{"id":79223,"date":"2024-07-12T22:26:56","date_gmt":"2024-07-12T22:26:56","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=79223"},"modified":"2024-07-12T22:27:12","modified_gmt":"2024-07-12T22:27:12","slug":"o-congresso-de-1903-e-o-racha-entre-bolcheviques-e-mencheviques","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2024\/07\/12\/o-congresso-de-1903-e-o-racha-entre-bolcheviques-e-mencheviques\/","title":{"rendered":"O congresso de 1903 e o racha entre bolcheviques e mencheviques"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Chegando aqui, no epis\u00f3dio 8, entre 1902 e 1903, estudaremos o desenrolar do Congresso e os debates pr\u00e9-congressuais, para entender melhor o porqu\u00ea da ruptura entre bolcheviques e mencheviques.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: Nazareno Godeiro<\/p>\n\n\n\n<p>O II Congresso teve um car\u00e1ter fundacional, porque votou um programa e um estatuto da organiza\u00e7\u00e3o, coisa que o I Congresso de 1898 n\u00e3o conseguiu realizar. A \u00fanica proeza do I Congresso foi fundar o partido e dar um nome POSDR, pois logo ap\u00f3s o congresso, todos os dirigentes foram presos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1902 e 1903, per\u00edodo preparat\u00f3rio do II Congresso do POSDR, L\u00eanin foi se solidificando como dirigente do partido, principalmente depois da publica\u00e7\u00e3o de <em>Que Fazer?<\/em> Isto fica bem evidente lendo suas cartas deste per\u00edodo, reunidas no tomo 46 das suas Obras Completas.<\/p>\n\n\n\n<p>Junto com Krupskaya, ele se esfor\u00e7ou para unificar os v\u00e1rios c\u00edrculos marxistas numa s\u00f3 organiza\u00e7\u00e3o nacionalmente centralizada a partir do <em>Iskra<\/em>, organizou o combate aos economicistas na base da organiza\u00e7\u00e3o, cuidou das finan\u00e7as para garantir a publica\u00e7\u00e3o de <em>Iskra<\/em> e <em>Zari\u00e1<\/em>, solicitou dos seus colegas de reda\u00e7\u00e3o que escrevessem artigos sobre tal ou qual assunto, organizou a distribui\u00e7\u00e3o ilegal em toda a Rusia, fez debates p\u00fablicos com os dirigentes dos SRs na Su\u00ed\u00e7a e Inglaterra (inclusive nas cidades onde viviam Plekhanov, Axelrod, Vera Zasulich, M\u00e1rtov, mostrando que j\u00e1 era, de fato, o principal dirigente do POSDR), se ocupou da montagem de um \u201cComit\u00ea de Organiza\u00e7\u00e3o\u201d do II Congresso com peso maior de \u201ciskristas\u201d e preparou minuciosamente, com a dire\u00e7\u00e3o de <em>Iskra<\/em> cada ponto de pauta do II Congresso, que ocorreria de 30 de julho a 23 de agosto de 1903, cuja pauta foi confeccionada por ele. L\u00eanin se projetou como principal dirigente da organiza\u00e7\u00e3o neste per\u00edodo, inclusive recebeu convite da Escola Superior de Ci\u00eancias Sociais de Paris para participar de Conferencias sobre a quest\u00e3o agraria na R\u00fassia e na Europa, em debate com Chernov e outros intelectuais russos entendidos da quest\u00e3o do campo.<\/p>\n\n\n\n<p>Em setembro de 1902, L\u00eanin escreveu <strong><em>Carta a um camarada acerca de nossas tarefas de organiza\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong>, onde concretizou, os elementos centrais do livro <em>Que Fazer?<\/em> seis meses depois de publicado. Apresentamos aqui os elementos centrais do texto, que passou a ser a vis\u00e3o de partido predominante no II Congresso, apesar das diferen\u00e7as que surgiram:<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin retomou sua ideia central de organiza\u00e7\u00e3o do partido a partir do jornal: \u201cGostaria apenas de salientar que o jornal pode e deve ser o dirigente <em>ideol\u00f3gico<\/em> do Partido, desenvolvendo as verdades te\u00f3ricas, as teses t\u00e1cticas, as ideias gerais de organiza\u00e7\u00e3o e as tarefas gerais de todo o Partido num momento ou noutro\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa vis\u00e3o se combinou com a forma\u00e7\u00e3o do Comit\u00ea Central que teria dirigentes atuantes no interior da R\u00fassia, que se combinaria com a reda\u00e7\u00e3o do jornal que seria a <em>dire\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica<\/em> do partido, vivendo no estrangeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m foi retomando os princ\u00edpios organizativos do partido revolucion\u00e1rio, come\u00e7ando por ter a coluna vertebral do partido formada por militantes que consagram sua vida \u00e0 atividade revolucion\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Que a prioridade para a constru\u00e7\u00e3o do partido era as f\u00e1bricas e os bairros oper\u00e1rios (periferia das grandes cidades), onde o partido teria que desenvolver uma estrutura para que em um dia e uma noite apenas pudesse fazer uma distribui\u00e7\u00e3o geral de folhetos, com agita\u00e7\u00e3o e propaganda, para mobilizar as massas de uma cidade em pouco tempo:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cVamos falar agora sobre os n\u00facleos de f\u00e1brica. Eles t\u00eam uma import\u00e2ncia especial para n\u00f3s, pois a principal for\u00e7a do movimento est\u00e1 no grau de organiza\u00e7\u00e3o dos oper\u00e1rios nas <em>grandes<\/em> f\u00e1bricas, onde se concentra a parte predominante da classe trabalhadora, predominante n\u00e3o apenas em termos de n\u00famero, mas tamb\u00e9m, e mais ainda, pela sua influ\u00eancia, desenvolvimento e capacidade de combate. \u201cToda f\u00e1brica deve se tornar uma fortaleza nossa\u201d (\u2026) \u201cDevem ser feitos esfor\u00e7os para aperfei\u00e7oar este aparato a tal ponto que numa \u00fanica noite toda a popula\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria de S\u00e3o Petersburgo possa ser informada e, por assim dizer, mobilizada.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>E que contasse com uma dire\u00e7\u00e3o mais oper\u00e1ria poss\u00edvel:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO Comit\u00e9 do Partido Oper\u00e1rio Social-Democrata da R\u00fassia deve ser um s\u00f3 e consistir de social-democratas plenamente conscientes, que se dedicam inteiramente \u00e0 atividade social-democrata. \u201cDevemos garantir, acima de tudo, que o maior n\u00famero poss\u00edvel de oper\u00e1rios se torne revolucion\u00e1rios plenamente conscientes e profissionais e fa\u00e7am parte do comit\u00e9\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro setor que L\u00eanin dava muita import\u00e2ncia era os propagandistas do partido, de quem ele dizia que:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cS\u00e3o <em>muito poucos<\/em> os propagandistas com verdadeira firmeza de princ\u00edpios e capacidade (e para se tornar um \u00e9 preciso estudar muito e ganhar experi\u00eancia), e \u00e9 preciso especializar esses homens, dar o m\u00e1ximo de trabalho poss\u00edvel e ter o m\u00e1ximo de cuidado com eles.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, neste texto L\u00eanin desenvolveu bem a discuss\u00e3o sobre a centraliza\u00e7\u00e3o do partido, com a localiza\u00e7\u00e3o de cada militante fazendo o que lhe corresponde de acordo com suas aptid\u00f5es. Aqui L\u00eanin demonstrou que a centraliza\u00e7\u00e3o vem acompanhada de uma ampla democracia no interior do partido, uma vis\u00e3o oposta ao centralismo burocr\u00e1tico stalinista e a disciplina \u201cmilitar\u201d, cuja dire\u00e7\u00e3o se mantem \u201cpela for\u00e7a do poder\u201d, pela hierarquia dirigente, que manda no partido de acordo com as estrelas que tem no peito:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cToda a arte da organiza\u00e7\u00e3o clandestina deve consistir em saber aproveitar tudo e todos, em \u201cdar trabalho a todos e a cada um\u201d, ao mesmo tempo em manter a dire\u00e7\u00e3o de todo o movimento e mant\u00ea-la, claro, n\u00e3o por for\u00e7a do poder, mas pela for\u00e7a do prest\u00edgio, da energia, da maior experi\u00eancia, da maior diversidade de conhecimentos e do maior talento. Esta observa\u00e7\u00e3o vai ao encontro da poss\u00edvel e habitual objec\u00e7\u00e3o de que uma centraliza\u00e7\u00e3o rigorosa pode muito facilmente arruinar tudo se por acaso uma pessoa dotada de imenso poder, mas incapaz, for colocada no centro. Claro que isso pode acontecer; mas o rem\u00e9dio contra isto n\u00e3o pode residir na elegibilidade e na descentraliza\u00e7\u00e3o, absolutamente inadmiss\u00edveis em propor\u00e7\u00f5es mais ou menos amplas e mesmo verdadeiramente prejudiciais ao trabalho revolucion\u00e1rio sob a autocracia. As solu\u00e7\u00f5es contra isso n\u00e3o ser\u00e3o fornecidas por estatutos de qualquer tipo; elas s\u00f3 podem ser proporcionadas por medidas de \u201cinflu\u00eancia de camaradas\u201d, desde as resolu\u00e7\u00f5es de cada um dos subgrupos e os seus apelos subsequentes ao CO e ao CC at\u00e9 (no pior dos casos) a remo\u00e7\u00e3o da autoridade absolutamente inepta.&nbsp; O comit\u00e9 deve esfor\u00e7ar-se por dividir o trabalho tanto quanto poss\u00edvel, tendo em mente que diferentes aspectos do trabalho revolucion\u00e1rio requerem diferentes faculdades, que por vezes um homem que \u00e9 completamente in\u00fatil como organizador pode revelar-se um agitador insubstitu\u00edvel, ou que um homem incapaz de resistir aos rigores da atividade clandestina ser\u00e1 um excelente propagandista, etc.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, L\u00eanin via a centraliza\u00e7\u00e3o de uma dire\u00e7\u00e3o que adquire prest\u00edgio com a base, n\u00e3o pela imposi\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica, mas pela disposi\u00e7\u00e3o e dedica\u00e7\u00e3o militante, por ter mais experiencia, mais conhecimento e talento, que s\u00e3o elementos n\u00e3o impostos para a base partid\u00e1ria, mas conquistadas pelo respeito advindo das atividades cotidianas dessa dire\u00e7\u00e3o ou dirigente na constru\u00e7\u00e3o do partido.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa democracia partid\u00e1ria seria conquistada pelo direito de cada militante, cada c\u00e9lula, cada regional, cada c\u00edrculo de f\u00e1brica etc. tivessem o direito de expressar sua opini\u00e3o, seus desejos, suas peti\u00e7\u00f5es nos comit\u00eas de base e que fosse levado ao conhecimento da dire\u00e7\u00e3o para alcan\u00e7ar a \u201cplenitude da delibera\u00e7\u00e3o de todos os militantes do partido\u201d, segundo L\u00eanin.<\/p>\n\n\n\n<p>Tanto \u00e9 assim, que L\u00eanin d\u00e1 o exemplo do funcionamento de uma <strong>orquestra <\/strong>para que se entenda a centraliza\u00e7\u00e3o e a disciplina partid\u00e1ria:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPara que a dire\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 aconselhe, conven\u00e7a e discuta (como tem sido feito at\u00e9 agora), mas realmente dirija a orquestra, \u00e9 necess\u00e1rio saber exatamente quem toca cada violino e onde; que instrumento cada um aprendeu e aprende a tocar, onde e como; quem, onde e por que est\u00e1 desafinado (quando a m\u00fasica come\u00e7a a ficar ruim); como, onde e quem precisa ser movido para eliminar a disson\u00e2ncia, etc.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Essa vis\u00e3o de constru\u00e7\u00e3o do partido marxista na R\u00fassia era \u00fanica, original, e era compartida por toda a dire\u00e7\u00e3o da Iskra at\u00e9 1903. Tanto o livro <em>Que Fazer?<\/em> quanto esta <em>Carta a um camarada sobre nossas tarefas de organiza\u00e7\u00e3o<\/em> foram publicados e distribu\u00eddos em toda a R\u00fassia com a proposta de organiza\u00e7\u00e3o do jornal <em>Iskra<\/em>. S\u00f3 ap\u00f3s o congresso, onde rachou o partido ao meio, foi que os mencheviques come\u00e7aram a elaborar uma nova proposta de \u201corganiza\u00e7\u00e3o\u201d e passaram a polemizar com as elabora\u00e7\u00f5es de L\u00eanin sobre organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 14 de novembro de 1902, L\u00eanin escreveu <em>O socialismo vulgar e o populismo,<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>ressuscitados pelos socialistas revolucionarios, <\/em>fazendo uma caracteriza\u00e7\u00e3o dos SRs:<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira cr\u00edtica de L\u00eanin aos SRs era que n\u00e3o tinha programa, entendido programa como \u201cexposi\u00e7\u00e3o completa de suas concep\u00e7\u00f5es\u201d. Para contrariar essa afirma\u00e7\u00e3o do L\u00eanin, eles passaram a divulgar uma proposta program\u00e1tica na sua revista te\u00f3rica. Come\u00e7aram pela quest\u00e3o das classes sociais no campo, recusando a vis\u00e3o marxista que o campon\u00eas fazia parte da pequena burguesia e viam dois tipos de camponeses: os camponeses que vivem do seu trabalho e a burguesia rural, que explora for\u00e7a de trabalho externa. Assim, para os SRs, o pequeno propriet\u00e1rio rural (dono da sua terra) e o oper\u00e1rio agr\u00edcola s\u00e3o semelhantes porque vivem do seu trabalho (sendo tudo \u201ccampon\u00eas trabalhador). L\u00eanin respondeu a esse argumento dizendo:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA inconsist\u00eancia destes \u00e9 \u00f3bvia. Procurar o principal tra\u00e7o distintivo das diversas classes da sociedade nas suas fontes de rendimento equivale a colocar em primeiro plano as rela\u00e7\u00f5es de distribui\u00e7\u00e3o que, a rigor, s\u00e3o apenas o resultado das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o. \u00c9 um erro apontado h\u00e1 muito tempo por Marx, que chamou aqueles que n\u00e3o o entendiam de socialistas vulgares. A caracter\u00edstica fundamental da diferencia\u00e7\u00e3o das classes \u00e9 o lugar que ocupam na produ\u00e7\u00e3o social e, consequentemente, a rela\u00e7\u00e3o que mant\u00eam com os meios de produ\u00e7\u00e3o. A apropria\u00e7\u00e3o desta ou daquela parte dos meios sociais de produ\u00e7\u00e3o e sua aplica\u00e7\u00e3o \u00e0 empresa privada, \u00e0s empresas organizadas para a venda do produto: \u00e9 isso que distingue principalmente uma classe da sociedade atual (a burguesia) em rela\u00e7\u00e3o ao proletariado, que \u00e9 privado dos meios de produ\u00e7\u00e3o e vende a sua for\u00e7a de trabalho\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin afirmou ent\u00e3o que os SRs perdiam a vis\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o do trabalho assalariado na sociedade capitalista como a base fundamental de sustenta\u00e7\u00e3o do sistema capitalista. N\u00e3o se pode identificar o trabalho como o elemento central e sim sua forma social (rela\u00e7\u00f5es socais de produ\u00e7\u00e3o e de propriedade). Quer dizer, o elemento determinante na sociedade capitalista n\u00e3o \u00e9 se uma pessoa trabalha ou n\u00e3o, mas sim se \u00e9 propriet\u00e1ria dos meios de produ\u00e7\u00e3o e vai utiliz\u00e1-los para ocupar um peda\u00e7o do mercado ou se \u00e9 um assalariado que sobrevive compulsoriamente do seu sal\u00e1rio, que \u00e9 obrigado a se assalariar para sobreviver. Assim, os SRs camuflavam a exist\u00eancia da pequena burguesia como classe da sociedade capitalista. Ora, todos sabemos que a grande burguesia surgiu da pequena burguesia. O erro central dos SRs \u00e9 que identificam as classes sociais pela renda e n\u00e3o pelo papel que ocupam na produ\u00e7\u00e3o. Essa vis\u00e3o levou a que o partido Socialista Revolucion\u00e1rio se tornasse o partido do campesinato na R\u00fassia e depois se transformou no partido do campesinato acomodado, os kulaks, a burguesia rural. Portanto, os SRs n\u00e3o compreendiam a teoria da luta de classes, por isso, L\u00eanin chamou-os de \u201csocialismo vulgar\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>No final de novembro, voltou a escrever material de propaganda contra os SRs: <em>A tese fundamental contra os socialistas-revolucion\u00e1rios, <\/em>com as seguintes observa\u00e7\u00f5es:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA tese fundamental que apresento contra os socialistas-revolucion\u00e1rios e para avaliar todos os aspectos da atividade (e da ess\u00eancia) desta tend\u00eancia consiste no seguinte: toda a tend\u00eancia dos socialistas-revolucion\u00e1rios, e todo o seu partido, n\u00e3o s\u00e3o nada a n\u00e3o ser uma tentativa da intelectualidade pequeno-burguesa de burlar o nosso movimento oper\u00e1rio e, consequentemente, todo o movimento socialista e revolucion\u00e1rio na R\u00fassia\u201d. [os it\u00e1licos s\u00e3o do L\u00eanin, no original \u2013 N.E.LIT]<\/p>\n\n\n\n<p>A inconsist\u00eancia te\u00f3rica dos SRs serve, segundo L\u00eanin, para se camuflar como \u201cum partido de a\u00e7\u00e3o\u201d que utilizam as \u201ca\u00e7\u00f5es exemplares\u201d de terror individual at\u00e9 a divulga\u00e7\u00e3o de ideias liberais burguesas que penetraram na corrente populista.