{"id":79449,"date":"2024-08-19T23:44:55","date_gmt":"2024-08-19T23:44:55","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=79449"},"modified":"2024-08-19T23:44:58","modified_gmt":"2024-08-19T23:44:58","slug":"muhammad-yunus-o-lider-do-governo-interino-de-bangladesh","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2024\/08\/19\/muhammad-yunus-o-lider-do-governo-interino-de-bangladesh\/","title":{"rendered":"Muhammad Yunus: o l\u00edder do governo interino de Bangladesh."},"content":{"rendered":"\n<p>Muhammad Yunus foi recentemente escolhido para liderar o governo interino de Bangladesh, em meio a <a href=\"https:\/\/litci.org\/pt\/2024\/08\/08\/viva-os-estudantes-vitoriosos-de-bangladesh-adiante-com-a-revolucao-bengali\/\">um levante popular em curso no pa\u00eds que derrubou a primeira-ministra Sheikh Hasina<\/a>, que chegou a fugir de helic\u00f3ptero para a \u00cdndia. O estopim para as lutas foi uma pol\u00edtica de cotas nos empregos p\u00fablicos: um ter\u00e7o das vagas seriam reservadas para parentes de veteranos da guerra de independ\u00eancia do pa\u00eds contra o Paquist\u00e3o em 1971. <\/p>\n\n\n\n<p>Por: Marcel Wando<\/p>\n\n\n\n<p>Isso foi considerado um privil\u00e9gio para os militares do pa\u00eds, em meio a um governo que j\u00e1 tem a fama de ser corrupto. O protagonismo dessas lutas \u00e9 <a href=\"https:\/\/litci.org\/pt\/2024\/08\/02\/em-solidariedade-com-os-estudantes-de-bangladesh\/\">principalmente de estudantes<\/a>, que demandam mudan\u00e7as radicais no governo. Vamos apresentar neste artigo quem \u00e9 Muhammad Yunus, o banqueiro que foi escalado para assumir o poder para frear a heroica revolu\u00e7\u00e3o de Bangladesh e entender como a aus\u00eancia de um partido marxista levou a que ele recebesse o apoio dos lutadores.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse entusiasmo est\u00e1 relacionado com a pr\u00f3pria trajet\u00f3ria de Yunus. Ao mesmo tempo em que \u00e9 reconhecido mundialmente pelo seu papel no combate \u00e0 mis\u00e9ria da d\u00e9cada de 1970, \u00e9 tamb\u00e9m ocultado seu papel na manuten\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o da classe oper\u00e1ria de hoje, e como seu papel foi fundamental no enriquecimento das multinacionais imperialistas que incidem no pa\u00eds. Nascido em 28 de junho de 1940, na cidade portu\u00e1ria de Chittagong, Bangladesh, Muhammad Yunus se formou em Ci\u00eancias Econ\u00f4micas pela Universidade de Dhaka, e p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o nos EUA. Retornou em 1972 a Bangladesh para dirigir o departamento de Economia da Universidade de Chittagong, logo ap\u00f3s a independ\u00eancia do pa\u00eds em 71.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cen\u00e1rio pol\u00edtico e econ\u00f4mico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Bangladesh sofria com o legado da coloniza\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica: um pa\u00eds muito populoso, essencialmente agr\u00e1rio, cuja forma\u00e7\u00e3o do proletariado se deu sem a devida cria\u00e7\u00e3o de empregos. Isso resultou em uma imensa pobreza, fome, entre outros indicadores de mazelas sociais, como analfabetismo, mortalidade infantil, etc. Al\u00e9m disso, os militares deram um golpe em 1975, organizando um regime ditatorial que perdurou at\u00e9 1990.