{"id":80941,"date":"2025-04-15T16:50:45","date_gmt":"2025-04-15T16:50:45","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=80941"},"modified":"2025-04-25T15:31:59","modified_gmt":"2025-04-25T15:31:59","slug":"siria-acordo-entre-o-governo-hts-e-os-curdos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2025\/04\/15\/siria-acordo-entre-o-governo-hts-e-os-curdos\/","title":{"rendered":"S\u00edria: acordo entre o governo HTS e os curdos"},"content":{"rendered":"\n<p>Por: Alejandro Iturbe | <\/p>\n\n\n\n<p><em>Em mar\u00e7o, Ahmad al-Sharaa, l\u00edder da HTS (Organiza\u00e7\u00e3o para a Liberta\u00e7\u00e3o do Levante) e presidente da S\u00edria ap\u00f3s a derrubada da ditadura de al-Assad, reuniu-se com Mazlum Abdi, comandante das FDS (For\u00e7as Democr\u00e1ticas da S\u00edria), a for\u00e7a armada dos curdos na S\u00edria. Essa reuni\u00e3o lan\u00e7ou as bases para um acordo pelo qual as FDS se juntariam \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de um ex\u00e9rcito s\u00edrio unificado como o principal passo na integra\u00e7\u00e3o dos curdos da S\u00edria nas institui\u00e7\u00f5es s\u00edrias. Mark Rubio, secret\u00e1rio de Estado dos EUA, expressou a &#8220;satisfa\u00e7\u00e3o&#8221; de seu pa\u00eds com este acordo<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a>. No contexto da atual situa\u00e7\u00e3o s\u00edria, qual \u00e9 o significado deste acordo?<\/em><em><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Para responder a essa pergunta, \u00e9 necess\u00e1rio olhar para a combina\u00e7\u00e3o de dois processos: a situa\u00e7\u00e3o atual na S\u00edria e o que aconteceu com os curdos no pa\u00eds desde 2011.<\/p>\n\n\n\n<p>Em janeiro passado, uma coaliz\u00e3o de for\u00e7as derrubou o regime ditatorial de Bashar al-Assad, ap\u00f3s mais de uma d\u00e9cada de um complexo e duro processo de guerra civil no qual tropas de v\u00e1rios pa\u00edses estrangeiros tamb\u00e9m intervieram. Caracterizamos isso como o triunfo de um processo de revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica do povo s\u00edrio<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa ofensiva militar, a principal for\u00e7a rebelde foi uma coluna de 20.000 combatentes liderada pelo HTS, uma organiza\u00e7\u00e3o com ideologia isl\u00e2mica sunita, que surgiu no in\u00edcio de 2017 a partir da fus\u00e3o de v\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es semelhantes, com o objetivo de derrubar o regime de Al-Assad. O HTS estava ganhando cada vez mais peso na luta contra o regime, tanto por causa de sua capacidade militar quanto por causa do enfraquecimento das fac\u00e7\u00f5es laicas, duramente perseguidas e reprimidas por Al-Assad<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma coluna menor deixou a cidade de Deraa, no sul do pa\u00eds (perto da fronteira com a Jord\u00e2nia). O ex\u00e9rcito de al-Assad recuou em dire\u00e7\u00e3o a Damasco sem lutar, enquanto nos bairros populares e da classe trabalhadora desta cidade se espalharam levantes em massa que tomaram as pris\u00f5es, libertaram milhares de presos pol\u00edticos, come\u00e7aram a tomar repres\u00e1lias contra os militares do regime e marcharam em dire\u00e7\u00e3o ao centro da cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Naquele momento, Bashar Al-Assad renunciou e fugiu de avi\u00e3o para Moscou, onde Putin lhe deu asilo pol\u00edtico. Os militares do regime tentaram fugir da melhor maneira poss\u00edvel. O mesmo aconteceu com outros agentes de al-Assad.