{"id":80904,"date":"2025-04-07T00:36:50","date_gmt":"2025-04-07T00:36:50","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=80904"},"modified":"2025-04-07T00:36:51","modified_gmt":"2025-04-07T00:36:51","slug":"lutas-feministas-balanco-e-perspectivas-para-o-movimento-de-mulheres-trabalhadoras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2025\/04\/07\/lutas-feministas-balanco-e-perspectivas-para-o-movimento-de-mulheres-trabalhadoras\/","title":{"rendered":"Lutas feministas: Balan\u00e7o e perspectivas para o movimento de mulheres trabalhadoras"},"content":{"rendered":"\n<p>Por: \u00c9rika Andreassy<\/p>\n\n\n\n<p>Os anos 2010 foram marcados pelo crescimento das mobiliza\u00e7\u00f5es feministas em escala global, com um ponto alto na Greve Internacional das Mulheres em 2017\/2018. Chamada de \u201cPrimavera Feminista\u201d, essa onda de protestos n\u00e3o foi um fen\u00f4meno isolado, mas parte de um cen\u00e1rio de polariza\u00e7\u00e3o social. Ela se articulou com diversas lutas por direitos democr\u00e1ticos e com movimentos mais amplos da classe trabalhadora e das massas exploradas, em resposta aos planos de austeridade e \u00e0s contrarreformas impostas por governos de diferentes pa\u00edses ap\u00f3s a crise econ\u00f4mica de 2008. Em muitos casos, foram as mulheres e outros grupos oprimidos que estiveram na linha de frente dessas resist\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde o in\u00edcio, ficou n\u00edtido quem seriam os mais afetados pela crise. A sa\u00edda burguesa para garantir suas taxas de lucro significou um aumento brutal da explora\u00e7\u00e3o, do desmonte de direitos sociais e do ataque \u00e0s liberdades democr\u00e1ticas. As consequ\u00eancias para a classe trabalhadora e os setores oprimidos foram devastadoras: piora nas condi\u00e7\u00f5es de vida, aumento da viol\u00eancia, do desemprego, da mis\u00e9ria e da fome.<\/p>\n\n\n\n<p>A crise \u2013 e, mais tarde, a pandemia \u2013 exp\u00f4s em todas as cores como o capitalismo joga sobre os mais explorados o peso de sua pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia. Desfez a ilus\u00e3o de que as conquistas pol\u00edticas e econ\u00f4micas obtidas sob a democracia burguesa s\u00e3o permanentes, j\u00e1 que est\u00e3o sempre subordinadas aos interesses do capital e \u00e0 correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as entre as classes. Mas tamb\u00e9m gerou rea\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A emerg\u00eancia pol\u00edtica das mulheres e dos oprimidos refletiu o aprofundamento da contradi\u00e7\u00e3o entre os ideais burgueses de igualdade e liberdade \u2013 materializados em avan\u00e7os democr\u00e1ticos e a realidade concreta desses grupos sob o sistema capitalista. Houve um salto na consci\u00eancia dessa contradi\u00e7\u00e3o: o abismo entre a vida real e a promessa que a conquista de direitos formais sob o capitalismo traria, ficou cada vez mais evidente, confirmando que igualdade perante a lei n\u00e3o significa igualdade perante a vida. A recusa em aceitar essa realidade foi o combust\u00edvel que impulsionou a revolta.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>As particularidades do processo: avan\u00e7os e limites<\/strong><strong><\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>O ascenso feminista dos anos 2010 diferenciou-se de outros momentos hist\u00f3ricos do movimento de mulheres \u2013 seja do per\u00edodo imediatamente anterior, hegemonizado pelo feminismo liberal, integrado aos governos e organismos burgueses internacionais, seja das primeiras e segundas ondas, marcadas pela influ\u00eancia do feminismo pequeno-burgu\u00eas e das correntes socialistas. A seguir, destacamos suas principais caracter\u00edsticas:<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>a) Cr\u00edtica ao feminismo liberal e p\u00f3s-feminismo<\/strong><strong><\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Uma das marcas desse per\u00edodo foi o questionamento ao projeto emancipat\u00f3rio do feminismo burgu\u00eas, que reduz a liberta\u00e7\u00e3o da mulher \u00e0 conquista gradual de direitos, via mecanismos institucionais (reformas legais, representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, mudan\u00e7as no judici\u00e1rio etc.), posta em xeque tanto pela clivagem entre as demandas das mulheres burguesas e as das trabalhadoras pobres e a constata\u00e7\u00e3o de