{"id":80090,"date":"2024-12-02T14:20:05","date_gmt":"2024-12-02T14:20:05","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=80090"},"modified":"2025-01-19T18:53:59","modified_gmt":"2025-01-19T18:53:59","slug":"a-extrema-direita-de-onde-vem-o-que-representa-para-onde-esta-indo-como-combate-la","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2024\/12\/02\/a-extrema-direita-de-onde-vem-o-que-representa-para-onde-esta-indo-como-combate-la\/","title":{"rendered":"A extrema direita: de onde vem, o que representa, para onde est\u00e1 indo, como combat\u00ea-la"},"content":{"rendered":"\n<p>Por: Felipe Alegria \/ Corriente Roja<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Apresenta\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Este artigo apresenta um primeiro estudo e conclus\u00f5es sobre a extrema direita, que, sem d\u00favida, precisar\u00e1 avan\u00e7ar e aprofundar.<\/p>\n\n\n\n<p>A vit\u00f3ria de Trump na principal pot\u00eancia imperialista destaca a for\u00e7a adquirida pela extrema direita na esfera internacional, com fortes posi\u00e7\u00f5es j\u00e1 conquistadas na Europa e na Am\u00e9rica Latina. O avan\u00e7o da extrema direita \u00e9 um fen\u00f4meno global que corresponde ao atual momento hist\u00f3rico de crise do capitalismo. Com amplos v\u00ednculos internacionais entre si, sua ascens\u00e3o est\u00e1 em pleno desenvolvimento, mostra diferentes express\u00f5es nacionais e, como um fen\u00f4meno em transi\u00e7\u00e3o, apresenta desenlaces em aberto que depender\u00e3o do curso dos acontecimentos.<\/p>\n\n\n\n<p>A extrema direita de hoje \u00e9 um fen\u00f4meno que, embora tenha semelhan\u00e7as, n\u00e3o \u00e9 o fascismo e o nazismo das d\u00e9cadas de 1920 e 1930, pois se move em coordenadas hist\u00f3ricas diferentes. No entanto, \u00e9 necess\u00e1rio considerar os elementos comuns entre os dois fen\u00f4menos e sua inter-rela\u00e7\u00e3o. E, \u00e9 claro, \u00e9 necess\u00e1rio levar em conta as li\u00e7\u00f5es do passado para combat\u00ea-lo e derrot\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>A extrema direita est\u00e1 se desenvolvendo fortemente nos pa\u00edses imperialistas ocidentais (EUA, Europa) e em pa\u00edses semicoloniais como a Am\u00e9rica Latina (Argentina, Brasil, El Salvador&#8230;) ou a \u00cdndia (<em>Indutva<\/em>), onde os regimes democr\u00e1ticos liberais est\u00e3o em crise. Esse n\u00e3o \u00e9 o mesmo fen\u00f4meno das ditaduras militares na \u00c1sia ou na \u00c1frica, que dependem quase exclusivamente de aparatos estatais de repress\u00e3o. Na R\u00fassia de Putin, por sua vez, \u00e9 um regime bonapartista autorit\u00e1rio, uma ditadura que conta com a simpatia de grande parte da extrema direita europeia, que a v\u00ea como um modelo a ser seguido.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>1. Um movimento que vem ganhando for\u00e7a desde a crise global de 2008<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O crescimento da extrema direita atual \u00e9 um fen\u00f4meno hist\u00f3rico relativamente novo, surgido a partir da crise capitalista mundial de 2008, ou seja, a partir do momento em que, ap\u00f3s quase 30 anos de <em>marcha triunfal, a globaliza\u00e7\u00e3o<\/em> imperialista entrou em crise e revelou seus efeitos sociais devastadores.<\/p>\n\n\n\n<p>O triunfo da globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal n\u00e3o teria sido t\u00e3o abrangente se n\u00e3o tivesse associado \u00e0 restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo na China, na R\u00fassia e na Europa Oriental. Foi essa restaura\u00e7\u00e3o que permitiu que a globaliza\u00e7\u00e3o ganhasse um impulso t\u00e3o colossal. Ela proporcionou novas e enormes \u00e1reas para o ac\u00famulo de capital e deu origem a grandes realoca\u00e7\u00f5es industriais. Apoiando-se na superexplora\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora chinesa, permitiu uma redu\u00e7\u00e3o geral dos sal\u00e1rios e um processo de desmantelamento generalizado das conquistas trabalhistas e sociais em todo o mundo. Isso possibilitou o avan\u00e7o na fragmenta\u00e7\u00e3o e na terceiriza\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho e ampliou o trabalho informal e a marginaliza\u00e7\u00e3o social de setores inteiros da classe trabalhadora a extremos sem precedentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas conquistas do capitalismo tamb\u00e9m foram apoiadas pelo triunfo ideol\u00f3gico do neoliberalismo, que apresentou a restaura\u00e7\u00e3o capitalista como o fracasso hist\u00f3rico do socialismo. Embora os regimes em que o capitalismo foi restaurado, ou seja, China, R\u00fassia e Europa Oriental, fossem apresentados como socialistas ou comunistas, n\u00e3o passavam de um arremedo lament\u00e1vel do socialismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao contr\u00e1rio da revolu\u00e7\u00e3o russa de 1917, que abriu entre as classes trabalhadoras do mundo a perspectiva e a esperan\u00e7a de alcan\u00e7ar o socialismo, a restaura\u00e7\u00e3o capitalista dos anos 1980-90 questionou essa perspectiva socialista e contribuiu fortemente para a desorganiza\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse triunfo ideol\u00f3gico neoliberal n\u00e3o foi, entretanto, m\u00e9rito exclusivo dos ide\u00f3logos ultraliberais (e das igrejas evang\u00e9licas associadas). Os partidos socialistas (esquerda burguesa socioliberal), que administravam a globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal, bem como o <em>p\u00f3s-modernismo<\/em>, que nas \u00faltimas d\u00e9cadas \u00e9 hegem\u00f4nico na <em>nova esquerda ocidental<\/em> que surgiu nos \u00faltimos anos, tamb\u00e9m contribu\u00edram decisivamente. Os exemplos incluem o Syriza da Gr\u00e9cia, o Podemos espanhol, o PSOL do Brasil, a Refundazione da It\u00e1lia e certas correntes de oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 opress\u00e3o racial e de g\u00eanero.<\/p>\n\n\n\n<p>Os partidos socialistas primeiro abandonaram seu socialismo <em>evolucionista<\/em> em favor do estado de bem-estar social capitalista e depois se mudaram com armas e bagagens para o socioliberalismo (sua vers\u00e3o particular do neoliberalismo). No caso dos p\u00f3s-modernistas, o marxismo tornou-se uma meta-narrativa ultrapassada a ser substitu\u00edda pelo pensamento c\u00e9tico. Para o p\u00f3s-modernismo, a realidade n\u00e3o \u00e9 algo objetivo que possa ser conhecido, mas uma constru\u00e7\u00e3o de linguagem. A sociedade n\u00e3o se baseia no dom\u00ednio do capital e da explora\u00e7\u00e3o e n\u00e3o h\u00e1 classe oper\u00e1ria, mas in\u00fameras opress\u00f5es com novos sujeitos sociais que precisam ser organizados separadamente. O poder est\u00e1 em toda parte e n\u00e3o h\u00e1 sentido na luta para tom\u00e1-lo. A luta por um regime socialista n\u00e3o tem sentido e deve ser substitu\u00edda por uma batalha difusa por uma \u201c<em>democracia radical<\/em>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A extrema direita surgiu como uma op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ap\u00f3s a eclos\u00e3o da crise global de 2008, apoiada pelo descr\u00e9dito e pelo ressentimento social provocados pelos governos da <em>esquerda burguesa socioliberal<\/em> (partidos socialistas) e, por extens\u00e3o, pelo descr\u00e9dito alcan\u00e7ado pelos regimes de democracia liberal nos quais esses governos se assentavam.<\/p>\n\n\n\n<p>Sua evolu\u00e7\u00e3o, no entanto, ocorreu alguns anos mais tarde, ap\u00f3s intensa decep\u00e7\u00e3o popular diante de grandes lutas que se mostraram incapazes de ir al\u00e9m do capitalismo, pois careciam de organiza\u00e7\u00e3o e, sobretudo, de dire\u00e7\u00e3o para faz\u00ea-lo. No caso da Europa, foi depois de grandes revoltas dirigidas por for\u00e7as que se apresentavam \u00e0 esquerda dos partidos socialistas, mas que nunca aspiraram a romper com o capitalismo ou sair da estrutura dos regimes democr\u00e1ticos liberais. Foi ap\u00f3s o fiasco do <em>Syriza<\/em>, que deixou de ser a grande esperan\u00e7a do povo grego para ser seu carrasco em nome da UE; do <em>Podemos<\/em>, que deixou de ser o porta-estandarte da rebeli\u00e3o popular na Espanha para ser um s\u00f3cio menor do PSOE; ap\u00f3s o desencanto da juventude brit\u00e2nica com Corbyn ou da juventude portuguesa com o <em>Bloco de Esquerda<\/em>, transformado em s\u00f3cio parlamentar submisso do PS. Na Am\u00e9rica Latina, a ascens\u00e3o da extrema direita seguiu o desencanto da primeira onda de governos progressistas (N\u00e9stor Kirchner e Cristina, Lula, Dilma&#8230;).<\/p>\n\n\n\n<p>No calor dessas desilus\u00f5es, a ultradireita, fortemente apoiada pelas redes sociais convertidas em grandes plataformas de desinforma\u00e7\u00e3o (fakenews) e doutrina\u00e7\u00e3o paralelas \u00e0 grande m\u00eddia, apresentou-se como a \u201c<em>representante do povo contra as elites e o sistema<\/em>\u201d (dentro do qual colocam em lugar de destaque \u00e0 esquerda burguesa oficial), ganhando peso consider\u00e1vel na pequena burguesia e entre importantes setores de trabalhadores, em especial os mais prec\u00e1rios e explorados.