{"id":80499,"date":"2025-01-28T23:19:31","date_gmt":"2025-01-28T23:19:31","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=80499"},"modified":"2025-01-28T23:19:32","modified_gmt":"2025-01-28T23:19:32","slug":"rosa-luxemburgo-o-legado-da-revolucionaria-marxista-comprometida-com-a-revolucao-socialista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2025\/01\/28\/rosa-luxemburgo-o-legado-da-revolucionaria-marxista-comprometida-com-a-revolucao-socialista\/","title":{"rendered":"Rosa Luxemburgo: O legado da revolucion\u00e1ria marxista comprometida com a revolu\u00e7\u00e3o socialista"},"content":{"rendered":"\n<p>Por: Jeferson Choma |<\/p>\n\n\n\n<p>Pouco mais de um s\u00e9culo depois de seu assassinato realizado pela socialdemocracia alem\u00e3, sob o vatic\u00ednio dos capitalistas da Europa, pululam artigos e ensaios que apresentam Rosa Luxemburgo como uma marxista heterodoxa, pacifista que confiava na democracia e denunciava o suposto crescente autoritarismo da Revolu\u00e7\u00e3o Russa. Nada mais falso. Trata-se apenas de tentativas de assassinar sua hist\u00f3ria real, seu legado pol\u00edtico e comprometimento pela revolu\u00e7\u00e3o socialista.<\/p>\n\n\n\n<p>Nascida em 5 de mar\u00e7o de 1870 em uma fam\u00edlia judia polonesa, Rosa Luxemburgo aderiu \u00e0 luta revolucion\u00e1ria ainda estudante. Aos 19 anos foi obrigada a deixar a Pol\u00f4nia \u2013 na \u00e9poca parte do Imp\u00e9rio Russo \u2013&nbsp; e passou a morar em Zurique, na Su\u00ed\u00e7a, onde travou contatos com lideran\u00e7as sociais-democratas exiladas, como Georgi Plekhanov, Vera Zasulitch e Pavel Akselrod, ent\u00e3o os maiores difusores do marxismo na R\u00fassia. Em 1897, Rosa emigra para a Alemanha e em pouco tempo se integra ao c\u00edrculo dos grandes l\u00edderes do Partido Social Democrata (SPD, na sigla em alem\u00e3o) como August Bebel, Franz Mehring e Karl Kautsky.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse momento, o SPD come\u00e7ava a se transformar em um grande partido oper\u00e1rio, ap\u00f3s sair da ilegalidade em 1890. A organiza\u00e7\u00e3o logo conhece um forte crescimento eleitoral. Sindicatos e cooperativas se multiplicaram pa\u00eds afora, e jornais di\u00e1rios e revistas te\u00f3ricas s\u00e3o publicadas pelo partido. De um punhado de abnegados militantes, o SPD torna-se uma grande organiza\u00e7\u00e3o de massa com parlamentares, funcion\u00e1rios e intelectuais. Tal camada de burocratas fazia carreira com o crescimento da organiza\u00e7\u00e3o, o que ter\u00e1 consequ\u00eancias profundas no per\u00edodo posterior.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"567\" height=\"340\" src=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Rosa.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-80501\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Rosa.jpg 567w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Rosa-300x180.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 567px) 100vw, 567px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>Luta contra o reformismo<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p>\u00c9 nesse momento que surge o revisionismo te\u00f3rico de Eduard Bernstein que passa a negar a possibilidade de uma revolu\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria para se chegar ao socialismo. A tese de Bernstein \u00e9 de que o capitalismo estava desenvolvendo uma s\u00e9rie de mecanismos que evitariam uma crise do sistema. Desse modo, a socialdemocracia deveria promover cada vez mais pol\u00edticas reformistas para fortalecer o proletariado e permitir que, no futuro, o partido chegasse ao poder por meio da democracia eleitoral, conquistando a maioria do parlamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitos l\u00edderes sociais-democratas se opuseram a essa tese, como Kautsky e Plekanov. Mas foi da pena de Rosa que saiu a mais contundente rea\u00e7\u00e3o com a publica\u00e7\u00e3o do livro \u201cReforma ou Revolu\u00e7\u00e3o\u201d, escrita entre 1897-98. A revolucion\u00e1ria nega o desenvolvimento pac\u00edfico do capitalismo e afirma que as reformas n\u00e3o modificam o car\u00e1ter b\u00e1sico do sistema, tampouco solucionariam suas contradi\u00e7\u00f5es. Para Rosa, o capitalismo continuar\u00e1 promovendo guerras, crise e a espolia\u00e7\u00e3o dos povos e todas as conquistas do proletariado poderiam ser perdidas, uma vez que explora\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser abolida com reformas como pretendiam os revisionistas. Por fim, ela denunciava que a proposi\u00e7\u00e3o de Bernstein condenava \u201c<em>o proletariado \u00e0 ina\u00e7\u00e3o nos momentos mais decisivos da luta e, por conseguinte, \u00e0 trai\u00e7\u00e3o passiva quanto \u00e0 sua pr\u00f3pria causa<\/em>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Todo o s\u00e9culo XX viria a confirmar a tese de Rosa. Todos os governos chefiados pela socialdemocracia \u2013 da Fran\u00e7a, a Alemanha, passando pelo Chile de Salvador Allende \u2013 n\u00e3o mais do que salvaram o capitalismo da amea\u00e7a da revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria. Na maioria dos casos, tais experi\u00eancias terminarem em cat\u00e1strofes com a instaura\u00e7\u00e3o de regimes ditatoriais.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>O espontane\u00edsmo<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p>Em 1906, \u00e0 luz da Revolu\u00e7\u00e3o Russa de 1905, Rosa Luxemburgo publica o ensaio&nbsp;<em>Greve de Massas, partido e sindicatos<\/em>. Nele aponta que a experi\u00eancia russa mostrava a import\u00e2ncia da greve como arma pol\u00edtica. Naquele momento, os marxistas n\u00e3o conheciam outra forma radical de luta a n\u00e3o ser as antigas insurrei\u00e7\u00f5es prolet\u00e1rias com o levantamento de barricadas, tal como foi a Comuna de Paris (1871), a primeira tentativa da hist\u00f3ria de cria\u00e7\u00e3o e implanta\u00e7\u00e3o de um governo socialista.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais do que isso, a proposta de Rosa para o uso da greve se enfrentava diretamente com os dirigentes sindicais do SPD, que temiam os riscos de repres\u00e1lia contra os sindicatos e tamb\u00e9m perder sua autonomia diante do partido. \u00c9 nesse contexto que ela defende a a\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea das massas que, em sua opini\u00e3o,&nbsp;<em>\u201cdesempenha em todas as greves de massas na R\u00fassia um grande papel, seja como elemento ativador ou freio (\u2026). N\u00e3o porque o proletariado russo n\u00e3o seja \u2018escolarizado\u2019, mas porque revolu\u00e7\u00f5es n\u00e3o se deixam \u201cescolarizar\u2019\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse momento Rosa defende uma concep\u00e7\u00e3o diferente da apresentada por L\u00eanin sobre a concep\u00e7\u00e3o organizativa do partido revolucion\u00e1rio, e concluiu equivocadamente que o&nbsp;<em>\u201cultracentralismo leninista era uma transposi\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica dos princ\u00edpios blanquistas de organiza\u00e7\u00e3o dos c\u00edrculos conjurados ao movimento socialista das massas oper\u00e1rias\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo das d\u00e9cadas se abusou de forma ign\u00f3bil da imagem de Rosa como defensora da teoria do espontane\u00edsmo, frequentemente apresentada como oposta \u00e0 teoria de L\u00eanin sobre a necessidade do partido oper\u00e1rio de vanguarda com um programa rigorosamente delimitado.