{"id":80993,"date":"2025-04-28T19:58:44","date_gmt":"2025-04-28T19:58:44","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=80993"},"modified":"2025-05-09T21:40:02","modified_gmt":"2025-05-09T21:40:02","slug":"repressao-durante-os-primeiros-anos-do-franquismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2025\/04\/28\/repressao-durante-os-primeiros-anos-do-franquismo\/","title":{"rendered":"Repress\u00e3o durante os primeiros anos do franquismo"},"content":{"rendered":"\n<p>Por: I\u00f1aki Bay\u00f3n \u2013 Corriente Roja<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Este artigo faz parte da s\u00e9rie <\/strong><a href=\"https:\/\/www.corrienteroja.net\/banner-el-franquismo-no-murio-con-franco\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><em>O franquismo n\u00e3o morreu com Franco<\/em><\/a><strong> que publicamos ao longo de 2025 pelo 50\u00ba anivers\u00e1rio da morte do ditador.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em nossa opini\u00e3o, \u00e9 essencial analisar o franquismo desde seus prim\u00f3rdios, quando estava livre de disfarces posteriores que foram consequ\u00eancia de imposi\u00e7\u00f5es internas e externas &#8220;durante o \u00faltimo ano da guerra (mundial), o regime de Franco fez todos os esfor\u00e7os para se livrar de todos os vest\u00edgios aparentes do fascismo&#8221;.<sup>1<\/sup> Portanto, uma an\u00e1lise s\u00e9ria n\u00e3o pode ser feita com base nas acomoda\u00e7\u00f5es que foi realizando, como, por exemplo, o crescimento econ\u00f4mico dos \u00faltimos anos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 verdade que com esse programa retr\u00f3grado, que negava a democracia, o liberalismo e a sociedade contempor\u00e2nea, n\u00e3o teriam sido capazes de arrastar muito mais que os falangistas e carlistas, os democratas-crist\u00e3os e os republicanos conservadores. E esse fato torna muito dif\u00edcil qualificar a ditadura como fascista, totalit\u00e1ria ou militar, embora sem d\u00favida tivesse caracter\u00edsticas extra\u00eddas de todas.<\/p>\n\n\n\n<p>Os l\u00edderes rebeldes acreditavam estar de posse da verdade absoluta e atribu\u00edram um papel fundamental \u00e0 repress\u00e3o na constru\u00e7\u00e3o do novo Estado. Essa repress\u00e3o foi alimentada pela concep\u00e7\u00e3o da direita em geral, e da oligarquia rural e dos l\u00edderes da rebeli\u00e3o em particular, de que os inimigos da esquerda e os liberais pertenciam a uma ra\u00e7a inferior. Tal repress\u00e3o tinha caracter\u00edsticas modernas copiadas do estado fascista italiano e do nazismo alem\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde o in\u00edcio da guerra, o terror franquista foi sistem\u00e1tico, determinado e administrado de cima, ao contr\u00e1rio do que aconteceu na zona republicana, onde as autoridades tentaram controlar e punir em todos os momentos. Esta afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 apoiada pelas pr\u00f3prias palavras dos l\u00edderes rebeldes.<\/p>\n\n\n\n<p>Mola diria que &#8220;\u00e9 preciso criar uma atmosfera de terror, \u00e9 preciso deixar um sentimento de domina\u00e7\u00e3o eliminando sem escr\u00fapulos ou hesita\u00e7\u00f5es quem n\u00e3o pensa como n\u00f3s. Temos que causar uma grande impress\u00e3o, qualquer um que seja aberta ou secretamente um defensor da Frente Popular deve ser fuzilado&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Queipo del Llano, em suas locu\u00e7\u00f5es de r\u00e1dio, lan\u00e7ava continuamente mensagens b\u00e1rbaras para justificar as atrocidades, como as que coletamos abaixo:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>23 de julho de 1936 &#8220;Nossos bravos legion\u00e1rios e regulares mostraram aos covardes vermelhos o que significa ser homens de verdade. E ao mesmo tempo \u00e0s suas mulheres. Isso \u00e9 totalmente justificado porque esses comunistas e anarquistas pregam o amor livre.\u00a0<strong>Agora, pelo menos, eles saber\u00e3o o que s\u00e3o homens de verdade e n\u00e3o milicianos viados. Eles n\u00e3o ser\u00e3o poupados, n\u00e3o importa o quanto gritem e chutem.