{"id":80174,"date":"2024-12-12T14:55:30","date_gmt":"2024-12-12T14:55:30","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=80174"},"modified":"2024-12-17T22:31:06","modified_gmt":"2024-12-17T22:31:06","slug":"o-sionismo-durante-o-holocausto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2024\/12\/12\/o-sionismo-durante-o-holocausto\/","title":{"rendered":"O sionismo durante o Holocausto"},"content":{"rendered":"\n<p>Por: Alicia Sagra |<\/p>\n\n\n\n<p>O sionismo se apresenta ao mundo como o herdeiro das v\u00edtimas do Holocausto. A partir disso, faz todo tipo de amea\u00e7as, acusando, muitas vezes judicialmente, de \u201cantissemitismo\u201d aqueles que confrontam o Estado sionista de Israel em defesa da Palestina.<\/p>\n\n\n\n<p>O papel autoproclamado do sionismo como representante das v\u00edtimas do exterm\u00ednio nazista, nada tem a ver com a verdade. J\u00e1 afirmamos isso em outros artigos, citando proeminentes intelectuais judeus, como o historiador israelense Ilan Papp\u00e9<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a> e o americano Ralph Schoenman<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, agora tomaremos como refer\u00eancia um sobrevivente do Holocausto, Rudolph Vrba, considerado um her\u00f3i dos judeus.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 10 de abril de 1944, junto com Alfred Wetzler, Vrba realizou a grande fa\u00e7anha de escapar de Auschwitz para alertar os judeus h\u00fangaros sobre os planos dos nazistas de exterminar a \u00faltima grande comunidade judaica sobrevivente na Europa.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu nome voltou a ter repercuss\u00e3o internacional, com artigos publicados na Folha de S\u00e3o Paulo, na BBC e em outros meios de comunica\u00e7\u00e3o, depois que Jonathan Freedland e John Murray publicaram (em abril de 2023) o Best Seller <em>O ARTISTA DA FUGA: o homem que escapou de Auschwitz para alertar o mundo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Jonathan Freedland \u00e9 um destacado jornalista do jornal brit\u00e2nico <em>The Guardian<\/em> e colunista do jornal sionista <em>Jewish Chronicle<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Como diz Tony Greenstein<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, na Intifada Eletr\u00f4nica de 22 de agosto de 2024, \u00e9 surpreendente que este conhecido sionista liberal escreva um livro reivindicando um cr\u00edtico do sionismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Greenstein afirma que: <em>O problema de Freedland ao querer escrever sobre este her\u00f3i judeu do Holocausto \u00e9 que Vrba n\u00e3o era sionista. O movimento sionista, por causa de sua colabora\u00e7\u00e3o com os nazistas (seu desejo de lucrar com a ascens\u00e3o deles ao poder), praticamente n\u00e3o tem a seu favor nenhum judeu da resist\u00eancia antinazista.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Noah Lucas, um historiador sionista cr\u00edtico, descreveu como: \u201cQuando o Holocausto europeu eclodiu, [mais tarde o primeiro-ministro israelense David] Ben-Gurion o viu como uma oportunidade decisiva para o sionismo&#8230; Ben-Gurion, mais do que qualquer outra pessoa, percebeu as enormes possibilidades inerentes \u00e0 din\u00e2mica do caos e da carnificina na Europa&#8230; Em condi\u00e7\u00f5es de paz, estava claro que o sionismo n\u00e3o poderia mover as massas do juda\u00edsmo mundial. Portanto, as for\u00e7as desencadeadas por Hitler em todo o seu horror deveriam ser aproveitadas em benef\u00edcio do sionismo&#8230; No final de 1942&#8230; a luta por um Estado judeu tornou-se a principal preocupa\u00e7\u00e3o do movimento\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Os poucos sionistas que lutaram na Resist\u00eancia, como Chajka Klinger, foram extremamente cr\u00edticos em rela\u00e7\u00e3o ao papel desempenhado pelo movimento sionista<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\"><strong>[4]<\/strong><\/a><\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Uma suposta homenagem fingida, que falsifica a hist\u00f3ria do Holocausto e do Sionismo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O relato detalhado de Vrba sobre os acontecimentos ocorridos em Auschwitz, mostrando que n\u00e3o se tratava de um <em>campo de concentra\u00e7\u00e3o e trabalho, mas sim de um campo de exterm\u00ednio<\/em>, serviu de base para o Relat\u00f3rio Vrba-Wetzler de 1944. Esse relat\u00f3rio foi um dos tr\u00eas documentos, apresentados em conjunto como os Protocolos de Auschwitz, como prova nos julgamentos de Nuremberg (1945-1946).