{"id":80914,"date":"2025-04-09T12:16:00","date_gmt":"2025-04-09T12:16:00","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=80914"},"modified":"2025-04-25T14:37:28","modified_gmt":"2025-04-25T14:37:28","slug":"tarifaco-de-trump-forte-crise-na-ordem-imperialista-mundial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2025\/04\/09\/tarifaco-de-trump-forte-crise-na-ordem-imperialista-mundial\/","title":{"rendered":"Tarifa\u00e7o de Trump: Forte crise na ordem imperialista mundial"},"content":{"rendered":"\n<p>Por: Eduardo Almeida | <\/p>\n\n\n\n<p>O aumento dur\u00edssimo das tarifas nas importa\u00e7\u00f5es imposto por Trump a 2 de abril impactou fortemente a economia mundial, causando uma gigantesca instabilidade e crise na ordem imperialista.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o foi uma medida qualquer: um aumento pesado total de 104% nas tarifas para China, com 34% de in\u00edcio, mais 20% aplicados antes, e mais 50% como repres\u00e1lia a resposta de China. Pode ser que haja alguma mudan\u00e7a, mas essa era a realidade quando esse artigo foi escrito.<\/p>\n\n\n\n<p>A eleva\u00e7\u00e3o foi de 20% para Uni\u00e3o Europeia, 24% para Jap\u00e3o, com uma eleva\u00e7\u00e3o m\u00e9dia para 26% nas tarifas.<\/p>\n\n\n\n<p>Trata-se da maior eleva\u00e7\u00e3o desde a lei de Smoot-Hawley, que aprofundou a depress\u00e3o de 1929, no s\u00e9culo passado.<\/p>\n\n\n\n<p>A explica\u00e7\u00e3o enraivecida de Trump para as medidas foi que \u201cDurante d\u00e9cadas, nosso pa\u00eds&nbsp;foi&nbsp;saqueado, violado e espoliado por na\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas e distantes, tanto amigas quanto inimigas\u201d. Isso merecia uma esp\u00e9cie de Oscar das fake News, porque a realidade \u00e9 a oposta: o imperialismo norte americano parasita brutalmente o mundo h\u00e1 mais de um s\u00e9culo.<\/p>\n\n\n\n<p>Na verdade, trata-se de uma rea\u00e7\u00e3o raivosa perante a decad\u00eancia da hegemonia norte americana. \u00c9 uma tentativa de reestabelecer essa hegemonia, revertendo o d\u00e9ficit na balan\u00e7a comercial e revitalizando sua ind\u00fastria. &nbsp;O resultado, no entanto, pode ser o oposto, aprofundando sua decad\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>A consequ\u00eancia imediata foi uma instabilidade global: uma queda pr\u00f3xima de 17,2% na Bolsa de NY em tr\u00eas dias. O \u00edndice de Hong Kong caiu 13,2%, os europeus ca\u00edram entre 5 e 6%. Segundo a Bloomberg, as perdas correspondem a 10 trilh\u00f5es de d\u00f3lares, o que corresponde a mais da metade do PIB da Uni\u00e3o Europeia. Essa \u00e9 a maior queda nas bolsas desde 1987, superando as dos primeiros momentos das recess\u00f5es de 2007-09 e 2020.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois das not\u00edcias de negocia\u00e7\u00f5es em pa\u00edses como Jap\u00e3o, Inglaterra e outros, ocorreu uma reestabiliza\u00e7\u00e3o parcial, com redu\u00e7\u00e3o das perdas nas bolsas americanas, europeias e asi\u00e1ticas. No entanto, a instabilidade n\u00e3o acabou. Em particular segue aberta a crise em seu foco mais importante, que \u00e9 a escalada tarif\u00e1ria na rivalidade EUA e China.<\/p>\n\n\n\n<p>E agora? Para onde vai a economia mundial? Como estamos em pleno olho do furac\u00e3o apenas se podem apontar tendencias e hip\u00f3teses. Mas elas t\u00eam de se apoiar na compreens\u00e3o marxista dos processos de fundo da economia mundial.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Uma curva descendente da economia imperialista<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Como \u00e9 conhecido, a economia capitalista se desenvolve em ciclos. Existem os ciclos curtos de crescimento, auge e crise, de cerca de 8 a 10 anos, regulados pela evolu\u00e7\u00e3o da taxa m\u00e9dia de lucros. Quando a taxa de lucros aumenta, existe um novo ciclo de investimentos e a economia cresce. Depois do auge, quando caem os lucros, os investimentos diminuem e vem a crise c\u00edclica, at\u00e9 que um novo aumento nos lucros permita novo per\u00edodo de crescimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Existem tamb\u00e9m as curvas mais longas da economia, que englobam v\u00e1rios ciclos curtos e s\u00e3o influenciados por eventos extraecon\u00f4micos como novas tecnologias, novos mercados, guerras e eventos da luta de classes.