{"id":79414,"date":"2024-08-14T15:08:43","date_gmt":"2024-08-14T15:08:43","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=79414"},"modified":"2024-08-14T15:08:46","modified_gmt":"2024-08-14T15:08:46","slug":"peru-cinquenta-anos-lutando-pela-construcao-do-partido-da-revolucao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2024\/08\/14\/peru-cinquenta-anos-lutando-pela-construcao-do-partido-da-revolucao\/","title":{"rendered":"Peru: Cinquenta anos lutando pela constru\u00e7\u00e3o do Partido da Revolu\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Foi nos feriados nacionais (28 e 29 de julho) de 1974, que um grupo de jovens militantes fundou nosso partido, o <strong>Partido Socialista dos Trabalhadores (PST) <\/strong>no Peru. Queremos recordar fazendo um tour pela nossa hist\u00f3ria e um breve balan\u00e7o diante do objetivo ao qual nos propusemos, expondo tamb\u00e9m as tarefas do presente. Fazemos isso como uma mensagem aberta \u00e0 vanguarda da classe trabalhadora e aos homens e mulheres que hoje lutam e sonham em conquistar um novo mundo com o socialismo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: Sim\u00f3n Lazara \u2013 PST \/ Peru<\/p>\n\n\n\n<p>O PST foi fundado com um programa para fazer a revolu\u00e7\u00e3o socialista no Peru, como parte da luta pela revolu\u00e7\u00e3o mundial, atrav\u00e9s da conquista de um governo dos trabalhadores. Cinco d\u00e9cadas depois, embora ainda sejamos um grupo, a profunda degrada\u00e7\u00e3o social que os trabalhadores e os pobres est\u00e3o experimentando enquanto a burguesia est\u00e1 enriquecendo mais do que nunca, mostram que essa necessidade n\u00e3o apenas ainda est\u00e1 em vigor, mas se tornou urgente para salvar a n\u00f3s e \u00e0 maioria da barb\u00e1rie capitalista.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 50 anos, cometemos in\u00fameros erros e tivemos \u2013 e temos \u2013 muitas outras fraquezas que explicam o fato de que hoje somos um pequeno grupo militante. N\u00e3o \u00e9 uma justificativa, mas basta lembrar que temos uma tarefa hist\u00f3rica em nossas costas, \u00e0 qual apenas o Partido Bolchevique liderado por Lenin e Trotsky conseguiu responder corretamente e com sucesso.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, podemos dizer que, em uma \u00e9poca onde, infelizmente, se perderam e se perdem gera\u00e7\u00f5es inteiras para a revolu\u00e7\u00e3o, e com pouca gl\u00f3ria e muita honra, preservamos para a classe trabalhadora peruana a luta para estabelecer um verdadeiro partido revolucion\u00e1rio. \u00c9 por isso que o PST hoje \u00e9 uma realidade presente e uma ferramenta de luta pelo poder para as novas gera\u00e7\u00f5es de oper\u00e1rios\/as e o povo pobre de nosso pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Nossas origens<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O PST foi fundado em 1974, mas sua hist\u00f3ria e ra\u00edzes foram profunda e solidamente plantadas muito antes. Como muitos sabem, fazemos parte da corrente hist\u00f3rica que continua o legado do Partido Bolchevique que fez a Revolu\u00e7\u00e3o Russa de 1917 e fundou a Terceira Internacional, mas que foi degenerado pelo stalinismo, da corrente da Quarta Internacional fundada por Leon Trotsky, que ainda hoje continua sendo a \u00fanica promessa revolucion\u00e1ria que a humanidade tem.