&nbsp; Normalmente, essa vers\u00e3o se apoia numa deliberada descontextualiza\u00e7\u00e3o do debate travado entre Rosa e L\u00eanin. A verdade \u00e9 que a defesa do espontane\u00edsmo na a\u00e7\u00e3o de massas foi tomado por Rosa como um enfrentamento \u00e0 burocratiza\u00e7\u00e3o e acomoda\u00e7\u00e3o do SPD e seus sindicatos, como explica Leon Trotsky:&nbsp;<em>\u201cA verdade, sem d\u00favida, que Rosa Luxemburgo op\u00f4s com paix\u00e3o o espontane\u00edsmo das a\u00e7\u00f5es de massas \u00e0 pol\u00edtica conservadora da dire\u00e7\u00e3o social-democrata, particularmente depois da revolu\u00e7\u00e3o de 1905. Esta oposi\u00e7\u00e3o era, do come\u00e7o ao fim, revolucion\u00e1ria e progressista. Rosa Luxemburgo compreendeu e come\u00e7ou a combater bem mais cedo do que L\u00eanin o papel de freio do aparelho ossificado do partido e dos sindicatos\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Tampouco Rosa relativizava a import\u00e2ncia do papel dirigente do partido oper\u00e1rio em meio a processos revolucion\u00e1rios. Como ela mesmo explicou:&nbsp;<em>\u201cA social-democracia \u00e9 a vanguarda mais esclarecida, com maior consci\u00eancia de classe do proletariado. Ela n\u00e3o pode e nem deve esperar com os bra\u00e7os cruzados a chegada da \u2018situa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria\u2019, esperar que aquele movimento espont\u00e2neo do povo caia do c\u00e9u. Ao contr\u00e1rio, ela deve, como sempre, antecipar o desenvolvimento das coisas e procurar aceler\u00e1-lo. Mas isso ela n\u00e3o consegue ao lan\u00e7ar no espa\u00e7o, no momento justo ou n\u00e3o-justo, a palavra-de-ordem de greve de massas, mas sobretudo ao esclarecer as camadas prolet\u00e1rias mais amplas a chegada inevit\u00e1vel desse per\u00edodo revolucion\u00e1rio, os momentos sociais internos que conduzem a isso e as consequ\u00eancias pol\u00edticas\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Obviamente, tudo isso n\u00e3o oculta o fato que haviam profundas diferen\u00e7as entre Rosa e L\u00eanin a respeito da concep\u00e7\u00e3o organizativa do partido. Naquele momento, existia um fecundo debate em todo movimento socialdemocrata, especialmente em sua ala mais revolucion\u00e1ria, a qual pertenciam Rosa e L\u00eanin, sobre um farto card\u00e1pio de temas te\u00f3ricos e program\u00e1ticos, entre eles, a forma mais adequada de organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria. Ao contr\u00e1rio de L\u00eanin, Rosa Luxemburgo defendia que o partido deveria educar e organizar a ala revolucion\u00e1ria do proletariado. Seria uma esp\u00e9cie de sele\u00e7\u00e3o preliminar da vanguarda em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s a\u00e7\u00f5es de massas. A concep\u00e7\u00e3o de L\u00eanin, por sua vez, n\u00e3o desprezava as poderosas explos\u00f5es espont\u00e2neas de massa, mas compreendia os seus&nbsp;limites: uma revolu\u00e7\u00e3o socialista vitoriosa n\u00e3o poderia ser improvisada por meio da pura espontaneidade. Era necess\u00e1ria uma dire\u00e7\u00e3o consciente para a vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A no\u00e7\u00e3o de Rosa se mostrou dramaticamente limitada em meio \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o alem\u00e3 de 1918. Contudo, no final de sua vida, como veremos mais adiante, Rosa tomaria uma s\u00e9rie de medidas pr\u00e1ticas que puseram por terra essa teoria, enquanto ela se aproximaria cada vez mais das ideias leninistas a respeito da dire\u00e7\u00e3o consciente da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1907, Rosa publica o livro&nbsp;<em>A<\/em>&nbsp;<em>Acumula\u00e7\u00e3o