{"id":80290,"date":"2025-01-21T15:50:18","date_gmt":"2025-01-21T15:50:18","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=80290"},"modified":"2025-01-21T15:55:20","modified_gmt":"2025-01-21T15:55:20","slug":"ainda-estou-aqui-o-papel-da-memoria-no-fazer-da-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2025\/01\/21\/ainda-estou-aqui-o-papel-da-memoria-no-fazer-da-historia\/","title":{"rendered":"\u201cAinda estou aqui\u201d: o papel da mem\u00f3ria no \u201cfazer da Hist\u00f3ria\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p>Por: Wilson Hon\u00f3rio<\/p>\n\n\n\n<p>Para come\u00e7ar, \u00e9 preciso dizer que, por motivos diversos, este \u00e9 um daqueles textos que \u201cganhou vida pr\u00f3pria\u201d, j\u00e1 tendo sido escrito, reescrito e quase publicado umas tantas vezes desde novembro. Bater o martelo, agora, evidentemente, tem a ver com a&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.opiniaosocialista.com.br\/fernanda-torres-vence-globo-de-ouro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">premia\u00e7\u00e3o de Fernanda Torres<\/a>, como Melhor Atriz em Filme de Drama, na badalada cerim\u00f4nia do Globo de Ouro, por sua impressionante interpreta\u00e7\u00e3o de Eunice Paiva, no filme dirigido por Walter Salles.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta introdu\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria porque, como ver\u00e3o, o artigo n\u00e3o tem como objetivo central homenagear Fernandinha e seu inquestion\u00e1vel talento nem discutir a premia\u00e7\u00e3o em si, apesar de que, acredito, seja preciso fazer alguns coment\u00e1rios iniciais sobre estes temas, j\u00e1 que o reconhecimento pela institui\u00e7\u00e3o que representa a imprensa estrangeira em Hollywood diz bastante, tanto sobre o filme quanto sua import\u00e2ncia no atual momento.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Um pr\u00eamio contra o medo<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>No discurso de agradecimento, uma Fernanda Torres, visivelmente emocionada, n\u00e3o escondeu a sincera surpresa de receber o pr\u00eamio tendo como concorrentes uma verdadeira constela\u00e7\u00e3o de estrelas hollywoodianas \u2013 Angelina Jolie, Nicole Kidman, Tilda Swinton, Kate Winslet e Pamela Anderson \u2013, dedicando-o \u00e0 sua m\u00e3e, Fernanda Montenegro, que concorreu \u00e0 mesma estatueta, 25 anos atr\u00e1s, pelo seu magistral desempenho em \u201cCentral do Brasil\u201d (1999), tamb\u00e9m dirigido por Walter Salles.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, pra mim, o trecho mais significativo de seu breve discurso foi o que tocou naquilo que acredito ser ess\u00eancia do filme e, de certa forma, est\u00e1 no centro daquilo que gostaria de discutir desde o primeiro rascunho.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>Isso \u00e9 uma prova que a Arte pode sobreviver na vida, mesmo durante tempos dif\u00edceis, assim como os que Eunice Paiva passou. Com tanto problema hoje em dia no mundo, tanto medo, esse \u00e9 um filme que nos ajudou a pensar em como sobreviver em tempos dif\u00edceis como esses<\/em>\u201d, disse Fernanda Torres, estabelecendo uma ponte entre passado e presente, entre Arte e Hist\u00f3ria, entre posicionamento pol\u00edtico, fazer art\u00edstico e escolhas pessoais.<\/p>\n\n\n\n<p>Para continuar, de imediato, tenho que confessar que sou bastante avesso a este tipo de premia\u00e7\u00e3o. Da mesma forma que sou incapaz de responder objetivamente \u00e0quelas listas com \u201cos dez melhores filmes, m\u00fasicas, livros etc.