<\/p>\n\n\n\n<p>A luta de Trotsky contra o stalinismo come\u00e7ou em 1925 e culminou em seu vil assassinato pelos sic\u00e1rios de Stalin em 1940, logo ap\u00f3s a funda\u00e7\u00e3o da Quarta Internacional. Localizado nos ant\u00edpodas da luta de classes mundial, o marxismo apareceu no Peru com Jos\u00e9 Carlos Mari\u00e1tegui, no final dos anos 20 do s\u00e9culo passado, e os primeiros peruanos a abra\u00e7ar o trotskismo foram intelectuais que naqueles anos viajaram para a Europa. Mari\u00e1tegui morreu prematuramente em 1930 e o Partido Socialista que ele fundou tamb\u00e9m foi degenerado pelo stalinismo e convertido (ao contr\u00e1rio da posi\u00e7\u00e3o que o pr\u00f3prio Mari\u00e1tegui havia defendido expressamente) no Partido Comunista Peruano. Assim, naqueles anos, a mera men\u00e7\u00e3o de Trotsky e do trotskismo era marcada como contrarrevolucion\u00e1ria e pass\u00edvel de assassinato.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 nesse contexto que, em 1944, um grupo de oper\u00e1rios t\u00eaxteis, militantes desse Partido Comunista, que lideravam uma greve do sindicato t\u00eaxtil, rompeu com esse partido porque este lhes tinha ordenado trair a greve para apoiar o governo burgu\u00eas e olig\u00e1rquico de Manuel Prado, a quem, na \u00e9poca, se qualificava como o &#8220;Stalin peruano&#8221; por sua posi\u00e7\u00e3o na Segunda Guerra Mundial. Ap\u00f3s a ruptura, esses militantes formaram o <strong>Grupo Oper\u00e1rio Revolucion\u00e1rio (GOR),<\/strong> que com o tempo abra\u00e7ou o trotskismo e a Quarta Internacional, iniciando no Peru a batalha pela continuidade do aut\u00eantico marxismo revolucion\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Em <strong>1948<\/strong>, o GOR se tornou o <strong>Partido Oper\u00e1rio Revolucion\u00e1rio (POR)<\/strong> e fez parte da forma\u00e7\u00e3o do Secretariado Latino-Americano do Trotskismo Ortodoxo (SLATO), o primeiro esbo\u00e7o da lideran\u00e7a revolucion\u00e1ria continental onde se destaca o dirigente argentino <strong>Nahuel Moreno<\/strong>, que com o tempo se tornou a figura mais importante do trotskismo latino-americano.<\/p>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio dos <strong>anos 60<\/strong> e sob a lideran\u00e7a do SLATO, sendo ainda um grupo, o POR formou a <strong>Frente de Esquerda Revolucion\u00e1ria<\/strong> (FIR) abarcando outros pequenos grupos. Isso foi feito com um plano audaz e determinado: <strong>levar a cabo a revolu\u00e7\u00e3o agr\u00e1ria no Peru<\/strong>, como parte da sua estrat\u00e9gia para a revolu\u00e7\u00e3o socialista. O continente foi sacudido pelo triunfo da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana e muitos procuraram seguir seu exemplo. O Peru era ent\u00e3o uma sociedade predominantemente agr\u00e1ria com a propriedade da terra concentrada em um punhado de fazendeiros que exploravam milh\u00f5es de camponeses com formas de trabalho servil. A FIR, com <strong>Hugo Blanco <\/strong>\u00e0 frente, tornou seu plano realidade desencadeando, no campo, um processo de sindicaliza\u00e7\u00e3o massiva com ocupa\u00e7\u00f5es de terras, greves e enfrentamentos com fazendeiros e policiais, inclusive com autodefesa armada, que foi aplacado por uma repress\u00e3o sangrenta que levou o pr\u00f3prio Blanco, os l\u00edderes camponeses e quase toda a milit\u00e2ncia da FIR para a pris\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Fizeram uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o, que encheu nossa corrente de gl\u00f3ria e elevou a figura do pr\u00f3prio Hugo Blanco no cen\u00e1rio internacional; seu triunfo foi consagrado em 1969, quando o governo militar nacionalista de Velasco Alvarado promulgou a Lei de Reforma Agr\u00e1ria que acabou com as fazendas e entregou a terra aos camponeses. Mas o partido foi destru\u00eddo, n\u00e3o apenas pela repress\u00e3o, mas tamb\u00e9m pela coopta\u00e7\u00e3o de numerosos militantes por esse governo burgu\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A funda\u00e7\u00e3o do PST e os anos 70 e 80<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Aqueles que anos depois fundaram o PST eram alguns quadros e militantes que vieram desse processo; em sua maioria jovens, mas suas ra\u00edzes j\u00e1 eram grandes e profundas. A situa\u00e7\u00e3o j\u00e1 era outra.