{"id":80607,"date":"2025-02-17T20:48:01","date_gmt":"2025-02-17T20:48:01","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=80607"},"modified":"2025-02-17T20:48:02","modified_gmt":"2025-02-17T20:48:02","slug":"bem-cavado-velha-toupeira-notas-e-polemicas-sobre-a-revolucao-siria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2025\/02\/17\/bem-cavado-velha-toupeira-notas-e-polemicas-sobre-a-revolucao-siria\/","title":{"rendered":"Bem cavado, velha toupeira! Notas (e pol\u00eamicas) sobre a revolu\u00e7\u00e3o s\u00edria"},"content":{"rendered":"\n<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/sharer.php?u=https%3A%2F%2Flitci.org%2Fes%2Fbien-cavado-viejo-topo-notas-y-polemicas-sobre-la-revolucion-siria%2F\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><br><\/a>Por: Fabiana Stefanoni e Francesco Ricci |<\/p>\n\n\n\n<p>Nas \u00faltimas semanas, a Palestina e a S\u00edria estiveram no centro da pol\u00edtica mundial. Em ambos os casos, foi demonstrado que n\u00e3o h\u00e1 aparato militar ou regime sanguin\u00e1rio que possa impedir a determina\u00e7\u00e3o dos povos oprimidos que lutam pela liberdade. Quanto maior for o emprego de for\u00e7as militares, recursos econ\u00f4micos, intelig\u00eancia e aparatos de propaganda pelos tiranos, mais gloriosa ser\u00e1 a vit\u00f3ria dos povos que resistem. Foi o que aconteceu na S\u00edria: nem a ajuda militar da R\u00fassia nem os tesouros do pal\u00e1cio foram suficientes para reprimir as for\u00e7as rebeldes e, acima de tudo, a vontade de liberdade das massas s\u00edrias. A revolu\u00e7\u00e3o, aparentemente derrotada, continuou a cavar como a &#8220;velha toupeira&#8221; de Marx (1). Bashar al-Assad finalmente fugiu, a S\u00edria finalmente se libertou de sua ditadura sangrenta. E em breve, esperamos poder comemorar, al\u00e9m da queda de Assad, tamb\u00e9m a expuls\u00e3o definitiva dos sionistas da Palestina.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto \u00e0s not\u00edcias sobre a guerra na Palestina, referimo-nos a outros artigos publicados neste site (2). Vamos nos concentrar aqui na S\u00edria. Na primeira parte do artigo, reconstruiremos a hist\u00f3ria da S\u00edria, premissa necess\u00e1ria para entender o que est\u00e1 acontecendo hoje. Na segunda parte, discutiremos as leituras mais difundidas da esquerda, que em nossa opini\u00e3o s\u00e3o profundamente err\u00f4neas.<\/p>\n\n\n\n<p>Se interpretarmos corretamente a concep\u00e7\u00e3o materialista de Marx e Engels, devemos primeiro especificar que n\u00e3o h\u00e1 f\u00f3rmulas para entender os eventos hist\u00f3ricos. Parafraseando Engels, n\u00e3o se aborda a hist\u00f3ria como se fosse uma &#8220;equa\u00e7\u00e3o de primeiro grau&#8221;. N\u00e3o existem leis universais e necess\u00e1rias ou esquematiza\u00e7\u00f5es simplistas que possam nos ajudar a enquadrar eventos globais como os das \u00faltimas semanas. Como Lenin nos ensinou \u2013 al\u00e9m das instrumentaliza\u00e7\u00f5es que reformistas e oportunistas quiseram fazer dessa frase \u2013 devemos nos aprofundar na &#8220;an\u00e1lise concreta da situa\u00e7\u00e3o concreta&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>A situa\u00e7\u00e3o na S\u00edria \u00e9 muito complexa e simplific\u00e1-la nos desviaria. Tentaremos analisar os \u00faltimos acontecimentos, apontando o que acreditamos serem os erros de interpreta\u00e7\u00e3o mais frequentes.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Uma caracteriza\u00e7\u00e3o da S\u00edria<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em 27 de novembro, come\u00e7ou uma ofensiva que levou \u00e0 queda de Damasco e, portanto, do regime, e \u00e0 fuga de Bashar al-Assad para a R\u00fassia em 8 de dezembro.<\/p>\n\n\n\n<p>A S\u00edria \u00e9 um pa\u00eds dependente, como a maioria dos pa\u00edses da regi\u00e3o, incluindo a Palestina. \u00c9 uma regi\u00e3o onde todos os povos foram historicamente oprimidos, desde os tempos do Imp\u00e9rio Otomano (para nos limitarmos aos \u00faltimos s\u00e9culos). Ap\u00f3s a Primeira Guerra Mundial, ap\u00f3s a queda dos otomanos, a regi\u00e3o tornou-se objeto do olhar do imperialismo \u2013 e, a partir de certo ponto, da URSS stalinizada \u2013 que considerava esses territ\u00f3rios como esp\u00f3lios a serem divididos ou combatidos militarmente. \u00c9 o que os imperialismos de hoje (e alguns pa\u00edses n\u00e3o imperialistas que, no entanto, exercem um papel hegem\u00f4nico na regi\u00e3o, como a Turquia e o Ir\u00e3) continuam fazendo hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante anos, a S\u00edria foi ocupada por quatro ex\u00e9rcitos estrangeiros: Estados Unidos, R\u00fassia, Turquia e Ir\u00e3. Est\u00e1 fortemente dividida em seu interior do ponto de vista \u00e9tnico, existem diferentes nacionalidades e grupos \u00e9tnicos: do \u00e1rabe, que \u00e9 a maioria, ao curdo; inclusive estes est\u00e3o divididos internamente, basta pensar nas diferen\u00e7as entre sunitas, xiitas, drusos, alauitas&#8230; bem como a presen\u00e7a do Daesh. Muitas dessas divis\u00f5es e o fato de os curdos reivindicarem o controle de alguns