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse contexto interno se dava em meio a Guerra Fria. Pa\u00edses imperialistas, especialmente os EUA, estavam exportando Capitais e apoiando golpes e ditaduras pelo mundo. Em Bangladesh, esse era o cen\u00e1rio ideal para a instala\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria t\u00eaxtil, uma vez que encontrava uma popula\u00e7\u00e3o capacitada para essa tarefa (dada a tradi\u00e7\u00e3o cultural na produ\u00e7\u00e3o de roupas e tecidos) e em situa\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria disposta a aceitar n\u00edveis de explora\u00e7\u00e3o ainda maiores em rela\u00e7\u00e3o aos trabalhadores estadunidenses.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A experi\u00eancia de microcr\u00e9dito do Grameen Bank<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Foi nesse cen\u00e1rio que se deu a experi\u00eancia do Grameen Bank (Banco da Aldeia, em tradu\u00e7\u00e3o livre), que se iniciou com pequenos empr\u00e9stimos no final da d\u00e9cada de 70, e se estabeleceu oficialmente em 83. Ele \u00e9 considerado a primeira institui\u00e7\u00e3o financeira a oferecer microcr\u00e9ditos a pessoas de baixa renda, especialmente mulheres, sem exigir garantias, algo in\u00e9dito na \u00e9poca. At\u00e9 ent\u00e3o, a principal forma de microcr\u00e9dito era o para consumo, em especial os cart\u00f5es de cr\u00e9dito, que come\u00e7aram a se popularizar nessa \u00e9poca, em especial, nos pa\u00edses ricos.<\/p>\n\n\n\n<p>O Grameen Bank oferecia cr\u00e9dito a 8% de juros anuais para a constru\u00e7\u00e3o de casas, o que \u00e9 especialmente importante em um pa\u00eds que possui enchentes praticamente todo ano, com a destrui\u00e7\u00e3o das casas. Essas novas casas, al\u00e9m da moradia em si, tamb\u00e9m reservavam um espa\u00e7o para a cria\u00e7\u00e3o de oficinas, transformando cada resid\u00eancia em uma extens\u00e3o das f\u00e1bricas. Para viabilizar o trabalho, como a compra de m\u00e1quinas e insumos, tamb\u00e9m era oferecido cr\u00e9dito a 20% de juros anuais.<\/p>\n\n\n\n<p>Os empr\u00e9stimos eram feitos especialmente para mulheres que correspondiam a mais de 90% das \u201cclientes\u201d do banco at\u00e9 hoje, dando prioridade para as oficinas de costura. Em m\u00e9dia, o banco possu\u00eda uma taxa de lucro de 15% ao ano, o que est\u00e1 dentro da lucratividade m\u00e9dia do Capital do pa\u00eds. Apesar disso, o banco ficou conhecido como ofertando cr\u00e9dito barato, porque os demais bancos cobravam fortunas das trabalhadoras, o que as jogava na inadimpl\u00eancia. Al\u00e9m disso, o banco tinha mais duas peculiaridades: o empr\u00e9stimo a grupos de 5 mulheres, de modo que elas atuavam em conjunto como uma unidade produtiva; e a cobran\u00e7a semanal, em que o banco mantinha um contato presencial permanente com essas mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Um imp\u00e9rio econ\u00f4mico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Com o tempo, foram criadas mais 22 empresas do grupo Grameen, tanto com e sem fins lucrativos. Al\u00e9m das empresas financeiras que endividam as fam\u00edlias de Bangladesh, ainda atuam na educa\u00e7\u00e3o e infraestrutura de comunica\u00e7\u00f5es e energia privadas, assumindo um papel que poderia ser do Estado. Tamb\u00e9m possuem parceria com outros ramos de multinacionais imperialistas, como no processamento de alimentos com a Danone e no agroneg\u00f3cio. Al\u00e9m disso, oferecem outras formas de emprego terceirizado e prec\u00e1rio, como o desenvolvimento de software e o telemarketing. Isso n\u00e3o significa que o Banco Grameen tenha perdido sua relev\u00e2ncia. Hoje, ele atende mais de 9,3 milh\u00f5es de \u201cclientes\u201d, dos quais 97% s\u00e3o mulheres, e j\u00e1 desembolsou quase 39 bilh\u00f5es de d\u00f3lares em empr\u00e9stimos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em geral, as ind\u00fastrias Grameen buscam prover produtos e servi\u00e7os para revenda, de