{"id":80879,"date":"2025-04-03T23:19:58","date_gmt":"2025-04-03T23:19:58","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=80879"},"modified":"2025-04-03T23:19:59","modified_gmt":"2025-04-03T23:19:59","slug":"brasil-61-anos-do-golpe-lembrar-para-que-nao-se-esqueca-para-que-nunca-mais-aconteca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2025\/04\/03\/brasil-61-anos-do-golpe-lembrar-para-que-nao-se-esqueca-para-que-nunca-mais-aconteca\/","title":{"rendered":"Brasil 61 anos do golpe: Lembrar para que n\u00e3o se esque\u00e7a, para que nunca mais aconte\u00e7a"},"content":{"rendered":"\n<p>Por: Jeferson Choma<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que o premiado filme brasileiro \u201cAinda estou aqui\u201d, vencedor do Oscar de melhor filme&nbsp;estrangeiro, cumpre um papel not\u00e1vel: relembrar os odiosos crimes da ditadura militar instaurada pelo golpe&nbsp;empresarial-militar&nbsp;de 31 de mar\u00e7o de 1964.<\/p>\n\n\n\n<p>O excelente filme que retrata a dor e a trag\u00e9dia da fam\u00edlia Paiva, focando na m\u00e3e Eunice, ap\u00f3s a pris\u00e3o e o desaparecimento do marido, o ex-deputado Rubens Paiva, serve como porta de entrada para que muitos conhe\u00e7am toda a covardia, brutalidade e viol\u00eancia de um regime de sangue que durou mais de duas d\u00e9cadas. Mas muita coisa dessa hist\u00f3ria ainda precisa ser passada a limpo.<\/p>\n\n\n\n<p>A ditadura foi respons\u00e1vel por milhares de torturas e mortes. De pessoas que n\u00e3o ofereciam nenhum risco ao regime, tal como Rubens Paiva e sua fam\u00edlia, passando por lideran\u00e7as sindicais, camponesas, estudantis, ind\u00edgenas e, inclusive, de militares que se posicionaram contra o golpe. S\u00e3o hist\u00f3rias que precisam ser retiradas das brumas do esquecimento. Lembrar para que n\u00e3o se esque\u00e7a, para que nunca mais aconte\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Por que ocorreu o golpe militar?<\/h4>\n\n\n\n<p>O golpe foi uma resposta dos capitalistas brasileiros, grandes propriet\u00e1rios de terra, juntamente com o imperialismo estadunidense e pol\u00edticos de oposi\u00e7\u00e3o ao ent\u00e3o presidente Jo\u00e3o Goulart, o Jango, a uma crescente efervesc\u00eancia de lutas oper\u00e1rias e populares nas quais o pa\u00eds estava mergulhado.<\/p>\n\n\n\n<p>Naquele momento, greves aglutinavam setores amplos da classe trabalhadora e exigiam reajustes dos sal\u00e1rios, 13\u00b0 sal\u00e1rio e uma lei para impedir a remessa de lucro das multinacionais \u00e0s suas matrizes. Nos quart\u00e9is militares de baixa patente exigiam direitos pol\u00edticos e melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho. No campo, trabalhadores rurais e camponeses organizavam sindicatos, ocupavam terras e exigiam reforma agr\u00e1ria e direitos trabalhistas para os assalariados do campo.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante dessa efervesc\u00eancia de lutas, a burguesia e o imperialismo n\u00e3o hesitaram em derrubar Jango e iniciar uma implac\u00e1vel persegui\u00e7\u00e3o contra oper\u00e1rios, camponeses e soldados revoltosos. O objetivo era erigir um regime autorit\u00e1rio contra o direito de lutar.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o houve resist\u00eancia ao golpe. Primeiro porque o governo burgu\u00eas de Jango n\u00e3o queria faz\u00ea-la e segundo porque o ent\u00e3o Partido Comunista Brasileiro (PCB), o maior partido da esquerda na \u00e9poca, com uma importante base oper\u00e1ria e camponesa, esteve a reboque de Jango e n\u00e3o organizou a resist\u00eancia que o momento exigia. Ao contr\u00e1rio, defendia o papel \u201clegalista\u201d das For\u00e7as Armadas, afirmando que elas defenderiam o governo. A falta de independ\u00eancia do PCB ao governo se revelou&nbsp;tr\u00e1gica, inclusive para os militantes do pr\u00f3prio \u201cpartid\u00e3o\u201d. A ditadura acabou com as liberdades democr\u00e1ticas, como o direito de greve, fechou sindicatos, imp\u00f4s a censura, prendeu e torturou opositores (<em>leia quadro ao lado<\/em>) e proibiu os partidos pol\u00edticos.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Repress\u00e3o e superexplora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores<\/h4>\n\n\n\n<p>Sustentada por uma brutal repress\u00e3o, a ditadura conseguiu impor uma superexplora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores com baixos sal\u00e1rios e destrui\u00e7\u00e3o dos direitos que haviam sido arrancados no passado. Essa foi a base do chamado \u201cmilagre econ\u00f4mico\u201d, como ficou conhecido o per\u00edodo de 1969 a 1974, que, n\u00e3o por acaso, tamb\u00e9m entrou para a Hist\u00f3ria como os \u201canos de chumbo\u201d. Os militares prometiam crescimento e \u201cdivis\u00e3o do bolo\u201d. Mas o bolo cresceu e nunca foi dividido, e a desigualdade social aumentou. Os 10% mais ricos, que detinham 38% da renda em 1960, chegaram a ter 51% em 1980. J\u00e1 os mais pobres, que tinham 17% da renda nacional em 1960, ca\u00edram para 12%, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE).