{"id":80168,"date":"2024-12-10T22:56:52","date_gmt":"2024-12-10T22:56:52","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=80168"},"modified":"2024-12-24T13:45:10","modified_gmt":"2024-12-24T13:45:10","slug":"cop-29-ponto-para-os-combustiveis-fosseis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2024\/12\/10\/cop-29-ponto-para-os-combustiveis-fosseis\/","title":{"rendered":"COP 29: Ponto para os combust\u00edveis f\u00f3sseis"},"content":{"rendered":"\n<p>Por: Lena Souza |<\/p>\n\n\n\n<p>Pelos resultados da \u00faltima C\u00fapula pelo Clima, a COP 29, podemos afirmar que os ganhadores foram aqueles que n\u00e3o querem mudar nada. Aqueles que continuam sendo financiados pelos governos, aqueles que produzem os gases respons\u00e1veis pelo efeito estufa, aqueles que s\u00e3o privilegiados no planeta, aqueles que n\u00e3o s\u00e3o atingidos pelas consequ\u00eancias das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p>Para come\u00e7ar o que podemos esperar de uma reuni\u00e3o que ,supostamente tem o objetivo de buscar solu\u00e7\u00f5es para o aquecimento global, tenha entre suas delega\u00e7\u00f5es 1773 representantes dos combust\u00edveis f\u00f3sseis, que em conjunto significou a quarta maior delega\u00e7\u00e3o da C\u00fapula. De acordo com o Observat\u00f3rio do Clima: \u201cEm Baku, h\u00e1 mais lobistas do que a soma de todos os delegados dos dez pa\u00edses mais afetados pela crise do clima: Chade, Ilhas Salom\u00e3o, N\u00edger, Micron\u00e9sia, Guin\u00e9-Bissau, Som\u00e1lia, Tonga, Eritreia, Sud\u00e3o e Mali t\u00eam juntos, 1.033 delegados, contra os 1.773 representantes da ind\u00fastria f\u00f3ssil. No ano passado, em Dubai, foram 2.456 lobistas credenciados. Mas, apesar de\u00a0 o n\u00famero total deste ano ser menor, a propor\u00e7\u00e3o de lobistas aumentou: a COP28 teve 97.372 pessoas credenciadas, enquanto a COP29 registrou 52.305 pessoas.\u201d<a id=\"_ftnref1\" href=\"#_ftn1\">[1]<\/a>\u00a0E mais, quase a metade dos lobistas entrou como membros de delega\u00e7\u00f5es nacionais e o governo do Azerbaij\u00e3o, pa\u00eds anfitri\u00e3o, deu crach\u00e1 de convidados para mais uma centena de representantes diretos da ind\u00fastria petrol\u00edfera. Essa representatividade reflete o poder econ\u00f4mico e pol\u00edtico desses setores, capazes de moldar o debate clim\u00e1tico a favor de seus interesses. Ao inv\u00e9s de avan\u00e7os significativos, a COP 29 foi marcada por um embate entre a urg\u00eancia ambiental e a manuten\u00e7\u00e3o de lucros bilion\u00e1rios das empresas f\u00f3sseis.<\/p>\n\n\n\n<p>O principal ponto a ser resolvido na reuni\u00e3o, que tratava do financiamento clim\u00e1tico, n\u00e3o teve nenhum avan\u00e7o, como j\u00e1 tinha acontecido nas \u00faltimas c\u00fapulas. Depois de dias e dias de conversas, se chegou a uma destina\u00e7\u00e3o de US$300 bilh\u00f5es anuais de financiamento para a\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas em pa\u00edses em desenvolvimento, at\u00e9 2035. O reivindicado era US$1,3 trilh\u00f5es. De acordo com o Observat\u00f3rio do Clima, esse valor significa que cada um dos 45 pa\u00edses&nbsp; em desenvolvimento, mais vulner\u00e1veis \u00e0s consequ\u00eancias das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, ficaria com US$ 6,6 bilh\u00f5es por ano. Para se ter uma ideia do que significa esse montante, o c\u00e1lculo para a recupera\u00e7\u00e3o do Rio Grande do Sul \u2013 Brasil, ap\u00f3s a devasta\u00e7\u00e3o ocasionada pelas enchentes do come\u00e7o do presente ano \u00e9 de cerca de US$17 bilh\u00f5es. Este \u00e9 o real comprometimento dos ricos e poderosos com a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica e a preserva\u00e7\u00e3o ambiental.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Os recursos financeiros continuam indo para os combust\u00edveis f\u00f3sseis<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de apelos globais pela redu\u00e7\u00e3o da depend\u00eancia de combust\u00edveis f\u00f3sseis, governos e grandes corpora\u00e7\u00f5es continuam investindo pesadamente na explora\u00e7\u00e3o de novas reservas de petr\u00f3leo e g\u00e1s. Em 2023, os subs\u00eddios diretos e indiretos a essas ind\u00fastrias alcan\u00e7aram recordes hist\u00f3ricos, enquanto novas licen\u00e7as foram concedidas para perfura\u00e7\u00f5es, at\u00e9 mesmo em \u00e1reas ambientalmente sens\u00edveis, como o \u00c1rtico.