{"id":79951,"date":"2024-11-11T02:52:44","date_gmt":"2024-11-11T02:52:44","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=79951"},"modified":"2024-11-11T19:40:11","modified_gmt":"2024-11-11T19:40:11","slug":"o-marxismo-e-a-questao-ambiental","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2024\/11\/11\/o-marxismo-e-a-questao-ambiental\/","title":{"rendered":"O Marxismo e a quest\u00e3o ambiental"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><br><\/strong><em>Interpreta\u00e7\u00f5es e an\u00e1lises esquecidas em um aspecto fundamental\u00a0<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: Matteo Bavassano <\/p>\n\n\n\n<p><em>\u00abDepois dos grandes poetas rom\u00e2nticos, os mais fortes opositores da ideia de conquista da natureza durante a revolu\u00e7\u00e3o industrial, foram Karl Marx e Friedrich Engels os fundadores do cl\u00e1ssico materialismo hist\u00f3rico\u00bb <\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O objetivo desse artigo \u00e9 substancialmente o de chamar a aten\u00e7\u00e3o do leitor n\u00e3o apenas para a exist\u00eancia de um debate sobre o papel da ecologia no pensamento de Marx, mas, sobretudo, para o desenvolvimento desse debate nos \u00faltimos vinte anos, baseado principalmente em um novo estudo minucioso dos textos de Marx, e gra\u00e7as \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o dos trabalhos de publica\u00e7\u00e3o da MEGA2. De fato, os primeiros estudos nesse campo foram publicados na It\u00e1lia no final dos anos 1960 (), e isso levou a que militantes que estavam pr\u00f3ximos ao trotskismo aprofundassem a tem\u00e1tica inclusive do ponto de vista program\u00e1tico (). Hoje, ao contr\u00e1rio, quando o problema clim\u00e1tico e ambiental alcan\u00e7ou um n\u00edvel sem precedentes e enquanto ocorrem mobiliza\u00e7\u00f5es imponentes, sobretudo dos jovens, pela prote\u00e7\u00e3o do nosso planeta, as obras mais recentes dos escritores marxistas n\u00e3o apenas n\u00e3o s\u00e3o traduzidas e publicadas em italiano (), mas est\u00e3o praticamente ausentes do debate sobre o tema. Esse vazio foi preenchido muito parcialmente pela publica\u00e7\u00e3o de um ensaio de John Bellamy Foster () na colet\u00e2nea <strong><em>Marx Revival (<\/em><\/strong><strong><em>),<\/em><\/strong> na qual o autor reconstr\u00f3i de modo muito abrangente os pontos fundamentais das an\u00e1lises que est\u00e1 conduzindo com o grupo de autores da <em>Monthly review<\/em>, em particular Paul Burkett. Sem a pretens\u00e3o de querer dar uma opini\u00e3o definitiva nem de querer apresentar uma teoria ecol\u00f3gica completa, nos limitaremos substancialmente em trazer as an\u00e1lises dos autores (e fazer as nossas considera\u00e7\u00f5es a respeito). Acreditamos que esse debate \u00e9 fundamental, principalmente em um momento no qual as mobiliza\u00e7\u00f5es de organiza\u00e7\u00f5es como <em>Fridays for future<\/em> est\u00e3o catalisando a aten\u00e7\u00e3o de milh\u00f5es de jovens em todo o mundo: muito frequentemente se parte de uma s\u00e9rie de preconceitos contra o pensamento marxista e a sua dimens\u00e3o ecol\u00f3gica, chegando a negar a validade do marxismo em si, sustentando a necessidade de que tome por base \u201cnovos paradigmas\u201d, majoritariamente correspondentes ao desenvolvimento da sociedade contempor\u00e2nea. Da nossa parte, reafirmamos a validade total do marxismo e do seu programa revolucion\u00e1rio para resolver os problemas da humanidade, inclusive do problema ambiental, para destruir o sistema capitalista e construir uma economia socialista. Dessa forma, se conseguirmos desconstruir no jovem leitor a convic\u00e7\u00e3o de que, no campo ambiental, o pensamento de Marx foi antiecol\u00f3gico e lev\u00e1-lo a aprofundar os v\u00e1rios aspectos do marxismo revolucion\u00e1rio, poderemos nos dar por satisfeitos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Os preconceitos \u201cambientalistas\u201d contra Marx e Engels<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No imagin\u00e1rio coletivo dominante, Marx e, sobretudo Engels (), eram defensores de uma ideia de progresso ilimitado das for\u00e7as produtivas (uma vez que elas fossem liberadas das cadeias das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o capitalistas), de completo dom\u00ednio do homem sobre a natureza. Esse preconceito foi refor\u00e7ado centralmente por obra do stalinismo no poder: assim como o \u201csocialismo real\u201d desacreditou aos olhos das massas trabalhadoras a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de ditadura do proletariado, obrigando os marxistas revolucion\u00e1rios a uma dura batalha para resgatar esse conceito que representa o fundamento do programa marxista, o produtivismo stalinista tamb\u00e9m desacreditou a vis\u00e3o marxista da rela\u00e7\u00e3o homem-natureza, transformando Marx em uma esp\u00e9cie de positivista que cultuava o progresso como um fim em si mesmo. \u201cTende-se a transferir para Marx aquela \u201cvontade de pot\u00eancia\u201d irracional e destrutiva que caracterizou as burocracias dominantes dos socialismos de Estado e em particular da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica\u201d. ()&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Essa leitura de Marx \u00e9 tamb\u00e9m a que caracteriza os autores daquela que Foster e Burkett chamam de \u201cprimeira fase do ecossocialismo\u201d (): Esses autores, interpretando a cr\u00edtica de Marx como fal\u00e1cias do ponto de vista ecol\u00f3gico, consideram necess\u00e1rio unir o marxismo com o \u201cpensamento verde\u201d. Dependendo do caso se tratava de introduzir, no marxismo, concep\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas, mas na maioria das vezes se afirmava um fracasso do socialismo (sem distinguir entre \u201csocialismo real\u201d e as teorias de Marx e Engels) e assim se tratava de inserir a an\u00e1lise de classe do marxismo no interior das teorias ecol\u00f3gicas. \u201cEsses ecossocialistas da primeira fase sustentavam que o socialismo de Marx seria falho (para alguns irremediavelmente) pelo seu restrito produtivismo. Alguns chegam inclusive, como vimos, a declarar o socialismo morto. Nessa vis\u00e3o, o ecossocialismo seria herdeiro aparente do socialismo\u201d. ()&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A resposta a essa leitura, fundada sobre um estudo cuidadoso dos escritos de Marx, d\u00e1 vida \u00e0 \u201csegunda fase do ecossocialismo\u201d, que segundo Foster se abre com a publica\u00e7\u00e3o do livro de Burkett <strong><em>Marx and nature: a red and green perspective<\/em><\/strong>, que \u201cfoi escrito como uma nega\u00e7\u00e3o dessas vis\u00f5es ecossocialistas da primeira fase por meio de uma reconstru\u00e7\u00e3o e reafirma\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria perspectiva cr\u00edtico-ecol\u00f3gica de Marx. <strong><em>Marx and nature<\/em><\/strong> representa ent\u00e3o o nascimento de uma segunda fase de an\u00e1lises ecossocialistas que procuravam voltar a Marx e mostrar a sua concep\u00e7\u00e3o materialista da natureza como contraparte essencial de sua concep\u00e7\u00e3o materialista da hist\u00f3ria. O objetivo era transcender o ecossocialismo da primeira fase, assim como os limites das teorias verdes existentes, com as suas \u00eanfases excessivamente espiritualistas, idealistas e moralistas, como um primeiro passo no desenvolvimento de um marxismo ecol\u00f3gico mais rigoroso\u201d (). O ecossocialismo era concebido ent\u00e3o \u201cn\u00e3o como um sucessor do marxismo, mas como uma forma mais aprofundada da pr\u00e1xis ecol\u00f3gica que emerge dos fundamentos materialistas do marxismo cl\u00e1ssico. Na medida em que termos entre os quais \u201csocialismo ecol\u00f3gico\u201d e \u201cmarxismo ecol\u00f3gico\u201d foram usados pelos ecossocialistas da segunda fase, n\u00e3o se referiam a uma ruptura com a teoria e a pr\u00e1tica marxiana, mas representavam um revigoramento da sua cl\u00e1ssica perspectiva materialista\u201d (). Ainda que m nosso caso continuamos acreditando que, uma vez esclarecido que Marx e Engels n\u00e3o ignoravam a natureza em suas an\u00e1lises, \u00e9 melhor falar de socialismo e marxismo sem acrescentar nenhum prefixo ou sufixo, de modo a n\u00e3o gerar confus\u00e3o, n\u00e3o se pode perder de vista que a utiliza\u00e7\u00e3o do termo ecossocialismo difere profundamente entre os autores das \u201cdiversas fases\u201d. ()<\/p>\n\n\n\n<p>Tendo esclarecido o quadro geral no qual se desenvolve esse debate te\u00f3rico cheio de consequ\u00eancias pol\u00edtico-program\u00e1ticas, antes de passar ao m\u00e9rito das refuta\u00e7\u00f5es dos preconceitos ecol\u00f3gicos com rela\u00e7\u00e3o ao marxismo, queremos discutir brevemente a quest\u00e3o do lugar que as reflex\u00f5es ecol\u00f3gicas ocupam no pensamento de Marx. Deixando de lado aqueles que ainda sustentam que Marx n\u00e3o se ocupou dos problemas ecol\u00f3gicos, tese que agora \u00e9 insustent\u00e1vel (como veremos a seguir), ainda que quem reconhe\u00e7a a aten\u00e7\u00e3o de Marx \u00e0 natureza, n\u00e3o necessariamente atribui a essa aten\u00e7\u00e3o a mesma import\u00e2ncia. Os estudos mais recentes, ainda ligados \u00e0 pesquisa da MEGA2, tendem a enfatizar a exist\u00eancia de um \u201cfio condutor\u201d que atravessa toda a obra marxista: Kohei Saito, no seu livro <em>O ecossocialismo de Karl Marx<\/em> (2016), quer demonstrar que \u201ca cr\u00edtica ecol\u00f3gica de Marx possui um <strong><em>car\u00e1ter sistem\u00e1tico<\/em><\/strong> e constitui um <strong><em>momento essencial<\/em><\/strong> no interior da totalidade do seu projeto do <strong><em>Capital<\/em><\/strong>\u201d<em>. (<\/em><em>) Mas Saito n\u00e3o para aqui. <\/em>\u201cA ecologia n\u00e3o est\u00e1 simplesmente presente no pensamento de Marx, a minha tese \u00e9 muito mais forte. Eu sustento que <strong><em>n\u00e3o seja poss\u00edvel compreender completamente a cr\u00edtica da economia pol\u00edtica se, se ignora a sua dimens\u00e3o ecol\u00f3gica<\/em><\/strong>\u201d. () N\u00e3o pretendemos certamente que o leitor tome como corretas essas afirma\u00e7\u00f5es, ent\u00e3o entraremos nos pontos chaves dos argumentos de modo que o leitor possa tirar as suas conclus\u00f5es, mas ainda assim nos permitimos sugerir a todos a leitura do interessante livro de Kohei Saito.