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin fez uma ressalva que n\u00e3o considerava os militantes populistas como falsos, mentirosos e outras coisas pelo estilo. Ele via que os militantes SRs eram dedicados \u00e0 causa do povo, mas que n\u00e3o entendiam que sua doutrina e sua milit\u00e2ncia eram nocivas ao movimento, pois n\u00e3o entendiam a luta de classes e muito menos o papel do proletariado na transforma\u00e7\u00e3o da sociedade: por exemplo, tiravam os melhores militantes do meio oper\u00e1rio para realizarem atentados terroristas, desorganizando o movimento oper\u00e1rio e dando justificativas para a mais brutal repress\u00e3o por parte da autocracia.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 28 de fevereiro de 1903, L\u00eanin escreveu um artigo intitulado \u201c<em>O proletariado judeu precisa de um \u201cpartido pol\u00edtico independente?<\/em>\u201d onde disse:<\/p>\n\n\n\n<p>Que \u00e9 equivocada a decis\u00e3o do Bund (setor do POSDR que organizava o proletariado judeu) de se constituir em \u201cpartido pol\u00edtico independente\u201d. O I Congresso do POSDR reconheceu o Bund como organiza\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma, mas n\u00e3o independente. Isto significava que:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA \u201cautonomia\u201d dos Estatutos de 1898 assegura ao movimento oper\u00e1rio judeu tudo o que possa necessitar: propaganda e agita\u00e7\u00e3o em i\u00eddiche, publica\u00e7\u00f5es e congressos, apresenta\u00e7\u00e3o de reivindica\u00e7\u00f5es particulares como o desenvolvimento do programa social-democrata comum \u00fanico e satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades locais e demandas que surgem das peculiaridades do modo de vida judaico. Em todo o resto, a fus\u00e3o mais completa e estreita com o proletariado russo \u00e9 essencial, \u00e9 essencial no interesse da luta de todo o proletariado da R\u00fassia. E o receio de qualquer \u201crussifica\u00e7\u00e3o\u201d em caso de fus\u00e3o \u00e9 infundado, pela pr\u00f3pria subst\u00e2ncia da quest\u00e3o, uma vez que a autonomia \u00e9 precisamente uma garantia contra a opress\u00e3o nas quest\u00f5es particulares do movimento judaico. Mas nas quest\u00f5es relativas \u00e0 luta contra a autocracia, \u00e0 luta contra a burguesia de toda a R\u00fassia, devemos agir como uma organiza\u00e7\u00e3o de combate \u00fanica e centralizada; Devemos contar com todo o proletariado, sem diferen\u00e7as de l\u00edngua ou nacionalidade, unido pela solu\u00e7\u00e3o conjunta e constante dos problemas te\u00f3ricos e pr\u00e1ticos, t\u00e1ticos e organizacionais, em vez de criar organiza\u00e7\u00f5es que marcham isoladamente, cada uma no seu caminho; Em vez de enfraquecermos as for\u00e7as do nosso ataque, dividindo-nos numa multid\u00e3o de partidos pol\u00edticos independentes; em vez de introduzir o isolamento e a separa\u00e7\u00e3o para depois curar a doen\u00e7a que inoculamos artificialmente com emplastros da alardeada \u201cfedera\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin e toda a dire\u00e7\u00e3o da Iskra se recusava a aceitar o ultimatum do Bund de se constituir como partido \u00e0 parte e ao mesmo tempo integrante do POSDR pois isso significava construir n\u00e3o um partido centralizado, mas um conglomerado de partidos dentro do partido, cada um com sua pr\u00f3pria centraliza\u00e7\u00e3o, pois a federa\u00e7\u00e3o pressup\u00f5e n\u00e3o s\u00f3 a autonomia (que todos aceitavam o funcionamento aut\u00f4nomo do Bund no que se tratava da cultura e costumes pr\u00f3prios dos judeus), mas a independencia, com a constitui\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os pr\u00f3prios, enfrentados com a dire\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria \u00fanica de Toda a R\u00fassia e das na\u00e7\u00f5es oprimidas pela autocracia. Portanto, o debate ser\u00e1 violento no II Congresso e terminar\u00e1 com a derrota do Bund e seu abandono do Congresso, ao n\u00e3o se subordinar \u00e0 maioria.<\/p>\n\n\n\n<p>O programa do partido defendia a autodetermina\u00e7\u00e3o nacional, inclusive o direito de separar-se da na\u00e7\u00e3o opressora, mas defendia que o proletariado dessa na\u00e7\u00e3o atuasse unido dentro do partido marxista revolucion\u00e1rio, sem separar por na\u00e7\u00f5es ou por religi\u00e3o. O partido atuava de forma centralizada e unificada.<\/p>\n\n\n\n<p>Em mar\u00e7o de 1903, escreveu o folheto <em>Aos pobres do campo. Explica\u00e7\u00e3o do que querem os socialdemocratas aos camponeses<\/em>:<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin fez uma explica\u00e7\u00e3o did\u00e1tica da luta dos socialdemocratas, come\u00e7ando pela explica\u00e7\u00e3o da luta dos prolet\u00e1rios da cidade, onde informava que a autocracia assassinou oper\u00e1rios grevistas em Yaroslavl, Petersburgo, Riga, Rostov do Don e Zlato\u00fast. Oper\u00e1rios que lutavam por uma sociedade socialista e pela organiza\u00e7\u00e3o de um partido oper\u00e1rio. Explicou que a principal luta da socialdemocracia era a liberdade pol\u00edtica. Os camponeses conquistaram muitas liberdades individuais, por\u00e9m, n\u00e3o tinham nenhuma liberdade para decidir a vida p\u00fablica do pa\u00eds e eleger seus representantes em um parlamento nacional soberano. Toda a Europa j\u00e1 havia conquistado essa liberdade, exceto a R\u00fassia e a Turquia. Os socialdemocratas exigiam a elei\u00e7\u00e3o de um parlamento eleito soberanamente pelo povo, mas indicou que \u201cO povo trabalhador n\u00e3o pode confiar em ningu\u00e9m, s\u00f3 pode contar consigo mesmo. Ningu\u00e9m libertar\u00e1 o trabajador da mis\u00e9ria, se ele n\u00e3o se liberta. E para libertar-se, os oper\u00e1rios devem unir-se em todo o pa\u00eds, em toda a R\u00fassia, em um s\u00f3 agrupamento, em um s\u00f3 partido\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA liberdade pol\u00edtica n\u00e3o libertar\u00e1 imediatamente os trabalhadores da mis\u00e9ria, <em>mas fornecer\u00e1 aos trabalhadores a arma para lutarem contra ela<\/em>. N\u00e3o existe e n\u00e3o pode haver outro meio de combate \u00e0 pobreza que n\u00e3o seja <em>a uni\u00e3o dos pr\u00f3prios trabalhadores<\/em>. Mas sem <em>liberdade <\/em>pol\u00edtica ser\u00e1 imposs\u00edvel que milh\u00f5es de homens do povo se unam.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, para L\u00eanin a luta pela liberdade pol\u00edtica, pela democracia, pela queda da autocracia era apenas um meio para desenvolver a luta de classes contra a burguesia, a luta do proletariado pelo socialismo.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin seguiu explicando aos camponeses que as elei\u00e7\u00f5es que a autocracia estava realizando para o Zemstvo dava 90% para os ricos e 10% para os pobres:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cOs deputados devem ser eleitos por todo o povo, para que os votos dos nobres, dos latifundi\u00e1rios e dos comerciantes n\u00e3o excedam os dos trabalhadores e camponeses. Os nobres e comerciantes s\u00e3o milhares, os camponeses s\u00e3o milh\u00f5es. E como o governo prepara esta Duma do Estado, ser\u00e1 uma assembleia sem elei\u00e7\u00f5es igualit\u00e1rias. As elei\u00e7\u00f5es que planejou ser\u00e3o fraudadas e far\u00e3o com que os nobres e os comerciantes tomem quase todos os assentos, enquanto os oper\u00e1rios e os camponeses n\u00e3o teriam sequer um deputado em cada dez. \u00c9 uma Duma falsificada, uma Duma policial; uma Duma de funcion\u00e1rios e senhores. Uma verdadeira assembleia de deputados populares s\u00f3 se consegue atrav\u00e9s de elei\u00e7\u00f5es livres, com sufr\u00e1gio igual, de todo o povo. Por isso, os oper\u00e1rios socialdemocratas declaram: Abaixo a Duma! Fora essa assembleia falsificada. O que precisamos \u00e9 de uma assembleia aut\u00eantica e livre, com deputados de todo o povo, e n\u00e3o com representantes dos nobres e dos comerciantes! O que precisamos \u00e9 de uma Assembleia Constituinte claramente popular, para que o povo imponha amplamente a sua vontade aos funcion\u00e1rios, e n\u00e3o os funcion\u00e1rios ao povo!\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Em seguida L\u00eanin passou os dados da distribui\u00e7\u00e3o de terras na R\u00fassia, onde 942 mil fam\u00edlias possu\u00edam 27 milh\u00f5es de hectares, \u201cOu seja, apenas mil fam\u00edlias possuem tanta terra como dois milh\u00f5es de fam\u00edlias camponesas.\u201d Inclusive a maioria dos grandes latifundi\u00e1rios j\u00e1 s\u00e3o burgueses e n\u00e3o nobres, que det\u00e9m a maioria das terras e n\u00e3o o Estado, como afirmava os SRs. Portanto, concluiu L\u00eanin propagandizando o marxismo entre os pobres do campo: \u201cOu seja, nem todos os camponeses s\u00e3o iguais: alguns sofrem fome e mis\u00e9ria, e outros enriquecem.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin aproveitou para debater com os camponeses a vis\u00e3o dos SRs que a \u201ccomunidade rural\u201d da R\u00fassia era comunista. Afirma\u00e7\u00e3o falsa, segundo L\u00eanin pois quem mandava na comunidade neste per\u00edodo j\u00e1 era o campon\u00eas rico que podia comprar terra e contratar braceiro e camponeses pobres para trabalhar na sua terra. Essa comunidade n\u00e3o era uma alian\u00e7a voluntaria, era imposta pelo Estado. Ent\u00e3o, a alian\u00e7a do pobre do campo com o rica\u00e7o se dava no meio da comunidade e em preju\u00edzo do pobre. A\u00ed L\u00eanin explicava aos camponeses pobres que deviam se unir ao proletariado das cidades, contra todos os ricos, todos os que vivem do trabalho allheio.<\/p>\n\n\n\n<p>Se era f\u00e1cil determinar quem eram os grandes latifundi\u00e1rios pela extens\u00e3o de suas terras, j\u00e1 para conhecer o campon\u00eas rico, segundo L\u00eanin, podia classificar pela quantidade de cavalos que disp\u00f5e (os cavalos eram meios de produ\u00e7\u00e3o por excel\u00eancia neste tempo):<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cOs camponeses sem cavalos <em>n\u00e3o ultrapassam tr\u00eas milh\u00f5es<\/em>, e quase tr\u00eas milh\u00f5es e meio possuem apenas <em>um cavalo<\/em>. Estes s\u00e3o camponeses completamente arruinados ou camponeses pobres. N\u00f3s os chamamos de pobres do campo. O seu n\u00famero \u00e9 de <em>seis milh\u00f5es e meio<\/em> de um total de dez, ou seja, <em>quase dois ter\u00e7os<\/em>! Depois v\u00eam os camponeses m\u00e9dios, que possuem cada um uma junta de gado de trabalho. Esses agricultores somam <em>quase dois milh\u00f5es<\/em> de fam\u00edlias e possuem <em>quase quatro<\/em> milh\u00f5es de cavalos no total. E em seguida v\u00eam os camponeses ricos, que t\u00eam mais de uma junta. S\u00e3o cerca de <em>um milh\u00e3o e meio<\/em> de fam\u00edlias, mas t\u00eam, juntas, <em>sete milh\u00f5es e meio<\/em> de cavalos. Portanto, aproximadamente um sexto das fam\u00edlias camponesas possui metade do n\u00famero total de cavalos.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Isto \u00e9, 65% dos camponeses eram os pobres do campo, que s\u00e3o prolet\u00e1rios ou semiprolet\u00e1rios, enquanto os camponeses m\u00e9dios representavam 20% e os camponeses ricos, apenas 15% do total, ainda que possu\u00edam a metade dos cavalos do pa\u00eds. \u201cFinalmente, uma das principais peculiaridades do campon\u00eas rico \u00e9 que ele <em>contrata oper\u00e1rios e diaristas<\/em>. Os camponeses ricos, tal como os propriet\u00e1rios de terras, tamb\u00e9m vivem do trabalho dos outros.\u201d L\u00eanin calculou em torno de 9 milh\u00f5es de prolet\u00e1rios e semiprolet\u00e1rios do campo, pela quantidade de passaportes que se expediu para migrantes na R\u00fassia europeia, sem contar a Sib\u00e9ria e o C\u00e1ucaso. O campon\u00eas m\u00e9dio, que seriam em torno de 2 milh\u00f5es de fam\u00edlias, sobrevive apenas: \u201cN\u00e3o chega a ser um verdadeiro propriet\u00e1rio, nem \u00e9, tampouco, um aut\u00eantico oper\u00e1rio. Todos os camponeses m\u00e9dios tentam igualar-se aos patr\u00f5es, querem ser propriet\u00e1rios, mas muito poucos o conseguem. S\u00e3o poucos os que empregam oper\u00e1rios ou diaristas, que conseguem enriquecer com o trabalho dos outros, prosperam cavalgando nas costas dos outros. A maioria dos camponeses m\u00e9dios n\u00e3o tem dinheiro para contratar outros; Eles pr\u00f3prios s\u00e3o for\u00e7ados a trabalhar por um sal\u00e1rio&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir daqui, L\u00eanin passou a disputar o campon\u00eas pobre e o m\u00e9dio para uma alian\u00e7a revolucion\u00e1ria com os prolet\u00e1rios da cidade para lutar contra toda a classe burguesa e nobre. Para isso, tinha que entrar em pol\u00eamica com os populistas que diziam que a coisa mais linda do mundo era ser campon\u00eas, mostrando uma vida id\u00edlica no campo que n\u00e3o existia.