{"id":79358,"date":"2024-08-02T01:14:02","date_gmt":"2024-08-02T01:14:02","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=79358"},"modified":"2024-08-02T01:14:06","modified_gmt":"2024-08-02T01:14:06","slug":"para-entender-o-que-acontece-na-venezuela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2024\/08\/02\/para-entender-o-que-acontece-na-venezuela\/","title":{"rendered":"Para entender o que acontece na Venezuela"},"content":{"rendered":"\n<p><em>A atual situa\u00e7\u00e3o venezuelana, depois da fraude eleitoral ao servi\u00e7o da continuidade de Maduro e dos sectores patronais venezuelanos beneficiados pelo regime criado desde a \u00e9poca de Ch\u00e1vez, est\u00e1 no centro das not\u00edcias da imprensa mundial, especialmente na Am\u00e9rica Latina. A a\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea das massas venezuelanas revelou o seu cansa\u00e7o face a um regime que, partiu de ser refer\u00eancia para vastos setores da vanguarda latino-americana &#8220;de esquerda&#8221; durante a primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI, e acabou sendo revelado o seu patronal, parasit\u00e1rio e autorit\u00e1rio na medida em que, tal como outros pa\u00edses latino-americanos, se acabava o \u201cboom\u201d das mat\u00e9rias-primas e os pre\u00e7os do petr\u00f3leo foram caindo. Hoje, com uma enorme imigra\u00e7\u00e3o venezuelana em todos os cantos da nossa Am\u00e9rica, e as terr\u00edveis condi\u00e7\u00f5es de pobreza no pa\u00eds, \u00e9 necess\u00e1rio voltar a olhar para de onde vem este processo pol\u00edtico, que durante algum tempo foi chamado de \u201cSocialismo do s\u00e9culo XXI\u201d, distorcendo, como fez o stalinismo antes, a ideia de socialismo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: Alejandro Iturbe<\/p>\n\n\n\n<p>Como apontamos no pr\u00f3logo do livro \u201c<strong>Venezuela depois de Ch\u00e1vez: um balan\u00e7o necess\u00e1rio<\/strong>\u201d, publicado pela Editora Marxismo Vivo em 2013: <em>\u201cCom uma posi\u00e7\u00e3o extremamente minorit\u00e1ria dentro da esquerda, a LIT-QI tem mantido, desde o aparecimento de Ch\u00e1vez e o chavismo na cena pol\u00edtica, que os seus governos nunca foram \u201csocialistas\u201d: sustentamos que eram burgueses, isto \u00e9, ao servi\u00e7o da manuten\u00e7\u00e3o e da defesa do sistema o Estado capitalistas no pa\u00eds. N\u00f3s os consideramos, ao mesmo tempo, apenas muito mornamente anti-imperialistas, para al\u00e9m da ret\u00f3rica e de algumas medidas parciais, como certas nacionaliza\u00e7\u00f5es. Por isso nos colocamos sempre em oposi\u00e7\u00e3o a eles, a partir da esquerda, tentando defender um ponto de vista e uma pol\u00edtica da classe oper\u00e1ria. Um ponto de vista que incluiu, em 2002, a defesa ativa do seu governo contra o golpe pr\u00f3-imperialista e o lockout patronal. Por defendermos este ponto de vista de oposi\u00e7\u00e3o de classe temos sido acusados \u200b\u200bcom ep\u00edtetos e insultos como &#8216;agentes do imperialismo&#8217; ou &#8216;esquerda esqu\u00e1lida&#8217;.&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ep\u00edtetos que se repetem agora quando definimos o regime chefiado por Nicol\u00e1s Maduro como uma ditadura capitalista, com uma base social muito minorit\u00e1ria, apoiada pelo aparelho de Estado e pelo ex\u00e9rcito ao servi\u00e7o dos interesses do que se tem chamado \u201cboliburgues\u00eda\u201d. Uma ditadura que se sustenta com base na repress\u00e3o e na fraude eleitoral. Que, ao mesmo tempo, uma vez terminada a \u201cbonan\u00e7a petrol\u00edfera\u201d de que desfrutou nos seus primeiros anos, causou uma terr\u00edvel deteriora\u00e7\u00e3o nas condi\u00e7\u00f5es de vida dos trabalhadores e do povo venezuelano, o que gerou a emigra\u00e7\u00e3o de milh\u00f5es de venezuelanos para o exterior a fim de sobreviver.<\/p>\n\n\n\n<p>Este livro foi escrito logo ap\u00f3s a morte de Hugo Ch\u00e1vez e a sucess\u00e3o de Nicol\u00e1s como \u201ccomandante\u201d. De l\u00e1 at\u00e9 hoje aconteceram muitas coisas que levaram \u00e0 situa\u00e7\u00e3o atual. Mas o livro cont\u00e9m an\u00e1lises, defini\u00e7\u00f5es e caracteriza\u00e7\u00f5es essenciais para compreender o que est\u00e1 acontecendo hoje na Venezuela. Assim iniciamos uma s\u00e9rie em que ser\u00e3o publicados novamente diversos artigos escritos sobre acontecimentos importantes ocorridos desde 2013.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pr\u00f3logo do livro \u201cVenezuela depois de Ch\u00e1vez: um balan\u00e7o necess\u00e1rio\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ch\u00e1vez e o chavismo surgiram em um momento especial da realidade mundial. A queda da URSS, em 1991, e a restaura\u00e7\u00e3o capitalista no Leste europeu e na China provocaram um profundo giro \u00e0 direita nos programas, concep\u00e7\u00f5es e propostas pol\u00edticas da grande maioria da esquerda mundial. No contexto do que denominamos \u201cvendaval oportunista\u201d, n\u00e3o s\u00f3 a maioria das organiza\u00e7\u00f5es e correntes comunistas, mas tamb\u00e9m muitas das que se reivindicavam \u201crevolucion\u00e1rias\u201d e at\u00e9 \u201ctrotskistas\u201d abandonaram as propostas de mudan\u00e7a social pela via da revolu\u00e7\u00e3o socialista e passaram a defender uma pol\u00edtica e uma a\u00e7\u00e3o reformistas no sistema capitalista.<\/p>\n\n\n\n<p>Parte importante dessas correntes impulsionou um novo \u201cpossibilismo\u201d (a possibilidade de se mudar o mundo sem derrotar o capitalismo), o dos F\u00f3runs Sociais Mundiais, resumido na bandeira: \u201cOutro mundo \u00e9 poss\u00edvel\u201d. Outras adotaram a ideologia de \u201cmudar o mundo sem tomar o poder\u201d do brit\u00e2nico John Holloway, como o Ex\u00e9rcito Zapatista mexicano, que postula lutas de resist\u00eancia e a constru\u00e7\u00e3o de um \u201ccontrapoder popular\u201d sem destruir o poder central vigente.<\/p>\n\n\n\n<p>Ficava assim um vazio; milhares de ativistas \u2013 que intu\u00edam que sem luta de classes \u00e0 morte e sem a tomada do poder era imposs\u00edvel mudar as ra\u00edzes das injusti\u00e7as do capitalismo \u2013 ficaram sem nenhuma refer\u00eancia internacional clara.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse momento surgem Ch\u00e1vez e o chavismo, que haviam chegado ao poder na Venezuela, que falavam de \u201crevolu\u00e7\u00e3o bolivariana\u201d e a vestiam de vermelho, que lan\u00e7avam a proposta de Socialismo do S\u00e9culo XXI e que, em seus discursos, atacavam o imperialismo violentamente. Ch\u00e1vez chegou inclusive a reivindicar Trotsky e sua concep\u00e7\u00e3o de \u201crevolu\u00e7\u00e3o permanente\u201d. Come\u00e7ou, assim, a ocupar esse espa\u00e7o e a preencher esse vazio, e muitos ativistas e organiza\u00e7\u00f5es viram nele uma refer\u00eancia. Embora o chavismo nunca tenha tido uma forma organizativa centralizada, formou-se de fato uma corrente chavista internacional, de grande peso na Am\u00e9rica Latina e nos pa\u00edses semicoloniais, possivelmente uma das mais importantes dos \u00faltimos anos.