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O \u201cprodutivismo\u201d de Marx&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As passagens dos escritos de Marx e Engels, nas quais os revolucion\u00e1rios sustentam que o capitalismo \u00e9 historicamente progressivo em rela\u00e7\u00e3o aos modos de produ\u00e7\u00e3o pr\u00e9-capitalistas, s\u00e3o utilizadas para dizer que Marx atribu\u00eda import\u00e2ncia fundamental ao desenvolvimento das for\u00e7as produtivas em si mesmas. Para apoiar essa tese tamb\u00e9m s\u00e3o utilizadas (dando-lhe uma leitura unilateral) aqueles trechos nos quais \u00e9 dito que no comunismo as for\u00e7as produtivas, liberadas dos v\u00ednculos do capital (as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o capitalistas), poder\u00e3o se desenvolver indefinidamente. Essa vis\u00e3o, que reduz o desenvolvimento das for\u00e7as produtivas ao crescimento <strong><em>quantitativo<\/em><\/strong> da produ\u00e7\u00e3o industrial, implica a atribui\u00e7\u00e3o a Marx de uma \u00e9tica produtivista, ou \u201cprometeica\u201d, de dom\u00ednio da natureza por parte do homem. Burkett responde a esse preconceito a partir de tr\u00eas pontos. Primeiramente, rebate afirmando que para Marx a riqueza humana n\u00e3o \u00e9 redut\u00edvel apenas ao trabalho: \u201cMarx sustenta que tanto a natureza quanto o trabalho contribuem com a produ\u00e7\u00e3o da riqueza ou valores de uso\u201d. A argumenta\u00e7\u00e3o basilar aqui \u00e9 que \u201cna medida em que o trabalho efetivo cria valor de uso, isso implica necessariamente \u201ca apropria\u00e7\u00e3o do mundo natural para as necessidades humanas, ainda que essas necessidades sejam necessidades da produ\u00e7\u00e3o ou consumo individual\u201d [<strong><em>K. Marx, Manuscritos econ\u00f4micos de 1861-63<\/em><\/strong>]. O trabalho s\u00f3 pode produzir riqueza \u201catrav\u00e9s de uma troca de mat\u00e9ria entre homem e Natureza\u201d [K. Marx, <strong><em>O capital<\/em><\/strong>, vol. I]; \u00e9 em consequ\u00eancia disso que \u201co oper\u00e1rio n\u00e3o pode produzir nada sem a natureza, sem o mundo externo e sens\u00edvel\u201d [K. Marx, <strong><em>Manuscritos econ\u00f4micos-filos\u00f3ficos de 1844<\/em><\/strong>]. A conclus\u00e3o apropriada est\u00e1 n\u00edtida e firmemente tratada por Marx: \u201cVejamos, ent\u00e3o, que o trabalho n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica fonte de riqueza material, dos valores de uso produzidos pelo trabalho. Como disse William Petty, o trabalho \u00e9 seu pai e a terra sua m\u00e3e\u201d [<strong><em>O capital<\/em><\/strong>, vol. I]\u201d.() A contribui\u00e7\u00e3o da natureza para a cria\u00e7\u00e3o dos valores de uso tamb\u00e9m \u00e9 demonstrado sinteticamente por Marx na Cr\u00edtica ao Programa de Gotha: \u201cO trabalho <strong>n\u00e3o \u00e9 a fonte<\/strong> de toda a riqueza. A <strong>natureza<\/strong> \u00e9 tanto a fonte dos valores de uso (e n\u00e3o consiste nisso a riqueza material?) quanto o trabalho, que em si \u00e9 apenas a express\u00e3o de uma for\u00e7a natural, da for\u00e7a de trabalho humana\u201d. ()<\/p>\n\n\n\n<p>Em segundo lugar, Marx estava consciente do fato de que a produ\u00e7\u00e3o humana est\u00e1 vinculada \u00e0s leis naturais, f\u00edsicas, biol\u00f3gicas e tamb\u00e9m ecol\u00f3gicas: \u201cA perspectiva de Marx se baseia na constata\u00e7\u00e3o de que, uma vez que se compreende a produ\u00e7\u00e3o humana como produ\u00e7\u00e3o social, n\u00e3o se pode mais falar simplesmente de limites e condi\u00e7\u00f5es naturais. Ao contr\u00e1rio, \u00e0 pergunta sobre quais condi\u00e7\u00f5es naturais contam como valores de uso, e quais limites colocam para a produ\u00e7\u00e3o de riqueza, se deve responder com refer\u00eancia \u00e0s rela\u00e7\u00f5es sociais espec\u00edficas que estruturam o nexo produtivo entre trabalho e natureza. Essa abordagem n\u00e3o faz pouco caso dos impactos ambientais da produ\u00e7\u00e3o. Ao contr\u00e1rio: somente reconhecendo como uma forma social de produ\u00e7\u00e3o particular que desvincula as suas necess\u00e1rias condi\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o da evolu\u00e7\u00e3o humana separada da natureza se pode analisar a sustentabilidade material dessa forma\u201d. () A produ\u00e7\u00e3o humana <strong><em>em geral<\/em><\/strong> est\u00e1 sujeita a restri\u00e7\u00f5es ligados \u00e0s leis j\u00e1 citadas, mas cada modo de produ\u00e7\u00e3o estabelece uma \u201c<strong><em>intera\u00e7\u00e3o metab\u00f3lica<\/em><\/strong>\u201d espec\u00edfica () entre a sociedade e a natureza, uma rela\u00e7\u00e3o espec\u00edfica com esses limites. Aquilo que se relaciona com o capitalismo <strong><em>em particular<\/em><\/strong>, \u201cos limites da explora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho humana por parte do capital, como os limites da explora\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es naturais por parte do capital, n\u00e3o s\u00e3o completamente determinadas pelo pr\u00f3prio capital. Em ambos os casos, os limites implicam certas caracter\u00edsticas materiais n\u00e3o sujeitas a uma altera\u00e7\u00e3o por parte da forma social de produ\u00e7\u00e3o espec\u00edfica. Os limites da explora\u00e7\u00e3o por parte do capital sobre o trabalho e a natureza s\u00e3o, no entanto, limites el\u00e1sticos, em que a elasticidade \u00e9 devida, em parte, \u00e0s caracter\u00edsticas naturais da for\u00e7a de trabalho e da natureza extra-humana, e em parte pelo car\u00e1ter socialmente definido dos pr\u00f3prios limites. Os efeitos danosos do capital sobre a for\u00e7a de trabalho e sobre a natureza deriva da sua tend\u00eancia a explorar essa elasticidade enquanto as press\u00f5es da acumula\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria concorrencial tensionam as for\u00e7as naturais humanas e extra-humanas at\u00e9 o ponto de ruptura, tendo necessidade de restri\u00e7\u00f5es sociais \u00e0 explora\u00e7\u00e3o por parte do capital sobre as duas fontes basilares de riqueza\u201d ().<\/p>\n\n\n\n<p>Por \u00faltimo, Marx era consciente do fato de que o desenvolvimento das for\u00e7as produtivas por parte do homem no capitalismo havia causado desperd\u00edcio e destrui\u00e7\u00e3o das riquezas naturais. \u201cNo capitalismo, a divis\u00e3o do trabalho toma a forma de rela\u00e7\u00f5es de mercado (mercadorias e dinheiro), baseado na historicamente extrema separa\u00e7\u00e3o social dos produtores humanos das necess\u00e1rias condi\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o. A an\u00e1lise de Marx explica como essa separa\u00e7\u00e3o, que permite que o trabalho e as suas condi\u00e7\u00f5es naturais e sociais desenvolvam-se como condi\u00e7\u00f5es de acumula\u00e7\u00e3o concorrencial do capital, conduz a um crescimento sem precedentes do seu potencial produtivo de riqueza. Ao mesmo tempo, Marx destaca a tend\u00eancia do capital a saquear e destruir as suas pr\u00f3prias condi\u00e7\u00f5es humanas e naturais de exist\u00eancia\u201d. () Nesse processo a separa\u00e7\u00e3o dos produtores das condi\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o tem um peso importante: () \u201cEm resumo, a separa\u00e7\u00e3o social dos produtores das condi\u00e7\u00f5es naturais limitadas, a convers\u00e3o dessa condi\u00e7\u00e3o em propriedade privada capitalista, e a convers\u00e3o dos valores de uso naturais em condi\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o capitalistas <strong>livremente apropriadas<\/strong>, na perspectiva marxiana s\u00e3o todos aspectos de um s\u00f3 processo\u201d; () \u201cMarx atribui um grande significado social \u00e0 livre apropria\u00e7\u00e3o, vendo-a como um elemento integral do desenvolvimento do car\u00e1ter social da produ\u00e7\u00e3o por parte do capitalismo atrav\u00e9s da subordina\u00e7\u00e3o das for\u00e7as produtivas latentes do trabalho e da natureza aos impulsos expansionistas, transformativos, da acumula\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria concorrencial. Ao mesmo tempo, Marx indica como a livre apropria\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es naturais e sociais por parte do capitalismo refor\u00e7a a aliena\u00e7\u00e3o humana inerente \u00e0 socializa\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o do capitalismo. Com o crescente dom\u00ednio do capital sobre as condi\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, o valor de uso (a combina\u00e7\u00e3o social de trabalho e natureza para satisfazer as necessidades humanas) torna-se cada vez menos o motivo dominante por tr\u00e1s da produ\u00e7\u00e3o e \u00e9 posto cada vez mais a servi\u00e7o da acumula\u00e7\u00e3o de valor. Uma vez convertidas em for\u00e7as do capital, as condi\u00e7\u00f5es naturais e sociais da produ\u00e7\u00e3o exercitam um poder social alienado sobre os produtores, os quais s\u00e3o incapazes, enquanto a produ\u00e7\u00e3o permanece na forma capitalista, de exercer um controle