{"id":79607,"date":"2024-09-25T12:44:09","date_gmt":"2024-09-25T12:44:09","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=79607"},"modified":"2024-09-27T00:28:58","modified_gmt":"2024-09-27T00:28:58","slug":"51-anos-apos-o-golpe-e-preciso-sair-do-eclipse","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2024\/09\/25\/51-anos-apos-o-golpe-e-preciso-sair-do-eclipse\/","title":{"rendered":"Chile | 51 anos ap\u00f3s o golpe: \u00e9 preciso sair do eclipse"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Quando falamos de Unidade Popular e do golpe militar de 1973, uma imagem vem \u00e0 mente: La Moneda em chamas e Allende combatendo. Por cinco d\u00e9cadas esta foi a imagem que eclipsou todas as outras daquele per\u00edodo, a figura de Allende se ergue imensamente no meio do Pante\u00e3o de her\u00f3is de nossa hist\u00f3ria, eclipsando at\u00e9 mesmo seu governo, o governo da Unidade Popular, aquele governo formado pelo PC e (Partido Comunista) pelo PS (Partido Socialista) do qual cada vez menos se conhece hoje. Qual foi o seu programa, quais foram as suas propostas, o que significou seu governo para esse imenso n\u00famero de trabalhadores que colocaram sua convic\u00e7\u00e3o, seu trabalho, sua energia e sua luta cotidiana para levar a cabo este processo? Para a maioria, embora isso seja importante, \u00e9 absolutamente secund\u00e1rio ante a imola\u00e7\u00e3o de Allende.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: Christian Leiva<\/p>\n\n\n\n<p>O golpe de 1973 nos deixou amn\u00e9sicos como classe, tivemos que esquecer de forma traum\u00e1tica, esquecer a pancadas aquele per\u00edodo, esquecer aquela fa\u00e7anha em que pessoas como voc\u00ea foram protagonistas de uma hist\u00f3ria de mudan\u00e7as. Nesse vazio era natural que a figura de Allende no La Moneda atingisse o mais alto n\u00edvel de dignidade, era puro sentimento, era raiva, era admira\u00e7\u00e3o pelo significado. Os discursos de Allende apenas refor\u00e7aram essa imagem. Dos v\u00eddeos e anos de dist\u00e2ncia, Allende nos encantou com sua palavra, como deve ter encantado os milh\u00f5es que viram nele aquele que os levaria ao reino da igualdade, ao socialismo. Allende eclipsa seu tempo e, acima de tudo, eclipsa um povo, o povo chileno que realizou uma das maiores fa\u00e7anhas de nossa hist\u00f3ria, uma fa\u00e7anha de milh\u00f5es que caminhavam para o socialismo. Mas n\u00e3o por um &#8220;caminho pac\u00edfico&#8221;. Porque os patr\u00f5es estavam atacando o povo trabalhador e campon\u00eas com tudo, matando-os de fome com a escassez, tornando sua exist\u00eancia ainda mais miser\u00e1vel. As greves patronais foram a principal arma da burguesia, mas n\u00e3o era o governo que o empresariado estava cercando pela fome, era o povo.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesta revista, queremos somar-nos aos esfor\u00e7os de muitos historiadores que procuraram trazer \u00e0 luz a hist\u00f3ria dessa fa\u00e7anha eclipsada, a do trabalhador e da trabalhadora que tinham consci\u00eancia de serem explorados\/as e de quem os\/as explorava. Anos de luta deram frutos, homens e mulheres que deram o seu melhor na luta de classes frontal que ocorreu em 1973. Sustentamos hoje que essa fa\u00e7anha foi uma Revolu\u00e7\u00e3o, uma verdadeira Revolu\u00e7\u00e3o feita por nossos pais, m\u00e3es, av\u00f3s e av\u00f4s. Essa \u00e9 a hist\u00f3ria que queremos tirar detr\u00e1s do eclipse. Em 1973, por detr\u00e1s de Allende em La Moneda, estavam sendo massacradas as mulheres e homens que haviam realizado um dos maiores processos revolucion\u00e1rios de nossa hist\u00f3ria, absolutamente