{"id":79423,"date":"2024-08-14T15:45:48","date_gmt":"2024-08-14T15:45:48","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=79423"},"modified":"2024-08-14T15:45:50","modified_gmt":"2024-08-14T15:45:50","slug":"o-que-e-ser-socialista-hoje","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2024\/08\/14\/o-que-e-ser-socialista-hoje\/","title":{"rendered":"O que \u00e9 ser socialista hoje"},"content":{"rendered":"\n<p><em>O surgimento, na Hist\u00f3ria, de socialistas e de movimentos socialistas n\u00e3o foi uma cria\u00e7\u00e3o a partir do nada, por parte de idealistas e vision\u00e1rios, mas coincide com o amplo desenvolvimento do capitalismo. A desigualdade, a opress\u00e3o e a domina\u00e7\u00e3o na rela\u00e7\u00e3o entre os seres humanos n\u00e3o eram novidades. Apesar disso, pela primeira vez, a riqueza e a pobreza desenvolviam-se lado a lado, em m\u00e1xima intensidade.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: Gustavo Machado do canal Orienta\u00e7\u00e3o Marxista<\/p>\n\n\n\n<p>Um exemplo \u00e9 a Inglaterra dos s\u00e9culos 18 e 19 (ou seja, entre os anos 1700 e 1800). Esse pa\u00eds alcan\u00e7ou um n\u00edvel de produ\u00e7\u00e3o de riquezas jamais visto em toda Hist\u00f3ria da humanidade at\u00e9 ent\u00e3o. Era o pa\u00eds capitalista mais desenvolvido do mundo, o cora\u00e7\u00e3o e o pulm\u00e3o de uma ind\u00fastria que exportava seus produtos para a \u00cdndia e o Brasil, os Estados Unidos e a China. Apesar disso, n\u00e3o existia um pa\u00eds no mundo onde a classe oper\u00e1ria industrial fosse t\u00e3o numerosa quanto massacrada, com jornadas de trabalho extenuantes e mal remuneradas.<\/p>\n\n\n\n<p>Um pa\u00eds onde conformaram-se os grandes centros urbanos em que, de um lado, t\u00ednhamos as Bolsas de Valores, os bairros regados pelo luxo de industriais, acionistas e executivos das empresas; enquanto, de outro, os oper\u00e1rios e oper\u00e1rias industriais eram amontoados com condi\u00e7\u00f5es de vida degradantes, sem que as necessidades mais b\u00e1sicas fossem atendidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi nesse cen\u00e1rio que a men\u00e7\u00e3o ao socialismo deixou de ser um epis\u00f3dio isolado para ganhar os holofotes p\u00fablicos. Muitos constataram o absurdo de uma sociedade em que a produ\u00e7\u00e3o de riqueza \u00e9, ao mesmo tempo, a produ\u00e7\u00e3o de pobreza, de embrutecimento, de degrada\u00e7\u00e3o f\u00edsica e moral.<\/p>\n\n\n\n<p>Surgiram, assim, teorias e movimentos dos mais variados, que se denominavam socialistas. Para todos eles, o ponto de partida foi a detec\u00e7\u00e3o desse problema social colossal e inquestion\u00e1vel. No entanto, como resolv\u00ea-lo? As respostas foram muitas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Os tipos de \u201csocialismo\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>T\u00ednhamos os \u201csocialistas ut\u00f3picos\u201d, que constru\u00edam modelos de sociedades justas, baseadas em comunidades autossuficientes ou cooperativas de trabalhadores, como o franc\u00eas Charles Fourier (1772-1837) e o gal\u00eas Robert Owen (1771-1858). J\u00e1 os \u201csocialistas crist\u00e3os\u201d constru\u00edam institui\u00e7\u00f5es filantr\u00f3picas voltadas para a\u00e7\u00f5es de ajuda m\u00fatua e os chamados \u201csocialistas reformadores\u201d propunham altera\u00e7\u00f5es na sociedade capitalista, de modo a minar o avan\u00e7o da desigualdade, como o su\u00ed\u00e7o Jean de Sismondi (1773-1842) e o franc\u00eas Pierre-Joseph Proudhon (1809-65)<\/p>\n\n\n\n<p>E, ainda, existiam os revolucion\u00e1rios, como o tamb\u00e9m franc\u00eas Louis-Auguste Blanqui (1805-81), que acreditavam que o principal problema era o regime pol\u00edtico existente, corrupto e opressor, que, por isso mesmo, deveria ser imediatamente derrubado por um grupo secreto de revolucion\u00e1rio bem treinados, pondo fim ao que seria a raiz de todos esses males e contradi\u00e7\u00f5es: o sistema pol\u00edtico e o Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>Passado mais de um s\u00e9culo do in\u00edcio desses movimentos, nos dias de hoje, temos um dilema. Por um lado, muitos s\u00e3o aqueles que continuam a se identificar com o termo socialismo. E o motivo \u00e9 \u00f3bvio. Os problemas anteriormente mencionados n\u00e3o apenas se mant\u00eam, como se desenvolvem em uma escala cada vez maior. Ao lado dos problemas sociais cl\u00e1ssicos, ligados \u00e0 remunera\u00e7\u00e3o, ao emprego, \u00e0 moradia etc., desenvolvem-se outros tantos, como a crise clim\u00e1tica global e a amea\u00e7a de novas guerras de dimens\u00f5es globais, amea\u00e7ando a exist\u00eancia da pr\u00f3pria esp\u00e9cie humana.