qualquer cooperativo sobre sua intera\u00e7\u00e3o org\u00e2nica com a natureza\u201d. () Essa separa\u00e7\u00e3o, junto com a tend\u00eancia do capital de produzir sempre mais valor na forma de mercadoria, para realizar esse valor e reconvert\u00ea-lo em mais capital, \u00e9 a base da tend\u00eancia do capitalismo para minar as pr\u00f3prias bases (naturais e sociais) da sua acumula\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s da supera\u00e7\u00e3o constante dos limites naturais sobre os quais fal\u00e1vamos anteriormente: \u201cA ilimitada tend\u00eancia expansionista contida no capital como forma social de riqueza contradiz todos os fatores limitantes impostos \u00e0 produ\u00e7\u00e3o humana pelo seu ambiente natural. Isso se reflete na tend\u00eancia do capitalismo de superar limites naturais particulares e locais expandindo os limites naturais da produ\u00e7\u00e3o \u2013 a press\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o sobre os ecossistemas e outros recursos naturais \u2013 em n\u00edvel global, da biosfera\u201d; () \u201cassim o capital abusa dos limites el\u00e1sticos da capacidade de recupera\u00e7\u00e3o do trabalhador tanto quanto abusa da capacidade de absor\u00e7\u00e3o e da resili\u00eancia de ecossistemas particulares, levando em ambos os casos \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o das for\u00e7as naturais\u201d. () Marx analisa em especial o abuso, por parte do capital, da for\u00e7a de trabalho com o aumento da jornada de trabalho para al\u00e9m das necessidades biol\u00f3gicas de recupera\u00e7\u00e3o humana, mas tamb\u00e9m da fertilidade das terras agr\u00edcolas, que progressivamente vai definhando gradualmente devido \u00e0 explora\u00e7\u00e3o excessiva da agricultura capitalista.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A teoria do valor trabalho e a sua rela\u00e7\u00e3o com a natureza<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O pensamento ecol\u00f3gico tem sustentado que a an\u00e1lise econ\u00f4mica marxista do capitalismo, e especialmente a teoria do valor, exclui ou n\u00e3o tem em considera\u00e7\u00e3o de forma adequada a real contribui\u00e7\u00e3o da natureza \u00e0 produ\u00e7\u00e3o. Mas a desvaloriza\u00e7\u00e3o da natureza \u00e9 gerada pela l\u00f3gica do sistema capitalista, n\u00e3o pela an\u00e1lise que Marx desenvolve sobre esse modo de produ\u00e7\u00e3o! E a an\u00e1lise da forma do valor capitalista \u00e9 central n\u00e3o apenas pelo aspecto econ\u00f4mico dessa an\u00e1lise geral do capitalismo, mas tamb\u00e9m pelo aspecto ecol\u00f3gico-ambiental. \u201cA mercadoria, como todos os valores de uso, \u00e9 um produto tanto do trabalho quanto da natureza. O valor, a subst\u00e2ncia da riqueza na sua forma especificamente capitalista, \u00e9, todavia, simplesmente o tempo de trabalho social abstrato objetivado nas mercadorias. Quantitativamente, o capitalismo acrescenta valor \u00e0 natureza somente na medida em que a sua apropria\u00e7\u00e3o exige um trabalho que produz mercadorias, mesmo que a contribui\u00e7\u00e3o da natureza \u00e0 produ\u00e7\u00e3o \u2013 e \u00e0 vida humana mais geral \u2013 n\u00e3o seja materialmente redut\u00edvel a esse trabalho de apropria\u00e7\u00e3o. Em resumo, a forma do valor se abstrai qualitativamente e quantitativamente das caracter\u00edsticas \u00fateis e vivificantes da natureza, ainda que o valor seja uma forma social particular de riqueza \u2013 uma objetiva\u00e7\u00e3o social particular tanto da natureza quanto do trabalho. Essa contradi\u00e7\u00e3o ajuda a explicar a tend\u00eancia do capitalismo a depredar o seu ambiente natural\u201d. () Central \u00e9 a distin\u00e7\u00e3o marxista entre valor, valor de uso e valor de troca: os <strong><em>valores de uso<\/em><\/strong>, que s\u00e3o a verdadeira fonte da riqueza material, s\u00e3o considerados apenas se a eles puder ser atribu\u00eddo um <strong><em>valor<\/em><\/strong>. \u201cOs valores de uso que n\u00e3o podem ser produzidos e vendidos com lucro \u2013 inclusive muitas condi\u00e7\u00f5es naturais e condi\u00e7\u00f5es sociais exigidas ou que contribuem com a produ\u00e7\u00e3o e com o desenvolvimento humano \u2013 tendem a ser subestimados ou completamente desconsiderados, e essa \u00e9 uma fonte importante de crises ecol\u00f3gicas e sociais\u201d. ()<\/p>\n\n\n\n<p>A compreens\u00e3o da ess\u00eancia do valor e das suas caracter\u00edsticas espec\u00edficas \u00e9 fundamental para apreciar plenamente o car\u00e1ter intrinsecamente antiecol\u00f3gico do capitalismo como sistema social <strong><em>particular<\/em><\/strong> de produ\u00e7\u00e3o: \u201ca import\u00e2ncia da abordagem marxiana \u00e9 tr\u00edplice. Em primeiro lugar, ao afirmar que o valor de troca \u00e9 uma forma de valor e n\u00e3o o contr\u00e1rio, Marx destaca que o valor surge apenas na produ\u00e7\u00e3o, n\u00e3o no dom\u00ednio da troca.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>De fato, o procedimento marxiano \u00e9 o \u00fanico caminho coerente com uma teoria do valor baseada na produ\u00e7\u00e3o que n\u00e3o <strong><em>identifica<\/em><\/strong> valor, valor de troca e valor de uso. Esse ponto deve ser destacado porque foi negligenciado \u2013 ou no m\u00ednimo, esquecido \u2013 por muitos dos cr\u00edticos ecologistas de Marx que queriam atribuir valor (e n\u00e3o apenas o valor de uso) \u00e0 natureza. Em segundo lugar, a subordina\u00e7\u00e3o do valor de troca e do valor de uso como formas particulares do valor, corresponde a crescente domina\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o para a venda lucrativa (D-M-D\u2019 na terminologia marxiana, com D que representa o dinheiro e M as mercadorias) sobre a produ\u00e7\u00e3o para uso (na qual qualquer troca monet\u00e1ria que ocorra tende a ser motivada pelo desejo de <strong><em>valores de uso<\/em><\/strong> diversos, como s\u00edntese no circuito M-D-M\u2019). [&#8230;]&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O crescente dom\u00ednio do valor (na forma de for\u00e7a motriz do dinheiro) no reino da produ\u00e7\u00e3o e da troca, na vis\u00e3o marxiana, \u00e9 baseado na mercantiliza\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho \u201clivre\u201d e dos meios de produ\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, sobre a avalia\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria do trabalho e da pr\u00f3pria produ\u00e7\u00e3o. [&#8230;] Isso se relaciona com o terceiro [&#8230;] aspecto da an\u00e1lise marxiana do valor, isto \u00e9, que dado que a riqueza existe apenas como uma mir\u00edade de valores de uso produzidos de formas materialmente variadas de trabalho e natureza, a subordina\u00e7\u00e3o do valor de troca e do valor de uso ao valor (tempo de trabalho social <strong><em>homog\u00eaneo<\/em><\/strong>) representa uma abstra\u00e7\u00e3o social do valor de uso (o car\u00e1ter material da produ\u00e7\u00e3o destinado a satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades). Desse modo, o valor se abstrai formalmente das bases naturais e da subst\u00e2ncia da riqueza\u201d. () Mas, repetimos, essa abstra\u00e7\u00e3o do valor da natureza n\u00e3o pode ser atribu\u00edvel a Marx, mas ao pr\u00f3prio capitalismo; antes, a teoria do valor, quando \u00e9 considerada inclusive em sua dimens\u00e3o \u201cecol\u00f3gica\u201d, pode se tornar um instrumento insubstitu\u00edvel de an\u00e1lise das contradi\u00e7\u00f5es do capitalismo em rela\u00e7\u00e3o ao ambiente natural. \u201cA contradi\u00e7\u00e3o entre valor de troca e valor de uso intr\u00ednseco \u00e0 mercadoria \u00e9 tamb\u00e9m uma contradi\u00e7\u00e3o entre a forma da riqueza especificamente capitalista e as suas bases naturais e sua subst\u00e2ncia. A natureza contribui com a produ\u00e7\u00e3o de valores de uso, mas o capitalismo representa a riqueza com uma abstra\u00e7\u00e3o puramente quantitativa, s\u00f3cio-formal: o tempo de trabalho em geral. A \u201clivre apropria\u00e7\u00e3o\u201d das condi\u00e7\u00f5es naturais por parte do capital (que ocorre sempre que a natureza contribui com a produ\u00e7\u00e3o capitalista de valores de uso sem acrescentar valor \u00e0 produ\u00e7\u00e3o) manifesta essa contradi\u00e7\u00e3o na medida em que \u00e9 consentida pela valoriza\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria natureza do sistema, ou seja, segundo o tempo de trabalho social necess\u00e1rio para a sua apropria\u00e7\u00e3o na produ\u00e7\u00e3o de mercadorias, e n\u00e3o segundo a real contribui\u00e7\u00e3o da natureza para a riqueza ou \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades humanas\u201d. ()<\/p>\n\n\n\n<p>Para concluir essa parte, nos parece necess\u00e1rio fazer uma precis\u00e3o \u201cantirreformista\u201d, por assim dizer. O fato de que \u201cos valores de uso que n\u00e3o podem ser produzidos e vendidos com lucro [&#8230;] tendem a ser subestimados ou n\u00e3o considerados\u201d () n\u00e3o significa que solu\u00e7\u00f5es como as \u201ctaxas verdes\u201d, que s\u00e3o frequentemente propostas pelos ecologistas (em uma \u00f3tica reformista), sejam adequadas para solucionar essa contradi\u00e7\u00e3o do capitalismo. Na realidade, Marx n\u00e3o exclui que alguns recursos naturais possam ter um valor econ\u00f4mico \u2013 \u201ca teoria marxiana da renda reconhece que podem ser atribu\u00eddos valores de troca a condi\u00e7\u00f5es naturais que n\u00e3o possuem valor, mas que s\u00e3o escassas e monopoliz\u00e1veis\u201d () -, mas \u201ca contradi\u00e7\u00e3o valor-natureza n\u00e3o pode ser resolvida atrav\u00e9s de rendas privadas ou implementando taxas \u201cverdes\u201d e esquemas de subs\u00eddios em um sistema econ\u00f4mico moldado e orientado pelo dinheiro e pelo capital. Uma regula\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica que use t\u00e9cnicas monet\u00e1rias e baseadas no mercado \u00e9 uma busca de um \u201c<strong><em>optimum<\/em><\/strong>\u201d nos termos do capital. O valor, com todas as suas caracter\u00edsticas antiecol\u00f3gicas, permanece \u201co fator ativo\u201d que desagrega a co-evolu\u00e7\u00e3o da sociedade e da natureza, dado que trata os homens e a natureza apenas como \u201cformas dissimuladas\u201d do pr\u00f3prio valor [<strong><em>O capital<\/em><\/strong>, vol. I]. Isso mostra um fen\u00f4meno mais geral, ou seja, que qualquer um que \u201cqueira colocar barreiras \u00e0 produ\u00e7\u00e3o [capitalista] de fora, atrav\u00e9s de pr\u00e1ticas, leis etc.