<\/p>\n\n\n\n<p>O chavismo reproduziu o modelo de \u201crevolu\u00e7\u00e3o de cima para baixo\u201d, postulada por muitos movimentos nacionalistas burgueses e pelo stalinismo: o \u201cl\u00edder indiscut\u00edvel\u201d (o \u201ccomandante\u201d) orienta a revolu\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de instru\u00e7\u00f5es ou ordens. As massas acompanham e jogam, em \u00faltima inst\u00e2ncia, um papel secund\u00e1rio. Desde este ponto de vista, Ch\u00e1vez era a personifica\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A volta das massas \u00e0 cena<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nossa opini\u00e3o \u00e9 que a influ\u00eancia internacional do chavismo entrou em decad\u00eancia nos \u00faltimos anos. N\u00e3o \u00e9 que tenha desaparecido, ao contr\u00e1rio, continua muito forte, mas est\u00e1 em retrocesso tanto por raz\u00f5es objetivas quanto pelas atitudes e posi\u00e7\u00f5es internacionais adotadas pelo pr\u00f3prio Ch\u00e1vez.<\/p>\n\n\n\n<p>Na realidade objetiva, dois grandes processos passaram a ocupar o centro do palco. O primeiro s\u00e3o as revolu\u00e7\u00f5es de massas no Norte da \u00c1frica e no Oriente M\u00e9dio contra diversos ditadores (Ben Ali, na Tun\u00edsia; Mubarak, no Egito; Kadafi, na L\u00edbia, al-Assad, na S\u00edria). O segundo, a resist\u00eancia e as lutas dos trabalhadores e da juventude na Europa contra a crise e os planos de ajuste dos governos, particularmente na Gr\u00e9cia, Espanha e Portugal.<\/p>\n\n\n\n<p>Em ambos os casos, s\u00e3o processos que surgem de \u201cbaixo para cima\u201d. O protagonismo agora \u00e9 das grandes mobiliza\u00e7\u00f5es de massas que se contrap\u00f5em ou, pelo menos, saem do controle e das travas das velhas organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e sindicais. A partir dos processos do Norte da \u00c1frica e do Oriente M\u00e9dio volta-se a falar de \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d no sentido mais cl\u00e1ssico do termo: a mobiliza\u00e7\u00e3o autodeterminada e permanente das massas, capaz de p\u00f4r de \u201ccabe\u00e7a para baixo\u201d a ordem vigente e de transform\u00e1-la. Trata-se de uma nova refer\u00eancia objetiva, bem mais atraente que a proposta burocr\u00e1tica de \u201cseguir as ordens do comandante\u201d, algo que, somado \u00e0s posi\u00e7\u00f5es de Ch\u00e1vez sobre os processos dos pa\u00edses \u00e1rabes, desgasta a influ\u00eancia do chavismo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ch\u00e1vez aproxima-se de Obama<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Outro elemento que contribuiu para esse desgaste foi a redu\u00e7\u00e3o do discurso anti-imperialista ao mais baixo volume. Grande parte do prest\u00edgio e da influ\u00eancia de Ch\u00e1vez surgiu destas posi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Na realidade, em seu ponto mais alto, este discurso estava dirigido basicamente contra Bush e os Estados Unidos, mas n\u00e3o contra o imperialismo europeu, com o qual Ch\u00e1vez sempre se mostrou bastante mais am\u00e1vel. Na XVIII Confer\u00eancia Ibero-americana realizada em Santiago do Chile em 2007, ocorreu, \u00e9 certo, o lembrado \u201cPor que n\u00e3o te calas?\u201d do rei Juan Carlos, aborrecido porque Ch\u00e1vez acusava o governo espanhol de ter apoiado, em 2002, o golpe de estado na Venezuela. Mas foi s\u00f3 uma briga midi\u00e1tica e circunstancial. N\u00e3o devemos esquecer que, em 2005, na Confer\u00eancia realizada em Salamanca, Ch\u00e1vez, com outros presidentes, presenteou o rei com uma bandeja de prata e se deixou fotografar sorridente com ele. Agora, Maduro acaba de agradecer a Rajoy e ao rei Juan Carlos pela rapidez com que o governo e o Estado espanhol reconheceram seu triunfo eleitoral.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a posse de Obama como presidente dos Estados Unidos, at\u00e9 esta ret\u00f3rica contra o imperialismo norte-americano desapareceu e o discurso chavista passou a ser bem mais \u201camistoso\u201d, quase de \u201ccamaradagem\u201d. Recordemos as declara\u00e7\u00f5es de Ch\u00e1vez nas recentes elei\u00e7\u00f5es presidenciais dos Estados Unidos: \u201cSe eu fosse americano, votaria em Obama. E eu acho que se Obama fosse de Barlovento ou de um bairro de Caracas, votaria em Ch\u00e1vez. Estou seguro\u201d. Em outras palavras, passou de inimigo de Bush \u00e0 aproxima\u00e7\u00e3o a Obama.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ch\u00e1vez apoia Kadafi e Assad<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>T\u00e3o importante e grave como seu apoio a Obama foi a posi\u00e7\u00e3o de Ch\u00e1vez em rela\u00e7\u00e3o aos processos revolucion\u00e1rios do Norte da \u00c1frica e do Oriente M\u00e9dio. Desde o in\u00edcio,&nbsp;<strong>seu governo declarou apoio incondicional a ditadores sanguin\u00e1rios como Kadafi e al Assad<\/strong>, em momentos em que os povos l\u00edbio e s\u00edrio se levantavam em armas contra esses regimes. E deu seu apoio apresentando-os como \u201clutadores anti-imperialistas\u201d, quando h\u00e1 muito tempo n\u00e3o faziam outra coisa que prostrar-se ante o imperialismo. Chegou, inclusive, a chamar Assad de \u201cmeu amigo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso causou um grande desconcerto em muitos ativistas latino-americanos e, principalmente, nos lutadores revolucion\u00e1rios do Norte da \u00c1frica e do Oriente M\u00e9dio, entre os quais tinha grande prest\u00edgio por sua atitude frente a Israel (recordemos que havia expulsado o embaixador deste pa\u00eds depois de uma invas\u00e3o a Gaza). Hoje, esses lutadores est\u00e3o muito confusos e, gra\u00e7as \u00e0 posi\u00e7\u00e3o de Ch\u00e1vez e dos irm\u00e3os Castro, consideram que a \u201cesquerda\u201d esteja aliada \u00e0s ditaduras assassinas que oprimem seus povos. N\u00e3o \u00e9 casual que hoje Assad seja grato a esses governantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Para muitas organiza\u00e7\u00f5es da esquerda mundial, como o MES brasileiro ou o MST argentino, este fato lhes apresenta uma grav\u00edssima contradi\u00e7\u00e3o. Por um lado apoiam as revolu\u00e7\u00f5es contra os ditadores; por outro reivindicam Ch\u00e1vez, que os defendia e se solidarizava com eles. Ante essa terr\u00edvel contradi\u00e7\u00e3o, guardam sil\u00eancio em suas declara\u00e7\u00f5es ou limitam-se a dizer que foi um \u201cpequeno erro\u201d de Ch\u00e1vez.