<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isso \u00e9 justificado no livro de Freedland, que tamb\u00e9m elogia a ast\u00facia, a genialidade daquela fuga, aparentemente imposs\u00edvel, de um dos mais terr\u00edveis campos de exterm\u00ednio nazistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas Freedland oculta uma parte significativa da vida do \u201cher\u00f3i de Auschwitz\u201d, que se torna uma falsifica\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica a servi\u00e7o do sionismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Vrba vivia na Eslov\u00e1quia, um estado fantoche nazista que se separou da Tchecoslov\u00e1quia quando Hitler a invadiu e desmembrou em 1939. Em fevereiro de 1942, ele foi intimado a se apresentar para deporta\u00e7\u00e3o. Em mar\u00e7o de 1942, ele fugiu para a Hungria e visitou os sionistas h\u00fangaros. Vrba descreve o que aconteceu:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cNaquela tarde, fui a Casa OMZSA, a sede da organiza\u00e7\u00e3o sionista em Budapeste. L\u00e1, contei minha hist\u00f3ria em detalhes a um homem de cerca de trinta e cinco anos e rosto severo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ele refletiu por um momento antes de dizer:<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>&nbsp;\u201cVoc\u00ea est\u00e1 em Budapeste ilegalmente. \u00c9 isso que est\u00e1 tentando dizer?\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cSim.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cVoc\u00ea n\u00e3o sabe que est\u00e1 infringindo a lei?\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Assenti com a cabe\u00e7a, me perguntando como um homem com uma cabe\u00e7a t\u00e3o dura poderia ocupar o que parecia ser uma posi\u00e7\u00e3o de responsabilidade.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cE voc\u00ea espera conseguir um emprego aqui sem documentos?\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cCom documentos falsos.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Se eu tivesse rasgado o Talmud e me jogado sobre ele, n\u00e3o acho que o teria surpreendido mais. Ele abriu a boca uma ou duas vezes e depois rugiu:<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cVoc\u00ea n\u00e3o percebe que \u00e9 meu dever entreg\u00e1-lo \u00e0 pol\u00edcia?\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Agora foi a minha vez de ficar boquiaberto. Um sionista estava entregando um judeu para a pol\u00edcia fascista. Pensei que estava ficando louco.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cSaia daqui! Saia t\u00e3o r\u00e1pido quanto um vendaval!\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sa\u00ed completamente desnorteado. Passaram-se quase tr\u00eas anos at\u00e9 que eu percebesse o que representavam a Casa OMZsA e os homens que l\u00e1 estavam.<a href=\"#_ftn5\" id=\"_ftnref5\"><strong>[5]<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 men\u00e7\u00e3o nesse livro de uma suposta homenagem a Vrba sobre o que ele publicou no <em>The Observer<\/em> de 22 de setembro de 1963. Nessa publica\u00e7\u00e3o, respondendo a Jacob Talmon, professor da Universidade Hebraica, que criticou Hannah Arendt<a href=\"#_ftn6\" id=\"_ftnref6\">[6]<\/a> por ter dito que os Conselhos Judaicos colaboraram com os nazistas, Vrba perguntou:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cSer\u00e1 que o Judenrat (Conselho Judaico) da Hungria disse a seus judeus o que os aguardava? N\u00e3o, eles permaneceram calados e, por esse sil\u00eancio, alguns de seus l\u00edderes &#8211; por exemplo, Kasztner<a href=\"#_ftn7\" id=\"_ftnref7\"><strong>[7]<\/strong><\/a> &#8211; trocaram suas pr\u00f3prias vidas e as vidas de 1.684 outros judeus \u201cproeminentes\u201d diretamente com Eichmann\u201d<a href=\"#_ftn8\" id=\"_ftnref8\"><strong>[8]<\/strong><\/a><\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Tampouco h\u00e1 qualquer men\u00e7\u00e3o \u00e0 declara\u00e7\u00e3o de Vrba no <em>Daily Herald<\/em> de fevereiro de 1961: <em>\u201cEu sou judeu. Apesar disso, na verdade por causa disso, acuso certos l\u00edderes judeus de um dos acontecimentos mais terr\u00edveis da guerra. Esse pequeno grupo de traidores sabia o que estava acontecendo com seus irm\u00e3os nas