{"id":80118,"date":"2024-12-04T14:31:25","date_gmt":"2024-12-04T14:31:25","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=80118"},"modified":"2024-12-04T22:51:17","modified_gmt":"2024-12-04T22:51:17","slug":"polemica-com-jesse-souza-quem-mais-alimenta-a-ultradireita-o-branco-pobre-ou-a-esquerda-capitalista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2024\/12\/04\/polemica-com-jesse-souza-quem-mais-alimenta-a-ultradireita-o-branco-pobre-ou-a-esquerda-capitalista\/","title":{"rendered":"Pol\u00eamica com Jess\u00e9 Souza: Quem mais alimenta a ultradireita, o branco pobre ou a esquerda capitalista?\u00a0"},"content":{"rendered":"\n<p>Por: Hertz Dias |<\/p>\n\n\n\n<p>Desde que a extrema direita come\u00e7ou a crescer, e muitos trabalhadores romperam com o PT, popularizou-se nos c\u00edrculos da esquerda a narrativa sobre o \u201cpobre de direita\u201d. Essa narrativa foi transformada em tese no livro&nbsp;O pobre de direita: a vingan\u00e7a dos bastardos,&nbsp;do soci\u00f3logo Jess\u00e9 de Souza, publicado pela editora Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Jess\u00e9, o \u201cpobre de direita\u201d \u00e9 o branco pobre e de classe m\u00e9dia do eixo sul-sudeste. Existem tamb\u00e9m os negros evang\u00e9licos, que, apesar serem mais cr\u00edticos ao bolsonarismo, votam na direita por uma quest\u00e3o moral. Mas o centro da tese de Jess\u00e9 \u00e9 o branco do eixo sul-sudeste. Nesse sentido, ele avan\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s narrativas da esquerda capitalista que culpabilizava os negros e imigrantes nordestinos pelo impeachment de Dilma em 2016 e por votarem na direita.<\/p>\n\n\n\n<p>Os argumentos de Jess\u00e9 se baseiam nas seguintes ideias: antes da Era Vargas o racismo no Brasil era expl\u00edcito, o que ele denomina de \u201cracismo racial\u201d, mas com o varguismo surge a ideia de racismo cordial, que seria a nega\u00e7\u00e3o do racismo. Ent\u00e3o, a diferen\u00e7a entre o racismo brasileiro e o dos EUA, seria porque, entre os norte-americanos, o racismo seria mais expl\u00edcito, enquanto o nosso mais velado. Da\u00ed que, para Jess\u00e9, o racismo brasileiro foi mascarado por um \u201cracismo regional\u201d que seria uma forma maquiada do \u201cracismo racial\u201d, j\u00e1 que, segundo o autor, o nordeste \u00e9 discriminado n\u00e3o por estar mais pr\u00f3ximo da linha do Equador, mas por ser uma regi\u00e3o com cerca de 80% de negros e mesti\u00e7os. S\u00e3o Paulo seria o extremo oposto, com 80% da popula\u00e7\u00e3o branca.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, ele defende uma tese parecida com a que o afro-americano WEB Du Bois esbo\u00e7ou em seu livro Black Reconstruction in America [Reconstru\u00e7\u00e3o Negra na Am\u00e9rica] (1935), e que o marxista Alex Callinicos utilizou em um dos cap\u00edtulos do seu livro \u201cCapitalismo e Racismo\u201d para tratar da quest\u00e3o racial nos EUA. Trata-se da quest\u00e3o do \u201csal\u00e1rio psicol\u00f3gico\u201d. Para Callinicos, o racismo gera uma falsa sensa\u00e7\u00e3o de superioridade no branco explorado como compensador dos seus baixos sal\u00e1rios, especialmente em tempos de crise. \u201cO racismo oferece aos trabalhadores brancos o conforto de acreditarem que s\u00e3o parte do grupo dominante, e tamb\u00e9m prov\u00ea, em tempos de crise, um bode expiat\u00f3rio pronto na forma de grupo oprimido\u201d, explica o autor.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja, apesar de serem explorados pelos seus patr\u00f5es brancos, esses brancos se sentiam superiores aos afro-americanos. Com isso, eles acabavam se identificando, racialmente, com os seus patr\u00f5es brancos. Marx desenvolveu esse mesmo racioc\u00ednio sobre o que chamou de \u201cquest\u00e3o da Irlanda\u201d, em que os oper\u00e1rios ingleses se identificavam com sua burguesia por crit\u00e9rios culturais e nacionais, sentindo-se superiores aos oper\u00e1rios irlandeses. No final, a burguesia explorava essa falsa sensa\u00e7\u00e3o de superioridade para rebaixar as condi\u00e7\u00f5es de vida do conjunto do proletariado.