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O governo do HTS<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, foi instalado um governo presidido por Ahmad al-Sharaa, composto apenas por ministros do HTS e baseado em suas mil\u00edcias. \u00c9 um governo que surge como resultado de um triunfo revolucion\u00e1rio das massas, que se sentem fortalecidas e t\u00eam vontade de alcan\u00e7ar suas aspira\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas, econ\u00f4mico-sociais e apoio ao povo palestino contra Israel. O novo governo ganhou prest\u00edgio por ter liderado a luta contra al-Assad e gera expectativas entre as massas, mas n\u00e3o tem um &#8220;cheque em branco&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Em uma recente viagem \u00e0 S\u00edria, F\u00e1bio Bosco, militante da LIT-QI, nos d\u00e1 uma vis\u00e3o direta do estado de \u00e2nimo do povo de Damasco<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. Ele o descreve como uma <em>&#8220;efervesc\u00eancia&#8221;<\/em> em que <em>&#8220;todos discutem cada passo do governo&#8221;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ele tamb\u00e9m destacou a pobreza e as dificuldades que a popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 vivendo. Embora o abastecimento tenha melhorado e o pre\u00e7o dos alimentos tenha ca\u00eddo um pouco, o funcionamento da economia e da infraestrutura \u00e9 muito prec\u00e1rio: s\u00f3 h\u00e1 eletricidade&nbsp; algumas horas por dia e o pre\u00e7o da gasolina para ve\u00edculos e uso familiar \u00e9 duas vezes maior do que no Brasil ou na Argentina.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante dessa situa\u00e7\u00e3o, o governo do HTS quer reconstruir uma economia capitalista na S\u00edria, integrada aos mercados mundiais e, neles, ter um &#8220;lugar sob o sol&#8221;. J\u00e1 anunciou que ter\u00e1 &#8220;rela\u00e7\u00f5es tranquilas&#8221; com o imperialismo estadunidense, Turquia, Ir\u00e3, Ar\u00e1bia Saudita, Qatar, R\u00fassia e China, na busca de investimentos para &#8220;reconstruir&#8221; o pa\u00eds. Portanto, essa reconstru\u00e7\u00e3o n\u00e3o ter\u00e1 como objetivo satisfazer as necessidades urgentes das massas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, j\u00e1 disse que (apesar do ataque israelense que destruiu completamente a capacidade a\u00e9rea militar s\u00edria<a href=\"#_ftn5\" id=\"_ftnref5\">[5]<\/a>) manter\u00e1 o cessar-fogo nas Colinas de Gol\u00e3, anexadas por Israel em 1973. Este territ\u00f3rio tem uma localiza\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica porque domina de cima a uni\u00e3o entre a S\u00edria, o L\u00edbano e a Cisjord\u00e2nia. Em outras palavras, como al-Assad, dar\u00e1 as costas \u00e0 luta do povo palestino contra o Estado sionista, contra o sentimento amplamente majorit\u00e1rio do povo que quer se solidarizar e apoiar ativamente essa luta<a href=\"#_ftn6\" id=\"_ftnref6\">[6]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, o governo do HTS expressa apenas uma parte da complexa combina\u00e7\u00e3o de for\u00e7as sociais, pol\u00edticas e militares que participaram da luta contra al-Assad. Nesse sentido, ainda existem v\u00e1rias regi\u00f5es do pa\u00eds que s\u00e3o controladas por outras organiza\u00e7\u00f5es com suas pr\u00f3prias mil\u00edcias.<\/p>\n\n\n\n<p>O projeto do HTS \u00e9 reconstruir o Estado burgu\u00eas s\u00edrio com um regime bonapartista e ultracentralizado. Com esse objetivo, pretende redigir e aprovar uma nova Constitui\u00e7\u00e3o sem participa\u00e7\u00e3o popular, e s\u00f3 convocaria elei\u00e7\u00f5es em quatro anos. Um projeto que se choca frontalmente com as aspira\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas das massas.<\/p>\n\n\n\n<p>Para fazer isso, o HTS precisa reconstruir um ex\u00e9rcito s\u00edrio forte e unificado no qual possa assentar esse regime (o ex\u00e9rcito Assadista foi destru\u00eddo pela revolu\u00e7\u00e3o). Este \u00e9 o objetivo do acordo com as FDS curdas.