<\/p>\n\n\n\n<p>O pa\u00eds vivia uma nova realidade marcada pelo fracasso do modelo desenvolvimentista e de substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es do governo militar de Velasco, e que daria in\u00edcio a outro processo revolucion\u00e1rio, o mais longo, intenso e com protagonismo oper\u00e1rio da hist\u00f3ria nacional. Contra as medidas de austeridade e repress\u00e3o, vieram greves, paralisa\u00e7\u00f5es e enfrentamentos, que atingiram seu auge em 19 de julho de 1977, com a realiza\u00e7\u00e3o de uma greve geral com caracter\u00edsticas semi-insurrecionais, que conseguiu p\u00f4r fim \u00e0 ditadura militar, for\u00e7ando-a a convocar elei\u00e7\u00f5es para uma Assembleia Constituinte.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi nesse per\u00edodo, e j\u00e1 alimentado por uma nova for\u00e7a militante, que o PST alcan\u00e7ou um de seus melhores acertos: junto com outras organiza\u00e7\u00f5es (entre elas o Partido Oper\u00e1rio Marxista Revolucion\u00e1rio \u2013 POMR de Ricardo Napur\u00ed, que era a organiza\u00e7\u00e3o mais forte e parte de outra corrente internacional), formou a Frente de Oper\u00e1rios, Camponeses e Estudantes do Peru (FOCEP) como uma op\u00e7\u00e3o independente e de classe para participar das elei\u00e7\u00f5es para a Assembleia Constituinte convocadas para meados de 1978. Nesta elei\u00e7\u00e3o, o FOCEP obteve cerca de 30% dos votos nacionais, conquistou 12 cadeiras na assembleia e Hugo Blanco foi o terceiro mais votado: foi uma vit\u00f3ria espetacular, considerando que v\u00ednhamos do nada em compara\u00e7\u00e3o com os enormes aparatos da esquerda stalinista, mao\u00edsta e centrista, que ficaram relegados.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa vit\u00f3ria, no entanto, durou pouco. Pagamos caro o custo de sermos pequenas organiza\u00e7\u00f5es com uma montanha de votos, em meio \u00e0 crise de dire\u00e7\u00e3o da Quarta Internacional que nos privou da possibilidade de aproveitar esta oportunidade extraordin\u00e1ria para criar um aut\u00eantico partido revolucion\u00e1rio que liderasse o processo rumo \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o. Como resultado, Hugo Blanco rompe com o PST e o FOCEP e come\u00e7a o caminho para o centrismo. O &#8220;retorno \u00e0 democracia&#8221;, que corrompeu toda a esquerda stalinista e reformista, pressionou nossa organiza\u00e7\u00e3o que, em resposta, construiu a Frente Eleitoral &#8220;Trabalhadores ao Poder&#8221; junto com o POMR e o pr\u00f3prio Hugo Blanco, mas j\u00e1 em uma din\u00e2mica de retrocesso.<\/p>\n\n\n\n<p>O espa\u00e7o deixado pela FOCEP foi preenchido pelo stalinismo e pelo centrismo que, junto com setores da burguesia e com o apoio de um imenso aparato, formaram <strong>a Esquerda \u00danica (IU),<\/strong> uma t\u00edpica &#8220;frente popular&#8221;. Assim, a IU ocupou o espa\u00e7o eleitoral de esquerda por uma d\u00e9cada, tornando-se um fen\u00f4meno de massas, empurrando o PST para a marginalidade, apesar da fus\u00e3o com o setor POMR liderado por Ricardo Napur\u00ed, expulso pela corrente internacional \u00e0 qual aderiram ap\u00f3s uma profunda crise.