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, na Fran\u00e7a, de acordo com as pesquisas de opini\u00e3o, o <em>Rassemblement-National<\/em> (RN) de Marine Le Pen tem o voto de 53% dos trabalhadores do pa\u00eds e \u00e9 tamb\u00e9m o partido mais votado na Fran\u00e7a. Algo semelhante ocorre como o <em>Partido da Liberdade<\/em> da \u00c1ustria (FP\u00d6). Na Argentina, Milei foi eleito presidente em 2023 com 55,69% dos votos, e no Brasil, em 2022, Bolsonaro ficou com 49,17% dos votos, 1,66 pontos atr\u00e1s de Lula (50,83%). Nos EUA, Trump conquistou o apoio eleitoral de uma parte substancial dos trabalhadores brancos empobrecidos nos estados do <em>RustBelt <\/em>(Cintur\u00e3o da Ferrugem), mas tamb\u00e9m de importantes parcelas do voto latino e negro.<\/p>\n\n\n\n<p>Um fator adicional que teve um forte impacto na ascens\u00e3o da extrema direita, especialmente na Europa, foi a crise migrat\u00f3ria de 2015, consequ\u00eancia da guerra da S\u00edria, com a chegada de uma enorme massa de refugiados. Somente na Alemanha entraram mais de um milh\u00e3o. O processo continuou mais tarde, ap\u00f3s a invas\u00e3o russa, com o afluxo de v\u00e1rios milh\u00f5es de ucranianos em 2022. A ang\u00fastia de setores da popula\u00e7\u00e3o face a este afluxo maci\u00e7o, coincidindo com a crescente priva\u00e7\u00e3o de amplos setores da popula\u00e7\u00e3o, foi amplamente explorada pela extrema direita europeia. O mesmo que Trump faz nos EUA. A extrema direita tamb\u00e9m foi capaz, durante a pandemia de 2020, de capitalizar a rejei\u00e7\u00e3o de amplos setores da popula\u00e7\u00e3o ao conluio dos governos com as grandes empresas farmac\u00eauticas e seu despotismo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2. A ideologia da extrema direita<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A ascens\u00e3o da extrema direita baseia-se em uma combina\u00e7\u00e3o de ultraliberalismo, conservadorismo extremo, racismo e xenofobia, patriotismo e um forte impulso autorit\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2.1 Ultra-liberalismo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O ultraliberalismo foi articulado ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial por intelectuais como Von Hayek, Von Mises, Milton Friedman&#8230; Entretanto, foi somente a partir da d\u00e9cada de 1970 que, substituindo os neokeynesianos, ele se expandiu e converteu-se na ideologia econ\u00f4mica dominante no Ocidente como um todo. Em particular, desde que Reagan se tornou presidente dos Estados Unidos (1981-1989) e Thatcher chefe do governo brit\u00e2nico (1979-1990). Desde ent\u00e3o, o ultraliberalismo tem sido um companheiro insepar\u00e1vel da globaliza\u00e7\u00e3o imperialista.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos EUA, o ultraliberalismo foi combinado com um profundo conservadorismo sociorreligioso e um forte patriotismo imperialista, resultando em uma fus\u00e3o entre o movimento ultraliberal e o movimento evang\u00e9lico. Essa fus\u00e3o, j\u00e1 evidente na era Reagan, continuou e se aprofundou desde ent\u00e3o, e agora \u00e9 uma dos principais pontos de apoio de Trump.<\/p>\n\n\n\n<p>As for\u00e7as de extrema direita, quando falam de socialismo ou comunismo, n\u00e3o est\u00e3o se referindo ao socialismo de Marx e Engels, Rosa Luxemburgo, L\u00eanin ou Trotsky. Pelo contr\u00e1rio, para a extrema direita, o socialismo s\u00e3o as ditaduras capitalistas da Venezuela, Nicar\u00e1gua ou Cuba. E, al\u00e9m disso, o socialismo \u00e9 qualquer interven\u00e7\u00e3o estatal na economia. Seus ide\u00f3logos identificam o socialismo com a pol\u00edtica socioliberal dos partidos socialistas ou do PT de Lula ou com a esquerda neorreformista p\u00f3s-moderna do <em>Podemos, Syriza ou Petro<\/em> na Col\u00f4mbia. Eles at\u00e9 identificam como socialista ou comunista uma parte da burguesia, que <em>\u201cdepende do Estado\u201d.<\/em> Chegaram ao ponto de denunciar como socialista a Biden e o pr\u00f3prio Partido Democrata, o genu\u00edno representante do grande capital americano. Chegam ao ponto de incluir a pr\u00f3pria esquerda revolucion\u00e1ria nessa mistura.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 aparentemente contradit\u00f3rio o fato de que, apoiando-se na devasta\u00e7\u00e3o social causada pelo neoliberalismo, a ultradireita internacional defenda o ultraliberalismo mais cru como solu\u00e7\u00e3o. Pregam um liberalismo ut\u00f3pico que nunca existiu na hist\u00f3ria, no qual reinaria a livre concorr\u00eancia perfeita, organizada pelo mercado e sem nenhuma interven\u00e7\u00e3o do Estado<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. S\u00e3o defensores da luta contra o Estado, que deve ser reduzido ao m\u00ednimo, embora, \u00e9 evidente, o Estado deva manter a mais estrita ordem p\u00fablica, assegurar o crescente poder militar e garantir a mais absoluta liberdade de empreendimento diante de qualquer demanda sindical, social ou ambiental. S\u00e3o defensores da desigualdade social, que consideram a m\u00e3e do progresso, e se op\u00f5em a todos os ideais igualit\u00e1rios. Assumem a necessidade de uma taxa natural de desemprego e s\u00e3o a favor do abandono das medidas sociais do Estado de Bem-estar social<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. A solu\u00e7\u00e3o, para eles, \u00e9 puramente individual e consiste no \u201c<em>empreendimento empresarial<\/em>\u201d de cada indiv\u00edduo para enriquecer.<\/p>\n\n\n\n<p>Paradoxalmente, essa ideologia reacion\u00e1ria \u00e9 justificada pela brutal precariedade das rela\u00e7\u00f5es de trabalho, uma realidade predominante na qual os trabalhadores, especialmente os mais jovens, n\u00e3o t\u00eam mais esperan\u00e7a de um emprego fixo ou de uma aposentadoria. Ent\u00e3o disseminam a ideia de que a solu\u00e7\u00e3o \u00e9 se tornar o pr\u00f3prio patr\u00e3o, algo cujo verdadeiro significado \u00e9 ser privado de todos os direitos. Um trabalhador escravo do aplicativo Uber seria um exemplo. O retrocesso generalizado dos servi\u00e7os p\u00fablicos de sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e transporte tamb\u00e9m mostraria que \u201co Estado \u00e9 in\u00fatil\u201d e que a solu\u00e7\u00e3o deve ser individual.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2.2 Ultraconservadorismo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os evang\u00e9licos norte-americanos vincularam-se ao ultraliberalismo atrav\u00e9s da chamada teologia da prosperidade, que prega que n\u00e3o devemos nos preocupar com <em>outra vida<\/em>, mas sim em prosperar e enriquecer neste mundo. O enriquecimento individual seria um sinal de ser aben\u00e7oado por Deus. Essa vis\u00e3o \u00e9 complementada pela teologia do dom\u00ednio, que defende que, quando alcan\u00e7arem uma maioria socioeleitoral, devem impor um governo teocr\u00e1tico, regido pela \u201c<em>lei de Deus<\/em>\u201d. O movimento evang\u00e9lico tem uma estrutura coordenada internacionalmente, com um centro nos EUA e um grande peso na Am\u00e9rica Latina, como os neopentecostais no Brasil, uma for\u00e7a de milh\u00f5es, aliada de Bolsonaro e da extrema direita brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com os pensadores de extrema-direita, os socialistas e marxistas h\u00e1 muito reconheceram que n\u00e3o podem prescindir do mercado capitalista<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[3]<\/a> e converteram o socialismo na busca pelo controle do Estado sobre a economia e a sociedade, procurando tornar o Estado a \u00fanica fonte de poder<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. Para conseguir isso, eles precisam demolir os centros de poder legados pela <em>cultura judaico-crist\u00e3<\/em>, ou seja, a religi\u00e3o e a fam\u00edlia tradicional, e, da mesma forma, tamb\u00e9m precisam ir contra a na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A extrema direita, por outro lado, apresenta-se como a grande defensora dos valores crist\u00e3os: a fam\u00edlia tradicional e a religi\u00e3o. Raivosamente antifeminista e contr\u00e1ria ao direito ao aborto, a extrema direita \u00e9 defensora da fam\u00edlia patriarcal, porta-estandarte do <em>homem oprimido<\/em> e radicalmente contr\u00e1ria aos direitos LGBT<a href=\"#_ftn5\" id=\"_ftnref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2.3 Patriotismo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Do ponto de vista dos ide\u00f3logos da extrema direita, os \u201csocialistas\u201d procuram destruir a na\u00e7\u00e3o ao promover um supra-estado global. Para isso, se aliam ao capital financeiro internacional, que busca a prote\u00e7\u00e3o do Estado contra a concorr\u00eancia e do dom\u00ednio global acima das fronteiras nacionais. Eles odeiam aqueles que definem como globalistas, s\u00e3o obcecados por personagens como o financista judeu Soros e se op\u00f5em \u00e0 pr\u00f3pria exist\u00eancia de \u00f3rg\u00e3os supranacionais como a ONU.