modo que a popula\u00e7\u00e3o de Bangladesh possa \u201cgerar seus pr\u00f3prios empregos\u201d. Atrav\u00e9s dessas iniciativas que Yunus defende dois pilares centrais: a erradica\u00e7\u00e3o da pobreza atrav\u00e9s do desemprego zero e o combate \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, atrav\u00e9s do investimento privado em novas fontes de energia verde. Vale mencionar que essa \u00e9 especialmente impactante em Bangladesh, que j\u00e1 possui milh\u00f5es de refugiados clim\u00e1ticos e \u00e9 considerado por especialistas o pa\u00eds com maior potencial de deslocamento da hist\u00f3ria da humanidade, devido \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p>A pol\u00edtica de auto-emprego foi efetiva. Milh\u00f5es de fam\u00edlias de fato sa\u00edram da mis\u00e9ria no pa\u00eds. Os \u00edndices de impacto social demonstraram uma disparidade entre as fam\u00edlias das \u201cclientes\u201d do Grameen e a popula\u00e7\u00e3o geral: melhoria na alimenta\u00e7\u00e3o, educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, habita\u00e7\u00e3o, mortalidade infantil, etc. Mas uma melhora n\u00e3o significa necessariamente que hoje se encontrem em uma situa\u00e7\u00e3o boa. O maior exemplo disso est\u00e1 na insatisfa\u00e7\u00e3o que gerou o processo revolucion\u00e1rio de 2024. Falaremos sobre isso mais adiante.<\/p>\n\n\n\n<p>Do ponto de vista geral do pa\u00eds, tamb\u00e9m parece ter havido uma melhoria. As fam\u00edlias das costureiras movimentaram o com\u00e9rcio local atrav\u00e9s de seu poder de consumo, o que gerou um mercado interno e um aumento das importa\u00e7\u00f5es. O PIB come\u00e7ou a crescer \u201cem ritmo chin\u00eas\u201d, de 5,6% ao ano, em m\u00e9dia, entre 1990 e 2022. A ind\u00fastria t\u00eaxtil se tornou a principal do pa\u00eds: respons\u00e1vel por tr\u00eas quartos da exporta\u00e7\u00e3o nacional em 2005 e posicionando Bangladesh como o segundo maior exportador do mundo em 2014. O pa\u00eds se tornou um exportador de produtos prim\u00e1rios (inclusive de alimentos que ainda faltam \u00e0 popula\u00e7\u00e3o) e de baixo valor agregado, que n\u00e3o conseguiu desenvolver sua pr\u00f3pria ind\u00fastria nacional.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Yunnus e o Pr\u00eamio Nobel da Paz<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As migalhas que caem da mesa do imperialismo para o povo pobre e trabalhador de Bangladesh foi o suficiente para que Yunus ganhasse reconhecimento global pelas principais institui\u00e7\u00f5es internacionais. Por ser o idealizador do servi\u00e7o banc\u00e1rio de microcr\u00e9dito produtivo e ser a face p\u00fablica do Grameen Bank, Yunus \u00e9 reconhecido interna e externamente como o principal respons\u00e1vel por todos esses resultados. Isso lhe rendeu o pr\u00eamio Nobel da Paz em 2006.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa experi\u00eancia foi utilizada como inspira\u00e7\u00e3o para toda uma nova agenda pol\u00edtica de cria\u00e7\u00e3o de \u201cempresas sociais\u201d, \u201csetor 2.5\u201d e de empreendedorismo em geral. Essas pol\u00edticas foram implementadas em todo o mundo pelos Estados capitalistas, seja por governos de direita ou de esquerda, em pa\u00edses ricos e pobres. O discurso de que \u00e9 poss\u00edvel para o trabalhador gerar seu pr\u00f3prio emprego foi utilizado para colocar a responsabilidade sobre o desemprego nos pr\u00f3prios trabalhadores, que n\u00e3o estariam empreendendo o suficiente. Tamb\u00e9m ajuda a desmobilizar as lutas que demandam do Estado pol\u00edticas p\u00fablicas porque todo problema social teria, em pot\u00eancia, uma solu\u00e7\u00e3o a partir do empreendedorismo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que explica essa popularidade?