{"id":80272,"date":"2025-01-15T18:58:32","date_gmt":"2025-01-15T18:58:32","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=80272"},"modified":"2025-01-15T19:03:34","modified_gmt":"2025-01-15T19:03:34","slug":"racismo-estrutural-polemica-com-silvio-almeida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2025\/01\/15\/racismo-estrutural-polemica-com-silvio-almeida\/","title":{"rendered":"Racismo Estrutural: Pol\u00eamica com S\u00edlvio Almeida"},"content":{"rendered":"\n<p>Por: Vera L\u00facia | <\/p>\n\n\n\n<p>O racismo voltou ao centro dos debates depois que in\u00fameras manifesta\u00e7\u00f5es contra a viol\u00eancia que vitimam os negros e negras inundaram os telejornais, as redes sociais e os meios de comunica\u00e7\u00e3o em geral. As manifesta\u00e7\u00f5es contra o assassinato de George Floyd nos EUA, e a indigna\u00e7\u00e3o contra as chacinas do Jacarezinho no Rio e Santos, em S\u00e3o Paulo, s\u00e3o partes disso.<\/p>\n\n\n\n<p>O racismo tamb\u00e9m tem motivado a elabora\u00e7\u00e3o te\u00f3rica de variadas matizes pol\u00edticas: liberais, reformistas, estalinistas, p\u00f3s-modernos, marxistas de todos os tipos. &nbsp;Dentre esses autores, Silvio Almeida,&nbsp;autor do livro Racismo Estrutural (2020) e atual Ministro de Direitos Humanos, do governo Lula\/Alkimin.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Os intelectuais, celebridades art\u00edsticas, pol\u00edticas, de comunica\u00e7\u00e3o e ativistas dos v\u00e1rios movimentos se apropriam defini\u00e7\u00e3o empregada por Silvio Almeida, \u201cracismo estrutural\u201d, ao que parece explicar aparentemente a causa da realidade exposta sobre as condi\u00e7\u00f5es dos negros e negras em nosso pa\u00eds e mundo afora, e que na verdade n\u00e3o explica nada, como veremos.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">A estrutura da sociedade<\/h4>\n\n\n\n<p>Para Silvio Almeida, o racismo \u00e9 sempre estrutural. Na introdu\u00e7\u00e3o do seu livro, ele desenha o caminho que vai trilhar para provar a sua tese, afirmando que o racismo \u201c\u00e9 um elemento que integra a organiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e pol\u00edtica da sociedade\u201d (2019, p. 20-21).<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 um movimento redundante em todo o seu texto: afirma que o racismo \u00e9 estrutural sem explicar o porqu\u00ea \u00e9 estrutural! Em outras palavras, justo aquilo que ele deveria explicar \u2013 o porqu\u00ea de o racismo ser estrutural \u2013 \u00e9 apenas alardeado e tomado como um pressuposto em todo livro.<\/p>\n\n\n\n<p>O jurista diz que o racismo \u00e9 um processo hist\u00f3rico e a \u201c<em>especificidade da din\u00e2mica estrutural do racismo est\u00e1 ligada \u00e0s peculiaridades de cada forma\u00e7\u00e3o social<\/em>\u201d (2019, p. 55). Diz que os conflitos raciais n\u00e3o se articulam com as rela\u00e7\u00f5es de classes, n\u00e3o t\u00eam origens na divis\u00e3o de classes e n\u00e3o desapareceriam com o fim delas, que podem remontar a per\u00edodos anteriores ao capitalismo, mas que nele tomam uma forma especificamente capitalista (2019, p. 97).<\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja, para Silvio n\u00e3o existe uma rela\u00e7\u00e3o direta entre o capitalismo e o racismo. Estrategicamente, tampouco a supera\u00e7\u00e3o do racismo tem a ver com o fim do capitalismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao defender o racismo como pilar da \u201csociedade contempor\u00e2nea\u201d, Silvio Almeida, cita as classes sociais em seu livro para depois apresentar outro conceito: o de grupos sociais e suas rela\u00e7\u00f5es<\/p>\n\n\n\n<p><em>o racismo \u00e9 uma forma sistem\u00e1tica de discrimina\u00e7\u00e3o que tem a ra\u00e7a como fundamento, e que se manifesta por meio de pr\u00e1ticas conscientes ou inconscientes que culminam em desvantagens ou privil\u00e9gios para indiv\u00edduos, a depender do&nbsp;<\/em><strong>grupo racial ao qual perten\u00e7am<\/strong>&nbsp;(2019, p. 32, negrito nosso).