<\/p>\n\n\n\n<p>A \u00faltima curva ascendente da economia foi o per\u00edodo da chamada globaliza\u00e7\u00e3o nas d\u00e9cadas 80 e 90 do s\u00e9culo XX. A base foram os planos neoliberais, a restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo nos antigos estados oper\u00e1rios (em particular, na China transformada em \u201cf\u00e1brica do mundo\u201d) e a incorpora\u00e7\u00e3o da computa\u00e7\u00e3o na produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa curva ascendente, uma parte fundamental das medidas aplicadas era o \u201clivre com\u00e9rcio\u201d, uma narrativa do imperialismo hegem\u00f4nico para quebrar as barreiras tarif\u00e1rias nacionais de prote\u00e7\u00e3o contra os produtos mais baratos e tecnologicamente mais desenvolvidos dos pa\u00edses hegem\u00f4nicos. Uma parte importante dos \u201cTratados de livre com\u00e9rcio\u201d foram criados nesse per\u00edodo, inclusive a Uni\u00e3o Europeia (1993), a Nafta ( EUA, Canad\u00e1 e M\u00e9xico 1994,&nbsp; substitu\u00eddo em 2020 pelo USMCA) e muitos outros.<\/p>\n\n\n\n<p>A globaliza\u00e7\u00e3o significou um salto na internacionaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o, impondo as cadeias globais de valor. As grandes empresas multinacionais produzem em v\u00e1rios pa\u00edses, incluindo pesquisa e desenvolvimento, insumos, produ\u00e7\u00e3o de partes da mercadoria, at\u00e9 chegar ao produto final.<\/p>\n\n\n\n<p>A atual curva descendente se inaugurou com a recess\u00e3o de 2007-09. Houve outra grande recess\u00e3o internacional em 2019-20, que coincidiu e foi agravada pela pandemia de Covid, mas n\u00e3o se resumiu a ela.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois dessa \u00faltima recess\u00e3o, estamos em um ciclo curto de crescimento an\u00eamico, como \u00e9 caracter\u00edstico dessas fases descendentes. Um crescimento polarizado entre EUA (2,8% em 2024) e China (5,4% em 2024), com Europa estagnada (0,9% em 24, com Alemanha em recess\u00e3o -0,2%) e Jap\u00e3o (1,5%) tamb\u00e9m estagnado. Aparentemente, estamos chegando ao final desse ciclo curto, apontando para uma nova recess\u00e3o, como veremos.<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa curva descendente, existe um fator agravante que vai balizar o que ocorreu nessa semana, que \u00e9 a rivalidade crescente entre o hegem\u00f4nico e decadente imperialismo norte americano e o imperialismo emergente chin\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A decad\u00eancia norte americana<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O imperialismo norte americano imp\u00f4s sua hegemonia desde o per\u00edodo entre a primeira e segunda guerra mundiais.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao final da Segunda Guerra Mundial, Estados Unidos se localizou a frente da ordem imperialista mundial, com o consentimento da burocracia sovi\u00e9tica em base aos acordos de Yalta e Postdam. Com a restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo na d\u00e9cada de 80 do s\u00e9culo passado, a hegemonia norte americana se imp\u00f4s inabal\u00e1vel em todo per\u00edodo da curva ascendente.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, a restaura\u00e7\u00e3o levou a um fen\u00f4meno hist\u00f3rico novo, com o surgimento de dois novos pa\u00edses imperialistas, China e R\u00fassia, a partir dos antigos estados oper\u00e1rios. E a partir da recess\u00e3o de 2007-09, com a curva descendente da economia, essa rivalidade EUA \u2013 China passou a ser um elemento importante da crise da ordem imperialista mundial.