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma resposta claramente insuficiente, que se esquiva da discuss\u00e3o principal. O processo revolucion\u00e1rio do Norte da \u00c1frica e do Oriente M\u00e9dio \u00e9, possivelmente, o mais importante dos \u00faltimos anos no mundo. Ali ocorreu e ocorrem violentas guerras civis, e existem campos militares em combate. Os revolucion\u00e1rios t\u00eam a obriga\u00e7\u00e3o de definir uma posi\u00e7\u00e3o clara frente a eles. Se apoiam as revolu\u00e7\u00f5es e o campo militar dos \u201crebeldes\u201d, Ch\u00e1vez era, e o chavismo se mant\u00e9m, parte do \u201ccampo inimigo\u201d (essa \u00e9 nossa posi\u00e7\u00e3o). N\u00e3o se trata de um \u201cpequeno erro\u201d, mas de uma posi\u00e7\u00e3o contrarrevolucion\u00e1ria ante o principal processo atual da luta de classes no mundo. Estas organiza\u00e7\u00f5es est\u00e3o metidas em uma contradi\u00e7\u00e3o sem sa\u00edda. A verdade \u00e9 que, por esta posi\u00e7\u00e3o, milhares de ativistas no Oriente M\u00e9dio e no mundo est\u00e3o abandonando suas simpatias por Ch\u00e1vez.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ch\u00e1vez aproxima-se de Santos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O panorama sobre suas posi\u00e7\u00f5es internacionais fica incompleto se n\u00e3o nos referirmos a outro fato repudi\u00e1vel de sua pol\u00edtica:&nbsp;<strong>a vergonhosa colabora\u00e7\u00e3o com Juan Manuel Santos, o reacion\u00e1rio presidente colombiano e lacaio dos Estados Unidos<\/strong>. Ch\u00e1vez teve fortes choques com o ex-presidente colombiano \u00c1lvaro Uribe, a quem acusou, com justa raz\u00e3o, de ser o \u201chomem de Bush\u201d na regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas esta atitude alterou-se a partir da posse de Santos, em 2010, com quem o l\u00edder venezuelano passou a ter excelentes rela\u00e7\u00f5es. Como express\u00e3o disso, por um pedido expresso de Santos,&nbsp;<strong>Ch\u00e1vez entregou ativistas unidos \u00e0s FARC<\/strong>&nbsp;(como foi o caso do jornalista Joaqu\u00edn P\u00e9rez Becerra e outros lutadores sociais) ao governo colombiano, violando n\u00e3o s\u00f3 elementares princ\u00edpios de solidariedade, mas inclusive as normas jur\u00eddicas vigentes na Venezuela para esses casos.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto provocou a ruptura de toda uma faixa de ativistas simpatizantes das FARC na Am\u00e9rica Latina que, at\u00e9 ent\u00e3o, reivindicavam-se parte do movimento chavista, bem como tamb\u00e9m de muitos outros, horrorizados com a atitude de Ch\u00e1vez. Era l\u00f3gico, o presidente venezuelano tinha deixado de ser \u201cl\u00edder da revolu\u00e7\u00e3o\u201d e transformava-se em um entregador de lutadores a um governo burgu\u00eas reacion\u00e1rio e repressor.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O debate continua<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Mas o debate sobre Ch\u00e1vez e o chavismo continua, e retoma sua intensidade a partir das numerosas declara\u00e7\u00f5es da imensa maioria da esquerda mundial, que reivindica sua figura e o processo por ele encabe\u00e7ado.<\/p>\n\n\n\n<p>Os eixos do debate s\u00e3o basicamente os mesmos que assinalamos na s\u00e9rie de artigos agrupados no dossi\u00ea \u201cA Venezuela de Ch\u00e1vez marcha para o socialismo?\u201d (publicados originalmente na revista&nbsp;<em>Marxismo Vivo<\/em>&nbsp;N\u00ba 15, julho de 2007, e inclu\u00eddos neste livro):<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>Em suas considera\u00e7\u00f5es sobre Ch\u00e1vez, este amplo espectro da esquerda elabora, de modo esquem\u00e1tico, tr\u00eas caracteriza\u00e7\u00f5es diferentes. Os PCs e as correntes castro-guevaristas opinam que a Venezuela, tal como afirma Ch\u00e1vez, j\u00e1 est\u00e1 marchando para o socialismo. Por sua vez, alguns setores provenientes do trotskismo afirmam que este caminho ainda n\u00e3o se iniciou, mas que est\u00e1 posto como uma possibilidade real. Finalmente, outras organiza\u00e7\u00f5es trotskistas analisam que, pelo car\u00e1ter burgu\u00eas do chavismo, \u00e9 imposs\u00edvel que encabece um processo de revolu\u00e7\u00e3o socialista, mas que, sob seus governos, a Venezuela passou de uma semicol\u00f4nia norte-americana para um pa\u00eds independente do imperialismo.<\/em>\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Em outras palavras, o debate concentra-se nas respostas \u00e0s perguntas: Que \u00e9 a Venezuela hoje? E qual \u00e9 o car\u00e1ter (pol\u00edtico e de classe) do chavismo?<\/p>\n\n\n\n<p>Embora alguns setores continuem defendendo que na Venezuela se constr\u00f3i o \u201csocialismo do s\u00e9culo XXI\u201d ou que o pa\u00eds esteja em uma transi\u00e7\u00e3o para ele, a realidade socioecon\u00f4mica do pa\u00eds faz com que hoje seja quase imposs\u00edvel sustentar essa hip\u00f3tese. Para este aspecto do debate, onde mostramos porque consideramos esta possibilidade te\u00f3rica e praticamente imposs\u00edvel, remetemos o leitor ao material acima citado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Uma falsa an\u00e1lise da rela\u00e7\u00e3o entre o&nbsp;<em>caracazo<\/em>&nbsp;e o chavismo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Queremos nos concentrar na terceira das caracteriza\u00e7\u00f5es, sustentada por muitas organiza\u00e7\u00f5es que v\u00eam do trotskismo e, inclusive, do morenismo: sob os governos de Ch\u00e1vez, a Venezuela deixou ser uma semicol\u00f4nia norte-americana e transformou-se em um pa\u00eds independente.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta se baseia em duas an\u00e1lises falsas. A primeira delas \u00e9 sobre a rela\u00e7\u00e3o entre o surgimento do chavismo e o&nbsp;<em>caracazo<\/em>&nbsp;(1989), uma rebeli\u00e3o insurrecional na capital venezuelana (Caracas) contra o pacote econ\u00f4mico aplicado pelo ent\u00e3o presidente Carlos Andr\u00e9s P\u00e9rez (ADECO). A repress\u00e3o militar e policial ocasionou milhares de mortos (a cifra real nunca foi divulgada).<\/p>\n\n\n\n<p>O&nbsp;<em>caracazo<\/em>&nbsp;ocorreu no final da grande bonan\u00e7a petrol\u00edfera da d\u00e9cada de 1970, quando os pre\u00e7os do petr\u00f3leo chegaram a quadruplicar, um per\u00edodo em que se falou da \u201cVenezuela saudita\u201d pelos altos rendimentos do pa\u00eds e do Estado, e de um grande aumento das importa\u00e7\u00f5es e das despesas estatais. Na d\u00e9cada de 1980, os pre\u00e7os do barril de petr\u00f3leo come\u00e7aram a baixar e produziu-se uma forte crise que derivou no pacote de P\u00e9rez e na forte rea\u00e7\u00e3o popular.