{"id":79805,"date":"2024-10-25T01:13:04","date_gmt":"2024-10-25T01:13:04","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=79805"},"modified":"2024-12-07T19:15:17","modified_gmt":"2024-12-07T19:15:17","slug":"a-crise-do-setor-automotivo-e-uma-metafora-do-capitalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2024\/10\/25\/a-crise-do-setor-automotivo-e-uma-metafora-do-capitalismo\/","title":{"rendered":"A crise do setor automotivo \u00e9 uma met\u00e1fora do capitalismo"},"content":{"rendered":"\n<p><em>O autom\u00f3vel, elevado pelo capitalismo a s\u00edmbolo da liberdade individual, foi por mais de um s\u00e9culo uma das mercadorias e, com certeza, uma das mais importantes a alterar o equil\u00edbrio de toda a produ\u00e7\u00e3o global considerando fatores tais como a rotatividade, trabalhadores envolvidos e influencias socioculturais ligadas \u00e0 sua utiliza\u00e7\u00e3o e \u00e0 sua venda. A ind\u00fastria automobil\u00edstica \u00e9 um paquiderme que, na economia capitalista, depende de in\u00fameros fatores estreitamente conectados entre si e que influenciam suas din\u00e2micas, assim, n\u00e3o deve surpreender que a crise que est\u00e1 afetando o setor, esteja repercutindo sobre a economia global e, do nosso ponto de vista, consequ\u00eancias nefastas para toda a classe trabalhadora.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: Roberto Tiberio (oper\u00e1rio da Stellantis<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>)<\/p>\n\n\n\n<p>Uma crise, essa da ind\u00fastria automobil\u00edstica, ligada, portanto, \u00e0s crises c\u00edclicas do modelo capitalista, mas neste caso tamb\u00e9m devido ao fato de que o setor est\u00e1 atravessando uma fase de transi\u00e7\u00e3o que historicamente n\u00e3o tem igual. Se por mais de um s\u00e9culo os carros foram movidos por motores endot\u00e9rmicos alimentados por subprodutos do petr\u00f3leo, se procura agora mudar para a mobilidade el\u00e9trica, oficial e midiaticamente com o objetivo de combater o avan\u00e7o das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas que est\u00e3o devastando o planeta. Se podemos considerar v\u00e1lida essa motiva\u00e7\u00e3o, a abordagem do problema n\u00e3o o \u00e9. Na verdade, deixar a gest\u00e3o da quest\u00e3o ambiental para empresas privadas e para o mercado que t\u00eam por objetivo, pela sua pr\u00f3pria natureza, exclusivamente o lucro, \u00e9 um contrassenso que n\u00e3o levar\u00e1 a nenhum benef\u00edcio para a coletividade: ser\u00e3o as classes oprimidas a pagar as consequ\u00eancias disso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A reestrutura\u00e7\u00e3o global do setor automotivo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A excessiva satura\u00e7\u00e3o do mercado nas d\u00e9cadas passadas, a \u00faltima pandemia, os conflitos que atrasaram o fornecimento de componentes e o aumento dos custos da energia que provocaram uma diminui\u00e7\u00e3o da taxa de lucro provocaram uma reorganiza\u00e7\u00e3o, por parte dos fabricantes, de todo o setor em n\u00edvel global para manter os lucros altos. Est\u00e1 em andamento, ent\u00e3o, uma concentra\u00e7\u00e3o das empresas automobil\u00edsticas em poucos grupos enormes, com o objetivo de otimizar as produ\u00e7\u00f5es, ou ainda, obter maiores lucros e serem competitivos em n\u00edvel mundial.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A \u201cotimiza\u00e7\u00e3o\u201d para os patr\u00f5es ocorre de v\u00e1rias formas. Uma delas \u00e9 exatamente a pol\u00edtica de aquisi\u00e7\u00e3o entre as marcas, que permite a elas compartilhar plataformas de ve\u00edculos e componentes, com a vantagem de poder utilizar menos estabelecimentos para a produ\u00e7\u00e3o e deslocar-se com maior agilidade para onde os custos s\u00e3o menores. Podem intervir com cortes massivos na for\u00e7a de trabalho, explorando cada vez mais a classe trabalhadora, sobrecarregada por ritmos de trabalho agora insuport\u00e1veis, e cortando custos acess\u00f3rios, fundamentais para a sa\u00fade e seguran\u00e7a dos