\u201d descobrir\u00e1 r\u00e1pido que tais \u201cbarreiras meramente externas e artificiais ser\u00e3o necessariamente demolidas pelo capital\u201d [<strong>Caracter\u00edsticas fundamentais da cr\u00edtica da economia pol\u00edtica<\/strong>]\u201d. () As \u201ctaxas verdes\u201d n\u00e3o s\u00e3o assim um complemento \u00fatil \u00e0 vis\u00e3o marxiana que o pr\u00f3prio Marx n\u00e3o teria considerado, mas fazem parte de uma vis\u00e3o oposta da rela\u00e7\u00e3o capitalismo-natureza.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Contradi\u00e7\u00f5es capitalistas e condi\u00e7\u00f5es naturais de produ\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O terceiro e \u00faltimo dos preconceitos ecol\u00f3gicos da an\u00e1lise de Marx e Engels defende que suas an\u00e1lises das crises capitalistas n\u00e3o contemplam as crises ambientais. Isso \u00e9 totalmente falso. N\u00e3o apenas, como j\u00e1 vimos, a contribui\u00e7\u00e3o da natureza na cria\u00e7\u00e3o da riqueza \u00e9 reconhecida em todas as obras econ\u00f4micas marxianas fundamentais (<strong><em>Grundrisse<\/em><\/strong> e <strong><em>Capital<\/em><\/strong> sobretudo), sendo assim, parte da sua an\u00e1lise geral das crises, Marx ainda analisa especificamente dois tipos de crises especificamente ambientais. \u201cEm especial, Marx considera dois tipos de crises ambientais produzidas pelo capitalismo: (1) crise de acumula\u00e7\u00e3o do capital, baseada sobre o equil\u00edbrio entre as necessidades materiais do capital e as condi\u00e7\u00f5es naturais da produ\u00e7\u00e3o de mat\u00e9rias-primas; (2) uma crise mais geral da <strong><em>qualidade<\/em><\/strong> do desenvolvimento humano-social, derivada dos dist\u00farbios na circula\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria e das for\u00e7as vitais que s\u00e3o geradas pela divis\u00e3o industrial capitalista entre cidade e campo. Enquanto as interrup\u00e7\u00f5es na acumula\u00e7\u00e3o de capital devido \u00e0 car\u00eancia de materiais envolvem as condi\u00e7\u00f5es naturais como condi\u00e7\u00f5es de acumula\u00e7\u00e3o, a mais ampla concep\u00e7\u00e3o marxiana das crises ambientais se concentra na degrada\u00e7\u00e3o da riqueza natural como condi\u00e7\u00e3o do desenvolvimento humano. No entanto, os dois tipos de crise se sobrep\u00f5em consideravelmente na medida em que ambas envolvem redu\u00e7\u00f5es na qualidade e quantidade da riqueza natural apropriada, assim, ambas implicam a livre apropria\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es naturais por parte do capital, juntas com todas as tens\u00f5es qualitativas entre valor e natureza. Mais precisamente, a tend\u00eancia do capital em <strong><em>acelerar a produ\u00e7\u00e3o material al\u00e9m dos seus limites naturais<\/em><\/strong> n\u00e3o \u00e9 apenas fonte de escassez de recursos e crises de acumula\u00e7\u00e3o; \u00e9 tamb\u00e9m um elemento integrante do processo de degrada\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica produzida pela divis\u00e3o capitalista entre cidade e campo\u201d. ()&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Analisemos o primeiro tipo de crise: essa deriva do fato que \u201ccom o crescimento da produtividade e do avan\u00e7o tecnol\u00f3gico existe um crescimento da quantidade de objetos e for\u00e7as naturais que o capital deve apropriar-se como materiais e instrumentos da produ\u00e7\u00e3o a fim de alcan\u00e7ar qualquer expans\u00e3o do valor e do mais valor [mais-valia] determinado. A produtividade crescente significa que cada hora de trabalho abstrato necessita de uma quantidade sempre maior de valor de uso e dos seus pr\u00e9-requisitos materiais. Nesse sentido, a acumula\u00e7\u00e3o de capital implica um crescente equil\u00edbrio quantitativo entre a acumula\u00e7\u00e3o de valor e a acumula\u00e7\u00e3o como processo material dependente das condi\u00e7\u00f5es naturais\u201d. (). Para usar as nossas palavras, os tempos da produ\u00e7\u00e3o dominada pelo capital (e por sua busca insaci\u00e1vel de lucro) n\u00e3o s\u00e3o compat\u00edveis com os tempos de regenera\u00e7\u00e3o das for\u00e7as naturais: o aumento da produtividade devido ao avan\u00e7o da produ\u00e7\u00e3o social capitalista \u00e9 t\u00e3o grande que, guiado apenas pela l\u00f3gica de valoriza\u00e7\u00e3o do capital e n\u00e3o pelas necessidades humanas, exige um fluxo constante de energia e mat\u00e9rias-primas muito superior \u00e0s capacidades que a natureza possui para sustenta-lo. Isso liga a escassez das mat\u00e9rias-primas a uma crise de acumula\u00e7\u00e3o do capital: \u201cAs an\u00e1lises formais marxianas sobre a escassez de materiais e as crises de acumula\u00e7\u00e3o se desenvolvem em dois n\u00edveis. O primeiro n\u00edvel especifica \u201cas condi\u00e7\u00f5es gerais das crises, na medida em que s\u00e3o independentes das flutua\u00e7\u00f5es dos pre\u00e7os (pois elas est\u00e3o ligadas ao sistema de cr\u00e9dito ou menos) assim como s\u00e3o distintas das flutua\u00e7\u00f5es do valor\u201d. Nesse n\u00edvel, as possibilidades de crise s\u00e3o tratadas nos termos de \u201ccondi\u00e7\u00f5es gerais da produ\u00e7\u00e3o capitalista\u201d, abstraindo-se de todas as varia\u00e7\u00f5es nos pre\u00e7os e na produ\u00e7\u00e3o que implica a concorr\u00eancia no interior e entre os setores; ent\u00e3o, fen\u00f4menos como a especula\u00e7\u00e3o sobre os pre\u00e7os dos materiais e a busca competitiva por novas fontes materiais, para n\u00e3o falar das rendas, s\u00e3o exclu\u00eddas; as varia\u00e7\u00f5es nos pre\u00e7os s\u00e3o tratadas apenas na medida em que refletem mudan\u00e7as nos valores das mercadorias. Nesse contexto, Marx indica que \u201cuma <strong><em>crise<\/em><\/strong> pode surgir: 1. no curso da <strong><em>reconvers\u00e3o<\/em><\/strong> [do dinheiro] <strong><em>em capital produtivo<\/em><\/strong>; 2. Atrav\u00e9s de <strong><em>mudan\u00e7as no valor<\/em><\/strong> dos elementos do capital produtivo, particularmente das <strong><em>mat\u00e9rias-primas<\/em><\/strong>, por exemplo, quando h\u00e1 uma diminui\u00e7\u00e3o na quantidade de algod\u00e3o colhido: o seu valor aumentar\u00e1\u201d. [&#8230;] As car\u00eancias de materiais n\u00e3o perturbam apenas a acumula\u00e7\u00e3o aumentando o valor do capital constante: podem tamb\u00e9m <strong><em>desagregar fisicamente<\/em><\/strong> a produ\u00e7\u00e3o \u201ctornando imposs\u00edvel continuar o processo na escala exigida por suas bases t\u00e9cnicas, assim, apenas uma parte das m\u00e1quinas continuar\u00e3o operativas, ou todas as m\u00e1quinas trabalhar\u00e3o somente uma fra\u00e7\u00e3o do tempo normal.\u201d [K. Marx, <strong><em>Teorias sobre a mais-valia<\/em><\/strong>]. [&#8230;]&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda que tais interrup\u00e7\u00f5es na aquisi\u00e7\u00e3o de materiais envolvam condi\u00e7\u00f5es naturais incontrol\u00e1veis, implicam tamb\u00e9m uma incontrolada acumula\u00e7\u00e3o de capital. Essa \u00e9 em parte a causa da concorr\u00eancia an\u00e1rquica que impede o tipo de planifica\u00e7\u00e3o <strong><em>ex ante<\/em><\/strong> [<strong><em>pr\u00e9via<\/em><\/strong>] necess\u00e1ria para minimizar os efeitos destrutivos dos eventos naturais, mas h\u00e1 ainda o desequil\u00edbrio fundamental entre a tend\u00eancia do capital para uma expans\u00e3o ilimitada e os limites da produ\u00e7\u00e3o material em determinadas condi\u00e7\u00f5es naturais <strong><em>e<\/em><\/strong> sociais. [&#8230;] Marx destaca que a barreira a acumula\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o imposta pelos limitados recursos materiais manifesta uma contradi\u00e7\u00e3o entre a acelera\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e dos investimentos por parte do capital, de um lado, e as leis naturais e os ritmos temporais que governam a produ\u00e7\u00e3o material de outro. Uma \u201can\u00e1lise completa\u201d dessa tens\u00e3o entre os tempos da natureza e aqueles do capital deve compreender \u201co sistema de cr\u00e9dito e a concorr\u00eancia no mercado mundial\u201d: Marx deixou o grosso dessa segunda an\u00e1lise para uma \u201ceventual continua\u00e7\u00e3o\u201d de <strong><em>O Capital<\/em><\/strong>, o que n\u00e3o foi poss\u00edvel realizar\u201d. () Como podemos ver, se trata de uma an\u00e1lise inacabada, mas certamente n\u00e3o esquem\u00e1tica ou pouco desenvolvida, e que, sobretudo, pode fornecer aos marxistas um m\u00e9todo \u00fatil para o estudo das crises e das contradi\u00e7\u00f5es espec\u00edficas do processo produtivo capitalista moderno na sua rela\u00e7\u00e3o com a natureza.