<\/p>\n\n\n\n<p>Os discursos dos diferentes partidos de extrema direita apelando a p\u00e1tria se assemelham formalmente, mas h\u00e1 uma grande diferen\u00e7a entre a extrema direita dos pa\u00edses imperialistas e a dos pa\u00edses semicoloniais. No primeiro caso, temos partidos abertamente nacional-imperialistas, cada um em sua pr\u00f3pria escala: s\u00e3o Trump com seu <em>Make America Great Again<\/em> (MAGA), RN, AfD, Reform UK ou Vox, levantando suas bandeiras supremacistas. Na Am\u00e9rica Latina, por outro lado, o patriotismo de Bolsonaro ou Milei \u00e9 uma bagatela, incapaz de esconder sua completa submiss\u00e3o e rendi\u00e7\u00e3o ao amo norte-americano. Na Europa, a extrema direita se declara euroc\u00e9tica, se n\u00e3o eurof\u00f3bica. Contrap\u00f5em a UE \u00e0 soberania nacional de seus pa\u00edses, para a qual exigem um retorno de compet\u00eancias (<em>\u201cMenos Europa, mais p\u00e1tria\u201d),<\/em> ao mesmo tempo em que se dividem entre si de acordo com seus interesses nacionais, por exemplo, sobre qual pol\u00edtica adotar em rela\u00e7\u00e3o a Putin.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2.4 Racismo e xenofobia contra imigrantes<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, nos EUA e na Europa, encontramos uma situa\u00e7\u00e3o explosiva, combinando uma intensa press\u00e3o migrat\u00f3ria e uma forte deteriora\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de vida dos setores mais pobres dos pa\u00edses anfitri\u00f5es. A press\u00e3o migrat\u00f3ria \u00e9 provocada por situa\u00e7\u00f5es de guerra (inclusive guerras n\u00e3o declaradas), pela pilhagem de pa\u00edses semicoloniais e pela seca e fome causadas pelo aquecimento global, o que os povos n\u00e3o tem nenhuma responsabilidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2022, de acordo com os c\u00e1lculos do <em>Financial Times,<\/em> os imigrantes representavam 26% da popula\u00e7\u00e3o nos EUA, 47% na Su\u00ed\u00e7a, 31% na Su\u00e9cia, 30% na \u00c1ustria, 27% na Fran\u00e7a, 25% na B\u00e9lgica, 24% na Alemanha, 23% na Gr\u00e3-Bretanha e 17,1% na Espanha. Na Fran\u00e7a, em 2021, 48% dos imigrantes eram africanos, 62% dos quais eram norte-africanos (Magreb). No Estado espanhol, est\u00e3o divididos entre o Marrocos e a Am\u00e9rica Latina (com um forte crescimento dos sul-americanos nos \u00faltimos anos), embora a porcentagem de africanos negros tamb\u00e9m esteja aumentando. A Alemanha \u00e9 o segundo pa\u00eds do mundo, depois dos EUA, em termos de n\u00famero absoluto de imigrantes.<\/p>\n\n\n\n<p>A situa\u00e7\u00e3o atual \u00e9 muito diferente dos anos de ascens\u00e3o da economia capitalista. Na Europa, at\u00e9 1973, eram os governos dos pa\u00edses centrais que promoviam a imigra\u00e7\u00e3o, sendo os principais fornecedores a Espanha, a It\u00e1lia e a Gr\u00e9cia. Nos EUA, a imigra\u00e7\u00e3o era igualmente favorecida. Agora vivemos a situa\u00e7\u00e3o oposta, em que a campanha contra os imigrantes \u00e9 a grande bandeira da ultradireita nos EUA e na Europa&#8230; e \u00e9, ao mesmo tempo, a pr\u00e1tica da grande maioria dos governos democr\u00e1ticos.<\/p>\n\n\n\n<p>A defesa ultradireitista da na\u00e7\u00e3o, com caracter\u00edsticas supremacistas, se apoia na teoria da conspira\u00e7\u00e3o da <em>Grande Substitui\u00e7\u00e3o<\/em>, segundo a qual a imigra\u00e7\u00e3o faz parte de um plano globalista para suplantar a popula\u00e7\u00e3o nativa. No caso da Europa, essa <em>Grande Substitui\u00e7\u00e3o <\/em>acabaria com a cultura judaico-crist\u00e3 e a substituiria por uma civiliza\u00e7\u00e3o isl\u00e2mica. A solu\u00e7\u00e3o seria, ent\u00e3o, a deporta\u00e7\u00e3o de milh\u00f5es de pessoas e o fechamento das fronteiras, conforme proposto pelo AfD, por outros na Europa e por Trump nos EUA.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2.5 Negacionismo clim\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Associada aos lobbies dos hidrocarbonetos e do agroneg\u00f3cio e envolta na bandeira da livre iniciativa, a extrema direita<a href=\"#_ftn6\" id=\"_ftnref6\">[6]<\/a> questiona a pr\u00f3pria exist\u00eancia da mudan\u00e7a clim\u00e1tica. Nos EUA, Trump est\u00e1 de volta com o slogan \u201cDrill, baby, drill\u201d. Na Europa, os governos e a extrema direita contaram com as mobiliza\u00e7\u00f5es dos agricultores europeus (em sua maioria liderada pelos grandes agroneg\u00f3cios, que usaram o descontentamento dos pequenos e m\u00e9dios agricultores levados \u00e0 ru\u00edna) para se opor a quaisquer medidas de mitiga\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica, incluindo o dilu\u00eddo \u201cPacto Verde\u201d europeu. No Brasil, a extrema direita est\u00e1 associada ao agroneg\u00f3cio que est\u00e1 saqueando o pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2.6 Sionismo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Uma das caracter\u00edsticas marcantes dos evang\u00e9licos e dos crist\u00e3os neopentecostais \u00e9 a defesa do <em>Renascimento de Israel<\/em>, que consideram como uma condi\u00e7\u00e3o para a <em>Segunda Vinda de Cristo e a Salva\u00e7\u00e3o do Mil\u00eanio<\/em>. Com base em cita\u00e7\u00f5es b\u00edblicas, eles justificam a ades\u00e3o incondicional ao sionismo e \u00e0s pol\u00edticas genocidas de Israel e exaltam Netanyahu como uma reencarna\u00e7\u00e3o do rei Davi b\u00edblico.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, al\u00e9m dos evang\u00e9licos, todas as organiza\u00e7\u00f5es de extrema direita do mundo, sem exce\u00e7\u00e3o, est\u00e3o absolutamente alinhadas com o sionismo, que, por sua vez, tem o apoio criminoso da maioria esmagadora dos governos do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>O apoio incondicional da extrema-direita ao sionismo \u00e9 encontrado em partidos que t\u00eam suas origens hist\u00f3ricas em partidos fascistas (<em>Fratellid&#8217;Italia,<\/em> FP\u00d6 ou RN), bem como em partidos mais recentes, como a extrema-direita holandesa ou o pr\u00f3prio Milei, Uma boa parte destes partidos combina sua total ades\u00e3o ao sionismo com um claro tom antissemita, algo que n\u00e3o deveria nos surpreender, considerando as coincid\u00eancias ideol\u00f3gicas hist\u00f3ricas do sionismo e o nazismo e seu apoio pol\u00edtico m\u00fatuo na d\u00e9cada de 1930<a href=\"#_ftn7\" id=\"_ftnref7\">[7]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>3. Uma rea\u00e7\u00e3o burguesa que responde \u00e0s atuais necessidades hist\u00f3ricas do grande capital<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A ultradireita \u00e9 a rea\u00e7\u00e3o burguesa \u00e0 atual crise do capitalismo e da ordem mundial, em circunst\u00e2ncias em que o grau de oligopoliza\u00e7\u00e3o da economia mundial \u00e9 gigantesco, enquanto a classe trabalhadora sofreu retrocessos consider\u00e1veis em seus direitos, consci\u00eancia e organiza\u00e7\u00e3o. Os grandes capitalistas n\u00e3o precisam hoje, dado o grau de desorganiza\u00e7\u00e3o e a aus\u00eancia de partidos revolucion\u00e1rios com influ\u00eancia de massa, impor um regime fascista de terror como o das d\u00e9cadas de 1920 e 1930, quando a mem\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro de 1917 estava viva, existia uma grande agita\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica, com grandes partidos e sindicatos oper\u00e1rios de massa, e quando as burguesias estavam se preparando para a guerra.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, estamos diante de um fen\u00f4meno em transi\u00e7\u00e3o, com conclus\u00f5es em aberto, onde, como Leon Trotsky disse na d\u00e9cada de 1930, n\u00e3o h\u00e1 muros intranspon\u00edveis entre semi-bonapartismos, bonapartismos e fascismos. Se as circunst\u00e2ncias mudassem e entr\u00e1ssemos em cen\u00e1rios de pr\u00e9-guerra ou de guerra e a crise e a desestabiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica atingissem limites fora de controle, os grandes capitalistas poderiam considerar solu\u00e7\u00f5es semelhantes aos antigos fascismos. Isso pode ser ilustrado, em pequena escala, no exemplo da organiza\u00e7\u00e3o neonazista grega <em>Aurora Dorada<\/em>. Em 2014-2015, no auge de uma poderosa revolta popular e dos trabalhadores na Gr\u00e9cia, esse partido era a terceira maior for\u00e7a do pa\u00eds e agia de acordo com as linhas fascistas cl\u00e1ssicas, com suas gangues armadas. No entanto, em 2020, quando o levante revolucion\u00e1rio foi derrotado (com a ajuda decisiva do Syriza) e a situa\u00e7\u00e3o se normalizou, a <em>Aurora Dourada<\/em>, sob a b\u00ean\u00e7\u00e3o da UE, foi declarada uma organiza\u00e7\u00e3o criminosa e banida. Posteriormente, ela foi substitu\u00edda por organiza\u00e7\u00f5es de extrema direita que n\u00e3o s\u00e3o expressamente fascistas como a vers\u00e3o original.