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Jess\u00e9, esse ressentimento do branco pobre \u00e9 descarregado nos nordestinos, ou nos negros de maneira geral, mas tamb\u00e9m contra as pessoas LGBTs. Esse branco pobre se identifica com os racistas, a exemplo de Bolsonaro, que surge como v\u00e1lvula de escape dos seus ressentimentos. J\u00e1 o nordestino se identifica com governos progressistas. Para fundamentar sua tese, Jess\u00e9 se apoia em Freud e Max Weber.<\/p>\n\n\n\n<p>Para ele, os governos petistas estavam tomando medidas importantes para fortalecer a soberania do pa\u00eds, reduzindo a pobreza, enfrentando os bancos, etc. Foi quando a burguesia brasileira e a norte-americana decidiram derrubar Dilma e criar um projeto privatista que se deu com a ultradireita, tendo Bolsonaro como grande lideran\u00e7a e o racismo como instrumental para ganhar esses brancos para um projeto reacion\u00e1rio. \u00c9 assim que cresce esse fen\u00f4meno do \u201cpobre de direita\u201d. Bolsonaro seria a personifica\u00e7\u00e3o do branco sul-sudestino recalcado, enquanto o PT personificaria o negro pobre e do nordeste. Um expressaria a opress\u00e3o, o outro o oprimido.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitos ativistas honestos abra\u00e7aram, acriticamente, esses argumentos e os reproduzem. \u00c9 com alguns destes argumentos que queremos dialogar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As obviedades e os equ\u00edvocos de Jess\u00e9<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Existe pobre de direta? Sim, existe e sempre existiu desde o surgimento da propriedade privada e das classes sociais. Isso n\u00e3o \u00e9 uma novidade hist\u00f3rica. As ideologias burguesas sempre estiveram presentes entre os pobres. Se n\u00e3o fosse assim, o capitalismo n\u00e3o se manteria de p\u00e9. No per\u00edodo colonial os senhores de escravos se mantinham enquanto classe dominante apoiados nos \u201cnegro da casa\u201d e nos libertos, que, se contrariassem os seus ex-senhores, voltariam a condi\u00e7\u00e3o de escravos. Em S\u00e3o Paulo, a maioria dos negros votavam no reacion\u00e1rio Paulo Maluf. No Nordeste, regi\u00e3o que Jess\u00e9 apresenta como progressista, a maioria dos negros apoiavam oligarquias ultrarreacion\u00e1rias como a fam\u00edlia Sarney, no Maranh\u00e3o, M\u00e3o Santa, no Piau\u00ed, Ant\u00f4nio Carlos Magalh\u00e3es, na Bahia, Jereissati no Cear\u00e1, etc, etc, etc.<\/p>\n\n\n\n<p>O que se apresenta como novidade hist\u00f3rica, \u00e9 uma obviedade pol\u00edtica. A novidade \u00e9 o crescimento da extrema direita. E para entender e combater esses grupos de maneira consequente, \u00e9 preciso uma explica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica da realidade, n\u00e3o-dogm\u00e1tica, n\u00e3o manique\u00edsta, bem como explicar porque milh\u00f5es de pobres, sejam negros ou brancos, romperam com a \u201cesquerda\u201d, antes de girarem \u00e0 direita. Esse \u00e9 um tema bastante espinhoso que os defensores da narrativa do \u201cpobre de direita\u201d se esquivam em debater seriamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2023, a pesquisa \u201cPercep\u00e7\u00f5es do racismo no Brasil\u201d mostrou que 81% dos brasileiros acreditam que este pa\u00eds \u00e9 racista. Isso seria impens\u00e1vel nas d\u00e9cadas de 1980, auge das mobiliza\u00e7\u00f5es da esquerda e do movimento negro. Por que, ent\u00e3o, a influ\u00eancia da ultradireita sobre os brancos do sul-sudeste cresceu justamente quando a maioria da popula\u00e7\u00e3o reconhece que o Brasil \u00e9 racista? Quais fatores explicam que os mesmos brancos sul-sudestinos que, por in\u00fameras vezes votaram no PT, desde a abertura democr\u00e1tica, voltaram-se contra o PT, justamente depois de ajud\u00e1-lo a eleg\u00ea-lo? \u201c\u00c9 poss\u00edvel que isso tenha ocorrido sem que o PT os atacasse, os tra\u00edsse? Nas narrativas de Jess\u00e9, sim! Por isso sua tese \u00e9 mostrar porque pobres votam em grupos que eles sabem que s\u00e3o seus pr\u00f3prios algozes.