<\/p>\n\n\n\n<p>O imperialismo norte americano ainda segue hegem\u00f4nico em termos militares, tecnol\u00f3gicos e financeiros. O d\u00f3lar segue sendo a moeda internacionalmente mais aceita como troca. Houve um avan\u00e7o tecnol\u00f3gico e econ\u00f4mico fundamental para os EUA, com as chamadas \u201cMagnificent Seven\u201d (Apple, Microsoft, Nvidia, Alphabet, Amazon, Meta e Tesla), que est\u00e3o investindo fortemente na Intelig\u00eancia Artificial e garantindo super lucros para o imperialismo norte americano.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a decad\u00eancia do imperialismo norte americano \u00e9 vis\u00edvel. Segundo Michael Roberts, seu decl\u00ednio est\u00e1 tamb\u00e9m relacionado com a taxa de lucros: &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA taxa geral de lucro era de 19,3% na &#8216;era de ouro&#8217; da supremacia dos EUA nas d\u00e9cadas de 1950 e 1960; mas depois caiu para uma m\u00e9dia de 15,4% na d\u00e9cada de 1970; a recupera\u00e7\u00e3o neoliberal (coincidindo com uma nova onda de globaliza\u00e7\u00e3o \u2013 MR), empurrou essa taxa de volta para 16,2% na d\u00e9cada de 1990. Mas nas duas d\u00e9cadas deste s\u00e9culo a taxa m\u00e9dia caiu para apenas 14,3% \u2013 uma baixa hist\u00f3rica.\u201d Isso levou a um menor investimento e crescimento da produtividade&#8230;est\u00e1 enfraquecendo a posi\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica do capitalismo dos EUA no mundo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, o imperialismo emergente chin\u00eas tem algumas vantagens comparativas que explicam seu dinamismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Em primeiro lugar, a taxa de acumula\u00e7\u00e3o (ou seja, reinvestimento dos lucros) na China \u00e9 de cerca de 40% do PIB. Essa taxa \u00e9 mais ou menos o dobro dos outros pa\u00edses imperialistas, que \u00e9 de 19 a 20%, com boa parte dos lucros investidos de forma especulativa.<\/p>\n\n\n\n<p>Em segundo lugar a China tem um regime autorit\u00e1rio capitalista, que imp\u00f5e de forma ultra repressiva uma disciplina de trabalho brutal. Isso \u00e9 motivo de inveja dos governos dos outros pa\u00edses imperialistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em terceiro lugar, a China est\u00e1 investindo pesadamente em tecnologia, com f\u00e1bricas modern\u00edssimas e robotizadas. N\u00e3o \u00e9 por acaso que o a\u00e7o chin\u00eas est\u00e1 invadindo o mundo. Ou que os carros el\u00e9tricos chineses s\u00e3o melhores e mais baratos que os dos outros imperialismos. A Tesla teve uma queda, em janeiro \u00faltimo na Europa, de 45% em suas vendas. Essa queda parece ter se agravado com o boicote de poss\u00edveis compradores pelas posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas de Elon Musk.<\/p>\n\n\n\n<p>A China segue sendo hoje a maior produtora industrial do mundo, com 35% da produ\u00e7\u00e3o (2023). Os EUA respondem por 12% da produ\u00e7\u00e3o mundial.<\/p>\n\n\n\n<p>Evidentemente existem muit\u00edssimas fabricas instaladas na China que s\u00e3o propriedades de outros pa\u00edses imperialistas. Mas existe uma mudan\u00e7a nesse padr\u00e3o, com o crescimento dos monop\u00f3lios chineses assumindo o protagonismo tanto no mercado interno como em todo mundo, com a transforma\u00e7\u00e3o do pa\u00eds em imperialista.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o Ilaese (Instituto Latinoamericano de estudos socioecon\u00f4micos) , em um estudo not\u00e1vel sobre as 500 maiores empresas do mundo, as &nbsp;chinesas hegemonizam hoje a produ\u00e7\u00e3o de meios de produ\u00e7\u00e3o (30,8% em todo o mundo) e est\u00e3o no segundo lugar na produ\u00e7\u00e3o de bens de consumo final.