territ\u00f3rios s\u00e3o uma consequ\u00eancia da forma como a S\u00edria foi dividida ap\u00f3s a Primeira Guerra Mundial: as fronteiras foram tra\u00e7adas pelas pot\u00eancias imperialistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante a Primeira Guerra Mundial, a S\u00edria conquistou sua independ\u00eancia do Imp\u00e9rio Otomano, mas ficou sob mandato franc\u00eas. Em 1946, foi reconhecido como um estado independente, mas sob o controle da Gr\u00e3-Bretanha e da Liga \u00c1rabe. Na d\u00e9cada de 1950, as rela\u00e7\u00f5es com a URSS stalinizada se intensificaram: em 1963, a S\u00edria entrou na esfera sovi\u00e9tica e viu a consolida\u00e7\u00e3o no poder do partido Baath (&#8220;Partido do Ressurgimento \u00c1rabe e Socialista&#8221;), do qual a fam\u00edlia Assad assumiu a lideran\u00e7a, que depois construiu um poder familiar opressor, que durou at\u00e9 dezembro de 2024.<\/p>\n\n\n\n<p>Na d\u00e9cada de 1970, a S\u00edria de Assad teve alguns confrontos com Israel, determinados pelo contexto internacional (o da Guerra Fria): Israel representava (e representa) os interesses econ\u00f4micos e geopol\u00edticos dos EUA na regi\u00e3o, enquanto a S\u00edria ca\u00eda na esfera de influ\u00eancia sovi\u00e9tica. Deve-se notar que a S\u00edria dos Assad tamb\u00e9m entrou em conflito v\u00e1rias vezes com organiza\u00e7\u00f5es palestinas. Hafez al-Assad (pai de Bashar) invadiu o L\u00edbano em 1976 para impedir que a Organiza\u00e7\u00e3o para a Liberta\u00e7\u00e3o da Palestina (OLP) e o Movimento Nacional Liban\u00eas mudassem o regime do pa\u00eds. Na d\u00e9cada de 1980, a S\u00edria bombardeou campos de refugiados palestinos no L\u00edbano (e, como veremos em breve, este n\u00e3o ser\u00e1 o \u00faltimo bombardeio de campos palestinos).<\/p>\n\n\n\n<p>Ao contr\u00e1rio do que muitos stalinistas pensam, a hist\u00f3ria avan\u00e7ou desde a d\u00e9cada de 1970. Na d\u00e9cada de 1990, ap\u00f3s a queda da URSS, os Assads iniciaram v\u00e1rias negocia\u00e7\u00f5es com Israel, embora sem grandes resultados, e ficaram do lado dos Estados Unidos na guerra contra o Iraque. Depois do 11 de setembro de 2001 (ataque \u00e0s Torres G\u00eameas), Bashar al-Assad, que herdou o poder em 2000, mais uma vez confrontou os Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Um passo fundamental foi a chamada &#8220;Primavera \u00c1rabe&#8221; de 2011, que preferimos chamar de &#8220;revolu\u00e7\u00f5es \u00e1rabes&#8221;, revolu\u00e7\u00f5es que em poucos meses perturbaram as estruturas da regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O ponto de virada das revolu\u00e7\u00f5es \u00e1rabes<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Essa onda revolucion\u00e1ria come\u00e7ou, precisamente, em dezembro de 2010, ap\u00f3s um gesto extremo de um pequeno vendedor ambulante na Tun\u00edsia que se incendiou ap\u00f3s ser maltratado pela pol\u00edcia. Foi a fa\u00edsca que iniciou o inc\u00eandio.<\/p>\n\n\n\n<p>Come\u00e7ou uma onda de revolu\u00e7\u00f5es que dominou a Tun\u00edsia (em janeiro o chefe de governo Ben Ali foi derrubado), o Egito (em fevereiro o regime de Mubarak foi derrubado), a L\u00edbia (em outubro Gaddafi foi derrubado e assassinado) e o I\u00eamen. Houve tamb\u00e9m protestos revolucion\u00e1rios na Arg\u00e9lia, Jord\u00e2nia, Bahrein, Marrocos e S\u00edria. Tudo isso depois de grandes mobiliza\u00e7\u00f5es na Europa, desde Madri (Indignados) \u00e0 Gr\u00e9cia, tra\u00eddas pelas dire\u00e7\u00f5es reformistas: os partidos reformistas do Podemos e do Syriza usaram os protestos como trampolim para pol\u00edticas governamentais que n\u00e3o questionavam o capitalismo&#8230; e os resultados s\u00e3o vis\u00edveis hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>Como Lenin e Trotsky nos ensinaram, h\u00e1 anos em que parece que nada acontece, ent\u00e3o, em momentos revolucion\u00e1rios, h\u00e1 dias que valem anos: foi o que testemunhamos ent\u00e3o. N\u00e3o hesitamos por um momento em definir esses eventos como revolu\u00e7\u00f5es, independentemente das dire\u00e7\u00f5es hegem\u00f4nicas, com base no que aprendemos com os revolucion\u00e1rios do s\u00e9culo passado. Como Trotsky escreveu: &#8220;A hist\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 para n\u00f3s, acima de tudo, a hist\u00f3ria da irrup\u00e7\u00e3o violenta das massas no terreno onde seu destino \u00e9 decidido&#8221; (3).<\/p>\n\n\n\n<p>Faltava uma dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria marxista, e \u00e9 por isso que, mesmo quando as revolu\u00e7\u00f5es conseguiram derrubar regimes que pareciam eternos, elas n\u00e3o levaram a resultados positivos: n\u00e3o levaram \u00e0 expropria\u00e7\u00e3o da burguesia (ou seja, n\u00e3o colocaram a transi\u00e7\u00e3o para o socialismo na ordem do dia) e a chegada ao poder de outras dire\u00e7\u00f5es burguesas n\u00e3o consolidou nenhuma mudan\u00e7a substancial para as massas oprimidas.