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A teoria marxiana da fratura metab\u00f3lica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Chegando ao segundo tipo de crise ambiental, aquela \u201cmais geral [&#8230;] da qualidade do desenvolvimento humano-social\u201d, devemos introduzir a concep\u00e7\u00e3o marxiana da ant\u00edtese homem\/natureza (e da sua articula\u00e7\u00e3o espec\u00edfica na ant\u00edtese cidade\/campo) no interior do regime capitalista, concep\u00e7\u00e3o que, ainda que frequentemente subestimada, tem uma grande import\u00e2ncia no marxismo. () Essa tem\u00e1tica, que segundo Kohei Saito \u00e9 a base da teoria marxiana da aliena\u00e7\u00e3o, \u00e9 central nos chamados <strong><em>Manuscritos econ\u00f4micos-filos\u00f3ficos de 1844-45<\/em><\/strong>, () mas reaparecer\u00e1 em seguida em outras obras maxianas, em particular nos <strong><em>Grundrisse<\/em><\/strong> e no <strong><em>O capital<\/em><\/strong>, testemunhando, que seja dito de passagem, que n\u00e3o existe nenhuma \u201cruptura epistemol\u00f3gica\u201d no pensamento de Marx. () \u201cSeria certamente f\u00fatil, e em contradi\u00e7\u00e3o com as inten\u00e7\u00f5es de Marx, procurar encontrar uma vers\u00e3o plenamente desenvolvida da sua ecologia nos seus cadernos de 1844, todavia, esses cadernos cont\u00e9m inegavelmente o reconhecimento precoce por parte de Marx da import\u00e2ncia estrat\u00e9gica de restabelecer uma \u201cunidade\u201d consciente entre os homens e a natureza como uma tarefa central da sociedade comunista\u201d; () \u201cna sua an\u00e1lise da aliena\u00e7\u00e3o de 1844, j\u00e1 existe um tema central da sua cr\u00edtica do capitalismo, isto \u00e9, <strong><em>a separa\u00e7\u00e3o e a unidade entre humanidade e natureza<\/em><\/strong>. Por isso, em contraste com as discuss\u00f5es filos\u00f3ficas precedentes, \u00e9 necess\u00e1rio conduzir um exame sistem\u00e1tico do desenvolvimento do conceito de natureza de Marx em rela\u00e7\u00e3o com a sua economia pol\u00edtica\u00bb, () e ainda \u201ca cr\u00edtica marxiana da aliena\u00e7\u00e3o de 1844 considera a reorganiza\u00e7\u00e3o \u201cracional\u201d da rela\u00e7\u00e3o entre os homens e a natureza como essencial, e desse modo ele concebe a ideia do comunismo como \u201chumanismo = naturalismo\u201d. Esse \u00e9 o in\u00edcio, ainda que somente o in\u00edcio, da cr\u00edtica econ\u00f4mica e ecol\u00f3gica do capitalismo por parte de Marx\u201d. ()<\/p>\n\n\n\n<p>Pode-se ver ent\u00e3o, como esse \u00e9 um tema absolutamente relevante na concep\u00e7\u00e3o marxiana. Mas que tipo de rela\u00e7\u00e3o tem com a quest\u00e3o das crises ecol\u00f3gicas do \u201csegundo tipo\u201d? \u201cA lucratividade dos aglomerados industriais capitalistas revela as caracter\u00edsticas antiecol\u00f3gicas de valor e capital. Nessa \u00e1rea, as empresas concorrentes apropriam-se livremente dos potenciais produtivos dos seus ambientes naturais e sociais como meios de explora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho. Fazendo isso, ignoram os impactos combinados do crescimento e da densidade material das ind\u00fastrias e da popula\u00e7\u00e3o sobre diversos sistemas ecol\u00f3gicos e conex\u00f5es da biosfera que constituem a base natural \u00faltima do desenvolvimento humano. A an\u00e1lise de Marx e Engels da ant\u00edtese cidade\/campo enfrenta esses impactos atrav\u00e9s do tratamento dos interc\u00e2mbios entre agricultura e ind\u00fastria manufatureira no capitalismo\u201d. ()<\/p>\n\n\n\n<p>Os efeitos caracter\u00edsticos do capitalismo, diferente daquilo que ocorre com os outros modos de produ\u00e7\u00e3o, minam as condi\u00e7\u00f5es naturais necess\u00e1rias \u00e0 produ\u00e7\u00e3o e para a pr\u00f3pria vida. \u201cA transforma\u00e7\u00e3o espacial e tecnol\u00f3gica da produ\u00e7\u00e3o por parte do capitalismo, degrada a qualidade da riqueza natural como condi\u00e7\u00e3o do desenvolvimento humano. A concentra\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria e da popula\u00e7\u00e3o nas \u00e1reas urbanas, e a industrializa\u00e7\u00e3o da agricultura baseada na redu\u00e7\u00e3o da autossufici\u00eancia e o despovoamento da economia rural, produzem uma circula\u00e7\u00e3o social de mat\u00e9ria-prima que \u00e9 ambientalmente insustent\u00e1vel e diretamente perigosa para a sa\u00fade humana. A cr\u00edtica ambiental da produ\u00e7\u00e3o capitalista \u00e9 uma tem\u00e1tica recorrente nos escritos de Marx e Engels\u201d, () isso porque \u201ca crescente produtividade do trabalho industrial se traduz em crescentes n\u00edveis \u201cnormais\u201d de volumes materiais e energ\u00e9ticos necess\u00e1rios para uma produ\u00e7\u00e3o e uma venda lucrativa de mercadorias. Esse volume cresce de maneira acelerada na medida em que a produtividade do trabalho industrial \u00e9 potencializada, ela mesma, pela concentra\u00e7\u00e3o. Os efeitos adversos dos res\u00edduos industriais sobre a sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o urbana foram detalhados por Engels em <strong><em>A situa\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora na Inglaterra<\/em><\/strong>. Al\u00e9m disso, no entanto, uma boa parte dos recursos urbanos tomam a forma de \u201cexcre\u00e7\u00f5es do consumo (&#8230;) produzidas pela transforma\u00e7\u00e3o natural da mat\u00e9ria no corpo humano e parcialmente [como] objetos que sobram depois do seu consumo\u201d (<strong><em>O capital<\/em><\/strong>, vol. III). [&#8230;] Muito frequentemente, Marx e Engels analisam os efeitos das excre\u00e7\u00f5es do consumo sobre a sa\u00fade humana como parte da sua mais ampla cr\u00edtica da circula\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria produzida pela divis\u00e3o capitalista entre agricultura e ind\u00fastria urbana\u201d. () E de fato, Marx e Engels voltam a esse conceito da \u201ccircula\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria\u201d falando inclusive da industrializa\u00e7\u00e3o da agricultura: \u201co contraste capitalista entre cidade industrial e campo agr\u00edcola cria uma circula\u00e7\u00e3o de mat\u00e9ria que corr\u00f3i a qualidade das condi\u00e7\u00f5es naturais n\u00e3o apenas para a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, mas para o desenvolvimento humano mais geral. [&#8230;] A industrializa\u00e7\u00e3o da agricultura saqueia ainda mais a riqueza natural da terra, al\u00e9m dos efeitos dos res\u00edduos urbano-industriais e da incapacidade de reciclar as excre\u00e7\u00f5es do consumo urbano. Nas condi\u00e7\u00f5es de busca competitiva pelo lucro, a tecnologia agr\u00edcola \u00e9 transformada usando as m\u00e1quinas e outros meios fornecidos pela ind\u00fastria urbana. O exaurimento do solo \u00e9 assim acelerado lado a lado com a intensifica\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho agr\u00edcola que, dada a destrui\u00e7\u00e3o das atividades rurais n\u00e3o-agr\u00edcolas, \u00e9 largamente empregada em base sazonal\u201d ().&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, chegamos naquela que foi chamada por Foster \u201c<strong><em>teoria marxiana da fratura metab\u00f3lica<\/em><\/strong>\u201d. Em um ensaio () de 1999 que trazia esse mesmo nome, cujas conclus\u00f5es foram depois retomadas no livro <strong><em>Marx\u2019s ecology: materialism and nature<\/em><\/strong>, publicado no ano seguinte, Foster, depois de ter citado Marx, sustenta que \u201caquilo que \u00e9 comum em todas essas passagens do <strong><em>Capital<\/em><\/strong> de Marx \u2013 o primeiro que conclui a sua an\u00e1lise da renda fundi\u00e1ria capitalista no terceiro volume, e o segundo que conclui a sua discuss\u00e3o sobre a agricultura em larga escala e ind\u00fastria no primeiro volume \u2013 \u00e9 o conceito te\u00f3rico central de uma \u201cfratura\u201d na \u201cintera\u00e7\u00e3o metab\u00f3lica entre o homem e a terra\u201d, isto \u00e9, o \u201cmetabolismo social prescrito pelas leis naturais da vida\u201d, atrav\u00e9s de um \u201csaque\u201d dos elementos constitutivos do solo, fazendo-se necess\u00e1rio sua \u201crestaura\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica\u201d. Essa contradi\u00e7\u00e3o se desenvolve atrav\u00e9s do crescimento simult\u00e2neo da ind\u00fastria em larga escala e da agricultura em larga escala no capitalismo, com a primeira que fornece para a segunda os meios para a explora\u00e7\u00e3o intensiva do solo. [&#8230;] Marx afirmava que o com\u00e9rcio de longa dist\u00e2ncia de comida e fibras para vestu\u00e1rio produzia o problema da aliena\u00e7\u00e3o dos elementos constitutivos do solo muito mais que uma \u201cfratura irrepar\u00e1vel\u201d. Para Marx, isso era parte do curso natural do desenvolvimento capitalista. Como escreve em 1852, \u201co solo deve ser uma mercadoria comercializ\u00e1vel e a explora\u00e7\u00e3o do solo deve ser efetuada segundo as leis comerciais comuns. Devem existir produtores de alimento assim como fabricantes de fios e algod\u00e3o, mas n\u00e3o deve mais existir nenhum senhor de terra\u201d. () Al\u00e9m disso, as contradi\u00e7\u00f5es associadas com esse desenvolvimento eram de car\u00e1ter global. Como observa Marx no primeiro volume do Capital, o fato de que o \u201cdesejo cego pelo lucro\u201d tivesse \u201cexaurido o solo\u201d da Inglaterra, poderia ser observado cotidianamente no fato de que \u201cse era obrigado a fertilizar os campos ingleses com os dejetos (guano)\u201d importados do Peru. O pr\u00f3prio fato de que sementes, dejetos etc., fossem importados \u201cde pa\u00edses distantes\u201d, destacava Marx nos <strong><em>Grundrisse<\/em><\/strong> (1857-1858), indicava que a agricultura no capitalismo tinha deixado de ser \u201cautossuficiente\u201d, que j\u00e1 n\u00e3o encontrava mais as condi\u00e7\u00f5es naturais da sua pr\u00f3pria produ\u00e7\u00e3o dentro de si, despontadas naturalmente, espontaneamente, ao seu alcance, mas elas existem como ind\u00fastria independente separada dela\u201d.