invis\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p>Os Cord\u00f5es Industriais, os JAP- Juntas de Abastecimento e Controle de Pre\u00e7os-, os Comandos Populares. A classe estava fervilhando de organiza\u00e7\u00f5es que faziam o m\u00e1ximo esfor\u00e7o para aliviar de forma organizada a car\u00eancia a que a burguesia os sujeitava. Mercados Populares, autoabastecimento, ocupa\u00e7\u00f5es de terras agr\u00edcolas para abastecer as cidades, requisi\u00e7\u00f5es e controle oper\u00e1rio de centenas de f\u00e1bricas que mudavam sua produ\u00e7\u00e3o para atender \u00e0s necessidades do povo em meio \u00e0 escassez e \u00e0 pobreza, eram apenas algumas das caracter\u00edsticas dessas organiza\u00e7\u00f5es. Organiza\u00e7\u00f5es com um objetivo, o fim da explora\u00e7\u00e3o dos patr\u00f5es para que as riquezas naturais e os frutos do trabalho fossem em benef\u00edcio de todos.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse processo revolucion\u00e1rio, que teve seu auge e seu fim em 1973, come\u00e7ou muito antes.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas d\u00e9cadas anteriores, a situa\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora era muito diferente do que \u00e9 hoje para n\u00f3s. Os produtos eram escassos e caros, a maioria deles n\u00e3o tinha muitas das condi\u00e7\u00f5es que hoje parecem m\u00ednimas, faltavam roupas, sapatos, combust\u00edvel, calefa\u00e7\u00e3o. Embora os patr\u00f5es tivessem soltado a correia e as condi\u00e7\u00f5es de trabalho n\u00e3o fossem as do in\u00edcio do s\u00e9culo, continuava a explora\u00e7\u00e3o nos locais de trabalho e os sal\u00e1rios eram miser\u00e1veis. Clotario Blest foi fundamental na cria\u00e7\u00e3o da Central \u00danica de Trabalhadores em 1952, cujos princ\u00edpios indicavam <em>&#8220;o atual regime capitalista, fundado na propriedade privada da terra, dos instrumentos e meios de produ\u00e7\u00e3o e na explora\u00e7\u00e3o do homem pelo homem, que divide a sociedade em classes antag\u00f4nicas, explorados e exploradores,&nbsp; deve ser substitu\u00eddo por um regime econ\u00f4mico-social que liquide a propriedade privada at\u00e9 chegar a uma sociedade sem classes, na qual o homem e a humanidade tenham assegurado seu pleno desenvolvimento&#8221;.<\/em><a href=\"https:\/\/www.vozdelostrabajadores.cl\/a-51-anos-del-golpe-es-necesario-salir-del-eclipse#sdfootnote1sym\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><em><sup>1<\/sup><\/em><\/a><em><sup><\/sup><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Diante da escassez insustent\u00e1vel, em 1955, a CUT convoca e organiza, num processo ascendente de manifesta\u00e7\u00f5es e concentra\u00e7\u00f5es, uma Greve Geral Indefinida que come\u00e7a em 7 de julho, que paralisa todo o Chile e tem mais de um milh\u00e3o de trabalhadores em greve em todo o pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1957, diante dos aumentos, ocorre uma nova explos\u00e3o social, que come\u00e7a em Valpara\u00edso em 27 de mar\u00e7o. As barricadas iluminam o porto e o movimento \u00e9 fortemente reprimido pela pol\u00edcia com cargas de fuzil, a CUT de Clotario convoca uma Greve Nacional para os dias 2 e 3 de abril. Diante das manifesta\u00e7\u00f5es massivas que ocupam a capital nesses dias, o governo declara estado de s\u00edtio e o aparato repressivo atira para matar a multid\u00e3o desarmada nos dias conhecidos como &#8220;Batalha de Santiago&#8221; com o resultado de mais de 18 mortos e 500 feridos segundo dados oficiais.