SEPI) geriu a venda da maioria do capital da REE. Esse processo acabou marcando uma mudan\u00e7a radical na gest\u00e3o de um setor estrat\u00e9gico. Desde a sua privatiza\u00e7\u00e3o, o Estado det\u00e9m 20% das a\u00e7\u00f5es da REE atrav\u00e9s da SEPI, mas os restantes 80% s\u00e3o livremente negociados nos mercados financeiros, o que orientou as prioridades da empresa para a rentabilidade para os acionistas e n\u00e3o para o interesse p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p>Dos sete presidentes do Governo que o Estado espanhol teve desde a morte de Francisco Franco, tr\u00eas deles acabaram como funcion\u00e1rios das empresas de eletricidade: Leopoldo Calvo Sotelo, Felipe Gonz\u00e1lez e Jos\u00e9 Mar\u00eda Aznar. Mais de 20 ministr@s, tanto do PSOE quanto do PP, e muitos mais secret\u00e1rios de Estado, passaram de desenhar e promover as regras que regem o mercado el\u00e9trico para receber sal\u00e1rios milion\u00e1rios gra\u00e7as a essas &#8220;portas girat\u00f3rias&#8221;. Praticamente todos os principais timoneiros da economia espanhola acabaram trabalhando para os interesses das empresas de eletricidade em detrimento dos do Estado: Miguel Boyer, Pedro Solbes, Luis de Guindos e Elena Salgado. No caso de Rodrigo Rato, ele n\u00e3o o fez na equipe, mas faturou ilegalmente \u00e0 Endesa <a href=\"https:\/\/www.elconfidencial.com\/espana\/2016-03-05\/rato-uso-a-un-amigo-para-desviar-gran-parte-de-los-25-8-millones-que-facturo-a-endesa_1162358\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">25,8 milh\u00f5es<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>No dia 25 de abril, vivemos com espanto porque, de repente, os interruptores n\u00e3o acenderam as luzes de nossas casas, o metr\u00f4 e os trens n\u00e3o funcionaram, os computadores foram desligados, as geladeiras pararam de refrigerar os alimentos, o WhatsApp parou de ser recebido e foi imposs\u00edvel entrar em contato com nossas fam\u00edlias e amigos. Quando essas coisas acontecem e o pa\u00eds fica ofuscado por algumas horas, \u00e9 justo lembrar que no pr\u00f3ximo dia 2 de outubro marca cinco anos desde o apag\u00e3o que abalou os setores 5 e 6 de um dos bairros mais vulner\u00e1veis de Madri, a Ca\u00f1ada Real, e deixou mais de 4.500 pessoas sem fornecimento de eletricidade, entre elas 1.800 crian\u00e7as e adolescentes. Um bairro na periferia da capital, a apenas 15 quil\u00f4metros da Puerta del Sol, onde uma manh\u00e3, de repente, as baterias dos telefones celulares pararam de carregar, as l\u00e2mpadas se apagaram, os aquecedores e geladeiras pararam de funcionar, as crian\u00e7as come\u00e7aram a precisar de velas para fazer o dever de casa, os chuveiros come\u00e7aram a ser de \u00e1gua fria, e o cheiro de lenha permeava tudo. Um bairro inteiro abandonado \u00e0 sua sorte, no escuro, com seus direitos \u00e0 intemp\u00e9rie. V\u00e1rios anos se passaram desde o apag\u00e3o e v\u00e1rios meses desde que essa decis\u00e3o foi emitida pelo Conselho da Europa, onde confirmou que o Estado espanhol viola a Carta Social Europeia e, no entanto, nenhuma das administra\u00e7\u00f5es envolvidas, nem as C\u00e2maras Municipais, nem a Comunidade, nem o governo central fazem nada para cumpri-la,&nbsp; para frear esta emerg\u00eancia humanit\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, \u00e9 preciso salientar que num momento cr\u00edtico, suportando cinco, dez, quinze horas sem eletricidade, sem comunica\u00e7\u00f5es telef\u00f4nicas ou pela internet, e com milhares de pessoas bloqueadas em trens parados, a popula\u00e7\u00e3o soube enfrentar a situa\u00e7\u00e3o com um comportamento absolutamente exemplar.