que os avan\u00e7os em alguns pa\u00edses ocorreram \u00e0s custas da superexplora\u00e7\u00e3o da maioria das mulheres no mundo, como por sua incapacidade de enfrentar a ascens\u00e3o da extrema direita e do populismo reacion\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>O surgimento do Feminismo para os 99%, foi uma resposta \u00e0 crise do feminismo liberal. Apesar de limitada do ponto de vista estrat\u00e9gico, teve o m\u00e9rito de levantar a necessidade de construir um feminismo anticapitalista, internacionalista e de base, retomando a greve como m\u00e9todo de luta. Representou um contraponto tamb\u00e9m e ao p\u00f3s-feminismo, que substituiu a luta coletiva contra a opress\u00e3o por uma estrat\u00e9gia de \u201cliberta\u00e7\u00e3o individual\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, ao n\u00e3o avan\u00e7ar na defesa de uma estrat\u00e9gia revolucion\u00e1ria, esse feminismo \u201canticapitalista\u201d acabou contribuindo para o refluxo do movimento, como discutiremos adiante.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>b) Massividade e radicaliza\u00e7\u00e3o<\/strong><strong><\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>A segunda caracter\u00edstica foi o car\u00e1ter massivo e radical das lutas, alimentado pela contradi\u00e7\u00e3o entre as conquistas formais e a realidade concreta das mulheres trabalhadoras. No Brasil, por exemplo, a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, a Lei Maria da Penha e a elei\u00e7\u00e3o de Dilma Rousseff representaram avan\u00e7os democr\u00e1ticos, mas n\u00e3o alteraram a vida das mulheres negras e perif\u00e9ricas, submetidas \u00e0 precariedade, \u00e0 viol\u00eancia e \u00e0 dupla jornada. Nos EUA, a experi\u00eancia dos negros sob o governo Obama, d\u00e9cadas ap\u00f3s o fim das leis Jim Crow, n\u00e3o impediu o surgimento de Ferguson nem a explos\u00e3o de protestos ap\u00f3s o assassinato de George Floyd em 2020.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas lutas democr\u00e1ticas demonstram uma tend\u00eancia a assumir conte\u00fados cada vez mais explosivos e anticapitalista, despertando a simpatia e canalizando o descontentamento de milhares de trabalhadoras e trabalhadores e da juventude precarizada com os planos de ajuste e as medidas de austeridade que agravam sua condi\u00e7\u00e3o de vida sob o capitalismo.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>c) A aus\u00eancia de uma dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria<\/strong><strong><\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>O terceiro aspecto \u2013 e o principal limite do ascenso \u2013 foi a falta de uma dire\u00e7\u00e3o capaz de levar essas lutas at\u00e9 suas \u00faltimas consequ\u00eancias. A transforma\u00e7\u00e3o das lutas democr\u00e1tica \u2013 por mais radicais e explosivas que sejam \u2013 em lutas revolucion\u00e1rias depende da capacidade do proletariado, enquanto classe, de assumir a hegemonia desses processos, articulando essas demandas com a luta geral contra a explora\u00e7\u00e3o. O refluxo do movimento e o avan\u00e7o da extrema-direita n\u00e3o s\u00e3o acidentais: resultam dessa incapacidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui, n\u00e3o se trata de um dogma marxista, mas de uma constata\u00e7\u00e3o. A supera\u00e7\u00e3o das opress\u00f5es est\u00e1 intrinsecamente vinculada \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o de sua base material: a divis\u00e3o da sociedade em classes e a explora\u00e7\u00e3o capitalista. O operariado, como sujeito central na produ\u00e7\u00e3o de riqueza, ocupa uma posi\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica para desarticular esse sistema e, portanto libertar os oprimidos.<\/p>\n\n\n\n<p>O marxismo n\u00e3o nega a especificidade das opress\u00f5es de g\u00eanero, ra\u00e7a ou sexualidade, mas demonstra como o capitalismo as instrumentaliza para refor\u00e7ar a domina\u00e7\u00e3o de classe \u2013 dividindo os trabalhadores, barateando a for\u00e7a de trabalho e transferindo para as mulheres o custo da reprodu\u00e7\u00e3o social \u2013articulando essas lutas \u00e0 necessidade da destrui\u00e7\u00e3o do sistema.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas pelo pr\u00f3prio car\u00e1ter democr\u00e1tico e policlassista que apresentam, surge um dilema pol\u00edtico: esses movimentos podem ser cooptadas pela burguesia \u2013 transformando-se em reformas que n\u00e3o questionam o sistema \u2013 ou podem vincular-se a um projeto revolucion\u00e1rio, sob a dire\u00e7\u00e3o do proletariado.