\u201d ou me mantenho distante do clima de \u201ctorcida de Copa\u201d toda vez que uma produ\u00e7\u00e3o brasileira concorre a qualquer coisa \u201cl\u00e1 fora\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Digo isto porque, convicto que s\u00e3o as \u201ccoisas do mundo\u201d e a din\u00e2mica da luta de classes e conflitos sociais que reverberam em todos aspectos da vida, acredito que \u00e9 preciso ir para al\u00e9m da pura subjetividade para entender o impacto que \u201cAinda estou aqui\u201d est\u00e1 tendo mundo afora e, particularmente, nos Estados Unidos. Algo que tem tudo a ver com os \u201ctempos dif\u00edceis\u201d mencionados por Fernanda.<\/p>\n\n\n\n<p>Afinal, aqui no Brasil, n\u00e3o \u00e9 qualquer produ\u00e7\u00e3o que tem a capacidade de levar mais de 3 milh\u00f5es aos cinemas. E \u00e9 ineg\u00e1vel (e deve ser saudado\u2026) o fato de que isto esteja acontecendo tendo como \u201cpano de fundo\u201d n\u00e3o s\u00f3 pelo per\u00edodo Bolsonaro, mas principalmente sua continuidade, atrav\u00e9s de uma ultradireita que n\u00e3o se cansa de dar sinais de vida, incidindo, inclusive, nas posturas e pol\u00edticas do atual governo.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 nos Estados Unidos, a premia\u00e7\u00e3o aconteceu \u00e0s v\u00e9speras do retorno do asqueroso Donald Trump \u00e0 presid\u00eancia e num contexto em que Hollywood e a ind\u00fastria do entretenimento norte-americana v\u00eam sendo obrigados a se \u201creinventarem\u201d, principalmente depois da avalanche de esc\u00e2ndalos e den\u00fancias que tem varrido Hollywood e arredores, particularmente desde que o movimento \u201cMe Too\u201d (\u201cEu tamb\u00e9m\u201d), em 2017, escancarou a naturaliza\u00e7\u00e3o do ass\u00e9dio e da viol\u00eancia sexual nos bastidores das produ\u00e7\u00f5es art\u00edsticas no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Lembrar disto \u00e9 importante porque \u00e9 preciso que se saiba que a hist\u00f3ria recente do \u201cGlobo de Ouro\u201d foi profundamente impactada pelas muitas ramifica\u00e7\u00f5es desde processo que, aberto pelas mulheres, foi ampliado por LGBTI+, negros(as), latinos(as) e demais setores marginalizados da sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 2021, o pr\u00eamio era concedido pela Associa\u00e7\u00e3o da Imprensa Estrangeira em Hollywood (HFPA, na sigla em ingl\u00eas) e considerado um dos mais prestigiados do mundo, servindo como um contraponto \u201ccultural e art\u00edstico\u201d para a celebra\u00e7\u00e3o da bilheteria, representada pelo Oscar. Uma hist\u00f3ria que caiu por terra de forma lament\u00e1vel, quando veio \u00e0 tona que n\u00e3o havia sequer uma \u00fanica pessoa negra dentre os 87 votantes da HFPA e que, al\u00e9m disso, muitos deles recebiam \u201cmimos\u201d dos est\u00fadios para definirem seus votos.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois disto e, tamb\u00e9m, de enfrentar o boicote de v\u00e1rios artistas (com alguns deles, inclusive, devolvendo pr\u00eamios recebidos em anos anteriores), em 2023, a premia\u00e7\u00e3o sofreu uma completa reestrutura\u00e7\u00e3o; exemplar, diga-se de passagem, dos tempos neoliberais em que vivemos: a HFPA foi dissolvida e uma empresa privatizou a premia\u00e7\u00e3o, criando a \u201cGlobe Golden Foundation\u201d e passando a investir na \u201cdiversidade\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, o j\u00fari \u00e9 composto por 334 jornalistas especializados em entretenimento de 85 pa\u00edses (25 deles brasileiros), com 47% de mulheres e 60% de diversidade racial e \u00e9tnica (26,3% latinos, 13,3% asi\u00e1ticos, 11% negros e 9% de pessoas do Oriente M\u00e9dio).<\/p>\n\n\n\n<p>Neste contexto, \u00e9 evidente que, para al\u00e9m da pesad\u00edssima campanha promocional que a fam\u00edlia Salles e a Globo (produtora do filme) est\u00e3o fazendo, \u201cAinda estou aqui\u201d despertou simpatias particularmente dentre aqueles e aquelas que est\u00e3o minimamente sintonizados com a encruzilhada em que vivemos e viram na possibilidade de destaque dada pela premia\u00e7\u00e3o uma forma de mandar um recado para os conservadores, reacion\u00e1rios e xen\u00f3fobos de plant\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Algo que, inclusive, tamb\u00e9m pode se repetir no Oscar, no in\u00edcio de mar\u00e7o. Mas, isto, de forma alguma, desmerece a premia\u00e7\u00e3o de Fernanda. E muito menos aquilo que faz de \u201cAinda estou aqui\u201d, na minha opini\u00e3o, um filme fundamental para nos ajudar a pensar sobre os bisonhos tempos em que vivemos.