do Capital<\/em>, sua principal contribui\u00e7\u00e3o te\u00f3rica ao marxismo. A originalidade da obra reside na constata\u00e7\u00e3o de que o processo de reprodu\u00e7\u00e3o do capital necessita de um \u201cmeio n\u00e3o-capitalista\u201d \u2013 chamada por ela de \u201ceconomia natural\u201d \u2013 cuja fun\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 somente o escoadouro \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o capitalista, mas tamb\u00e9m meios de produ\u00e7\u00e3o, meios de consumo e m\u00e3o-de-obra. Em suma, para Rosa n\u00e3o havia \u201cuma capitalismo puro\u201d, pois ela percebe na sua an\u00e1lise hist\u00f3rica que o mundo n\u00e3o-capitalista tem significativa import\u00e2ncia na&nbsp; reprodu\u00e7\u00e3o ampliada do capital, no que se refere \u00e0 sua fun\u00e7\u00e3o de escoadouro ou na utiliza\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o tipicamente capitalista no&nbsp; processo de produ\u00e7\u00e3o. Assim sendo, a expans\u00e3o do capitalismo inclui&nbsp; o colonialismo e as destrutivas guerras coloniais da era contempor\u00e2nea, indispens\u00e1veis \u200b\u200bpara a sobreviv\u00eancia do sistema. Nesse sentido, a&nbsp;&nbsp;<em>A<\/em>&nbsp;<em>Acumula\u00e7\u00e3o do Capital&nbsp;<\/em>\u00e9 ainda hoje leitura indispens\u00e1vel para compreender o processo hist\u00f3rico da forma\u00e7\u00e3o capitalista nos pa\u00edses perif\u00e9ricos do sistema.<\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\"><strong>Baixe aqui<\/strong><strong><\/strong><\/h6>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.opiniaosocialista.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/A-Acumulacao-do-Capital_compressed.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">A Acumula\u00e7\u00e3o do Capital<\/a><\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>Primeira Guerra Mundial<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 bastante conhecida a luta travada por Rosa Luxemburgo contra o nacional-chauvinismo dos partidos sociais democrata na Primeira Guerra Mundial. Naquele momento, os principais partidos da II Internacional, decidem apoiar os governos burgueses e seus ex\u00e9rcitos na guerra imperialista. O abandono do internacionalismo prolet\u00e1rio em prol do apoio \u00e0s burguesias imperialistas significou o desmoronamento dessa organiza\u00e7\u00e3o como ferramenta de luta dos trabalhadores.<\/p>\n\n\n\n<p>A grande maioria dos l\u00edderes dos partidos socialistas acabaram votando a favor dos cr\u00e9ditos de guerra em seus pa\u00edses e os revolucion\u00e1rios foram reduzidos \u00e0 m\u00ednima express\u00e3o. &nbsp;Na Alemanha, o \u00fanico socialdemocrata que votou contra os cr\u00e9ditos de guerra, e ainda convocou os trabalhadores e soldados a apontar suas armas contra seu pr\u00f3prio governo, foi Karl Liebknecht. Todo o resto da socialdemocracia, nas palavras de Rosa Luxemburgo, que era integrante do&nbsp;<em>bureau<\/em>&nbsp;da Internacional, n\u00e3o passava de um \u201ccad\u00e1ver fedorento\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosa passou a defender e a luta pela constru\u00e7\u00e3o de uma nova Internacional que, em suas palavras,&nbsp;<em>\u201cse encarregue da dire\u00e7\u00e3o e unifica\u00e7\u00e3o da luta revolucion\u00e1ria contra o imperialismo\u201d<\/em>. Na sua concep\u00e7\u00e3o, a nova Internacional deveria eliminar as fraquezas da II Internacional, especialmente a autonomia excessiva gozada pelas se\u00e7\u00f5es nacionais. \u201c<em>A Internacional decide, em tempos de paz, sobre a t\u00e1tica das se\u00e7\u00f5es nacionais em quest\u00e3o de militarismo, pol\u00edtica colonial, pol\u00edtica comercial, festejo do 1\u00b0 de maio, al\u00e9m de toda a t\u00e1tica a ser seguida em tempos de guerra\u201d<\/em>, escreveu Rosa no&nbsp;<em>Folheto Junius<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Sua oposi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 guerra \u2013 que deveria se transformar em guerra revolucion\u00e1ria de classe, como defendia tamb\u00e9m L\u00eanin e Trotsky \u2013 lhe rendeu o c\u00e1rcere na Alemanha.