<\/p>\n\n\n\n<p>O caso do Egito \u00e9 emblem\u00e1tico. A Pra\u00e7a Tahrir, ocupada dia e noite, tornou-se o s\u00edmbolo dessas revolu\u00e7\u00f5es, mas o resultado pol\u00edtico foi catastr\u00f3fico: ap\u00f3s a queda de Mubarak, primeiro a Irmandade Mu\u00e7ulmana tomou o poder e depois, ap\u00f3s outra insurrei\u00e7\u00e3o, Al-Sisi assumiu o poder, cuja pol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 substancialmente diferente da de seus antecessores (basta pensar no caso Regeni ou na pol\u00edtica covarde durante a guerra de Gaza).<\/p>\n\n\n\n<p>A S\u00edria foi um dos pa\u00edses onde a revolu\u00e7\u00e3o foi mais dura e mais longa: n\u00e3o conseguiu derrubar imediatamente a ditadura sangrenta de al-Assad, e h\u00e1 tamb\u00e9m uma raz\u00e3o, que veremos em breve.<\/p>\n\n\n\n<p>A LIT-IV Internacional apoiou essas revolu\u00e7\u00f5es (4), lutando pela constru\u00e7\u00e3o de uma dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, com base em dois pressupostos: sem uma dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria marxista, as revolu\u00e7\u00f5es n\u00e3o t\u00eam chance de triunfar verdadeiramente, nem mesmo no terreno dos direitos democr\u00e1ticos (ver outros artigos nossos sobre o tema da revolu\u00e7\u00e3o permanente sobre esse assunto) (5). Para ter credibilidade na constru\u00e7\u00e3o de uma dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica alternativa, \u00e9 necess\u00e1rio apoiar ativamente as revolu\u00e7\u00f5es, participar delas se poss\u00edvel, evitando ser grilos falantes que se limitam a dar aulas enquanto assistem aos acontecimentos da janela.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>S\u00edria: um processo revolucion\u00e1rio mais longo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Na S\u00edria, o processo revolucion\u00e1rio foi, como dissemos, mais longo e mais dif\u00edcil, com uma guerra civil que durou anos, tamb\u00e9m devido \u00e0 constante interven\u00e7\u00e3o de for\u00e7as estrangeiras. Essa interven\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 surpreendente: \u00e9 uma regi\u00e3o estrat\u00e9gica para o imperialismo do ponto de vista energ\u00e9tico, com petr\u00f3leo, hidrel\u00e9tricas, g\u00e1s natural.<\/p>\n\n\n\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o s\u00edria come\u00e7ou em mar\u00e7o de 2011, depois de outras revolu\u00e7\u00f5es. Um grupo de crian\u00e7as escreveu &#8220;Liberdade&#8221; e &#8220;O Povo Quer a Queda do Regime&#8221; na parede da escola: eles foram presos e torturados. Foi a fa\u00edsca que iniciou o inc\u00eandio. Houve enormes protestos em massa contra a ditadura de Assad. V\u00e1rios ex\u00e9rcitos foram formados (com deser\u00e7\u00f5es do ex\u00e9rcito do regime).<\/p>\n\n\n\n<p>As revolu\u00e7\u00f5es n\u00e3o seguem os esquemas simplistas de alguns dos chamados revolucion\u00e1rios que nunca tomam uma posi\u00e7\u00e3o porque esperam a revolu\u00e7\u00e3o perfeita (que nunca vir\u00e1). As revolu\u00e7\u00f5es est\u00e3o cheias de contradi\u00e7\u00f5es, assim como a s\u00edria, tanto pela heterogeneidade da frente revolucion\u00e1ria quanto pela complexidade das rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas na regi\u00e3o, quanto pela interven\u00e7\u00e3o de sujeitos externos interessados em controlar esses territ\u00f3rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Na linha de frente contra Assad havia (e ainda h\u00e1) uma pluralidade de for\u00e7as. Alguns rebeldes estavam ligados \u00e0 Turquia, que sempre procurou aproveitar a guerra civil para estender seu dom\u00ednio sobre a regi\u00e3o (e oprimir os curdos). Outros rebeldes pertenciam a grupos isl\u00e2micos. Muitos combatentes eram de orienta\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica ou mesmo marxista (alguns batalh\u00f5es eram at\u00e9 liderados por militantes que se autodenominavam trotskistas). Os curdos s\u00edrios (PYD) tamb\u00e9m se posicionaram contra Assad: exigiram, com raz\u00e3o, o direito de ter seu pr\u00f3prio Estado. Ao mesmo tempo, seus l\u00edderes pol\u00edticos muitas vezes adotaram posi\u00e7\u00f5es amb\u00edguas, aliando-se aos Estados Unidos e chegando a compromissos com o pr\u00f3prio Assad.<\/p>\n\n\n\n<p>Como em qualquer processo revolucion\u00e1rio que come\u00e7a em um pa\u00eds dependente, o imperialismo n\u00e3o ficou de bra\u00e7os cruzados: Estados Unidos, Fran\u00e7a e Gr\u00e3-Bretanha tentaram assumir o controle de alguns setores rebeldes, intervindo tamb\u00e9m diretamente com bombardeios. Inclusive for\u00e7as isl\u00e2micas profundamente reacion\u00e1rias, como o Daesh (EI), aproveitaram a situa\u00e7\u00e3o e ocuparam alguns territ\u00f3rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Do lado de Assad, no entanto, encontramos imediatamente, al\u00e9m dos setores do ex\u00e9rcito leais ao ditador, a R\u00fassia de Putin \u2013 que realizou bombardeios contra os rebeldes e abriu v\u00e1rias bases militares na S\u00edria \u2013 e o regime iraniano, que enviou tropas. O Hezbollah tamb\u00e9m apoiou a ditadura, enviando mil\u00edcias para apoiar Assad. Algumas mil\u00edcias iraquianas, afeg\u00e3s e iemenitas fizeram o mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio apontar o papel nefasto desempenhado pelo stalinismo e seus ep\u00edgonos (Cuba e Venezuela em primeiro lugar) neste contexto: assim como hoje na Ucr\u00e2nia Cuba e Venezuela est\u00e3o do lado de Putin, em 2011 eles imediatamente deram seu apoio incondicional a Assad. Foram c\u00famplices da falta de solidariedade internacional do movimento oper\u00e1rio com a revolu\u00e7\u00e3o s\u00edria, contribuindo para a dificuldade de construir uma dire\u00e7\u00e3o marxista na S\u00edria. Analisaremos brevemente as teorias delirantes das organiza\u00e7\u00f5es stalinistas amigas de Putin, Maduro e do regime burgu\u00eas cubano.