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Lembrar para que n\u00e3o se repita<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de ser um belo filme, extremamente bem elaborado, \u201cAinda estou aqui\u201d merece e precisa ser visto principalmente por aquilo que \u00e9 sua pr\u00f3pria ess\u00eancia: a den\u00fancia das profundas e irrepar\u00e1veis dores provocadas pelo regime militar instaurado em 1964 e a luta, ainda necess\u00e1ria, pelo resgate da mem\u00f3ria, da justi\u00e7a e da verdade em rela\u00e7\u00e3o a todos e todas que foram vitimados, direta e indiretamente, pela ditadura. Um processo que implica, pra come\u00e7ar, na puni\u00e7\u00e3o dos agentes do regime.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma necessidade cuja import\u00e2ncia foi novamente escancarada pela intentona golpista planejada por Bolsonaro, militares e pol\u00edticos que nada mais s\u00e3o do que excresc\u00eancias remanescentes do regime militar, mas tamb\u00e9m \u00e9 reafirmada a cada segundo que um dos antigos agentes da ditadura caminha impune e livre pela sociedade, que um dos membros da Pol\u00edcia Militar volta suas armas contra a popula\u00e7\u00e3o negra ou perif\u00e9rica, ou sempre que um adepto da ultradireita pratica revisionismo hist\u00f3rico para exaltar o regime militar.<\/p>\n\n\n\n<p>Pra l\u00e1 de oportuno num momento como este, \u201cAinda estou aqui\u201d, contudo, est\u00e1 longe de ser uma unanimidade ou mesmo isento de cr\u00edticas. Deixando de lado a campanha de boicote da ultradireita (cujo evidente fracasso tamb\u00e9m precisa ser festejado), parte do debate sobre o filme tem girado em torno do \u201cenfoque\u201d dado pelo diretor Walter Salles, tanto no que se refere \u00e0 \u201cforma\u201d do filme quanto \u00e0 sua narrativa, tidas como exageradamente centradas nas dimens\u00f5es \u201cfamiliar\u201d e pessoal da hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Algo que merece ser discutido, at\u00e9 mesmo porque acredito que a grande for\u00e7a do filme e a forma como ele tem conseguido dialogar com os espectadores, inclusive de outros pa\u00edses, t\u00eam muito a ver com este enfoque, inclusive por ter resultado em um filme totalmente apoiado na interpreta\u00e7\u00e3o de atores e atrizes que, nas palavras de Fernanda Torres, em uma entrevista, tiveram que descobrir \u201co poder de voc\u00ea conter uma emo\u00e7\u00e3o e talvez deixar o p\u00fablico completar ela por voc\u00ea\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>\u201cMem\u00f3ria, justi\u00e7a e verdade\u201d: substantivos femininos<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Como se sabe, o filme \u00e9 baseado nas mem\u00f3rias de Eunice Paiva (1929-2018), mulher de Rubens Paiva (1929-1971), um engenheiro civil e deputado federal, pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), cassado em 1964, assassinado sob brutal tortura, entre os dias 20 e 22 de janeiro de 1971, depois de ser sequestrado de sua casa e, ent\u00e3o, dado como \u201cdesaparecido\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Baseado no livro hom\u00f4nimo, lan\u00e7ado em 2015, de Marcelo Rubens Paiva (filho do casal e tamb\u00e9m autor do excelente \u201cFeliz Ano Velho\u201d), o filme acompanha a fam\u00edlia entre o per\u00edodo imediatamente anterior ao \u201cdesaparecimento\u201d de Paiva e a publica\u00e7\u00e3o do relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade (CNV), em dezembro de 2014, passando pelo ano 1996, quando, 25 anos ap\u00f3s o assassinato, Eunice finalmente recebeu o atestado de \u00f3bito de seu marido.