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para a \u00e9poca, o microcr\u00e9dito para a produ\u00e7\u00e3o soava como algo in\u00e9dito, visto que o microcr\u00e9dito era oferecido pelos bancos somente para o consumo atrav\u00e9s dos cart\u00f5es de cr\u00e9dito. Mas o microcr\u00e9dito para a produ\u00e7\u00e3o j\u00e1 era algo comum nas cooperativas de cr\u00e9dito desde o s\u00e9culo XIX, sendo que a inova\u00e7\u00e3o em si somente o fato desse servi\u00e7o ser oferecido por um banco. Ent\u00e3o, o que efetivamente se deu, foi uma boa jogada de marketing pessoal para um novo servi\u00e7o banc\u00e1rio que viabilizou a entrada de Capitais externos.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o similar \u00e0 vivida em diversos outros pa\u00edses pobres durante a segunda metade do s\u00e9culo&nbsp; XX. Dezenas de ditadores s\u00e3o considerados populistas ou populares ou at\u00e9 comunistas por realizarem ret\u00f3ricas semelhantes. Constroem a fama de serem \u201cbons para o povo pobre\u201d ou de serem \u201cnacionalistas\u201d ou at\u00e9 \u201cdesenvolvimentistas\u201d porque atuam em parceria com o Capital externo. Com a diferen\u00e7a de que, em geral, essa fama fica com os ditadores, e no caso de Bangladesh, a fama ficou com um empres\u00e1rio que n\u00e3o exercia cargos pol\u00edticos diretamente.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno totalmente in\u00e9dito, mas por que ele acontece? O dinheiro percebido como o grande motor da atividade produtiva humana no capitalismo. Sem o Capital adiantado, nenhuma empresa nasce, e nem s\u00e3o criados novos empregos. O Capital em sua forma Dinheiro \u00e9 sempre a primeira percep\u00e7\u00e3o de que temos desse processo do Valor que se valoriza. Por mais que centenas ou milhares de ciclos se passem, e at\u00e9 de todo o Capital investido j\u00e1 tenha sido retornado ao primeiro investidor, ele continua sendo visto como o primeiro agente, o propriet\u00e1rio e respons\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>A entrada do Capital externo \u00e9, essencialmente, o in\u00edcio dos ciclos capitalistas nesses pa\u00edses. Mas os pol\u00edticos conseguem convencer a popula\u00e7\u00e3o de que \u00e9 gra\u00e7as a eles que esse Capital p\u00f4de entrar no pa\u00eds, o que \u00e9 corroborado pelo Estado ser o detentor do padr\u00e3o monet\u00e1rio nacional. Combina-se a isso que Yunus ainda se apresenta como o respons\u00e1vel pelos empr\u00e9stimos de microcr\u00e9dito, que na pr\u00e1tica parece ser um \u201cmicrocapital\u201d que entra na casa das pessoas e permite que elas trabalhem.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Uma velha teoria econ\u00f4mica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A teoria de Yunus \u00e9 de que, ao oferecer microcr\u00e9dito, isso viabiliza o trabalho porque permite o consumo de m\u00e1quinas e mat\u00e9rias primas. A partir desse trabalho realizado, s\u00e3o geradas mercadorias, que s\u00e3o vendidas e geram mais dinheiro. Essa receita permite tanto repor as mat\u00e9rias primas para um novo ciclo de trabalho quanto para pagar os juros dos empr\u00e9stimos e, o pouco que sobra, ser usado como renda para o consumo pessoal dessas fam\u00edlias. Essa renda \u00e9 que iria circular no mercado interno de bens de consumo, aquecendo o mercado do pa\u00eds. J\u00e1 o dinheiro que \u00e9 repassado para fornecedores e banco servem, em partes, para ampliar a produ\u00e7\u00e3o e investir em novos ramos.