<\/p>\n\n\n\n<p>O&nbsp;<em>caracazo<\/em>&nbsp;deixou em ru\u00ednas o chamado regime pol\u00edtico do Ponto Fixo, um acordo entre os dois tradicionais partidos burgueses do pa\u00eds (ADECO E COPEI) para se alternarem no poder e assim compartilhar a parte da renda do petr\u00f3leo que ficava com o Estado. O regime do Ponto Fixo existia desde 1958 e, por mais de tr\u00eas d\u00e9cadas, assegurou grande estabilidade pol\u00edtica ao pa\u00eds. Nada foi igual na Venezuela ap\u00f3s o&nbsp;<em>caracazo<\/em>. N\u00e3o s\u00f3 o velho regime estava agonizando (e a burguesia tradicional n\u00e3o tinha possibilidade de reconstru\u00ed-lo nem um plano para substitu\u00ed-lo), mas tamb\u00e9m se abriu uma perigos\u00edssima fenda no pr\u00f3prio Estado burgu\u00eas, com a divis\u00e3o das For\u00e7as Armadas (FA) ante a repress\u00e3o ao&nbsp;<em>caracazo<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitos soldados e suboficiais, que tinham ordens de reprimir os pr\u00f3prios bairros em que viviam, negaram-se a faz\u00ea-lo. Segundo relat\u00f3rios n\u00e3o oficiais, cerca de 3.000 efetivos foram detidos por \u201cinsubordina\u00e7\u00e3o\u201d. Esta situa\u00e7\u00e3o (a fratura e a crise das FA) foi reconhecida pelas pr\u00f3prias autoridades militares. O general Alliegro, fazendo um balan\u00e7o da atua\u00e7\u00e3o das FA no&nbsp;<em>caracazo<\/em>&nbsp;dizia: \u201c<em>A partir de um balan\u00e7o estrito e s\u00e9rio dos acontecimentos e da atua\u00e7\u00e3o de nossas for\u00e7as armadas e policiais, temos a necessidade de revisar nossas estruturas internas; falo da composi\u00e7\u00e3o, qualifica\u00e7\u00e3o e disciplina; inclusive se faz necess\u00e1rio um estudo da situa\u00e7\u00e3o territorial de nossas tropas porque, como voc\u00eas mesmos puderam ver, houve dificuldades para o cumprimento do dever<\/em>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A esta crise originada pelo&nbsp;<em>caracazo<\/em>, deve ser somada a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da tropa e suas fam\u00edlias, que refletiam o empobrecimento e a mis\u00e9ria geral das massas. Esta crise era um problema central que a burguesia venezuelana precisava resolver.<\/p>\n\n\n\n<p>Em geral, na esquerda, h\u00e1 acordo sobre a import\u00e2ncia do&nbsp;<em>caracazo<\/em>&nbsp;e no fato do regime do Ponto Fixo ter ficado mortalmente ferido e agonizante. Tamb\u00e9m no fato de que o surgimento de Hugo Ch\u00e1vez e do chavismo s\u00f3 pode ser entendido pelo&nbsp;<em>caracazo<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Nossa profunda diferen\u00e7a, dir\u00edamos antag\u00f4nica, com a maioria das correntes de esquerda que reivindicam o chavismo est\u00e1 em que, para elas, o chavismo \u2013 seu triunfo eleitoral e seu posterior governo \u2013 \u00e9 o produto direto do&nbsp;<em>caracazo<\/em>&nbsp;e do ascenso que se seguiu, isto \u00e9,&nbsp;<strong>\u00e9 sua genu\u00edna e progressista express\u00e3o pol\u00edtica<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Para n\u00f3s, em troca, sendo um subproduto do&nbsp;<em>caracazo<\/em>&nbsp;e do ascenso, o chavismo \u00e9 um movimento do segundo escal\u00e3o da oficialidade militar, que cavalgou o ascenso para fre\u00e1-lo ou, pelo menos, control\u00e1-lo para que n\u00e3o caminhasse para a revolu\u00e7\u00e3o socialista e, essencialmente,&nbsp;<strong>para fechar a fratura das FA e assim reconstruir plenamente o Estado burgu\u00eas<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 verdade que o chavismo criou um novo regime (que analisaremos mais adiante), mas,&nbsp;<strong>em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria e socialista, este regime n\u00e3o cumpre um papel progressista de impulsion\u00e1-la, mas um papel reacion\u00e1rio de defender a ess\u00eancia do estado burgu\u00eas, reconstruindo as FA<\/strong>&nbsp;e defendendo a propriedade capitalista, no marco da luta de classes aberta pelo&nbsp;<em>caracazo<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto era dito com bastante clareza por Ch\u00e1vez, que por um lado denunciava o regime e seus governos e, por outro, falava da \u201cNa\u00e7\u00e3o\u201d e \u201csuas For\u00e7as Armadas\u201d. Em fevereiro de 1992, Ch\u00e1vez estava detido na pris\u00e3o de San Carlos, depois da derrota de sua tentativa de golpe, e em uma entrevista realizada pela jornalista Judith Martorelli e publicada no jornal&nbsp;<em>O Globo<\/em>, declarava: \u201c<em>Nossa luta n\u00e3o \u00e9 contra os EUA, nossa luta \u00e9 contra a corrup\u00e7\u00e3o e contra este governo\u2026 N\u00e3o somos nacionalistas ferrenhos nem chauvinistas. Somos militares progressistas que resgatam o direito da Na\u00e7\u00e3o ser ela mesma\u2026 Simplesmente pedimos um limite para a defesa de nossa soberania,&nbsp;<strong>o direito de organizar nossas For\u00e7as Armadas como a Venezuela necessita<\/strong>\u2026<\/em>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>As diferentes caracteriza\u00e7\u00f5es do papel de Ch\u00e1vez ap\u00f3s a crise aberta pelo&nbsp;<em>caracazo<\/em>&nbsp;s\u00e3o o ponto de partida das profundas diferen\u00e7as de avalia\u00e7\u00e3o de Ch\u00e1vez e do chavismo na atual realidade venezuelana.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Outra an\u00e1lise falsa: a caracteriza\u00e7\u00e3o social do chavismo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Outra profunda diferen\u00e7a que temos com a maioria da esquerda \u00e9 na an\u00e1lise sobre a caracteriza\u00e7\u00e3o social do chavismo:<\/p>\n\n\n\n<p>Para a maioria das organiza\u00e7\u00f5es, o chavismo \u00e9 um movimento pequeno-burgu\u00eas que expressa a radicaliza\u00e7\u00e3o desta classe social, similar ao de Fidel Castro em Cuba, em 1959, ou a Mao na China.<\/p>\n\n\n\n<p>Tal como assinalamos em outros trabalhos deste livro, esta an\u00e1lise comete um duplo erro. O primeiro deles \u00e9&nbsp;<strong>utilizar um m\u00e9todo n\u00e3o marxista para definir um movimento pol\u00edtico ou um governo, pela origem de classe de seus membros e n\u00e3o pelo programa que defendem ou pelo car\u00e1ter de classe do Estado que dirigem<\/strong>. Se aplic\u00e1ssemos este crit\u00e9rio a outros pa\u00edses do continente, ter\u00edamos que dizer, por exemplo, que o Brasil teve um \u201cgoverno oper\u00e1rio\u201d com Lula e que na Argentina ou no Uruguai seriam governos \u201cpequeno-burgueses\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O segundo \u00e9 que, embora os dirigentes chavistas tivessem uma origem pequeno-burguesa, s\u00e3o parte da c\u00fapula das FA burguesas e, tamb\u00e9m, seus quadros est\u00e3o se transformando em mais um setor burgu\u00eas: a \u201cburguesia bolivariana\u201d. Repetiram, nesse sentido, processos j\u00e1 sucedidos em outras \u00e9pocas da hist\u00f3ria