&nbsp; Em 18 de fevereiro de 1915, foi detida e permaneceu na pris\u00e3o at\u00e9 fevereiro de 1916, e, com exce\u00e7\u00e3o de alguns meses entre fevereiro e julho de 1916, permaneceria encarcerada at\u00e9 outubro de 1918.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>Rosa Luxemburgo e a Revolu\u00e7\u00e3o Russa<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p>Outra deforma\u00e7\u00e3o muito esgrimida por reformistas \u00e9 de que Rosa Luxemburgo teria antevisto a degenera\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica da Revolu\u00e7\u00e3o Russa j\u00e1 nos seus primeiros meses da jovem rep\u00fablica sovi\u00e9tica. Tal \u201cvers\u00e3o dos fatos\u201d se apoia no famoso artigo&nbsp;<em>A Revolu\u00e7\u00e3o Russa<\/em>, escrito por Rosa em setembro de 1918.&nbsp; No momento em que elaborou o artigo, Rosa se encontrava isolada h\u00e1 mais de um ano nas pris\u00f5es alem\u00e3s, com pouca informa\u00e7\u00e3o sobre o que de fato ocorria na R\u00fassia. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil imaginar a imensa campanha de mentiras e cal\u00fanias movida na \u00e9poca pela imprensa burguesa contra os bolcheviques, cujo objetivo era impedir que os oper\u00e1rios da Europa pudessem conhecer os reais acontecimentos revolucion\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Consciente de suas limita\u00e7\u00f5es, Rosa optou em n\u00e3o publicar o artigo, mesmo ap\u00f3s sair da pris\u00e3o. Ali\u00e1s, o texto s\u00f3 seria publicado em 1922 por Paul Levi, antigo dirigente do Partido Comunista alem\u00e3o que havia sido expulso da organiza\u00e7\u00e3o. \u00c9 importante destacar que, naquele momento, Levi havia iniciado um giro \u00e0 direita e estava em aberta ruptura com a Revolu\u00e7\u00e3o Russa. Anos mais tarde se reintegraria \u00e0 socialdemocracia.<\/p>\n\n\n\n<p>O escrito de Rosa \u00e9 uma exalta\u00e7\u00e3o da Revolu\u00e7\u00e3o Russa, considerada por ela \u201co acontecimento mais poderoso da Guerra Mundial\u201d. Rosa critica de forma contundente as cal\u00fanias lan\u00e7adas pela socialdemocracia alem\u00e3 contra a revolu\u00e7\u00e3o de 1917, ao mesmo tempo em que denuncia a concep\u00e7\u00e3o oportunista de Kautsky e dos mencheviques que consideravam que a \u00fanica revolu\u00e7\u00e3o poss\u00edvel na R\u00fassia seria uma revolu\u00e7\u00e3o burguesa, uma vez que&nbsp;<em>\u201csupunham que a R\u00fassia, por ser um pa\u00eds economicamente atrasado e predominantemente agr\u00e1rio, n\u00e3o estava maduro para a revolu\u00e7\u00e3o social e para a ditadura do proletariado\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O manuscrito problematiza tr\u00eas pontos essenciais: a autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos que, para a autora, seria um meio da burguesia manter seu dom\u00ednio sobre as nacionalidades n\u00e3o-russas; a partilha de terras pelos camponeses, que na sua avalia\u00e7\u00e3o poderia resultar na forma\u00e7\u00e3o de uma nova camada social inimiga da revolu\u00e7\u00e3o. Ou, em suas palavras:&nbsp;<em>\u201cap\u00f3s as tomadas das terras pelos camponeses, o inimigo que se ergue contra toda socializa\u00e7\u00e3o da agricultura \u00e9 uma massa enorme (\u2026) de camponeses, que defender\u00e3o com todas suas for\u00e7as suas propriedades recentemente