<\/p>\n\n\n\n<p>Passou a explicar, a partir deste ponto, as reivindica\u00e7\u00f5es do POSDR referente aos oper\u00e1rios e aos camponeses, explicando-as didaticamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Em julho de 1903, L\u00eanin publicou no Iskra <em>O problema nacional no nosso programa, <\/em>assunto que fazia parte da pauta do II Congresso:<\/p>\n\n\n\n<p>O programa do POSDR defendia o \u201c&#8221;reconhecimento do direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o para todas as na\u00e7\u00f5es que integram o Estado&#8221;. L\u00eanin explicava a proposta da seguinte maneira:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAgora, o reconhecimento incondicional da luta pela autodetermina\u00e7\u00e3o n\u00e3o nos obriga de forma alguma a apoiar qualquer exig\u00eancia de autodetermina\u00e7\u00e3o nacional. A social-democracia, como partido do proletariado, imp\u00f5e-se a tarefa positiva e fundamental de cooperar com a autodetermina\u00e7\u00e3o do proletariado de cada na\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o com a dos povos e na\u00e7\u00f5es como tais. Devemos esfor\u00e7ar-nos sempre e incondicionalmente para alcan\u00e7ar a uni\u00e3o mais estreita entre os prolet\u00e1rios de todas as na\u00e7\u00f5es, e apenas em casos isolados e como exce\u00e7\u00e3o podemos apresentar e apoiar vigorosamente exig\u00eancias destinadas a constituir um novo Estado de classe ou a substituir a plena unidade pol\u00edtica do Estado por uma unidade federativa mais fraca, etc.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Este ponto program\u00e1tico aparenta uma contradi\u00e7\u00e3o entre a autodetermina\u00e7\u00e3o nacional e a uni\u00e3o do proletariado de todas as na\u00e7\u00f5es. Mas, a contradi\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas aparente porque a \u00fanica forma de garantir a autodetermina\u00e7\u00e3o nacional \u00e9 atrav\u00e9s da uni\u00e3o do proletariado das diversas na\u00e7\u00f5es, no caso da R\u00fassia, no POSDR porque a autocracia n\u00e3o realizaria essa autodetermina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa posi\u00e7\u00e3o foi questionada pelo Partido Socialista Polaco que reivindicava a autodetermina\u00e7\u00e3o pela autodetermina\u00e7\u00e3o nacional e L\u00eanin dizia que defendia a autodetermina\u00e7\u00e3o, por\u00e9m n\u00e3o necessariamente o POSDR defenderia a forma\u00e7\u00e3o de uma nova na\u00e7\u00e3o, separada, a independencia nacional, a n\u00e3o ser como exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin perguntava:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cDeve a social-democracia exigir sempre e incondicionalmente a independ\u00eancia nacional ou apenas sob certas condi\u00e7\u00f5es? E em quais especificamente?\u201d e respondeu: \u201cAo morder a isca daquelas frases e deixar-se seduzir por todo esse alvoro\u00e7o, o PSP por sua vez mostra a fraca liga\u00e7\u00e3o da sua consci\u00eancia te\u00f3rica e da sua atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica com a luta de classes do proletariado. E devemos subordinar a exig\u00eancia de autodetermina\u00e7\u00e3o nacional precisamente aos interesses dessa luta. E \u00e9 essa a condi\u00e7\u00e3o que estabelece a diferen\u00e7a entre a nossa abordagem da quest\u00e3o nacional e a abordagem democr\u00e1tica burguesa.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin aqui est\u00e1 diferenciando a forma da luta pela independencia nacional praticada pelos marxistas revolucion\u00e1rios em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 luta da burguesia por esta mesma independ\u00eancia. A burguesia e os reformistas viam a luta pela autodetermina\u00e7\u00e3o nacional (independ\u00eancia nacional) de forma absoluta, como um fim em si mesma, onde todos e todas deveriam ser \u201cnacionalistas\u201d e ponto final. O objetivo final da luta seria garantir a independencia do pa\u00eds e nada mais. Os marxistas revolucion\u00e1rios apoiavam essa luta, por\u00e9m colocando a luta sob a dire\u00e7\u00e3o do proletariado, classe que garantiria uma verdadeira independ\u00eancia nacional, porque a burguesia nunca vai at\u00e9 o fim nessa independ\u00eancia desde o per\u00edodo em que se tornou uma classe mundial imperialista, portanto contrarrevolucion\u00e1ria. Isso se passou normalmente com todos os pa\u00edses coloniais e semicoloniais que fizeram inclusive revolu\u00e7\u00f5es anticoloniais para em segunda se subordinar a outro pa\u00eds imperialista. Por isso, os marxistas apoiavam a luta nacionalista como meio, como alavanca, como estopim, que garantisse o pa\u00eds avan\u00e7ar para o socialismo, uma verdadeira independ\u00eancia nacional diante de todos os pa\u00edses imperialistas. Ent\u00e3o, o apoio dos marxistas \u00e0 luta nacionalista \u00e9 condicionado, depende se a burguesia quer de fato enfrentar de forma revolucion\u00e1ria a domina\u00e7\u00e3o imperialista. Parar a luta quando conquista essa independencia nacional e constituir um pa\u00eds capitalista independente vai levar a uma nova subordina\u00e7\u00e3o da burguesia nacional ao imperialismo. Por isso, L\u00eanin colocou que <em>subordinava<\/em> a luta pela independ\u00eancia nacional \u00e0 luta de classes, \u00e0 luta pelo socialismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele se apoiava nas posi\u00e7\u00f5es de Marx e Engels sobre a independ\u00eancia da Pol\u00f4nia: \u201cA cria\u00e7\u00e3o de uma Pol\u00f3nia democr\u00e1tica \u00e9 a primeira condi\u00e7\u00e3o para a cria\u00e7\u00e3o de uma Alemanha democr\u00e1tica\u201d. Assim, Marx estabelecia uma rela\u00e7\u00e3o entre a independencia da Pol\u00f4nia e a democratiza\u00e7\u00e3o do imp\u00e9rio feudal-patriarcal-capitalista alem\u00e3o. A domina\u00e7\u00e3o da Pol\u00f4nia pela R\u00fassia e pela Alemanha fortalecia o imp\u00e9rio alem\u00e3o, que transitava para o capitalismo de forma reacion\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin se apoiava tamb\u00e9m na mudan\u00e7a do car\u00e1ter da burguesia europeia que havia mudado a partir de 1848, quando se tornou contrarrevolucion\u00e1ria e quando j\u00e1 emergia o proletariado como \u00fanica classe revolucion\u00e1ria, como fez o governo burgu\u00eas franc\u00eas de 1871, que preferiu entregar Paris aos prussianos, para derrotar a Comuna de Paris. Por isto, L\u00eanin condicionava a luta pela independencia nacional \u00e0 luta de classes, a luta pelo socialismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Chegado neste ponto, come\u00e7ou a aparecer outra posi\u00e7\u00e3o no marxismo revolucion\u00e1rio sobre a quest\u00e3o nacional, expressada por Mehring em 1902 (posi\u00e7\u00e3o que seria absorvida por Rosa Luxemburgo e pelos marxistas polacos) da seguinte maneira:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cJ\u00e1 passaram os tempos em que uma Pol\u00f3nia livre poderia nascer da revolu\u00e7\u00e3o burguesa; Hoje, o renascimento da Pol\u00f4nia s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel com a revolu\u00e7\u00e3o social, quando o proletariado contempor\u00e2neo quebrar as suas correntes.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin se diferenciou desse argumento em parte, n\u00e3o sendo t\u00e3o perempt\u00f3rio na afirma\u00e7\u00e3o da impossibilidade de algum setor da burguesia lutar pela independ\u00eancia nacional, antes da vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o socialista.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cN\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que o restabelecimento da Pol\u00f4nia antes da queda do capitalismo \u00e9 muito improv\u00e1vel, mas a absoluta impossibilidade da burguesia polaca ser a favor da independ\u00eancia, etc., n\u00e3o pode ser afirmada. Neste sentido, a social-democracia russa tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e1 de m\u00e3os atadas, longe disso. Ao propor no seu programa o reconhecimento do direito das na\u00e7\u00f5es \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o, defende esse direito levando em conta todas as combina\u00e7\u00f5es poss\u00edveis e mesmo todas as imagin\u00e1veis. Este programa n\u00e3o exclui de forma alguma a possibilidade do proletariado polaco adoptar a palavra de ordem de uma rep\u00fablica polaca livre e independente, mesmo que a probabilidade de que isso possa ser alcan\u00e7ado antes do socialismo seja insignificante. Este programa exige apenas que o verdadeiro partido socialista n\u00e3o corrompa a consci\u00eancia prolet\u00e1ria, n\u00e3o esfume a luta de classes, n\u00e3o seduza a classe trabalhadora com frases democr\u00e1ticas burguesas, n\u00e3o viole a unidade da atual luta pol\u00edtica do proletariado. Nesta condi\u00e7\u00e3o, a \u00fanica sob a qual admitimos a autodetermina\u00e7\u00e3o, \u00e9 justamente onde reside a ess\u00eancia do problema.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A pesar de defender a autodetermina\u00e7\u00e3o nacional dos povos submetidos ao tzarismo, L\u00eanin defendia a unidade do proletariado de todas na\u00e7\u00f5es oprimidas pela autocracia russa no POSDR, num partido centralizado democraticamente, unificando o proletariado de todas as na\u00e7\u00f5es oprimidas. Uma posi\u00e7\u00e3o diferente do Bund, setor judeu do POSDR, que defendia uma federa\u00e7\u00e3o de partidos divididos por nacionalidade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>*****<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Entre junho e julho de 1903, esquentou a luta de classes, com uma greve geral que abarcou todo o Sul da R\u00fassia. Concomitante a isso, as a\u00e7\u00f5es dos camponeses contra os latifundi\u00e1rios aumentavam. A guerra da R\u00fassia com o Jap\u00e3o, que se iniciou em janeiro de 1904, acelerou as contradi\u00e7\u00f5es sociais, que desaguariam na revolu\u00e7\u00e3o de 1905.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin se referiu a este per\u00edodo, em 1920, caracterizando:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPress\u00e1gios de grande tempestade em todos os lugares. Efervesc\u00eancia e prepara\u00e7\u00f5es em todas as classes. No estrangeiro, a imprensa da emigra\u00e7\u00e3o levanta teoricamente todos os problemas essenciais da revolu\u00e7\u00e3o. Os representantes das tr\u00eas classes fundamentais, das tr\u00eas principais correntes pol\u00edticas \u2013 a liberal burguesa, a democr\u00e1tica pequeno-burguesa (oculta sob os r\u00f3tulos de tend\u00eancias \u201csocial-democratas\u201d e \u201csocialistas revolucion\u00e1rias\u201d) e a prolet\u00e1ria revolucion\u00e1ria \u2013 antecipam e preparam, com uma luta feroz de concep\u00e7\u00f5es program\u00e1ticas e t\u00e1ticas, a futura luta de classes aberta\u201d (ver Obras Completas, tomo 41).<\/p>\n\n\n\n<p>Neste mesmo per\u00edodo, L\u00eanin escreveu os projetos de resolu\u00e7\u00e3o para o II congresso do POSDR, que come\u00e7aria em agosto de 1903<\/p>\n\n\n\n<p>Foram escritas para debater na reda\u00e7\u00e3o do jornal \u201c<em>Iskra<\/em>\u201d e com os militantes que vinham da R\u00fassia para o Congresso.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesta forma de \u201cresolu\u00e7\u00f5es\u201d eram apresentadas todas as quest\u00f5es fundamentais em debate, resolu\u00e7\u00f5es curtas, com afirma\u00e7\u00f5es diretas, para n\u00e3o haver d\u00favidas, para serem votadas com clareza, ainda que houvesse diferen\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>Lenin se especializaria nesta forma liter\u00e1ria, que se tornou a preferida dele quanto mais se tornava dirigente.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 final de julho, pouco antes de iniciar o congresso, L\u00eanin redigiu as principais resolu\u00e7\u00f5es para o congresso, como o projeto de resolu\u00e7\u00e3o sobre o lugar do Bund no POSDR, sobre a luta econ\u00f3mica, sobre o Primeiro de Maio, sobre o congresso internacional, sobre as manifesta\u00e7\u00f5es, sobre o terrorismo, sobre propaganda, sobre atitude em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 juventude estudantil, sobre distribui\u00e7\u00e3o de for\u00e7as&nbsp; e sobre publica\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p>Escreveu tamb\u00e9m o \u201c<em>Projeto de Estatutos do partido<\/em>\u201d, que se resumiu da seguinte maneira:<\/p>\n\n\n\n<p><strong><u>PROJETO DE ESTATUTOS DEL POSDR<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\"><strong><u>[1]<\/u><\/strong><\/a><\/u><\/strong><\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\" type=\"1\">\n<li>\u00c9 membro do Partido quem aceita o seu programa e apoia o Partido, tanto financeiramente como atrav\u00e9s da participa\u00e7\u00e3o pessoal numa das suas organiza\u00e7\u00f5es.<\/li>\n\n\n\n<li>O \u00f3rg\u00e3o supremo do Partido \u00e9 o Congresso, que \u00e9 convocado pelo CC (se poss\u00edvel, pelo menos uma vez a cada dois anos). O CC deve convocar o Congresso quando solicitado pelos comit\u00eas ou grupos de comit\u00eas do Partido, que no seu conjunto tenham reunido um ter\u00e7o dos votos no Congresso anterior, ou quando solicitado pelo Conselho do Partido. O Congresso ser\u00e1 considerado v\u00e1lido se nele estiverem representadas mais de metade dos comit\u00eas do Partido (devidamente constitu\u00eddos) existentes no momento da reuni\u00e3o do Congresso.<\/li>\n\n\n\n<li>T\u00eam direito de representa\u00e7\u00e3o no Congresso: a) o CC; b) o Conselho Editorial do \u00d3rg\u00e3o Central; c) todos os comit\u00eas locais que n\u00e3o fa\u00e7am parte de grupos especiais; d) todos os grupos de comit\u00eas reconhecidas pelo Partido, e e) Liga do Estrangeiro. Cada uma das organiza\u00e7\u00f5es listadas ter\u00e1 dois votos no Congresso. Os novos comit\u00eas e grupos de comit\u00eas s\u00f3 ter\u00e3o direito a ser representados no Congresso quando forem confirmados pelo menos seis meses antes da realiza\u00e7\u00e3o do Congresso.<\/li>\n\n\n\n<li>O Congresso do Partido nomeia o CC, o Conselho Editorial do \u00d3rg\u00e3o Central e o Conselho do Partido.<\/li>\n\n\n\n<li>O CC unifica e dirige todas as atividades pr\u00e1ticas do Partido e administra o fundo central do Partido, bem como todas as organiza\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas que servem a todo o Partido. Examinar\u00e1 os conflitos que possam surgir, tanto entre as diferentes organiza\u00e7\u00f5es e entidades do Partido como dentro delas.