venezuelana, quando o segundo escal\u00e3o da oficialidade deslocou o primeiro para subir \u00e0 administra\u00e7\u00e3o do Estado e assim se enriquecer. Tal como a anterior, esta \u00e9 outra diferen\u00e7a concreta muito importante para avaliar o papel do chavismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, inclusive se o chavismo fosse uma corrente pequeno-burguesa, h\u00e1 uma profunda diferen\u00e7a com a situa\u00e7\u00e3o da Iugosl\u00e1via, em 1948, da chinesa em 1949 e de Cuba em 1959, antes de Tito, Mao e Fidel terem decidido avan\u00e7ar na expropria\u00e7\u00e3o da burguesia nacional e do imperialismo e assim iniciar a constru\u00e7\u00e3o de novos estados oper\u00e1rios. Como analisamos em outro material deste livro, as for\u00e7as dirigidas por Tito, Mao e Fidel j\u00e1 tinham destru\u00eddo as FA da burguesia e, com isso, as bases do estado burgu\u00eas. Puderam avan\u00e7ar para a dire\u00e7\u00e3o definida sem que a burguesia pudesse impedir. Ch\u00e1vez, ao contr\u00e1rio, n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o destruiu as FA venezuelanas, mas se dedicou \u00e0 sua reconstru\u00e7\u00e3o e fortalecimento. Por exemplo, perdoou os oficiais golpistas de 2002, outorgou fortes aumentos de sal\u00e1rios, forneceu novas armas e recursos t\u00e9cnicos \u00e0s For\u00e7as Armadas, etc.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Que tipo de pa\u00eds \u00e9 a Venezuela hoje?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Definidas as diferen\u00e7as te\u00f3ricas e de an\u00e1lises, vamos agora \u00e0 prova de fogo para ver o que \u00e9 correto ou equivocado em cada uma das posi\u00e7\u00f5es: o contraste com a realidade. Com Ch\u00e1vez, a Venezuela deixou de ser uma semicol\u00f4nia e avan\u00e7ou para um pa\u00eds independente? Esta asser\u00e7\u00e3o pode ser rebatida em diversos aspectos.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro \u00e9 o das rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas da Venezuela com os capitais e organismos financeiros do imperialismo. A d\u00edvida venezuelana atingiu recentemente US$ 105 bilh\u00f5es (30% de seu PIB) e os governos de Ch\u00e1vez foram pagadores pontuais dos juros e participa\u00e7\u00f5es do capital, inclusive antecipando seu vencimento, no contexto da participa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds no FMI.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso do petr\u00f3leo, eixo da economia do pa\u00eds, as grandes empresas imperialistas, como a&nbsp;<strong>Chevron e a Exxon-Mobil<\/strong>, controlam, atrav\u00e9s de concess\u00f5es, associa\u00e7\u00f5es e empresas mistas, cerca de 40% do total de sua produ\u00e7\u00e3o e exporta\u00e7\u00e3o. Em outros ramos, como a ind\u00fastria automobil\u00edstica, o dom\u00ednio das montadoras e empresas de autope\u00e7as estrangeiras supera 90%.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo as nacionaliza\u00e7\u00f5es de empresas estrangeiras (como a Sidor ou a Eletricidade de Caracas) se deram, em todos os casos, atrav\u00e9s de negocia\u00e7\u00f5es, com a compra de suas a\u00e7\u00f5es a pre\u00e7os de mercado e com grandes indeniza\u00e7\u00f5es aos ex-propriet\u00e1rios, conforme as regras do jogo do capitalismo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Modelo econ\u00f4mico rentista e parasit\u00e1rio<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O segundo aspecto \u00e9 que, com Ch\u00e1vez, o pa\u00eds manteve (e inclusive acentuou) seu car\u00e1ter de semicol\u00f4nia capitalista baseada na exporta\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo, com uma economia de car\u00e1ter rentista e parasit\u00e1rio (vive da renda do petr\u00f3leo e importa parte importante dos alimentos e produtos industriais que consome).<\/p>\n\n\n\n<p>Vejamos alguns dados: o petr\u00f3leo passou de 64% das exporta\u00e7\u00f5es, em 1998, a 92%, em 2012. Ao mesmo tempo, o pa\u00eds se desindustrializou: este setor representava 18% do PIB, em 1998, enquanto que em 2012 caia para 14%. Os governos de Ch\u00e1vez, inclusive, deixaram de aproveitar as nacionaliza\u00e7\u00f5es para incentivar o desenvolvimento industrial. A produ\u00e7\u00e3o da Sidor (a\u00e7o) caiu 30% desde sua estatiza\u00e7\u00e3o e a ALCASA (alum\u00ednios) s\u00f3 produz 70.000 toneladas para uma capacidade instalada tr\u00eas vezes maior, de 210.000.<\/p>\n\n\n\n<p>Como dissemos, \u00e9 uma economia de car\u00e1ter rentista e especulativo: grande parte da burguesia (governista ou oposicionista) dedica-se aos neg\u00f3cios com a diferen\u00e7a de cota\u00e7\u00e3o entre o d\u00f3lar oficial (6,25 bol\u00edvares) e o paralelo (o triplo desse valor) ou com os t\u00edtulos do governo. Este car\u00e1ter, com um alt\u00edssimo volume de importa\u00e7\u00e3o de produtos de consumo, produz uma&nbsp;<strong>infla\u00e7\u00e3o anual de mais de 21%<\/strong>, uma das mais altas do mundo, e um&nbsp;<strong>desabastecimento de produtos<\/strong>&nbsp;estimado em 16,3% (produtos que s\u00f3 se conseguem no mercado negro, a pre\u00e7os bem mais altos). Ambos os fatos golpeiam duramente o poder aquisitivo e o n\u00edvel de vida da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 neste contexto que surge a chamada \u201cboliburguesia\u201d ou \u201cburguesia bolivariana\u201d, proveniente dos quadros militares e pol\u00edticos do chavismo, que se enriqueceram nestes anos. Alguns analistas assinalam que existem tr\u00eas setores: um \u00e9 o exemplificado por Diosdado Cabelo (presidente da c\u00e2mara legislativa), dono de tr\u00eas bancos e outras empresas; o segundo, ao redor do grupo que controla a poderosa PDVSA, que lucra com as contrata\u00e7\u00f5es feitas pela empresa (como barcos para transporte e seguros), e o terceiro \u00e9 o que se beneficia das compras e importa\u00e7\u00f5es das Miss\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A situa\u00e7\u00e3o do movimento oper\u00e1rio<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Se os setores mais pobres receberam alguns benef\u00edcios durante os governos chavistas, n\u00e3o sucedeu o mesmo com o movimento oper\u00e1rio: os sal\u00e1rios e as condi\u00e7\u00f5es trabalhistas continuam sendo muito m\u00e1s e, por isso, Ch\u00e1vez, ao contr\u00e1rio do peronismo argentino, nunca p\u00f4de realmente ser forte na classe oper\u00e1ria (embora a maioria votasse por ele).