adquiridas contra todos os ataques do poder socialista\u201d<\/em>; e, finalmente, sua posi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica sobre a dissolu\u00e7\u00e3o da Assembleia Constituinte efetuada pelos bolcheviques em 1918. Para ela:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cO sistema socialista social s\u00f3 deve ser, e s\u00f3 pode ser, um produto hist\u00f3rico, que emerge de suas pr\u00f3prias experi\u00eancias, no decorrer de sua realiza\u00e7\u00e3o, como resultado do desenvolvimento da hist\u00f3ria viva (\u2026). No entanto, se este \u00e9 o caso, \u00e9 evidente que o socialismo n\u00e3o pode ser decretado, por sua pr\u00f3pria natureza, ou introduzido por um \u00fanico caso. Requer um n\u00famero de medidas de for\u00e7a (contra propriedade, etc.) como um requisito. O negativo, a destrui\u00e7\u00e3o, pode ser decretado; o construtivo, o positivo n\u00e3o\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo intelectuais de origem trotskista, como Michael L\u00f6wy e Olivier Besancenot, ligados ao Secretariado Unificado, defendem que o&nbsp;<a href=\"https:\/\/rosaluxspba.org\/rosa-luxemburgo-a-revolucao-deve-agir-na-base\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">artigo de Rosa<\/a>&nbsp;teria \u201calcance prof\u00e9tico\u201d a respeito da degenera\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica stalinista que abra\u00e7aria a R\u00fassia uma d\u00e9cada depois. Essa posi\u00e7\u00e3o se apoia em uma indisfar\u00e7\u00e1vel tese de que o stalinismo teria sido o filho bastardo do bolchevismo (ver mais a<a href=\"http:\/\/outubrorevista.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/Revista-Outubro-Edic%CC%A7a%CC%83o-3-Artigo-06.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">qui<\/a>).<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, os autores partem de uma total descontextualiza\u00e7\u00e3o sobre as condi\u00e7\u00f5es em que se encontrava Rosa Luxemburgo no momento em que formulou o texto. Tamb\u00e9m n\u00e3o falam da oposi\u00e7\u00e3o contundente dos amigos e camaradas de Rosa, como Clara Zetkin, que sustentavam que o manuscrito escrito n\u00e3o refletia suas opini\u00f5es nos \u00faltimos meses de vida. Ali\u00e1s, todos os artigos escritos por ela poucos meses depois, em meio \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o alem\u00e3, confirmam totalmente essa hip\u00f3tese.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>A revolu\u00e7\u00e3o alem\u00e3<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p>A derrota da Alemanha na Primeira Guerra Mundial, colocou a revolu\u00e7\u00e3o na ordem do dia. Em 4 de novembro, trabalhadores e marinheiros organizados em conselhos tomam o poder em Kiehl. Logo, a revolu\u00e7\u00e3o se espalhava pa\u00eds afora. Em 9 de novembro, mobiliza\u00e7\u00f5es de rua derrubam o imperador. Os conselhos oper\u00e1rios e de soldados se multiplicam, enquanto as pris\u00f5es s\u00e3o tomadas pelo povo e os presos pol\u00edticos libertados. Com a abdica\u00e7\u00e3o do imperador, Friedrich Ebert, l\u00edder da socialdemocracia, assume a chefia do governo. Ainda em novembro, o USPD (o Partido Social-Democrata Independente) realiza um acordo para fazer parte do seguinte governo, com a participa\u00e7\u00e3o do l\u00edder Hugo Haase. Esse partido centrista romperia com o governo em 28 de dezembro, mas na pr\u00e1tica atuava conjuntamente com o SPD nos conselhos oper\u00e1rios para frear o desenvolvimento da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A marcha da revolu\u00e7\u00e3o alem\u00e3 e o forte senso de realidade fariam com que Rosa Luxemburgo mudasse totalmente de posi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao escrito&nbsp;<em>A Revolu\u00e7\u00e3o Russa<\/em>. No artigo&nbsp;<em>A Assembleia Nacional<\/em>, publicado em&nbsp;<em>Die Rote Fahne (A Bandeira Vermelha)<\/em>, jornal da Liga Espartaquista, Rosa se opunha vivamente a uma Assembleia eleita por sufr\u00e1gio universal, como propunha o governo social-democrata. Defendia, em seu lugar, que os conselhos de oper\u00e1rios e soldados tomassem o poder para avan\u00e7ar na revolu\u00e7\u00e3o socialista na Alemanha:&nbsp;<em>\u201cO que se ganha mediante a esse rodeio covarde da Assembleia nacional? Fortalece-se a posi\u00e7\u00e3o burguesa, enfraquece-se e confunde-se atrav\u00e9s de ilus\u00f5es vazias o proletariado\u201d,&nbsp;<\/em>escreveu.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais adiante denunciava:&nbsp;<em>\u201cAgora estamos no meio da revolu\u00e7\u00e3o e a Assembleia Nacional \u00e9 um basti\u00e3o contrarrevolucion\u00e1rio erigido contra o proletariado revolucion\u00e1rio\u201d.&nbsp;<\/em>E aponta qual deveria ser a pol\u00edtica dos revolucion\u00e1rios: \u201c<em>Um assalto das massas nas portas da Assembleia Nacional e o punho cerrado do proletariado revolucion\u00e1rio erguido do meio da assembleia agitando a bandeira cujas letras de fogo dizem: Todo o poder para os conselhos \u2013 esta \u00e9 nossa participa\u00e7\u00e3o no Assembleia Nacional!\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Essa posi\u00e7\u00e3o foi defendida por ela e Karl Liebknecht no 1\u00b0 Congresso dos Conselhos de oper\u00e1rios e soldados em Berlim, realizado entre 16 e 20 de dezembro de 1918.&nbsp; Na ocasi\u00e3o, embora ultraminorit\u00e1rios, a posi\u00e7\u00e3o defendida pela Liga Espartaquista resumia-se em: 1) Derrubar o governo chefiado pelo socialdemocrata Ebert. 2) Desarmamento de todas as tropas que n\u00e3o reconheciam o poder supremo dos conselhos oper\u00e1rios. 3) Desarmar toda a guarda branca e promover a imediata constitui\u00e7\u00e3o da guarda vermelha. 4) Rejeitar a Assembleia Nacional como um atentado \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Naqueles mesmo dias, a Liga Espartaquista, que atuava como uma fra\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria de esquerda no interior do USPD (Partido Social-Democrata Independente), e o grupo Comunistas Internacionalistas da Alemanha (IKD), fundam o Partido Comunista da Alemanha (KPD, na sigla em alem\u00e3o).<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>Assassinada pela burguesia e pela socialdemocracia<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p>Atemorizado, o governo socialdemocrata oferece liberdade de a\u00e7\u00e3o \u00e0 guarda branca \u2013 formada por antigos oficiais monarquistas \u2013 e para os bandos paramilitares de ultradireita combaterem o rec\u00e9m-criado KPD. Em 29 de dezembro de 1918, Gustav Noske, l\u00edder socialdemocrata, \u00e9 nomeado para chefiar a repress\u00e3o em Berlim, observando:&nbsp;<em>\u201calgu\u00e9m tem que ser o c\u00e3o sanguin\u00e1rio\u201d<\/em>. Assim, a liquida\u00e7\u00e3o dos l\u00edderes do KPD j\u00e1 era vista como condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para controlar o processo revolucion\u00e1rio desatado em novembro.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 4 de janeiro, uma tentativa precipitada de derrubar o governo de Ebert, efetuada por Karl Liebknecht e sob oposi\u00e7\u00e3o de Rosa e em franca desobedi\u00eancia a orienta\u00e7\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o comunista, apressa o terror branco que visava eliminar a c\u00fapula comunista. As tropas oficiais e as organiza\u00e7\u00f5es paramilitares agem com extrema brutalidade e colocam a pr\u00eamio as cabe\u00e7as de Rosa, Liebknecht e outros l\u00edderes da Liga Espartaquista. A fragilidade da jovem organiza\u00e7\u00e3o comunista sequer permite que Rosa e&nbsp;Liebknecht&nbsp; possam fugir de Berlim e viveram na clandestinidade, tal como L\u00eanin nos meses de rea\u00e7\u00e3o de 1917. Em 15 de janeiro, ambos s\u00e3o presos em seu \u00faltimo ref\u00fagio. Liebknecht \u00e9 morto a tiros e Rosa \u00e9 linchada por um grupo paramilitar, tendo seu corpo atirado em um canal.