<\/p>\n\n\n\n<p>Jess\u00e9 n\u00e3o mostra por que, desde o fim da ditadura militar, a regi\u00e3o Nordeste sempre votou contra o PT. Foi assim na derrota de Lula para Collor em 1989 e nas duas derrotas para Fernando Henrique Cardoso, 1994 e 1998, respectivamente. Quando foi que isso mudou? Quais fatores da realidade mudaram? Foram os nordestinos que fizeram um giro ideol\u00f3gico em dire\u00e7\u00e3o ao PT, ou PT que fez um giro fisiol\u00f3gico e program\u00e1tico em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 burguesia nacional e \u00e0s oligarquias do Nordeste?<\/p>\n\n\n\n<p>Mudando a cor da pele dos alvos, Jess\u00e9 segue os mesmos passos daqueles que acreditam que os pobres n\u00e3o passam de um monte de imbecis. Antes era o negro que queria voltar pras senzalas, hoje \u00e9 o branco pobre que virou um masoquista pol\u00edtico da pior esp\u00e9cie, um \u201clixo branco\u201d, tal como afirma o pr\u00f3prio Jess\u00e9. N\u00e3o por acaso, que a capa do livro de Jess\u00e9 \u00e9 um branco pobre serrando o galho da \u00e1rvore na qual encontra-se sentando.<\/p>\n\n\n\n<p>Jess\u00e9 n\u00e3o v\u00ea o crescimento da extrema-direita como parte do processo de decad\u00eancia do capitalismo, muito menos do processo de recoloniza\u00e7\u00e3o do Brasil que vem se desdobrando desde o in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990, tendo como for\u00e7a motriz a expans\u00e3o do agroneg\u00f3cio, a quem Lula chamou de \u201cher\u00f3is nacionais\u201d, das in\u00fameras contrarreformas realizadas por todos os governos da Nova Rep\u00fablica. Jess\u00e9 n\u00e3o entra nesses temas, pois se entrasse teria que explicar o que fez o PT nos 35 anos da Nova Rep\u00fablica, sendo o partido que mais tempo passou no poder? Ora, se o crescimento da ultradireita n\u00e3o se explica, exclusivamente, pelos governos petistas, tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel explicar tal fen\u00f4meno excluindo dele as pol\u00edticas implementadas pelo partido que mais tempo esteve no poder. N\u00e3o \u00e0 toa, os temas morais s\u00e3o, para ele, mais relevantes do que os econ\u00f4micos, a ponto de prefaciar o seu livro com titulo \u201cNunca foi economia, seu tolinho!\u201d. As narrativas de Jess\u00e9 pulam por cima da cabe\u00e7a desse tema, para, em seguida, quebrar os ossos perante a realidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Jess\u00e9 diz ainda que os brancos pobres n\u00e3o sa\u00edram \u00e0s ruas contra A\u00e9cio Neves e o presidente Temer como sa\u00edram contra Dilma em 2016. Diz ele \u201cComparem o caso da \u201cLava Jato\u201d com o caso \u201cDilma\u201d, que reuniu, nas principais cidades brasileiras, milh\u00f5es de branquinhos, bem-vestidos e indignados com a corrup\u00e7\u00e3o filmada e expl\u00edcita de A\u00e9cio e Temer. Nenhum branquinho bem-vestido e hist\u00e9rico saiu \u00e0s ruas no segundo caso, enquanto no primeiro foram milh\u00f5es \u00e0s ruas\u201d&nbsp;(p.79) .