{"id":79621,"date":"2024-09-26T22:33:35","date_gmt":"2024-09-26T22:33:35","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=79621"},"modified":"2024-09-26T22:33:37","modified_gmt":"2024-09-26T22:33:37","slug":"e-hora-da-vergonha-mudar-de-lado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2024\/09\/26\/e-hora-da-vergonha-mudar-de-lado\/","title":{"rendered":"\u00c9 hora da vergonha mudar de lado!"},"content":{"rendered":"\n<p><em>M\u00e3e, voc\u00ea j\u00e1 ouviu falar sobre o &#8220;51 na Fran\u00e7a&#8221;? \u00c9 horr\u00edvel, m\u00e3e! N\u00e3o, filha, do que voc\u00ea est\u00e1 falando? \u00c9 ent\u00e3o, que uma r\u00e1pida pesquisa no Google me bate na cara e uma avalanche de indigna\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m, evidente, vergonha, sacode meu corpo. Vergonha por ela, por mim e por todas as mulheres. A realidade volta a ser mais dura do que a fic\u00e7\u00e3o, por mais distorcida que possa ser. Por muitos &#8220;avan\u00e7os e conquistas&#8221; que, segundo nos dizem, alcan\u00e7amos na Europa civilizada e democr\u00e1tica, a crua realidade nos lembra que, para alguns homens, ainda somos &#8220;sua&#8221; propriedade. E o pior: eles n\u00e3o est\u00e3o sozinhos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: Laura R. \u2013 Corriente Roja<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Os fatos: &#8220;Estupro n\u00e3o \u00e9 a palavra, \u00e9 barb\u00e1rie<\/strong>&#8220;<\/p>\n\n\n\n<p>Gis\u00e8le, de 67 anos, moradora da cidade de Mazan, no sudeste da Fran\u00e7a, foi repetidamente estuprada por mais de 50 homens ao longo de 10 anos, durante os quais seu marido Dominique P\u00e9licot, um aposentado de 71 anos, ofereceu os &#8220;servi\u00e7os sexuais de uma esposa son\u00e2mbula e obediente&#8221;, em um site que foi fechado pela pol\u00edcia francesa em junho deste ano. Um portal da web que, entre outras coisas, servia a uma rede que j\u00e1 havia sido desmantelada por distribui\u00e7\u00e3o de pornografia infantil, por meio do servi\u00e7o de mensagens WhatsApp, que se estendia a oito pa\u00edses da Europa e Am\u00e9rica.<\/p>\n\n\n\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao caso, que est\u00e1 sendo julgado em Avignon, embora as autoridades tenham identificado 51 agressores, que agora est\u00e3o no banco dos r\u00e9us por um crime de estupro agravado pun\u00edvel com at\u00e9 20 anos de pris\u00e3o, suspeita-se que o n\u00famero possa subir para 83. Noventa e duas viola\u00e7\u00f5es entre outubro de 2020 e julho de 2011. V\u00e1rios dos agressores est\u00e3o mortos e um est\u00e1 foragido, de acordo com o jornal <em>Le Parisien<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>A v\u00edtima, que se recusou a assistir aos v\u00eddeos dos estupros at\u00e9 maio de 2024, viveu pela primeira vez, depois de adiar, os estupros que sofreu por dez anos. Nada poderia definir melhor do que suas pr\u00f3prias palavras, o que ela foi obrigada a ver: <em>&#8220;Estupro n\u00e3o \u00e9 a palavra, \u00e9 barb\u00e1rie&#8221;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Como resultado desses abusos e da ingest\u00e3o de drogas administradas a ela durante anos pelo marido, que tamb\u00e9m poderia estar envolvido em outros casos de estupro e at\u00e9 mesmo em um assassinato em 1991, Gis\u00e8le sofria de lapsos mentais, um grande cansa\u00e7o que ela n\u00e3o conseguia explicar e mol\u00e9stias que provocaram v\u00e1rias visitas ao ginecologista.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Um sistema que coisifica e mercantiliza o corpo das mulheres<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Queremos enviar todo o nosso apoio e solidariedade a esta corajosa mulher, que apesar de sofrer de estresse traum\u00e1tico devido ao ocorrido, decidiu junto com seus tr\u00eas filhos, testemunhar a portas abertas em um julgamento que, com toda a probabilidade, durar\u00e1 meses. Como ela mesma declarou perante o Tribunal Penal de Vaucluse, no sudeste da Fran\u00e7a:<em> &#8220;Para mim, o dano j\u00e1 foi feito. Fa\u00e7o isso em nome de todas as mulheres que talvez nunca ser\u00e3o reconhecidas como v\u00edtimas.&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m do horror e da rejei\u00e7\u00e3o que provoca, este caso \u00e9 mais um exemplo de que vivemos em uma ordem social e pol\u00edtica baseada no controle e na opress\u00e3o das mulheres. Isso \u00e9 o que algumas feministas chamam de &#8220;cultura do estupro&#8221;, na qual mais da metade das agress\u00f5es sexuais, que nem sempre s\u00e3o t\u00e3o f\u00e1ceis de provar como neste caso, s\u00e3o realizadas no ambiente social, familiar ou de trabalho da v\u00edtima. E a maioria delas n\u00e3o \u00e9 denunciada; seja por medo ou vergonha. \u00c9 nesse clima de impunidade que alguns desses predadores sexuais confiam para cometerem seus atos. Por outro lado, a ind\u00fastria do sexo e do entretenimento deste sistema capitalista cada vez mais violento e opressor, objetifica, sexualiza e mercantiliza nossos corpos, especialmente o das mulheres, a tal ponto que elas se tornam apenas mais um objeto, pronto para o consumo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>S\u00f3 Sim \u00e9 Sim, o resto \u00e9 estupro<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Dos 51 homens que foram convocados no julgamento de Avignon, alguns defendem ter sido enganados por Dominique P\u00e9licot e afirmam que acreditavam que era um &#8220;del\u00edrio libertino&#8221; do casal. Outros disseram que n\u00e3o acreditavam que fosse estupro, &#8220;porque o marido dela estava l\u00e1 e acreditavam que ele poderia dar consentimento por ambos&#8221;. At\u00e9 agora, apenas 14 se declararam culpados.