<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cFoi a burguesia de Berlim, da Alemanha e do mundo \u2013 os banqueiros, homens de neg\u00f3cio, oficiais \u2018homens respeit\u00e1veis\u2019 \u2013 que de fato cometeram os assassinatos. Mas foi o governo Ebert-Sheidemann, os Socialistas em Ascen\u00e7\u00e3o, detestados por tanto tempo pela imprensa capitalista Aliada que \u2013 por suprimir a revolta da classe trabalhadora alem\u00e3 com o aux\u00edlio das tropas do Imperador (Kaiser) -, permitiram que a turba atirasse nas costas de Karl Liebknecht e atropelasse Rosa Luxemburgo. E a imprensa capitalista aplaude\u201d<\/em>, escreveria, pouco depois, John Reed, jornalista norte-americano que aderiu \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o Russa.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosa Luxemburgo n\u00e3o foi uma militante infal\u00edvel, cometeu muitos equ\u00edvocos, mas teve coragem de tentar corrigi-los ao mesmo tempo que corajosamente ousou a enfrentar os \u201cpapas\u201d da II Internacional, reformistas e centristas de toda sorte, com sua f\u00e9 inabal\u00e1vel na revolu\u00e7\u00e3o socialista. Certamente, o atraso na cria\u00e7\u00e3o de uma organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, com um programa delimitado e baseado no centralismo democr\u00e1tico \u2013 um partido revolucion\u00e1rio \u00e0 altura dos grandes acontecimentos da luta de classes -, pesou decisivamente no seu tr\u00e1gico fim. Seu assassinato representou uma ruptura do elo entre sua gera\u00e7\u00e3o com a nova vanguarda que posteriormente seria atra\u00edda pelo prest\u00edgio da Revolu\u00e7\u00e3o Russa ao KPD. Sobre isso, John Reed afirma que Rosa era&nbsp;<em>\u201cum intelecto que, como L\u00eanin na R\u00fassia, poderia ter tido um valor incalcul\u00e1vel no estabelecimento de uma nova ordem na Alemanha, da qual Karl Liebknecht foi o profeta flamejante.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Mas suas car\u00eancias e os aspectos fr\u00e1geis de sua elabora\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de modo algum eram preponderantes, como defende Leon Trotsky em um artigo escrito em 1935. Reivindicando a milit\u00e2ncia e a contribui\u00e7\u00e3o de Rosa para o arsenal pol\u00edtico e te\u00f3rico da IV Internacional, Trotsky afirma: \u201c<em>Se deixarmos de lado tudo aquilo que \u00e9 acess\u00f3rio e j\u00e1 foi ultrapassado pela evolu\u00e7\u00e3o, temos o direito de colocar nosso trabalho pela IV Internacional sob o signo dos \u2018tr\u00eas L\u2019, ou seja, n\u00e3o apenas sob o de L\u00eanin, mas igualmente sob o de Luxemburgo e Liebknecht\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Artigo originalmente publicado no centen\u00e1rio da morte de Rosa Luxemburgo<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: Jeferson Choma | Pouco mais de um s\u00e9culo depois de seu assassinato realizado pela socialdemocracia alem\u00e3, sob o vatic\u00ednio dos capitalistas da Europa, pululam artigos e ensaios que apresentam Rosa Luxemburgo como uma marxista heterodoxa, pacifista que confiava na democracia e denunciava o suposto crescente autoritarismo da Revolu\u00e7\u00e3o Russa. 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