<\/p>\n\n\n\n<p>Essa afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 falsa! Contra A\u00e9cio nem foi preciso, pois ele virou, literalmente, p\u00f3 pol\u00edtico. Contra o governo Temer n\u00e3o s\u00f3 aconteceram fortes mobiliza\u00e7\u00f5es, como seu governo enfrentou uma das maiores greves gerais da hist\u00f3ria da Nova Rep\u00fablica, que aconteceu no dia 15 de abril de 2017. Em maio daquele mesmo ano, ocorreu a Marcha a Bras\u00edlia, com mais de 100 mil pessoas e uma batalha campal de quatro horas entre a pol\u00edcia e os manifestantes, acontecimento que ganhou o notici\u00e1rio internacional, mas que some das linhas do \u201cPobre de Direta\u201d. Temer ficou preso \u00e0s cordas, socado por todos os lados, \u00e0 espera do golpe fatal: a greve geral que foi sabotada pelas mesmas organiza\u00e7\u00f5es de esquerda que hoje comp\u00f5em a Frente Ampla e refor\u00e7am a tese do \u201cpobre de direita\u201d. E n\u00e3o parou por a\u00ed. Um ano depois, em maio de 2018, Temer enfrentou aquela que certamente foi a maior greve de caminhoneiros da hist\u00f3ria deste pa\u00eds. Mesmo com o desabastecimento, a popula\u00e7\u00e3o apoiou a greve porque queria se ver livre de Temer. Mas, mais uma vez a esquerda capitalista, e n\u00e3o os \u201cpobres de direita\u201d, preferiu canalizar todo o \u00f3dio das ruas para as elei\u00e7\u00f5es presidenciais daquele mesmo ano. E o resultado qual foi? Bolsonaro eleito.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Jess\u00e9 criminaliza o branco pobre para absolver os governos petistas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O m\u00e9todo de Jess\u00e9 de Souza para defender os governos petistas \u00e9 ignorar acontecimentos que s\u00e3o fundamentais para entender a luta de classes brasileira dos \u00faltimos anos. Fazer a aproxima\u00e7\u00e3o desses acontecimentos com suas narrativas seria o mesmo que aproximar cera do sol.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 verdade que contra Dilma milh\u00f5es sa\u00edram \u00e0s ruas porque a direita convocou e a Rede Globo apoiou, mas, tamb\u00e9m \u00e9 verdade, que Temer n\u00e3o foi derrubado porque o PT boicotou. Dilma sofreu Impeachment quando tinha menos de 10% de aprova\u00e7\u00e3o popular, Temer chegou aos insustent\u00e1veis 3%, segundo pesquisa da CNI\/Ibope. Se os brancos pobres n\u00e3o o apoiavam, por que diabos n\u00e3o desejariam derrub\u00e1-lo?<\/p>\n\n\n\n<p>Ora, foram quest\u00f5es morais que fizeram os dois primeiros governos de Lula ser altamente popular e o \u00faltimo de Dilma catastr\u00f3fico? Ou isso tem a ver com o crescimento da economia mundial, no primeiro caso, e do seu descenso no segundo? Algu\u00e9m j\u00e1 esqueceu que Dilma falou no segundo turno das elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2014 que n\u00e3o mexeria nos direitos dos trabalhadores \u201cnem que a vaca tussa\u201d e dois meses depois baixou a Medida Provis\u00f3ria 668 que enfileirou uma s\u00e9rie de ataques contra os trabalhadores? S\u00e3o esses mesmos trabalhadores que Jess\u00e9 desejaria que sa\u00edssem \u00e0s ruas em defesa do governo Dilma, sob a pena de atribuir-lhes o carimbo de \u201cpobre de direita\u201d?<\/p>\n\n\n\n<p>Jess\u00e9 caracteriza, acertadamente, que os presentes nos atos da direita em defesa do impeachment de Dilma eram formados, majoritariamente, por pessoas brancas, mas n\u00e3o faz nenhuma caracteriza\u00e7\u00e3o do tipo racial presente nos atos em defesa de Dilma, e n\u00e3o faz para n\u00e3o cair em contradi\u00e7\u00f5es. Por\u00e9m, a tese de doutorado \u201cPercursos Est\u00e9ticos das Manifesta\u00e7\u00f5es Pol\u00edticas de Ruas entre 2013 e 2016\u201d, do cientista social Gustavo Casasanta Firmino, mostra que os atos a favor e contra Dilma simplesmente dividiram a classe m\u00e9dia paulista e n\u00e3o, necessariamente, colocaram brancos pobres e de classe m\u00e9dia de um lado e negros e mesti\u00e7os do outro. Negros pobres e brancos pobres foram minorias nos dois lados.