<\/p>\n\n\n\n<p>A incoer\u00eancia, ou melhor, os verdadeiros interesses, podem ser vistos neste mapa abaixo:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"567\" height=\"308\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Imagem1-fosseis.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-80169\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Imagem1-fosseis.png 567w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Imagem1-fosseis-300x163.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 567px) 100vw, 567px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Ou seja, enquanto os ricos do planeta e seus representantes nos enganam com c\u00fapulas e discursos, o dinheiro est\u00e1 sendo destinado \u00e0 fonte de contamina\u00e7\u00e3o e gera\u00e7\u00e3o de gases que aumentam a temperatura da terra. De acordo com dados divulgados pela <strong>Funda\u00e7\u00e3o urgewald<\/strong>&nbsp; estima-se que 96% das empresas de petr\u00f3leo e g\u00e1s estejam explorando e desenvolvendo novas reservas em 129 pa\u00edses, o que significa \u201co equivalente a 230 bilh\u00f5es de barris de petr\u00f3leo e g\u00e1s inexplorados, cuja produ\u00e7\u00e3o e queima geraria&nbsp;30 vezes mais do que as emiss\u00f5es anuais de gases de efeito estufa da UE&#8221;.<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>E para completar, embora o carv\u00e3o seja a fonte de energia mais poluente, sua utiliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas persiste, mas cresce em v\u00e1rias na\u00e7\u00f5es. Pa\u00edses como China e \u00cdndia ampliaram o uso de carv\u00e3o para atender o crescimento de suas demandas energ\u00e9ticas.<\/p>\n\n\n\n<p>Na COP 28, realizada em Dubai, em 2023, este foi o tema central. O impasse e o grande debate para a reda\u00e7\u00e3o do documento final era justamente sobre a quest\u00e3o da redu\u00e7\u00e3o gradual ou elimina\u00e7\u00e3o gradual do uso do carv\u00e3o, petr\u00f3leo e g\u00e1s, as principais fontes de gases de efeito estufa e, portanto a \u00fanica maneira de conter o aquecimento global. No final da COP28 houveram comemora\u00e7\u00f5es com o resultado, j\u00e1 que, segundo os \u201cotimistas\u201d, haviam conseguido discutir pela primeira vez o tema dos combust\u00edveis f\u00f3sseis e haviam chegado a um acordo de estabelecer \u201cobjetivos globais para a transforma\u00e7\u00e3o de sistemas energ\u00e9ticos rumo \u00e0 neutralidade clim\u00e1tica at\u00e9 2050 e ao alcance do objetivo do Acordo de Paris de limitar o aumento de temperatura a 1,5\u00baC em rela\u00e7\u00e3o a n\u00edveis pr\u00e9-industriais.\u201d<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[3]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Ledo engano! Nem redu\u00e7\u00e3o, nem elimina\u00e7\u00e3o gradual, nem investimento em t\u00e9cnicas para remo\u00e7\u00e3o de g\u00e1s carb\u00f4nico na atmosfera captaram recursos governamentais e privados como pode-se comprovar no quadro abaixo. Mas a expans\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o, sim.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"567\" height=\"460\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Imagem2-fosseis.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-80170\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Imagem2-fosseis.png 567w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Imagem2-fosseis-300x243.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 567px) 100vw, 567px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Ainda que a tabela possa enganar alguns esperan\u00e7osos que concentram sua vis\u00e3o na pequena redu\u00e7\u00e3o de investimentos em combust\u00edveis f\u00f3sseis e um pequeno aumento em energia limpa, n\u00e3o nos iludamos, pois mesmo esses parcos aumentos foram com interesse no lucro, que \u00e9 a base do sistema capitalista.