{"id":79429,"date":"2024-08-15T13:42:22","date_gmt":"2024-08-15T13:42:22","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=79429"},"modified":"2024-08-15T16:44:58","modified_gmt":"2024-08-15T16:44:58","slug":"a-unidade-da-esquerda-nao-se-constroi-nas-urnas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2024\/08\/15\/a-unidade-da-esquerda-nao-se-constroi-nas-urnas\/","title":{"rendered":"A unidade da esquerda n\u00e3o se constr\u00f3i nas urnas"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Publicamos este artigo da Revista Crisis de 12 de agosto \u00faltimo. Crisis \u00e9 uma revista digital que nasceu com o objetivo de apresentar uma nova refer\u00eancia de esquerda no Equador. Com esta publica\u00e7\u00e3o concretizamos uma colabora\u00e7\u00e3o entre os dois meios de comunica\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s do interc\u00e2mbio de artigos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Nove meses ap\u00f3s o in\u00edcio de um dos desastres mais catastr\u00f3ficos para a classe trabalhadora na pr\u00f3pria representa\u00e7\u00e3o da <em>Banana Republic<\/em>, a burguesia busca a reelei\u00e7\u00e3o do empres\u00e1rio mais rico do pa\u00eds. Com uma cortina de fuma\u00e7a ap\u00f3s outra, o governo que supostamente \u201cresolve\u201d \u2013 em conson\u00e2ncia com a imagem mais mis\u00f3gina poss\u00edvel, o Presidente Noboa vangloriou-se publicamente dos seus \u201covos de avestruz\u201d \u2013 n\u00e3o resolve outra coisa sen\u00e3o como encher os bolsos \u00e0 custa do p\u00fablico. Noboa, mais uma vez em campanha, volta \u00e0 arena das promessas vazias, procurando aprofundar essa imagem distorcida do pa\u00eds no seu slogan do \u201cNovo Equador\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Parece que a classe parasit\u00e1ria est\u00e1 disposta a embarcar num precip\u00edcio de radicaliza\u00e7\u00e3o do livre mercado, aprofundando as contradi\u00e7\u00f5es de classe e levando tudo em seu caminho, se necess\u00e1rio. O neg\u00f3cio da lavagem de dinheiro, celebrado em ambientes fechados pelo empresariado, reflete-se nos carros de luxo que circulam pelas cidades do pa\u00eds &#8211; com valores entre 100 mil e 600 mil d\u00f3lares, segundo a recentemente inaugurada casa de autom\u00f3veis em Samborond\u00f3n -, enquanto os mortos pela viol\u00eancia acumulam-se e decomp\u00f5em-se em c\u00e2maras frigor\u00edficas defeituosas em Guayaquil.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste contexto, a Ministra do Interior, M\u00f3nica Palencia, vangloriou-se de que \u201co m\u00eas de julho foi o m\u00eas menos violento do ano\u201d. Em contrapartida, a realidade material contradiz permanentemente os n\u00fameros esp\u00farios do governo: julho foi o segundo m\u00eas mais violento com 580 mortes violentas, depois de junho com 592. \u00c9 mais do que evidente que o t\u00e3o invocado Plano acabou por ser mais um dos truques de comunica\u00e7\u00e3o da Banana Rep\u00fablic. A classe pol\u00edtica do Equador tem as m\u00e3os manchadas de sangue.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste sentido e ao contr\u00e1rio de uma suposta prioriza\u00e7\u00e3o do problema da inseguran\u00e7a, os relat\u00f3rios indicam que at\u00e9 julho de 2024, o Governo Nacional utilizou apenas cerca de 2% do or\u00e7amento em seguran\u00e7a, demonstrando a sua falta de inten\u00e7\u00e3o de se concentrar num problema com o qual se nutrem e se beneficiam os grupos econ\u00f4micos de poder.