<\/p>\n\n\n\n<p>Enfatiza que<\/p>\n\n\n\n<p><em>A consequ\u00eancia de pr\u00e1ticas de discrimina\u00e7\u00e3o direta e indireta ao longo do tempo leva \u00e0 estratifica\u00e7\u00e3o social, um fen\u00f4meno intergeracional, em que o percurso de vida de todos os membros de um grupo social \u2013 o que inclui as chances de ascens\u00e3o social, de reconhecimento e de sustento material \u2013 \u00e9 afetado<\/em>&nbsp;(2019, p. 33).<\/p>\n\n\n\n<p>E arremata: \u201c<em>como dito acima, o racismo \u2013 que se materializa como discrimina\u00e7\u00e3o racial \u2013 \u00e9 definido pelo seu car\u00e1ter sist\u00eamico\u201d<\/em>. (2019, p. 34).<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, os negros n\u00e3o foram levados \u00e0<em>&nbsp;\u201cestratifica\u00e7\u00e3o social<\/em>\u201d. Eles j\u00e1 chegaram aqui estratificados; escravizados, expostos \u00e0 venda no mercado para aquisi\u00e7\u00e3o por um \u201csenhor\u201d, de quem negros e negras seriam propriedade.<\/p>\n\n\n\n<p>Vamos fazer o que Silvio n\u00e3o faz. Falemos da estrutura da sociedade. O marxismo analisa uma determinada sociedade como uma totalidade contradit\u00f3ria que inclui a estrutura e a superestrutura. Na estrutura, est\u00e3o inclu\u00eddas as for\u00e7as produtivas e as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o (nas quais est\u00e3o as classes sociais, no caso do capitalismo principalmente o proletariado e a burguesia). Na superestrutura est\u00e3o as ideologias e a as institui\u00e7\u00f5es. Existe uma rela\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica entre a estrutura e a superestrutura, que podem ser separadas para efeito de an\u00e1lise, mas que est\u00e3o unidas na realidade concreta, uma vez que as ideias est\u00e3o na sociedade e se manifestam nas rela\u00e7\u00f5es e a\u00e7\u00f5es na vida cotidiana (nos locais de trabalho, na escola, nas religi\u00f5es, nas institui\u00e7\u00f5es, nas fam\u00edlias, etc).<\/p>\n\n\n\n<p>A estrutura capitalista se assenta na propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o, no trabalho assalariado, com a extra\u00e7\u00e3o da mais-valia, na produ\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o de mercadorias, na compra e venda das mercadorias, ou seja, na troca mediada pelo dinheiro, na concorr\u00eancia do mercado condicionada \u00e0 sua lei de oferta e procura.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma caract\u00e9risticas epsc\u00edfica do capitalismo, como afirma Karl Marx, no Manifesto Comunista, \u00e9 o proletariado, separado dos meios de produ\u00e7\u00e3o, livre para vender a sua for\u00e7a de trabalho a qualquer empregador. Mas esse sistema social n\u00e3o nasce e se desenvolve da mesma maneira ao mesmo tempo em todos os continentes e pa\u00edses. Um dos elementos que os capitalistas lan\u00e7aram m\u00e3o para o desenvolvimento desse sistema social foi o trabalho escravizado, ou seja os meios de produ\u00e7\u00e3o e a for\u00e7a de trabalho como propriedades privadas, ambos pertecentes um propriet\u00e1rio, principalmente nas am\u00e9ricas. Para obten\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra gratuita e farta para acumula\u00e7\u00e3o r\u00e1pida, voltada para exporta\u00e7\u00e3o e desenvolvimeto do mercado e da ind\u00fastria capitalista. Para isso, os africanos foram sequestrados, traficados sob a \u00e9gide do Estado monarquico e as ben\u00e7\u00e3os da igreja. Existindo assim duas classes sociais principais: os africanos e ind\u00edgenas escravizados e a nobreza escravocrata, como parte da sociedade capitalista, que se desenvolvia predominantemente na Europa, com a for\u00e7a de trabalho livre assalariada e a burguesia hip\u00f3crita que bradava a defesa da liverdade e da igualdade.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim como nos Estados Unidos, coexisitiram as duas formas de explora\u00e7\u00e3o do trabalho: livre assalariado ao norte e o escravizado no sul do mesmo pa\u00eds. Ambos a servi\u00e7o do mesmo sistema e organizado pelo mesmo Estado, capitalistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, como tamb\u00e9m Marx afirma, quando da querra civil nos Estados Unidos, que \u00e9 impossivel a coexist\u00eancia de dois sistemas sociais. Um teria que sair vencedor. Prevaleceu o do trabalho livre assalariado, porque o sistema de fato dominante \u00e9 o capitalismo com suas formas genuinas de apropria\u00e7\u00e3o de riqueza atrav\u00e9s do trabalho livre assalariado. \u00c9 o que vai prevalecer tamb\u00e9m no restante da am\u00e9rica, sendo o Brasil, o \u00faltimo pa\u00eds a adotar a for\u00e7a de trabalho livre.