<\/p>\n\n\n\n<p>Um primeiro \u201cm\u00e9rito\u201d do filme \u00e9 exatamente manter Eunice como centro da narrativa e n\u00e3o apenas como a \u201cmulher de Rubens Paiva\u201d (interpretado pelo sempre excelente Selton Mello).<\/p>\n\n\n\n<p>Exatamente por isso, a narrativa apenas menciona passagens da trajet\u00f3ria do pol\u00edtico e empres\u00e1rio, t\u00edpico exemplar de uma classe m\u00e9dia (alta, diga-se de passagem) e nacionalista, cujo papel na luta contra a ditadura se deu tanto atrav\u00e9s de seu famoso discurso, na R\u00e1dio Nacional, quando o golpe ainda estava em andamento, no dia 1\u00ba de abril de 1964, conclamando trabalhadores e estudantes a resistirem (mesmo que no marco da \u201clegalidade\u201d), quanto pela forma que, nos anos seguintes, se empenhou para proteger perseguidos e exilados pol\u00edticos.<\/p>\n\n\n\n<p>A interpreta\u00e7\u00e3o de Fernanda Torres \u00e9 fundamental em \u201cAinda estou aqui\u201d exatamente porque ela d\u00e1 um profundo senso de humanidade \u00e0s profundas transforma\u00e7\u00f5es que ocorreram na vida de Eunice ap\u00f3s o \u201cdesaparecimento\u201d de seu marido.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma mulher desde sempre antenada, mas que, apesar de nunca ter sido insens\u00edvel \u00e0 luta pol\u00edtica e social ou submissa \u00e0s \u201cregras sociais\u201d, vivia dentro da \u201cbolha de aliena\u00e7\u00e3o\u201d caracter\u00edstica de sua localiza\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma \u201cbolha\u201d, no filme, simbolizada pela casa e o ambiente familiar, n\u00e3o s\u00f3 distanciados das verdadeiras e profundas agruras enfrentadas pela maioria da popula\u00e7\u00e3o, como tamb\u00e9m imperme\u00e1veis a umas tantas outras mazelas de nossa sociedade, algo particularmente sintom\u00e1tico na \u201cpresen\u00e7a quase invis\u00edvel\u201d da empregada dom\u00e9stica negra, tratada \u201ccomo se fosse da fam\u00edlia\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Na vida real, essa hist\u00f3ria foi esfacelada e remoldada por experi\u00eancias que incluem os 12 dias em que esteve presa e incomunic\u00e1vel nos por\u00f5es da ditadura; os anos de buscas e lutas; o per\u00edodo (entre 1971 e 1984) que sua fam\u00edlia esteve sob vigil\u00e2ncia dos militares; ou, ainda, da dor e aus\u00eancia permanentes causadas por um corpo nunca achado.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste sentido, Eunice est\u00e1 dentre aquelas que literalmente transformaram \u201cluto em luta\u201d. Mulheres de diferentes classes e setores sociais, como Clarice Herzog, Thereza Fiel, Ana Dias e Zuzu Angel (respectivamente, as vi\u00favas do jornalista Vladimir Herzog e dos oper\u00e1rios Manuel Fiel Filho e Santo Dias da Silva, e a m\u00e3e de Stuart Angel), que tiveram que reinventar suas vidas e se colocarem na linha de frente da luta por \u201cmem\u00f3ria, verdade e justi\u00e7a\u201d em rela\u00e7\u00e3o aos crimes da ditadura.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma luta que, na vida de Eunice, tamb\u00e9m implicou no retorno \u00e0 universidade, em 1973, onde se formou em Direito (aos 48 anos), primeiro com o objetivo de travar melhor sua batalha por mem\u00f3ria e justi\u00e7a; depois, para atuar como uma das principais defensoras dos povos origin\u00e1rios, suas terras e direitos.<\/p>\n\n\n\n<p>No filme, alguns desses fatos s\u00e3o apenas tangenciados. Outros, sequer s\u00e3o mencionados. E isto tamb\u00e9m n\u00e3o dep\u00f5e contra a produ\u00e7\u00e3o. Pelo contr\u00e1rio. Se \u00e9 verdade que \u00e9 \u201cbaseado em fatos reais\u201d, n\u00e3o s\u00e3o exatamente os \u201cfatos\u201d (ou a \u201ca\u00e7\u00e3o\u201d, falando em termos cinematogr\u00e1ficos) nem os detalhes das vidas dos personagens ou da Hist\u00f3ria que fazem de \u201cAinda estou aqui\u201d um grande filme.