<\/p>\n\n\n\n<p>A raiva se acumulava no Chile e no continente. No mundo, mais de um ter\u00e7o da humanidade funcionava fora da \u00f3rbita capitalista. Em 1959, o triunfo da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana abre uma nova etapa na Am\u00e9rica como uma onda que sacode a vanguarda do continente.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1960, ap\u00f3s combativas greves de oper\u00e1rios, entre as quais se destaca a &#8220;Longa Greve&#8221; do Carv\u00e3o em Lota, as ocupa\u00e7\u00f5es de terras agr\u00edcolas no sul e as ocupa\u00e7\u00f5es urbanas dos sem-teto, o ano termina com uma grande manifesta\u00e7\u00e3o na Alameda em 2 e 3 de novembro, onde Clotario Blest se dirige \u00e0 multid\u00e3o dizendo <em>&#8220;A classe trabalhadora deve acordar dessa letargia &#8230;&nbsp;para se levantar em armas e derrubar o governo&#8221;.<\/em><a href=\"https:\/\/www.vozdelostrabajadores.cl\/a-51-anos-del-golpe-es-necesario-salir-del-eclipse#sdfootnote2sym\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><sup>2<\/sup><\/a> A manifesta\u00e7\u00e3o \u00e9 violentamente reprimida, o que causa a morte de dois trabalhadores e a CUT convoca uma greve para o dia 7 de novembro, dia do enterro dos mortos. Enquanto Clotario insiste na necessidade de manter a greve, o restante da dire\u00e7\u00e3o da CUT, nas m\u00e3os de socialistas e comunistas, reduz a paralisa\u00e7\u00e3o sem condi\u00e7\u00f5es, enquanto o povo permanece nas ruas protestando. A CUT abandona a luta em um momento de ascenso. Clotario Blest, importante l\u00edder do processo, \u00e9 preso.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante de um crescente movimento social e para evitar que a situa\u00e7\u00e3o sa\u00edsse do controle, em 1965 Eduardo Frei, candidato \u00e0 presid\u00eancia da Democracia Crist\u00e3, oferece a Revolu\u00e7\u00e3o em Liberdade. A maioria acredita que as defici\u00eancias e a necessidade de justi\u00e7a social podem ser resolvidas, em favor daqueles que n\u00e3o tinham nada, pelos democratas-crist\u00e3os e votam em Frei como presidente. O governo Frei, formado por alguns empres\u00e1rios conhecidos, assume a tarefa de realizar reformas t\u00edmidas que n\u00e3o aliviam de forma alguma a situa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores. A calma em que o movimento de massas havia ca\u00eddo rapidamente come\u00e7a a desaparecer e as mobiliza\u00e7\u00f5es s\u00e3o retomadas em 1966. As ocupa\u00e7\u00f5es de terras, f\u00e1bricas e greves davam conta da crescente agita\u00e7\u00e3o da classe popular.<\/p>\n\n\n\n<p>Em janeiro de 1966, ocorre o primeiro evento que marca a trai\u00e7\u00e3o. A m\u00e3o de Frei n\u00e3o treme para ordenar a demiss\u00e3o de mineiros em greve em El Salvador, massacrando e assassinando para defender os interesses das mineradoras norte-americanas com as quais negociava a &#8220;chileniza\u00e7\u00e3o da minera\u00e7\u00e3o&#8221;. As greves em El Salvador foram uma pedra no sapato muito irritante e ele se livra dela com viol\u00eancia desmedida.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;<em>O renascimento das lutas oper\u00e1rias de 1966 foi transformado em 1967 em um n\u00edtido ascenso, tanto quantitativo quanto qualitativo, expresso em novas formas de luta. De 723 greves em 1965 para 1.142 em 1967, lutas que culminaram na Greve Geral de 3 de novembro de 1967.