<\/p>\n\n\n\n<p>Por muito tempo a revolu\u00e7\u00e3o parecia derrotada. Mas os eventos das \u00faltimas semanas mostraram que o fogo n\u00e3o foi extinto sob as cinzas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A cumplicidade de Assad com o sionismo e a queda do regime<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m celebramos a queda de Assad, junto com muitos s\u00edrios. \u00c9 o colapso de um regime que durou 54 anos, baseado na repress\u00e3o sistem\u00e1tica, na tortura e no assassinato de dissidentes. A ferocidade inescrupulosa da ditadura causou mais de meio milh\u00e3o de mortos e milh\u00f5es de refugiados (muitos deles mortos no Mediterr\u00e2neo).<\/p>\n\n\n\n<p>O regime de Assad tamb\u00e9m foi c\u00famplice no massacre do povo palestino. Em 2012, bombardeou repetidamente o campo de refugiados palestinos de Yarmouk, at\u00e9 que foi desmantelado. Como outros pa\u00edses \u00e1rabes, n\u00e3o interveio na guerra iniciada em 2023, preferindo manter acordos de n\u00e3o beliger\u00e2ncia com Israel. N\u00e3o \u00e9 por acaso que Israel decidiu destruir armas e bases s\u00edrias somente ap\u00f3s a queda de Assad: o fez porque n\u00e3o tinha mais as garantias que Assad havia oferecido anteriormente. Na realidade, todo o imperialismo agora considerava Assad um mal menor, um baluarte contra o risco de uma revolu\u00e7\u00e3o popular com resultados imprevis\u00edveis. E todo o imperialismo agora est\u00e1 preocupado com o que pode acontecer na S\u00edria.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, embora celebremos a queda do regime e a consideremos um resultado da revolu\u00e7\u00e3o s\u00edria, n\u00e3o defendemos a atual lideran\u00e7a pol\u00edtica da revolu\u00e7\u00e3o (HTS), sendo um componente sect\u00e1rio da frente anti-Assad ligado \u00e0 Turquia, que n\u00e3o tem inten\u00e7\u00e3o de romper com o imperialismo ou desmantelar totalmente as institui\u00e7\u00f5es do antigo regime nem de confiar o poder \u00e0s massas populares. O HTS n\u00e3o est\u00e1 pedindo a retirada imediata das tropas americanas, russas ou turcas, nem est\u00e1 repelindo o ataque israelense. N\u00e3o expropria os milion\u00e1rios que enriqueceram sob o regime de Assad e iniciou negocia\u00e7\u00f5es com os pa\u00edses imperialistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Deve-se notar que os rebeldes pr\u00f3-turcos do HTS n\u00e3o s\u00e3o os \u00fanicos que participaram da ofensiva. Alguns territ\u00f3rios foram libertados por outros grupos rebeldes, setores do Ex\u00e9rcito Livre da S\u00edria ou grupos insurgentes. As ruas se encheram rapidamente: hoje o povo quer participar ativamente da constru\u00e7\u00e3o de um novo regime pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p>Certamente n\u00e3o foi um compl\u00f4 da CIA, como alguns querem nos fazer acreditar: o HTS est\u00e1 entre as organiza\u00e7\u00f5es classificadas como terroristas pelos Estados Unidos. Mas est\u00e1 n\u00edtido que os Estados Unidos agora est\u00e3o dispostos a lidar com eles (e por isso est\u00e3o reduzindo seu apoio aos curdos, seus aliados hist\u00f3ricos). Putin, atolado na Ucr\u00e2nia, de fato, para al\u00e9m da hospitalidade na corte, deixou Assad para tr\u00e1s, preferindo negociar a manuten\u00e7\u00e3o de bases no Ocidente (Mediterr\u00e2neo). A Turquia depende do Ex\u00e9rcito Nacional S\u00edrio para atacar os curdos. O Hezbollah est\u00e1 se retirando da S\u00edria, assim como o Ir\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>O que as revolu\u00e7\u00f5es \u00e1rabes e, em particular, a revolu\u00e7\u00e3o s\u00edria nos ensinaram \u00e9 que as revolu\u00e7\u00f5es podem estourar a qualquer momento e t\u00eam um enorme poder contagioso. N\u00e3o h\u00e1 revolu\u00e7\u00f5es &#8220;perfeitas&#8221;: mesmo a melhor revolu\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria, a de outubro de 1917, estava cheia de contradi\u00e7\u00f5es; basta ler <em>a Hist\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o Russa de<\/em> Trotsky&nbsp; para entend\u00ea-la. Devemos apoiar e intervir nas revolu\u00e7\u00f5es, promovendo a constru\u00e7\u00e3o de comit\u00eas-conselhos oper\u00e1rios e prolet\u00e1rios e lutando pela constru\u00e7\u00e3o de uma dire\u00e7\u00e3o marxista.