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das express\u00f5es da decad\u00eancia norte americana \u00e9 seu d\u00e9ficit comercial, que vem ocorrendo desde 1982, e se agravando pesadamente nos \u00faltimos anos. Em 2024, segundo o BEA, o d\u00e9ficit em produtos chegou a 1,2 trilh\u00f5es de d\u00f3lares, aliviado s\u00f3 parcialmente pelo superavit de 293 bilh\u00f5es em servi\u00e7os (financeiro, computa\u00e7\u00e3o em nuvens, telecomunica\u00e7\u00f5es). Ou seja, os EUA compram cada vez mais do que vendem para o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Em segundo lugar, desde 2002, os EUA v\u00eam ampliando sua d\u00edvida p\u00fablica, que est\u00e1 aproximadamente em US$ 36,56 trilh\u00f5es, pagando US$ 881 bilh\u00f5es de juros ou seja 3,2% do PIB. Ou seja, os EUA cada vez mais gastam mais do que arrecadam ano ap\u00f3s ano.<\/p>\n\n\n\n<p>Como conseguem os EUA se manter comprando mais do que vendem e gastando mais do que arrecadam ano ap\u00f3s ano? Porque parasitam o mundo como imperialismo decadente. Isso se d\u00e1 por dois mecanismos principais.<\/p>\n\n\n\n<p>Em primeiro lugar, uma parte importante da mais valia mundial \u00e9 deslocada para os EUA atrav\u00e9s de investimentos nos t\u00edtulos do tesouro norte americano e outras aplica\u00e7\u00f5es. As burguesias de todo o mundo investem diretamente nos EUA, mantendo um fluxo de capitais constante para o cora\u00e7\u00e3o do imperialismo, o que \u00e9 vital para sua manuten\u00e7\u00e3o. Em 2023, segundo a UNCTAD, os EUA continuaram a ser o primeiro destino de investimentos diretos estrangeiros, com 311 bilh\u00f5es de d\u00f3lares.<\/p>\n\n\n\n<p>Em segundo lugar, a manuten\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar como moeda internacional d\u00e1 uma vantagem brutal para o imperialismo norte americano, simplesmente porque pode transformar papel em notas de d\u00f3lar, aceitas em todo mundo como express\u00e3o de valor. Os EUA podem imprimir d\u00f3lares para financiar seus d\u00e9ficits fiscais e comerciais, o que nenhum outro pa\u00eds pode fazer.<strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O imperialismo norte americano, al\u00e9m de explorar diretamente os oper\u00e1rios em todo o mundo com suas empresas, al\u00e9m de explorar e oprimir os pa\u00edses semicoloniais, mostra assim sua face parasita, bem distinta da \u201cexplica\u00e7\u00e3o\u201d de Trump<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As consequ\u00eancias do tarifa\u00e7o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Analisados esses elementos, podemos agora voltar ao tarifa\u00e7o de Trump e suas perspectivas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em primeiro lugar, \u00e9 importante localizar que estamos no meio do furac\u00e3o, com mudan\u00e7as r\u00e1pidas na realidade. Entre o momento em que esse artigo est\u00e1 sendo escrito e o que ser\u00e1 lido, j\u00e1 devem ter ocorrido mudan\u00e7as importantes na realidade.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 existem sinais de que a alta burguesia imperialista reunificada em grande parte ao redor de Trump depois de sua elei\u00e7\u00e3o come\u00e7a a se dividir com as consequ\u00eancias do tarifa\u00e7o. Segundo NYT, o presidente de JP Morgan, Jamie Dimon, disse que: \u201cQuanto mais r\u00e1pido se resolva este problema, melhor, porque alguns dos efeitos negativos aumentan acumulativamente com o tempo e seriam dif\u00edceis de reverter\u201d. &nbsp;Elon Musk j\u00e1 se pronunciou contra o tarifa\u00e7o e tentou, sem \u00eaxito, fazer Trump recuar.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso pode fazer com que Trump recue? Pode ser. Pode se apoiar em uma parte dos governos que optaram por negociar e n\u00e3o retaliar (e s\u00e3o v\u00e1rios e importantes, como Inglaterra, Jap\u00e3o e outros), para recuar cantando vit\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas isso \u00e9 apenas uma hip\u00f3tese. E mesmo que recue, nem a instabilidade global estar\u00e1 terminada, nem o centro da batalha com a China estar\u00e1 resolvida.