<\/p>\n\n\n\n<p>Na pr\u00e1tica, o que se observa \u00e9 que esse processo gera uma renda muito baixa para essas fam\u00edlias, uma das menores do mundo. Ent\u00e3o, ainda que funcionasse, seria bastante insuficiente para sustentar a tese de causa humanit\u00e1ria. Tanto \u00e9 assim, que a fome em Bangladesh ainda \u00e9 imensa. Mas essa teoria tem um outro furo: nada garante que isso v\u00e1 se manter funcionando para sempre. Problemas de infraestrutura, como cat\u00e1strofes clim\u00e1ticas podem interromper o processo de produ\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, as empresas imperialistas podem mudar seu centro de compra para outros pa\u00edses, de modo que a popula\u00e7\u00e3o fique com mercadorias que n\u00e3o s\u00e3o vendidas e n\u00e3o poder\u00e3o alcan\u00e7ar o mercado interno.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa teoria econ\u00f4mica que pressup\u00f5e o funcionamento do mercado para concluir que o mercado funciona n\u00e3o \u00e9 nova. Trata-se da antiga Lei de equil\u00edbrio dos mercados, defendida desde o s\u00e9culo XVII e XVIII. Isso j\u00e1 era dito por economistas liberais como Jean-Baptiste Say, James Mill e Adam Smith. \u00c9 um dogma de correntes econ\u00f4micas liberais que justificam que o mercado \u00e9 perfeito e racional, adaptado para uma conjuntura de um pa\u00eds em estado de pen\u00faria explorado pelo capital internacional em parceria com empres\u00e1rios locais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Yunus, s\u00f3cio menor do Capital imperialista<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Se inclu\u00edmos o Capital internacional na equa\u00e7\u00e3o, vemos que ele \u00e9 o principal agente que coloca em movimento as milh\u00f5es de oper\u00e1rias da ind\u00fastria t\u00eaxtil. De todo o trabalho realizado por elas, a maior fatia fica com essas empresas e a menor com elas. Essas empresas n\u00e3o possuem qualquer interesse humanit\u00e1rio, apenas interesses econ\u00f4micos de explora\u00e7\u00e3o dessas milh\u00f5es de fam\u00edlias.<\/p>\n\n\n\n<p>O Banco Grameen, portanto, n\u00e3o \u00e9 o iniciador do processo produtivo, mas um atravessador necess\u00e1rio. Se as multinacionais ficam com a maior parte do trabalho n\u00e3o pago \u00e0s oper\u00e1rias, o banco fica com uma menor parte dele. Ou seja, a \u201ccausa humanit\u00e1ria\u201d \u00e9 apenas uma ret\u00f3rica de marketing. Ainda mais quando reconhecemos que sequer se trata de um cr\u00e9dito subsidiado, abaixo da m\u00e9dia de lucratividade do mercado. Os interesses financeiros das multinacionais s\u00e3o determinantes em rela\u00e7\u00e3o ao in\u00edcio do processo, sendo o banco apenas um s\u00f3cio menor.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas isso nos faz questionar: porque a ind\u00fastria t\u00eaxtil internacional est\u00e1 comprando esses produtos? O objetivo \u00e9 baratear os custos com m\u00e3o de obra. A luta econ\u00f4mica dos trabalhadores nos pa\u00edses centrais conferiu uma m\u00e9dia salarial muito maior para eles. Migrar esses postos de trabalho para o sudeste asi\u00e1tico foi uma forma de rebaixar os custos de produ\u00e7\u00e3o com sal\u00e1rios de uma s\u00f3 vez. N\u00e3o existe qualquer interesse em a\u00e7\u00f5es humanit\u00e1rias por parte dessas empresas, somente a explora\u00e7\u00e3o implac\u00e1vel das oper\u00e1rias bengali.