<\/p>\n\n\n\n<p>Eis o limite das correntes reformistas \u2013 incluindo o Feminismo para os 99%: n\u00e3o apontam a necessidade da luta revolucion\u00e1ria e da tomada do poder, limitam-se a denunciar o neoliberalismo sem oferecer uma sa\u00edda estrat\u00e9gica. Na aus\u00eancia de uma alternativa revolucion\u00e1ria, a direita retomou a ofensiva.<\/p>\n\n\n\n<p>A li\u00e7\u00e3o \u00e9 n\u00edtida: sem independ\u00eancia de classe e sem um programa socialista, as lutas contra as opress\u00f5es est\u00e3o fadadas a recuos ou a ser absorvidas pelo sistema que pretendem combater.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><strong><\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>O ascenso feminista dos anos 2010 revelou tanto o potencial explosivo das lutas contra a opress\u00e3o quanto os limites impostos pela aus\u00eancia de uma dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria. A experi\u00eancia demonstra que o reformismo \u00e9 uma armadilha, pois as conquistas democr\u00e1ticas no capitalismo, ainda que importantes, n\u00e3o eliminam a base material das opress\u00f5es. A emancipa\u00e7\u00e3o real exige a destrui\u00e7\u00e3o do capitalismo, sistema que necessita da explora\u00e7\u00e3o de classe e de todas as formas de opress\u00e3o para se reproduzir.<\/p>\n\n\n\n<p>O sujeito revolucion\u00e1rio da luta contra as opress\u00f5es \u00e9 a classe oper\u00e1ria, com seus setores oprimidos na vanguarda, \u00fanica for\u00e7a capaz de unificar as lutas contra as opress\u00f5es ao combate estrat\u00e9gico pelo poder pol\u00edtico. As reivindica\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas devem servir para fortalecer a organiza\u00e7\u00e3o independente da classe, e a luta imediata deve estar subordinada \u00e0 estrat\u00e9gia socialista.<\/p>\n\n\n\n<p>A maior parte dos movimentos de mulheres, mesmo aqueles que se reivindicam como movimentos ligado aos trabalhadores e trabalhadoras, infelizmente renunciou a essa estrat\u00e9gia, se n\u00e3o nas palavras, nas suas a\u00e7\u00f5es concretas, no quotidiano. Ao faz\u00ea-lo j\u00e1 n\u00e3o podem libertar as mulheres trabalhadoras da explora\u00e7\u00e3o e sequer da opress\u00e3o e por isso se tornaram in\u00fateis. Cabe n\u00f3s resgat\u00e1-la e disputar a dire\u00e7\u00e3o dessas lutas, reestabelecendo o papel de vanguarda da classe oper\u00e1ria na luta pela igualdade e pela emancipa\u00e7\u00e3o dos oprimidos, colocando esses movimento novamente no caminho da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: \u00c9rika Andreassy Os anos 2010 foram marcados pelo crescimento das mobiliza\u00e7\u00f5es feministas em escala global, com um ponto alto na Greve Internacional das Mulheres em 2017\/2018. Chamada de \u201cPrimavera Feminista\u201d, essa onda de protestos n\u00e3o foi um fen\u00f4meno isolado, mas parte de um cen\u00e1rio de polariza\u00e7\u00e3o social. Ela se articulou com diversas lutas por [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":80905,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"\u00c9rika Andreassy","footnotes":""},"categories":[3493,3923],"tags":[8433,9118],"class_list":["post-80904","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-mulheres","category-opressao","tag-erika-andreassy-2","tag-lutas-feministas"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Mulheres.jpg","categories_names":["Mulheres","Opress\u00e3o"],"author_info":{"name":"lena","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/b9eb35b4c023b96c29c4a145a82c6c381b68f2c889c5427106ad5aab6df45b9d?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":"\u00c9rika Andreassy","tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/80904","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=80904"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/80904\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":80906,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/80904\/revisions\/80906"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/80905"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=80904"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=80904"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=80904"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}