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, outros veem no socialismo uma amea\u00e7a ainda maior. Afinal, foi sob esse nome que n\u00e3o poucos governos foram erguidos no \u00faltimo s\u00e9culo. Das sociais-democracias europeias ao \u201cSocialismo do S\u00e9culo 21\u201d, de Hugo Ch\u00e1vez e Nicol\u00e1s Maduro, na Venezuela. Mas, longe de avan\u00e7ar na solu\u00e7\u00e3o dos problemas postos, eles se agravaram sob esses governos. Tivemos, ainda, a tentativa de construir o socialismo em um s\u00f3 pais, sob controle de uma burocracia, como na ex-Uni\u00e3o das Rep\u00fablicas Socialistas Sovi\u00e9ticas (URSS), Cuba etc.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O surgimento do marxismo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Diante disto, muitos passaram a acreditar que o socialismo seria um ideal fadado ao fracasso e, no final das contas, redundaria em governos autorit\u00e1rios e no excesso de controle por parte de um Estado cada vez mais apartado da realidade da maioria.<\/p>\n\n\n\n<p>Como consequ\u00eancia, hoje, muitos se refugiam em sa\u00eddas meramente individuais, por vezes em um liberalismo extremo, que chega a postular um mercado capitalista sem Estado. Ou, ent\u00e3o, em pautas particulares que problematizam corretamente, por exemplo, os problemas ambientais e as opress\u00f5es de v\u00e1rios tipos, sem conect\u00e1-los com a forma de sociedade em que vivemos.<\/p>\n\n\n\n<p>Os questionamentos s\u00e3o justos. Todas as tentativas de administrar o capitalismo por meio de um Estado mostraram-se, e mostram-se, a cada dia como impotentes. Mas, nem todo movimento socialista se baseou nessa dupla premissa: a cria\u00e7\u00e3o idealista de uma sociedade do futuro ou a administra\u00e7\u00e3o do capitalismo, por meio de pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m no s\u00e9culo 19, emergiu uma corrente socialista espec\u00edfica: o marxismo. Sua especificidade foi vincular a necessidade do socialismo \u00e0s necessidades da classe trabalhadora, como estando conectadas uma na outra.<\/p>\n\n\n\n<p>A\u00ed, o socialismo que se prop\u00f5e n\u00e3o \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o feita \u201cde cima\u201d, por meio de agentes sociais benfeitores; mas exige uma reconfigura\u00e7\u00e3o completa da sociedade, pondo fim \u00e0 sociedade capitalista, a partir do seu produto mais genu\u00edno: a classe trabalhadora.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse movimento partiu de um estudo cient\u00edfico da sociedade capitalista, demonstrando que a sa\u00edda proposta n\u00e3o \u00e9 uma possibilidade dentre outras, mas a \u00fanica poss\u00edvel. O mercado capitalista \u00e9 incontrol\u00e1vel e o Estado que lhe corresponde est\u00e1 totalmente subordinado a ele, tendo estreitos limites de interven\u00e7\u00e3o. Esse Estado n\u00e3o \u00e9 neutro, mas, enquanto uma parte inelimin\u00e1vel dessa sociedade, a legitima e perpetua a divis\u00e3o dos indiv\u00edduos em classes cada vez mais desiguais. Por que \u00e9 assim?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O capitalismo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O mercado capitalista move-se por meio de umas poucas centenas de empresas globais, sediadas em alguns poucos pa\u00edses dominantes, em um sistema imperialista mundial. O movimento do mercado capitalista \u00e9 um movimento cego e incontrol\u00e1vel. O que cada empresa individual deve e necessita fazer, para se expandir e elevar seus lucros, jamais coincide com as necessidades da sociedade em seu conjunto e nem mesmo com as necessidades das demais empresas.<\/p>\n\n\n\n<p>Para elevar seus lucros, cada empresa utiliza as novas tecnologias para demitir o m\u00e1ximo poss\u00edvel de trabalhadores, reduzindo, assim, seus custos e elevando os seus lucros. Quando as mercadorias s\u00e3o barateadas pelo desenvolvimento tecnol\u00f3gico, procuram reduzir os sal\u00e1rios com o mesmo objetivo. Uma empresa eficiente \u00e9 a que gasta o m\u00ednimo poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Acontece que s\u00e3o esses mesmos trabalhadores que ir\u00e3o comprar quase toda a riqueza produzida e uma massa de trabalhadores desempregados, informais e sem emprego, pouco ou nada podem comprar. No fim das contas, para crescerem e se expandirem, as pr\u00f3prias empresas minam a base de sua expans\u00e3o. Como cada empresa visa elevar seus lucros o mais r\u00e1pido poss\u00edvel, as condi\u00e7\u00f5es naturais e ambientais s\u00e3o ignoradas, sejam quais forem os efeitos de m\u00e9dio e longo prazo.