&#8221;<\/em><a href=\"https:\/\/www.vozdelostrabajadores.cl\/a-51-anos-del-golpe-es-necesario-salir-del-eclipse#sdfootnote3sym\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><em><sup>3<\/sup><\/em><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>O massacre em Puerto Montt pelo uso da for\u00e7a p\u00fablica no despejo de uma ocupa\u00e7\u00e3o, registrada sob o governo Frei, p\u00f4s fim \u00e0s esperan\u00e7as de mudan\u00e7a depositadas na Democracia Crist\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1970, as mobiliza\u00e7\u00f5es s\u00e3o novamente canalizadas para a via eleitoral. Comit\u00eas populares s\u00e3o criados em todas as cidades para promover a elei\u00e7\u00e3o do candidato de uma coaliz\u00e3o governamental formada pelo Partido Comunista, o Partido Socialista e o Mapu: a Unidade Popular. Seu candidato, Salvador Allende, fala nas f\u00e1bricas diante de trabalhadores e patr\u00f5es, sobre a expropria\u00e7\u00e3o das ind\u00fastrias que ser\u00e3o realizadas em seu governo; seu programa fala de uma nova Constitui\u00e7\u00e3o e que os trabalhadores ser\u00e3o levados ao poder atrav\u00e9s do exerc\u00edcio de um conceito um tanto indefinido chamado &#8220;poder popular&#8221; e que &#8220;<em>o uso das For\u00e7as Armadas para oprimir o povo ser\u00e1 rejeitado<\/em>&#8220;.<a href=\"https:\/\/www.vozdelostrabajadores.cl\/a-51-anos-del-golpe-es-necesario-salir-del-eclipse#sdfootnote4sym\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><sup>4<\/sup><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s o recente uso da for\u00e7a demonstrado por Frei, essas promessas de campanha eram promessas sentidas. A consci\u00eancia de classe dos trabalhadores era alta e Allende &nbsp;lhes falava em sua l\u00edngua.<\/p>\n\n\n\n<p>Allende tamb\u00e9m n\u00e3o era um pol\u00edtico qualquer. Realizou uma s\u00e9rie de reformas ben\u00e9ficas, promoveu a nacionaliza\u00e7\u00e3o do cobre, nacionalizou empresas estrat\u00e9gicas fazendo o que nenhum outro presidente chileno fez, afetando o capital estrangeiro e nacionalizando a ind\u00fastria; medidas que o colocam muito longe daqueles que hoje se dizem socialistas ou dos governantes que fingem ser seus \u00eamulos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas nenhuma, absolutamente nenhuma dessas medidas progressistas poderia ter sido realizada sem o imenso apoio do povo. O povo em luta, a classe trabalhadora, as imensas massas mobilizadas o ergueram em sua lideran\u00e7a e pressionaram fortemente pelo cumprimento do Programa de Unidade Popular.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem essa mobiliza\u00e7\u00e3o massiva como pano de fundo, \u00e9 incompreens\u00edvel que at\u00e9 mesmo a direita tenha votado no Congresso pela nacionaliza\u00e7\u00e3o do cobre. N\u00f3s, que vivemos o processo de outubro de 2019, sabemos que o voto dos not\u00e1veis muda muito diante da press\u00e3o das massas.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem esse imenso apoio, Allende n\u00e3o poderia ter feito o que fez. Al\u00e9m disso, esse mesmo apoio popular superou Allende, que queria continuar se movendo dentro das margens cada vez mais estreitas impostas a ele pelo sistema capitalista. As massas, como uma onda gigantesca e tempestuosa, amea\u00e7avam transbordar. A m\u00eddia de direita fazia sentir o verdadeiro terror que tinham dessa imensa massa mobilizada. Os oper\u00e1rios se enfrentavam com os patr\u00f5es e suas gangues armadas para passar suas f\u00e1bricas para o controle do Estado. Houve in\u00fameras greves e sacrif\u00edcios para que a nacionaliza\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria acontecesse.