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao contr\u00e1rio do que pensa Silvio, existe uma profunda liga\u00e7\u00e3o do racismo com o capitalismo desde suas origens. A ideologia da superioridade da ra\u00e7a branca serviu para a domina\u00e7\u00e3o da nascente burguesia europeia. O racismo foi usado para legitimar a utiliza\u00e7\u00e3o de escravos africanos na Am\u00e9rica em grande escala, o que foi fundamental para a acumula\u00e7\u00e3o capitalista.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante s\u00e9culos, a burguesia tratou de justificar e provar \u201ccientificamente\u201d, que os negros eram inferiores aos brancos. Porque a burguesia hip\u00f3crita, defensora da \u201cliberdade, igualdade e fraternidade\u201d precisava formar um conjunto de ideias que justificasse a exist\u00eancia de seres humanos privados de liberdade na sociedade em que ela, enquanto classe dominante, estabelece as regras pol\u00edticas, econ\u00f4micas e te\u00f3ricas. A ideologia racista esteve presente desde os in\u00edcios na estrutura e na superestrutura (Estado), ou seja, no conjunto das rela\u00e7\u00f5es para fins de produ\u00e7\u00e3o (e explora\u00e7\u00e3o) capitalistas.<\/p>\n\n\n\n<p>A mesma burguesia, quando a rela\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o escravista n\u00e3o mais servia para a acumula\u00e7\u00e3o de capital, abandonou o escravismo, mas preservou a ideologia racista para os mesmos fins: a explora\u00e7\u00e3o capitalista.<\/p>\n\n\n\n<p>Abolida a escravid\u00e3o, os negros e negras conformaram um ex\u00e9rcito industrial de reserva imenso dispon\u00edvel para a venda da sua for\u00e7a de trabalho no mercado capitalista. Juridicamente livres \u2013 e por isso, em tese \u2013 iguais aos prolet\u00e1rios brancos que j\u00e1 se encontravam separados dos meios de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A ideologia racista serve, assim, para dividir os trabalhadores (brancos e negros) e superexplorar os negros. Busca atrair os trabalhadores brancos para seu lado, dando-lhes a falsa ideia de unidade com a burguesia, por sua \u201csuperioridade racial\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>As diferen\u00e7as entre brancos negros foram transformadas em desigualdades, artificial e intencionalmente difundidas (a ideologia racista) nessa sociedade pela e para os interesses da classe dominante (donos da propriedade privada).<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 dentro dessas rela\u00e7\u00f5es que ocorre a estratifica\u00e7\u00e3o social. Tanto no interior da classe dominante quanto no interior da classe trabalhadora. \u00c9, a partir delas, que alguns negros v\u00e3o transitar para a classe burguesa \u2013 tamb\u00e9m caracter\u00edsticas da forma\u00e7\u00e3o social capitalista. E na condi\u00e7\u00e3o de capitalistas, v\u00e3o explorar outros negros e negras para obten\u00e7\u00e3o de seus lucros. \u00c9 desse jeito \u2013 n\u00e3o por uma conduta moral \u2013 que o negro capitalista est\u00e1 condicionado a agir assim nesse sistema social. Por isso, mesmo sendo negros, ao pertencerem a distintas classes, ter\u00e3o necessidades e interesses distintos e inconcili\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>Todas as dores e mazelas vividas cotidianamente pelos negros e negras da classe trabalhadora, do nascer at\u00e9 o morrer no capitalismo, est\u00e3o condicionadas a essas rela\u00e7\u00f5es. Nelas assentam-se as humilha\u00e7\u00f5es e todos os tipos de sofrimentos que se abatem sobre os negros e negras, como as mortes violentas, a fome, a humilha\u00e7\u00e3o do desemprego, os despejos das casas, a vida nos barracos de frente para o esgoto etc. A tristeza carregada no peito e os sonhos arrancados da alma. O analfabetismo e o medo constante nesse sistema produtor do alto desenvolvimento tecnol\u00f3gico, da riqueza abundante e da mis\u00e9ria absoluta.