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse fen\u00f4meno, em particular o surgimento da frente popular ocupando o imenso espa\u00e7o da esquerda em uma situa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, teve um impacto profundo na luta de classes. IU freou o impulso revolucion\u00e1rio das massas para enquadr\u00e1-lo dentro do parlamentarismo burgu\u00eas e recriar ilus\u00f5es no regime democr\u00e1tico rec\u00e9m-restabelecido, com a pauta de ocupar cargos no Estado e assumir o governo do pa\u00eds; entretanto, os sectores mais radicalizados da vanguarda, especialmente dos estudantes, foram atra\u00eddos pela &#8220;luta armada&#8221; iniciada pelo Sendero Luminoso (SL), fora das organiza\u00e7\u00f5es de massas e contra elas, aceitando uma lideran\u00e7a messi\u00e2nica de natureza mao\u00edsta. Assim, sob as pin\u00e7as do imenso aparato da IU que concilia com a burguesia e a subvers\u00e3o do SL com carros-bomba, o ascenso se desgastou e em meio a uma enorme confus\u00e3o onde n\u00e3o se via sa\u00eddas, amplos setores das massas elegeram Alberto Fujimori em 1990.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 assim que esta longa etapa revolucion\u00e1ria chegar\u00e1 ao fim. Tinha como \u00fanica sa\u00edda positiva o triunfo da revolu\u00e7\u00e3o socialista no pa\u00eds, sentimento nitidamente manifestado no voto massivo em Hugo Blanco e nas organiza\u00e7\u00f5es trotskistas que encarn\u00e1vamos tal programa. A perda da imensa oportunidade que a FOCEP significou devido \u00e0 crise de dire\u00e7\u00e3o da Quarta Internacional, tamb\u00e9m representar\u00e1 a perda dessa possibilidade, deixando o caminho aberto para uma nova trai\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica dos aparatos stalinistas e centristas, e de seu aborto que significou o Sendero Luminoso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Uma nova etapa<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Fujimori abriu uma etapa de sinal oposto, ditatorial e neoliberal, que trouxe uma derrota hist\u00f3rica para a vanguarda do proletariado, que havia nascido no calor da luta contra a ditadura militar, e para as organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias que duraria uma d\u00e9cada.<\/p>\n\n\n\n<p>Como resultado de uma insurg\u00eancia democr\u00e1tica, o novo s\u00e9culo se abriu com a queda da ditadura de Fujimori, respons\u00e1vel por m\u00faltiplos genoc\u00eddios, corrup\u00e7\u00e3o e rendi\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, e o sistema democr\u00e1tico parlamentar foi restaurado. O novo regime configurado pela Constitui\u00e7\u00e3o de 1993 ser\u00e1 de democracia neocolonial e neoliberal, ou seja, um pa\u00eds cuja economia permanece amarrada \u00e0 domina\u00e7\u00e3o imperialista e sob um regime autorit\u00e1rio; um regime em que o Estado mant\u00e9m os resqu\u00edcios racistas da rep\u00fablica aristocr\u00e1tica e colonial combinados com a nova ideologia neoliberal da classe dominante.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi sob este regime, com governos de direita (Alan Garc\u00eda, PPK) e &#8220;esquerda&#8221; (Ollanta Humala, Pedro Castillo) que a continuidade do modelo ser\u00e1 mantida por mais de duas d\u00e9cadas, protegida por um sistema repressivo que se abate contra toda resist\u00eancia e luta, especialmente aquelas que s\u00e3o dirigidas contra as empresas de minera\u00e7\u00e3o que se tornaram os novos donos do Peru. Este regime mostrou toda a sua ess\u00eancia e car\u00e1ter reacion\u00e1rio em v\u00e1rias ocasi\u00f5es: na pandemia, quando empurrou meio milh\u00e3o de trabalhadores e pobres para a morte sem a m\u00ednima prote\u00e7\u00e3o e seguran\u00e7a m\u00e9dicas; na corrup\u00e7\u00e3o generalizada demonstrada pela burguesia, seus partidos e o Estado; na rea\u00e7\u00e3o que desencadearam contra a elei\u00e7\u00e3o e o governo com o apoio ind\u00edgena e popular de Pedro Castillo e, sobretudo, na repress\u00e3o genocida que desencadeou contra a rebeli\u00e3o no sul dos Andes, causando mais de cinquenta v\u00edtimas de balas e centenas de feridos graves. Tudo para preservar um regime mais corrupto, mais inepto e que a cada dia afunda mais as maiorias na pobreza, enquanto as corpora\u00e7\u00f5es n\u00e3o param de ganhar.