<\/p>\n\n\n\n<p>Como trotskistas, acreditamos que o programa necess\u00e1rio em pa\u00edses dependentes, como a S\u00edria e a Palestina, \u00e9 o programa da revolu\u00e7\u00e3o permanente: nenhuma conquista democr\u00e1tica (incluindo a independ\u00eancia nacional) pode ser alcan\u00e7ada se a luta por demandas democr\u00e1ticas n\u00e3o estiver entrela\u00e7ada com a das demandas socialistas, se o Estado burgu\u00eas n\u00e3o for derrubado e substitu\u00eddo por um governo oper\u00e1rio (a ditadura do proletariado).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pol\u00eamica na esquerda<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Quase toda a esquerda expressou uma opini\u00e3o oposta \u00e0 nossa. Antes de analisar quais posi\u00e7\u00f5es foram expressas nas \u00faltimas semanas, \u00e9 bom lembrar algumas coisas que explicam de onde vem a diverg\u00eancia de interesses e n\u00e3o de ideias.<\/p>\n\n\n\n<p>Os partidos reformistas sempre t\u00eam dificuldade em reconhecer as revolu\u00e7\u00f5es. As revolu\u00e7\u00f5es, isto \u00e9, a fase aguda da luta de classes, s\u00e3o para eles um horizonte abstrato que nunca \u00e9 alcan\u00e7ado na realidade. Em sua vis\u00e3o de mundo, h\u00e1 espa\u00e7o, no m\u00e1ximo, para uma luta de classes que permanece interna ao mundo capitalista: um mundo que, al\u00e9m de uma ret\u00f3rica atraente que serve para convencer seus militantes de boa f\u00e9, eles n\u00e3o t\u00eam inten\u00e7\u00e3o de mudar. Isso \u00e9 especialmente verdadeiro para as dire\u00e7\u00f5es reformistas que t\u00eam uma base burocr\u00e1tica, ou seja, que t\u00eam interesses materiais dentro desta sociedade, aspira\u00e7\u00f5es de entrar (ou reentrar) em algum parlamento ou governo ou que precisam proteger pequenos nichos sindicais.<\/p>\n\n\n\n<p>Soma-se a isso o fato de que a maioria das organiza\u00e7\u00f5es da esquerda internacional e italiana se situam, com convic\u00e7\u00e3o ou &#8220;criticamente&#8221;, no que definem como um &#8220;campo anti-imperialista&#8221;, liderado (em sua imagina\u00e7\u00e3o) pela R\u00fassia e pela China. Ignorando o fato de que o capitalismo foi restaurado em todos os antigos Estados oper\u00e1rios, e que a R\u00fassia e a China s\u00e3o hoje dois imperialismos emergentes lutando contra o imperialismo dominante, mas em decl\u00ednio, dos Estados Unidos, eles se referem a esses dois pa\u00edses (ou a um dos dois) como se fossem &#8220;socialistas&#8221;: em particular, pode-se ler em suas longas publica\u00e7\u00f5es tratados sobre o &#8220;socialismo chin\u00eas&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse &#8220;campo&#8221; quim\u00e9rico liderado por Putin e\/ou Xi Jinping, est\u00e3o inclu\u00eddos os pa\u00edses amigos desse povo: Cuba (capitalista) que reprime as explos\u00f5es populares contra o regime de Castro; a Venezuela de Maduro, uma das piores ditaduras da Am\u00e9rica Latina e, precisamente, a S\u00edria de Assad. N\u00e3o \u00e9 por acaso que o regime anticomunista de Assad foi apoiado pelos dois partidos &#8220;comunistas&#8221; stalinistas da S\u00edria.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 com tudo isso em mente se pode entender como Paolo Ferrero da Rifondazione Comunista [It\u00e1lia], ex-ministro da Solidariedade Social (<em>sic<\/em>) de um governo imperialista (Prodi 2), descreveu a derrubada de Assad como sendo liderada por &#8220;terroristas isl\u00e2micos&#8221; (sic) e &#8220;assassinos&#8221; relacionados aos &#8220;nazistas ucranianos&#8221; (um termo usado por Ferrero para indicar a resist\u00eancia ucraniana \u00e0 invas\u00e3o russa) [6].<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto a Rede Comunista, a organiza\u00e7\u00e3o [stalinista] que dirige (n\u00e3o declaradamente) o sindicato USB, e que faz parte do Potere al Popolo [PAP, uma coaliz\u00e3o eleitoral italiana], considera &#8220;ret\u00f3rica&#8221; falar sobre a revolu\u00e7\u00e3o s\u00edria e &#8220;crimes indescrit\u00edveis do regime&#8221; e conclui que &#8220;o imperialismo estadunidense e outros atores regionais reacion\u00e1rios conseguem em poucos dias o que n\u00e3o conseguiram em anos e anos de guerras e negocia\u00e7\u00f5es com o regime anterior&#8221; (7). Um regime anterior que a Rede Comunista inclu\u00eda entre os que celebrou, como o venezuelano, e para o qual, h\u00e1 poucos dias, enviou uma delega\u00e7\u00e3o a Caracas para participar da manifesta\u00e7\u00e3o &#8220;Juro por Maduro&#8221; e do lan\u00e7amento da &#8220;Internacional Antifascista&#8221; promovida pela &#8220;Rep\u00fablica Bolivariana da Venezuela&#8221; (8).<\/p>\n\n\n\n<p>Potere al Popolo, por sua vez, descreve o avan\u00e7o das massas e a queda de Assad como algo que &#8220;deixou as popula\u00e7\u00f5es da regi\u00e3o \u00e0 merc\u00ea dos jihadistas&#8221; e como uma esp\u00e9cie de avan\u00e7o dos b\u00e1rbaros, a tal ponto que, segundo o PAP, &#8220;j\u00e1 h\u00e1 relatos de mulheres capturadas para serem vendidas como escravas&#8221; [9].<\/p>\n\n\n\n<p>Para apoiar sua tese e torn\u00e1-la aceit\u00e1vel no movimento pr\u00f3-Palestina, essas for\u00e7as afirmam que a queda de Assad teria beneficiado Israel, que teria apoiado o HTS. Uma afirma\u00e7\u00e3o que \u00e9 contrariada pelo fato de que Israel come\u00e7ou a bombardear instala\u00e7\u00f5es militares s\u00edrias apenas quando Assad j\u00e1 havia fugido para a R\u00fassia, destruindo a frota s\u00edria e a principal infraestrutura militar em quase 500 ataques, precisamente porque n\u00e3o confiava nos insurgentes. Deve-se acrescentar tamb\u00e9m que o pr\u00f3prio HTS (antes de sua atual evolu\u00e7\u00e3o pr\u00f3-ocidental) expressou seu apoio \u00e0s a\u00e7\u00f5es palestinas de 7 de outubro.