<\/li>\n\n\n\n<li>O Conselho Editorial do \u00d3rg\u00e3o Central exerce a dire\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica do Partido, edita o \u00d3rg\u00e3o Central, o \u00f3rg\u00e3o te\u00f3rico e diversos panfletos.<\/li>\n\n\n\n<li>O Conselho do Partido \u00e9 nomeado pelo Congresso em n\u00famero de cinco pessoas, escolhidas entre os membros do \u00d3rg\u00e3o Central e do CC. O Conselho resolver\u00e1 todas as disputas ou discrep\u00e2ncias que surgirem entre o Conselho Editorial do \u00d3rg\u00e3o Central e o CC relativamente a problemas gerais de organiza\u00e7\u00e3o e t\u00e1cticas. O Conselho do Partido renova o CC, em caso de queda geral.<\/li>\n\n\n\n<li>Novos comit\u00eas e agrupamentos de comit\u00eas dever\u00e3o ser confirmados pelo Comit\u00ea Central. Cada comit\u00ea, grupo, organiza\u00e7\u00e3o ou grupo reconhecido pelo Partido dirige os assuntos relativos especial e exclusivamente a cada localidade ou a cada distrito, a cada movimento nacional ou \u00e0 fun\u00e7\u00e3o que lhe tenha sido expressamente confiada, tendo, no entanto, a obriga\u00e7\u00e3o de respeitar as decis\u00f5es do CC e do \u00d3rg\u00e3o Central, e contribuir para o fundo central do Partido na propor\u00e7\u00e3o determinada pelo CC.<\/li>\n\n\n\n<li>Cada membro do Partido e qualquer pessoa com ele relacionada tem o direito de exigir que a sua declara\u00e7\u00e3o seja transmitida no seu texto original ao CC, ao \u00d3rg\u00e3o Central ou ao Congresso do Partido.<\/li>\n\n\n\n<li>As organiza\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias t\u00eam o dever de fornecer ao CC e ao \u00d3rg\u00e3o Central todas as informa\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias sobre as suas atividades e composi\u00e7\u00e3o.<\/li>\n\n\n\n<li>Todas as organiza\u00e7\u00f5es do Partido e todos os seus \u00f3rg\u00e3os colegiados decidir\u00e3o os seus assuntos por maioria simples de votos e ter\u00e3o direito \u00e0 coopta\u00e7\u00e3o. Para cooptar novos membros e expulsar um membro ser\u00e3o necess\u00e1rios 2\/3 dos votos.<\/li>\n\n\n\n<li>O objetivo da Liga da Social Democracia Revolucion\u00e1ria Russa no Exterior \u00e9 realizar propaganda e agita\u00e7\u00e3o no exterior, bem como cooperar com o movimento dentro da R\u00fassia. A Liga tem os mesmos direitos que os comit\u00eas, com a \u00fanica excep\u00e7\u00e3o de que o apoio que presta ao movimento na R\u00fassia ser\u00e1 sempre realizado atrav\u00e9s de pessoas ou grupos expressamente designados pelo Comit\u00ea Central.<\/li>\n<\/ol>\n\n\n\n<p>Escrito a fines de junio y comienzos de julio de 1903<\/p>\n\n\n\n<p><strong><u>SE INICIOU O T\u00c3O ESPERADO CONGRESSO<\/u><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O II Congresso iniciou no dia 30 de julho de 1903 e durou at\u00e9 o dia 23 de agosto, mais de 20 dias. Come\u00e7ou na B\u00e9lgica e foi transferido para Londres devido \u00e0 persegui\u00e7\u00e3o policial.<\/p>\n\n\n\n<p>Participaram do Congresso 43 delegados com voz e voto, representando 26 organiza\u00e7\u00f5es do partido, totalizando 51 votos, na medida em que alguns delegados tinham 2 votos. A divis\u00e3o por posi\u00e7\u00e3o no congresso era: 33 delegados iskristas, 10 centristas, 5 delegados do Bund (Uni\u00e3o Geral Oper\u00e1ria Judaica da Litu\u00e2nia, Pol\u00f4nia e R\u00fassia) e 3 economicistas. Aparentemente um congresso tranquilo, j\u00e1 que os iskristas tinham elaborado o programa e os estatutos e dirigiam as principais organiza\u00e7\u00f5es na R\u00fassia, por\u00e9m, quando havia um pequeno deslocamento de alguns iskristas, o congresso se desequilibrava: isso ocorreu na discuss\u00e3o dos estatutos e na elei\u00e7\u00e3o da reda\u00e7\u00e3o do <em>Iskra<\/em> e na elei\u00e7\u00e3o do comit\u00ea central.<\/p>\n\n\n\n<p>Para L\u00eanin, o Congresso era sagrado, o evento mais importante da vida partid\u00e1ria porque a\u00ed estava representada a imagem da base da organiza\u00e7\u00e3o. Os(as) delegados(as) eram escolhidos democraticamente em uma assembleia de militantes, sendo as pessoas que estavam \u00e0 frente da organiza\u00e7\u00e3o, da milit\u00e2ncia, por sua dedica\u00e7\u00e3o, por sua contribui\u00e7\u00e3o ao partido e ao movimento e pelo desempenho das suas tarefas militantes. O crit\u00e9rio de elei\u00e7\u00e3o de delegados(as) n\u00e3o era o militante que sabia mais, nem os mais antigos, nem os membros da dire\u00e7\u00e3o. A elei\u00e7\u00e3o de delegados num partido de tipo leninista \u00e9 a eleva\u00e7\u00e3o da patente da pessoa, realizada pela pr\u00f3pria base. Portanto, o Congresso \u00e9 a reuni\u00e3o da nata da nata, super democr\u00e1tico, e que definir\u00e1 as pol\u00edticas, as t\u00e1ticas e eleger\u00e1 a dire\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o. Por isso, quando se elegia os delegados na base, ainda que o crit\u00e9rio de elei\u00e7\u00e3o n\u00e3o se desse por posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, este elemento tinha peso na elei\u00e7\u00e3o dos delegados, assim a representa\u00e7\u00e3o da base seria a mais completa poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio do Congresso houve questionamentos ao Comit\u00ea de Organiza\u00e7\u00e3o do Congresso (CO), que era uma inst\u00e2ncia respons\u00e1vel pela organiza\u00e7\u00e3o do Congresso. Durante todo o pr\u00e9-congresso esse CO tinha poderes de determinar as regras de participa\u00e7\u00e3o de todas as organiza\u00e7\u00f5es ad referendum do Congresso, por\u00e9m quando se iniciou o Congresso essa inst\u00e2ncia perdeu seu poder, que foi transferido \u00e0 plen\u00e1ria de delegados do Congresso. O CO continuou funcionando, mantendo apenas sua fun\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, n\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro elemento importante que ocorreu no in\u00edcio do Congresso, foi o esclarecimento sobre o <em>mandato imperativo<\/em>, isto \u00e9, o delegado j\u00e1 vem com seu voto definido pela organiza\u00e7\u00e3o ou pela plen\u00e1ria que o elegeu. O <em>mandato imperativo<\/em> n\u00e3o funcionava no Congresso nem nas inst\u00e2ncias de dire\u00e7\u00e3o de um partido marxista revolucion\u00e1rio. Nenhum delegado ou delegada estava obrigada a votar de acordo com sua organiza\u00e7\u00e3o regional pela qual foi eleita, nem pela base que votou neste ou nesta delegada. Os debates no Congresso, como inst\u00e2ncia m\u00e1xima da organiza\u00e7\u00e3o, podem mudar as opini\u00f5es originais dos congressistas, portanto a votar por uma posi\u00e7\u00e3o que n\u00e3o era a sua originalmente.<\/p>\n\n\n\n<p>Os pontos da pauta mais importantes do II Congresso foram a vota\u00e7\u00e3o do programa do partido, dos estatutos e a elei\u00e7\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o central. As quest\u00f5es de t\u00e1tica e de pol\u00edtica foram secundarizadas e boa parte n\u00e3o foi debatido no Congresso.<\/p>\n\n\n\n<p>O programa foi aprovado por unanimidade, com apenas uma absten\u00e7\u00e3o.<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a> Os temas mais debatidos foram sobre o papel do proletariado como dirigente da revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tico-burguesa que se aproximava e, especialmente, sobre a ditadura do proletariado, pois um setor do POSDR n\u00e3o queria introduzir este ponto no programa porque n\u00e3o constava nos demais programas dos partidos socialdemocratas europeus. Tamb\u00e9m foi pol\u00eamica algumas interpreta\u00e7\u00f5es do livro <em>Que Fazer?<\/em> que entendiam que os oper\u00e1rios n\u00e3o participavam da elabora\u00e7\u00e3o da teoria, argumento que L\u00eanin respondeu:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cLenin n\u00e3o leva em conta que os trabalhadores tamb\u00e9m participam na elabora\u00e7\u00e3o da ideologia. Sim? N\u00e3o foi dito mil vezes nos meus escritos que a maior defici\u00eancia do nosso movimento \u00e9 a escassez de trabalhadores plenamente conscientes, de trabalhadores dirigentes, de trabalhadores revolucion\u00e1rios? N\u00e3o est\u00e1 a\u00ed dito que deveria ser nossa tarefa imediata formar estes trabalhadores revolucion\u00e1rios? N\u00e3o \u00e9 apontada a import\u00e2ncia do desenvolvimento do movimento sindical e da cria\u00e7\u00e3o de uma literatura especificamente sindical? N\u00e3o est\u00e1 sendo travada uma luta desesperada contra qualquer tentativa de baixar o n\u00edvel dos trabalhadores de vanguarda ao das massas ou ao dos trabalhadores m\u00e9dios?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O debate mais acirrado do congresso versou sobre os Estatutos e especialmente o par\u00e1grafo primeiro<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[3]<\/a> refletindo <em>diferentes princ\u00edpios de organiza\u00e7\u00e3o do partido<\/em>. Surgiram duas posi\u00e7\u00f5es: a do L\u00eanin, que redigiu esse par\u00e1grafo acima que considerava membro do partido apenas quem aceitava o programa do partido e participava efetivamente de alguma organiza\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria, ademais de contribuir financeiramente de forma regular.&nbsp; Portanto, uma vis\u00e3o de um partido combativo, com membros ativos, que participavam da luta de classes, em alguma organiza\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria ou de massas. A segunda proposta foi elaborada por M\u00e1rtov (que foi copiada dos estatutos do PSD alem\u00e3o votados no Congresso de Erfurt), era igual \u00e0 do L\u00eanin com uma diferen\u00e7a: ao inv\u00e9s de uma participa\u00e7\u00e3o efetiva em uma organiza\u00e7\u00e3o do partido, bastava \u201capoiar\u201d regularmente o partido. Quer dizer, bastava que qualquer pessoa dissesse que era do partido para ser considerado militante. Isto significava que se abria as portas do partido sem nenhum crit\u00e9rio, apenas baseado na palavra da pessoa. Essa proposta foi aprovada por uma pequena margem de votos (28 a 22 votos e uma absten\u00e7\u00e3o), onde os oportunistas do congresso (economicistas e bundistas) se juntaram \u00e0 M\u00e1rtov e uma parte dos iskristas. O restante do estatuto foi aprovado segundo a formula\u00e7\u00e3o de L\u00eanin.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin explicou, posteriormente ao II Congresso, o debate sobre os estatutos e a diferen\u00e7a entre a proposta dele e a de M\u00e1rtov, dizendo:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO panorama muda completamente quando chegamos na segunda metade do Congresso. A partir desse momento come\u00e7ou a virada hist\u00f3rica de M\u00e1rtov. As diferen\u00e7as entre n\u00f3s n\u00e3o eram de forma alguma insignificantes. Nasceram da falsa aprecia\u00e7\u00e3o de M\u00e1rtov sobre o momento atual. O camarada M\u00e1rtov desviou-se da linha que tinha seguido anteriormente.<\/p>\n\n\n\n<p>O quinto ponto da agenda tratou dos Estatutos. J\u00e1 na comiss\u00e3o surgiram disputas entre M\u00e1rtov e eu sobre o seu primeiro artigo. Defendemos f\u00f3rmulas diferentes. Insisti na minha f\u00f3rmula e salientei que sem nos afastarmos do princ\u00edpio do centralismo n\u00e3o poder\u00edamos fazer outra defini\u00e7\u00e3o de membro do Partido. Reconhecer como membro do Partido algu\u00e9m que n\u00e3o pertence a nenhuma das suas organiza\u00e7\u00f5es equivale a manifestar-se contra todo o controle partid\u00e1rio. M\u00e1rtov introduziu aqui um novo princ\u00edpio, totalmente contr\u00e1rio aos princ\u00edpios do<em> Iskra<\/em>. A sua f\u00f3rmula expandiu os limites do Partido. Ele invocou que o nosso Partido deveria ser um partido de massas. Abriu as portas a todos os tipos de oportunistas, expandiu os limites do Partido at\u00e9 ficarem completamente confusos. Nas nossas condi\u00e7\u00f5es, isto cont\u00e9m um grande perigo, pois \u00e9 muito dif\u00edcil tra\u00e7ar uma linha entre um revolucion\u00e1rio e um charlat\u00e3o. Portanto, precis\u00e1vamos restringir o conceito de partido. O erro de M\u00e1rtov foi ter aberto amplamente as portas do Partido a qualquer aventureiro, quando se tornou claro que, mesmo no Congresso, pelo menos um ter\u00e7o dos presentes eram intrigantes. Neste caso, M\u00e1rtov expressou oportunismo. A sua f\u00f3rmula introduziu uma nota falsa e dissonante nos Estatutos: cada membro do Partido tinha de estar sob tal controlo da organiza\u00e7\u00e3o que o CC tivesse a possibilidade de comunicar com todos os membros do Partido. Minha f\u00f3rmula serviu de est\u00edmulo \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o. O camarada M\u00e1rtov baixou o conceito de \u201cmembro do Partido\u201d, que, na minha opini\u00e3o, deve ser mantido elevado, muito elevado. M\u00e1rtov, Rab\u00f3chee Delo, o Bund e o &#8220;p\u00e2ntano&#8221; juntaram-se, com a ajuda dos quais conseguiu a aprova\u00e7\u00e3o do Artigo Primeiro dos Estatutos.<\/p>\n\n\n\n<p>No decorrer do congresso, um setor do POSDR (5 delegados do Bund judeu, 2 economicistas e mais alguns delegados) abandonou o congresso, por n\u00e3o concordar com suas resolu\u00e7\u00f5es. A partir da\u00ed, os 24 delegados iskristas que acompanhavam a posi\u00e7\u00e3o de L\u00eanin se tornaram \u201cmaioria\u201d (em russo, \u201cbolcheviques\u201d) e os seguidores de M\u00e1rtov \u201cminoria\u201d (= \u201cmencheviques\u201d).<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos pontos iniciais do congresso foi muito pol\u00eamico e tratou da quest\u00e3o do Bund (partido de prolet\u00e1rios judeus) no POSDR. O Bund propunha formar uma <em>federa\u00e7\u00e3o<\/em> entre ele e o POSDR, onde o Bund atuaria como um partido dentro do partido, com seus pr\u00f3prios materiais e publica\u00e7\u00f5es, com sua pr\u00f3pria dire\u00e7\u00e3o, etc. A maioria do congresso recha\u00e7ou esta proposta e defendia um POSDR \u00fanico e centralizado, ainda que permitia a <em>autonomia<\/em> de atua\u00e7\u00e3o para o Bund no que se tratasse das quest\u00f5es espec\u00edficas dos judeus. \u00c9 importante notar que o Bund tinha 35 mil membros, muito mais que o conjunto das organiza\u00e7\u00f5es solid\u00e1rias \u00e0 Iskra.