<\/p>\n\n\n\n<p>Seguiram-se epis\u00f3dios de solidariedade e apoio m\u00fatuo, enorme maturidade e civilidade foram demonstradas por parte da grande maioria, profissionais de servi\u00e7os p\u00fablicos b\u00e1sicos como Sa\u00fade e Educa\u00e7\u00e3o voltaram sua aten\u00e7\u00e3o para poder manter os servi\u00e7os. E nos bairros e cidades, diante dos problemas, a solidariedade surgiu. Vizinhos\/as com fog\u00f5es a g\u00e1s que foram oferecidos aos outros, com fog\u00f5es el\u00e9tricos, para preparar alimentos. Ou que emprestavam aparelhos de r\u00e1dio &#8220;antigos&#8221;, movidos a bateria, para serem informados, levando-os para varandas ou pra\u00e7as, para que a vizinhan\u00e7a pudesse ouvi-los. Parentes de idosos\/as que n\u00e3o podiam descer para a rua se o elevador n\u00e3o funcionasse, que quando vieram ajud\u00e1-los descobriram que j\u00e1 haviam sido ajudados por seus vizinhos\/as.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitos\/as tivemos a prova definitiva de um comportamento coletivo exemplar quando sa\u00edmos para as ruas onde os sem\u00e1foros n\u00e3o funcionavam. Se n\u00e3o houve acidentes de tr\u00e2nsito not\u00e1veis, foi por causa da civilidade dos\/as motoristas, diminuindo a velocidade ou dando passagem permanentemente aos pedestres.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, n\u00e3o podemos dizer o mesmo do governo e da patronal, que mais uma vez colocam os interesses comerciais acima das necessidades da popula\u00e7\u00e3o. Enormes aglomera\u00e7\u00f5es foram geradas, e muitas pessoas foram deixadas na rua com milhares de hot\u00e9is vazios e apartamentos tur\u00edsticos que n\u00e3o foram disponibilizados para as pessoas que precisavam deles. Em muitas esta\u00e7\u00f5es de trem &#8211; como Atocha ou Sants &#8211; milhares de pessoas se aglomeraram, com sua viagem de trem cancelada, sem saber onde dormiriam. E uma multid\u00e3o de cidad\u00e3os veio at\u00e9 eles para fornecer comida ou cobertores e oferecer acomoda\u00e7\u00e3o em suas casas aos mais vulner\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A eletricidade \u00e9 um servi\u00e7o essencial. A nacionaliza\u00e7\u00e3o de empresas estrat\u00e9gicas e seu controle pela classe trabalhadora, comunidades e consumidor@s, \u00e9 essencial para implementar um plano global que reorganize a economia a servi\u00e7o das necessidades da popula\u00e7\u00e3o e da sustentabilidade ambiental. Uma medida imediata de todo esse plano \u00e9 a nacionaliza\u00e7\u00e3o da rede el\u00e9trica e o restabelecimento do monop\u00f3lio estatal sobre a produ\u00e7\u00e3o, distribui\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o da eletricidade. Devemos reverter com press\u00e3o e luta nas ruas o deslocamento dos diferentes governos para alocar enormes quantias de dinheiro para o rearmamento, e fazer com que esse dinheiro seja alocado \u00e0s necessidades sociais: sal\u00e1rios, pens\u00f5es, servi\u00e7os p\u00fablicos, moradia e infraestrutura.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: L\u00edlian Enck<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: Antonio Rodr\u00edguez \/ Corriente Roja O recente apag\u00e3o na Espanha n\u00e3o s\u00f3 se tornou o maior de sua hist\u00f3ria, mas tamb\u00e9m est\u00e1 entre os maiores do mundo em popula\u00e7\u00e3o afetada nos \u00faltimos anos. 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