<\/p>\n\n\n\n<p>O sal\u00e1rio m\u00ednimo na Venezuela (recebido por grande parte dos trabalhadores) \u00e9 de cerca de 3.200 bol\u00edvares, pouco mais de US$ 500 no cambio oficial, mas n\u00e3o cobre a cesta aliment\u00edcia b\u00e1sica, estimada em 3.816 bol\u00edvares. Para n\u00e3o falar de uma cesta completa que inclua moradia, transporte, etc. Nem sequer os trabalhadores petroleiros escapam desta realidade<a href=\"https:\/\/litci.org\/pt\/2019\/03\/06\/chavismo-um-balanco-necessario\/#_ftn1\">[1]<\/a>. Consideremos ademais, a alta infla\u00e7\u00e3o e o desabastecimento que desgastam permanentemente o poder aquisitivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo em que n\u00e3o propiciou melhorias \u00e0 situa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, Ch\u00e1vez sempre tentou controlar e manejar o movimento oper\u00e1rio. Para isso, estimulou e fortaleceu uma burocracia pol\u00edtica e sindical com caracter\u00edsticas gangsteres.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2006, a conforma\u00e7\u00e3o do PSUV (Partido Socialista Unido da Venezuela), com a inten\u00e7\u00e3o de \u201cenclausurar\u201d o movimento oper\u00e1rio e a esquerda venezuelana em um \u201cpartido \u00fanico\u201d, foi um salto nesse sentido.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos os setores (muitos deles oper\u00e1rios) que sa\u00edram \u00e0 luta foram v\u00edtimas de&nbsp;<strong>brutais repress\u00f5es<\/strong>, assassinatos seletivos e persegui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas ou sindicais. Entre outros, podemos citar a repress\u00e3o \u00e0 Petrocasa, em Carabobo, aos oper\u00e1rios da Sanit\u00e1rios Maracay; aos oper\u00e1rios da Mitsubishi, em Barcelona, e a v\u00e1rios povos origin\u00e1rios e setores camponeses que ocuparam terras de latifundi\u00e1rios. Essas repress\u00f5es causaram v\u00e1rios mortos. Todos os que lutaram contra as medidas do governo ou os abusos da patronal foram acusados de \u201cdesestabilizadores\u201d ou \u201ccontrarrevolucion\u00e1rios\u201d. Ou se estava \u201ccom Ch\u00e1vez\u201d ou se estava \u201ccontra ele\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As Miss\u00f5es e o apoio a Ch\u00e1vez<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Se tudo isto que assinalamos \u00e9 verdadeiro, como pode ser que Ch\u00e1vez tenha conseguido e mantido tanto apoio popular at\u00e9 sua morte? A resposta a esta pergunta divide-se em duas explica\u00e7\u00f5es. A primeira \u00e9 que Ch\u00e1vez representava, aos olhos das massas venezuelanas, a continuidade do processo do&nbsp;<em>caracazo<\/em>&nbsp;e o \u00f3dio aos velhos partidos, \u00e0 burguesia esqu\u00e1lida (isto \u00e9, golpista) e ao imperialismo. Para manter as coisas sob seu controle, Ch\u00e1vez explorou e utilizou esse sentimento, \u201ctingindo-o de vermelho\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, destinou a parte da renda do petr\u00f3leo pertencente ao Estado para fazer algumas concess\u00f5es \u00e0s massas empobrecidas, especialmente atrav\u00e9s das Miss\u00f5es, esp\u00e9cie de \u201cminist\u00e9rio paralelo\u201d destinado a levar servi\u00e7os de sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, alimentos subsidiados, cr\u00e9ditos para pequenos empreendimentos, etc. aos setores mais empobrecidos da popula\u00e7\u00e3o. Por exemplo, das Miss\u00f5es participam v\u00e1rios milhares de m\u00e9dicos e professores cubanos.<\/p>\n\n\n\n<p>As Miss\u00f5es fizeram com que, talvez pela primeira vez em suas vidas, muitos venezuelanos pudessem ter acesso a um m\u00e9dico e um dentista, ou ter um professor em seu bairro. N\u00f3s dizemos que s\u00e3o&nbsp;<strong>medidas compensat\u00f3rias<\/strong>, tal como prop\u00f5e o Banco Mundial, e que s\u00e3o aplicadas em muitos pa\u00edses, como na Argentina e no Brasil (Bolsa Fam\u00edlia), para amortecer as situa\u00e7\u00f5es mais desesperadoras e evitar explos\u00f5es sociais. Isto \u00e9, est\u00e3o bem longe de avan\u00e7ar a uma transforma\u00e7\u00e3o profunda da sociedade. Ao contr\u00e1rio, eternizam a situa\u00e7\u00e3o existente.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas representam uma grande diferen\u00e7a para as massas empobrecidas, com baix\u00edssimo n\u00edvel de vida. No caso de Venezuela, por exemplo, a pobreza caiu de 50,4% da popula\u00e7\u00e3o, em 1998, para 31,9% e, no mesmo per\u00edodo, a mis\u00e9ria baixou de 23% a 8% (estimativas do INE e da Cepal). Esta \u00e9, em \u00faltima inst\u00e2ncia, a base da for\u00e7a eleitoral do chavismo e a raz\u00e3o da profunda dor popular pela morte de Ch\u00e1vez.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Uma vez mais: o que \u00e9 o chavismo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A partir destas an\u00e1lises podemos retomar nossa defini\u00e7\u00e3o do chavismo. Desde seu in\u00edcio, a LIT-QI sustenta que os governos de Hugo Ch\u00e1vez nunca foram \u201csocialistas\u201d. Seus governos foram burgueses, isto \u00e9, a servi\u00e7o da manuten\u00e7\u00e3o e defesa do sistema e do Estado capitalistas no pa\u00eds. Nesse sentido, seu movimento pol\u00edtico pode ser definido como \u201cnacionalista burgu\u00eas\u201d, similar aos constru\u00eddos pelo general Per\u00f3n na Argentina, a partir de 1945, e pelo general Nasser no Egito, desde 1952.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto \u00e9, movimentos que expressavam setores da burguesia nacional em conflito com o imperialismo e que queriam melhorar sua participa\u00e7\u00e3o na renda nacional. Para ter mais peso frente ao imperialismo, apoiaram-se nas massas \u2013 \u00e0s quais deram certas concess\u00f5es econ\u00f4micas \u2013 ao mesmo tempo em que constru\u00edam mecanismos pol\u00edticos e sindicais de f\u00e9rreo controle de sua mobiliza\u00e7\u00e3o, para evitar que estas \u201cultrapassassem-nos\u201d e quisessem avan\u00e7ar para uma mudan\u00e7a bem mais profunda da sociedade. Por isso, foram regimes que reprimiram com dureza as lutas e as dire\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias independentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Os governos de Ch\u00e1vez n\u00e3o foram iguais aos anteriores do regime do \u201cPonto Fixo\u201d (formado pelos partidos AD e COPEI, hoje odiados pelas massas venezuelanas) ou a outros governos capitalistas atuais, completa e abertamente submissos ao imperialismo. Seus governos surgem como uma dupla consequ\u00eancia do&nbsp;<em>caracazo<\/em>&nbsp;\u2013 a insurrei\u00e7\u00e3o popular na capital venezuelana em 1989, que deixou o \u201cPonto Fixo\u201d em ru\u00ednas. Por um lado, Ch\u00e1vez ganhou prest\u00edgio; primeiro, quando tentou um golpe contra eles, aparecendo assim com a imagem de opositor radical aos velhos partidos. Depois&nbsp; ganhou a presid\u00eancia. Por outro lado, expressou um setor da jovem oficialidade das FA que se rebelou contra a c\u00fapula e que, mais que tudo, queria salvar a unidade desta institui\u00e7\u00e3o, o \u201cpilar fundamental\u201d do estado burgu\u00eas, profundamente dividida depois do&nbsp;<em>caracazo<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Ch\u00e1vez teve em comum com Per\u00f3n e Nasser o fato de que, por seu car\u00e1ter de classe, era imposs\u00edvel ir at\u00e9 o fim em seus confrontos com o imperialismo e na transforma\u00e7\u00e3o da Venezuela. Tanto o peronismo quanto o nasserismo acabaram capitulando ao imperialismo. Basta recordar que o \u00faltimo governo herdeiro do nasserismo foi o do ditador Mubarak, odiado pelas massas.