<\/p>\n\n\n\n<p>Um evento ocorrido em fevereiro passado tensionou ainda mais a situa\u00e7\u00e3o: a justificada repress\u00e3o ao levante de um grupo armado de ex-soldados Assadistas degenerou em uma sucess\u00e3o de massacres sect\u00e1rios contra a popula\u00e7\u00e3o alauita<a href=\"#_ftn7\" id=\"_ftnref7\">[7]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O longo caminho dos curdos na S\u00edria<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Dedicamos v\u00e1rios artigos ao povo curdo<a href=\"#_ftn8\" id=\"_ftnref8\">[8]<\/a>. Neles, analisamos que se trata de uma nacionalidade de 40 milh\u00f5es de pessoas que sempre foi impedida de ter seu pr\u00f3prio Estado-na\u00e7\u00e3o a partir de seu territ\u00f3rio hist\u00f3rico (Curdist\u00e3o). Desde 1923, o povo curdo e seu territ\u00f3rio hist\u00f3rico foram divididos em quatro pa\u00edses (Turquia, Ir\u00e3, Iraque e S\u00edria) nos quais sempre foram uma minoria oprimida e discriminada e lutaram contra essa discrimina\u00e7\u00e3o e por seu pr\u00f3prio estado unificado. A posi\u00e7\u00e3o da LIT-QI sempre foi a de reconhecer e defender seu direito de separar seus territ\u00f3rios hist\u00f3ricos dos Estados em que foi dividido, a fim de constituir seu pr\u00f3prio Estado independente como <strong>\u00fanica forma de exercer sua autodetermina\u00e7\u00e3o e reunifica\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Cerca de 2.000.000 de curdos vivem na S\u00edria, a grande maioria em uma pequena regi\u00e3o no norte do pa\u00eds (cerca de 15.000 km2) chamada Rojava. \u00c9 composto por tr\u00eas distritos (Afrin, Jezira e Kobane) e faz fronteira com a Turquia ao norte e com o Iraque a leste.<\/p>\n\n\n\n<p>As autoridades desses distritos eram nomeadas pelo governo central, que controlava a infraestrutura, os bancos e a maioria das atividades produtivas, condenando Rojava a um n\u00edvel muito baixo de desenvolvimento econ\u00f4mico, o que obrigou um setor de seus habitantes a migrar para Damasco ou outras cidades da S\u00edria. Ao mesmo tempo, seu idioma n\u00e3o era reconhecido nem podia ser ensinado nas escolas e at\u00e9 recentemente eles n\u00e3o tinham nem direito \u00e0 cidadania s\u00edria. Com justi\u00e7a, consideravam o regime de Assad como inimigo<a href=\"#_ftn9\" id=\"_ftnref9\">[9]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica mais influente nesta regi\u00e3o \u00e9 o PYD (Partido da Uni\u00e3o Democr\u00e1tica), fundado no in\u00edcio do s\u00e9culo XXI por instiga\u00e7\u00e3o do PKK, com sede na Turquia e liderado por Abdullah \u00d6calan<a href=\"#_ftn10\" id=\"_ftnref10\">[10]<\/a>.&nbsp; Existem outros partidos menores ligados a setores burgueses curdos na Turquia e no Iraque. Apesar de ser perseguido pelo regime, o PYD se fortaleceu na clandestinidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2011, quando eclodiu o processo insurrecional contra a ditadura, fazia parte do Organismo Nacional de Coordena\u00e7\u00e3o para a Mudan\u00e7a Democr\u00e1tica. Em 2012, se retirou deste \u00f3rg\u00e3o com cr\u00edticas \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es s\u00edrias por n\u00e3o apoiarem a demanda de alcan\u00e7ar a autonomia para Rojava.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2012, al-Assad iniciou uma contra-ofensiva dur\u00edssima e sangrenta (apoiada por tropas e armas da R\u00fassia, Ir\u00e3 e do Hezbollah liban\u00eas). Assim, ele conseguiu recuperar o controle de ferro sobre Damasco e iniciou dur\u00edssimos ataques a\u00e9reos nas principais cidades controladas pelos rebeldes, como Aleppo e Idlib. Nesse contexto, o PYD recuou para Rojava.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A autonomia de Rojava<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Concentrado em combates em outras regi\u00f5es da S\u00edria, o regime de al-Assad n\u00e3o tinha mais presen\u00e7a militar em Rojava. Nesse contexto, a partir de 2012, o PYD, que havia formado as mil\u00edcias YPG (Unidades de Prote\u00e7\u00e3o do Povo), assumiu o poder e instalou um governo que administrava os distritos de Rojava. Assim, uma &#8220;regi\u00e3o aut\u00f4noma&#8221; foi constitu\u00edda e uma esp\u00e9cie de estado curdo nela.