<\/p>\n\n\n\n<p>Um governo burgu\u00eas ap\u00f3s o outro. A classe trabalhadora testemunha o desmantelamento sistem\u00e1tico do Estado, para beneficiar a fra\u00e7\u00e3o de classe do governante no poder. Atualmente, esta seria formada por importadores, industriais, especuladores privados \u2013 ou \u201cempres\u00e1rios\u201d \u2013 de energia. No dia 4 de agosto passado chegou o primeiro barco de produ\u00e7\u00e3o de eletricidade &#8211; tecnologia obsoleta, que partiu da Turquia semanas antes da suposta licita\u00e7\u00e3o -, coincidindo com a elimina\u00e7\u00e3o do Imposto sobre a Sa\u00edda de Divisas (ISD) na importa\u00e7\u00e3o de combust\u00edveis. \u00c9 ineg\u00e1vel \u2013 como nos casos de Palo Quemado e Ol\u00f3n \u2013 que Noboa e sua fac\u00e7\u00e3o de classe utilizam o Estado a torto e a direito, para acomodar suas empresas em servi\u00e7os e setores do Estado, flexibilizando os marcos legais quando consideram necess\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Da mesma forma, em 14 de novembro de 2023, expirou a concess\u00e3o do Oleoduto de Petr\u00f3leo Pesado (OCP), que \u00e9 administrado de forma privada h\u00e1 duas d\u00e9cadas. O Estado deveria ter assumido o comando imediatamente, mas at\u00e9 o momento n\u00e3o houve nenhuma a\u00e7\u00e3o nesse sentido. Uma extens\u00e3o adicional do contrato expirou em 31 de julho. No entanto, o Governo Nacional recusou-se a informar sobre a resolu\u00e7\u00e3o do OCP, censurando tamb\u00e9m o conte\u00fado das negocia\u00e7\u00f5es em curso e gerando preju\u00edzos adicionais ao Estado equatoriano.<\/p>\n\n\n\n<p>A Associa\u00e7\u00e3o Nacional dos Trabalhadores das Empresas de Energia e Petr\u00f3leo, ANTEP, denunciou que o campo de Sacha &#8211; bloco 60, um dos maiores em explora\u00e7\u00e3o a n\u00edvel nacional &#8211; est\u00e1 sendo privatizado \u00e0s custas do povo, o que custaria 500 milh\u00f5es de d\u00f3lares de receitas anuais ao Estado, que seria redistribu\u00eddo do p\u00fablico para algumas m\u00e3os privadas. Este \u00e9 o \u201cNovo Equador\u201d de Noboa, onde se realiza a mais sangrenta e encoberta privatiza\u00e7\u00e3o de um setor estrat\u00e9gico e fundamental: o setor energ\u00e9tico.<\/p>\n\n\n\n<p>Para enfrentar ao colossal e depravado capitalismo que se aprofunda fortemente no nosso pa\u00eds, como fica evidente n\u00e3o s\u00f3 em gr\u00e1fico, mas em cada uma das experi\u00eancias vitais do povo e da classe trabalhadora, de fato, \u00e9 necess\u00e1ria a unidade da esquerda. \u00a0Contudo, e mesmo tendo como pano de fundo o lamento da consci\u00eancia socialdemocrata, deve necessariamente existir um programa m\u00ednimo, que deve constituir-se como uma premissa ideol\u00f3gica que funcione a favor, e apenas a favor, dos interesses da classe trabalhadora, na sua imensa diferen\u00e7a e desigualdade.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma verdadeira unidade da esquerda tem necessariamente de compreender que a hist\u00f3ria da humanidade \u00e9 a hist\u00f3ria da luta de classes. Portanto, o projeto hist\u00f3rico da classe trabalhadora n\u00e3o pode de forma alguma ser entendido na posi\u00e7\u00e3o contrarrevolucion\u00e1ria de concilia\u00e7\u00e3o; nem neste exato momento nem como estrat\u00e9gia. A dificuldade deste epis\u00f3dio hist\u00f3rico \u00e9 que a esquerda n\u00e3o foi capaz de elevar suficientemente a luta ideol\u00f3gica contra o sentido comum capitalista. A grande maioria da classe trabalhadora e do povo n\u00e3o est\u00e1 preparada para imaginar a possibilidade de um mundo de justi\u00e7a e dignidade, livre de classes sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das raz\u00f5es para isto \u00e9 que na realidade n\u00e3o existe uma compreens\u00e3o coletiva da proposta marxista como um projeto pol\u00edtico. Mesmo entre os militantes de esquerda, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel compreender que o estatismo\/neokeynesianismo \u00e9 um projeto capitalista imposs\u00edvel de \u201cradicalizar\u201d em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 esquerda. Portanto, o programa m\u00ednimo que orientaria a unidade da esquerda deve necessariamente reconhecer a luta de classes como a for\u00e7a motriz da hist\u00f3ria e faz\u00ea-la ser compreendida pela imensa massa popular. Resta ver a intensidade e a responsabilidade do trabalho militante que isto exige.