<\/p>\n\n\n\n<p>Sua for\u00e7a decorre da forma como ele nos \u201cajuda a pensar\u201d sobre uma outra coisa: o papel da mem\u00f3ria na constru\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria Hist\u00f3ria. Algo constru\u00eddo com enorme carga po\u00e9tica, at\u00e9 mesmo porque, logo Eunice Paiva, que tanto lutou pela preserva\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria, viveu seus \u00faltimos anos sob o impacto do Alzheimer, cujo principal sintoma \u00e9 exatamente a perda das lembran\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Sem mem\u00f3ria, a Hist\u00f3ria fica \u00e0 deriva<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Estou dentre aqueles que acredita que uma das maiores for\u00e7as do cinema \u00e9 sua capacidade de contar hist\u00f3rias atrav\u00e9s de imagens, palavras e sons que ganham significados e sentidos que v\u00e3o para muito al\u00e9m do \u00f3bvio e do literal, nos possibilitando, independentemente do per\u00edodo que tratem, refletir sobre passado, presente e futuro ou nos fazendo mergulhar na fantasia e na fic\u00e7\u00e3o para pensarmos sobre a realidade e a humanidade.<\/p>\n\n\n\n<p>E \u00e9 neste sentido que considero \u201cAinda estou aqui\u201d um filme necess\u00e1rio, belo e muito bem sucedido. Ele consegue partir de uma hist\u00f3ria real, de uma experi\u00eancia concreta, para discutir algo muito mais profundo, sintetizado de forma extremamente po\u00e9tica nas sequ\u00eancias que abrem e fecham o filme.<\/p>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio, vemos uma Eunice \u201c\u00e0 deriva\u201d, boiando no mar, enquanto um helic\u00f3ptero (quem sabe conduzindo um corpo que seria jogado no mar\u2026) sobrevoa um Rio de Janeiro que \u00e9 um verdadeiro \u201ccart\u00e3o-postal\u201d, que serve de pano de fundo para a vida de uma fam\u00edlia que, como tantas outras de seu estrato social, vive numa bolha, como as tantas outras criadas pelos movimentos do \u201cmar da Hist\u00f3ria\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma fam\u00edlia, em suma, que, apesar de afetada pela ditadura e se opondo ao regime, tamb\u00e9m, em grande medida, vive \u201c\u00e0 deriva\u201d da Hist\u00f3ria, deixando o \u201cbarco passar\u201d, como que tentando fugir da mem\u00f3ria do passado, em nome da manuten\u00e7\u00e3o de uma sensa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a, harmonia e conforto cuja fragilidade est\u00e1 prestes a ser demonstrada de forma cruel e violenta.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas \u00faltimas cenas, iluminadas pela fabulosa e tocante interpreta\u00e7\u00e3o de Fernanda Montenegro, temos uma Eunice, com 85 anos, novamente \u201c\u00e0 deriva\u201d. Mas, agora, em fun\u00e7\u00e3o do conv\u00edvio h\u00e1 uma d\u00e9cada com Alzheimer.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma mulher cujo olhar perdido e alheio ao mundo ganha vida e for\u00e7a num lampejo, despertado pelo notici\u00e1rio da TV, anunciando a divulga\u00e7\u00e3o do relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o da Verdade (para o qual ela contribuiu imensamente) que, baseado em 1.200 depoimentos, documentou, com terr\u00edveis e dolorosos detalhes, os crimes contra a humanidade cometidos pela ditadura e seus agentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Um momento fabuloso em termos cinematogr\u00e1ficos, inclusive porque \u00e9 tamb\u00e9m nesta sequ\u00eancia que, atrav\u00e9s de um jogo de c\u00e2meras, vemos o filho Marcelo (Antonio Saboia) como \u00fanica \u201ctestemunha\u201d da rea\u00e7\u00e3o de Eunice diante do notici\u00e1rio. S\u00f3 ele \u201cpercebe\u201d que, por um segundo, sua m\u00e3e ancorou em algum porto seguro do qual pode rever o \u201cmar de mem\u00f3rias\u201d que, naquele momento, parecem explodir em seu olhar diante da TV.