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00e1, o PYD foi capaz de aplicar completamente a concep\u00e7\u00e3o de &#8220;confederalismo democr\u00e1tico&#8221; que \u00d6calan prop\u00f4s no in\u00edcio do s\u00e9culo 21 para substituir o programa fundador do PKK (um Curdist\u00e3o Unido, Socialista e Independente). Em teoria, tratava-se de construir uma &#8220;democracia de base&#8221; que promovesse uma &#8220;economia popular&#8221; baseada na &#8220;solidariedade&#8221; e incorporasse o cuidado ecol\u00f3gico e a igualdade das mulheres como quest\u00f5es centrais<a href=\"#_ftn11\" id=\"_ftnref11\">[11]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>O processo de Rojava levou setores anarquistas a considerar que ali, pela primeira vez na hist\u00f3ria, a experi\u00eancia pr\u00e1tica de sua premissa estava sendo desenvolvida: n\u00e3o era necess\u00e1rio um Estado para o funcionamento da economia e da vida social. Em debate com esses setores, dissemos que era falso afirmar que n\u00e3o havia Estado em Rojava, j\u00e1 que o territ\u00f3rio tinha um governo centralizado pelo PYD baseado em uma for\u00e7a armada (as YPG).<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, setores marxistas consideravam que um pequeno Estado oper\u00e1rio, o \u00fanico no mundo, estava sendo constru\u00eddo em Rojava ap\u00f3s a restaura\u00e7\u00e3o capitalista na antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, China e outros pa\u00edses. Por isso, deveria ser tomado como refer\u00eancia internacional na luta pelo socialismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante dessa posi\u00e7\u00e3o, analisamos que as condi\u00e7\u00f5es objetivas iniciais de Rojava (um n\u00edvel de desenvolvimento muito baixo e dirigido pelo Estado desde a \u00e9poca do dom\u00ednio s\u00edrio) fizeram com que sua economia funcionasse de maneira muito especial. Acrescentamos que o governo do PYD deveria se adaptar a essas condi\u00e7\u00f5es. Mas que sua pol\u00edtica n\u00e3o era construir um Estado oper\u00e1rio, mas uma economia capitalista. Definimos Rojava como um &#8220;estado burgu\u00eas at\u00edpico&#8221;.<a href=\"#_ftn12\" id=\"_ftnref12\">[12]<\/a>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Deve-se acrescentar que a lideran\u00e7a do PYD havia, de fato, estabelecido um pacto de n\u00e3o agress\u00e3o com o regime de al-Assad: o regime n\u00e3o atacava Rojava e o PYD n\u00e3o se somava ao campo militar rebelde contra ele na guerra civil em curso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O ataque do Estado Isl\u00e2mico (ISIS)<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Essa situa\u00e7\u00e3o de tranquilidade foi interrompida pelo projeto do ISIS de construir um &#8220;califado&#8221; (um novo pa\u00eds) com parte do territ\u00f3rio iraquiano que j\u00e1 dominava e uma parte do territ\u00f3rio s\u00edrio (especialmente a regi\u00e3o petrol\u00edfera s\u00edria &#8211; localizada fora de Rojava, mas perto dela<a href=\"#_ftn13\" id=\"_ftnref13\">[13]<\/a>).<\/p>\n\n\n\n<p>Com esse projeto, em 2014 suas for\u00e7as avan\u00e7aram &#8220;cortando&#8221; e dominando uma faixa no meio da S\u00edria. Para consolidar esse dom\u00ednio, o ISIS precisava tomar a cidade curda de Kobane. L\u00e1, enfrentou uma dur\u00edssima resist\u00eancia curda, com um papel heroico das mulheres jovens, e foi derrotado<a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/fue-una-derrota-o-un-triunfo-de-las-masas\/?utm_source=copylink&amp;utm_medium=browser#_ftn11\"><\/a> em 2015<a href=\"#_ftn14\" id=\"_ftnref14\">[14]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>ISIS era um &#8220;ator que n\u00e3o havia sido convidado&#8221; para o &#8220;drama s\u00edrio&#8221;. O imperialismo estadunidense considerou-o o &#8220;principal inimigo da regi\u00e3o&#8221; e decidiu liquid\u00e1-lo. Para esse fim, estabeleceu uma alian\u00e7a com o PYD e forneceu armas e treinamento militar \u00e0s YPG.