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma disputa por mercados mundiais se instaura entre os capitais que n\u00e3o mais conseguem se expandir, mas precisam se expandir para sobreviver.<\/p>\n\n\n\n<p>Afinal, o mais ostentador dos propriet\u00e1rios n\u00e3o conseguiria gastar em seu consumo pr\u00f3prio nem sequer 1% dos lucros bilion\u00e1rios que extraem todos os anos de uma massa de centenas de milhares de trabalhadores. Com isso, agravam o problema ao procurarem elevar ainda mais a explora\u00e7\u00e3o de seus trabalhadores, ancorando-se em diversas formas de opress\u00e3o: de g\u00eanero, ra\u00e7a-etnia, nacionalidade, orienta\u00e7\u00e3o sexual etc.<\/p>\n\n\n\n<p>A \u00faltima v\u00e1lvula de escape \u00e9 o Estado. Uma primeira sa\u00edda \u00e9 expandir o capital para o setor p\u00fablico, privatizando empresas estatais que j\u00e1 existem. Mas, n\u00e3o adianta se expandir se, em cada mercado, temos cada vez menos compradores: a massa de trabalhadores dia ap\u00f3s dia assolada por esse processo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 a\u00ed que o Estado entra como um dos principais compradores das empresas privadas por meio do gasto p\u00fablico. E n\u00e3o para por a\u00ed. Quando n\u00e3o h\u00e1 possibilidade alguma de expans\u00e3o, os capitalistas colocam, ainda, seus capitais no Estado na forma de t\u00edtulos p\u00fablicos, recebendo os juros \u00e0s custas da sociedade inteira.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas essa sa\u00edda \u00e9 como tapar o sol com a peneira. Seu alcance \u00e9 limitado. O Estado extrai sua riqueza da enorme massa de trabalhadores, cuja renda cai dia ap\u00f3s dia, e, em menor parte, dessas mesmas empresas capitalistas que n\u00e3o mais conseguem se expandir. Ele apenas prenuncia uma explos\u00e3o ainda maior.<\/p>\n\n\n\n<p>Torna-se evidente, ent\u00e3o, porque o socialismo que se apoia no Estado e em seus governos para gerir o capitalismo fracassou no passado e continuar\u00e1 a fracassar no futuro. Independente das inten\u00e7\u00f5es dos governantes, o Estado est\u00e1 organicamente conectado ao capital privado e os espa\u00e7os de interven\u00e7\u00e3o que ele oferece s\u00e3o m\u00ednimos. No lugar de serem progressistas e o mal menor, governos mais ou menos intervencionistas se alternam conforme as necessidades de valoriza\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio capital.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Necessidade do socialismo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, mais ainda do que no passado, \u00e9 necess\u00e1rio ser socialista. A realidade atual exige uma revolu\u00e7\u00e3o completa na forma de sociedade. Mas, n\u00e3o adianta dar murro em ponta de faca. O verdadeiro socialismo do s\u00e9culo 21 \u00e9 aquele que se apoia na \u00fanica elabora\u00e7\u00e3o que sobreviveu a todo esse vai e vem, esse frenesi.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio organizar a classe trabalhadora de forma independente, n\u00e3o para eleger esse ou aquele governo de plant\u00e3o, supostamente socialista, mas para que trabalhadores e trabalhadoras sejam sujeitos do processo.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o eles e elas que devem se organizar e tomar o poder de modo a constituir, de forma independente e democraticamente, o seu pr\u00f3prio Estado, destruindo o anterior, com o objetivo de reconfigurar a sociedade sob novas bases. Que devem colocar a tecnologia ou todo o desenvolvimento acumulado por mil\u00eanios pela humanidade a servi\u00e7o de seus pr\u00f3prios interesses e necessidades, de modo planejado, consciente, democr\u00e1tico e racional.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante de toda experi\u00eancia hist\u00f3rica, hoje, esse \u00e9 o \u00fanico socialismo pelo qual vale a pena lutar. Ou melhor, pelo qual \u00e9 necess\u00e1rio lutar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O surgimento, na Hist\u00f3ria, de socialistas e de movimentos socialistas n\u00e3o foi uma cria\u00e7\u00e3o a partir do nada, por parte de idealistas e vision\u00e1rios, mas coincide com o amplo desenvolvimento do capitalismo. A desigualdade, a opress\u00e3o e a domina\u00e7\u00e3o na rela\u00e7\u00e3o entre os seres humanos n\u00e3o eram novidades. 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