c\u00e2maras de g\u00e1s de Hitler e compraram suas pr\u00f3prias vidas com o pre\u00e7o do sil\u00eancio&#8230; Consegui avisar os l\u00edderes sionistas h\u00fangaros com tr\u00eas semanas de anteced\u00eancia que Eichmann planejava enviar um milh\u00e3o de seus judeus para as c\u00e2maras de g\u00e1s&#8230; Kasztner foi at\u00e9 Eichmann e disse: Conhe\u00e7o seus planos; poupe alguns judeus de minha escolha e ficarei calado\u201d<a href=\"#_ftn9\" id=\"_ftnref9\"><strong>[9]<\/strong><\/a><\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 claro que nada disso \u00e9 mencionado nos artigos da <em>Folha de S\u00e3o Paulo<\/em> e da <em>BBC<\/em>, aos quais nos referimos acima.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais uma vez, estamos perante uma manipula\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria levada a cabo pelo sionismo, com o apoio da imprensa internacional.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O sionismo n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de juda\u00edsmo, \u00e9 sin\u00f4nimo de nazismo.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Mas, apesar dessas manipula\u00e7\u00f5es, o testemunho de Rudolph Vrba n\u00e3o pode ser encoberto e \u00e9 mais uma prova de que, longe de o sionismo ser um representante das v\u00edtimas do Holocausto, ele foi um colaborador de seus executores.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 o mesmo sionismo que hoje, a partir do Estado de Israel, aplica os m\u00e9todos do nazismo contra o povo palestino. Portanto, lutar pela destrui\u00e7\u00e3o do Estado sionista de Israel n\u00e3o \u00e9 antissemitismo. \u00c9 uma quest\u00e3o de humanidade. O genoc\u00eddio em Gaza, os ataques \u00e0 Cisjord\u00e2nia, os ataques ao L\u00edbano mostram que \u00e9 imposs\u00edvel garantir a vida e a liberdade dos povos da regi\u00e3o, enquanto existir esse estado nazi-fascista.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Por um Estado Palestino \u00danico, Laico, Democr\u00e1tico e N\u00e3o-Racista, do rio ao mar.<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Ilan Papp\u00e9, A Limpeza \u00c9tnica da Palestina, Editora Sundermann<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> Hist\u00f3ria Oculta do Sionismo, Editora Sundermann<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> Tony Greenstein, autor do livro <em>O sionismo durante o Holocausto<\/em> (2022), \u00e9 um ativista e escritor judeu anti-sionista brit\u00e2nico. Foi membro fundador da Campanha de Solidariedade \u00e0 Palestina. Ele se apresentou ao parlamento como representante da Alian\u00e7a para o Socialismo Verde. Em 2018, foi expulso do Partido Trabalhista sob a acusa\u00e7\u00e3o de anti-semitismo.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\">[4]<\/a> Intifada Eletr\u00f4nica, 22\/08\/2024<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\" id=\"_ftn5\">[5]<\/a> Autobiografia de Vrba, citada por Tony Greenstein<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref6\" id=\"_ftn6\">[6]<\/a> Hannah Arendt, fil\u00f3sofa e pol\u00edtica alem\u00e3 de origem judaica (1906-1975)<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref7\" id=\"_ftn7\">[7]<\/a> Reszo Kasztner, l\u00edder sionista h\u00fangaro, foi quem recebeu o relat\u00f3rio Wetzler-Vrba, e n\u00e3o distribuiu. Anos mais tarde, quando fazia parte do governo israelense, foi acusado por um compatriota judeu h\u00fangaro de ter colaborado com os nazistas. O governo lan\u00e7ou um julgamento por difama\u00e7\u00e3o contra o acusador. O julgamento voltou-se contra Kasztner quando se descobriu que ele havia testemunhado a favor de criminosos nazistas nos julgamentos de Nuremberg. Kasztner foi assassinado por agentes do Shin Bet em 1957.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref8\" id=\"_ftn8\">[8]<\/a> Citado por Tony Greenstein<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref9\" id=\"_ftn9\">[9]<\/a> Idem<\/p>\n\n\n\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Rosangela Botelho<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: Alicia Sagra | O sionismo se apresenta ao mundo como o herdeiro das v\u00edtimas do Holocausto. A partir disso, faz todo tipo de amea\u00e7as, acusando, muitas vezes judicialmente, de \u201cantissemitismo\u201d aqueles que confrontam o Estado sionista de Israel em defesa da Palestina. 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