<\/p>\n\n\n\n<p>Em duas d\u00e9cadas desta &#8220;democracia burguesa&#8221; as lutas foram numerosas e radicais, como esta \u00faltima que explodiu abertamente contra o regime que n\u00e3o aceita um vislumbre de reforma. Mas n\u00e3o triunfaram por uma \u00fanica raz\u00e3o: a trai\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica de todos os aparatos esquerdistas e da central sindical que eles controlam. E isso porque, mais que capitular ao regime, essa &#8220;esquerda&#8221; em todas as suas variantes se incorporou a ele, tentando humaniz\u00e1-lo por dentro, ocupando cargos no Estado e aspirando a governar. Por isso sua pauta n\u00e3o tem sido as lutas, mas foi e continua sendo eleitoral.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Nosso Partido e a Classe Oper\u00e1ria<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Durante todo esse per\u00edodo, nosso pequeno grupo lutou para estabelecer uma dire\u00e7\u00e3o alternativa; mas com os espa\u00e7os mais fechados e com uma for\u00e7a muito menor do que no passado, teve s\u00e9rias dificuldades para alcan\u00e7\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das caracter\u00edsticas do novo modelo neoliberal \u00e9 que tamb\u00e9m produziu o surgimento de um novo e numeroso proletariado, mas em sua grande maioria informal, muito prec\u00e1rio e extraordinariamente fragmentado e, portanto, com imensos obst\u00e1culos para forjar sua unidade e desenvolver suas organiza\u00e7\u00f5es de classe e que s\u00f3 se manifestam em situa\u00e7\u00f5es de explos\u00e3o social. O setor oper\u00e1rio, que parecia mais concentrado nas novas atividades industriais e mineiras, mostrou uma atividade din\u00e2mica entre 2005 e 2020, e desencadeou uma onda de sindicaliza\u00e7\u00e3o e lutas fragmentadas, muitas vezes heroicas, que arrancaram pequenas conquistas, estabeleceram pequenos sindicatos combativos e deram origem a uma vanguarda de lutadores.<\/p>\n\n\n\n<p>V\u00e1rios desses lutadores antiburocr\u00e1ticos se aproximaram de n\u00f3s e realizamos experi\u00eancias extraordin\u00e1rias construindo espa\u00e7os independentes que desempenharam pap\u00e9is de lideran\u00e7a em lutas decisivas como a que conseguiu derrotar a Lei Pulp\u00edn (que buscava precarizar as condi\u00e7\u00f5es de trabalho) e a luta contra as demiss\u00f5es coletivas. Mas esses lutadores n\u00e3o avan\u00e7aram para se juntar ao nosso partido, ent\u00e3o n\u00e3o pudemos dar o salto para nos construirmos como um polo alternativo de dire\u00e7\u00e3o que garantisse seu avan\u00e7o. No final, esse processo foi derrotado em meio aos golpes infligidos pelos patr\u00f5es e pela pr\u00f3pria burocracia, e com isso a classe oper\u00e1ria e nosso partido sofreram retrocessos.<\/p>\n\n\n\n<p>T\u00e3o evidente foi esse avan\u00e7o em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 possibilidade de estabelecer uma dire\u00e7\u00e3o alternativa que a burocracia da CGTP <strong>emitiu uma resolu\u00e7\u00e3o em uma Assembleia Nacional em 2015, declarando o PST como um &#8220;inimigo&#8221;, com o voto e a cumplicidade da maioria dos grupos autodenominados de esquerda. <\/strong>Em sua defesa, o PST ficaria apenas com o apoio dos lutadores oper\u00e1rios, mas sem a possibilidade de poder desafiar a burocracia e suas amea\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>A derrota da rebeli\u00e3o no sul dos Andes no in\u00edcio de 2023 \u00e9 consumada em particular pelo seu isolamento da classe oper\u00e1ria urbana, agora sob o controle f\u00e9rreo dessa mesma burocracia e sem nenhuma refer\u00eancia importante que possa combat\u00ea-la por dentro. Foi assim que se teceu o novo manto reacion\u00e1rio que cobre o pa\u00eds nos dias de hoje.