<\/p>\n\n\n\n<p>Claro que n\u00e3o podemos descartar o peso do machismo no desgaste do governo Dilma, mas esse n\u00e3o foi o elemento determinante para sua queda. Se fosse, como se explica que o seu primeiro governo teve uma popularidade superior aos dois primeiros governos de Lula? Essas quest\u00f5es nem Jess\u00e9, nem Weber e nem Freud explicam.<\/p>\n\n\n\n<p>Parte das narrativas de Jess\u00e9 toma os EUA como analogia. E em nossa opini\u00e3o, \u00e9 importante sim olhar para os EUA para entender o crescimento da ultradireita no Brasil e no mundo. Contudo, um fato passa despercebido: a rebeli\u00e3o antirracista ocorrida naquele pa\u00eds em 2020. Aquela foi de longe a rebeli\u00e3o antirracista mais importante da hist\u00f3ria dos EUA. Num pa\u00eds em que apenas 12% da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 negra, 78% dos americanos consideravam a revolta \u201ccompletamente\u201d ou \u201cparcialmente justificada\u201d, de acordo com pesquisa da Universidade Monmouth. Trump, por exemplo, foi obrigado a se esconder no bunker da Casa Branca com um rato branco acuado.<\/p>\n\n\n\n<p>Jorge Floyd, um negro desempregado, ex-presidi\u00e1rio, ajudou a derrotar Donald Trump. O sentimento que aquela multid\u00e3o afro, branca e latina nutria em rela\u00e7\u00e3o a Trump era de \u00f3dio, puro \u00f3dio, nada menos que \u00f3dio. Ent\u00e3o, como explicar que aqueles mesmos brancos que haviam rompido com as ideologias supremacistas e com o trumpismo, que queriam ver a Am\u00e9rica racista em brasas, quatro anos depois elegem o mesmo Trump com um discurso muito mais reacion\u00e1rio do que antes? A maioria desses brancos votaram em Trump recentemente s\u00f3 por quest\u00f5es morais? Se sim, porque o supremacismo de Trump e da burguesia racista dos EUA n\u00e3o empurraram a maioria dessas pessoas contra os atos em defesa de um afro-americano da ral\u00e9 morto por um policial branco? N\u00e3o houve ataques de Biden e Kamala contra os trabalhadores brancos e da classe m\u00e9dia dos EUA? Essas pessoas, refiro-me aos brancos pobres, mudaram de lado por uma quest\u00e3o meramente moral e racial? Qualquer um que vislumbre estudar a consci\u00eancia de um povo, de uma ra\u00e7a ou de uma classe como algo linear, que se desenvolve sempre em linha reta, sem zigue-zagues e sem contradi\u00e7\u00f5es, sem base social, certamente se perder\u00e1 em labirintos idealistas. Olhar para realidade e para as rela\u00e7\u00f5es sociais \u00e9 mais confi\u00e1vel e ajuda a reduzir a margem de erros. Isso porque a consci\u00eancia \u00e9 t\u00e3o contradit\u00f3ria e din\u00e2mica quanto a realidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Opinamos que \u00e9 preciso olhar para esses acontecimentos atrav\u00e9s de uma vis\u00e3o dial\u00e9tica que n\u00e3o contraponha as quest\u00f5es das opress\u00f5es \u2013 que n\u00e3o se reduzem a quest\u00f5es morais \u2013 aos temas econ\u00f4micos e sociais, nem subordine um ao outro, mas que os combinem. Relacionar, automaticamente, a consci\u00eancia pol\u00edtica de um grupo a sua condi\u00e7\u00e3o racial \u00e9 t\u00e3o perigoso quanto pular fogueira com o corpo banhado de \u00e1lcool. Em nossa opini\u00e3o, as narrativas de Jess\u00e9 est\u00e3o condensadas em um corpo te\u00f3rico com queimaduras de 3\u00ba grau.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele cria conceitos, defini\u00e7\u00f5es e esquemas e depois faz um recorte grosseiro da realidade, excluindo dela fatos relevantes, para, na sequ\u00eancia, enquadrar essa mesma realidade dentro dos seus esquemas e conceitos preconcebidos. N\u00e3o somos contr\u00e1rios aos conceitos e esquemas, desde que os mesmos ajudem a explicar a realidade tal como ela \u00e9, o que n\u00e3o implica enquadrar arbitrariamente uma realidade din\u00e2mica e contradit\u00f3ria em esquemas e conceitos previamente constru\u00eddos. Assim, a realidade j\u00e1 n\u00e3o serve mais para nada, bem como as classes e grupos sociais n\u00e3o passam de paisagem para embelezar teses e hip\u00f3teses, sejam elas quais forem.