<\/p>\n\n\n\n<p>Com base nelas, foram constru\u00eddas as FDS-For\u00e7as Democr\u00e1ticas S\u00edrias, \u00e0s quais alguns s\u00edrios n\u00e3o curdos se incorporaram, para derrotar e desalojar definitivamente o ISIS da S\u00edria. Ao mesmo tempo, para que dominassem uma parte do territ\u00f3rio s\u00edrio muito maior do que Rojava, as FDS tamb\u00e9m dominaram a faixa que separa os cant\u00f5es de Afrin e Jezira, a regi\u00e3o petrol\u00edfera perto de Rojava, e continuaram seu avan\u00e7o para o sul e oeste. Em seu avan\u00e7o para o oeste, as FDS tamb\u00e9m atacaram cidades e mil\u00edcias menores rebeldes.<\/p>\n\n\n\n<p>O PYD tornou-se assim o principal aliado dos EUA no complexo cen\u00e1rio s\u00edrio. Uma pol\u00edtica que se aprofundou durante a primeira presid\u00eancia de Donald Trump. O projeto de Trump era avan\u00e7ar um acordo com Putin para dividir a S\u00edria em dois territ\u00f3rios separados pelo rio Eufrates. A parte ocidental ficaria sob o dom\u00ednio do regime de al-Assad, apoiado pela R\u00fassia, Ir\u00e3 e Hezbollah. A parte oriental ficaria dominada pelos curdos, com o apoio dos EUA.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante dessa perspectiva, o regime turco de Recep Erdogan considerou um grande perigo o estabelecimento de um estado curdo fortemente armado em suas fronteiras, com profundas conex\u00f5es com os milh\u00f5es de curdos no sul da Turquia. O ex\u00e9rcito turco invadiu o norte da S\u00edria em 2019 e se apoderou de territ\u00f3rios daquele pa\u00eds com o objetivo principal de estabelecer um &#8220;cintur\u00e3o de seguran\u00e7a&#8221; separando os territ\u00f3rios curdos da Turquia e da S\u00edria e, assim, deixando os cant\u00f5es curdos da S\u00edria isolados entre si<a href=\"#_ftn15\" id=\"_ftnref15\">[15]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>A opera\u00e7\u00e3o foi finalmente endossada por Donald Trump, o que mostrou a cegueira estrat\u00e9gica do PYD. Era taticamente necess\u00e1rio aceitar ajuda militar do imperialismo dos EUA para combater o ISIS. Mas a lideran\u00e7a curda transformou essa necessidade t\u00e1tica em uma alian\u00e7a permanente e estrat\u00e9gica. Inevitavelmente, Trump os entregou \u00e0 Turquia, seu principal aliado na regi\u00e3o<a href=\"#_ftn16\" id=\"_ftnref16\">[16]<\/a>. A Turquia completou sua ofensiva promovendo a forma\u00e7\u00e3o de uma mil\u00edcia s\u00edria a seu servi\u00e7o (o chamado Ex\u00e9rcito Nacional S\u00edrio), que controla esses territ\u00f3rios e nem mesmo deixou de atacar os curdos em meio \u00e0 ofensiva de diversa for\u00e7as contra Al-Assad.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ap\u00f3s a queda de al-Assad<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Analisamos que o governo HTS expressa apenas uma parte das for\u00e7as sociais e militares que derrubaram Assad e o apoio das massas da regi\u00e3o de Damasco, e em outras cidades est\u00e1 condicionado. Referimo-nos ao seu projeto de reunificar um Estado burgu\u00eas s\u00edrio com um forte regime bonapartista.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, para conseguir isso, precisa ter um ex\u00e9rcito s\u00f3lido e unificado que possa exercer controle sobre todo o pa\u00eds. A S\u00edria permanece fragmentada hoje, com territ\u00f3rios dominados por for\u00e7as que n\u00e3o respondem ao governo do HTS: for\u00e7as pr\u00f3-turcas no norte, drusos no sul e focos de rebeli\u00e3o que podem ser promovidos pelos Assadistas na minoria alauita.