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m houve um debate sobre a rela\u00e7\u00e3o do proletariado com a burguesia liberal. Potr\u00e9sov (com apoio de M\u00e1rtov e Axelrod, l\u00edderes dos mencheviques) apresentou uma resolu\u00e7\u00e3o oportunista, onde defendia uma alian\u00e7a com a burguesia liberal, enquanto a maioria defendeu a resolu\u00e7\u00e3o principista apresentada por Plekhanov. Por falta de tempo, se aprovou as duas resolu\u00e7\u00f5es. L\u00eanin dizia que se podia fazer acordos tempor\u00e1rios na luta contra a autocracia na medida em que a burguesia lutasse revolucionariamente para derrubar a autocracia, por\u00e9m negava fazer alian\u00e7as com esta mesma burguesia. Portanto, uma coisa s\u00e3o acordos tempor\u00e1rios na luta concreta, outra coisa s\u00e3o as alian\u00e7as de classe com essa burguesia (inadmiss\u00edveis para L\u00eanin). Dizia ele:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAs publica\u00e7\u00f5es liberais de car\u00e1ter legal s\u00e3o in\u00fateis, neste caso, justamente pela sua nebulosidade. E devemos dirigir com o maior zelo (e perante as mais amplas massas trabalhadoras poss\u00edveis) o fio da nossa cr\u00edtica contra os elementos da <em>Osvobozhdenie<\/em> [jornal da burguesa liberal \u2013 N.E. LIT] para que, no momento da revolu\u00e7\u00e3o que se aproxima, o proletariado russo saiba como parar com uma verdadeira cr\u00edtica das armas as inevit\u00e1veis \u200b\u200btentativas dos senhores de <em>Osvobozhdenie<\/em> de restringir o car\u00e1cter democr\u00e1tico da revolu\u00e7\u00e3o.&#8221; De todas formas, as discuss\u00f5es pol\u00edticas e t\u00e1ticas foram secundarizadas no Congresso, tendo prioridade as discuss\u00f5es program\u00e1ticas e de princ\u00edpios. Neste tema ficou evidente que o stalinismo, com sua eterna estrat\u00e9gia de \u201calian\u00e7a com a burguesia progressista\u201d, n\u00e3o tem nada a ver com a posi\u00e7\u00e3o de L\u00eanin e do bolchevismo.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00faltimo ponto do Congresso selou a divis\u00e3o do POSDR: na elei\u00e7\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o do jornal Iskra, L\u00eanin apresentou uma proposta de reduzir de 6 membros para 3 membros. A ess\u00eancia do problema n\u00e3o era num\u00e9rica e sim porque L\u00eanin queria ter uma rela\u00e7\u00e3o profissional na dire\u00e7\u00e3o do partido e n\u00e3o rela\u00e7\u00f5es de amizade entre os dirigentes. A reda\u00e7\u00e3o anterior era composta por 6 membros (3 antigos dirigentes e 3 novos, que j\u00e1 analisamos em epis\u00f3dios anteriores), onde apenas 3 redigiam artigos para a Iskra e Zari\u00e1. Os outros tr\u00eas trabalhavam pouco e tinham cargos de dire\u00e7\u00e3o sem ser, de fato, dire\u00e7\u00e3o. Por isso, L\u00eanin prop\u00f4s essa diminui\u00e7\u00e3o e a elei\u00e7\u00e3o de Plekhanov, M\u00e1rtov e ele para serem a reda\u00e7\u00e3o do jornal partid\u00e1rio. O Congresso concordou com L\u00eanin e aprovou essa proposta, por\u00e9m, M\u00e1rtov nunca assumiu o cargo e sabotou os organismos dirigentes, se insurgindo contra as decis\u00f5es do Congresso. Em pouco tempo, Plekh\u00e1nov que havia concordado com a proposta de L\u00eanin, voltou atr\u00e1s e cooptou todos os antigos membros da reda\u00e7\u00e3o, voltando \u00e0 situa\u00e7\u00e3o anterior, s\u00f3 que agora com 5 mencheviques (que eram minoria no congresso) e um bolchevique (L\u00eanin), uma proposta inaceit\u00e1vel e um desrespeito \u00e0s decis\u00f5es do congresso. L\u00eanin se retirou da reda\u00e7\u00e3o da Iskra. Com isso, M\u00e1rtov consolidou a exist\u00eancia de uma corrente pr\u00f3pria, o menchevismo, que da\u00ed em diante se converteu num partido \u00e0 parte, obrigando a maioria do congresso a se organizar adequadamente para a luta pol\u00edtica e montar sua pr\u00f3pria imprensa, j\u00e1 que a Iskra menchevique se negava a publicar qualquer coisa dos bolcheviques. A partir dessa divis\u00e3o o partido nunca mais atuou de forma unificada. Evidentemente que o racha j\u00e1 estava refletindo diferen\u00e7as pol\u00edticas e organizativas importantes, que desaguaram no debate ao redor dos princ\u00edpios organizativos, mas o menchevismo aspirava a funcionar igual ao partido socialdemocrata alem\u00e3o (inclusive a proposta de Estatuto de M\u00e1rtov, foi copiado do PSD alem\u00e3o), na legalidade total, apoiada no trabalho sindical e parlamentar legal, coisa imposs\u00edvel na R\u00fassia. Na revolu\u00e7\u00e3o de 1905, que estouraria dentro de 1 ano e meio, as diferen\u00e7as se estenderam a todos os campos da a\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria, nas alian\u00e7as, nas t\u00e1ticas, na forma de organiza\u00e7\u00e3o, em tudo se aprofundou a ruptura iniciada no II Congresso em 1903.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>L\u00eanin teve um papel destacado no II Congresso:<\/strong> fez 47 interven\u00e7\u00f5es e discursos no conjunto do congresso, preparou as principais resolu\u00e7\u00f5es, sendo o l\u00edder inconteste da maioria que se formou neste congresso e que foi a base do partido bolchevique.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><u>SEGUNDA PARTE: AS POL\u00caMICAS AP\u00d3S O II CONGRESSO<\/u><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin escreveu em uma carta a Kalmikova (financiadora das publica\u00e7\u00f5es do POSDR), de 7 de setembro de 1903, que a \u201catitude impensada em rela\u00e7\u00e3o aos resultados [do congresso], mas os resultados em si s\u00e3o completamente inevit\u00e1veis, e o fato de terem ocorrido foi apenas uma quest\u00e3o de tempo.\u201d Quer dizer, essa ruptura j\u00e1 estava se preparando (sem que fosse vontade de ningu\u00e9m), antes do Congresso, \u00e9 o que nos informa L\u00eanin aqui. Nesta carta, L\u00eanin rebate a acusa\u00e7\u00e3o de que \u201cforam eliminados da dire\u00e7\u00e3o a pessoas capazes\u201d:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cUm ou outro foi simplesmente exclu\u00eddo do <em>organismo central<\/em>, isso \u00e9 motivo para ficar ofendido? O Partido deveria ser dividido por esta raz\u00e3o? Ser\u00e1 esta raz\u00e3o suficiente para desenvolver uma teoria sobre o hipercentralismo? Ser\u00e1 esta raz\u00e3o suficiente para dizer que se usa punho de ferro, etc.? Nunca duvidei um s\u00f3 minuto, nem me passou pela cabe\u00e7a a ideia de que um grupo de tr\u00eas membros da equipe editorial fosse o <em>\u00fanico<\/em> grupo verdadeiramente pr\u00e1tico, que n\u00e3o divide nada, e que adapta a antiga lideran\u00e7a coletiva \u201cfamiliar\u201d ao papel de algo de natureza <em>oficial<\/em>. Foi precisamente o car\u00e1cter familiar dos seis que nos torturou a todos durante estes tr\u00eas anos, <em>como voc\u00ea sabe muito bem<\/em>, desde o momento em que o <em>Iskra<\/em> se tornou o Partido e o Partido se tornou &#8220;<em>Iskra<\/em>&#8220;, <em>dever\u00edamos, nos vimos obrigados<\/em> a romper com os seis e com o car\u00e1cter familiar (\u2026.) \u201cPara o bem da causa era absolutamente essencial romper com o \u201ccar\u00e1ter familiar\u201d, e tenho a certeza que o grupo dos seis teria aceitado pacificamente aos tr\u00eas, se n\u00e3o fossem as disputas relativas ao \u00a7 1\u00ba e ao CC. <em>Somente<\/em> essas disputas fizeram com que o grupo dos tr\u00eas adquirisse para eles aquele tom \u201chorr\u00edvel\u201d e completamente impreciso.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Na verdade, L\u00eanin tentou romper com a estrutura de funcionamento da dire\u00e7\u00e3o baseado em simpatias e antipatias pessoais (portanto, camarilhesca), uma dire\u00e7\u00e3o de amigos, pouco respons\u00e1vel pelas tarefas, onde apenas alguns redatores trabalhavam e a maioria n\u00e3o produzia material para a <em>Iskra<\/em> ou <em>Zari\u00e1<\/em>. Por tr\u00eas anos, nunca se reuniu essa reda\u00e7\u00e3o de membros com todos os seis membros. Nestes 3 anos de reda\u00e7\u00e3o da Iskra, quem dirigiu a reda\u00e7\u00e3o foi L\u00eanin (que escreveu 32 artigos) e M\u00e1rtov (escreveu 39 artigos), Plekhanov (escreveu 24 artigos), Potr\u00e9sov (escreveu 8), Vera Zasulich (6 artigos) e Axelrod apenas 4 artigos, em 3 anos. Essa era a reda\u00e7\u00e3o anterior que foi modificada pelo Congresso que elegeu L\u00eanin, M\u00e1rtov e Plekhanov para a reda\u00e7\u00e3o. Como pode-se ver, alguns ocupavam cargos pela trajet\u00f3ria militante no passado, mas que agora j\u00e1 n\u00e3o desempenhavam um papel dirigente na organiza\u00e7\u00e3o (tipo Axelrod \u2013 eternamente ausente nos trabalhos da reda\u00e7\u00e3o -, Vera Zasulich e Potr\u00e9sov).<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin dizia em uma carta a Li\u00e1dov, de 10 de novembro de 1903:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA gritaria hist\u00e9rica tenta esconder uma lament\u00e1vel incapacidade de compreender que a Reda\u00e7\u00e3o deve ter editores reais e n\u00e3o fict\u00edcios, que deve ser um organismo operacional, e n\u00e3o uma dire\u00e7\u00e3o amadora, e que <em>cada um<\/em> dos seus membros deve ter a sua opini\u00e3o <em>pessoal <\/em>em <em>cada<\/em> problema (algo que nunca aconteceu no grupo n\u00e3o eleito de tr\u00eas).\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Numa carta a Potr\u00e9sov, de 13 de setembro de 1903, L\u00eanin retomou o tema da dire\u00e7\u00e3o baseada em afinidades pessoais:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c\u00c9 por isso que considero que este grupo de tr\u00eas constitui o <em>\u00fanico<\/em> arranjo pr\u00e1tico poss\u00edvel, a <em>\u00fanica<\/em> coisa que pode se tornar uma institui\u00e7\u00e3o oficial, em vez de uma organiza\u00e7\u00e3o baseada no nepotismo e na indol\u00eancia, a <em>\u00fanica<\/em> coisa que pode ser um verdadeiro centro, cada um de cujos membros, repito, sempre expressariam e defenderiam seu ponto de vista partid\u00e1rio, <em>sem ceder um cent\u00edmetro, independentemente<\/em> de qualquer interesse pessoal, de <em>todos os tipos<\/em> de considera\u00e7\u00f5es sobre queixas, demiss\u00f5es, etc., etc.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin considerava inadmiss\u00edvel que se lutasse por cargos dentro do partido: \u201cE causar uma cis\u00e3o porque algu\u00e9m foi exclu\u00eddo do \u00f3rg\u00e3o central parece-me uma loucura incr\u00edvel\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Continuou batendo na mesma tecla:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO dilema agora \u00e9 inexor\u00e1vel: <em>ou<\/em> a diverg\u00eancia se coloca a n\u00edvel pessoal, sendo nesse caso um absurdo fazer um esc\u00e2ndalo pol\u00edtico e abandonar o trabalho por causa disso; <em>ou<\/em> a diverg\u00eancia \u00e9 pol\u00edtica, e ent\u00e3o \u00e9 ainda mais rid\u00edculo \u201cretificar\u201d <em>as<\/em> coisas impondo certas pessoas de, digamos, um matiz diferente.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles se decidiram (parecem se decidir) por este \u00faltimo. Nesse caso, junte-se ao grupo de tr\u00eas, M\u00e1rtov, e <em>demonstre<\/em> ao Partido os erros dos outros <em>dois da sua<\/em> dire\u00e7\u00e3o coletiva: se voc\u00ea n\u00e3o participar da dire\u00e7\u00e3o, n\u00e3o conseguir\u00e1 obter dados para denunciar esses erros e alertar o Partido contra eles. Caso contr\u00e1rio, suas acusa\u00e7\u00f5es ser\u00e3o fofocas vazias sobre algo futuro.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o que L\u00eanin considerava inaceit\u00e1vel era o boicote de M\u00e1rtov aos organismos centrais eleitos no II Congresso, pois era de conhecimento geral a clausula 18 de convocat\u00f3ria do Congresso que dizia:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cTodos os acordos do Congresso e todas as elei\u00e7\u00f5es que nele se realizam s\u00e3o acordos do Partido, obrigat\u00f3rio para todas as suas organiza\u00e7\u00f5es. Ningu\u00e9m, sob qualquer pretexto, pode recorrer delas, e s\u00f3 um novo congresso do Partido pode anul\u00e1-las ou modific\u00e1-las\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Era inaceit\u00e1vel impor duas pessoas na dire\u00e7\u00e3o que n\u00e3o cumpriam o papel de dirigentes, apenas porque representavam um \u201cmatiz\u201d que, inclusive, estaria representado atrav\u00e9s das figuras de Plekhanov e do pr\u00f3prio M\u00e1rtov. Essa imposi\u00e7\u00e3o partia de uma vis\u00e3o pouco profissional da dire\u00e7\u00e3o, como se fosse um \u201cclube de amigos\u201d e n\u00e3o dirigentes do partido e do movimento. Por outro lado, se o boicote de M\u00e1rtov se devia a diferen\u00e7as pol\u00edticas tamb\u00e9m n\u00e3o se justificaria porque na equipe de tr\u00eas proposta por L\u00eanin (Plekhanov, M\u00e1rtov e L\u00eanin) a tendencia era de L\u00eanin ser minoria diante dos dois. <em>Todo o problema se resumia a que uma minoria n\u00e3o aceitava se subordinar \u00e0 maioria<\/em>. A minoria queria impor sua posi\u00e7\u00e3o \u00e0 maioria pela for\u00e7a e n\u00e3o pelo convencimento, pelo trabalho leal como minoria para ganhar a maioria do partido.