<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"567\" height=\"422\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Imagem0.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-80880\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Imagem0.jpg 567w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Imagem0-300x223.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 567px) 100vw, 567px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Estudantes presos durante manifesta\u00e7\u00e3o em junho de 1968 no RJ<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Ditadura e os empres\u00e1rios<\/h4>\n\n\n\n<p>Mas a ditadura foi uma m\u00e3e para as multinacionais, que receberam muitos benef\u00edcios e colaboraram ativamente com a repress\u00e3o, tal como a Volkswagen, a Fiat, a Cia. Docas de Santos, a Paranapanema, a Cobrasma, a Companhia Sider\u00fargica Nacional, a Aracruz e muitas outras.<\/p>\n\n\n\n<p>A ditadura entregou a Amaz\u00f4nia para a explora\u00e7\u00e3o das mineradoras estrangeiras, como fez no Projeto Caraj\u00e1s. Entregou terras \u00e0s empresas na regi\u00e3o, tal como os 3 milh\u00f5es de hectares entregues ao capitalista estadunidense Daniel Ludwig para a constru\u00e7\u00e3o do Projeto Jari; ou as terras entregues \u00e0 Volkswagen, que abrigava em sua fazenda trabalhadores em condi\u00e7\u00e3o de escravid\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A corrup\u00e7\u00e3o correu solta na ditadura. Bilh\u00f5es foram desviados das obras fara\u00f4nicas, como da Rodovia Transamaz\u00f4nica, da Usina Nuclear de Angra, da Hidroel\u00e9trica de Itaipu. N\u00e3o havia nenhuma fiscaliza\u00e7\u00e3o, a ditadura n\u00e3o prestava contas dos gastos p\u00fablicos e quase nada era publicado na imprensa, que estava sob censura.<\/p>\n\n\n\n<p>O final da ditadura foi marcado por um enorme endividamento externo com os grandes bancos estrangeiros. Foi de US$ 3 bilh\u00f5es, em 1964, para US$ 100 bilh\u00f5es, em 1984. A crise econ\u00f4mica que se seguiu impulsionou as lutas oper\u00e1rias contra o desemprego e a infla\u00e7\u00e3o galopante. A mobiliza\u00e7\u00e3o dos estudantes por liberdades democr\u00e1ticas, as ocupa\u00e7\u00f5es de terras no campo e as greves oper\u00e1rias do ABC paulista emparedaram o regime. Os militares j\u00e1 n\u00e3o conseguiam mais governar e a ditadura acabou.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o fim da ditadura n\u00e3o resultou na puni\u00e7\u00e3o dos crimes cometidos por seus agentes. Por exemplo, o governo gasta R$ 140 mil por m\u00eas com as pens\u00f5es dos assassinos de Rubens Paiva. Al\u00e9m da impunidade, os militares continuaram gozando de in\u00fameros privil\u00e9gios e da preserva\u00e7\u00e3o de sua ideologia autorit\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"567\" height=\"226\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Imagem1-ditadura.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-80881\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Imagem1-ditadura.png 567w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Imagem1-ditadura-300x120.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 567px) 100vw, 567px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\">O pre\u00e7o da impunidade<\/h6>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">1964 \u00e9 um cad\u00e1ver insepulto na nossa hist\u00f3ria<\/h4>\n\n\n\n<p>Temendo o aumento da press\u00e3o popular, decisiva para o fim da ditadura, a grande burguesia do pa\u00eds e os militares pactuaram um \u201ctransi\u00e7\u00e3o negociada\u201d e varreram toda a sujeira dos crimes da ditadura para debaixo do tapete. Por aqui, nenhum militar ou torturador foi preso ou punido pelos governo da chamada \u201cNova Rep\u00fablica\u201d. E todos os governos que se seguiram (de FHC, passando por Lula, Dilma e Temer) nunca investigaram seus crimes a fundo e puniram seus respons\u00e1veis. Um processo bem diferente do que ocorreu em outros pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, tal como no Chile, Uruguai e Argentina, onde muitos militares foram investigados, julgados e presos. Isso ajudou na desmoraliza\u00e7\u00e3o e desprest\u00edgio dos militares nesses pa\u00edses.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Entulho autorit\u00e1rio permanece<\/h4>\n\n\n\n<p>No Brasil, al\u00e9m de gozarem da impunidade, mantiveram-se in\u00fameros privil\u00e9gios \u00e0 alta c\u00fapula das For\u00e7as Armadas, que existe como casta privilegiada, com tribunais pr\u00f3prios (a Justi\u00e7a Militar, que em geral facilita a impunidade para seus crimes); sal\u00e1rios milion\u00e1rios e as famosas pens\u00f5es militares desfrutadas por filhas \u201csolteiras\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>As escolas militares tamb\u00e9m tiveram preservado o conte\u00fado curricular e doutrin\u00e1rio, onde a \u201cRevolu\u00e7\u00e3o de1964\u201d \u00e9 ensinada como uma data a ser comemorada, e os alunos aprendem a doutrina da exist\u00eancia de um \u201cinimigo interno\u201d, o que justificaria o uso da for\u00e7a e de meios criminosos como torturas, pris\u00f5es, execu\u00e7\u00f5es ou \u201csumi\u00e7os\u201d de opositores.