<\/p>\n\n\n\n<p>Silvio Almeida passa ao largo disto ao colocar os negros como um grupo social distinto e n\u00e3o como sujeitos que comp\u00f5em determinadas classes sociais na sociedade \u201cmoderna\u201d capitalista. Fazer isso o obrigaria a recorrer a Marx, a quem ele afirma numa entrevista4, que \u201ccomo m\u00e9todo, enquanto teoria e ci\u00eancia da hist\u00f3ria\u201d n\u00e3o se apropriam com a profundidade necess\u00e1ria sobre a quest\u00e3o negra, atrav\u00e9s das classes sociais. E que o \u201cm\u00e9todo de an\u00e1lise marxista\u201d foi apropriada pela \u201cbranquidade\u201d. Uma cal\u00fania.<\/p>\n\n\n\n<p>O materialismo hist\u00f3rico, como m\u00e9todo de an\u00e1lise da sociedade capitalista desenvolvido por Marx e Engels nos permite observar a forma como se processou de fato a forma\u00e7\u00e3o das classes sociais e os interesses de ambas no processo de desemvolvimento e na atualidade, tanto em sua forma particular e a totalidade, com objetividade, mas sem neutralidade, pois se trata da vis\u00e3o de mundo e da possibilidade e necessidade de liberta\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora. Coisa que \u00e9 totalmente desprezada por Silvio Almeida.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">O Estado<\/h4>\n\n\n\n<p>Seguindo caminho semelhante ao do jurista Alysson Mascaro, Almeida diz que o Estado \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o que s\u00f3 existiu no capitalismo. Isto \u00e9, n\u00e3o havia Estado antes do capitalismo pois esta institui\u00e7\u00e3o \u00e9 uma deriva\u00e7\u00e3o da forma-valor (e da mercadoria).<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>Ainda que tenham as sociedades pr\u00e9-capitalistas se constitu\u00eddo por m\u00faltiplas formas de domina\u00e7\u00e3o e de exerc\u00edcio difuso do poder pol\u00edtico, as caracter\u00edsticas da ordem capitalista s\u00e3o bastante espec\u00edficas. \u00c9 apenas com o desenvolvimento do capitalismo que a pol\u00edtica assume a forma de um aparato exterior, relativamente aut\u00f4nomo e centralizado, separado do conjunto das rela\u00e7\u00f5es sociais, em especial das rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas. No capitalismo, a organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da sociedade n\u00e3o ser\u00e1 exercida diretamente pelos grandes propriet\u00e1rios ou pelos membros de uma classe, mas pelo Estado<\/em>&nbsp;(ALMEIDA, 2019, p. 92).<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, ambos fazem uma revis\u00e3o da teoria de Marx e Engels que entendem que o Estado, que identifam a exisit\u00eancia do Estado enquanto um conjunto de insitui\u00e7\u00f5es (jur\u00eddica, pol\u00edtica, ideol\u00f3gica e das for\u00e7as armadas) que assegura o controle na sociedade da classe dominante sobre a classe dominada, desde que existe a propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o (terra, instrumentos de trabalho, etc, ) nas sociedades anteriores ao capitalismo (sociedade escravagista e feudal), como nos falara Engels em A origem da fam\u00edlia, da propriedade privada e do Estado:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cO Estado n\u00e3o \u00e9, pois, de modo algum, um poder que se imp\u00f4s \u00e0 sociedade de fora para dentro; tampouco \u00e9 \u201ca realidade da ideia moral\u201d, nem \u201ca imagem e a realidade da raz\u00e3o\u201d, como afirma Hegel. \u00c9 antes um produto da sociedade, quando esta chega a um determinado grau de desenvolvimento; \u00e9 a confiss\u00e3o de que essa sociedade se enredou numa irremedi\u00e1vel contradi\u00e7\u00e3o com ela pr\u00f3pria e est\u00e1 dividida por antagonismos irreconcili\u00e1veis que n\u00e3o consegue conjurar. Mas para que esses antagonismos, essas classes com interesses econ\u00f4micos colidentes n\u00e3o se devorem e n\u00e3o consumam a sociedade numa luta est\u00e9ril, fazse necess\u00e1rio um poder colocado aparentemente por cima da sociedade, chamado a amortecer o choque e a mant\u00ea-lo dentro dos limites da \u201cordem<\/em>\u201d. Esse poder, nascido da sociedade, mas posto acima dela se distanciando cada vez mais, \u00e9 o Estado (2010, p. 213).