<\/p>\n\n\n\n<p>Sob a l\u00f3gica capitalista, a suposta transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica tem sido mais uma oportunidade de lucro do que uma resposta \u00e0 crise clim\u00e1tica. Essa farsa desvia a aten\u00e7\u00e3o do verdadeiro&nbsp; motivo do aquecimento global.<\/p>\n\n\n\n<p>E, al\u00e9m disso, supondo que esse ritmo se mantenha, \u00e9 imposs\u00edvel que ele possa cumprir com a redu\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para chegar aos objetivos estabelecidos para manter a temperatura do planeta abaixo do 1,5\u00ba de aquecimento.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A verdadeira sa\u00edda depende da organiza\u00e7\u00e3o e luta dos de baixo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O debate entre decrescentismo e produtivismo muitas vezes polariza as discuss\u00f5es clim\u00e1ticas. Por um lado, o decrescentismo defende a redu\u00e7\u00e3o do consumo e da produ\u00e7\u00e3o para minimizar o impacto ambiental. Por outro, o produtivismo aposta em solu\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas para conciliar crescimento econ\u00f4mico e sustentabilidade. A sa\u00edda, no entanto, reside em um modelo que priorize a maioria, que permita que a maioria pobre e trabalhadora decida sobre a efici\u00eancia energ\u00e9tica e o respeito aos limites planet\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>No cerne da crise ambiental est\u00e1 o sistema capitalista, que prioriza o crescimento infinito em um planeta finito. A l\u00f3gica de acumula\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o \u00e9 intrinsecamente oposta aos princ\u00edpios de preserva\u00e7\u00e3o ambiental. Sem uma mudan\u00e7a radical no sistema econ\u00f4mico global, as metas clim\u00e1ticas continuar\u00e3o sendo balela e engana\u00e7\u00e3o, agravando os impactos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas sobre a classe pobre .<\/p>\n\n\n\n<p>A COP 29 confirmou, mais uma vez, as mesmas conclus\u00f5es sobre a impossibilidade do sistema econ\u00f4mico capitalista permitir enfrentar a crise clim\u00e1tica. Apesar das urg\u00eancias e das demandas por a\u00e7\u00e3o, a confer\u00eancia reafirmou que a transforma\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria depende da luta e da derrota da classe que domina as decis\u00f5es e a economia no planeta. Apenas uma mudan\u00e7a estrutural do sistema poder\u00e1 assegurar um futuro sustent\u00e1vel e impedir a barb\u00e1rie que a cada dia cresce mais.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> <a href=\"https:\/\/www.oc.eco.br\/lobby-fossil-na-cop29-e-maior-que-delegacoes-de-paises-mais-afetados-pela-crise\/#:~:text=Lobby%20f%C3%B3ssil%20na%20COP29%20%C3%A9,pa%C3%ADses%20mais%20afetados%20pela%20crise&amp;text=DO%20OC%20%E2%80%93%20Levantamento%20publicado%20nesta,Na%C3%A7%C3%B5es%20Unidas%20de%20Baku%2C%20Azerbaij%C3%A3o.\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Observat\u00f3rio do ClimaLobby f\u00f3ssil na COP29 \u00e9 maior que delega\u00e7\u00f5es de pa\u00edses mais afetados pela crise &#8211; OC | Observat\u00f3rio do Clima<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> <a href=\"https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/quem-est%C3%A1-financiando-a-expans%C3%A3o-dos-combust%C3%ADveis-f%C3%B3sseis\/a-70764322\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Quem est\u00e1 financiando a expans\u00e3o dos combust\u00edveis f\u00f3sseis? \u2013 DW \u2013 12\/11\/2024<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> <a href=\"https:\/\/www.gov.br\/planalto\/pt-br\/acompanhe-o-planalto\/noticias\/2023\/12\/governo-celebra-resultados-da-cop-28-nos-emirados-arabes#:~:text=O%20principal%20resultado%20das%20negocia%C3%A7%C3%B5es,global%20%C3%A0%20mudan%C3%A7a%20do%20clima.\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Governo celebra resultados da COP 28 nos Emirados \u00c1rabes \u2014 Planalto<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: Lena Souza | Pelos resultados da \u00faltima C\u00fapula pelo Clima, a COP 29, podemos afirmar que os ganhadores foram aqueles que n\u00e3o querem mudar nada. 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