trabalhadores, como por exemplo a gest\u00e3o da limpeza e dos sistemas de seguran\u00e7a nos locais de trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O quadro italiano<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O grupo Stellantis est\u00e1 implantando estes planos de maneira efetiva. A multinacional sob a dire\u00e7\u00e3o francesa caminha a todo vapor em um processo de desmantelamento na It\u00e1lia que, recordamos, tem as suas ra\u00edzes na era Marchionne, que com FCA (Fiat Chrysler Automobile) e o seu contrato separado havia tra\u00e7ado o percurso: agora Tavares [CEO da Stellantis] imprimiu uma nova e decisiva acelera\u00e7\u00e3o do processo de reestrutura\u00e7\u00e3o e desmantelamento das instala\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o na It\u00e1lia.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dados que emergem dos relat\u00f3rios peri\u00f3dicos s\u00e3o ilustrativos. O primeiro dado geral a destacar se relaciona com a queda brusca na produ\u00e7\u00e3o de autom\u00f3veis em rela\u00e7\u00e3o ao mesmo per\u00edodo do ano anterior: 23,8% a menos. Para esta queda contribu\u00edram todas as montadoras de autom\u00f3veis, com a Mirafiori e Melfi que reduziram \u00e0 metade a produ\u00e7\u00e3o e Cassino que registra uma queda de 40%. No polo de Turim o colapso produtivo da hist\u00f3rica f\u00e1brica de autom\u00f3veis deveu-se principalmente \u00e0 queda nos volumes do 500e [carro el\u00e9trico da Fiat], que contribuiu com 90% da diminui\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o. Acrescenta-se a isso, sempre em Turim, um corte dos modelos Maserati, transferidos para Mirafiori depois do fechamento de Grugliasco. Em compara\u00e7\u00e3o com o final de 2015, os trabalhadores da produ\u00e7\u00e3o no p\u00f3lo de Turim foram reduzidos praticamente \u00e0 metade, passando de 6.415 para 3.220, e com o acordo do final de mar\u00e7o foram assinados mais de 1.000 demiss\u00f5es, a maior parte de quadros dirigentes, mas com uma redu\u00e7\u00e3o de 300 trabalhadores tamb\u00e9m da oficina.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra f\u00e1brica em crise \u00e9 a de Cassino, na qual registrou uma queda de 40,7% em compara\u00e7\u00e3o com 2023 no primeiro trimestre, com apenas 8.540 unidades produtivas em um mesmo turno. Atualmente s\u00e3o tr\u00eas os modelos de produ\u00e7\u00e3o: a agonizante Alfa Romeo Giulia, Stelvio e Maserati Grecale. O impacto ocupacional foi devastador, com uma perda de mais de 1300 trabalhadores entre o fim de 2015 e hoje, aos quais se somar\u00e3o mais 820 demiss\u00f5es atrav\u00e9s de demiss\u00f5es incentivadas e assinadas no fim de mar\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>A terceira f\u00e1brica em ordem de criticidade \u00e9 a de Melfi, onde os volumes ca\u00edram pela metade em compara\u00e7\u00e3o ao mesmo per\u00edodo de 2023. A f\u00e1brica de Lucano tamb\u00e9m foi afetada pelo recurso massivo das demiss\u00f5es volunt\u00e1rias incentivadas, que desde 2021 provocou a sa\u00edda de 1600 funcion\u00e1rios, levando a ocupa\u00e7\u00e3o \u00e0 cifra de 5.570 trabalhadores e trabalhadoras e transferindo mais de 700 para Pomigliano. A f\u00e1brica da Camp\u00e2nia sobrevive de qualquer forma gra\u00e7as (por hora) \u00e0 produ\u00e7\u00e3o do Fiat Panda.<\/p>\n\n\n\n<p>A de Atessa, na qual s\u00e3o produzidos os ve\u00edculos comerciais leves, a festa de quarenta anos terminou com o corte de milhares de trabalhadores em <em>staff leasing<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\"><sup><strong><sup>[2]<\/sup><\/strong><\/sup><\/a><\/em> e a supress\u00e3o do turno noturno, mais o recurso \u00e0 caixa de integra\u00e7\u00e3o [complemento salarial pago pelo Estado] para 1500 funcion\u00e1rios. Seguindo o mantra da redu\u00e7\u00e3o de custos, n\u00e3o apenas a dire\u00e7\u00e3o da Stellantis perseguiu uma estrat\u00e9gia impiedosa de racionaliza\u00e7\u00e3o nas pr\u00f3prias instala\u00e7\u00f5es italianas, mas tamb\u00e9m est\u00e1 decidindo investir exatamente onde os custos