<\/p>\n\n\n\n<p>Ao afirmarem que o Estado \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o espec\u00edfica do capitalismo, pois \u00e9 uma deriva\u00e7\u00e3o da forma-valor e da mercadoria, Mascaro e Almeida descolam o Estado das classes sociais. Apoiado nessa concep\u00e7\u00e3o alheia ao pensamento de Marx, Engels, L\u00eanin e Trotsky, o jurista defender\u00e1 a ideia de que o Estado possui uma autonomia relativa perante a economia capitalista, possibilitando \u201c<em>reformas jur\u00eddicas que concedem direitos sociais aos trabalhadores e \u00e0s minorias [\u2026]<\/em>\u201d (2019, p. 96). O fluxo dessas reformas \u00e9 interrompido, segundo o jurista, em contextos de crise econ\u00f4mica quando \u201c<em>a express\u00e3o do poder estatal mudar\u00e1 significativamente no intuito de reagir \u00e0 nova forma adquirida pela intera\u00e7\u00e3o entre as altera\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e os conflitos sociais<\/em>\u201d (2018, p. 96).<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, Almeida conclui que&nbsp;<em>\u201co Estado, desse modo, n\u00e3o \u00e9 um mero instrumento dos capitalistas. Pode-se dizer que o Estado \u00e9 de classe, mas n\u00e3o de uma classe, salvo em condi\u00e7\u00f5es excepcionais e de profunda anormalidade<\/em>\u201d (2019, p. 96). l. &nbsp;Portanto, se o Estado \u00e9 uma deriva\u00e7\u00e3o da forma-valor; se o Estado possui uma relativa autonomia frente a economia, de tal sorte que permite progressivas reformas; e se ele n\u00e3o \u00e9 o instrumento de uma classe, uma das consequ\u00eancias l\u00f3gicas \u00e9 que n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio derrubar este Estado, nem construir outro em seu lugar.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, ao desvincular o Estado das classes sociais, e ao remeter o racismo para uma estrutura abstrata da sociedade (capitalista), e ao n\u00e3o relacionar o racismo \u00e0 uma classe social espec\u00edfica da sociedade capitalista, o conceito de racismoestrutural torna-se um sofisma (uma ilus\u00e3o).<\/p>\n\n\n\n<p>Concordamos com Silvio Almeida que \u201cas institui\u00e7\u00f5es s\u00e3o racistas porque a sociedade \u00e9 racista\u201d. Justamente por ser o racismo uma ideologia que se encontra na sociedade em todos os momentos da vida vivida pelos negros e negras \u2013 inclusive nas institui\u00e7\u00f5es do Estado que, por sua natureza, asseguram a domina\u00e7\u00e3o da burguesia enquanto classe dominante.<\/p>\n\n\n\n<p>Resta ainda perguntar se Silvio Almeida, na condi\u00e7\u00e3o de Ministro de Direitos Humanos do Estado brasileiro, depois ver aprovado no Congresso Nacional e sancionado pelo seu governo o PL do Marco Temporal, que abertamente fovorece a apropria\u00e7\u00e3o privada dos territ\u00f3rios ind\u00edgenas &#8211; que ainda resistem- pelas mineradores, madeireiras, pecuaristas, etc, nacionais e internacionais. Ao inv\u00e9s da demarca\u00e7\u00e3o das terras dos povos origin\u00e1rios e titula\u00e7\u00e3o das terras quilombolas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, Como j\u00e1 afirmamos, a base que ordena as rela\u00e7\u00f5es no capitalismo \u00e9 a propriedade dos meios de produ\u00e7\u00e3o privada separada dos trabalhadores.<\/p>\n\n\n\n<p>E para n\u00f3s, uma revolu\u00e7\u00e3o socialista \u00e9 necess\u00e1ria para derrubar o Estado, que por sua natureza existe para preservar a propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o. Esse ato ser\u00e1 violento, como em todas as revolu\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m como condi\u00e7\u00e3o para \u201csuprimir\u201d a propriedade, enquanto propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o. Esse ato como pressuposto, unidade organizada do conjunto dos explorados e oprimidos (negros, brancos, homens, mulheres, LGBTIs) e isso requer combater as ideologias na sociedade, e centralmente no interior da classe trabalhadora. Disso depende a sua vit\u00f3ria. Ou seja, destruir as bases de sustenta\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o e opress\u00f5es: a propriedade privada e seu Estado capitalista.