<\/p>\n\n\n\n<p>No momento, n\u00e3o estamos testemunhando o desenvolvimento de movimentos fascistas de massa como nas d\u00e9cadas de 1920 e 1930, com base na estrutura\u00e7\u00e3o de gangues armadas e m\u00e9todos de guerra civil. De um ponto de vista geral, atualmente, a ultradireita, apoiada por setores do grande capital de import\u00e2ncia desigual, dependendo do pa\u00eds, e com forte apoio da pol\u00edcia e das For\u00e7as Armadas, se sustenta na estrutura parlamentar, com o objetivo de us\u00e1-la para avan\u00e7ar na imposi\u00e7\u00e3o de regimes autorit\u00e1rios, bonapartistas, ditaduras com elei\u00e7\u00f5es controladas. Em outras palavras, amputar as liberdades pol\u00edticas e os direitos democr\u00e1ticos, impor retrocessos substanciais \u00e0s conquistas das mulheres e LGBT, reprimir duramente as mobiliza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias e populares, impor forte controle policial, subjugar o aparato judicial e a m\u00eddia. Esse curso se reflete na \u201c<em>democracia liberal<\/em>\u201d de Orb\u00e1n na Hungria, nos planos de Bolsonaro, nos planos de Trump (contidos, entre outros, no<em> Projeto 2025 da Heritage Foundation<\/em>). A ultradireita, atualmente forma l\u00edderes, organiza nacional e internacionalmente um amplo setor militante e mobiliza setores de massa contra a institucionalidade existente e a favor de uma pauta reacion\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Com peculiaridades marcantes e ritmos espec\u00edficos em cada pa\u00eds, essa \u00e9 a atual orienta\u00e7\u00e3o geral das organiza\u00e7\u00f5es de extrema direita, embora, ap\u00f3s do ataque ao Capit\u00f3lio promovido por Trump ou as tentativas frustradas de golpe de Bolsonaro, &nbsp;n\u00e3o deva ser descartada a possibilidade de tentativas de golpe &nbsp;de Estado para acelerar o estabelecimento de um regime autorit\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, a estrat\u00e9gia geral da extrema direita combina bem com fen\u00f4menos de viol\u00eancia, como os pogroms anti-imigrantes de agosto de 2024 na Gr\u00e3-Bretanha, realizados por gangues neofascistas e orquestrados pelo partido de extrema direita <em>Reform <\/em>de Nigel Farage. Esses pogroms foram um dos pontos altos da viol\u00eancia neonazista nos \u00faltimos tempos na Europa, embora, como vimos em 2017 em Charlottesville (EUA), ou no ataque ao Capit\u00f3lio, eles estejam longe de ser uma experi\u00eancia exclusiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, n\u00e3o deixa de ser importante que organiza\u00e7\u00f5es como o FP\u00d6, Fratellid&#8217;Italia, AfD, Vox, Milei ou o Bolsonarismo, que incluem neonazistas nas suas estruturas, promovam o chamado <em>revisionismo hist\u00f3rico<\/em> &nbsp;com o objetivo de apagar o passado fascista ou ditatorial de seus pa\u00edses.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>3.1 Nos EUA e na Europa contra os imigrantes, na Am\u00e9rica Latina \u201ccontra a inseguran\u00e7a e a corrup\u00e7\u00e3o\u201d.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nos EUA e na Europa, a grande bandeira \u00e9 a cruzada contra imigrantes e refugiados. Na Europa, as organiza\u00e7\u00f5es de extrema direita e supremacia branca promovem a <em>Reemigra\u00e7\u00e3o<\/em>, ou seja, a deporta\u00e7\u00e3o em massa de migrantes, em nome da defesa da \u201c<em>identidade europeia<\/em>\u201d e dos \u201c<em>valores crist\u00e3os ocidentais<\/em>\u201d, amea\u00e7ados por uma suposta invas\u00e3o isl\u00e2mica. A AfD est\u00e1 pressionando pela expuls\u00e3o de dois milh\u00f5es de pessoas, algumas delas de nacionalidade alem\u00e3, que considera n\u00e3o assimiladas (Confer\u00eancia de Potsdam, novembro de 2023). Trump, por sua vez, est\u00e1 amea\u00e7ando com a deporta\u00e7\u00e3o em massa de 15 milh\u00f5es de imigrantes sem documentos (embora, de acordo com os n\u00fameros oficiais, sejam 11 milh\u00f5es).<\/p>\n\n\n\n<p>Em todos os casos, os imigrantes s\u00e3o acusados de serem respons\u00e1veis por todos os males: a criminalidade, a crise do Estado de Bem-estar Social, os baixos sal\u00e1rios, o roubo de empregos dos trabalhadores nacionais e acumula\u00e7\u00e3o de subs\u00eddios sociais em detrimento dos nativos.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso da Am\u00e9rica Latina, a bandeira da ultradireita muda para a <em>luta contra a inseguran\u00e7a, a viol\u00eancia e a criminalidade urbana<\/em>. Esta ofensiva, no entanto, tem um significado preciso: uma cruzada contra os setores mais pobres, identificados como delinquentes e bandidos, bem como a criminaliza\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais no campo e na cidade, como os povos ind\u00edgenas, os negros quilombolas brasileiros, os sem-terra e os sem-teto, como \u00e9 evidente na Argentina (com uma taxa de pobreza de 52,9% no primeiro semestre de 2024, com 25 milh\u00f5es de pessoas pobres), em El Salvador de Bukele ou no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>4. Organiza\u00e7\u00f5es e movimentos de extrema direita no mundo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>4.1 A extrema direita americana<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nos EUA, a extrema direita se reagrupa em torno de Trump, que h\u00e1 muito tempo assumiu o controle do Partido Republicano. Ele est\u00e1 ligado a setores relevantes do grande capital americano, tendo como figura de proa ElonMusk, suas empresas e sua rede social X. Trump foi um dos promotores do ataque ao Capit\u00f3lio e d\u00e1 cobertura a grupos fascistas, como em Charlottesville ou na pr\u00f3pria invas\u00e3o do Capit\u00f3lio. Ele \u00e9 a quinta ess\u00eancia do chauvinismo nacional-imperialista e um defensor ferrenho do sionismo genocida.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele conta com o aparato do Partido Republicano, funda\u00e7\u00f5es e grupos de opini\u00e3o, redes neonazistas e igrejas evang\u00e9licas. Tem uma forte base de apoio na pequena burguesia e entre setores significativos de trabalhadores brancos condenados ao desemprego, aos baixos sal\u00e1rios e \u00e0 pobreza, em particular no desindustrializado Cintur\u00e3o da Ferrugem (<em>RustBelt<\/em>). A desilus\u00e3o popular e os processos de ruptura com o Partido Democrata tamb\u00e9m afetaram setores da popula\u00e7\u00e3o latina e negra, que votaram nele nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es presidenciais.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 abertamente negacionista das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e porta-voz do lobby dos combust\u00edveis f\u00f3sseis (<em>Drill, baby, drill<\/em>). Travou uma luta contra os imigrantes que \u00e9 o eixo de sua campanha eleitoral, colocando um sinal de igualdade entre os migrantes e o crime e o tr\u00e1fico de drogas e propondo a deporta\u00e7\u00e3o em massa como sua maior promessa eleitoral.<\/p>\n\n\n\n<p>A conquista da presid\u00eancia, junto com o controle da C\u00e2mara dos Deputados, do Senado e da Suprema Corte, facilita a ofensiva de Trump para depurar maci\u00e7amente a Administra\u00e7\u00e3o federal, controlar o aparato judicial, atacar os direitos das mulheres e LGBTs e cortar os direitos democr\u00e1ticos, o que, sem d\u00favida, provocar\u00e1 grandes confrontos e mobiliza\u00e7\u00f5es em massa.<\/p>\n\n\n\n<p>A posse de Trump ocorrer\u00e1 em 20 de janeiro e ser\u00e1 a partir da\u00ed que poderemos avaliar em profundidade o programa exato que ele pretende aplicar e em que ritmo, seu impacto internacional e a resist\u00eancia significativa que ele encontrar\u00e1 nos diferentes setores da classe trabalhadora e do povo americano.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>4.2 A extrema direita no Brasil<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio, dada a sua import\u00e2ncia, analisar o movimento bolsonarista, cujo momento de expans\u00e3o foram as elei\u00e7\u00f5es de 2018, nas quais Jair Bolsonaro venceu com 55,13% dos votos no segundo turno. A vit\u00f3ria inicial de Bolsonaro foi relativamente improvisada, embora j\u00e1 naquela \u00e9poca contasse com o apoio de Steve Bannon (Trump) e grupos da ultradireita brasileira, de setores-chave da c\u00fapula militar e de amplos setores da burguesia brasileira (com Paulo Guedes, como fiador do ultraliberalismo, na primeira fila).<\/p>\n\n\n\n<p>No bolsonarismo, v\u00e1rios setores se fundem. Um deles \u00e9 encabe\u00e7ado pelos filhos de Bolsonaro, vinculados a Bannon e educados por Olavo de Carvalho (1947-2022), o principal ide\u00f3logo da extrema direita brasileira, intimamente associada \u00e0 ultradireita norte-americana, al\u00e9m de defensor do per\u00edodo da ditadura militar. Esta fac\u00e7\u00e3o, com grande presen\u00e7a nas redes sociais, \u00e9 a que define a ideologia bolsonarista. Ou seja, ultraliberalismo, protofascismo, defesa dos torturadores e da tortura sob ditadura, viol\u00eancia f\u00edsica contra opositores, paramilitarismo e ultraconservadorismo (misoginia, homofobia, racismo, xenofobia). Propagam os slogans \u201c<em>P\u00e1tria, Deus e Fam\u00edlia<\/em>\u201d, \u201c<em>Brasil acima de tudo<\/em>\u201d (adaptando o lema hitleriano) e \u201c<em>Deus acima de todos<\/em>\u201d, que compartilha com os demais setores bolsonaristas.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro grupo pertence \u00e0s For\u00e7as Armadas e tem grande peso no bolsonarismo: at\u00e9 6.000 militares ocuparam cargos executivos durante o governo Bolsonaro, com um grande n\u00famero de ministros \u00e0 frente. Esta \u00e9 uma peculiaridade brasileira: o papel central desempenhado por uma gera\u00e7\u00e3o de generais e oficiais de alta patente que reivindicam a ala linha-dura da ditadura militar que subjugou o Brasil entre 1964 e 1985.