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto isso, os partidos socialistas e comunistas discutiam como esse &#8220;poder popular&#8221; poderia ser interpretado e definiam que o que quer que fosse, deveria ser submetido \u00e0s institui\u00e7\u00f5es burguesas. Nos bairros pobres, nos campos e nas f\u00e1bricas, milhares inventaram na pr\u00e1tica o que era o &#8220;poder popular&#8221;, muitas vezes agindo por necessidade, tentando se antecipar ao ataque a que estavam sendo submetidos. Como veremos, o surgimento dos Cord\u00f5es Industriais marcou um ponto qualitativo na capacidade organizacional dos trabalhadores.<\/p>\n\n\n\n<p>A direita fez seu chicote ser sentido e parou a produ\u00e7\u00e3o. Milh\u00f5es se mobilizaram para se abastecer com o que a burguesia lhes negava. O dinheiro americano corria para parar os caminh\u00f5es que bloqueavam as rotas de abastecimento para as cidades. As pessoas comuns se organizaram e resistiram organizadas. A m\u00e1quina do Estado foi colocada a servi\u00e7o do povo. Enquanto durou o perigo, o povo avan\u00e7ou no autoabastecimento, na produ\u00e7\u00e3o para as necessidades, na mobiliza\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de alimentos por meio da organiza\u00e7\u00e3o popular, em um processo vivo em forma\u00e7\u00e3o acelerada.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando o perigo passa, Allende recua e entrega o controle da situa\u00e7\u00e3o \u00e0s For\u00e7as Armadas, colocando-as em uma posi\u00e7\u00e3o que mais tarde seria a ru\u00edna do processo. Por outro lado, ele ordenou que as f\u00e1bricas ocupadas fossem devolvidas a todos os empres\u00e1rios que as tinham paralisado para derrubar o governo. A classe trabalhadora n\u00e3o o entendeu.<\/p>\n\n\n\n<p>Allende avan\u00e7ava movido pelo perigo e pela mobiliza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria. Passado o perigo, ele recuaria e voltaria ao curral da institucionalidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante de cada manobra de desestabiliza\u00e7\u00e3o por parte da burguesia, o povo sa\u00eda para defender o processo revolucion\u00e1rio que estava realizando e o governo Allende, entendendo que eram o mesmo. Diante do Tanquetazo, uma tentativa de golpe militar, Allende convoca os trabalhadores a tomar as f\u00e1bricas, para defender o governo. O povo ter\u00e1 armas! ele prometeu na \u00e9poca. Os trabalhadores armados apenas com paus tomaram as f\u00e1bricas e esperaram para enfrentar o ex\u00e9rcito golpista com armas que nunca chegaram.<\/p>\n\n\n\n<p>Terminado o perigo de um golpe, Allende colocou as For\u00e7as Armadas em uma posi\u00e7\u00e3o ainda mais alta em seu gabinete; o c\u00edrculo se fechava. Allende novamente ordenou que as f\u00e1bricas fossem devolvidas. Chega ao extremo de reprimir uma mobiliza\u00e7\u00e3o dos Cord\u00f5es Industriais, lembrando-lhes que a organiza\u00e7\u00e3o popular deve ir detr\u00e1s de seu governo, quebrando a promessa de que as For\u00e7as Armadas n\u00e3o seriam utilizadas para &#8220;oprimir o povo&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>No Congresso, \u00e9 aprovada a Lei de Controle de Armas, uma lei feita sob medida para come\u00e7ar a desmantelar o andaime do movimento revolucion\u00e1rio que apoiava Allende. De sua posi\u00e7\u00e3o elevada, as For\u00e7as Armadas: o Ex\u00e9rcito, a Marinha e a For\u00e7a A\u00e9rea come\u00e7am a reprimir as f\u00e1bricas dos Cord\u00f5es industriais e os bairros mais organizados e revolucion\u00e1rios. A repress\u00e3o da \u00e9poca, ante a qual o governo Allende nada disse, foi limpando a pra\u00e7a antes do golpe. Enquanto isso, Allende e o coro grego do Partido Comunista e Socialista faziam rever\u00eancias ao esp\u00edrito democr\u00e1tico do qual as For\u00e7as Armadas manifestavam.