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A nova situa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Desta forma, a continuidade da crise de dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria deu origem a uma situa\u00e7\u00e3o sem precedentes no pa\u00eds. Enquanto se aprofunda a crise social em que crescem todos os \u00edndices de pobreza e se desferem golpes contra a classe trabalhadora, suportamos o regime mais odiado de nossa hist\u00f3ria e os assassinos de ontem e seus porta-vozes mais reacion\u00e1rios caminham livres com ares de festa, sem que ocorra um novo levante. Essas mesmas dire\u00e7\u00f5es traidoras se empenham agora para canalizar esse gigantesco descontentamento para a sa\u00edda eleitoral de 2026, sustentando suas pr\u00f3prias candidaturas, mas fazendo o jogo aos planos da rea\u00e7\u00e3o que se preparam para impor-se nelas para ampliar sua festa.<\/p>\n\n\n\n<p>O que \u00e9 evidente e definitivo para n\u00f3s e para os setores mais conscientes \u00e9 que n\u00e3o haver\u00e1 uma sa\u00edda para os trabalhadores e as maiorias pobres por esta via: s\u00f3 resta lutar retomando o caminho que o levante no sul dos Andes iniciou. Mesmo em meio da esteira cinzenta que nos cerca, as lutas n\u00e3o desapareceram nem por um minuto. H\u00e1 lutas, por exemplo, contra a ofensiva dos patr\u00f5es mineiros que querem implementar projetos que a popula\u00e7\u00e3o rejeita, como o de Tia Mar\u00eda. S\u00e3o lutas com sinal defensivo, num contexto onde o cansa\u00e7o, a ang\u00fastia econ\u00f4mica e a desconfian\u00e7a nas dire\u00e7\u00f5es ainda dominam, e sobre o qual agora os traidores habituais voltam a semear as ilus\u00f5es eleitorais de sempre.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo passando pela via eleitoral, as lutas voltar\u00e3o com mais for\u00e7a porque n\u00e3o houve e n\u00e3o haver\u00e1 uma solu\u00e7\u00e3o dentro do regime e do sistema, que devem ser derrotados com uma revolu\u00e7\u00e3o. Para que isso aconte\u00e7a e acima de tudo triunfe, n\u00e3o basta a luta determinada e corajosa, mas \u00e9 necess\u00e1ria uma nova dire\u00e7\u00e3o, uma dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria como a constru\u00edda pelo PST, vinculada e arrastando os setores combativos da classe oper\u00e1ria industrial. Por isso que toda a nossa energia continuar\u00e1 sendo dedicada a nos construirmos nesses segmentos da classe oper\u00e1ria e em cada uma dessas lutas que ocorrem, nos esfor\u00e7ando para convencer e ganhar os melhores ativistas que surgem delas para se juntarem \u00e0s nossas fileiras. Uma nova dire\u00e7\u00e3o para a revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Para o futuro<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>50 anos depois, o PST continua firme e mais do que nunca fazendo a mesma tarefa. \u00c9 caracter\u00edstico dos revolucion\u00e1rios retroceder e cair, mas sempre nos levantamos para continuar nosso caminho. A ningu\u00e9m foi f\u00e1cil, nem para Marx, Lenin, Rosa Luxemburgo ou Trotsky, que s\u00e3o nossos exemplos em todos os sentidos. Por isso somos e forjamos quadros comprometidos com esta tarefa revolucion\u00e1ria \u00e0 qual dedicamos nossas vidas.<\/p>\n\n\n\n<p>De um \u00e2ngulo mais cr\u00edtico, podemos dizer que cometemos erros que impediram ou retardaram nosso desenvolvimento. Certamente: nosso longo caminho est\u00e1 repleto de erros de v\u00e1rios tipos e n\u00e3o temos vergonha de aceit\u00e1-los, porque tamb\u00e9m nisso somos revolucion\u00e1rios. Mas, essencialmente, reconhecemos que temos muita debilidade para a imensa tarefa que colocamos em nossos ombros.