&nbsp; Ch\u00e1vez, como vimos, come\u00e7ava a percorrer esse mesmo caminho de capitula\u00e7\u00e3o, observada em sua pol\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o ao governo colombiano de Santos ou sua aproxima\u00e7\u00e3o a Obama.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As diferen\u00e7as com o peronismo argentino<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Mas, \u00e9 necess\u00e1rio assinalar que as condi\u00e7\u00f5es internacionais, pol\u00edticas e econ\u00f4micas em que se desenvolveram seus governos davam muito menos espa\u00e7o para experi\u00eancias capitalistas \u201caut\u00f4nomas\u201d. O contexto do desenvolvimento do peronismo e do nasserismo \u00e9 o segundo p\u00f3s-guerra do s\u00e9culo XX, no qual, por um lado, a pol\u00edtica econ\u00f4mica keynesiana desenvolvida nos pa\u00edses imperialistas dava espa\u00e7o para o desenvolvimento destas experi\u00eancias. Por outro, a \u201cguerra fria\u201d e a exist\u00eancia da URSS, mesmo que burocratizada, deixavam \u201cespa\u00e7os vazios\u201d com margens para a exist\u00eancia deste \u201ccaminho terceiro-mundista\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje estamos em tempos de globaliza\u00e7\u00e3o e essa margem, econ\u00f4mica e pol\u00edtica, \u00e9 muito estreita. Por isso, al\u00e9m de sua ret\u00f3rica e de algumas medidas \u201cprogressistas\u201d muito parciais, como a estatiza\u00e7\u00e3o de algumas ind\u00fastrias ou empresas, n\u00e3o avan\u00e7ou em nenhuma transforma\u00e7\u00e3o real da Venezuela. At\u00e9 retrocedeu. Por exemplo, embora soe \u201cestranho\u201d, o primeiro governo de Carlos Andr\u00e9s P\u00e9rez, na d\u00e9cada de 1970, foi mais \u201cnacionalista\u201d que o de Ch\u00e1vez, porque nacionalizou o petr\u00f3leo e criou a PDVSA, e tamb\u00e9m as grandes empresas industriais estatais da regi\u00e3o de Guayana.<\/p>\n\n\n\n<p>Como analisamos neste mesmo material, as bases materiais do desenvolvimento do fen\u00f4meno peronista nas d\u00e9cadas de 1940 e 1950 (ou do mexicano com o PRI) eram bem mais s\u00f3lidas que as do chavismo. A Argentina tinha uma base produtiva bem mais ampla e desenvolveu um modelo econ\u00f4mico chamado de \u201csubstitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es\u201d. Grandes ramos da economia como o transporte, as comunica\u00e7\u00f5es, o petr\u00f3leo e a energia foram estatizados. Ao mesmo tempo, ao contr\u00e1rio de Ch\u00e1vez, p\u00f4de fazer grandes concess\u00f5es ao movimento oper\u00e1rio: aumentos de sal\u00e1rios, sistema de aposentadoria, f\u00e9rias pagas, etc. Por isso, o movimento oper\u00e1rio considerava o peronismo como \u201cseu\u201d partido e foi sua s\u00f3lida base de apoio pol\u00edtico, Ainda hoje vivemos os efeitos disso.<\/p>\n\n\n\n<p>O chavismo, em troca, mant\u00e9m o modelo rentista do petr\u00f3leo e, como vimos, tem muito menos margens para fazer concess\u00f5es aos trabalhadores. Sua base social s\u00e3o os setores populares mais empobrecidos. Ao mesmo tempo, este modelo econ\u00f4mico est\u00e1 hoje chegando ao seu limite, no marco da crise econ\u00f4mica internacional, e se expressa na deteriora\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica do pa\u00eds e nas condi\u00e7\u00f5es de vida das massas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As perspectivas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nicol\u00e1s Maduro, sucessor designado por Ch\u00e1vez, acaba de ganhar por uma margem muito estreita as recentes elei\u00e7\u00f5es presidenciais venezuelanas: menos de 240.000 votos de diferen\u00e7a em quase quinze milh\u00f5es de votantes. Isto \u00e9, pouco mais de 1,5%. \u00c9 a menor diferen\u00e7a do chavismo sobre a oposi\u00e7\u00e3o em um processo eleitoral (salvo a derrota no plebiscito constitucional de 2007).<\/p>\n\n\n\n<p>Este resultado, na primeira elei\u00e7\u00e3o sem Ch\u00e1vez, representa, na realidade,&nbsp;<strong>uma dura derrota pol\u00edtica para o chavismo<\/strong>. Em outubro de 2012, Ch\u00e1vez atingiu 8.191.132 de votos e Capriles obteve 6.591.304 de sufr\u00e1gios. A diferen\u00e7a foi de mais de 10%. Agora, Maduro perdeu mais de 600.000 votos que foram diretamente para Capriles. Recordemos que entre 2006 (quando o chavismo tinha superado a oposi\u00e7\u00e3o de direita por mais de 20%) e 2012, a oposi\u00e7\u00e3o j\u00e1 tinha crescido cerca de dois milh\u00f5es de votos. Em outras palavras, o chavismo se desgasta eleitoralmente e perde votos, e h\u00e1 uma din\u00e2mica de fortalecimento importante da oposi\u00e7\u00e3o de direita.<\/p>\n\n\n\n<p>O que isto reflete? O menor prest\u00edgio pol\u00edtico de Maduro em rela\u00e7\u00e3o a Ch\u00e1vez? Um \u201cgiro \u00e0 direita\u201d de um setor das massas?&nbsp; \u00c9 evidente que Maduro n\u00e3o \u00e9 Ch\u00e1vez nem tem o mesmo prest\u00edgio e influ\u00eancia entre as massas, e isso j\u00e1 come\u00e7a a se fazer sentir.<\/p>\n\n\n\n<p>O que \u00e9 totalmente falso \u00e9 que tenha havido um \u201cgiro \u00e0 direita\u201d das massas. Em nossa opini\u00e3o, h\u00e1 um processo objetivo de cansa\u00e7o de um setor da classe trabalhadora e de setores populares que est\u00e3o rompendo politicamente com o chavismo por tudo o que descrevemos antes: infla\u00e7\u00e3o, desemprego crescente, escassez de produtos b\u00e1sicos, n\u00edveis de inseguran\u00e7a alt\u00edssimos, repress\u00e3o sistem\u00e1tica contra as lutas oper\u00e1rias e controle f\u00e9rreo do governo sobre os sindicatos, por um lado, e quadros e dirigentes chavistas que se enriquecem e andam em luxuosas camionetes 4\u00d74, por outro.