<\/p>\n\n\n\n<p>Trump vai conseguir acabar com o d\u00e9ficit comercial dos EUA? Parece bem dif\u00edcil, por dois motivos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em primeiro lugar, a decad\u00eancia norte americana tem a base estrutural descrita acima, nesse texto. N\u00e3o se resolve com aumentos de tarifas, que \u00e9 uma express\u00e3o dessa pr\u00f3pria decad\u00eancia, oposta ao \u201clivre com\u00e9rcio\u201d do per\u00edodo de ascenso.<\/p>\n\n\n\n<p>O que \u00e9 qualitativo na disputa inter imperialista \u00e9 se os EUA conseguem se apoiar na Intelig\u00eancia Artificial para avan\u00e7ar em termos de produtividade sobre os outros imperialismos, estendendo e aplicando amplamente para os outros setores produtivos. No entanto, o avan\u00e7o chin\u00eas nesse terreno, demonstrado com a DeepSeek mostra que esse movimento n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, porque a vantagem comparativa dos EUA foi reduzida.<\/p>\n\n\n\n<p>Em segundo lugar, seria necess\u00e1rio avan\u00e7ar qualitativamente em termos de investimento produtivo para alavancar a reindustrializa\u00e7\u00e3o defendida por Trump. Esse \u00e9 um tema que exige anos em um processo longo. E a burguesia, para investir quer estabilidade, algo que nem o tarifa\u00e7o nem a pol\u00edtica geral de Trump est\u00e3o possibilitando.<\/p>\n\n\n\n<p>Em terceiro lugar, o tarifa\u00e7o e ruptura de Trump dos acordos e da institucionalidade internacional s\u00e3o golpes diretos na ordem imperialista, aprofundando sua crise. Mas a globaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o vai mudar s\u00f3 pelo tarifa\u00e7o. Isso n\u00e3o comp\u00f5e um novo projeto mundial. N\u00e3o se pode substituir a cadeia de valores existente a n\u00edvel mundial pelo aumento de tarifas. O tarifa\u00e7o \u00e9 uma medida de crise da ordem imperialista, mas n\u00e3o a substitui por outro projeto mundial. As cadeias globais de valores seguem existindo, impactando fortemente as pr\u00f3prias empresas norte americanas como a Apple.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 por acaso que as \u201cSete Magn\u00edficas\u201d, altamente dependentes das cadeias globais de valores foram as sete empresas mundiais que mais perderam valor nas bolsas (segundo El Pa\u00eds 1,5 trilh\u00e3o de euros).<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos reflexos prov\u00e1veis do tarifa\u00e7o \u00e9 o aumento da infla\u00e7\u00e3o dentro dos EUA, pelos reflexos no reajuste dos produtos importados. Lembremos que a infla\u00e7\u00e3o p\u00f3s pandemia foi um dos fatores da derrota de Biden nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>A China, seguramente, vai ser afetada diretamente pelo tarifa\u00e7o. Talvez, inclusive, Trump escale o aumento das tarifas para 104% como est\u00e1 amea\u00e7ando. Isso pode incidir diretamente na economia chinesa, que j\u00e1 vive uma certa superprodu\u00e7\u00e3o, como se demonstrou na crise imobili\u00e1ria. Existe inclusive a possibilidade que isso deflagre a primeira crise c\u00edclica da economia chinesa, desde a restaura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas \u00e9 importante lembrar que, at\u00e9 agora pelo menos, a China sobreviveu a duas recess\u00f5es mundiais (2007-09 e 2019-20), sem ter entrado em recess\u00e3o, tendo sa\u00eddo delas mais r\u00e1pido e mais forte que os outros pa\u00edses imperialistas. N\u00e3o est\u00e1 exclu\u00eddo que isso possa voltar a ocorrer.