s\u00e3o mais baixos. Que exista uma tend\u00eancia de transfer\u00eancia para o leste europeu e norte da \u00c1frica n\u00e3o \u00e9 uma novidade. Substancialmente a Stellantis na It\u00e1lia sobrevive apenas gra\u00e7as \u00e0s amortiza\u00e7\u00f5es sociais e se ainda n\u00e3o fecha as f\u00e1bricas \u00e9 apenas porque procura extorquir o m\u00e1ximo de dinheiro poss\u00edvel da coletividade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A situa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 grave na Europa<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As not\u00edcias recentes de uma poss\u00edvel fus\u00e3o entre Stellantis e o grupo Renault (desvincular-se da hist\u00f3rica parceria com a Nissan: ser\u00e1 um acaso?) poderia potencializar estas din\u00e2micas e deslocar definitivamente o centro de gravidade para a Fran\u00e7a e decretar definitivamente o fim da ind\u00fastria automobil\u00edstica italiana.<\/p>\n\n\n\n<p>A reestrutura\u00e7\u00e3o industrial global envolve tamb\u00e9m grupos considerados at\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s inatac\u00e1veis. \u00c9 o caso da Volkswagen que, segundo as palavras do CFO Arno Antlitz, (Diretor Financeiro do Grupo Volkswagen) identificou \u201cuma queda das vendas de 500 mil carros, o equivalente a duas f\u00e1bricas\u201d. No entanto, ningu\u00e9m entre os diretores alem\u00e3es assume a responsabilidade de escolhas estrat\u00e9gicas ruins e escandalosas, como o famoso \u201cdieselgate\u201d ou o ter feito \u201call-in\u201d<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> no carro el\u00e9trico, escolha que se revelou errada. E assim, pela primeira vez na sua hist\u00f3ria, o fechamento de f\u00e1bricas na Alemanha \u00e9 mais do que uma possibilidade, negando inclusive o pacto estipulado em 1994 com os sindicatos, para congelar as demiss\u00f5es at\u00e9 2029, com todas as consequ\u00eancias imagin\u00e1veis para a classe trabalhadora.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Unir as lutas contra o capitalismo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><a><\/a>Esta breve an\u00e1lise da ind\u00fastria automobil\u00edstica no ocidente (a influ\u00eancia da China e das pot\u00eancias emergentes merece um discurso \u00e0 parte) pode ajudar a identificar o inimigo da classe trabalhadora e encontrar as contramedidas necess\u00e1rias. A luta \u00e9 contra um inimigo global que se move indiscriminadamente para conseguir os maiores lucros, sem barreiras. Para combat\u00ea-lo a \u00fanica possibilidade \u00e9 a de unir os trabalhadores do mundo todo contra a tirania do capital, superando as lutas internas entre dire\u00e7\u00f5es sindicais oportunistas, sect\u00e1rias e c\u00famplices dos patr\u00f5es, e nos libertar do capitalismo.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Stellantis \u00e9 um conglomerado automotivo franco-\u00edtalo-estadunidense criado pela fus\u00e3o da montadora multinacional Fiat Chryler Automotive (FCA) com a montadora francesa PSA Group. Projeta, fabrica e vende cerca de 15 marcas.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> <em>Staff leasing<\/em> s\u00e3o empresas de RH contratadas por empresas maiores para contratar trabalhadores em car\u00e1ter tempor\u00e1rio ou permanente, geralmente em situa\u00e7\u00e3o de precariza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> Termo ingl\u00eas que se refere a um jogador que aposta tudo o que tem numa s\u00f3 jogada.<\/p>\n\n\n\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: N\u00edvia Le\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O autom\u00f3vel, elevado pelo capitalismo a s\u00edmbolo da liberdade individual, foi por mais de um s\u00e9culo uma das mercadorias e, com certeza, uma das mais importantes a alterar o equil\u00edbrio de toda a produ\u00e7\u00e3o global considerando fatores tais como a rotatividade, trabalhadores envolvidos e influencias socioculturais ligadas \u00e0 sua utiliza\u00e7\u00e3o e \u00e0 sua venda. 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