&nbsp; Uma parte central da argumenta\u00e7\u00e3o de Marx era a tese de que o car\u00e1ter inerente da agricultura em larga escala <strong><em>no capitalismo impede qualquer aplica\u00e7\u00e3o realmente racional da nova ci\u00eancia de gest\u00e3o do solo<\/em><\/strong>. () No entanto, com todos os desenvolvimentos cient\u00edficos da agricultura, o capital era incapaz de manter aquelas condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para a reciclagem dos elementos constitutivos do solo\u201d. () O leitor nos perdoar\u00e1 o tamanho dessa cita\u00e7\u00e3o, mas pensamos que seria necess\u00e1rio para expor com clareza a base dessa teoria marxiana, fundamental e quase desconhecida por muitos. \u201cMarx utilizou o conceito de uma \u201cfratura\u201d na rela\u00e7\u00e3o metab\u00f3lica entre seres humanos e a terra para compreender o estranhamento material dos seres humanos, no interior da sociedade capitalista, com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s condi\u00e7\u00f5es naturais que constituem a base para a sua exist\u00eancia \u2013 aquilo que ele chamava \u201cas condi\u00e7\u00f5es da exist\u00eancia humana impostas pela eterna natureza\u201d. Insistir sobre o fato de que a sociedade capitalista em larga escala criasse uma tal fratura metab\u00f3lica entre seres humanos e o solo, significava defender que as condi\u00e7\u00f5es de sustentabilidade impostas pela natureza haviam sido violadas\u201d (). Acreditamos que o conceito de \u201cfratura metab\u00f3lica\u201d esteja agora suficientemente claro, e que a demonstra\u00e7\u00e3o de como o ambiente natural e a ecologia ocupam um lugar relevante (sen\u00e3o central) no pensamento de Marx seja algo incontest\u00e1vel. Todavia, queremos debater a forma como isso se liga \u00e0 ant\u00edtese cidade\/campo como uma quest\u00e3o programaticamente central para a sociedade comunista: \u201cpara Marx, a fratura metab\u00f3lica associada em n\u00edvel social \u00e0 divis\u00e3o antag\u00f4nica entre cidade e campo era evidente tamb\u00e9m em n\u00edvel mais global: todas as col\u00f4nias viam os seus territ\u00f3rios, os seus recursos, e o seu solo, saqueados para sustentar a industrializa\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses colonizadores. [&#8230;] Assim, \u00e9 imposs\u00edvel escapar da conclus\u00e3o de que a vis\u00e3o marxiana da agricultura capitalista e da fratura metab\u00f3lica nas rela\u00e7\u00f5es impostas pela natureza entre seres humanos e o solo levava Marx a um conceito muito mais amplo de sustentabilidade ecol\u00f3gica \u2013 uma no\u00e7\u00e3o que ele considerava ter uma relev\u00e2ncia pr\u00e1tica muito limitada para a sociedade capitalista, que era incapaz de aplicar m\u00e9todos racionais-cient\u00edficos nesse campo, mas essenciais para uma sociedade de produtores associados\u201d. ()&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O conceito de natureza e o <\/strong><strong><em>stoffwechsel em<\/em><\/strong><strong> Marx<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Agora estamos prontos para recapitular qual \u00e9 o conceito de ambiente natural de Marx, () e a ver a sua rela\u00e7\u00e3o com a produ\u00e7\u00e3o humana, e em particular com a produ\u00e7\u00e3o capitalista. Das extensas cita\u00e7\u00f5es que propusemos pode-se extrair aquela que \u00e9 a concep\u00e7\u00e3o de Marx e Engels: se nos escritos de 1844 \u00e9 ainda detect\u00e1vel em Marx a influ\u00eancia do materialismo de Feuerbach, () que considerava um homem a-hist\u00f3rico e uma natureza abstrata, os fundadores do materialismo hist\u00f3rico rapidamente superar\u00e3o estas concep\u00e7\u00f5es: \u201cA caracteriza\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica que Feuerbach faz do homem com rela\u00e7\u00e3o ao resto da natureza, permanece abstrata. A natureza \u00e9 para Feuerbach um substrato privado de hist\u00f3ria, homog\u00eaneo, cuja defini\u00e7\u00e3o em uma dial\u00e9tica de sujeito e objeto constitui o cerne da cr\u00edtica marxiana. A natureza \u00e9 para Marx um momento da pr\u00e1xis humana e ao mesmo tempo a totalidade de tudo o que existe\u201d. () A <strong><em>pr\u00e1xis<\/em><\/strong> humana \u00e9 central no pensamento de Marx, inclusive no que se refere \u00e0 especificidade da natureza: \u201cA <strong><em>Cr\u00edtica ao Programa de Gotha<\/em><\/strong> fala da natureza como \u201ca primeira fonte de cada instrumento e objeto de trabalho\u201d. O <strong><em>Capital<\/em><\/strong> v\u00ea na natureza a base das \u201cformas materiais de exist\u00eancia do capital constante\u201d, a fornecedora dos instrumentos de produ\u00e7\u00e3o \u00e0s que pertence, tamb\u00e9m, o trabalho vivo, o homem.\u201d ().&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A divis\u00e3o social do trabalho, determinada pelo grau de desenvolvimento das for\u00e7as produtivas, implica uma rela\u00e7\u00e3o particular do homem com a natureza, que por sua vez, contribui para determinar as rela\u00e7\u00f5es sociais entre os homens. \u201cUma vez que as rela\u00e7\u00f5es dos homens com a natureza constituem o pressuposto para as rela\u00e7\u00f5es dos homens entre si, a dial\u00e9tica do processo de trabalho como processo natural, se estende a uma dial\u00e9tica da hist\u00f3ria humana em geral\u201d; () \u201cdepende sempre do n\u00edvel alcan\u00e7ado pelas for\u00e7as produtivas materiais e intelectuais, quais possiblidades inerentes \u00e0 mat\u00e9ria e em qual medida podem ser realizadas. () \u201cA produ\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre social. Essa \u00e9 sempre \u201capropria\u00e7\u00e3o da natureza por parte do indiv\u00edduo no interior e <strong><em>mediante<\/em><\/strong> uma determinada forma social\u201d [K. Marx, <strong><em>Para a cr\u00edtica da economia pol\u00edtica<\/em><\/strong>]\u201d () Assim, o conceito de metabolismo ou intera\u00e7\u00e3o org\u00e2nica, que \u00e9 tamb\u00e9m um sin\u00f4nimo do trabalho humano, demonstra toda a sua import\u00e2ncia: \u201ca categoria conceitual chave na an\u00e1lise te\u00f3rica marxiana nessa \u00e1rea \u00e9 o conceito de metabolismo (<strong><em>stoffwechsel<\/em><\/strong>). A palavra alem\u00e3 <strong><em>stoffwechsel<\/em><\/strong> enuncia diretamente nos seus elementos a no\u00e7\u00e3o de \u201cinterc\u00e2mbio material\u201d que est\u00e1 na base da no\u00e7\u00e3o de processos estruturados de crescimento e decomposi\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica contidos nos termos \u201cmetabolismo\u201d. Na sua defini\u00e7\u00e3o do processo de trabalho, Marx tornou o conceito de metabolismo central em todo o seu sistema de an\u00e1lise, baseando a sua compreens\u00e3o do processo de trabalho a partir desse conceito\u201d. () O intera\u00e7\u00e3o org\u00e2nica tem ent\u00e3o um duplo significado: \u201cAssim, Marx utilizava o conceito seja para referir-se \u00e0 real intera\u00e7\u00e3o metab\u00f3lica entre a natureza e a sociedade atrav\u00e9s do trabalho humano (o contexto usual no qual o termo foi utilizado em suas obras), e em um sentido mais amplo (em particular nos <strong>Grundrisse<\/strong>) para descrever o conjunto complexo, din\u00e2mico, interdependente, de necessidades e rela\u00e7\u00f5es criadas e constantemente reproduzidas de forma alienada no capitalismo, e o problema da liberdade humana que suscitou: tudo isso pode ser visto como conectado ao modo no qual o metabolismo humano com a natureza se exprimia atrav\u00e9s da organiza\u00e7\u00e3o concreta do trabalho humano. Desse modo, o conceito de metabolismo assume, tanto um significado ecol\u00f3gico espec\u00edfico, quanto um significado social muito mais amplo\u201d. ()&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A concep\u00e7\u00e3o de intera\u00e7\u00e3o metab\u00f3lica homem\/natureza est\u00e1 estreitamente ligada \u00e0quela fratura metab\u00f3lica no capitalismo, que tem suas ra\u00edzes, como vimos, na ant\u00edtese cidade\/campo: \u201cA concep\u00e7\u00e3o marxiana de intera\u00e7\u00e3o org\u00e2nica, n\u00e3o apenas no sentido metaf\u00f3rico, mas <strong><em>tamb\u00e9m<\/em><\/strong> fisiol\u00f3gico, emerge claramente da cr\u00edtica de Marx \u00e0 r\u00edgida separa\u00e7\u00e3o, t\u00edpica da produ\u00e7\u00e3o capitalista da sua \u00e9poca entre cidade e campo\u201d. () N\u00e3o existe uma intera\u00e7\u00e3o org\u00e2nica \u201cpura\u201d, \u201cabstrata\u201d: cada modo de produ\u00e7\u00e3o estabelece uma intera\u00e7\u00e3o org\u00e2nica com a natureza. \u201cA rela\u00e7\u00e3o entre homem e natureza est\u00e1 assim mediada, no sentido de que a natureza \u00e9 conhecida pelo homem atrav\u00e9s da pesquisa cient\u00edfica, e \u00e9 apropriada e manipulada pelo homem atrav\u00e9s do trabalho, isto \u00e9, mediante a produ\u00e7\u00e3o social organizada na forma hist\u00f3rico-sociais transit\u00f3rias cujas din\u00e2micas internas n\u00e3o s\u00e3o postas pela natureza, ainda que por elas possam estar condicionadas\u201d. () \u00c9 assim que a hist\u00f3ria do desenvolvimento das formas de intera\u00e7\u00e3o org\u00e2nica correspondem \u00e0 hist\u00f3ria humana no sentido mais completo: \u201catrav\u00e9s da categoria de intera\u00e7\u00e3o org\u00e2nica a hist\u00f3ria social \u00e9 parte da hist\u00f3ria natural, o sujeito intencional que d\u00e1 forma ao objeto material, em uma unidade que \u00e9 tamb\u00e9m necessariamente uma distin\u00e7\u00e3o\u201d; () \u201ca contradi\u00e7\u00e3o e o antagonismo entre as for\u00e7as produtivas (homem\/natureza) e as rela\u00e7\u00f5es sociais de produ\u00e7\u00e3o (homem\/homem) como o motor fundamental da hist\u00f3ria humana, e da hist\u00f3ria da totalidade natural desse planeta\u201d. () Uma concep\u00e7\u00e3o correta da intera\u00e7\u00e3o org\u00e2nica \u00e9 necess\u00e1ria tamb\u00e9m para a constru\u00e7\u00e3o da nova sociedade socialista: \u201cpara a sociedade futura Marx prev\u00ea uma \u201cs\u00edntese superior&#8230; de agricultura e de ind\u00fastria\u201d, o que pressup\u00f5e certamente que aquela intera\u00e7\u00e3o org\u00e2nica se realize \u201csistematicamente como lei reguladora da produ\u00e7\u00e3o social e em uma forma adequada ao pleno desenvolvimento do homem\u201d\u201d. ()<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Dom\u00ednio da natureza?