<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\">[4]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin insistia a que M\u00e1rtov assumisse seu cargo para o qual foi eleito no II Congresso, como um dos tr\u00eas principais dirigentes da Iskra e Zari\u00e1:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO Conselho Editorial da OC declara que considera a sua recusa em colaborar absolutamente sem motivo. Naturalmente, nenhum elemento de irrita\u00e7\u00e3o pessoal dever\u00e1 impedir o trabalho no \u00d3rg\u00e3o Central do Partido. Mas se a sua sa\u00edda se deveu a alguma diverg\u00eancia entre as suas ideias e as nossas, considerar\u00edamos extremamente \u00fatil para o Partido que essas diverg\u00eancias fossem expostas em detalhe. Al\u00e9m disso, consideramos muito conveniente que a natureza e o alcance destas diverg\u00eancias sejam esclarecidos perante todo o Partido, o mais rapidamente poss\u00edvel, nas p\u00e1ginas das publica\u00e7\u00f5es que dirigimos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A situa\u00e7\u00e3o piorou ainda mais com a mudan\u00e7a da posi\u00e7\u00e3o de Plekhanov, que assumiu, junto com L\u00eanin, a dire\u00e7\u00e3o do jornal (que era a dire\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica do partido). Plekhanov passou a defender a volta da antiga reda\u00e7\u00e3o de 6 pessoas (que agora seria 5 mencheviques e L\u00eanin apenas pela maioria), uma correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as totalmente diferente do II Congresso. Na verdade, a minoria ganhou no grito! L\u00eanin apelou a Plekhanov, dizendo:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEstamos cansados \u200b\u200bda disc\u00f3rdia! \u00c9 isso que escrevem e gritam nas cartas que chegam da R\u00fassia, e ceder agora aos martovistas significaria legalizar a disc\u00f3rdia na R\u00fassia, uma vez que na R\u00fassia n\u00e3o houve at\u00e9 agora qualquer vest\u00edgio de desobedi\u00eancia e rebeli\u00e3o. Nenhuma declara\u00e7\u00e3o minha ou sua poder\u00e1 agora restringir os delegados majorit\u00e1rios no Congresso do Partido. Esses delegados far\u00e3o um estardalha\u00e7o terr\u00edvel. Por uma quest\u00e3o de unidade, por uma quest\u00e3o de estabilidade do Partido, pe\u00e7o-lhe que n\u00e3o assuma tal responsabilidade. \u201cN\u00e3o abdique nem abandone tudo nas m\u00e3os dos martovistas. Por\u00e9m, essas palavras n\u00e3o sensibilizaram a Plekhanov, como mostrou L\u00eanin nesta carta a Krzhizhanovski, de 4 de novembro de 1903:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cQuerido amigo: Voc\u00ea n\u00e3o imagina o que aconteceu aqui, \u00e9 simplesmente nojento e pe\u00e7o que fa\u00e7a todo o poss\u00edvel e imposs\u00edvel para <em>vir aqui junto com o Boris, depois de obter os votos dos outros<\/em>. Voc\u00eas sabem que agora tenho bastante experi\u00eancia nos assuntos do Partido e declaro categoricamente que qualquer adiamento, o menor atraso ou hesita\u00e7\u00e3o significa a ru\u00edna do Partido. Eles provavelmente lhe contar\u00e3o tudo em detalhes. A chave de tudo \u00e9 que Plekhanov mudou subitamente de rosto, depois dos esc\u00e2ndalos no Congresso da Liga, traindo-me violenta e vergonhosamente a mim, a Kurts e a todos n\u00f3s. Agora ele foi, ignorando a todos n\u00f3s, negociar com os martovistas, que, vendo que Plekhanov ficou com medo de uma divis\u00e3o, duplicaram e quadruplicaram as suas exig\u00eancias, exigindo n\u00e3o s\u00f3 o grupo dos seis, mas tamb\u00e9m a inclus\u00e3o do seu povo na o CC (ainda n\u00e3o disseram quantos nem quem), e dois deles no Conselho e uma desaprova\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es do CC na Liga (a\u00e7\u00e3o levada a cabo com o pleno acordo de Plekhanov). Plekhanov ficou terrivelmente assustado com uma divis\u00e3o e uma luta! A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 desesperadora, os nossos inimigos est\u00e3o alegres e insolentes, todo o nosso povo est\u00e1 furioso. Plekhanov amea\u00e7a abandonar tudo de uma vez, e consegue faz\u00ea-lo. Insisto, sua <em>vinda<\/em> para isso \u00e9 <em>essencial<\/em>, custe o que custar.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Situa\u00e7\u00e3o desesperante para que L\u00eanin tivesse que dizer \u201c<em>Voc\u00ea sabe que agora tenho muita experi\u00eancia em assuntos partid\u00e1rios<\/em>\u201d para seu camarada mais pr\u00f3ximo no Partido. Neste mesmo dia, 4 de novembro de 1903, L\u00eanin enviou uma carta ao CC eleito (que, neste momento, tinha maioria bolchevique) com a seguinte proposta:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSuas condi\u00e7\u00f5es s\u00e3o: 1) coopta\u00e7\u00e3o de<em> quatro<\/em> para a Equipe Editorial; 2) coopta\u00e7\u00e3o? para o CC; 3) reconhecimento da legitimidade da Liga; 4) 2 votos no Conselho. Sugiro que o CC proponha as seguintes condi\u00e7\u00f5es: 1) coopta\u00e7\u00e3o de <em>tr\u00eas<\/em> para a Equipe Editorial; 2) Situa\u00e7\u00e3o antes das hostilidades na Liga; 3) 1 voto no Conselho. Sugiro ent\u00e3o que o seguinte <em>ultimato<\/em> seja aprovado imediatamente (mas por enquanto sem comunic\u00e1-lo \u00e0 parte contr\u00e1ria): 1) coopta\u00e7\u00e3o de 4 para a Equipe Editorial; 2) coopta\u00e7\u00e3o de 2 para o CC na elei\u00e7\u00e3o do CC; Situa\u00e7\u00e3o antes das hostilidades na Liga; 4) 1 voto no Conselho. Se n\u00e3o aceitarem o ultimato, guerra at\u00e9 o fim. Uma condi\u00e7\u00e3o adicional: 5) acabar com todas as fofocas, disputas e coment\u00e1rios sobre as alterca\u00e7\u00f5es no Segundo Congresso do Partido e depois dele.<\/p>\n\n\n\n<p>Devo acrescentar, pela minha parte, que me demiti do Conselho Editorial e que s\u00f3 posso continuar no Comit\u00ea Central. Farei tudo e publicarei um panfleto sobre a luta dos hist\u00e9ricos criadores de esc\u00e2ndalos ou dos ministros descartados.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Na verdade, a luta dos mencheviques era uma luta por cargos na dire\u00e7\u00e3o, como n\u00e3o obtiveram estes cargos no Congresso, estavam conseguindo no grito, num total desrespeito ao Congresso, como inst\u00e2ncia m\u00e1xima de decis\u00e3o do Partido. Ocultavam a luta por cargos acusando o CC de \u201cburocratismo\u201d. &nbsp;\u201cDe que servem ent\u00e3o os congressos do Partido se as coisas se resolvem com nepotismo no exterior, histeria e esc\u00e2ndalos??\u201d, dizia L\u00eanin.<\/p>\n\n\n\n<p>Numa carta dirigida aos militantes, de 4 de janeiro de 1904, L\u00eanin sintetizou o debate da seguinte maneira:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cChamam de burocratas aqueles que ocupam cargos no Partido por vontade do seu Congresso, e n\u00e3o por capricho de um c\u00edrculo de literatos residentes no exterior. \u00c9 necess\u00e1rio encobrir desta forma o fato, t\u00e3o desagrad\u00e1vel para si, de que na verdade o burocratismo, o localismo e a procura de emprego obcecam aqueles que simplesmente n\u00e3o podiam trabalhar no Partido fora das suas institui\u00e7\u00f5es centrais. Sim, o seu comportamento, de facto, mostrou-nos claramente que o nosso Partido sofre daquele burocratismo que coloca os cargos acima do trabalho e que n\u00e3o exclui boicotes ou desorganiza\u00e7\u00e3o para ganhar cargos.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, L\u00eanin acusava os mencheviques de \u201c<em>hist\u00e9ricos ca\u00e7adores de cargos na dire\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d. Enquanto eram maioria no partido, estava tudo bem. O Congresso os colocou em minoria, inaceit\u00e1vel! Guerra at\u00e9 a morte contra o \u201cburocratismo\u201d da maioria. Onde j\u00e1 se viu, dirigentes \u201cdesconhecidos\u201d no exterior ocuparem vagas de \u201cdirigentes hist\u00f3ricos\u201d? Por cargos, essa minoria estava disposta a romper o partido, para ser novamente maioria, como ocorreu de fato com o POSDR.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda que L\u00eanin (assim como a maioria do II Congresso) n\u00e3o concordasse em eleger a dire\u00e7\u00e3o utilizando o crit\u00e9rio da proporcionalidade de grupos e fra\u00e7\u00f5es, na proposta de membros do CC, L\u00eanin prop\u00f4s uma pessoa do \u201ccentro\u201d e um menchevique.<\/p>\n\n\n\n<p>A proposta feita pelo L\u00eanin tentava buscar uma paz no partido e era uma enorme concess\u00e3o aos mencheviques: entregar a maioria da reda\u00e7\u00e3o do Iskra e Zari\u00e1 para os mencheviques, pagando todos os gastos do jornal (inclusive, renunciando ao cargo nesta reda\u00e7\u00e3o)<a href=\"#_ftn5\" id=\"_ftnref5\">[5]<\/a>, entregar, tamb\u00e9m, a maioria no Conselho (que era uma esp\u00e9cie de \u00f3rg\u00e3o que unificava o CC e a reda\u00e7\u00e3o do jornal) enquanto se mantinha numa posi\u00e7\u00e3o majorit\u00e1ria no CC, para iniciar uma luta frontal contra os mencheviques.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa luta come\u00e7aria com a publica\u00e7\u00e3o de um livro que L\u00eanin se referiu na carta anterior \u201c<strong><em>Um passo adiante, dois passos atr\u00e1s<\/em>\u201d<\/strong> (escrito entre fevereiro e maio de 1904), que passamos a resenhar:<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 no pr\u00f3logo do livro, L\u00eanin avaliou que as diferen\u00e7as de princ\u00edpio n\u00e3o se referiam ao programa ou a t\u00e1tica, mas \u201ca problemas de organiza\u00e7\u00e3o, o novo sistema de concep\u00e7\u00f5es que se vislumbra no novo <em>Iskra<\/em>&#8230; oportunismo nos problemas organizacionais&#8230; defendem uma organiza\u00e7\u00e3o amorfa do Partido sem forte coes\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A primeira grande pol\u00eamica: o centralismo e as fronteiras partid\u00e1rias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para L\u00eanin, a ideia central das propostas de organiza\u00e7\u00e3o da Iskra era o centralismo, um debate que n\u00e3o era simplesmente organizativo, mas de princ\u00edpio. O centralismo deveria ser o fio condutor de todo o estatuto. Esta ideia era de comum acordo na reda\u00e7\u00e3o da Iskra, at\u00e9 o momento em que M\u00e1rtov ficou em minoria na elei\u00e7\u00e3o do CC e da reda\u00e7\u00e3o do jornal.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse princ\u00edpio de organiza\u00e7\u00e3o se apoiava em dois polos: por um lado, a estrita sele\u00e7\u00e3o de quem era militante, estabelecendo as fronteiras partid\u00e1rias, onde entrariam apenas os(as) prolet\u00e1rios(as) com consci\u00eancia de classe e socialista, e uma rela\u00e7\u00e3o ampla com os setores do proletariado e dos setores oprimidos (semiprolet\u00e1rios do campo, nacionalidades oprimidas, etc), que ainda n\u00e3o tinha a compreens\u00e3o da necessidade de se organizar no partido revolucion\u00e1rio. A estrita centraliza\u00e7\u00e3o e disciplina dos militantes permitia a rela\u00e7\u00e3o aberta e fluida com a massa de trabalhadores do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>A defini\u00e7\u00e3o estrita de quem era militante ou simpatizante era a quest\u00e3o central para garantir uma centraliza\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica: ao definir as fronteiras partid\u00e1rias, delimitava os direitos iguais para todos os militantes, da base at\u00e9 a dire\u00e7\u00e3o. A f\u00f3rmula frouxa e amorfa de M\u00e1rtov, aparentemente democr\u00e1tica porque cabia \u201ctodos\u201d como membros do partido, deixava nas m\u00e3os da dire\u00e7\u00e3o o controle das decis\u00f5es partid\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin alertou que essa diverg\u00eancia se transformou em ruptura da seguinte maneira:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cQual era, ent\u00e3o, a ess\u00eancia da quest\u00e3o em disputa? J\u00e1 disse no Congresso, e repeti-o muitas vezes desde ent\u00e3o, que \u201cn\u00e3o considero de forma alguma que o nosso desacordo (com respeito ao primeiro artigo) seja t\u00e3o substancial que dele dependa a vida ou a morte do Partido. N\u00e3o morreremos porque h\u00e1 um ponto mal formulado nos Estatutos!\u201d (250). Embora esta discrep\u00e2ncia revele nuances de princ\u00edpio, n\u00e3o poderia de forma alguma produzir por si s\u00f3 a diverg\u00eancia (e na verdade, falando de forma n\u00e3o convencional, a divis\u00e3o) que ocorreu desde o Congresso. Mas toda <em>pequena<\/em> discrep\u00e2ncia pode tornar-se <em>grande<\/em> se voc\u00ea insistir nela, se for colocada em primeiro plano, se <em>come\u00e7armos<\/em> a procurar todas as ra\u00edzes e todas as ramifica\u00e7\u00f5es dela. Toda <em>pequena<\/em> discrep\u00e2ncia pode adquirir <em>imensa<\/em> import\u00e2ncia se servir de ponto de partida para <em>uma virada<\/em> em dire\u00e7\u00e3o a certos conceitos errados e se a esses conceitos errados se juntarem, em virtude de novas discrep\u00e2ncias adicionais, atos an\u00e1rquicos que levem o Partido a uma divis\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin dizia que o erro fundamental dos mencheviques era \u201cconfundir o Partido como destacamento de vanguarda da classe oper\u00e1ria com toda a classe\u201d (\u2026)<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c\u2026a minha exig\u00eancia de que o Partido, enquanto destacamento de vanguarda da classe, seja o <em>mais organizado<\/em> poss\u00edvel e s\u00f3 acolha nas suas fileiras aqueles elementos que <em>admitam, pelo menos, um m\u00ednimo de organiza\u00e7\u00e3o<\/em>. O meu advers\u00e1rio, pelo contr\u00e1rio, <em>confunde<\/em> os elementos organizados e desorganizados do Partido, os que se deixam liderar com os que n\u00e3o o fazem, os avan\u00e7ados com os incorrigivelmente atrasados, pois os atrasados \u200b\u200bcorrig\u00edveis podem entrar na organiza\u00e7\u00e3o. <em>Esta confus\u00e3o \u00e9 verdadeiramente perigosa.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Como existem diferentes graus de consci\u00eancia e de atividade entre os trabalhadores \u00e9 que se deve distinguir o grau de proximidade com o partido por parte destes \u201cativistas\u201d. Na situa\u00e7\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o que o capitalismo desata sobre a classe trabalhadora, que leva a um embrutecimento da classe trabalhadora, nem os sindicatos (que s\u00e3o organiza\u00e7\u00f5es muito mais amplas que o partido revolucion\u00e1rio) organizam a totalidade da classe trabalhadora. O objetivo do partido \u00e9 elevar setores cada vez mais amplos da classe a um n\u00edvel superior de consci\u00eancia de classe e de organiza\u00e7\u00e3o. Ao n\u00e3o ver essa distin\u00e7\u00e3o nas diversas camadas da classe trabalhadora, o partido restringir\u00e1 suas tarefas, reduzir\u00e1 o alcance da sua propaganda e agita\u00e7\u00e3o ao n\u00edvel economicista ou \u201cdemocr\u00e1tico\u201d, deixando de propagar e organizar os trabalhadores na luta pelo socialismo.<\/p>\n\n\n\n<p>O argumento mais importante dos mencheviques era que L\u00eanin queria \u201c<em>reduzir todo o conjunto de membros do partido a um conjunto de conspiradores<\/em>\u201d. Argumento falso, considerando que L\u00eanin j\u00e1 havia afirmado no pr\u00f3prio congresso que \u201c<em>o partido n\u00e3o est\u00e1 formado unicamente por revolucion\u00e1rios profissionais<\/em>\u201d, como j\u00e1 vimos no epis\u00f3dio 7, sobre o livro <em>Que Fazer?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Gyorg Luk\u00e1cs, de forma precisa, definiu os fundamentos de princ\u00edpios da organiza\u00e7\u00e3o leninista:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA concep\u00e7\u00e3o leninista da organiza\u00e7\u00e3o implica assim uma dupla ruptura com o fatalismo mecanicista: com aquele que concebe a consci\u00eancia de classe do proletariado como um produto mec\u00e2nico da sua situa\u00e7\u00e3o de classe, e com o qual v\u00ea na pr\u00f3pria revolu\u00e7\u00e3o nada mais que o resultado mec\u00e2nico da for\u00e7as econ\u00f4micas que s\u00e3o desencadeadas inexoravelmente, conduzindo o proletariado quase automaticamente \u00e0 vit\u00f3ria, uma vez que as condi\u00e7\u00f5es objetivas da revolu\u00e7\u00e3o estejam &#8220;maduras.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira ruptura se deu com o fatalismo mecanicista dos economicistas (que foram absorvidos pelos mencheviques) e a segunda ruptura se deu com a vis\u00e3o predominante na II Internacional, defendida por Kautsky e Rosa Luxemburgo, que apoiaram os mencheviques.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A segunda grande pol\u00eamica: uma dire\u00e7\u00e3o de gurus (com seu s\u00e9quito de puxa-sacos) ou de dirigentes que est\u00e3o \u00e0 frente das tarefas partid\u00e1rias?