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Superexplora\u00e7\u00e3o das oper\u00e1rias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A disputa do protagonismo do processo produtivo entre o investimento externo e interno est\u00e1 dentro da l\u00f3gica da apar\u00eancia do Capital-Dinheiro como o motor de arranque do Capital. Mas a manuten\u00e7\u00e3o dos ciclos s\u00f3 ocorre devido ao trabalho \u00e1rduo das oper\u00e1rias, as verdadeiras respons\u00e1veis pela prosperidade econ\u00f4mica de Bangladesh, que n\u00e3o podem usufruir nem da menor parte dessa riqueza produzida, e menos ainda influenciar nas decis\u00f5es de como ser\u00e1 reinvestido o valor excedente produzido por elas. O que nos leva a investigar as condi\u00e7\u00f5es em que se d\u00e1 esse trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>As condi\u00e7\u00f5es de trabalho e de vida dessas oper\u00e1rias, seus filhos e toda sua fam\u00edlia s\u00e3o melhor observados pelos estudos da ind\u00fastria da <em>Fast Fashion<\/em>, e n\u00e3o pelos discursos populistas de Yunus. Os <em>Sweatshops<\/em> \u00e9 o termo em ingl\u00eas correspondente ao local onde se desenvolve o <em>sweating system<\/em>, um modelo de explora\u00e7\u00e3o pelo qual os empregados trabalham sob extrema press\u00e3o e os locais de trabalho confundem-se com as resid\u00eancias e n\u00e3o possuem condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade e seguran\u00e7a. Os lares s\u00e3o convertidos em uma extens\u00e3o do estabelecimento fabril, sem as condi\u00e7\u00f5es de controle e prote\u00e7\u00e3o da planta industrial.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m chamados de &#8220;atelier de mis\u00e9ria&#8221;, nos termos franceses, s\u00e3o locais de trabalho em condi\u00e7\u00f5es muito prec\u00e1rias e socialmente inaceit\u00e1veis pelos trabalhadores dos pa\u00edses imperialistas. O trabalho pode ser dif\u00edcil, perigoso, climaticamente impr\u00f3prio ou mal pago. Trabalhadores em Sweatshops podem ter de trabalhar longas horas, com baixa remunera\u00e7\u00e3o, independentemente de leis que obriguem pagamento de horas extras ou um sal\u00e1rio m\u00ednimo; leis contra o trabalho infantil tamb\u00e9m podem ser violadas. Os produtos que geralmente s\u00e3o fabricados nessas f\u00e1bricas s\u00e3o sapatos, vestu\u00e1rio, brinquedos, chocolate e caf\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Multinacionais que foram acusadas de fazer uso dessa forma de trabalho incluem Levi\u2019s, Nike, Tommy Hilfiger, Calvin Klein, Ralph Lauren, Zara, Armani, Gucci, Prada, Dolce &amp; Gabbana, Burberry, entre outras.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em parceria com essas empresas, o Banco Grameen extrai ainda mais um pouco da renda dessas fam\u00edlias, cobrando juros de 20% ao ano para viabilizar o trabalho e 8% ao ano quando elas se veem em uma situa\u00e7\u00e3o de desamparo com a destrui\u00e7\u00e3o de seus lares. Al\u00e9m disso, o grupo Grameen de conjunto ainda viabiliza novas formas de explora\u00e7\u00e3o em outros ramos produtivos.<\/p>\n\n\n\n<p>O capitalismo trouxe para Bangladesh, em primeiro lugar, a mis\u00e9ria com a coloniza\u00e7\u00e3o, e, em segundo lugar, a super-explora\u00e7\u00e3o com as <em>sweatshops<\/em>. \u00c9 verdade que essa forma de trabalho aparece nas estat\u00edsticas como algo melhor do que morrer de fome, mas n\u00e3o \u00e9 verdade que isso esteja pr\u00f3ximo \u00e0 liberdade ou algum n\u00edvel de emancipa\u00e7\u00e3o. Isso s\u00f3 demonstra que o capitalismo \u00e9 o sistema que aprisiona a maior parte da popula\u00e7\u00e3o em uma armadilha: a \u00fanica coisa pior do que ser explorado, \u00e9 n\u00e3o ser. \u00c9 uma pris\u00e3o com apar\u00eancia de liberdade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Existe explora\u00e7\u00e3o no empreendedorismo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 primeira vista, tudo se passa como se as trabalhadoras estivessem produzindo mercadorias e as vendendo. Logo, como