<\/p>\n\n\n\n<p>Seis dias antes do golpe, os Cord\u00f5es Industriais fazem um apelo desesperado a Allende para deixar de lado a institucionalidade e liderar a Revolu\u00e7\u00e3o pela qual o povo lutava at\u00e9 a vit\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez a carta nunca tenha chegado \u00e0s m\u00e3os de Allende.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqueles que foram eliminados e varridos da face da terra pela ditadura militar foram os seres humanos que encarnaram a luta popular de d\u00e9cadas no Chile, talvez de toda a vida. Os mais organizados, milhares, milh\u00f5es que enfrentaram a parte mais dura da luta de classes, em meio \u00e0s contradi\u00e7\u00f5es, em meio \u00e0 repress\u00e3o, em meio \u00e0 escassez cr\u00f4nica a que foram submetidos, continuaram a sentir como pr\u00f3prio o governo de Allende, que os manteve atados \u00e0 institucionalidade que acabou por devor\u00e1-los.<\/p>\n\n\n\n<p>Para tirar esse processo do eclipse, deve se colocar Allende em sua verdadeira altura, deve-se desc\u00ea-lo do pedestal do mito. O governo Allende foi um governo que tomou medidas anti-imperialistas, que lutou para recuperar as riquezas naturais para o pa\u00eds, mas nem as empresas estatizadas ou nacionalizadas, nem mesmo as mais estrat\u00e9gicas, nunca deixaram de funcionar como uma empresa capitalista. O governo sempre concebeu que a \u00fanica participa\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora nas empresas estatais era produzir mais e melhor, a chamada batalha da produ\u00e7\u00e3o. Durante o processo, os trabalhadores e trabalhadoras conquistaram o direito de controlar as f\u00e1bricas por si mesmos, n\u00e3o lhes foi concedido pela gra\u00e7a. Allende sempre permaneceu dentro das margens do Estado capitalista. Quando a multid\u00e3o que o colocou na lideran\u00e7a gritou para que ele sa\u00edsse do c\u00edrculo e os levasse \u00e0 vit\u00f3ria, Allende n\u00e3o o fez. Assim, os mais belos frutos do processo revolucion\u00e1rio chileno foram levados ao altar do sacrif\u00edcio, absolutamente desarmados: os seres humanos que foram a vanguarda desse movimento.<\/p>\n\n\n\n<p>O resultado dessa derrota \u00e9 o sistema em que vivemos hoje, em meio \u00e0 pilhagem das riquezas, \u00e0 custa da nossa sa\u00fade e da destrui\u00e7\u00e3o da terra, do envenenamento das \u00e1guas e do esvaziamento dos mares. Explora\u00e7\u00e3o, escassez e desemprego.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas aqui estamos n\u00f3s de novo. A classe trabalhadora, mulheres e homens lutadores, em um novo ciclo que come\u00e7a onde termina o anterior. Com multid\u00f5es que treinaram nos anos 80 em meio ao perigo da ditadura, com a maioria se iludindo com a promessa de democracia da Concertaci\u00f3n. Este processo \u00e9 o dos 30 anos e principalmente o dos 30 pesos. O da explos\u00e3o social. Testemunhamos a beleza das pessoas mobilizadas, agitadas, organizando-se.<\/p>\n\n\n\n<p>O processo que culminou em 73 nem sempre foi ascendente, teve seus altos e baixos, suas derrotas parciais, seus momentos de calma, seus momentos de se deixar levar pela institucionalidade, seus momentos de trai\u00e7\u00e3o \u00e0s esperan\u00e7as eleitorais da maioria, tal &nbsp;como acontece hoje. Se conseguirmos ver isso a m\u00e9dio prazo, poderemos ver o processo de ascenso como algo vivo que leva anos, d\u00e9cadas de forma\u00e7\u00e3o, amadurecimento, experi\u00eancia. Com avan\u00e7os e retrocessos.<\/p>\n\n\n\n<p>Devemos aprender com outubro de 2019, que nos mostrou que <em>&#8220;as revolu\u00e7\u00f5es s\u00e3o imposs\u00edveis at\u00e9 que se tornem inevit\u00e1veis&#8221;, <\/em>como dizia Leon Trotsky.