<\/p>\n\n\n\n<p>Pela l\u00f3gica de racioc\u00ednio de Jess\u00e9, como seriam classificados os servidores p\u00fablicos federais que recentemente enfrentaram um greve dur\u00edssima contra o governo Lula, mas que continuam o apoiando? Ou a maioria dos quilombolas e ind\u00edgenas que passados quase de dois anos do governo Lula se sentem tra\u00eddos mais uma vez pelo PT, mas n\u00e3o romperam definitivamente com este governo? Estariam esses grupos alisando os chicotes dos seus algozes? N\u00e3o achamos que seja essa a defini\u00e7\u00e3o mais correta, mas pela l\u00f3gica de Jess\u00e9, a caracteriza\u00e7\u00e3o seria essa, que \u00e9 preconceituosa, ultimanista e idealista.<\/p>\n\n\n\n<p>Jess\u00e9 gira o eixo racial da narrativa do \u201cpobre de direita\u201d, antes atribu\u00edda aos negros, por\u00e9m, mant\u00e9m os \u201cculpados\u201d dentro da mesma classe, a trabalhadora. Ou seja, a culpa \u00e9 sempre dos trabalhadores e n\u00e3o de suas dire\u00e7\u00f5es politicas, que tamb\u00e9m desaparecem das narrativas do \u201cPobre de Direita\u201d. Em momento algum Jess\u00e9 prop\u00f5e ao PT romper com o imperialismo, com a burguesia agr\u00e1ria e internacional, com o sistema financeiro e com suas alian\u00e7as com os partidos burgueses, inclusive com os bolsonaristas. Jess\u00e9 se limita a oferecer alguns panos para o PT enxugar o gelo da decad\u00eancia do capitalismo brasileiro e do esgotamento da Nova Rep\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p>Pouco antes de escrevermos este artigo, o PT se emblocava com Arthur Lira e o PL em torno do nome de Hugo Mota (Republicanos) \u00e0 presid\u00eancia da C\u00e2mara dos Deputados; o governador Rafael Fonteles (PT) do Piau\u00ed batia o martelo da privatiza\u00e7\u00e3o da empresa de Saneamento do estado na BOVESPA; o governo Lula, via BNDES, financiava o leil\u00e3o de privatiza\u00e7\u00f5es das escolas p\u00fablicas pelo governo Tarcisio de Freitas (Republicanos-SP) e, em pleno Novembro Negro, o PT e o PL uniram-se para aprovar o Projeto de Lei de autoria do deputado Coronel Ulysses (Uni\u00e3o-AC), que endurece ainda mais a Lei Penal. O deputado Kim Kataguiri (Uni\u00e3o-SP), relator do projeto, chegou a afirmar: \u201c\u00c9 a primeira vez, nesses cinco a seis anos de C\u00e2mara dos Deputados que tenho, que vejo o Partido dos Trabalhadores votando para endurecer a legisla\u00e7\u00e3o penal, processual penal e a Lei de Execu\u00e7\u00f5es Penais\u201d. De certo, n\u00e3o foi a primeira vez, mas fica a pergunta: quantos pobres de direita, sejam eles brancos, pretos ou evang\u00e9licos participaram dessas decis\u00f5es que s\u00f3 fortalecem a extrema-direita brasileira?<\/p>\n\n\n\n<p>A tese de Jess\u00e9 \u00e9 mais ou menos essa: \u00e9 mais f\u00e1cil o branco pobre sul-sudestino se atirar de um penhasco porque se sentiu seduzido pelo ch\u00e3o onde se espatifar\u00e1 do que algu\u00e9m empurr\u00e1-lo em dire\u00e7\u00e3o ao ch\u00e3o. A realidade mostra que, no geral, existe sempre uma m\u00e3ozinha amiga empurrando a classe trabalhadora precip\u00edcio abaixo, e \u00e9 essa m\u00e3ozinha que Jess\u00e9 torna invis\u00edvel em suas narrativas a cerca do \u201cpobre de direita\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: Hertz Dias | Desde que a extrema direita come\u00e7ou a crescer, e muitos trabalhadores romperam com o PT, popularizou-se nos c\u00edrculos da esquerda a narrativa sobre o \u201cpobre de direita\u201d. Essa narrativa foi transformada em tese no livro&nbsp;O pobre de direita: a vingan\u00e7a dos bastardos,&nbsp;do soci\u00f3logo Jess\u00e9 de Souza, publicado pela editora Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira. 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