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 um giro \u00e0 direita, \u00e9 toda a pol\u00edtica econ\u00f4mica e bonapartista do chavismo que abriu espa\u00e7o e facilitou os avan\u00e7os da direita. \u00c9 o cansa\u00e7o de um amplo setor das massas com o governo e o regime que cria as condi\u00e7\u00f5es para o apoio eleitoral \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o de direita, a \u00fanica alternativa eleitoral de import\u00e2ncia que aparece enfrentando o chavismo. Uma direita que tenta se afastar da imagem de \u201cgolpista\u201d e tenta aparecer com um discurso de defesa das necessidades populares. E, assim, Capriles \u2013 e os setores burgueses que ele representa \u2013 se fortalece e se prepara para derrotar o chavismo eleitoralmente, no futuro. A morte de Ch\u00e1vez acelera o processo, mas n\u00e3o \u00e9 o que cria as bases objetivas do retrocesso eleitoral do chavismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Dizemos que nestas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es n\u00e3o houve nenhuma alternativa para os trabalhadores al\u00e9m do voto em Maduro ou Capriles. Era necess\u00e1rio&nbsp;<strong>apresentar um terceiro espa\u00e7o pol\u00edtico<\/strong>, com independ\u00eancia de classe e em oposi\u00e7\u00e3o tanto a Maduro e ao chavismo quanto a Capriles e \u00e0 direita tradicional neoliberal. Mesmo se obtivesse poucos votos, devido \u00e0 polariza\u00e7\u00e3o eleitoral, era necess\u00e1rio levantar uma alternativa oper\u00e1ria e socialista. Essa alternativa n\u00e3o existiu porque um setor da esquerda, o Partido Socialismo e Liberdade (unido \u00e0 corrente internacional UIT), o \u00fanico que estava em condi\u00e7\u00f5es legais de lan\u00e7ar um candidato, renunciou a essa luta. Foi um grave erro. Independentemente do n\u00famero de votos que fosse obtido, os trabalhadores n\u00e3o tiveram nenhuma op\u00e7\u00e3o pela positiva aos dois grandes blocos burgueses.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>N\u00e3o h\u00e1 golpe em curso<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Neste ponto \u00e9 necess\u00e1rio ser categ\u00f3rico: n\u00e3o existe nenhum golpe de Estado, nem sequer uma din\u00e2mica nesse sentido, na Venezuela. Se existisse uma tentativa de golpe da direita, como em 2002, ser\u00edamos os primeiros a enfrent\u00e1-lo nas ruas, em unidade de a\u00e7\u00e3o com o chavismo. Mas isso n\u00e3o est\u00e1 posto na realidade, nem por parte da burguesia de direita nem por parte do imperialismo, seus governos aliados ou a OEA.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste marco, Maduro e todo o castro-chavismo utilizam o recurso da agita\u00e7\u00e3o de um suposto golpe como uma chantagem no sentido de for\u00e7ar um apoio pol\u00edtico frente a \u201cataques fascistas\u201d. Isto \u00e9 grave, pois a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica na Venezuela faz com que seja altamente prov\u00e1vel a continuidade do desenvolvimento das mobiliza\u00e7\u00f5es. O governo de Maduro nasce fr\u00e1gil, pelo resultado eleitoral e os evidentes elementos de crises no aparelho chavista entre seu setor e o de Diosdado Cabelo. Ademais, tem uma imprescind\u00edvel necessidade de aplicar planos de ajuste da economia, como as fortes desvaloriza\u00e7\u00f5es do Bol\u00edvar, o aumento do pre\u00e7o da gasolina, etc.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, algumas destas mobiliza\u00e7\u00f5es poder\u00e3o ser inspiradas ou impulsionadas pela direita. Mas muitas outras ser\u00e3o genu\u00ednas mobiliza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias, populares e estudantis, que o governo de Maduro, como o de Ch\u00e1vez antes, acusar\u00e1 e reprimir\u00e1 como \u201cgolpistas\u201d ou \u201cfuncionais \u00e0 direita e ao imperialismo\u201d. \u00c9 este o perigo que os trabalhadores e as massas enfrentam e n\u00e3o um suposto golpe da direita. As correntes de esquerda que apoiam o chavismo e o novo governo de Maduro, e aceitam a caracteriza\u00e7\u00e3o de que h\u00e1 um golpe em prepara\u00e7\u00e3o, t\u00eam ante sim uma nova e muito profunda contradi\u00e7\u00e3o: se apoiarem estas lutas dever\u00e3o necessariamente enfrentar o governo de Maduro; se, pelo contr\u00e1rio, mant\u00eam seu apoio a Maduro, ser\u00e3o obrigados a apoiar a repress\u00e3o contra as lutas oper\u00e1rias e populares.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u00c9 necess\u00e1rio construir uma sa\u00edda oper\u00e1ria e socialista<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Respeitando a dor e o pesar pela morte de Ch\u00e1vez, achamos que, nestes momentos, imp\u00f5e-se uma profunda reflex\u00e3o por todo o ativismo social e especialmente por toda a esquerda revolucion\u00e1ria e socialista, sobre o significado de seus catorze anos de governo. Particularmente, por aquelas correntes que se autodefinem \u201crevolucion\u00e1rias\u201d e continuam reivindicando sua figura, desde diferentes \u00e2ngulos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u00c9 um debate estrat\u00e9gico<\/strong>&nbsp;para todos aqueles que almejam uma verdadeira sa\u00edda oper\u00e1ria e socialista. Achamos que a tarefa urgente \u00e9 construir um terceiro espa\u00e7o pol\u00edtico, com independ\u00eancia de classe, em oposi\u00e7\u00e3o tanto ao chavismo quanto \u00e0 direita tradicional neoliberal. Para n\u00f3s, a \u00fanica sa\u00edda para solucionar definitivamente os problemas da classe trabalhadora e do povo venezuelano continua passando por sua organiza\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o independentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Precisamos de uma alternativa pol\u00edtica que levante a bandeira de um governo oper\u00e1rio, campon\u00eas e popular, que exproprie a burguesia e o imperialismo, que nacionalize totalmente o petr\u00f3leo, a ind\u00fastria, o sistema banc\u00e1rio e o com\u00e9rcio exterior e que, por essa via, inicie a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade sem classes. Isto \u00e9, precisamos construir uma verdadeira dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica socialista, revolucion\u00e1ria e internacionalista.<\/p>\n\n\n\n<p>Para isto, \u00e9 fundamental que a classe oper\u00e1ria venezuelana confie \u00fanica e exclusivamente em suas pr\u00f3prias for\u00e7as e se apodere de seu destino. Este \u00e9 o \u00fanico caminho para um verdadeiro socialismo.<\/p>\n\n\n\n<p>*Introdu\u00e7\u00e3o do livro&nbsp;<em>Venezuela depois de Ch\u00e1vez<\/em>: unmbalan\u00e7o necess\u00e1rio, publicado por Edi\u00e7\u00f5es Marxismo Vivo, S\u00e3o Paulo, 2013.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/litci.org\/pt\/2019\/03\/06\/chavismo-um-balanco-necessario\/#_ftnref1\">[1]<\/a>&nbsp;Dados extra\u00eddos de http:\/\/www.laverdad.com\/economia\/7439-tea-petrolera-solo-cubre-70-de-la-canasta-alimentaria.html<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A atual situa\u00e7\u00e3o venezuelana, depois da fraude eleitoral ao servi\u00e7o da continuidade de Maduro e dos sectores patronais venezuelanos beneficiados pelo regime criado desde a \u00e9poca de Ch\u00e1vez, est\u00e1 no centro das not\u00edcias da imprensa mundial, especialmente na Am\u00e9rica Latina. 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