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para completar o exame da concep\u00e7\u00e3o de Marx e Engels sobre a natureza, n\u00e3o nos resta mais que retornar \u00e0 quest\u00e3o do dom\u00ednio da natureza por parte do homem. Essa tese fundamentalmente positivista n\u00e3o tem nada a ver com o marxismo, ainda se, como vimos, seja falsamente atribu\u00edda a Marx uma confian\u00e7a ilimitada no progresso das for\u00e7as produtivas. Isso deriva tamb\u00e9m do fato que Marx e Engels consideram, em certos aspectos, o capitalismo como progressivo com rela\u00e7\u00e3o aos modos de produ\u00e7\u00e3o pr\u00e9-capitalistas: desta ideia \u00e9 dada frequentemente uma representa\u00e7\u00e3o absolutamente distorcida, de Marx como industrialista a todo custo. No entanto, para Marx \u201co capitalismo \u00e9 progressivo n\u00e3o apenas porque desenvolve as for\u00e7as produtivas, mas por que: (1) ao faz\u00ea-lo, nega cada l\u00f3gica de escassez material por causa dos monop\u00f3lios de classe sobre a disposi\u00e7\u00e3o do tempo de trabalho e dos produtos excedentes da sociedade, portanto, sobre oportunidades de desenvolvimento humano na medida em que tais oportunidades sejam fun\u00e7\u00e3o da distribui\u00e7\u00e3o do tempo livre e do n\u00edvel e da seguran\u00e7a dos padr\u00f5es de vida materiais; (2) o faz desenvolvendo as formas cooperativas e sociais de trabalho e produ\u00e7\u00e3o permitindo, de tal modo, \u00e0 humanidade superar as formas de desenvolvimento socialmente e naturalmente restritas que caracterizam as sociedades pr\u00e9-capitalistas\u201d. () Esse desenvolvimento, para Marx e Engels, \u00e9 um <strong><em>meio<\/em><\/strong> e n\u00e3o um <strong><em>fim<\/em><\/strong>: \u201cO desenvolvimento das for\u00e7as produtivas por parte do capital (ou seja, a nega\u00e7\u00e3o das l\u00f3gicas da escassez pelos limites de classe sobre o desenvolvimento humano), junto com o desenvolvimento extensivo e intensivo da divis\u00e3o social do trabalho e das trocas (ou seja, a potencial universaliza\u00e7\u00e3o da livre individualidade humana), s\u00e3o os ve\u00edculos aqui, n\u00e3o o conte\u00fado evolutivo humano\u201d. ()&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Reiteramos ent\u00e3o a absoluta falta de fundamento da ideia de um Marx \u201cprodutivista\u201d: \u201cMarx defende que, ainda que o capitalismo crie o potencial para uma forma menos restrita de desenvolvimento humano, esse potencial s\u00f3 pode ser realizado com a transforma\u00e7\u00e3o qualitativa por parte do comunismo das for\u00e7as e das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o desenvolvidas no capitalismo. A interpreta\u00e7\u00e3o prometeica converte arbitrariamente a vis\u00e3o qualitativa marxiana, de um desenvolvimento humano menos restrito em uma concep\u00e7\u00e3o que n\u00e3o leva em conta as rela\u00e7\u00f5es sociais humanas, principalmente quantitativa, do progresso humano com produ\u00e7\u00e3o e consumo de massa \u00e0s custas da natureza. Essa falsa identifica\u00e7\u00e3o ignora a cr\u00edtica marxiana, qualitativa e classista, da produ\u00e7\u00e3o e do consumo capitalista\u201d. ()<\/p>\n\n\n\n<p>Mas como \u00e9 ent\u00e3o interpretada a express\u00e3o \u201cdom\u00ednio da natureza\u201d que \u00e9 utilizada por Marx e Engels? \u201cA cada momento nos \u00e9 relembrado que n\u00f3s n\u00e3o dominamos a natureza como um conquistador domina um povo estrangeiro subjugado, que n\u00e3o a dominamos como quem \u00e9 estranho a ela, mas que n\u00f3s lhe pertencemos com carne e osso e c\u00e9rebro e vivemos no seu ventre: todo o nosso dom\u00ednio sobre a natureza consiste na capacidade, que nos eleva acima das outras criaturas, de conhecer as suas leis e de emprega-las de modo apropriado\u201d. () Vejamos ent\u00e3o que o \u201cdom\u00ednio sobre a natureza\u201d \u00e9 na realidade um conhecimento (historicamente sempre maior) das leis da natureza. \u201cO materialismo dial\u00e9tico n\u00e3o ignora nem fetichiza as leis inerentes \u00e0 natureza material, com as quais a sociedade deve sempre tratar para alcan\u00e7ar os seus objetivos\u201d. () Engels nos d\u00e1, em um trecho magistral de uma das suas obras mais maltratadas por aqueles que n\u00e3o entenderam nada da dial\u00e9tica, uma precisa imagem da interdepend\u00eancia entre leis naturais e desenvolvimento <strong><em>qualitativo<\/em><\/strong> da sociedade humana: \u201ca liberdade n\u00e3o consiste no sonhar com a independ\u00eancia das leis da natureza, mas no conhecimento dessas leis e na possibilidade, ligada a esse conhecimento, de faz\u00ea-la agir segundo um plano para um determinado fim\u201d. () \u201cO dom\u00ednio da natureza pressup\u00f5e sempre o conhecimento dos processos e das conex\u00f5es naturais, enquanto esse conhecimento por sua vez \u00e9 resultado exclusivo da transforma\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica do mundo. [&#8230;] Os homens podem dominar a natureza apenas se, por sua vez, se submetem \u00e0s leis naturais\u201d. ()&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Claramente n\u00e3o \u00e9 apenas quest\u00e3o de conhecimento das leis naturais, mas um problema preciso de classe, isto \u00e9, da classe que governa as escolhas pol\u00edticas da sociedade e do mecanismo an\u00e1rquico e perverso da produ\u00e7\u00e3o capitalista, que impede a aplica\u00e7\u00e3o racional dos conhecimentos cient\u00edficos. () \u201cO imperativo categ\u00f3rico do capitalismo \u00e9 a acumula\u00e7\u00e3o intensiva e a sua reprodu\u00e7\u00e3o em escala sempre mais ampla a qualquer custo: e os custos dessa l\u00f3gica louca que constitui inclusive a enorme for\u00e7a que chamamos de crises econ\u00f4micas, desperd\u00edcio de preciosas capacidades humanas, polui\u00e7\u00e3o, congestionamento urbano, destrui\u00e7\u00e3o da natureza, consumo de recursos n\u00e3o renov\u00e1veis, fome, guerra. Ele \u201crevoluciona\u201d as pr\u00f3prias \u201ccondi\u00e7\u00f5es produtivas\u201d sociais e naturais em uma dial\u00e9tica de destrui\u00e7\u00e3o e inova\u00e7\u00e3o cujo centro \u00e9 constitu\u00eddo pelas transforma\u00e7\u00f5es e pela generaliza\u00e7\u00e3o desigual em escala nacional e mundial da rela\u00e7\u00e3o social fundamental: o <strong><em>trabalho assalariado<\/em><\/strong>, seja na produ\u00e7\u00e3o, seja nas normas de consumo\u201d. () Eis, portanto, porque n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel pensar com solu\u00e7\u00f5es minimalistas, mas \u00e9 necess\u00e1rio destruir desde a raiz do v\u00edrus capitalista e construir uma sociedade na qual sejam os \u201cprodutores associados\u201d a gerir a economia e a pol\u00edtica. \u201cN\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel estabelecer uma nova coopera\u00e7\u00e3o entre a sociedade e a natureza sem uma forma radicalmente nova de coopera\u00e7\u00e3o entre os homens, para n\u00e3o se entender como uma quest\u00e3o apenas de consci\u00eancia, mas como transforma\u00e7\u00e3o da materialidade social, ou seja, da materialidade objetivamente restritiva das rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e pol\u00edticas, cristalizadas na t\u00e9cnica, mas n\u00e3o redut\u00edvel a ela\u201d. ()&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As necess\u00e1rias consequ\u00eancias pol\u00edticas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>De tudo que foi dito, resulta que o programa marxista para a revolu\u00e7\u00e3o socialista \u00e9 ainda extremamente atual, mas isso \u00e9 apenas o in\u00edcio. Contribui\u00e7\u00f5es de estudiosos como Burkett, Foster, Saito e outros s\u00e3o absolutamente preciosas na medida em que ajudam os militantes a redescobrir alguns aspectos da obra de Marx, mas os militantes revolucion\u00e1rios devem \u201capropriar-se\u201d de tais resultados para coloc\u00e1-los a servi\u00e7o de um programa de transi\u00e7\u00e3o para o socialismo. E \u00e9 neste aspecto, que para n\u00f3s \u00e9 central, no momento de construir um programa coerentemente revolucion\u00e1rio e que tenha um car\u00e1ter de classe prolet\u00e1rio e independente, que as nossas estradas se separam de Foster. () Enquanto eles afirmam que \u201cos marxistas ecologistas sugerem que j\u00e1 se possam identificar os sinais de nascimento daquilo que pode ser chamado de um nascente \u201cproletariado ambiental\u201d, () os marxistas revolucion\u00e1rios consideram que essa posi\u00e7\u00e3o seja incorreta, e que ecoa as velhas posi\u00e7\u00f5es terceiro-mundistas que j\u00e1 caracterizavam <strong><em>Monthly review<\/em><\/strong> historicamente, desde a \u00e9poca de Sweezy. () Claramente n\u00f3s n\u00e3o negamos que os efeitos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e da devasta\u00e7\u00e3o da natureza sejam mais sofridos pelos povos mais oprimidos pelo imperialismo, mas a individualiza\u00e7\u00e3o de um novo \u201csujeito social revolucion\u00e1rio\u201d nos parece uma problem\u00e1tica apenas do ponto de vista anal\u00edtico, mas, sobretudo, errado pol\u00edtica e programaticamente: para n\u00f3s, central no processo revolucion\u00e1rio \u00e9 a classe oper\u00e1ria, o proletariado no sentido \u201ccl\u00e1ssico\u201d, exatamente porque pensamos em um processo que deve visar a subvers\u00e3o do sistema produtivo e das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o capitalistas. A no\u00e7\u00e3o de \u201cproletariado ambiental\u201d nos parece prefigurar uma luta sem um claro car\u00e1ter de classe, e isso \u00e9 coerente exatamente com aquilo que Foster afirma depois sobre as fases (etapas?) que ele prev\u00ea para esta luta: \u201cum movimento ecol\u00f3gico revolucion\u00e1rio adequado a essa tarefa passar\u00e1 sem d\u00favida por uma fase <strong><em>ecodemocr\u00e1tica, <\/em><\/strong>procurando construir uma alian\u00e7a ampla, na qual a maioria absoluta da humanidade, fora dos interesses dominantes, ser\u00e1 obrigada pela crescente desumanidade a exigir um mundo caracterizado por um desenvolvimento humano sustent\u00e1vel. Com o tempo, isso provavelmente criar\u00e1 as condi\u00e7\u00f5es para uma segunda, e mais decisiva, fase <strong><em>ecossocialista<\/em><\/strong> da luta revolucion\u00e1ria, direcionada para a cria\u00e7\u00e3o de uma sociedade inspirada no lema \u201cde cada um segundo a sua capacidade, a cada um segundo as suas necessidades!