<\/p>\n\n\n\n<p>Um exemplo do chamado \u201centulho autorit\u00e1rio\u201d \u00e9 o artigo 142 da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, que serve para que os generais mantenham a tutela sob o regime, sob a cren\u00e7a de que as For\u00e7as Armadas s\u00e3o um \u201cpoder moderador\u201d diante de crises sociais e pol\u00edticas. Apesar de n\u00e3o dizer isso, o que os militares interpretam \u00e9 que a lei lhes faculta o papel de assegurar a ordem interna; quer dizer, o \u201cdireito\u201d de intervir, internamente, contra a popula\u00e7\u00e3o e os demais poderes.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro exemplo \u00e9 a Garantia da Lei e da Ordem (GLO), medida criada pelos governos do PT, em 2013, cujo objetivo \u00e9 \u201crestaurar a ordem\u201d. Foi por essa via que Bolsonaro teria planejado o golpe. Planejou-se assassinar o Presidente e o Vice-presidente, al\u00e9m do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, e depois aplicar a GLO, seguida da decreta\u00e7\u00e3o de um Estado de Defesa e o Estado de S\u00edtio, para assumir o controle do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u201centulho autorit\u00e1rio\u201d tamb\u00e9m est\u00e1 presente na repress\u00e3o assassina das Pol\u00edcias Militares nas periferias e favelas, que vitima sobretudo os jovens negros. Nesses lugares as \u201cliberdades democr\u00e1ticas\u201d ainda s\u00e3o uma fic\u00e7\u00e3o, diante de chacinas e massacres rotineiros.<\/p>\n\n\n\n<p>Por tudo isso, o \u201centulho autorit\u00e1rio\u201d ainda serve como uma incubadora das amea\u00e7as golpistas por partes das For\u00e7as Armadas ou de pol\u00edticos de extrema direita, como Bolsonaro, o qual defende torturadores covardes e generais assassinos.<\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\">Sem anistia para Bolsonaro<\/h6>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Lugar de golpistas \u00e9 na cadeia<\/h4>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"567\" height=\"315\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Imagem2-ditadura.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-80882\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Imagem2-ditadura.jpg 567w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Imagem2-ditadura-300x167.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 567px) 100vw, 567px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Bolsonaro e os ditadores assassinos<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Bolsonaro e seus aliados pretendem realizar manifesta\u00e7\u00f5es no pr\u00f3ximo dia 16 de mar\u00e7o para pressionar pela aprova\u00e7\u00e3o do projeto de lei que anistia os golpistas. \u00c9 preciso repudi\u00e1-los com todo vigor e exigir a pris\u00e3o e nenhuma anistia a golpistas e seus financiadores. O que aconteceu foi muito s\u00e9rio. Foi a tentativa de se impor novamente um regime de sangue e tortura no pa\u00eds. Isso n\u00e3o pode ficar barato.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o d\u00e1 para confiar que o Congresso, o STF e o governo Lula v\u00e3o efetivamente punir os golpistas. N\u00e3o podemos ter nenhuma ilus\u00e3o em um governo que mant\u00e9m Jos\u00e9 M\u00facio \u00e0 frente da Defesa, um nome ligado ao bolsonarismo e que defende abertamente a anistia aos golpistas. Como acreditar em um governo que concilia com a c\u00fapula militar que tentou destitu\u00ed-lo e ainda aposta na aproxima\u00e7\u00e3o com a direita, e setores da ultradireita, para escapar da atual crise que enfrenta? Ou em um Congresso, cujo rec\u00e9m-eleito presidente da C\u00e2mara, Hugo Motta, apoiado por Lula, chegou a defender anistia a golpistas?<\/p>\n\n\n\n<p>A classe trabalhadora n\u00e3o pode ter nenhuma confian\u00e7a nessa gente. \u00c9 preciso mobilizar e refor\u00e7ar a exig\u00eancia de nenhuma anistia aos golpistas, investiga\u00e7\u00e3o e pris\u00e3o de todos eles, e nenhuma confian\u00e7a nas institui\u00e7\u00f5es desse regime. A impunidade s\u00f3 vai alimentar novos golpes no futuro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: Jeferson Choma N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que o premiado filme brasileiro \u201cAinda estou aqui\u201d, vencedor do Oscar de melhor filme&nbsp;estrangeiro, cumpre um papel not\u00e1vel: relembrar os odiosos crimes da ditadura militar instaurada pelo golpe&nbsp;empresarial-militar&nbsp;de 31 de mar\u00e7o de 1964. 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