<\/p>\n\n\n\n<p>A socializa\u00e7\u00e3o e controle dos meios de produ\u00e7\u00e3o pelo conjunto do proletariado, como classe dominante, tem como condi\u00e7\u00e3o o controle sobre o seu Estado. Nisso consiste a sua democracia at\u00e9 que n\u00e3o reste nenhum resqu\u00edcio de propriedade privada.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">A sa\u00edda para o racismo na tese do racismo estrutural<\/h4>\n\n\n\n<p>Silvio Almeida pode ser surpreendente numa primeira leitura de sua tese, mas ap\u00f3s uma leitura mais atenta, encontramos a coer\u00eancia do seu pensamento na conclus\u00e3o de sua tese, como segue:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>A supera\u00e7\u00e3o do racismo passa pela reflex\u00e3o sobre formas de sociabilidade que n\u00e3o se alimentem de uma l\u00f3gica de conflitos, contradi\u00e7\u00f5es e antagonismos sociais que no m\u00e1ximo podem ser mantidos sob controle, mas nunca resolvidos. Todavia, a busca por uma nova economia e por formas alternativas de organiza\u00e7\u00e3o \u00e9 tarefa imposs\u00edvel sem que o racismo e outras formas de discrimina\u00e7\u00e3o sejam compreendidas como parte essencial dos processos de explora\u00e7\u00e3o e de opress\u00e3o de uma sociedade que se quer transformar\u201d<\/em>&nbsp;(2019, p. 208).<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa cr\u00edtica cifrada e um tanto envergonhada, o jurista fala em \u201cnova economia\u201d e \u201cformas alternativas de organiza\u00e7\u00e3o\u201d, mas sem defender a necessidade de uma Revolu\u00e7\u00e3o para tanto. Se limita a dizer que \u00e9 preciso compreender o racismo e as formas de discrimina\u00e7\u00e3o\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Mas. se para Silvio Almeida o Estado n\u00e3o \u00e9 o instrumento de uma classe social, e n\u00e3o defende uma revolu\u00e7\u00e3o, qual seria a sa\u00edda para os negros e negras?<\/p>\n\n\n\n<p>Encontramos uma pista na cita\u00e7\u00e3o que Almeida faz do historiador Sidney Chaloub, ao falar de \u201cescravos que lutaram pela liberdade, resolutamente por certo, mas sem nunca terem se tornado abertamente rebeldes como Zumbi\u201d (apud ALMEIDA, 2019, p. 149).<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre isso nos fala Wagner Damasceno:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSob o nobre argumento de conferir protagonismo aos sujeitos negros, historiadores, antrop\u00f3logos e soci\u00f3logos concentram suas an\u00e1lises no s\u00e9culo XIX \u2013 marcado pela desintegra\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o \u2013 e supervalorizam, por exemplo, casos de negros e negras que conseguiram comprar suas pr\u00f3prias alforrias ou de seus filhos; casos de assimila\u00e7\u00f5es e recria\u00e7\u00f5es de pr\u00e1ticas culturais senhoriais, ou de negocia\u00e7\u00f5es e arranjos cotidianos entre escravos e senhores.<\/p>\n\n\n\n<p>Com isso, esses intelectuais terminam se aproximando de Gilberto Freyre ao hipertrofiarem conclus\u00f5es oriundas de suas an\u00e1lises micro-hist\u00f3ricas, e ao atribu\u00edrem \u00e0s \u201cbarganhas\u201d e arranjos cotidianos um estatuto quase equivalente \u00e0 quilombagem, \u00e0s fugas e \u00e0s rebeli\u00f5es\u201d (2021, p. 121).<\/p>\n\n\n\n<p>Ao popularizar a teoria do racismo estrutural, o autor se exime da explica\u00e7\u00e3o do porqu\u00ea os negros e negras da classe trabalhadora s\u00e3o majoritariamente pobres; e de explicar porque essa pobreza \u00e9 uma das maiores fontes de riqueza dos multimilion\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Sua tese n\u00e3o explica porque a classe m\u00e9dia negra se agarra com todas as suas for\u00e7as a seus privil\u00e9gios e, em nome deles, vendem at\u00e9 a alma aos brancos da grande burguesia nacional e internacional. E assim, Almeida coloca na caixa do esquecimento negros burgueses como Barack Obama que governou o maior imp\u00e9rio capitalista e n\u00e3o tremeu quando teve que matar e a\u00e7oitar negros em seu pa\u00eds e nos pa\u00edses de dom\u00ednio imperialista estadunidense.