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro componente importante do bolsonarismo s\u00e3o as igrejas neopentecostais, com estruturas poderosas que incluem v\u00e1rios milh\u00f5es de pessoas, em sua maioria trabalhadores. A <em>teologia da prosperidade<\/em> (buscar a prosperidade individual neste mundo) e a <em>teologia da domina\u00e7\u00e3o<\/em> (favorecendo o estabelecimento de um Estado teocr\u00e1tico) as associam intimamente ao ultraliberalismo e algumas delas ao projeto autorit\u00e1rio do bolsonarismo.<\/p>\n\n\n\n<p>O triunfo de Bolsonaro se baseia em dois fatores centrais: um \u00e9 a decad\u00eancia do pa\u00eds, que vem desde o fim da ditadura e se manifesta na ru\u00edna de setores da pequena burguesia, na desindustrializa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds e no processo de demoli\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de vida e trabalho de setores inteiros do proletariado brasileiro, submetidos a um processo brutal de precariza\u00e7\u00e3o e terceiriza\u00e7\u00e3o. Esta decad\u00eancia, mascarada durante a presid\u00eancia de Fernando Henrique Cardoso (FHC) e depois pelo boom das commodities durante os governos do PT, veio \u00e0 tona com for\u00e7a ap\u00f3s a crise mundial de 2008. O outro fator por tr\u00e1s da ascens\u00e3o do bolsonarismo \u00e9 a grande desilus\u00e3o com o desempenho dos governos do PT diante desta decad\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Como resultado de tudo isso, primeiro veio a explos\u00e3o social de junho de 2013, protagonizada pela juventude precarizada da classe trabalhadora. Em seguida, depois da desilus\u00e3o popular com os dolorosos planos de austeridade de Dilma Rouseff ap\u00f3s sua vit\u00f3ria apertada em 2014, combinada com os casos de corrup\u00e7\u00e3o que afetaram importantes figuras do PT, vieram as grandes manifesta\u00e7\u00f5es de mar\u00e7o de 2015 e dos meses seguintes, dessa vez dominadas pela direita, embora com uma pequena presen\u00e7a da extrema direita. Depois veio a grande greve geral contra o presidente Temer e o \u201cOcupa Bras\u00edlia\u201d de 2017<a href=\"#_ftn8\" id=\"_ftnref8\">[8]<\/a>, tra\u00eddo pela burocracia sindical e pelo PT. Foi justamente nesse refluxo, em 2018, que Bolsonaro surgiu como uma figura de massa, com uma candidatura articulada desde 2016, com nove generais e um brigadeiro dirigindo a sua equipe de campanha, e com seus filhos, apoiados por Bannon, encarregados da propaganda nas redes sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>A extrema-direita brasileira se apoia na base das For\u00e7as Armadas e da pol\u00edcia e por setores maci\u00e7os da pequena e m\u00e9dia burguesia, mas tamb\u00e9m conseguiu se enraizar, em especial, em setores atingidos da classe trabalhadora, desiludidos com Lula e o PT, particularmente em setores prec\u00e1rios que trabalham em plataformas ou aplicativos, que se veem como \u201cempreendedores\u201d, e at\u00e9 mesmo em alguns setores jovens e pobres da periferia.<\/p>\n\n\n\n<p>Os planos do bolsonarismo s\u00e3o transformar a exaurida Nova Rep\u00fablica (constru\u00edda com base na Constitui\u00e7\u00e3o de 1988) em um regime autorit\u00e1rio e bonapartista, em uma ditadura com elei\u00e7\u00f5es, justi\u00e7a e m\u00eddia controladas, com os militares \u00e0 frente de cargos relevantes e direitos democr\u00e1ticos severamente restringidos. Eles n\u00e3o tiveram sucesso, por enquanto, porque perderam as \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es e porque o governo Biden, bem como a maioria da burguesia brasileira, estavam contra o auto-golpe.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, apesar do fato de que, sem o apoio do imperialismo norte-americano, um golpe provavelmente n\u00e3o teria sucesso, eles tentaram em 8 de janeiro de 2023. Essa tentativa foi muito mais forte do que se esperava e foi precedida, por mais de um m\u00eas, pela mobiliza\u00e7\u00e3o de pelo menos 100 mil pessoas em todo o pa\u00eds, com bloqueios de estradas, acampamentos em frente a quart\u00e9is, amea\u00e7as de ataques a bomba a aeroportos e torres de energia e a participa\u00e7\u00e3o de um importante setor da c\u00fapula das For\u00e7as Armadas. A Pol\u00edcia Federal tornou p\u00fablico nestes dias que esses planos inclu\u00edam o assassinato de Lula, Alckmin (vice-presidente) e Moraes (Supremo Tribunal Federal), antes mesmo do dia 8 de janeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>O que o \u201cbolsonarismo\u201d conseguiu at\u00e9 agora foi consolidar um espa\u00e7o pol\u00edtico que abrange 30% da popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, a favor da pauta reacion\u00e1ria e autorit\u00e1ria da extrema-direita, estruturar um forte setor militante, formar novas lideran\u00e7as e dotar-se de uma capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o, ligadas as mil\u00edcias e aos militares e vinculada \u00e0 extrema-direita internacional, particularmente ao trumpismo. A derrota da tentativa de golpe em 8 de janeiro e a poss\u00edvel condena\u00e7\u00e3o e inelegibilidade de Bolsonaro, o l\u00edder com maior capacidade de unificar a extrema-direita brasileira, abre fissuras entre seus l\u00edderes, mas suas bases estruturais persistem.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>4.3 Partidos de extrema direita europeus<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os partidos europeus de extrema direita t\u00eam origens hist\u00f3ricas diferentes. Alguns deles t\u00eam ra\u00edzes no fascismo derrotado na Segunda Guerra Mundial: o FP\u00d6 austr\u00edaco, o <em>VlaamsBelang<\/em> (VB) belga, o <em>Rassemblement National<\/em> (RN), com origem no regime pr\u00f3-nazista de Vichy, o <em>Fratellid&#8217;Italia<\/em> de Meloni (que provem do neofascista MSI), bem como a extinta <em>Aurora Dourada<\/em>. O espanhol Vox, que surgiu de uma ruptura com o PP, defende expressamente o franquismo e o ultra-catolicismo. O <em>Democratas da Su\u00e9cia<\/em> (SD) tamb\u00e9m foi fundado por neonazistas em 1988, embora no in\u00edcio dos anos 2000 tenha se desvinculado formalmente do nazismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Outros partidos de extrema direita prov\u00eam do quadro democr\u00e1tico burgu\u00eas p\u00f3s-Segunda Guerra Mundial, como os <em>Verdadeiros Finlandeses<\/em>, criado em 1995, ou a extrema direita dos Pa\u00edses Baixos, vencedora das \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es parlamentares (novembro de 2023), que acaba de formar um governo de coaliz\u00e3o (junho de 2024). Viktor Orb\u00e1n e seu partido <em>Fideszy elPiSpolaco<\/em> s\u00e3o anteriores \u00e0 restaura\u00e7\u00e3o capitalista na Europa Oriental. O brit\u00e2nico Nigel Farage l\u00edder do <em>Reform <\/em>UK, \u00e9 um ex-corretor da City de Londres e ex-membro do Partido Conservador brit\u00e2nico que criou o partido UKIP, o grande porta-estandarte da sa\u00edda da UE (Brexit).<\/p>\n\n\n\n<p>Na \u00c1ustria, o <em>Partido da Liberdade<\/em> (FP\u00d6) foi fundado por nazistas em 1956 como um partido pan-germ\u00e2nico. \u00c9 o primeiro partido de extrema direita que integrou um governo de coaliz\u00e3o com a direita tradicional em um pa\u00eds da UE (1999). Inicialmente, a UE fez vista grossa, mas depois, desde 2018, quando voltou ao governo, passou a aceit\u00e1-lo sem problemas. O FP\u00d6, que ocupou minist\u00e9rios importantes, j\u00e1 n\u00e3o reivindica o pan-germanismo e se declara um <em>patriota austr\u00edaco.<\/em> Relativiza e <em>normaliza <\/em>o nazismo e n\u00e3o marginaliza sua ideologia, que \u00e9 compartilhada por parte de sua base e de seus eleitores. Atualmente, o FP\u00d6 recolhe a maior parte dos votos da classe oper\u00e1ria na \u00c1ustria e, em setembro de 2024, venceu uma elei\u00e7\u00e3o parlamentar pela primeira vez, com 29,2% dos votos, embora os outros partidos tenham vetado seu acesso ao governo. Apoiou a entrada na UE, mas se tornou um euroc\u00e9tico. Assim como Orb\u00e1n, apoia abertamente Putin. Ele se concentra na batalha contra a imigra\u00e7\u00e3o e o Isl\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Hungria, o partido de Orb\u00e1n (<em>Fidesz<\/em>) surgiu como uma alternativa aos governos de coaliz\u00e3o liderados pelo <em>Partido Socialista<\/em> (herdeiro do antigo partido \u00fanico stalinista), que eliminou os direitos sociais e privatizou tudo o que podia, para finalmente, em 2010, entrar em colapso, dando a vit\u00f3ria a Orb\u00e1n, que est\u00e1 no poder h\u00e1 14 anos. A Hungria \u00e9 um pa\u00eds da UE onde Orb\u00e1n levanta a bandeira nacionalista e euroc\u00e9tica e reivindica autonomia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 UE. Subjugado economicamente \u00e0 Alemanha, busca um contrapeso nos investimentos chineses. Proclama sua amizade com Putin (de cujo fornecimento de energia depende), sua total rejei\u00e7\u00e3o a qualquer apoio \u00e0 Ucr\u00e2nia frente \u00e0 agress\u00e3o russa e sua fraternidade com Trump. Ele \u00e9 um dos grandes porta-estandartes europeus contra a imigra\u00e7\u00e3o e o Isl\u00e3. Ele se proclama <em>anticomunista<\/em>, defensor dos <em>valores crist\u00e3os<\/em> e contr\u00e1rio aos direitos das mulheres e dos LGBTs. Ele n\u00e3o reconhece o aquecimento global e nega a emerg\u00eancia clim\u00e1tica. Com a nova constitui\u00e7\u00e3o de 2011, deu in\u00edcio a um regime que o pr\u00f3prio Orb\u00e1n descreve como uma \u201cdemocracia iliberal<em>\u201d, <\/em>com o aparato judicial e a m\u00eddia rigidamente controlados.