&#8221;<\/strong><\/li>\n\n\n\n<li><strong>25 de julho de 1936 <\/strong>&#8220;<strong>Se algum efeminado, algum invertido, se dedicar a lan\u00e7ar mentiras alarmistas, n\u00e3o hesite em mat\u00e1-lo como um cachorro<\/strong>, ou entreg\u00e1-lo a mim instantaneamente.&#8221;<\/li>\n\n\n\n<li>29 de agosto de 1936 &#8220;Estive esperando at\u00e9 este momento por novas not\u00edcias do que aconteceu na frente de Talavera (&#8230;) Sei que <strong>\u00a0grandes quantidades de muni\u00e7\u00e3o de artilharia e infantaria, dez caminh\u00f5es e muitos outros materiais <\/strong>ca\u00edram em nossa posse, al\u00e9m de <strong>numerosos prisioneiros. Como os regulares ficar\u00e3o felizes e como a Pasionaria est\u00e1 invejosa!&#8221;<\/strong><\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>A m\u00e1quina de repress\u00e3o com sua estrat\u00e9gia sistem\u00e1tica de exterm\u00ednio f\u00edsico continuou a funcionar no final da guerra. Nas palavras de Juli\u00e1n Casanova, tornou-se uma prioridade e, nas palavras de Paul Preston, Franco fez &#8220;o investimento no terror&#8221;<sup>4<\/sup>, &#8220;por essa raz\u00e3o, o estado de guerra declarado em 18 de julho de 1936 n\u00e3o foi suspenso at\u00e9 1948&#8221;.<sup>3<\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>Franco, em seu discurso de 19 de maio de 1939 durante o <em>Desfile da Vit\u00f3ria<\/em>, deixou n\u00edtidas suas inten\u00e7\u00f5es quando disse: &#8220;N\u00e3o tenhamos ilus\u00f5es: o esp\u00edrito judeu que permitiu a alian\u00e7a do grande capital com o marxismo, que tanto sabe sobre pactos com a revolu\u00e7\u00e3o antiespanhola, n\u00e3o \u00e9 extirpado em um dia e vibra nas profundezas de muitas consci\u00eancias&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>E no discurso de fim de ano de 31 de dezembro de 1939, ele afirmaria: &#8220;Agora voc\u00eas entendem os motivos que levaram diferentes na\u00e7\u00f5es a combater e retirar de suas atividades aquelas ra\u00e7as em que a gan\u00e2ncia e o interesse s\u00e3o o estigma que os caracteriza, j\u00e1 que sua predomin\u00e2ncia na sociedade \u00e9 causa de perturba\u00e7\u00e3o e perigo para a realiza\u00e7\u00e3o de seu destino hist\u00f3rico. N\u00f3s, que pela gra\u00e7a de Deus e pela vis\u00e3o n\u00edtida dos Reis Cat\u00f3licos h\u00e1 s\u00e9culos nos libertamos de um fardo t\u00e3o pesado, n\u00e3o podemos ficar indiferentes a este novo florescimento de esp\u00edrito ganancioso e ego\u00edsta, t\u00e3o apegado aos bens terrenos, que com mais gosto sacrificam os filhos do que seus interesses obscuros&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dados mais aceitos, mas n\u00e3o definitivos, levam a estimativas de 50.000 executados nos anos do p\u00f3s-guerra, aos quais se somam as milhares de mortes em pris\u00f5es e campos de concentra\u00e7\u00e3o devido \u00e0s terr\u00edveis condi\u00e7\u00f5es de fome, frio, doen\u00e7as&#8230; &#8220;Em 1944, um funcion\u00e1rio do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a entregou a um correspondente da Associated Press uma folha de papel mostrando o n\u00famero de presos pol\u00edticos que deveriam ter sido executados desde o fim da guerra: 192.684. Esse n\u00famero \u00e9 um exagero, mas d\u00e1 uma ideia da magnitude da repress\u00e3o.&#8221;<sup>4<\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>O perd\u00e3o esperado dos vencedores aos que &#8220;n\u00e3o cometeram crimes&#8221;, comprado e defendido por Segismundo Casado e Juli\u00e1n Besteiro, nunca chegou. Com o fim do conflito, a viol\u00eancia espont\u00e2nea continuou nos primeiros dias, principalmente implantada pelos falangistas, at\u00e9 que foi imposta a institucional, caracterizada pela farsa judicial sem garantias e pela den\u00fancia em que os prefeitos, l\u00edderes da Falange, a Guarda Civil e a igreja desempenharam um papel fundamental. Juli\u00e1n Casanova afirma que &#8220;incriminar era simples, desculpar era perigoso&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m da elimina\u00e7\u00e3o f\u00edsica, a pilhagem dos bens dos vencidos foi normalizada com um decreto de setembro de 1937 e com a subsequente Lei de Responsabilidades Pol\u00edticas de 9 de fevereiro de 1939.