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, a quest\u00e3o mais importante \u00e9 o territ\u00f3rio dominado pelas FDS e pelos curdos (quase 20% da \u00e1rea s\u00edria) em que est\u00e3o localizados os principais campos de petr\u00f3leo do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Em seu projeto para estabilizar a S\u00edria, o governo do HTS quer evitar um confronto com as FDS a todo custo. Al\u00e9m do custo de uma nova guerra interna, suas chances de triunfo militar seriam muito pequenas, j\u00e1 que as FDS s\u00e3o a for\u00e7a militar mais poderosa e mais bem armada do pa\u00eds (e o HTS sabe disso). Por isso, para estabilizar o pa\u00eds, prop\u00f5e este acordo que estabelece <em>&#8220;a integra\u00e7\u00e3o de todas as institui\u00e7\u00f5es civis e militares da administra\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma curda no governo s\u00edrio&#8221;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Mas essa formula\u00e7\u00e3o geral deixa muitas quest\u00f5es em aberto. Primeiro, como as FDS ser\u00e3o incorporadas a um ex\u00e9rcito s\u00edrio unificado? Haver\u00e1 um \u00fanico comando e eles ser\u00e3o integrados a ele? Ou ser\u00e1 uma for\u00e7a armada com &#8220;dois bra\u00e7os&#8221;, com seus pr\u00f3prios comandos que coordenar\u00e3o a\u00e7\u00f5es comuns? A \u00fanica coisa que \u00e9 explicitamente dita \u00e9 que exercer\u00e1 <em>&#8220;controle de passagens de <\/em><em>fronteira, aeroportos e campos de petr\u00f3leo e g\u00e1s&#8221;. <\/em>Nem uma palavra sobre como ele agiria em situa\u00e7\u00f5es internas que podem exigir sua interven\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em segundo lugar, o que significa a <em>&#8220;integra\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es civis da administra\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma curda no governo s\u00edrio&#8221;<\/em>? Essa autonomia ser\u00e1 dissolvida e a regi\u00e3o curda e o PYD entrar\u00e3o nas &#8220;gerais da lei&#8221; de uma constitui\u00e7\u00e3o s\u00edria? Nesse caso, para o PYD, o significado do acordo seria o mesmo que analisamos quando \u00d6cal\u00e1n anunciou a dissolu\u00e7\u00e3o do PKK: um retrocesso qualitativo e o abandono definitivo do caminho da luta para alcan\u00e7ar sua autodetermina\u00e7\u00e3o. Significaria a plena integra\u00e7\u00e3o no regime burgu\u00eas para ver se &#8220;algo em troca&#8221; pode ser obtido. Seria ainda pior do que \u00d6calan, j\u00e1 que o PYD havia conquistado uma forte regi\u00e3o aut\u00f4noma para os curdos na S\u00edria.<\/p>\n\n\n\n<p>Se, por outro lado, o acordo significar o reconhecimento dessa autonomia na Constitui\u00e7\u00e3o s\u00edria, no \u00e2mbito de um Estado binacional comum, o PYD poderia dizer que os curdos da S\u00edria saem beneficiados.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, mesmo neste caso, esse acordo consolidaria a pol\u00edtica e o projeto burgu\u00eas do PYD, que j\u00e1 n\u00e3o lutava por um Curdist\u00e3o unificado e agora deixa os curdos de outros pa\u00edses \u00e0 sua sorte, especialmente os da Turquia.<\/p>\n\n\n\n<p>Queremos dedicar um par\u00e1grafo final ao apoio do imperialismo estadunidense a este projeto. Os EUA e outras pot\u00eancias mundiais e regionais est\u00e3o profundamente preocupados com o barril de p\u00f3lvora que \u00e9 permanentemente a regi\u00e3o do Oriente M\u00e9dio, com focos de conflitos militares em v\u00e1rios pa\u00edses e lugares, com aliados hist\u00f3ricos como Israel e Turquia, com s\u00e9rios problemas e com repercuss\u00f5es nos EUA e na pr\u00f3pria Europa, como as grandes mobiliza\u00e7\u00f5es em apoio \u00e0 Palestina. Eles precisam &#8220;estabilizar&#8221; a regi\u00e3o e este acordo vai nessa dire\u00e7\u00e3o. Da\u00ed a &#8220;satisfa\u00e7\u00e3o&#8221; de Rubio.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> <a href=\"https:\/\/www.infobae.com\/estados-unidos\/2025\/03\/12\/eeuu-celebro-el-acuerdo-en-siria-que-permite-la-integracion-de-las-fuerzas-kurdas-al-gobierno-de-ahmed-al-sharaa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.infobae.com\/estados-unidos\/2025\/03\/12\/eeuu-celebro-el-acuerdo-en-siria-que-permite-la-integracion-de-las-fuerzas-kurdas-al-gobierno-de-ahmed-al-sharaa\/<\/a> e