poderia isso ser uma explora\u00e7\u00e3o? Alguns podem pensar at\u00e9 mesmo que o lucro das multinacionais est\u00e1 na esperteza do empres\u00e1rio que resolveu aproveitar a diferen\u00e7a de pre\u00e7os entre os pa\u00edses para se tornar apenas um atacadista, e n\u00e3o mais um produtor. Mas n\u00e3o \u00e9 bem assim, e vamos explicar o porqu\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro ind\u00edcio de que isso \u00e9 uma outra forma de contrata\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o uma atividade empresarial, \u00e9 de que essa mesma atividade coexiste em modalidade de contrata\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rio mensal. De tal modo que o sal\u00e1rio que essas oper\u00e1rias ganham se d\u00e1 por pe\u00e7a produzida, e n\u00e3o pelo tempo. A escolha do mercado por uma ou outra modalidade se d\u00e1 conforme cada uma \u00e9 mais ou menos favor\u00e1vel para o desenvolvimento capitalista.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a diferen\u00e7a de valor das mercadorias vendidas entre os pa\u00edses n\u00e3o se d\u00e1 por \u00edndices inflacion\u00e1rios simples de cada local. Nos pa\u00edses onde ser\u00e3o consumidas respeitam a lei do valor dessas mercadorias, na qual seu pre\u00e7o \u00e9 definido a partir do tempo de trabalho socialmente necess\u00e1rio para sua produ\u00e7\u00e3o. J\u00e1 o pre\u00e7o pago para as oper\u00e1rias para cada uma reflete o custo de vida e de reprodu\u00e7\u00e3o dessas mercadorias, o mesmo c\u00e1lculo feito para determinar os pre\u00e7os da for\u00e7a de trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, sim, existe explora\u00e7\u00e3o no empreendedorismo. N\u00e3o porque os empres\u00e1rios sejam explorados, mas sim porque essa forma jur\u00eddica (e ideol\u00f3gica) foi ressignificada para expressar as contrata\u00e7\u00f5es por sal\u00e1rio por pe\u00e7a. Ou seja, o sal\u00e1rio por tempo \u00e9 fracionado para se expressar em cada pe\u00e7a produzida, dada a produtividade m\u00e9dia daquela sociedade. Para uma melhor compreens\u00e3o do sal\u00e1rio por pe\u00e7a, recomendamos a leitura do cap\u00edtulo 19 do primeiro livro do Capital. J\u00e1 o debate sobre a lei do equil\u00edbrio do mercado est\u00e1 presente em todo o livro 2.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Localiza\u00e7\u00e3o de Yunus na luta de classes<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Com um discurso fortemente pautado pelas quest\u00f5es sociais, o mais comum \u00e9 identificar Yunus como uma figura de esquerda. Por\u00e9m, ser de esquerda n\u00e3o significa estar, necessariamente, do lado dos trabalhadores em todas as suas lutas. Pelo contr\u00e1rio, v\u00e1rias dessas lutas se deram contra ele e o grupo Grameen.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2006, dezenas de milhares de trabalhadores se mobilizaram em um dos maiores movimentos grevistas do pa\u00eds, afetando quase todas as 4 000 f\u00e1bricas. A Bangladesh Garment Manufacturers and Exporters Association (BGMEA) usou as for\u00e7as policiais para reprimir, resultando em tr\u00eas trabalhadores mortos e mais centenas de feridos por balas ou presos. Em 2010, ap\u00f3s um novo movimento de greve, quase mil pessoas foram feridas entre os trabalhadores como resultado da repress\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muhammad Yunus foi recentemente escolhido para liderar o governo interino de Bangladesh, em meio a um levante popular em curso no pa\u00eds que derrubou a primeira-ministra Sheikh Hasina, que chegou a fugir de helic\u00f3ptero para a \u00cdndia. 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