<\/p>\n\n\n\n<p>Um di\u00e1logo de c\u00e2meras, express\u00f5es e olhares que, metaforicamente, prenuncia a escrita e o pr\u00f3prio t\u00edtulo do livro. Marcelo \u201cv\u00ea\u201d que Eunice ainda \u201cest\u00e1 aqui\u201d. N\u00e3o s\u00f3 para al\u00e9m do Alzheimer. Para al\u00e9m dela pr\u00f3pria. Para al\u00e9m da Hist\u00f3ria. Ela \u201cest\u00e1\u201d, ao mesmo tempo, como mem\u00f3ria dos crimes cometidos pela ditadura e como importante agente para que essa mem\u00f3ria n\u00e3o fosse apagada, como tentaram fazer com seu companheiro, ao jog\u00e1-lo no mar.<\/p>\n\n\n\n<p>Simbolicamente, \u00e9 neste momento que o livro nasce. E foi esta \u201cpresen\u00e7a ausente\u201d que Salles conseguiu transpor para as telas, como um lembrete de que, assim como todos e todas demais que tiveram suas vidas marcadas ou ceifadas pela ditadura, Eunice s\u00f3 continuar\u00e1 \u201caqui\u201d, sua vida s\u00f3 continuar\u00e1 fazendo sentido, caso sua mem\u00f3ria seja preservada. Caso sua luta n\u00e3o seja esquecida.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Que venham outras mem\u00f3rias\u2026<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Algo que chamou a aten\u00e7\u00e3o e provocou cr\u00edticas de muita gente que j\u00e1 viu o filme tem a ver com as escolhas do diretor para contar esta hist\u00f3ria, a come\u00e7ar por foc\u00e1-la na fam\u00edlia Paiva. O que, como \u00e9 caracter\u00edstico dos produtos da criatividade humana, reverberou tanto na \u201cforma\u201d quanto no \u201cconte\u00fado\u201d do filme.<\/p>\n\n\n\n<p>Por exemplo, \u00e9 um fato que a encena\u00e7\u00e3o \u00e9 bastante restrita ao espa\u00e7o da casa e da vida familiar, representados com uma iluminada e harm\u00f4nica \u201cperfei\u00e7\u00e3o\u201d. Por\u00e9m, pode-se dizer que esse recurso tamb\u00e9m pode ser visto tanto como contraponto aos sombrios por\u00f5es da ditadura quanto, e principalmente, como um \u201clembrete\u201d do tipo de \u201caliena\u00e7\u00e3o\u201d, espec\u00edfico daquela fam\u00edlia, tamb\u00e9m determinada por sua condi\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 sintom\u00e1tico, por exemplo, que, por mais \u201cinformada\u201d e inquestionavelmente antiditatorial, no filme, a fam\u00edlia Paiva em v\u00e1rios momentos veja realidade \u00e0 dist\u00e2ncia, algo enfatizado pelas cenas em que o \u201cmundo l\u00e1 fora\u201d \u00e9 registrado pela media\u00e7\u00e3o de uma c\u00e2mera Super 8 ou pelos jornais, r\u00e1dio e TV, criando uma ilus\u00e3o de distanciamento que \u00e9 mantida at\u00e9 ser arrebentada pela ocupa\u00e7\u00e3o da casa pelas for\u00e7as de repress\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m disso, as escolhas de Salles s\u00e3o bastante coerentes com os objetivos mencionados acima, j\u00e1 que parte da \u201ctese\u201d defendida pelo filme \u00e9 a forma como mem\u00f3ria pessoal e hist\u00f3rica se mesclam, se confundem de se influenciam mutuamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste sentido, \u00e9 preciso saudar tanto o texto de Marcelo Rubens Paiva quanto a dire\u00e7\u00e3o de Walter Salles, at\u00e9 mesmo porque uns tantos outros filmes que se debru\u00e7aram sobre o tema, tamb\u00e9m baseados em excelentes relatos biogr\u00e1ficos e, inclusive, mais diretamente relacionados com a luta direta contra regimes ditatoriais, resultaram em filmes pavorosos. Basta lembrar de \u201cO que \u00e9 isto companheiro?\u201d (Bruno Barreto, 1997) e \u201cOlga\u201d (Jayme Monjardim, 2004).<\/p>\n\n\n\n<p>Lembrar disto tem a ver com um \u00faltimo coment\u00e1rio relativo \u00e0 \u201cnecessidade\u201d de um filme como \u201cAinda estou aqui\u201d. Independentemente da qualidade pra l\u00e1 de question\u00e1vel dos dois exemplos mencionados, eles fazem parte de uma lista ainda muit\u00edssimo pequena dos filmes que procuram vasculhar os sombrios tempos da ditadura e as lutas travadas contra o regime.