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, se devemos destacar algo para explicar nossa perseveran\u00e7a e f\u00e9 em nosso projeto revolucion\u00e1rio, s\u00e3o duas raz\u00f5es fundamentais: nossa localiza\u00e7\u00e3o na classe oper\u00e1ria e nossa luta pela Internacional. Nosso programa \u00e9 para que a classe oper\u00e1ria o realize e por isso nunca nos desligamos dela, nem o PST nem os nossos antecessores. Estivemos com ela apesar de todas as suas limita\u00e7\u00f5es e das nossas pr\u00f3prias limita\u00e7\u00f5es, nos bons e maus momentos, e isso deu-nos coer\u00eancia e estabilidade, mesmo que tenha feito e fa\u00e7a o caminho mais longo.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, nascemos e nos formamos como militantes internacionalistas, e tamb\u00e9m nisso persistimos sempre. Acima de n\u00f3s esteve e sempre estar\u00e1 a constru\u00e7\u00e3o da Internacional, concentrando nossos principais esfor\u00e7os e recursos, porque antes de tudo a luta de classes \u00e9 mundial e n\u00e3o h\u00e1 como fazer a revolu\u00e7\u00e3o socialista em um pa\u00eds sem essa dire\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o internacional. Por isso, 50 anos depois, celebramos fazer parte da Liga Internacional dos Trabalhadores, LIT-QI, a corrente revolucion\u00e1ria que na Am\u00e9rica Latina herda a batalha que iniciamos com o SLATO.<\/p>\n\n\n\n<p>A LIT-QI hoje re\u00fane partidos e militantes de v\u00e1rios pa\u00edses do mundo, e militantes e quadros com uma trajet\u00f3ria revolucion\u00e1ria exemplar que a localiza como uma aut\u00eantica alternativa de dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, tamb\u00e9m deve ser reconhecido, nada do que foi dito nos tornou invulner\u00e1veis e os problemas de constru\u00e7\u00e3o do nosso partido e da nossa pr\u00f3pria Internacional tem sido permanentes. Esses problemas nos trouxeram crises, rupturas e afastamentos de muitos companheiros; ainda hoje. Trata-se sempre de discuss\u00f5es sobre as an\u00e1lises e respostas que damos \u00e0 realidade, de atualiza\u00e7\u00e3o de nossas pol\u00edticas, teorias e programas diante das mudan\u00e7as na luta de classes. Essas mudan\u00e7as tem sido consider\u00e1veis nos \u00faltimos 40 anos, ap\u00f3s a queda da ex-URSS e do chamado campo socialista, e isso trouxe discuss\u00f5es permanentes em nosso interior. Por isso para o PST, para entender e nos orientarmos corretamente para nosso prop\u00f3sito de nos construir como uma alternativa de dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, devemos continuar fazendo parte de todas essas discuss\u00f5es e batalhas, contribuindo com nosso pr\u00f3prio gr\u00e3o de areia.<\/p>\n\n\n\n<p>O que contribu\u00edmos ou podemos contribuir em tudo isso? Na ruptura que afetou nossa internacional e nosso partido em 1992, defendemos o partido e a internacional de qualquer ataque fracionalista e de sua preserva\u00e7\u00e3o como organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias democr\u00e1ticas e centralizadas. Por causa dessa batalha de princ\u00edpios, continuamos vigentes, enquanto os fracionalistas quase desapareceram.<\/p>\n\n\n\n<p>Da mesma forma, na era neoliberal do &#8220;vale tudo&#8221; que normalizou a degenera\u00e7\u00e3o moral de quadros e dirigentes, o PST respondeu esfor\u00e7ando-se para ser fiel \u00e0 melhor tradi\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, punindo severamente as faltas morais de nossos militantes e especialmente de dire\u00e7\u00f5es, mesmo \u00e0 custa de seus afastamentos; porque estamos convencidos de que n\u00e3o h\u00e1 como contornar ou enganar nosso programa e princ\u00edpios sem pagar seu alto pre\u00e7o. Por isso continuamos aqui.