<\/p>\n\n\n\n<p>E pode ocorrer que, ao contr\u00e1rio das inten\u00e7\u00f5es de Trump, a China acabe por colher frutos da instabilidade detonada pelo governo dos EUA. Hoje o imperialismo chin\u00eas est\u00e1 avan\u00e7ando com a RECP (Parceria Econ\u00f4mica Regional Abrangente) na \u00c1sia, liderando o maior tratado de livre com\u00e9rcio do mundo. H\u00e1 poucas semanas, j\u00e1 prevendo o tarifa\u00e7o, autoridades comerciais da China, Jap\u00e3o e Coreia do Sul se encontraram para aprofundar suas rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas. Isso tamb\u00e9m pode ocorrer nas rela\u00e7\u00f5es com Europa, \u00c1frica e Am\u00e9rica Latina, afetadas pelo tarifa\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Os aumentos de tarifas de Trump podem localizar a China como a maior defensora do \u201clivre com\u00e9rcio\u201d, exatamente pelo dinamismo de seu imperialismo emergente.<\/p>\n\n\n\n<p>Ironicamente, a revista Economist, express\u00e3o do capital financeiro, ilustrou seu artigo sobre o tarifa\u00e7o de Trump com a foto de um bon\u00e9, semelhante aos usados em sua campanha eleitoral, com a frase \u201cMake China great again\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Uma recess\u00e3o pode estar no horizonte<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A enorme instabilidade deflagrada pelas medidas de Trump trouxeram outra consequ\u00eancia: a maior possibilidade de uma nova recess\u00e3o mundial.<\/p>\n\n\n\n<p>O aumento das tarifas afetar\u00e1 seguramente o com\u00e9rcio mundial. Inegavelmente vai afetar as cadeias mundiais de valores, causando reajustes, interrup\u00e7\u00f5es e crises no fornecimento de insumos, como ocorreu na pandemia.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 v\u00ednhamos em um processo de crescimento an\u00eamico a n\u00edvel mundial, mas ainda com crescimento importante nos EUA e China. Nos EUA, antes mesmo do tarifa\u00e7o, j\u00e1 tinha ocorrido uma diminui\u00e7\u00e3o no crescimento do terceiro (3,1%) para o quarto trimestre de 2024 (2,3%). Agora, o JP Morgan calcula que existem 45% de chance de vir uma recess\u00e3o ainda nesse ano.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, o que pode ou n\u00e3o determinar se vir\u00e1 ou n\u00e3o uma nova recess\u00e3o mundial \u00e9 a queda ou n\u00e3o na taxa de lucros, o que posteriormente vai afetar a taxa de investimentos. N\u00e3o existem dados seguros a esse respeito ainda.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, a instabilidade econ\u00f4mica mundial e no pa\u00eds pode ter um efeito sobre a taxa de lucros, com muito peso. A instabilidade enorme na cadeia mundial de valores afeta diretamente os custos de produ\u00e7\u00e3o das multinacionais norte-americanas e chinesas. Se repassam para os pre\u00e7os, as vendas diminuem. Se n\u00e3o repassam, os lucros caem, e com eles os investimentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, a instabilidade econ\u00f4mica se soma a instabilidade pol\u00edtica, a polariza\u00e7\u00e3o e acirramento da luta de classes. As duas maiores guerras atuais (Palestina e Ucrania) seguem polarizando e instabilizando a realidade mundial, sem sinais de \u201cpaz r\u00e1pida\u201d, como queria Trump. N\u00e3o se imp\u00f4s o \u201cacordo de paz\u201d de Trump na Ucrania. Israel rompeu a tr\u00e9gua, retomando o genoc\u00eddio em Gaza, mas sem poder derrotar os palestinos.<\/p>\n\n\n\n<p>No \u00faltimo s\u00e1bado, centenas de milhares de norte americanos foram as ruas protestar contra Trump. Foi uma gigantesca mobiliza\u00e7\u00e3o contra o governo em todas as grandes cidades do pa\u00eds, trazendo a instabilidade pol\u00edtica tamb\u00e9m para dentro dos EUA.<\/p>\n\n\n\n<p>Pode ser que Trump tenha dado um tiro no p\u00e9 com o tarifa\u00e7o. E talvez outro tiro no p\u00e9 atacando violentamente os trabalhadores como fez nesses menos de tr\u00eas meses de governo.<\/p>\n\n\n\n<p>O turbilh\u00e3o econ\u00f4mico e pol\u00edtico rec\u00e9m se inicia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: Eduardo Almeida | O aumento dur\u00edssimo das tarifas nas importa\u00e7\u00f5es imposto por Trump a 2 de abril impactou fortemente a economia mundial, causando uma gigantesca instabilidade e crise na ordem imperialista. 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