<\/p>\n\n\n\n<p>A realidade \u00e9 exatamente o oposto: em meio s\u00e9culo, o regime s\u00edrio da fam\u00edlia Assad n\u00e3o disparou um \u00fanico tiro contra o reduto sionista do imperialismo e tem sido uma garantia de estabilidade para Israel muito mais do que a atual situa\u00e7\u00e3o de caos. Lembremos tamb\u00e9m que o HTS n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico grupo lutando e que as massas s\u00edrias armadas n\u00e3o t\u00eam simpatia por Israel. Acrescentemos tamb\u00e9m que Assad, al\u00e9m de n\u00e3o ser um inimigo perigoso de Israel, em 2015, como dissemos acima, bombardeou o campo de refugiados palestinos de Yarmouk e sempre foi um oponente de fato da causa palestina. Isso explica por que sua queda, apresentada pelas for\u00e7as citadas at\u00e9 agora como uma &#8220;conspira\u00e7\u00e3o sionista&#8221; ou CIA, foi celebrada pelos palestinos.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, reformistas e stalinistas n\u00e3o s\u00e3o os \u00fanicos que apoiam certas posi\u00e7\u00f5es. Mesmo os partidos que corretamente definem o regime s\u00edrio em colapso como &#8220;reacion\u00e1rio&#8221; chegam \u00e0s mesmas conclus\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>A TIR [grupo de orienta\u00e7\u00e3o bordiguista que inclui v\u00e1rios dirigentes do sindicato italiano Si Cobas] assinou uma declara\u00e7\u00e3o conjunta com o Partido dos Trabalhadores da Argentina na qual afirma que com a queda de Assad &#8220;N\u00e3o estamos diante de uma vit\u00f3ria popular ou democr\u00e1tica, mas de uma nova divis\u00e3o da S\u00edria, que a coloca (&#8230;) no &#8216;campo&#8217; internacional da OTAN&#8221;. Ainda de acordo com esta afirma\u00e7\u00e3o, estar\u00edamos &#8220;diante de uma tentativa de estabelecer um regime pr\u00f3-imperialista&#8221; e a insurrei\u00e7\u00e3o s\u00edria seria apenas &#8220;um epis\u00f3dio de guerra imperialista&#8221; (a mesma posi\u00e7\u00e3o que leva a TIR a se posicionar equidistante entre o imperialismo russo e a Resist\u00eancia Ucraniana) [10]. Na mesma onda encontramos tamb\u00e9m a Fra\u00e7\u00e3o Trotskista (FT) dirigida pelo PTS argentino (11).<\/p>\n\n\n\n<p>O argumento, articulado de v\u00e1rias maneiras por essas tr\u00eas organiza\u00e7\u00f5es, parte da identifica\u00e7\u00e3o do processo revolucion\u00e1rio s\u00edrio com sua atual lideran\u00e7a (o HTS), para apontar que o HTS certamente n\u00e3o \u00e9 comunista e, portanto, concluir que \u00e9 uma luta reacion\u00e1ria. Como mais uma confirma\u00e7\u00e3o desta tese, cabe destacar que o imperialismo tamb\u00e9m interv\u00e9m neste cen\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>A falsidade desse silogismo, que prev\u00ea o reconhecimento de uma revolu\u00e7\u00e3o apenas quando ela \u00e9 dirigida desde o in\u00edcio pelos comunistas e n\u00e3o h\u00e1 interfer\u00eancia do imperialismo, pode ser demonstrada pelo absurdo. Se o racioc\u00ednio estivesse correto, tamb\u00e9m n\u00e3o haveria necessidade de apoiar a luta palestina, considerando que no momento a maioria de sua lideran\u00e7a est\u00e1 nas m\u00e3os do Hamas, que certamente n\u00e3o \u00e9 uma for\u00e7a socialista. Mas podemos ir mais longe: se aplic\u00e1ssemos a f\u00f3rmula segundo a qual todo processo revolucion\u00e1rio \u00e9 julgado por sua dire\u00e7\u00e3o inicial, n\u00e3o haveria de fato nenhuma revolu\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria dos \u00faltimos dois s\u00e9culos que pudesse ser definida como tal: nem mesmo a Comuna de Paris. (na qual havia menos de cinco marxistas puros), nem a Russa de 1905 (que come\u00e7ou como uma marcha de s\u00faplica ao czar, liderada por um padre que mais tarde se revelou estar a servi\u00e7o do czar), nem a Resist\u00eancia Italiana (dirigida pelos stalinistas), nem a Revolu\u00e7\u00e3o Espanhola, nem a Portuguesa&#8230; e nem mesmo a de 1917, j\u00e1 que, antes de outubro e para chegar a outubro, os comunistas tiveram que passar pela revolu\u00e7\u00e3o de fevereiro, liderados por partidos reformistas que inicialmente substitu\u00edram o czar por um governo presidido por um pr\u00edncipe, e depois, para defender a propriedade burguesa, chegaram a ilegalizar Lenin e os comunistas.<\/p>\n\n\n\n<p>A mesma linha descrita acima \u00e9 apoiada, embora de forma mais refinada, pela rec\u00e9m-formada ICR (&#8220;Internacional Comunista Revolucion\u00e1ria&#8221;), anteriormente IMT- Corrente Marxista Internacional, de Alan Woods, representada na It\u00e1lia pelo PCR (anteriormente SCR). Em sua interpreta\u00e7\u00e3o, a derrubada de Assad n\u00e3o foi obra de um movimento de massas, o desenvolvimento de uma revolu\u00e7\u00e3o que come\u00e7ou anos atr\u00e1s, mas de grupos reacion\u00e1rios &#8220;tacitamente apoiados pela CIA e pelo Mossad&#8221; [12].