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse tipo de pensamento se torna um entrave no desenvolvimento da compreens\u00e3o dos negros e negras, no caso brasileiro, de que compete a eles assumirem a vanguarda em unidade com o conjunto do proletariado \u2013 os seus irm\u00e3os de classe \u2013 e realizarem a tarefa hist\u00f3rica de derrubar todos os pilares de sustenta\u00e7\u00e3o do sistema capitalista, acertando as contas com a burguesia brasileira e internacional por todo sofrimento, humilha\u00e7\u00f5es padecidas nos \u00faltimos s\u00e9culos.<\/p>\n\n\n\n<p>O acerto de contas dos negros da classe trabalhadora com a burguesia capitalista n\u00e3o pode se assentar no pensamento de matizes liberais, que se limitam a busca de mudan\u00e7as progressivas do poss\u00edvel, atrav\u00e9s da milit\u00e2ncia dos tribunais de justi\u00e7a, como se prop\u00f5e Silvio Almeida, mantendo a base e as estruturas do sistema capitalista intactas.<\/p>\n\n\n\n<p>Na verdade, Almeida chegou a afirmar no programa Roda Viva que \u201cO racismo \u00e9 completamente incompat\u00edvel com um ambiente econ\u00f4mico est\u00e1vel do qual a empresas precisam para reproduzir-se no ambiente de neg\u00f3cios.\u201d Ou seja, na vis\u00e3o de Almeida, o racismo deixa ser um produto das rela\u00e7\u00f5es sociais de produ\u00e7\u00e3o para ser um entrave as elas.<\/p>\n\n\n\n<p>Sendo assim, em suas pr\u00f3prias palavras \u201ca luta antirracista \u00e9 algo fundamental para se falar no m\u00ednimo de estabilidade que torne poss\u00edvel uma vida econ\u00f4mica mesmo nos estertores da sociedade capitalista liberal.\u201d De modo que j\u00e1 n\u00e3o se trata mais de lutar para superar as bases materiais do racismo, mas sim para preserv\u00e1-las e melhor desenvolv\u00ea-las.<\/p>\n\n\n\n<p>Na medida em que as \u201cnovas\u201d teorias n\u00e3o t\u00eam pretens\u00f5es de expropriar a propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o (a base dos conflitos, das desigualdades; parteira e alimentadora do racismo e de todas as opress\u00f5es), tais ide\u00f3logos, com suas teorias aparentemente radicais, n\u00e3o passam de vendedores de ilus\u00f5es, por uma quest\u00e3o simples: n\u00e3o se pode conciliar o inconcili\u00e1vel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: Vera L\u00facia | O racismo voltou ao centro dos debates depois que in\u00fameras manifesta\u00e7\u00f5es contra a viol\u00eancia que vitimam os negros e negras inundaram os telejornais, as redes sociais e os meios de comunica\u00e7\u00e3o em geral. As manifesta\u00e7\u00f5es contra o assassinato de George Floyd nos EUA, e a indigna\u00e7\u00e3o contra as chacinas do Jacarezinho [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":80273,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[3501,3923],"tags":[9045,8938,1238],"class_list":["post-80272","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-negras-os","category-opressao","tag-racismo-estrutural","tag-silvio-almeida","tag-vera-lucia"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Racismo.jpg","categories_names":["Negras\/os","Opress\u00e3o"],"author_info":{"name":"lena","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/b9eb35b4c023b96c29c4a145a82c6c381b68f2c889c5427106ad5aab6df45b9d?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/80272","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=80272"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/80272\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":80274,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/80272\/revisions\/80274"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/80273"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=80272"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=80272"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=80272"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}