https:\/\/www.reuters.com\/world\/middle-east\/us-nudged-kurds-towards-damascus-deal-troop-presence-comes-into-focus-2025-03-12\/<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> https:\/\/litci.org\/es\/fue-una-derrota-o-un-triunfo-de-las-masas\/?utm_source=copylink&amp;utm_medium=browser<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> https:\/\/www.longwarjournal.org\/archives\/2017\/02\/hayat-tahrir-al-sham-leader-calls-for-unity-in-syrian-insurgency.php<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\">[4]<\/a> https:\/\/litci.org\/es\/relato-de-viaje-sobre-la-siria-pos-assad\/?utm_source=copylink&amp;utm_medium=browser<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\" id=\"_ftn5\">[5]<\/a> https:\/\/www.eldestapeweb.com\/informacion-general\/siria\/israel-ataca-bases-militares-e-infraestructuras-en-siria-y-mata-a-milicianos-20254331516<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref6\" id=\"_ftn6\">[6]<\/a> https:\/\/www.instagram.com\/reel\/DIKbrNigaSl\/?igsh=MWx2ZmZrc3JwM3FoZw%3D%3D<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref7\" id=\"_ftn7\">[7]<\/a> Os alauitas s\u00e3o um ramo do Isl\u00e3 presente em v\u00e1rios pa\u00edses do Oriente M\u00e9dio. Na S\u00edria, eles s\u00e3o minoria em compara\u00e7\u00e3o com os sunitas. Mas o fato de Bashar al-Assad pertencer a esse ramo fez com que outros alauitas desempenhassem um papel central em seu regime ditatorial e no apoio a esse regime. A maioria sunita do pa\u00eds, como crist\u00e3os e secularistas, foi oprimida e perseguida.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref8\" id=\"_ftn8\">[8]<\/a> <a href=\"http:\/\/litci.org\/es\/por-que-defendemos-el-derecho-de-los-kurdos-a-tener-su-propio-estado\/?utm_source=copylink&amp;utm_medium=browser\">http:\/\/litci.org\/es\/por-que-defendemos-el-derecho-de-los-kurdos-a-tener-su-propio-estado\/?utm_source=copylink&amp;utm_medium=browser<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref9\" id=\"_ftn9\">[9]<\/a> https:\/\/litci.org\/es\/sobre-la-lucha-del-pueblo-kurdo\/?utm_source=copylink&amp;utm_medium=browser<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref10\" id=\"_ftn10\">[10]<\/a> https:\/\/litci.org\/es\/ocalan-disuelve-el-pkk\/?utm_source=copylink&amp;utm_medium=browser<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref11\" id=\"_ftn11\">[11]<\/a> Veja a refer\u00eancia acima.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref12\" id=\"_ftn12\">[12]<\/a> https:\/\/litci.org\/es\/rojava-kurdistan-sirio-un-estado-burgues-atipico-parte-1\/?utm_source=copylink&amp;utm_medium=browser<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref13\" id=\"_ftn13\">[13]<\/a> <a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/un-ano-de-califato-en-irak-y-siria\/?utm_source=copylink&amp;utm_medium=browser\">https:\/\/litci.org\/es\/un-ano-de-califato-en-irak-y-siria\/?utm_source=copylink&amp;utm_medium=browser<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref14\" id=\"_ftn14\">[14]<\/a> https:\/\/litci.org\/es\/la-victoria-del-pueblo-kurdo-en-kobane\/?utm_source=copylink&amp;utm_medium=browser<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref15\" id=\"_ftn15\">[15]<\/a> https:\/\/litci.org\/es\/repudiamos-el-ataque-del-ejercito-turco-contra-rojava-kurdistan-sirio\/?utm_source=copylink&amp;utm_medium=browser<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref16\" id=\"_ftn16\">[16]<\/a> <a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/rojava-kurdistan-sirio-las-alianzas-peligrosas-del-pyd\/?utm_source=copylink&amp;utm_medium=browser\">https:\/\/litci.org\/es\/rojava-kurdistan-sirio-las-alianzas-peligrosas-del-pyd\/?utm_source=copylink&amp;utm_medium=browser<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: L\u00edlian Enck<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: Alejandro Iturbe | Em mar\u00e7o, Ahmad al-Sharaa, l\u00edder da HTS (Organiza\u00e7\u00e3o para a Liberta\u00e7\u00e3o do Levante) e presidente da S\u00edria ap\u00f3s a derrubada da ditadura de al-Assad, reuniu-se com Mazlum Abdi, comandante das FDS (For\u00e7as Democr\u00e1ticas da S\u00edria), a for\u00e7a armada dos curdos na S\u00edria. 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