<\/p>\n\n\n\n<p>O n\u00famero de prisioneiros que foi considerado \u00e9 de cerca de 270.000, mas os prisioneiros que aguardam julgamento e aqueles que estavam realizando trabalhos for\u00e7ados foram exclu\u00eddos desse n\u00famero. Serve de exemplo para refletir a superlota\u00e7\u00e3o existente nas pris\u00f5es, que na pris\u00e3o de Ventas, com capacidade para 500 presos, havia 14.000.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, a pesquisa realizada por Javier Rodrigo calcula que 500.000 pessoas passaram pelos 180 campos de concentra\u00e7\u00e3o franquistas, dos quais 102 estavam est\u00e1veis. Para refor\u00e7ar o que foi dito acima sobre o fato de que a repress\u00e3o tinha caracter\u00edsticas modernas copiadas do fascismo e do nazismo, vale a pena refletir que o campo de concentra\u00e7\u00e3o de Miranda de Ebro, o \u00faltimo a ser fechado em 1947, foi administrado por um tempo por Paul Winzer, um membro da SS. Neste campo, os combatentes da Segunda Guerra Mundial foram mantidos em condi\u00e7\u00f5es de semi-escravid\u00e3o. Embora o \u00faltimo campo de concentra\u00e7\u00e3o tenha sido fechado em 1947, os campos de trabalho continuaram abertos at\u00e9 a d\u00e9cada de 1960, onde o trabalho escravo foi concentrado e usado para reconstruir a infraestrutura em troca de uma redu\u00e7\u00e3o nas senten\u00e7as<\/p>\n\n\n\n<p>Queremos concluir com a reflex\u00e3o que o historiador Josep Fontana fez em 1985, que em nossa opini\u00e3o ainda \u00e9 v\u00e1lida meio s\u00e9culo ap\u00f3s a morte do ditador.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Nas avalia\u00e7\u00f5es que foram feitas por ocasi\u00e3o dos dez anos da morte do general Franco, parece-me que h\u00e1 uma tend\u00eancia a julgar seu desempenho pol\u00edtico pessoal e a considerar o que o regime franquista significou, olhando para as coisas desde 1975, o que pode levar a atribuir a um e ao outro todas as coisas positivas que aconteceram neste pa\u00eds desde 1939,&nbsp; ao mesmo tempo, tende a nos mostrar a Espanha franquista com um aspecto menos sombrio do que o de seus primeiros anos. Tal procedimento tem, a meu ver, a s\u00e9ria desvantagem de nos oferecer como objeto de an\u00e1lise uma situa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 simplesmente o resultado de quatro d\u00e9cadas de evolu\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma, mas tamb\u00e9m \u2013 ou talvez seja melhor dizer: sobretudo \u2013 das mudan\u00e7as que foram impostas ao regime a partir de dentro, pela press\u00e3o das lutas de massas que n\u00e3o puderam ser totalmente anuladas por seu aparato repressivo,&nbsp; e, de fora, pela necessidade de negociar sua aceita\u00e7\u00e3o por parte dos vencedores da Segunda Guerra Mundial, que obviamente n\u00e3o eram aqueles em quem havia apostado.<sup>5<\/sup><\/p>\n\n\n\n<p><em>Imagem: Mulheres implorando aos soldados do lado franquista pela vida de seus parentes presos. Constantina (Sevilha), ver\u00e3o de 1936.<\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>1 A Kindel\u00e1n, La verdad de mis relaciones con Franco, pp 41-46, Ed Planeta, 1981 Barcelona.<\/p>\n\n\n\n<p>2 SG Payne, Falange. Hist\u00f3ria do Fascismo Espanhol, pp 233, Ed Sarpe, Madrid, 1985<\/p>\n\n\n\n<p>3 P Preston, O Holocausto Espanhol, pp 615, C\u00edrculo de lectores, 2011.<\/p>\n\n\n\n<p>4 SG Payne, Falange. Hist\u00f3ria do Fascismo Espanhol, pp 235, Ed Sarpe, Madrid, 1985<\/p>\n\n\n\n<p>5 J Fontana, Espa\u00f1a bajo el franquismo, pp 15, Ed Cr\u00edtica, Barcelona, 1986.<\/p>\n\n\n\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: L\u00edlian Enck<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: I\u00f1aki Bay\u00f3n \u2013 Corriente Roja Este artigo faz parte da s\u00e9rie O franquismo n\u00e3o morreu com Franco que publicamos ao longo de 2025 pelo 50\u00ba anivers\u00e1rio da morte do ditador. 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