<\/p>\n\n\n\n<p>Este julgamento, que chocou a sociedade francesa que coloca a quest\u00e3o do consentimento no centro, est\u00e1 ocorrendo em um momento de ascens\u00e3o eleitoral da extrema direita e em um contexto de revis\u00e3o da lei que regula os crimes sexuais na Fran\u00e7a. Fala-se de um &#8220;julgamento hist\u00f3rico&#8221;, que seria considerado o caso de estupro mais grave j\u00e1 julgado na Fran\u00e7a. Deve-se lembrar que o estupro \u00e9 atualmente definido na lei francesa como um &#8220;ato de penetra\u00e7\u00e3o sexual&#8221; cometido &#8220;por viol\u00eancia, coer\u00e7\u00e3o, amea\u00e7a ou surpresa&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Fran\u00e7a, como em outras partes do mundo, devemos sair e lutar para mudar a lei que define e pune as agress\u00f5es sexuais, para que fique n\u00edtido que sexo sem consentimento \u00e9 estupro. Que esse consentimento pode ser retirado a qualquer momento e que n\u00e3o pode haver consentimento se a agress\u00e3o sexual for cometida &#8220;abusando de um estado que impede o julgamento do outro&#8221;, como ocorre em submiss\u00f5es qu\u00edmicas cada vez mais frequentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Espanha, a Lei Integral para Garantir a Liberdade Sexual, mais conhecida como Lei &#8220;S\u00f3 Sim \u00e9 Sim&#8221;, entrou em vigor em outubro de 2022, gra\u00e7as a uma luta nas ruas que durou cinco longos anos. Uma lei que tem muitas defici\u00eancias e lacunas. Entre outros, que toda a parte n\u00e3o criminal da lei, para realizar tarefas de preven\u00e7\u00e3o e educa\u00e7\u00e3o sexual nas escolas, precisa de recursos econ\u00f4micos que ainda n\u00e3o foram dotados.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar disso, n\u00f3s da Corriente Roja a defendemos contra a tentativa da direita e da ultradireita de revog\u00e1-la, porque foi uma conquista arrancada nas ruas, que coloca o consentimento no centro, para provar que houve agress\u00e3o sexual.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas isso n\u00e3o pode nos fazer esquecer que nenhuma lei pode acabar com a viol\u00eancia sexual neste sistema de opress\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o. A viol\u00eancia sexual \u00e9 um problema estrutural complexo que precisa ser abordado de v\u00e1rias maneiras. Atualmente esta Lei continua n\u00e3o sendo garantia de nada, porque as leis em favor da classe trabalhadora e dos setores oprimidos neste sistema capitalista, tornam-se letra morta se n\u00e3o continuarmos lutando para torn\u00e1-las efetivas e, acima de tudo, elas est\u00e3o sempre amea\u00e7adas enquanto o capitalismo existir.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio ressaltar que a experi\u00eancia mostra que sob a democracia burguesa, onde a separa\u00e7\u00e3o de poderes \u00e9 na realidade uma fic\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 suficiente mudar as leis. O sistema judicial em todos os pa\u00edses est\u00e1 cheio de ju\u00edzes machistas que muitas vezes revitimizam as mulheres quando se atrevem a denunciar e que aplicam um crit\u00e9rio muito diferente dependendo da classe social a qual a pessoa em julgamento pertence.<\/p>\n\n\n\n<p>Um exemplo \u00e9 o que aconteceu nos primeiros meses ap\u00f3s a aprova\u00e7\u00e3o da Lei S\u00f3 Sim \u00e9 Sim, em que alguns ju\u00edzes interpretaram e aplicaram alguns de seus artigos de forma arbitr\u00e1ria, para reduzir as penas j\u00e1 impostas a agressores sexuais e ped\u00f3filos. Na Fran\u00e7a, os advogados de defesa desses estupradores descrevem as imagens como &#8220;rela\u00e7\u00f5es sexuais&#8221; e n\u00e3o estupros, e questionaram a v\u00edtima sobre suas &#8220;prefer\u00eancias e pr\u00e1ticas sexuais&#8221;, embora as imagens duras falem por si.<\/p>\n\n\n\n<p>Obter mais recursos para combater a viol\u00eancia sexual e todas as formas de viol\u00eancia contra as mulheres e setores oprimidos, como migrantes ou pessoas LGTBI, n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o para as mulheres, nem apenas para a juventude, mas para a classe trabalhadora como um todo. Temos que nos organizar para que as organiza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias, come\u00e7ando pelos sindicatos, as tomem como parte da lista de suas demandas e reivindica\u00e7\u00f5es e coloquem toda a classe trabalhadora, com os setores oprimidos na vanguarda, para lutar por elas.<\/p>\n\n\n\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: L\u00edlian Enck<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00e3e, voc\u00ea j\u00e1 ouviu falar sobre o &#8220;51 na Fran\u00e7a&#8221;? \u00c9 horr\u00edvel, m\u00e3e! N\u00e3o, filha, do que voc\u00ea est\u00e1 falando? \u00c9 ent\u00e3o, que uma r\u00e1pida pesquisa no Google me bate na cara e uma avalanche de indigna\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m, evidente, vergonha, sacode meu corpo. Vergonha por ela, por mim e por todas as mulheres. 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