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 verdade que h\u00e1 uma s\u00e9rie de coisas boas e memor\u00e1veis, como \u201cEles n\u00e3o usam black-tie\u201d (1981), \u201cPra frente Brasil\u201d (1982), \u201cCabra marcado para morrer\u201d (1984), \u201cQue bom te ver viva\u201d (1989), \u201cLamarca\u201d (1994), \u201cCabra-Cega\u201d (2004), \u201cO ano em que meus pais sa\u00edram de f\u00e9rias\u201d (2006), \u201cBatismo de sangue\u201d (2006), \u201cTatuagem\u201d (2013), \u201cO dia que durou 21 anos\u201d (2013) ou \u201cMarighella\u201d (2021).<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, at\u00e9 mesmo pela dimens\u00e3o dos crimes cometidos pela ditadura e, tamb\u00e9m, os heroicos exemplos de luta dados pelos homens e mulheres que enfrentaram o regime nas mais diferentes \u00e1reas da sociedade (movimentos sociais, arte e cultura, setores oprimidos etc.), o Cinema Brasileiro ainda est\u00e1 longe de ser o instrumento de \u201cmem\u00f3ria, justi\u00e7a e verdade\u201d que poderia e deveria ser.<\/p>\n\n\n\n<p>Algo, lamentavelmente, mais uma vez determinada pelas \u201ccoisas do mundo\u201d. A come\u00e7ar pela forma pactuada em que se deu nossa nunca finalizada redemocratiza\u00e7\u00e3o. E para entender como isto pode ter influenciado a produ\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica brasileira, basta compar\u00e1-la com os filmes produzidos sobre os regimes ditatoriais chileno e argentino, que, como reflexo de processos de ruptura mais radicalizados, abordam o tema de forma muito mais instigante e ampla.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui, o \u201cpacto pela transi\u00e7\u00e3o\u201d sucedido pela covardia de todos os governos deste ent\u00e3o (petistas inclusos) diante dos militares em muito contribuiu para que nossa produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica e cultural sobre o tema tamb\u00e9m fosse sufocada.<\/p>\n\n\n\n<p>O fato do Cinema, mesmo sendo um processo criativo obrigatoriamente coletivo, esteja majoritariamente submetido \u00e0s \u201cregras do mercado\u201d tamb\u00e9m n\u00e3o ajuda em nada na produ\u00e7\u00e3o de filmes que radicalizem mais em suas abordagens ou se voltem para setores que t\u00eam sido historicamente marginalizados.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, isto \u00e9 uma outra hist\u00f3ria. Por ora, fica apenas a recomenda\u00e7\u00e3o para que, independentemente de novas indica\u00e7\u00f5es e premia\u00e7\u00f5es, \u201cAinda estou aqui\u201d continue levando pessoas aos cinemas. Que continue nos ajudando a pensar. At\u00e9 mesmo porque esta \u00e9 uma parte de nossa Hist\u00f3ria que precisa ser rememorada, de todas formas poss\u00edveis. Sempre. Porque n\u00e3o podemos deixar que experi\u00eancias totalit\u00e1rias, reacion\u00e1rias, repressivas e opressivas se repitam. E, sabemos, est\u00e1 \u00e9 uma amea\u00e7a que, lamentavelmente, tamb\u00e9m \u201cainda est\u00e1 aqui\u201d. N\u00e3o s\u00f3 no Brasil, mas mundo afora.<\/p>\n\n\n\n<p>Ah, um \u00faltimo toque: aten\u00e7\u00e3o para a fabulosa trilha sonora, que inclui verdadeiras p\u00e9rolas, como \u201c\u00c9 preciso dar um jeito, meu amigo\u201d (Erasmo Carlos), \u201cA festa do Santo Reis\u201d (Tim Maia), \u201cBaby\u201d (Os Mutantes), \u201cJimmy, renda-se\u201d (Tom Z\u00e9), \u201cAgoniza, mas n\u00e3o morre\u201d (Nelso Sargento e Beth Carvalho), \u201cP\u00e9tit Pays\u201d (Ces\u00e1ria Mota) e \u201cFora da ordem\u201d (Caetano Veloso).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: Wilson Hon\u00f3rio Para come\u00e7ar, \u00e9 preciso dizer que, por motivos diversos, este \u00e9 um daqueles textos que \u201cganhou vida pr\u00f3pria\u201d, j\u00e1 tendo sido escrito, reescrito e quase publicado umas tantas vezes desde novembro. 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