<\/p>\n\n\n\n<p>Devemos come\u00e7ar a aprender com nossa hist\u00f3ria, os fatos insistentemente nos mostram; Qualquer confian\u00e7a nas institui\u00e7\u00f5es burguesas sempre nos levar\u00e1 \u00e0 derrota.<\/p>\n\n\n\n<p>Ficou registrado em entrevistas, jornais, document\u00e1rios, que a base do movimento revolucion\u00e1rio dos anos 70 era composta por militantes de diferentes partidos: comunistas, socialistas, miristas, trotskistas, mao\u00edstas, mapu\u00edstas, esquerda crist\u00e3 e at\u00e9 alguns democratas-crist\u00e3os, partido oposto ao governo Allende; todos eles se reconheciam na causa oper\u00e1ria, apoiavam-se entre os camaradas. A luta que estava ocorrendo nos bairros pobres, nos campos, nas f\u00e1bricas irmanava os revolucion\u00e1rios a partir de baixo. Foi isso que fez o golpe militar decapitar todos esses combatentes quase sem distin\u00e7\u00e3o de correntes pol\u00edticas. Honramos a todos e a todas. O golpe sangrento descarregou todo o seu poder contra as e os lutadores daquele movimento, transformando essa hist\u00f3ria em uma trag\u00e9dia sangrenta.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso \u00e9 importante aprender com a hist\u00f3ria. Tirar as li\u00e7\u00f5es dela, para n\u00e3o a repetir, para encontrar as chaves que finalmente levam \u00e0 vit\u00f3ria. Com esta revista queremos contribuir para isso, tentando mostrar alguns dos elementos que conflu\u00edram na hist\u00f3ria desse movimento revolucion\u00e1rio. Tentando despejar o mito da realidade. Esta revista quer fazer parte de um di\u00e1logo honesto que contribua para a an\u00e1lise aprofundada desse per\u00edodo a partir de uma perspectiva de classe, retomando suas principais li\u00e7\u00f5es e preparando o caminho atual da luta pelo socialismo, que continua mais viva do que nunca.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.vozdelostrabajadores.cl\/a-51-anos-del-golpe-es-necesario-salir-del-eclipse#sdfootnote1anc\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">1<\/a>&nbsp;<em>Clotario Blest na CUT, pela Democracia dos Trabalhadores, <\/em>Paola Orellana Valenzuela, p. 47. Editorial Am\u00e9rica en Movimiento, 2018.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.vozdelostrabajadores.cl\/a-51-anos-del-golpe-es-necesario-salir-del-eclipse#sdfootnote2anc\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">2<\/a>&nbsp;<em>Os discursos de Clotario Blest e a revolu\u00e7\u00e3o chilena<\/em> em Ensaio sobre a hist\u00f3ria do movimento oper\u00e1rio, Luis Vitale, 1961. Dispon\u00edvel em: http:\/\/archivochile.com\/Homenajes\/Clotario_Blest\/MShomenajclotario0002.pdf<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.vozdelostrabajadores.cl\/a-51-anos-del-golpe-es-necesario-salir-del-eclipse#sdfootnote3anc\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">3<\/a> Ver: <em>Perspectivas do Chile ap\u00f3s as elei\u00e7\u00f5es presidenciais<\/em>, Luis Vitale, 1970. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.archivochile.com\/Ideas_Autores\/vitalel\/6lvc\/06lvctextpol0001.pdf<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.vozdelostrabajadores.cl\/a-51-anos-del-golpe-es-necesario-salir-del-eclipse#sdfootnote4anc\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">4<\/a>&nbsp;<em>A Revolu\u00e7\u00e3o Chilena, <\/em>Peter Winn, p. 61-62. LOM, 2016.<\/p>\n\n\n\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: L\u00edlian Enck<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando falamos de Unidade Popular e do golpe militar de 1973, uma imagem vem \u00e0 mente: La Moneda em chamas e Allende combatendo. 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