<\/p>\n\n\n\n<p>Os poloneses do <em>PiS <\/em>(<em>Lei e Justi\u00e7a<\/em>) t\u00eam muitas semelhan\u00e7as com Orb\u00e1n, mas, ao contr\u00e1rio dele, por raz\u00f5es hist\u00f3ricas, mant\u00e9m uma rela\u00e7\u00e3o de confronto aberto com Putin. A Pol\u00f4nia n\u00e3o existiu como pa\u00eds independente de 1795 a 1918 (Tratado de Trianon), estando dividida entre Alemanha, R\u00fassia e \u00c1ustria. O <em>PiS <\/em>\u00e9 extremamente submisso aos EUA, fator que utiliza como contrapeso ao dom\u00ednio econ\u00f4mico alem\u00e3o. Assumiu o governo em 2015 e nele permaneceu at\u00e9 2024, quando o perdeu por uma margem estreita. S\u00e3o nacionalistas, euroc\u00e9ticos e ultracat\u00f3licos, defendem a fus\u00e3o entre a na\u00e7\u00e3o polonesa e a Igreja Cat\u00f3lica. N\u00e3o teve qualquer problema em tolerar a atividade controlada de grupos neofascistas menores.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Cro\u00e1cia, temos o partido governista <em>HDZ.<\/em> O pa\u00eds se constituiu como um estado independente com o apoio direto da Alemanha quando a Iugosl\u00e1via se desintegrou. O <em>HDZ<\/em> foi criado sob o impulso direto dos antigos fascistas da Ustasha, aliados da Alemanha nazista, e \u00e9 ultracat\u00f3lico.<\/p>\n\n\n\n<p>O ultradireitista brit\u00e2nico Nigel Farage (<em>Reform<\/em> UK) obteve 4,1 milh\u00f5es de votos nas elei\u00e7\u00f5es gerais de julho de 2024 (ficando em segundo lugar em v\u00e1rios distritos eleitorais), em compara\u00e7\u00e3o com os 6,5 milh\u00f5es dos conservadores e os 9,7 milh\u00f5es dos trabalhistas de <em>KeirStarmer<\/em>. Os conservadores vivem atualmente uma verdadeira decomposi\u00e7\u00e3o, o que poder\u00e1 levar Farage a assumir parte do partido. Longe de condenar os pogroms neonazistas contra imigrantes, ele tentou se apropriar deles para seu pr\u00f3prio benef\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<p>A extrema direita holandesa era marginal at\u00e9 2002. At\u00e9 ent\u00e3o, todo o jogo pol\u00edtico era disputado entre liberais, democratas-crist\u00e3os e social-democratas. Entre os promotores da extrema direita holandesa &nbsp;se destacam figuras como PimFortuyn (que morreu em um atentado em 2022), Geert Wilders (l\u00edder do PVV, <em>Partido da Liberdade<\/em> &#8211; o mais votado nas elei\u00e7\u00f5es legislativas de novembro de 2023, embora n\u00e3o tenha uma estrutura partid\u00e1ria formal) e Baudet. O eixo principal de Wilders \u00e9 o enfrentamento contra imigrantes e refugiados e uma obsess\u00e3o contra o Isl\u00e3, que se confronta em nome da igualdade entre homens e mulheres, da defesa dos direitos dos homossexuais ou do direito ao aborto. Proclama os valores ocidentais e a tradi\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3. Formalmente, ele se apresenta como opositor do nazismo. \u00c9 abertamente euroc\u00e9tico em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 UE (\u201c<em>Vamos devolver a Holanda aos holandeses<\/em>\u201d) e \u00e9 a favor de uma \u201c<em>Grande Holanda<\/em>\u201d, que incluiria a Flandres belga.<\/p>\n\n\n\n<p>O <em>Partido Popular<\/em> (PP) da Dinamarca, que se constituiu em 1972, mesmo reivindicando a luta contra a ocupa\u00e7\u00e3o nazista durante a Segunda Guerra Mundial, surgiu como um t\u00edpico partido pequeno-burgu\u00eas contra as altas taxas de impostos. Na d\u00e9cada de 1980, incorporou um discurso xen\u00f3fobo e islamof\u00f3bico, em defesa dos \u201c<em>valores dinamarqueses<\/em>\u201d. Mas, em seguida, foi todo o espectro pol\u00edtico dinamarqu\u00eas que assumiu esse discurso e o parlamento acabou aprovando v\u00e1rias das medidas mais duras anti-imigra\u00e7\u00e3o da Europa: a requisi\u00e7\u00e3o de bens dos requerentes de asilo, um forte endurecimento dos requisitos para o reagrupamento familiar, controles r\u00edgidos de fronteira, realoca\u00e7\u00e3o dos habitantes dos bairros guetos das cidades e o confinamento em uma pris\u00e3o insular dos migrantes que aguardam a expuls\u00e3o. A abordagem oficial n\u00e3o \u00e9 a integra\u00e7\u00e3o dos imigrantes, nem mesmo sua assimila\u00e7\u00e3o, mas seu retorno ao pa\u00eds de origem. Esse discurso foi adotado por todos os outros partidos, incluindo a Social Democracia Dinamarquesa de Mette Frederiksen.<\/p>\n\n\n\n<p>Com caracter\u00edsticas semelhantes, temos tamb\u00e9m o partido dos <em>Verdadeiros Finlandeses<\/em>, fundado em 1995 sobre as cinzas do antigo <em>Partido dos Camponeses<\/em>, com caracter\u00edsticas moderadas de centro-esquerda, defensor dos \u201c<em>valores finlandeses<\/em>\u201d (p\u00e1tria, religi\u00e3o, fam\u00edlia), nacionalista e social-crist\u00e3o. Logo, por\u00e9m, em 2003, a extrema direita assumiu o seu controle. A sua primeira grande ascens\u00e3o foi durante a crise de 2008-2009, capitalizando eleitoralmente sua oposi\u00e7\u00e3o aos resgates dos pa\u00edses do sul da Europa e a favor da austeridade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>4.4 Divis\u00f5es entre a extrema direita europeia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As diferen\u00e7as entre a extrema direita europeia est\u00e3o associadas aos seus diversos interesses nacional-imperialistas e se refletem, acima de tudo, em sua pol\u00edtica internacional. Assim, embora sejam todos raivosamente sionistas, celebraram a vit\u00f3ria de Trump e sejam abertamente xen\u00f3fobos e racistas, eles est\u00e3o divididos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 R\u00fassia. De um lado, temos os amigos de Putin (Orb\u00e1n, a AfD, o italiano Salvini, o FP\u00d6 ou, mais discretamente, o RN franc\u00eas), que s\u00e3o contra qualquer tipo de ajuda militar ou econ\u00f4mica \u00e0 Ucr\u00e2nia e abertamente a favor da entrega do Donbass ucraniano \u00e0 R\u00fassia. A AfD defende a restaura\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es com a R\u00fassia, o fim das san\u00e7\u00f5es e o retorno \u00e0s compras de g\u00e1s. No lado oposto temos o PiS polon\u00eas ou a italiana Meloni, claramente alinhados contra a R\u00fassia de Putin.<\/p>\n\n\n\n<p>Se os grupos europeus de extrema direita estivessem juntos, formariam hoje o segundo maior grupo no Parlamento Europeu, com 187 membros, apenas um de dist\u00e2ncia do primeiro grupo, a <em>direita tradicional<\/em>. No entanto, est\u00e3o separadas em tr\u00eas grupos: \u201c<em>Conservadores e Reformistas Europeus<\/em>\u201d, com 78 parlamentares, liderado por Meloni, que inclui o PiS polon\u00eas; \u201c<em>Patriotas pela Europa<\/em>\u201d, o maior, com 84 eurodeputados, presidido por Orb\u00e1n, que inclui o RN franc\u00eas, a extrema direita holandesa, o FP\u00d6 austr\u00edaco e o Vox espanhol; finalmente, a \u201c<em>Europa das Na\u00e7\u00f5es Soberanas<\/em>\u201d, com 25 eurodeputados, composto pelo AfD alem\u00e3o e alguns partidos pequenos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>5.5. A decad\u00eancia da Fran\u00e7a e o fortalecimento da NR<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O colapso de Macron \u00e9 um verdadeiro reflexo do decl\u00ednio do imperialismo franc\u00eas, o segundo maior pa\u00eds europeu que, junto com a Alemanha, \u00e9 um pilar da UE. A arrog\u00e2ncia de Macron n\u00e3o pode esconder essa realidade. A Fran\u00e7a est\u00e1 sendo expulsa de suas antigas col\u00f4nias africanas, seus servi\u00e7os p\u00fablicos sofrem uma grave deteriora\u00e7\u00e3o, sua economia est\u00e1 estagnada, com altos n\u00edveis de endividamento (110,6%) e d\u00e9ficit p\u00fablico (5,5%). Desde as mobiliza\u00e7\u00f5es dos <em>Coletes Amarelos<\/em> (2018-2019), \u00e9 a vanguarda europeia na repress\u00e3o da dissid\u00eancia e nos ataques \u00e0s liberdades democr\u00e1ticas e aos direitos sociais fundamentais, como as aposentadorias p\u00fablicas. O principal benefici\u00e1rio pol\u00edtico desse decl\u00ednio \u00e9 o RN, que &#8211; como disse seu aspirante a primeiro-ministro nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es legislativas, Jordan Bardella &#8211; quer \u201c<em>colocar ordem nas ruas e nas contas e atender ao princ\u00edpio da realidade\u201d<\/em> (ou seja, cumprir promessas como a de retirar a reforma previdenci\u00e1ria de Macron).