\u201d e fundada sobre uma base sustent\u00e1vel\u201d. () Seria assim uma fase democr\u00e1tica da luta ao menos cronologicamente distinta da, mas talvez at\u00e9 mesmo <strong><em>contraposta<\/em><\/strong> a, uma sucessiva fase socialista. Em suma, uma tipologia de imposta\u00e7\u00e3o da luta morta (mas infelizmente n\u00e3o sepultada) em 1917&#8230; E quem fala de \u201cproletariado ambiental\u201d de fato reafirma essa an\u00e1lise \u201cetapista\u201d dando \u00e0 luta uma conota\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica, defendendo os pa\u00edses do sul do mundo, em particular aqueles chamados \u201csocialismo do s\u00e9culo XXI\u201d, que representam o \u201cproletariado ambiental real\u201d, isto \u00e9, dos governos nacionalistas burgueses anti-oper\u00e1rios! N\u00e3o \u00e9 ent\u00e3o um acaso que um dos livros de Foster, <em>The ecological revolution<\/em> (2009), se fecha com as palavras de \u201cum dos mais eloquentes defensores, em escala mundial, do meio ambiente global e dos direitos dos ind\u00edgenas\u201d ()\u2026 Evo Morales! () A frase que \u00e9 apresentada \u00e9 que \u201cn\u00e3o haver\u00e1 solu\u00e7\u00e3o para a crise ecol\u00f3gica global \u201cat\u00e9 que n\u00e3o se mude o sistema capitalista com um sistema baseado sobre a complementaridade, a solidariedade, a harmonia entre os povos e a natureza\u201d\u201d. () N\u00e3o parece que Morales tenha feito nada disso enquanto governava a Bol\u00edvia&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Consideramos que mesmo o debate marxiano do problema ecol\u00f3gico, bem reconstru\u00eddo por Burkett e Foster, seja a demonstra\u00e7\u00e3o de como, sobretudo nesse campo, a necess\u00e1ria revolu\u00e7\u00e3o socialista n\u00e3o pode prescindir da classe oper\u00e1ria e do seu papel na produ\u00e7\u00e3o: \u201c\u00c9 atrav\u00e9s da valoriza\u00e7\u00e3o da categoria de <strong><em>intera\u00e7\u00e3o org\u00e2nica<\/em><\/strong> como regula\u00e7\u00e3o racional da rela\u00e7\u00e3o entre sociedade e natureza e da cr\u00edtica das suas determina\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas que se podem colocar as bases para a integra\u00e7\u00e3o na perspectiva anticapitalista de uma estrat\u00e9gia ambientalista\u201d. () Como vimos, \u201cintera\u00e7\u00e3o org\u00e2nica\u201d \u00e9 em certo sentido, sin\u00f4nimo de \u201ctrabalho\u201d. () Como podemos ent\u00e3o aceitar as categorias marxianas e n\u00e3o colocar no centro do nosso programa revolucion\u00e1rio o proletariado, com a sua necessidade de independ\u00eancia de classe da burguesia? Isso significa talvez que n\u00e3o procuramos outros aliados na luta pela mudan\u00e7a clim\u00e1tica? N\u00e3o, significa que estamos dispostos a nos aliar com quem pode partilhar as nossas batalhas contra a mudan\u00e7a clim\u00e1tica e a destrui\u00e7\u00e3o do meio ambiente, mas que levamos avante <strong>desde o in\u00edcio<\/strong> em uma perspectiva socialista. De novo, isso significa que defendemos apenas propostas socialistas e nos contrapomos \u00e0quelas \u201cdemocr\u00e1ticas\u201d? N\u00e3o, significa que o programa que apresentamos \u00e0 classe oper\u00e1ria e a todos que com ela querem salvar o planeta Terra \u00e9 um programa transit\u00f3rio para o socialismo, que incorpora diversas reivindica\u00e7\u00f5es e objetivos, inclusive os democr\u00e1ticos, mas que deve culminar, para ser eficaz e n\u00e3o ilus\u00f3rio, na tomada do poder por parte dos trabalhadores e dos setores sociais a eles aliados, na destrui\u00e7\u00e3o do sistema capitalista e na constru\u00e7\u00e3o de uma economia nova. Esse \u00e9 o m\u00e9todo que desde sempre como trotskistas, reivindicamos, porque levou \u00e0 vit\u00f3ria em Outubro de 17.<\/p>\n\n\n\n<p>A este ponto o leitor poderia legitimamente perguntar-se se as cr\u00edticas pol\u00edticas que direcionamos a Foster e \u00e0 sua corrente acad\u00eamica n\u00e3o invalidam os seus estudos te\u00f3ricos. Na medida em que pudemos conhecer essas elabora\u00e7\u00f5es, nos parece, em n\u00edvel te\u00f3rico, a mais coerente an\u00e1lise do pensamento de Marx sobre o tema. Talvez tenhamos alguns conceitos a aprofundar ou discutir, como o conceito de <strong><em>desenvolvimento humano sustent\u00e1vel<\/em><\/strong> (), no entanto, conceitos como o de \u201cfratura metab\u00f3lica\u201d nos parecem que recolocam Marx no seu lugar de direito inclusive no \u201ccampo ecol\u00f3gico\u201d. Pensamos que n\u00e3o se possa atribuir \u00e0 teoria da fratura metab\u00f3lica as posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas equivocadas de Foster, assim com a pol\u00edtica das \u201cfrentes populares\u201d n\u00e3o se pode atribuir a necessidade da classe oper\u00e1ria de se defender da rea\u00e7\u00e3o. Sabemos bem que os reformistas est\u00e3o em grau de justificar a sua alian\u00e7a com a burguesia com qualquer desculpa. Os limites do marxismo acad\u00eamico, ou seja, a pesquisa te\u00f3rica sem o compromisso militante \u00e9 essencialmente aquele de n\u00e3o poder libertar-se da influ\u00eancia do reformismo. Como marxistas revolucion\u00e1rios, no entanto, n\u00e3o devemos hesitar em tomar aquilo que h\u00e1 de bom nessas an\u00e1lises, libertando-as das esc\u00f3rias pol\u00edticas reformistas, e coloca-las a servi\u00e7o do nosso projeto revolucion\u00e1rio geral. \u201cPara Marx o socialismo era uma nova forma revolucion\u00e1ria de reprodu\u00e7\u00e3o metab\u00f3lica social objetivando a realiza\u00e7\u00e3o de necessidades comunit\u00e1rias, enraizada em condi\u00e7\u00f5es de substancial igualdade e de sustentabilidade ecol\u00f3gica. Isso estava definido como uma sociedade na qual \u201co livre desenvolvimento de cada um \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o para o livre desenvolvimento de todos\u201d, mas na qual tamb\u00e9m era essencial proteger o poder produtivo da pr\u00f3pria terra no interesse daquilo que Marx chamava no <strong><em>Capital<\/em><\/strong> \u201ca cadeia das sucessivas gera\u00e7\u00f5es da ra\u00e7a humana\u201d\u201d. () S\u00f3 uma revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria baseada na democracia oper\u00e1ria, isto \u00e9, que organiza um novo Estado no qual os trabalhadores se organizam em conselhos para dirigir a economia e o pr\u00f3prio Estado, pode garantir tudo isso. E essa \u00e9 a perspectiva pela qual lutam os marxistas revolucion\u00e1rios.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: N\u00edvea Le\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Interpreta\u00e7\u00f5es e an\u00e1lises esquecidas em um aspecto fundamental\u00a0 Por: Matteo Bavassano \u00abDepois dos grandes poetas rom\u00e2nticos, os mais fortes opositores da ideia de conquista da natureza durante a revolu\u00e7\u00e3o industrial, foram Karl Marx e Friedrich Engels os fundadores do cl\u00e1ssico materialismo hist\u00f3rico\u00bb O objetivo desse artigo \u00e9 substancialmente o de chamar a aten\u00e7\u00e3o do leitor [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":79952,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[3766,3498,10],"tags":[9000,363],"class_list":["post-79951","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-meio-ambiente","category-crise-climatica-e-ambiental","category-teoria","tag-marxismo-e-meio-ambiente","tag-matteo-bavassano"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Clima-1.jpg","categories_names":["Crise clim\u00e1tica e ambiental","Meio Ambiente","TEORIA"],"author_info":{"name":"lena","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/b9eb35b4c023b96c29c4a145a82c6c381b68f2c889c5427106ad5aab6df45b9d?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79951","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=79951"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79951\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":79954,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79951\/revisions\/79954"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/79952"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=79951"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=79951"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=79951"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}