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de 50 anos, podemos dizer ent\u00e3o, com grande honra que, em meio \u00e0s grandes mudan\u00e7as mundiais, quando grandes setores da esquerda se adaptaram e se adaptam \u00e0 ordem capitalista exercendo imensas press\u00f5es de diferentes tipos sobre nossas fileiras, preservamos nossa organiza\u00e7\u00e3o fazendo parte das lutas, principalmente da classe oper\u00e1ria, para nos construirmos como uma dire\u00e7\u00e3o alternativa, ao mesmo tempo em que lutamos e continuamos lutando pela constru\u00e7\u00e3o de nossa Internacional, a LIT-QI, como alternativa de dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria mundial, preservando a ess\u00eancia de nossa trajet\u00f3ria revolucion\u00e1ria e o exemplo de nossos mestres, dos quais nos sentimos orgulhosos profundamente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>In memoriam<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, ao celebrarmos o 50\u00ba anivers\u00e1rio de nossa exist\u00eancia, n\u00e3o podemos deixar de lembrar os camaradas que forjaram nossas ra\u00edzes. Especialmente <strong>Nahuel Moreno<\/strong>, que teve uma presen\u00e7a ativa e direta na constru\u00e7\u00e3o de nosso partido e inspirou o plano para a revolu\u00e7\u00e3o peruana, e que continua sendo a refer\u00eancia fundamental da nossa luta. A <strong>Hugo Blanco<\/strong>, que viveu sua \u00e9poca mais gloriosa como l\u00edder revolucion\u00e1rio, nas fileiras da nossa corrente e do nosso partido. E <strong>F\u00e9lix &#8220;Mocho&#8221; Zevallos<\/strong>, o l\u00edder t\u00eaxtil que fundou o trotskismo oper\u00e1rio no Peru e foi membro do SLATO.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste momento, tamb\u00e9m prestamos homenagem aos companheiros que deram suas vidas como militantes em nossas fileiras: o l\u00edder mineiro <strong>Santos D\u00e1vila Bravo<\/strong>, tamb\u00e9m dirigente do nosso partido; o militante oper\u00e1rio vital\u00edcio <strong>Lucio La Torre<\/strong>; o l\u00edder da luta dos povos amaz\u00f4nicos <strong>Jos\u00e9 Sicchar Vald\u00e9z<\/strong>. E especialmente \u00e0 nossa companheira <strong>Noem\u00ed Benito Di Lorenzo<\/strong>, um exemplo argentino de militante internacionalista, falecida recentemente.<\/p>\n\n\n\n<p>E queremos agradecer e estender um abra\u00e7o afetuoso aos ex-companheiros e agora amigos que est\u00e3o aposentados por motivos de idade, como <strong>Ricardo Napur\u00ed, <\/strong>&nbsp;uma enorme personalidade que contribuiu e deu muito brilho ao nosso partido durante uma \u00e9poca e que foi fundamental para a continuidade do PST; e \u00e0 figura de <strong>Magda Benavides<\/strong>,&nbsp; dirigente sindical exemplar, lutadora pelos direitos das mulheres e ex figura do nosso partido.<\/p>\n\n\n\n<p>Com essa imensa heran\u00e7a de homens e mulheres que dedicaram seus esfor\u00e7os e vidas construindo nosso partido, e diante da nova etapa em que vivemos, a milit\u00e2ncia e os quadros do PST, ao completarem 50 anos de combate inabal\u00e1vel, reafirmamos diante da classe oper\u00e1ria e dos lutadores\/as com os punhos erguidos e bem alto, nosso compromisso de continuar a batalha pela constru\u00e7\u00e3o do partido, estreitamente ligado \u00e0 nossa Internacional, para tornar poss\u00edvel o triunfo da revolu\u00e7\u00e3o socialista em nosso pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Viva o PST! Viva a LIT-CI! At\u00e9 o socialismo, sempre!<\/p>\n\n\n\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: L\u00edlian Enck<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi nos feriados nacionais (28 e 29 de julho) de 1974, que um grupo de jovens militantes fundou nosso partido, o Partido Socialista dos Trabalhadores (PST) no Peru. Queremos recordar fazendo um tour pela nossa hist\u00f3ria e um breve balan\u00e7o diante do objetivo ao qual nos propusemos, expondo tamb\u00e9m as tarefas do presente. 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