<\/p>\n\n\n\n<p>A unidade da esquerda requer um ato de consci\u00eancia elevado, mais elevado do que o que agora poderia ser expresso. Acima de tudo, para que a oportunidade de construir realmente uma unidade da esquerda n\u00e3o catapulte a l\u00f3gica do capitalismo na sua vers\u00e3o progressista. Como povo, como classe trabalhadora, merecemos mais. N\u00f3s merecemos tudo. No futuro a m\u00e9dio prazo, talvez, quando o conflito ideol\u00f3gico estiver mais maduro, poderiam ser alcan\u00e7ados acordos bastante limitados com esse setor da socialdemocracia, mas agora n\u00e3o \u00e9 o momento, simplesmente porque a consigna antineoliberal \u00e9 insuficiente para resolver as muitos necessidades e demandas da classe trabalhadora.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira tarefa \u00e9 trabalhar a consci\u00eancia de classe das massas. Como? Organiza\u00e7\u00e3o popular em cada bairro, local de trabalho e centro de estudos. Organizar n\u00e3o \u00e9 um artif\u00edcio ret\u00f3rico, mas uma consigna. Sem uma consci\u00eancia de classe que sirva de alicerce aos sectores populares, nunca conseguiremos dar o salto da emerg\u00eancia para a luta pela dignidade e pela justi\u00e7a, com uma massa oper\u00e1ria, camponesa, de mulheres e dissidentes, de estudantes e jovens que se reconhe\u00e7am como classe trabalhadora.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro elemento fundamental do programa m\u00ednimo de unidade da esquerda \u00e9 necessariamente a bandeira do antiextrativismo. Primeiro, denunciando o extrativismo como um projeto imperialista, e n\u00e3o como a vontade das pessoas que habitam este Estado-territ\u00f3rio. O projeto pol\u00edtico da classe trabalhadora suplanta as lutas pela soberania alimentar, pelo direito \u00e0 autonomia dos povos e das nacionalidades e, em \u00faltima an\u00e1lise, coloca a vida, acima da acumula\u00e7\u00e3o privada e o capital. A luta antiextrativista condensa todas as reivindica\u00e7\u00f5es: \u00e9 anticolonial, antipatriarcal, antirracista, anticapitalista, antiespecista e, sobretudo, na luta antiextrativista est\u00e1 consagrada a possibilidade de autodetermina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A unidade da esquerda \u00e9 definitivamente urgente, mas n\u00e3o passa pelas urnas. Nestes pr\u00f3ximos anos, \u00e9 responsabilidade de cada marxista e de cada organiza\u00e7\u00e3o construir um programa militante implac\u00e1vel, com esperan\u00e7a e alegria. Vemo-nos no futuro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicamos este artigo da Revista Crisis de 12 de agosto \u00faltimo. Crisis \u00e9 uma revista digital que nasceu com o objetivo de apresentar uma nova refer\u00eancia de esquerda no Equador. Com esta publica\u00e7\u00e3o concretizamos uma colabora\u00e7\u00e3o entre os dois meios de comunica\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s do interc\u00e2mbio de artigos. Nove meses ap\u00f3s o in\u00edcio de um dos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":79430,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[3643],"tags":[8927,6360,8928,8830,8795],"class_list":["post-79429","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-equador","tag-eleicoes-equador-2025","tag-equador","tag-esquerda-equador","tag-noboa","tag-revista-crisis"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/noboa-aguinaga-678x381-1.jpg","categories_names":["Equador"],"author_info":{"name":"lena","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/b9eb35b4c023b96c29c4a145a82c6c381b68f2c889c5427106ad5aab6df45b9d?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79429","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=79429"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79429\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":79434,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79429\/revisions\/79434"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/79430"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=79429"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=79429"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=79429"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}