<\/p>\n\n\n\n<p>Na verdade, a concep\u00e7\u00e3o defendida (com argumentos diferentes) pelas tr\u00eas organiza\u00e7\u00f5es citadas \u00e9 ao mesmo tempo fatalista e oportunista. Fatalista porque n\u00e3o concebe a luta pela constru\u00e7\u00e3o de uma dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria alternativa como uma necessidade que implica participa\u00e7\u00e3o nos processos tal como estes acontecem: aqueles que esperam revolu\u00e7\u00f5es puras, disse L\u00eanin, nunca as ver\u00e3o. Oportunista porque, por tr\u00e1s da aparente &#8220;pureza&#8221; da posi\u00e7\u00e3o, permite nadar no sentido da corrente alimentada nos movimentos dos partidos reformistas e stalinistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Como argumentamos em outros artigos, certamente n\u00e3o queremos afirmar que em uma revolu\u00e7\u00e3o a dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica seja irrelevante. Pelo contr\u00e1rio: somente uma dire\u00e7\u00e3o coerente, armada com um programa revolucion\u00e1rio (o programa da revolu\u00e7\u00e3o permanente), pode tornar poss\u00edvel uma vit\u00f3ria estrat\u00e9gica e a transi\u00e7\u00e3o para o socialismo. Mas se algu\u00e9m acredita que essa dire\u00e7\u00e3o nascer\u00e1 limitando-se a criticar a realidade porque ela n\u00e3o corresponde ao seu pr\u00f3prio esquema, pode esperar muito tempo. Somente participando ativamente da luta das massas e enfrentando as atuais dire\u00e7\u00f5es reformistas ou burguesas podemos tentar construir a dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria internacional que falta.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A conex\u00e3o com a luta na Palestina<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 o tema central deste artigo, mas \u00e9 \u00fatil acrescentar algumas linhas \u00e0 guisa de conclus\u00e3o sobre a tr\u00e9gua na Palestina, porque est\u00e1 entrela\u00e7ada com a quest\u00e3o s\u00edria e, sobretudo, porque est\u00e1 no centro do debate no movimento de apoio \u00e0 Resist\u00eancia Palestina (13).<\/p>\n\n\n\n<p>Acreditamos que a tr\u00e9gua em Gaza, independentemente do tempo que durar (nesse momento as tropas israelenses intensificaram sua agress\u00e3o na Cisjord\u00e2nia), e estabelecida que n\u00e3o \u00e9 uma vit\u00f3ria estrat\u00e9gica para a luta de liberta\u00e7\u00e3o palestina, deve ser celebrada como uma importante batalha vencida, para a qual o levante que derrubou Assad tamb\u00e9m contribuiu indiretamente. \u00c9 precisamente porque teme o efeito de cont\u00e1gio da S\u00edria (al\u00e9m das necessidades contingentes ligadas \u00e0 sua posse) que Trump for\u00e7ou o recalcitrante Netanyahu a aceitar a tr\u00e9gua. O imperialismo estadunidense, em particular, precisa de uma diminui\u00e7\u00e3o do conflito na \u00e1rea para prosseguir com os &#8220;Acordos de Abra\u00e3o&#8221; entre Israel e Ar\u00e1bia Saudita, que s\u00e3o funcionais para tentar manter a hegemonia dos EUA na regi\u00e3o, limitando a inser\u00e7\u00e3o de imperialismos concorrentes da R\u00fassia e da China.<\/p>\n\n\n\n<p>Acima de tudo, \u00e9 importante lembrar que, se existe hoje uma tr\u00e9gua fr\u00e1gil em Gaza e se Israel teve de libertar centenas de prisioneiros dos seus campos de concentra\u00e7\u00e3o, isso se deve principalmente \u00e0 heroica Resist\u00eancia Palestiniana, que soube manter-se durante mais de um ano e colocou em fortes dificuldades um dos ex\u00e9rcitos mais bem armados do mundo. E a insurrei\u00e7\u00e3o s\u00edria, ao aumentar a instabilidade nesses territ\u00f3rios, favorece a causa palestina, al\u00e9m de incentivar outros povos a se juntarem \u00e0 luta contra a entidade sionista e os regimes reacion\u00e1rios pr\u00f3-imperialistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma confirma\u00e7\u00e3o de que as lutas de resist\u00eancia e as revolu\u00e7\u00f5es podem avan\u00e7ar e triunfar. Digam o que disser os reformistas c\u00e9ticos, incapazes de levantar o nariz do mundo capitalista podre.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>(1) A met\u00e1fora revolucion\u00e1ria da &#8220;velha toupeira&#8221; que cava incansavelmente e depois ressurge na superf\u00edcie \u00e9 aquela que Marx usa em <em>O 18 Brum\u00e1rio de Lu\u00eds Bonaparte<\/em>, adaptando um verso do amado Shakespeare em Hamlet (Ato I, cena 5). Hegel tamb\u00e9m retomou essa imagem (em suas <em>Palestras sobre a Hist\u00f3ria da Filosofia<\/em>).<\/p>\n\n\n\n<p>[2] Ver, em particular, o artigo de F\u00e1bio Bosco, &#8220;Cessar-fogo em Gaza: uma vit\u00f3ria parcial para os palestinos&#8221;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\nhttps:\/\/litci.org\/es\/alto-al-fuego-en-gaza-logro-partial-de-la-lucha-palestina-a-un-costo-humano-inestimable\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p>(3) TROTSKY, Le\u00f3n. <em>Hist\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o Russa<\/em>, Volume 1 &#8211; Pref\u00e1cio.<\/p>\n\n\n\n<p>(4) Numerosos artigos sobre a \u00abPrimavera \u00c1rabe\u00bb podem ser encontrados no site www.litci.org.