<\/p>\n\n\n\n<p>O RN foi refundado em 2018, no congresso de Lille, onde o at\u00e9 ent\u00e3o <em>Front National<\/em> (FN) se tornou o <em>Rassemblement National<\/em> (RN). Desde 2011, o partido vem adotando uma pol\u00edtica de <em>desdemoniza\u00e7\u00e3o<\/em> (d\u00e9diabolisation). Como parte disso, em 2015, expulsou seu fundador, Jean-Marie Le Pen, pai da atual l\u00edder Marine Le Pen. O RN registrou progressos eleitorais em todas as categorias da popula\u00e7\u00e3o e, desde a chegada de Macron em 2017, aumentou sua participa\u00e7\u00e3o eleitoral em 20%. Obteve um forte aumento nas \u00e1reas rurais e, segundo estudos demogr\u00e1ficos, votam nele 40% dos desempregados, 48% das pessoas com ensino prim\u00e1rio, 53% dos trabalhadores, 33% dos jovens entre 18 e 24 anos e 39% das pessoas entre 50 e 64 anos votam nele. Tem como eixo principal a cruzada contra imigrantes e refugiados. Ele quer negar o direito de asilo e expulsar quem n\u00e3o tem documentos. Apresenta-se como o partido contra as elites e defende a chamada prefer\u00eancia nacional. Apresenta-se como social-populista e defensor dos interesses populares.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>5.6 A decad\u00eancia da Alemanha e a ascens\u00e3o da AfD<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O <em>Alternativa para a Alemanha<\/em> (AfD) nasceu em 2013 como um partido \u201c<em>ordoliberal<\/em>\u201d (neoliberal na vers\u00e3o germ\u00e2nica) contr\u00e1rio aos resgates do Sul da Europa (na verdade, resgates dos bancos alem\u00e3es que estavam no centro dos grandes credores) e a moeda \u00fanica europeia, o euro. Mas desde a crise dos refugiados de 2015, passou para as m\u00e3os de uma extrema direita intransigente: xen\u00f3foba, islamof\u00f3bica, <em>revisionista hist\u00f3rica<\/em> em rela\u00e7\u00e3o ao nazismo e eurof\u00f3bica <em>(\u201cqueremos que os poderes de Bruxelas retornem ao n\u00edvel nacional\u201d<\/em>).<\/p>\n\n\n\n<p>Defende a expuls\u00e3o de dois milh\u00f5es de pessoas, algumas delas de nacionalidade alem\u00e3 que consideram n\u00e3o assimiladas (Confer\u00eancia de Potsdam). \u00c9 amiga de Putin. Defende a retirada das tropas dos EUA da Alemanha e o fechamento da base americana em Ramstein, embora esteja dividida quanto \u00e0 ades\u00e3o do pa\u00eds na OTAN. Tem uma forte base eleitoral nos estados da antiga Alemanha Oriental anexada, discriminados e nunca foram totalmente integrados \u00e0 Alemanha unificada. A AfD se tornou um dos principais pilares da extrema direita europeia.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Alemanha, nas elei\u00e7\u00f5es europeias de junho de 2024, o principal partido do governo, o SPD social-democrata, obteve 14% dos votos, atr\u00e1s do AfD, com 16%. A AfD tornou-se a segunda for\u00e7a pol\u00edtica do pa\u00eds (atr\u00e1s dos Democratas-Crist\u00e3os, CDU-CSU, com 30%) e \u00e9 o principal partido em v\u00e1rios estados da antiga Alemanha Oriental: venceu as elei\u00e7\u00f5es na Tur\u00edngia e na Sax\u00f4nia em setembro de 2024, onde obteve mais de 30% dos votos, e algumas semanas depois ficou em segundo lugar em Brandemburgo, com quase 30%, apenas 1,7 pontos atr\u00e1s do primeiro partido.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes das elei\u00e7\u00f5es, as 300 maiores corpora\u00e7\u00f5es da patronal alem\u00e3 se posicionaram publicamente contra a AfD, que consideram, nas atuais circunst\u00e2ncias, um obst\u00e1culo aos seus interesses. Os grandes empregadores alem\u00e3es, com fortes investimentos no exterior e grandes interesses exportadores, precisam vitalmente da UE para seus neg\u00f3cios, tanto na Europa &#8211; seu principal mercado de exporta\u00e7\u00e3o &#8211; quanto no exterior, bem como para obter influ\u00eancia pol\u00edtica em um contexto internacional dominado pelo confronto entre os EUA e a China. Tamb\u00e9m precisa de trabalhadores qualificados para sua ind\u00fastria, que a Alemanha n\u00e3o consegue preencher com nativos. \u00c9 por isso que n\u00e3o compartilha das posi\u00e7\u00f5es ultranacionalistas da AfD, contr\u00e1rias a EU ou a sua proposta da <em>grande Reemigra\u00e7\u00e3o<\/em> e prefere seus partidos habituais.<\/p>\n\n\n\n<p>A ascens\u00e3o da extrema direita alem\u00e3 \u00e9 proporcional ao decl\u00ednio do pa\u00eds. O capitalismo alem\u00e3o, que j\u00e1 se destacava antes dos anos 90 como o mais poderoso da Europa, recebeu um enorme impulso nessa d\u00e9cada com a unifica\u00e7\u00e3o alem\u00e3 (na verdade, a anexa\u00e7\u00e3o da Alemanha Oriental) e com a expans\u00e3o para a Europa Oriental, semicolonizada pelo capitalismo alem\u00e3o, apoiada pela amplia\u00e7\u00e3o da UE. O antigo <em>Glacis<\/em> foi transformado em um novo mercado e base para a transfer\u00eancia de f\u00e1bricas para pa\u00edses com menores sal\u00e1rios e direitos e poucas regulamenta\u00e7\u00f5es ambientais e sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois, em 2003, o chanceler social-democrata Gerhard Schr\u00f6der (hoje um empres\u00e1rio proeminente e parceiro de Putin) transformou a Alemanha, com sua <em>Agenda 2010<\/em> e o apoio do SPD, num pa\u00eds de vanguarda da desregulamenta\u00e7\u00e3o do trabalho, do corte de benef\u00edcios de desemprego e da implanta\u00e7\u00e3o de um setor de baixos sal\u00e1rios e direitos m\u00ednimos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas agora chegamos ao fim do <em>excepcionalismo alem\u00e3o<\/em>. O capitalismo germ\u00e2nico vive o esgotamento do impulso que lhe proporcionou a unifica\u00e7\u00e3o, a expans\u00e3o para o Leste e pela Agenda 2010 de Schr\u00f6der. A guerra de agress\u00e3o de Putin contra a Ucr\u00e2nia levou a ruptura no acesso ao g\u00e1s e ao mercado russo. Com forte atraso em rela\u00e7\u00e3o aos EUA e a China em novos ramos tecnol\u00f3gicos, al\u00e9m de estagnada economicamente, a Alemanha se encontra sem novos mercados de exporta\u00e7\u00e3o e com uma rela\u00e7\u00e3o muito diferente com a China em compara\u00e7\u00e3o com 2000. Agora, as empresas alem\u00e3s competem com a China na UE e na pr\u00f3pria Alemanha, por exemplo, com o carro el\u00e9trico (que n\u00e3o est\u00e1 ganhando impulso) ou pain\u00e9is solares. Ao mesmo tempo, uma pot\u00eancia exportadora como a Alemanha n\u00e3o pode, com a relativa liberdade dos EUA, promover medidas protecionistas contra a China, ainda mais quando grandes empresas alem\u00e3s t\u00eam enormes investimentos no pa\u00eds voltados para o mercado chin\u00eas e para suas pr\u00f3prias exporta\u00e7\u00f5es. O genoc\u00eddio sionista em Gaza tamb\u00e9m mostra o papel do imperialismo alem\u00e3o como um an\u00e3o pol\u00edtico sujeito aos EUA.<\/p>\n\n\n\n<p>A ascens\u00e3o do AfD se baseia nesse decl\u00ednio e na incerteza do imperialismo alem\u00e3o. Extrai for\u00e7a do profundo sentimento de frustra\u00e7\u00e3o no Leste do pa\u00eds, na desesperan\u00e7a de setores da classe m\u00e9dia, na perda do poder de compra devido \u00e0 infla\u00e7\u00e3o e da deteriora\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios e das condi\u00e7\u00f5es de trabalho dos setores mais pobres dos trabalhadores alem\u00e3es. Nessas circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas, a AfD se apresenta como uma <em>alternativa a um sistema<\/em> em crise sustentado pela Democracia Crist\u00e3, pela social-democracia alem\u00e3 e pelos Verdes.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>5.7 Os \u201cconservadores de esquerda\u201d alem\u00e3es da Alian\u00e7a Sahra Wagenknecht (BSW)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Devemos tamb\u00e9m acompanhar de perto o movimento \u201cconservador de esquerda\u201d BSW de Sahra Wagenknecht, que surgiu recentemente na Alemanha, especialmente ap\u00f3s suas recentes vit\u00f3rias eleitorais nos estados da Tur\u00edngia, Sax\u00f4nia e Brandemburgo, onde emergiu como a terceira for\u00e7a. Mencionamos o BSW porque, embora se apresente como defensor da classe trabalhadora alem\u00e3, assume elementos centrais do programa da extrema direita e pode se tornar uma refer\u00eancia em outros pa\u00edses para organiza\u00e7\u00f5es vindas da di\u00e1spora do stalinismo e tentam se recompor.<\/p>\n\n\n\n<p>O BSW, organizado em torno dessa ex-l\u00edder do Die Linke, que d\u00e1 seu nome \u00e0 sigla do partido, tem seu maior peso nos estados do Leste da Alemanha. Sara Wagenknecht provem do antigo partido stalinista da Alemanha Oriental, que em 2007 se fundiu com uma dissid\u00eancia do SPD liderada por Oskar Lafontaine, dando origem ao partido Die Linke.<\/p>\n\n\n\n<p>Sahra Wagenknecht, em uma entrevista recente ao <em>New LeftReview,<\/em> definiu seu partido como \u201c<em>conservador de esquerda<\/em>\u201d. N\u00e3o questiona o capitalismo, mas pretende transform\u00e1-lo em um capitalismo virtuoso. A sua grande refer\u00eancia \u00e9 o grupo de pequenas e m\u00e9dias empresas exportadoras alem\u00e3s conhecido como Mittelstand, cuja prosperidade, segundo ela, a condi\u00e7\u00e3o para melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho e para o renascimento da Alemanha.O BSW reivindica o passado stalinista da RDA, \u00e9 contra a OTAN e a favor da retirada dos m\u00edsseis norte-americanos da Alemanha. Ao mesmo tempo, assume as bandeiras fundamentais da extrema direita alem\u00e3. A sua grande batalha \u00e9 dupla: por um lado, contra a imigra\u00e7\u00e3o (embora n\u00e3o exer\u00e7a a virul\u00eancia da AfD) e, por outro, contra a Ucr\u00e2nia e a favor de Putin, algo que apresenta como uma luta pela paz e, tal como faz a AfD e o governo alem\u00e3o, ap\u00f3ia Israel e o genoc\u00eddio palestino. O BSW \u00e9 islamof\u00f3bico, nacionalista alem\u00e3o e tamb\u00e9m rejeita medidas ambientais e pol\u00edticas de igualdade de g\u00eanero.