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No \u00faltimo ponto da pauta do Congresso (a elei\u00e7\u00e3o do CC e da reda\u00e7\u00e3o da Iskra) foi onde se solidificou a divis\u00e3o do partido. L\u00eanin prop\u00f4s eleger 3 membros para o CC e 3 membros para a reda\u00e7\u00e3o da Iskra, utilizando um crit\u00e9rio de colocar \u00e0 frente dos organismos os dirigentes de fato que estavam \u00e0 frente da reda\u00e7\u00e3o e \u00e0 frente do trabalho na R\u00fassia, por isso, ele prop\u00f4s para a reda\u00e7\u00e3o da Iskra ele, Plekhanov e M\u00e1rtov. Eleitos os dois trios (somado a um s\u00e9timo membro, eleito pelo congresso) se conformaria o Conselho do Partido (organismo superior a todos os organismos partid\u00e1rio), se procederia a amplia\u00e7\u00e3o de ambos organismos atrav\u00e9s do coopta\u00e7\u00e3o (medida importante na R\u00fassia, onde a repress\u00e3o desarticulava as dire\u00e7\u00f5es), que teria de ser feita por 2\/3 dos seis membros da dire\u00e7\u00e3o (a reda\u00e7\u00e3o e o CC se juntariam, com 6 membros, para cooptar novos camaradas de acordo com as necessidades de ambos organismos centrais de dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Veja qual o crit\u00e9rio que L\u00eanin utilizou para defender sua posi\u00e7\u00e3o, que foi aprovada por uma estreita margem de votos:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAssim, o plano de eleger dois trios tinha evidentemente o seguinte objetivo: 1) renovar a Redac\u00e7\u00e3o, 2) suprimir nela alguns tra\u00e7os do antigo esp\u00edrito de c\u00edrculo, inapropriados numa organiza\u00e7\u00e3o do Partido (se n\u00e3o houvesse nada para suprimir ali n\u00e3o haveria raz\u00e3o para inventar o trio como ponto de partida!) e, finalmente, 3) suprimir as caracter\u00edsticas &#8220;teocr\u00e1ticas&#8221; de uma organiza\u00e7\u00e3o de literatos (suprimi-las fazendo com que militantes pr\u00e1ticos proeminentes interviessem na <em>solu\u00e7\u00e3o<\/em> do problema da expans\u00e3o do trio). Este plano, que foi dado a conhecer a todos os editores, baseava-se evidentemente em <em>tr\u00eas anos de experi\u00eancia<\/em> de trabalho e respondia <em>absolutamente<\/em> aos princ\u00edpios de organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria que coloc\u00e1mos consistentemente em pr\u00e1tica: na \u00e9poca de dispers\u00e3o, quando apareceu o <em>Iskra<\/em>, os v\u00e1rios os grupos eram muitas vezes formados de forma casual e espont\u00e2nea, sofrendo inevitavelmente de certas manifesta\u00e7\u00f5es nocivas do esp\u00edrito de c\u00edrculo. Criar um partido significava suprimir tais tra\u00e7os; e era <em>imprescind\u00edvel<\/em> a participa\u00e7\u00e3o de militantes pr\u00e1ticos proeminentes, porque alguns membros do Conselho Editorial<em> sempre<\/em> estiveram encarregados das quest\u00f5es organizacionais, e no sistema de organiza\u00e7\u00f5es do Partido devia haver n\u00e3o apenas uma organiza\u00e7\u00e3o de escritores, mas tamb\u00e9m uma organiza\u00e7\u00e3o de l\u00edderes pol\u00edticos.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin estava propondo ter uma dire\u00e7\u00e3o com verdadeiros dirigentes partid\u00e1rios, que estavam \u00e0 frente da organiza\u00e7\u00e3o, na sua constru\u00e7\u00e3o di\u00e1ria (seja redatores da Iskra seja na organiza\u00e7\u00e3o no interior da R\u00fassia): \u201c\u2026 <em>tivemos<\/em> que permitir que os camaradas sobre cujos ombros pesou todo o trabalho de divulga\u00e7\u00e3o das ideias do <em>Iskra <\/em>e de prepara\u00e7\u00e3o da sua convers\u00e3o em partido decidissem, eles mesmos, quem eram os candidatos mais adequados para o novo organismo partid\u00e1rio.\u201d Ele queria eliminar os elementos camarilhesco na dire\u00e7\u00e3o (onde um guru dita as leis para seus \u201camigos\u201d e \u201cseguidores\u201d). Ele queria uma rela\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, onde predominasse as opini\u00f5es pol\u00edticas de cada dirigente, \u00e0s vezes inclusive, em debates acirrados, mas respeitosos. Com isso, queria eliminar da dire\u00e7\u00e3o as claques \u2013 os \u201cpuxa-sacos\u201d &#8211; de seguidores de um(a) ou outro(a) dirigente, pois os organismos centrais de dire\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o organismos plebiscit\u00e1rios, mas organismos compostos pelos(as) melhores dirigentes naquele momento, designados para tarefas de acordo com as necessidades do partido e das caracter\u00edsticas pessoais dos(as) dirigentes. Usando esse crit\u00e9rio como central, L\u00eanin associava o matiz pol\u00edtico como segundo elemento para a composi\u00e7\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o: na proposta dos dois \u201ctrios\u201d (a reda\u00e7\u00e3o da Iskra com 3 redatores \u2013 L\u00eanin, Plekh\u00e1nov e M\u00e1rtov \u2013 e no CC de tr\u00eas) L\u00eanin propunha um membro da minoria em cada trio (M\u00e1rtov na reda\u00e7\u00e3o e Popov no CC).<\/p>\n\n\n\n<p>A minoria menchevique n\u00e3o queria mudar a composi\u00e7\u00e3o da antiga reda\u00e7\u00e3o da Iskra e argumentava, atrav\u00e9s de Posadovski: \u201cAo escolher tr\u00eas entre os seis membros da antiga reda\u00e7\u00e3o, voc\u00ea est\u00e1 dizendo que os outros tr\u00eas n\u00e3o s\u00e3o necess\u00e1rios, que s\u00e3o desnecess\u00e1rios.\u201d Um argumento totalmente fora de lugar, que foi respondido imediatamente pelo delegado R\u00fasov (da maioria):<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cColocando-nos deste ponto de vista, que n\u00e3o \u00e9 partid\u00e1rio, mas filisteu, n\u00e3o nos encontramos em cada elei\u00e7\u00e3o confrontados com o problema de saber se fulano ficar\u00e1 ofendido porque foi eleito mengano e n\u00e3o ele, se um determinado membro do Comit\u00ea Organizador ficar\u00e1 ofendido porque ele n\u00e3o foi eleito para o CC, mas outra pessoa, aonde tudo isso nos levar\u00e1, camaradas? Se nos reunimos aqui <em>n\u00e3o para dirigir discursos agrad\u00e1veis mutuamente, <\/em>mas para formar um partido, n\u00e3o podemos de forma alguma concordar com tal ponto de vista. Trata-se de eleger <em>camaradas para cargos de responsabilidade<\/em> e n\u00e3o se pode colocar a quest\u00e3o da falta de confian\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o a qualquer um dos eleitos, somente <em>para o bem da causa e a idoneidade da pessoa escolhida para o cargo em quest\u00e3o<\/em>\u201d (p. 325).<\/p>\n\n\n\n<p>Derrotado M\u00e1rtov na vota\u00e7\u00e3o, se recusou a assumir seu posto na reda\u00e7\u00e3o da Iskra e produziu um discurso para sua futura luta pol\u00edtica:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cComo a maioria do antigo Conselho Editorial, pensei que o Congresso iria p\u00f4r fim ao \u2018estado de s\u00edtio\u2019 dentro do Partido e estabelecer um regime normal dentro dele. Na pr\u00e1tica, o estado de sitio, com as leis de exce\u00e7\u00e3o contra alguns grupos, foi alargado e at\u00e9 agudizado. S\u00f3 com todo o Conselho Editorial anterior podemos garantir que os poderes que os Estatutos conferem \u00e0 equipa editorial n\u00e3o sejam utilizados em detrimento do Partido&#8221;&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Este discurso foi utilizado para mudar no tapet\u00e3o a composi\u00e7\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o do partido eleita no II Congresso. Quando se apropriaram da dire\u00e7\u00e3o da Iskra (com a capitula\u00e7\u00e3o de Plekhanov aos mencheviques) passaram a defender um crit\u00e9rio de organiza\u00e7\u00e3o anarquista: \u00e9 mais importante o programa do partido (conte\u00fado) do que a organiza\u00e7\u00e3o (forma), que a centraliza\u00e7\u00e3o deve existir apenas para centralizar a <em>atividade<\/em> do partido, portanto deve ocorrer simultaneamente com a a\u00e7\u00e3o, n\u00e3o petrificado num estatuto, que a parte (minoria) n\u00e3o deve se subordinar ao todo (maioria) pois a parte \u00e9 <em>aut\u00f4noma<\/em> do todo.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin qualificou toda essa argumenta\u00e7\u00e3o como anarquismo no terreno de organiza\u00e7\u00e3o. Um discurso centrado na \u201cquest\u00e3o organizativa\u201d, n\u00e3o enganou a L\u00eanin, que neste livro que estamos resenhando, come\u00e7ou a tirar conclus\u00f5es pol\u00edticas deste epis\u00f3dio:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO jacobino, indissociavelmente ligado \u00e0 <em>organiza\u00e7\u00e3o do proletariado consciente<\/em> dos seus interesses de classe, \u00e9 precisamente o <em>social-democrata revolucion\u00e1rio. <\/em>O girondino que sente falta dos professores e dos estudantes do ensino secund\u00e1rio, que teme a ditadura do proletariado e sonha com o valor absoluto das reivindica\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas \u00e9 precisamente o <em>oportunista<\/em>. Os oportunistas s\u00e3o os \u00fanicos que ainda podem, na era atual, ver um perigo nas organiza\u00e7\u00f5es de conspiradores, quando a ideia de reduzir a luta pol\u00edtica a uma conspira\u00e7\u00e3o foi refutada milhares de vezes na literatura, foi refutada e descartada h\u00e1 muito tempo pela vida, quando a import\u00e2ncia fundamental da agita\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de massas foi explicada e repetida ad nauseam. O verdadeiro fundamento do medo da conspira\u00e7\u00e3o, do blanquismo, n\u00e3o est\u00e1 numa ou noutra caracter\u00edstica manifesta do movimento pr\u00e1tico (como Bernstein e companhia v\u00eam tentando demonstrar h\u00e1 muito tempo e em v\u00e3o), mas na timidez girondina do intelectual burgu\u00eas cuja psicologia tantas vezes aparece entre os social-democratas contempor\u00e2neos.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Este livro chegou em boa hora, pois o congresso tinha se realizado h\u00e1 9 meses e as disputas, as picuinhas, deixaram de ocupar o primeiro lugar para o debate pol\u00edtico-te\u00f3rico e program\u00e1tico com as posi\u00e7\u00f5es da Nova Iskra, de conte\u00fado oportunista. Enquanto o partido ficou paralisado nos tr\u00eas primeiros meses depois do Congresso, a partir da\u00ed come\u00e7ou a mudan\u00e7a a favor dos bolcheviques que colocaram a necessidade de um novo congresso para restabelecer a paz no partido e recompor uma dire\u00e7\u00e3o, na medida em que a dire\u00e7\u00e3o eleita pelo II Congresso foi sabotada. A cada dia que passava foi ficando claro que as posi\u00e7\u00f5es da nova reda\u00e7\u00e3o da <em>Iskra<\/em> estavam em contradi\u00e7\u00e3o com a anterior e a fra\u00e7\u00e3o bolchevique foi se fortalecendo enquanto a fra\u00e7\u00e3o menchevique entrava em crise.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O reflexo internacional da ruptura entre bolcheviques e mencheviques<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O livro \u201c<em>Un passo adiante..<\/em>.\u201d foi enviado, na forma de artigo, para publica\u00e7\u00e3o na revista te\u00f3rica do PSD alem\u00e3o que havia publicado um ataque de Rosa Luxemburgo a L\u00eanin. Nesta pol\u00eamica, Rosa ficou do lado dos mencheviques. Veja a carta que L\u00eanin enviou para Kautsky:<\/p>\n\n\n\n<p><a>A K. KAUTSKY<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Genebra, 10 de outubro de 1904.<\/p>\n\n\n\n<p>Envio-lhe impresso o meu artigo que dever\u00e1 servir de resposta aos ataques da camarada Rosa Luxemburgo. Sei que o Conselho Editorial do Neue Zeit simpatiza com os meus oponentes, mas penso que seria justo conceder-me o direito de corrigir as imprecis\u00f5es nos artigos de Rosa Luxemburgo. Meu artigo foi traduzido pelo camarada Lidin. Voc\u00ea j\u00e1 publicou um de seus artigos e, portanto, pode avaliar se conhece bem o alem\u00e3o. Eu mesmo n\u00e3o consigo escrever em alem\u00e3o. Fui muito conciso no meu artigo, pois queria que ocupasse menos espa\u00e7o que o de Rosa Luxemburgo e n\u00e3o fosse muito volumoso para o Neue Zeit. Se considerar, por\u00e9m, que o artigo \u00e9 muito extenso, n\u00e3o terei problemas em reduzi-lo mais uma vez ao volume indicado pelo Editor. Ao mesmo tempo, sou obrigado a insistir para que n\u00e3o sejam feitas abreviaturas sem o meu consentimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Por favor, avise-me se o Conselho Editorial aceita ou n\u00e3o meu artigo.<\/p>\n\n\n\n<p>Com sauda\u00e7\u00f5es social-democratas, V. I. L\u00eanin<\/p>\n\n\n\n<p>Kautsky se negou a publicar o artigo do L\u00eanin e devolveu o manuscrito. Escreveu uma carta a favor dos mencheviques, publicada na Iskra em maio de 1904. Desde aqui se iniciou a ruptura de L\u00eanin com Kautsky. Isso desmente a vis\u00e3o tradicional na esquerda que, ainda hoje, afirma que Kautsky era o mestre de L\u00eanin at\u00e9 1914, quando iniciou a primeira guerra mundial. Na verdade, essa ruptura se iniciou 10 anos antes, quando se produziu a ruptura do POSDR e a II Internacional e a dire\u00e7\u00e3o do PSD alem\u00e3o ficaram com os mencheviques.<\/p>\n\n\n\n<p>Chegando aqui, podemos ver que n\u00e3o \u00e9 casual o posicionamento da dire\u00e7\u00e3o da II Internacional e do PSD alem\u00e3o aos mencheviques (ala oportunista do partido).<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda que essa dire\u00e7\u00e3o se enfrentava nos Congressos nacionais e internacionais contra a corrente revisionista dirigida por Bernstein, ao final sempre terminava na boa, com todos seguindo dentro do partido, cada um defendendo sua posi\u00e7\u00e3o. Esse debate j\u00e1 vinha se desenrolando h\u00e1 anos no partido alem\u00e3o e o pensamento da dire\u00e7\u00e3o era que Bernstein representava um \u201cmatiz\u201d dentro do partido, que podia conviver tranquilamente. Essa forma de enfrentar o oportunismo (assim como o esquerdismo) n\u00e3o se baseou na forma em que Marx e Engels enfrentaram o proudhonismo e o anarquismo na I Internacional. Eles fizeram uma diferencia\u00e7\u00e3o taxativa durante os v\u00e1rios congressos internacionais e centralizaram a Primeira Internacional no pen\u00faltimo congresso realizado. Quem seguiu essa tradi\u00e7\u00e3o foram os socialdemocratas russos que romperam decididamente com os economicistas em 1900 e com o Bund em 1903, que defendia um partido de tendencias e fra\u00e7\u00f5es permanentes, na forma de uma federa\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria. Derrotado nessa posi\u00e7\u00e3o, o Bund abandonou o Congresso e o POSDR. Por isso, L\u00eanin disse em 1920, no livro \u201c<em>esquerdismo<\/em>&#8230;\u201d que a revolu\u00e7\u00e3o russa de Outubro de 1917 s\u00f3 foi vitoriosa devido \u00e0 essa luta te\u00f3rico-program\u00e1tica, t\u00e1tica e pol\u00edtica, contra o menchevismo, mas tamb\u00e9m contra o ultra-esquerdismo em 1908, que foram afastados do partido bolchevique. Os dirigentes do POSDR (principalmente L\u00eanin, Plekhanov e M\u00e1rtov) exigiam a expuls\u00e3o dos oportunistas do PSD alem\u00e3o enquanto a dire\u00e7\u00e3o do partido, incluindo Rosa Luxemburgo, que caracterizavam os bolcheviques como \u201csect\u00e1rios inflex\u00edveis\u201d<a href=\"#_ftn6\" id=\"_ftnref6\">[6]<\/a>, permitia a livre propaganda dos oportunistas na base. O partido alem\u00e3o, ao n\u00e3o fazer essa separa\u00e7\u00e3o taxativa com o oportunismo de Bernstein, deixou que esse v\u00edrus se propagasse cotidianamente at\u00e9 1914, quando ele contaminou o organismo partid\u00e1rio: j\u00e1 havia uma septicemia, onde a dire\u00e7\u00e3o do PSD alem\u00e3o e da II Internacional, apodrecida pelo oportunismo, traiu o proletariado mundial.