<\/p>\n\n\n\n<p>(5) Sobre a revolu\u00e7\u00e3o permanente, gostar\u00edamos de nos referir ao nosso ensaio publicado no n\u00famero 1 da revista te\u00f3rica do PdAC, <em>Trotskismo oggi<\/em>, que pode ser baixado gratuitamente neste link <a href=\"https:\/\/libreria.alternativacomunista.it\/trotskismo-oggi\/?product-page=3\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/libreria.alternativacomunista.it\/trotskismo-oggi\/?product-page=3<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>(6) Ver o artigo de Paolo Ferrero: &#8220;Agora na S\u00edria os &#8216;terroristas&#8217; s\u00e3o nossos aliados: uma t\u00edpica limpeza da m\u00eddia ocidental&#8221; <a href=\"https:\/\/www.ilfattoquotidiano.it\/2024\/12\/11\/siria-terroristi-alleati-media-occidentali\/7800546\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/www.ilfattoquotidiano.it\/2024\/12\/11\/siria-terroristi-alleati-media-occidentali\/7800546\/<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>(7) Citamos da revista da Rede Comunista, <em>Contropiano<\/em>, o artigo de Giovanni Di Fronzo: &#8220;S\u00edria: forze in campo e possibili scenari&#8221; [S\u00edria: for\u00e7as no campo e cen\u00e1rios poss\u00edveis\u00bb<a href=\"https:\/\/contropiano.org\/documenti\/2025\/01\/13\/siria-forze-in-campo-e-possibili-scenari-0179263\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/contropiano.org\/documenti\/2025\/01\/13\/siria-forze-in-campo-e-possibili-scenari-0179263<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>(8) Ver <a href=\"https:\/\/contropiano.org\/documenti\/2025\/01\/13\/internazionale-antifascista-il-programma-0179279\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/contropiano.org\/documenti\/2025\/01\/13\/internazionale-antifascista-il-programma-0179279<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>(9) A posi\u00e7\u00e3o do PAP \u00e9 expressa no artigo https:\/\/poterealpopolo.org\/cosa-sta-succedendo-in-siria\/<\/p>\n\n\n\n<p>(10) A declara\u00e7\u00e3o conjunta da TIR (Corrente Revolucion\u00e1ria Internacionalista) com o PO (Partido dos Trabalhadores da Argentina) pode ser lida neste link <a href=\"https:\/\/pungolorosso.com\/2025\/01\/04\/per-il-raggruppamento-degli-internazionalisti-contro-la-guerra-imperialista-partido-obrero-tir-nar-sep-italiano-english\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/pungolorosso.com\/2025\/01\/04\/per-il-raggruppamento-degli-internazionalisti-contro-la-guerra-imperialista-partido-obrero-tir-nar-sep-italiano-english\/<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>(11) A Fra\u00e7\u00e3o Trotskista (FT), a proje\u00e7\u00e3o internacional do PTS argentino, \u00e9 representada na It\u00e1lia pelo blog &#8220;La Voce delle Lotte&#8221;. Sobre a S\u00edria, ele polemizou com nossa posi\u00e7\u00e3o no artigo <a href=\"http:\/\/www.laizquierdadiario.com\/La-LIT-CI-ante-la-caida-de-Al-Assad-otro-episodio-de-su-capitulacion-en-Medio-Oriente\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">www.laizquierdadiario.com\/La-LIT-CI-ante-la-caida-de-Al-Assad-otro-episodio-de-su-capitulacion-en-Medio-Oriente<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>A resposta da LIT pode ser lida neste link <a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/fue-una-derrota-o-un-triunfo-de-las-masas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/litci.org\/es\/fue-una-derrota-o-un-triunfo-de-las-masas\/<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>(12) A posi\u00e7\u00e3o do ICR (anteriormente TMI), na It\u00e1lia PCR (ex-SCR), sobre a S\u00edria \u00e9 resumida no artigo significativamente intitulado &#8220;A queda de Assad. Islamistas assumem o controle da S\u00edria&#8221; <a href=\"https:\/\/rivoluzione.red\/la-caduta-di-assad-gli-islamisti-prendono-il-controllo-della-siria\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/rivoluzione.red\/la-caduta-di-assad-gli-islamisti-prendono-il-controllo-della-siria\/<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Para uma cr\u00edtica das posi\u00e7\u00f5es gerais dessa tend\u00eancia, remetemos nosso recente artigo <a href=\"https:\/\/www.partitodialternativacomunista.org\/politica\/nazionale\/polemica-con-scr-ora-pcr-e-altri-come-alcuni-leninisti-deformano-lenin\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">www.partitodialternativacomunista.org\/politica\/nazionale\/polemica-con-scr-ora-pcr-e-altri-come-alcuni-leninisti-deformano-lenin<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>(13) A posi\u00e7\u00e3o mais complementar da LIT e do PoAC sobre a tr\u00e9gua \u00e9 defendida no artigo de F\u00e1bio Bosco citado na nota 2.<\/p>\n\n\n\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o do italiano para o espanhol: Natalia Estrada<\/p>\n\n\n\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol para o portugu\u00eas: Lilian Enck<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: Fabiana Stefanoni e Francesco Ricci | Nas \u00faltimas semanas, a Palestina e a S\u00edria estiveram no centro da pol\u00edtica mundial. 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