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>6. A luta contra a extrema direita<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A luta contra a extrema direita ocupa atualmente um lugar fundamental. Exige-nos, como ponto de partida, avan\u00e7ar na organiza\u00e7\u00e3o independente da classe trabalhadora e da juventude, particularmente dos seus setores mais prec\u00e1rios, bem como unificar os trabalhadores (nativos e imigrantes, de diferentes cores de pele e orienta\u00e7\u00f5es sexuais) na luta pelos direitos b\u00e1sicos. Para isso, seremos quase sempre for\u00e7ados a entrar em conflito com as burocracias sindicais e a esquerda oficial. Muito mais se as mesmas participam no governo que aplica os planos <em>socioliberais<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante de situa\u00e7\u00f5es de ofensiva aberta da extrema direita, especialmente quando esta est\u00e1 no governo, temos que recuperar as melhores tradi\u00e7\u00f5es de luta e, em particular, aquelas defendidas pelos trotskistas na d\u00e9cada de 1930 na batalha contra o fascismo. Ou seja, promover a frente \u00fanica e a unidade de a\u00e7\u00e3o mais ampla com organiza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias e populares, estudantes e outras organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, para promover a mobiliza\u00e7\u00e3o massiva face \u00e0s tentativas autorit\u00e1rias bonapartistas, \u00e0 repress\u00e3o oficial e \u00e0s agress\u00f5es fascistas; em defesa dos direitos democr\u00e1ticos, das conquistas sociais e da solidariedade com os setores e povos oprimidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando temos governos progressistas, em colabora\u00e7\u00e3o com a burguesia, devemos rejeitar uma pol\u00edtica de alinhamento de campo com eles e agir como uma verdadeira oposi\u00e7\u00e3o de esquerda e socialista. Ter claro que ser uma oposi\u00e7\u00e3o de esquerda n\u00e3o significa confundir-se com a extrema direita ou deixar de combat\u00ea-la a todo momento. Diante de qualquer tentativa de golpe, deve haver unidade de a\u00e7\u00e3o com o governo para derrotar os golpistas, sem que isso signifique dar-lhes apoio pol\u00edtico. Como fizeram os trotskistas contra Franco na d\u00e9cada de 1930 ou L\u00eanin h\u00e1 um s\u00e9culo, quando do golpe do general Kornilov.<\/p>\n\n\n\n<p>Num contexto em que a extrema direita incentiva e organiza a viol\u00eancia contra o movimento e, ainda mais promova gangues armadas, devemos recuperar a tradi\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria e educar a classe trabalhadora e a juventude para que tomem a autodefesa nas suas pr\u00f3prias m\u00e3os. Deixando de lado tanto as tend\u00eancias pacifistas que defendem a n\u00e3o viol\u00eancia entendida como princ\u00edpio moral, como as tend\u00eancias individualistas e espont\u00e2neas, cujas a\u00e7\u00f5es deixam o movimento indefeso diante da repress\u00e3o governamental ou diante de gangues armadas de extrema direita, como est\u00e1 acontecendo no campo brasileiro. A experi\u00eancia inglesa do Ver\u00e3o de 2024, de como enfrentaram os ataques neonazis contra os imigrantes, \u00e9 um exemplo recente de como enfrentar os pogroms racistas e xen\u00f3fobos do pr\u00f3prio movimento.<\/p>\n\n\n\n<p>A <em>batalha cultural<\/em>, isto \u00e9, a propaganda e a luta ideol\u00f3gica contra a extrema direita, \u00e9 de capital import\u00e2ncia, dirigida especialmente \u00e0 juventude trabalhadora e estudantil. Devemos desmontar, com base no marxismo, as falsas teorias do ultraliberalismo e do anarcocapitalismo, bem como as teses da conspira\u00e7\u00e3o, e contrastar a sua demagogia com os resultados sinistros das suas experi\u00eancias de governo, tanto as hist\u00f3ricas do fascismo como, em particular, os mais recentes, de Pinochet a Trump, Bolsonaro, Milei ou Orb\u00e1n. Deve tamb\u00e9m ser feito um esfor\u00e7o para compreender porque \u00e9 que certas teses da extrema direita t\u00eam impacto nos setores da juventude trabalhadora, a fim de melhor os perturbar.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o devemos esquecer que n\u00e3o h\u00e1 forma de enfrentar a extrema direita sem combater ideol\u00f3gica e politicamente a esquerda socioliberal e os seus parceiros p\u00f3s-modernos (al\u00e9m das correntes neo-stalinistas). N\u00e3o foi em v\u00e3o que a desastrosa gest\u00e3o governamental socioliberal alimentou e continua a alimentar o monstro da extrema direita. \u00c9 por isso tamb\u00e9m deve ser demonstrado que o (neo)keynesianismo e o socioliberalismo n\u00e3o s\u00e3o marxismo nem socialismo, mas uma variante do capitalismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Este trabalho, se quiser ser eficaz, n\u00e3o pode ser abordado dogmaticamente. Deve ser apoiado por uma pr\u00e1tica, um programa e pol\u00edticas concretas. Um programa que leva em conta os setores mais prec\u00e1rios e <em>uberizados<\/em>, que nunca tiveram os direitos que o setor mais antigo da classe trabalhadora alcan\u00e7ou e que muitas vezes acreditam que os sindicatos s\u00f3 defendem os \u201cprivilegiados\u201d. Um programa que enfrenta a decomposi\u00e7\u00e3o social, a crise do Estado de Bem-estar, a emerg\u00eancia ambiental, o racismo e a xenofobia, os massacres imperialistas em Gaza e na Ucr\u00e2nia, a pilhagem de pa\u00edses semicoloniais e o militarismo. Que apresente alternativas, que se integram na batalha por uma reorganiza\u00e7\u00e3o geral e radical da sociedade, pela expropria\u00e7\u00e3o do grande capital e do poder socialista. Uma tarefa hist\u00f3rica que, em \u00faltima an\u00e1lise, exigir\u00e1 a reconstru\u00e7\u00e3o de uma esquerda revolucion\u00e1ria poderosa e enraizada na vanguarda do movimento oper\u00e1rio e popular.<\/p>\n\n\n\n<p>26\/11\/2024<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Uma tese que n\u00e3o \u00e9 exatamente partilhada por figuras relevantes do Trumpismo, como Peter Thiel. Este magnata do Vale do Sil\u00edcio, colega de Elon Musk, expoente da extrema direita empresarial americana, colaborador do ex\u00e9rcito israelense no genoc\u00eddio palestino e grande financiador da campanha eleitoral de Trump, n\u00e3o hesita em proclamar que \u201c<em>a competi\u00e7\u00e3o \u00e9 para os perdedores<\/em>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> Alguns partidos da extrema direita europeia n\u00e3o se expressam em termos t\u00e3o grosseiros como Milei, Bolsonaro ou a alt-right norte-americana. RassemblementNational(RN), o FP\u00d6 ou a AfD alem\u00e3, defendem que as medidas sociais devem ser \u201c<em>exclusivamente para os nacionais<\/em>\u201d. Embora mais tarde, o apoio do RN \u00e0 pol\u00edtica de austeridade do governo Barnier mostra a fal\u00e1cia desta afirma\u00e7\u00e3o, que s\u00f3 serve enquanto n\u00e3o tiverem acesso ao governo.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> O que \u00e9 verdade no caso dos partidos socialistas, dos que v\u00eam da crise do stalinismo e dos da esquerda p\u00f3s-moderna. Embora, \u00e9 claro, nenhum deles afirme ser ou possa ser considerado marxista. A sua pol\u00edtica \u00e9 socioliberal, isto \u00e9, uma pol\u00edtica de colocar a crise nas costas da classe trabalhadora, mas de uma forma mais benigna&#8230; at\u00e9 que sejam for\u00e7ados a tomar medidas de choque!<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\">[4]<\/a> Na verdade, exatamente o oposto do que estabelece o marxismo, cujo objetivo hist\u00f3rico, o comunismo, nada mais \u00e9 do que a extin\u00e7\u00e3o do Estado.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\" id=\"_ftn5\">[5]<\/a> Embora, como veremos mais tarde, existam lugares na Europa, como os Pa\u00edses Baixos, onde a extrema direita tem uma abordagem liberal a quest\u00f5es como os direitos das mulheres ou dos LGBT.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref6\" id=\"_ftn6\">[6]<\/a> Com rar\u00edssima exce\u00e7\u00e3o de algum grupo \u201cecofascista\u201d nos EUA<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref7\" id=\"_ftn7\">[7]<\/a> Ralph Schoenman, A Hist\u00f3ria Oculta do Sionismo<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref8\" id=\"_ftn8\">[8]<\/a> Onde se destacou o papel da CSP-Conlutas e do PSTU<\/p>\n\n\n\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Rosangela Botelho<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: Felipe Alegria \/ Corriente Roja Apresenta\u00e7\u00e3o Este artigo apresenta um primeiro estudo e conclus\u00f5es sobre a extrema direita, que, sem d\u00favida, precisar\u00e1 avan\u00e7ar e aprofundar. A vit\u00f3ria de Trump na principal pot\u00eancia imperialista destaca a for\u00e7a adquirida pela extrema direita na esfera internacional, com fortes posi\u00e7\u00f5es j\u00e1 conquistadas na Europa e na Am\u00e9rica Latina. 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