<\/p>\n\n\n\n<p>Para L\u00eanin, \u201cA luta de <em>nuances<\/em> \u00e9, no partido, <em>inevit\u00e1vel e necess\u00e1ria<\/em>, desde que n\u00e3o conduza \u00e0 anarquia e \u00e0 cis\u00e3o, desde que n\u00e3o ultrapasse os <em>limites<\/em> admitidos de comum acordo por todos os camaradas e membros do partido\u201d. Justamente, a a\u00e7\u00e3o dos mencheviques ap\u00f3s o congresso, desrespeitou as decis\u00f5es do congresso e imp\u00f4s, no tapet\u00e3o, a vontade de uma minoria sobre as decis\u00f5es da maioria do partido. \u201cA negativa de M\u00e1rtov a integrar a Reda\u00e7\u00e3o, sua negativa a colaborar, assim como de outros escritores do Partido, a negativa de toda uma s\u00e9rie de pessoas a trabalhar para o CC, a propaganda de ideias de boicote ou de resist\u00eancia passiva, tudo isto conduzir\u00e1 inevitavelmente, mesmo contra a vontade de M\u00e1rtov e dos seus amigos, a uma divis\u00e3o no Partido\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Y concluiu L\u00eanin:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cMas nenhum \u00f3rg\u00e3o central de qualquer partido no mundo ser\u00e1 capaz de demonstrar que \u00e9 capaz de liderar pessoas que n\u00e3o querem submeter-se \u00e0 dire\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se submeter \u00e0 dire\u00e7\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es centrais, equivale a recusar continuar no Partido, equivale a dissolver o Partido, n\u00e3o \u00e9 uma medida de persuas\u00e3o, mas de destrui\u00e7\u00e3o. E precisamente esta substitui\u00e7\u00e3o da persuas\u00e3o pela destrui\u00e7\u00e3o demonstra uma falta de firmeza de princ\u00edpios, uma falta de f\u00e9 nas pr\u00f3prias ideias.<\/p>\n\n\n\n<p>Fala-se de burocratismo. O burocratismo pode ser traduzido para o russo por uma palavra: carguismo. O burocratismo \u00e9 subordinar os interesses da causa aos interesses da carreira, \u00e9 dar mais aten\u00e7\u00e3o aos cargos e desvincular-se do trabalho, lutando pela coopta\u00e7\u00e3o, em vez de lutar pelas ideias. Tal burocratismo, na verdade, \u00e9, sem d\u00favida, indesej\u00e1vel e prejudicial ao Partido\u2026\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Um fato inquestion\u00e1vel desse per\u00edodo \u00e9 que o \u00fanico dirigente que dava import\u00e2ncia ao tema da organiza\u00e7\u00e3o do partido era L\u00eanin. Al\u00e9m de te\u00f3rico, estrategista juramentado e t\u00e1tico flex\u00edvel, era um organizador nato: tem muito a ver com sua vis\u00e3o contra qualquer tipo de fatalismo, contra a cren\u00e7a de que as coisas se resolver\u00e3o por si s\u00f3.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><u>CONCLUS\u00c3O:<\/u><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em 4 de janeiro de 1905, pouco antes do Domingo Sangrento, L\u00eanin escrevia sobre a ruptura total entre bolcheviques e mencheviques:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNOTA DO ONSELHO EDITORIAL DE \u201c<em>VPERIOD<\/em>\u201d SOBRE A CARTA DE UM CORRESPONDENTE DE PETERSBURGO\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Carta de Petersburgo<\/p>\n\n\n\n<p>Do Conselho Editorial. A conclus\u00e3o a que chegou o camarada de Petersburgo concorda plenamente com a que fizemos no artigo <em>\u00c9 hora de acabar<\/em> (n\u00ba 1 do Vperiod). Os mencheviques demonstraram que n\u00e3o desejam, de nenhuma maneira, trabalhar juntos, subordinando-se \u00e0 maioria, e agora, depois de desorganizar as institui\u00e7\u00f5es criadas pelo Segundo Congresso, frustraram o Terceiro Congresso. O partido j\u00e1 n\u00e3o tem meios de luta que n\u00e3o seja a ruptura. Quanto mais r\u00e1pida e completa seja esta ruptura com os desorganizadores, tanto&#8230;\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Este artigo publicado no primeiro n\u00famero do novo jornal da maioria (Vperiod, Avante) concluiu assim:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cFizemos todas as concess\u00f5es poss\u00edveis e at\u00e9 algumas imposs\u00edveis, para continuar a trabalhar com a \u201cminoria\u201d num \u00fanico Partido. Agora que o Terceiro Congresso do Partido descarrilou e est\u00e3o se esfor\u00e7ando para desorganizar os comit\u00eas locais, toda a esperan\u00e7a a este respeito caiu por terra. Ao contr\u00e1rio dos \u201cmencheviques\u201d, que agem em segredo e pelas costas do Partido, devemos declarar abertamente, e demonstr\u00e1-lo com a\u00e7\u00f5es, que o Partido rompe todos os tipos de rela\u00e7\u00f5es com estes senhores\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de um ano e meio ap\u00f3s o Congresso, a situa\u00e7\u00e3o chegou a uma ruptura completa: cada fra\u00e7\u00e3o passou a editar seu pr\u00f3prio jornal e editorial. L\u00eanin tinha sido proibido de publicar livros e folhetos na tipografia do partido, sendo obrigado a montar um editorial para livros, folhetos e para um novo jornal que representasse as posi\u00e7\u00f5es da maioria, j\u00e1 que o CC (impulsionado pelos membros que queriam a todo custo fazer um acordo com os mencheviques), cooptou 3 mencheviques, modificando a composi\u00e7\u00e3o do CC de forma arbitr\u00e1ria, prejudicando a maioria e desrespeitando as decis\u00f5es do II Congresso e, pior todavia, desrespeitando a base do partido que, em 1904, reunidos em v\u00e1rias conferencias locais, aprovaram a convocat\u00f3ria do III Congresso (13 dos 20 comit\u00eas reconhecidos no interior da R\u00fassia).<\/p>\n\n\n\n<p>Em uma carta \u201cAo grupo bolchevique de Zurique\u201d, que lhe perguntou qual era sua atitude frente ao CC, a reda\u00e7\u00e3o da \u201c<em>Nova Iskra<\/em>\u201d e ao Conselho do Partido e se reconhecia estas institui\u00e7\u00f5es como centros dirigentes do partido. L\u00eanin respondeu:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cOs organismos centrais (OC, o CC e o Conselho do Partido) <em>romperam <\/em>com o partido, sabotaram tanto o segundo como o terceiro Congresso do Partido, enganando o Partido da maneira mais vil e usurpando seus carguinhos dirigentes num estilo bonapartista. (\u2026) Nestas condi\u00e7\u00f5es, como pode se falar da exist\u00eancia legal dos organismos centrais? (\u2026) S\u00f3 nos resta um caminho: romper com os mencheviques de forma mais <em>completa<\/em>, mais r\u00e1pida e clara poss\u00edvel (aberta e publicamente), convocar o III Congresso do Partido sem contar com o consentimento dos organismos centrais e sem sua participa\u00e7\u00e3o, come\u00e7ar <em>imediatamente<\/em> (sem aguardar tampouco o congresso) a trabalhar com nossos pr\u00f3prios organismos partid\u00e1rios centrais, com a reda\u00e7\u00e3o de <em>Vperiod<\/em> e com o bir\u00f4 da R\u00fassia eleito pela confer\u00eancia do Norte. Repito: os organismos centrais se colocaram por fora do Partido. N\u00e3o tem meio termo: ou se alinha com os organismos centrais ou com o Partido. Chegou a hora de delimitar os campos e, diferentemente dos mencheviques, que promoveram secretamente a divis\u00e3o do Partido, aceitar abertamente seu desafio: \u00a1Muito bem, que venha a ruptura, j\u00e1 que voc\u00eas se separaram completamente! \u00a1Muito bem, que venha a ruptura, pois esgotamos todos os recursos para retardar o desenlace e garantir uma decis\u00e3o tomada pelo Partido (pelo Terceiro Congresso)!\u201d<a href=\"#_ftn7\" id=\"_ftnref7\">[7]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>A dire\u00e7\u00e3o da II Internacional e a dire\u00e7\u00e3o do PSD alem\u00e3o (inclu\u00eddo Kautsky) ficaram totalmente do lado dos mencheviques: publicavam artigos sentando o sarrafo nos bolcheviques (artigos de M\u00e1rtov, Rosa Luxemburgo e Trotsky) e recusavam publicar a resposta de L\u00eanin, sem nenhuma explica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Na base a situa\u00e7\u00e3o era oposta: os bolcheviques dirigiam as principais regi\u00f5es industriais y os grandes centros prolet\u00e1rios do pa\u00eds: Petersburgo, Moscou, Bak\u00fa, Riga, Tula, Tver, Ekaterinoslav, Nizhni N\u00f3vgorod, Sar\u00e1tov, Odesa, Nikol\u00e1ev, Lugansk y os Urais.<\/p>\n\n\n\n<p>Em uma carta a Bogdanov, de 2 de novembro de 1904, L\u00eanin afirmou:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNa verdade, h\u00e1 uma divis\u00e3o total no Partido. J\u00e1 foi alcan\u00e7ado um acordo entre a minoria e o CC e eles seguem a mesma linha que consiste em falsificar o congresso e dissolver os comit\u00eas \u201ca partir de baixo\u201d \u2013 Esta dissolu\u00e7\u00e3o consiste em bandos de mencheviques serem enviados para os comit\u00eas combativos da maioria, que assediam o comit\u00ea e agitam, tentando por todos os meios minar a confian\u00e7a da sociedade, dos trabalhadores e, sobretudo, dos simpatizantes no comit\u00ea. Depois de terem preparado o terreno com a ajuda dos simpatizantes, provocam um esc\u00e2ndalo no comit\u00ea, exigindo sua rendi\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>(\u2026)<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSegundo nossas not\u00edcias, a Reda\u00e7\u00e3o est\u00e1 enviando seus agentes para a R\u00fassia. Isto sup\u00f5e a exist\u00eancia de um fundo pr\u00f3prio da reda\u00e7\u00e3o da <em>Nova Iskra<\/em>, o que representa, na verdade, a ruptura do Partido. Isto est\u00e1 em contradi\u00e7\u00e3o com os Estatutos, que exigem que o CC seja informado de tudo e que todos os fundos e toda a organiza\u00e7\u00e3o das atividades pr\u00e1ticas estejam <em>inteiramente<\/em> concentrados nas suas m\u00e3os. O \u00d3rg\u00e3o Central comete uma grave viola\u00e7\u00e3o dos Estatutos ao organizar o seu pr\u00f3prio centro para agentes de viagem e o seu pr\u00f3prio centro de orienta\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica e interfer\u00eancia nos assuntos dos comit\u00eas.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, em 1903 e 1904, nasceu o partido bolchevique, maioria do POSDR que se converteu em partido, ainda que manteve a nomenclatura da fra\u00e7\u00e3o majorit\u00e1ria do II Congresso. A maioria dos historiadores de esquerda se apegam \u00e0 forma (exist\u00eancia de duas fra\u00e7\u00f5es no mesmo \u2013 sic! &#8211; POSDR) para dizer que o Partido Bolchevique surgiu em 1912, no congresso partid\u00e1rio que se expulsou (em aus\u00eancia) os mencheviques.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Um partido de tendencias e fra\u00e7\u00f5es permanentes?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Na atualidade, algumas organiza\u00e7\u00f5es que funcionam como uma frente de tendencias e fra\u00e7\u00f5es permanentes, dizem seguir o mesmo funcionamento partid\u00e1rio do POSDR, que depois do Congresso de 1903, supostamente, teriam formado duas fra\u00e7\u00f5es permanentes: os bolcheviques e os mencheviques, que conviviam no mesmo partido. Essa posi\u00e7\u00e3o est\u00e1 em contradi\u00e7\u00e3o com os fatos: o II Congresso do POSDR, de 1903, recusou a proposta do Bund do funcionamento federativo, de partidos nacionais e de fra\u00e7\u00f5es permanentes. Recusou porque considerava, corretamente, que uma federa\u00e7\u00e3o se faz entre duas ou mais organiza\u00e7\u00f5es <em>distintas<\/em>, que resolvem associar-se, mantendo suas identidades originais. Justamente, essa posi\u00e7\u00e3o foi recusada por todos os delegados do Congresso, exceto os 5 delegados do Bund.<\/p>\n\n\n\n<p>Exceto por um curto per\u00edodo em 1906, onde se realizou um \u201ccongresso de reunifica\u00e7\u00e3o\u201d, as duas fra\u00e7\u00f5es j\u00e1 conformavam dois partidos, com programa, teoria, estrat\u00e9gia, t\u00e1ticas e organiza\u00e7\u00f5es distintas e opostas. Por isso, essa reunifica\u00e7\u00e3o fracassou. Veremos no epis\u00f3dio correspondente a 1906 esse congresso de \u201cunifica\u00e7\u00e3o\u201d nos m\u00ednimos detalhes.<\/p>\n\n\n\n<p>Para dirimir a d\u00favida, deixemos que o pr\u00f3prio L\u00eanin resolva. Em 1920, no livro \u201c<em>Esquerdismo, doen\u00e7a infantil do comunismo<\/em>\u201d, ele fez um balan\u00e7o retrospectivo dessa longa luta: &#8220;<em>O bolchevismo existe como corrente de pensamento pol\u00edtico e como partido pol\u00edtico desde 1903<\/em>\u201d.<a href=\"#_ftn8\" id=\"_ftnref8\">[8]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>*****<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong><u>RESENHA DE DOCUMENTOS PARA A ELABORA\u00c7\u00c3O DO PROGRAMA DO POSDR (1902)<\/u><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A aprova\u00e7\u00e3o do programa do partido foi o primeiro ponto de pauta do congresso, depois dos pontos protocolares. Por isso, vale a pena analisar toda a discuss\u00e3o que ocorreu na reda\u00e7\u00e3o da Iskra sobre o programa. Teve diferen\u00e7as importantes entre Plekhanov e L\u00eanin, e demonstraram que a ruptura, embora tenha sido uma surpresa, j\u00e1 vinha cozinhando em banho-maria, com fogo n\u00e3o t\u00e3o baixo.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1902, L\u00eanin preparou notas cr\u00edticas e adendos ao <strong>esbo\u00e7o do programa do partido<\/strong>, que estava sendo elaborado por Plekhanov. O esbo\u00e7o foi discutido na reda\u00e7\u00e3o do Iskra, para ser apresentado no II Congresso do POSDR, que foi programado pra ocorrer em 1903. Foi publicado na edi\u00e7\u00e3o de Iskra, em 1 de junho de 1902.<\/p>\n\n\n\n<p>Os principais debates surgidos foram introduzidos por L\u00eanin que:<\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\" type=\"1\">\n<li>Criticava o m\u00e9todo de elabora\u00e7\u00e3o contendo muitas palavras desnecess\u00e1rias e repeti\u00e7\u00f5es de frases (palavreado), por\u00e9m, a maioria das observa\u00e7\u00f5es prop\u00f5e mudar frases para ter conex\u00e3o com vis\u00e3o marxista (como exemplo a teoria da depaupera\u00e7\u00e3o \u2013 empobrecimento). L\u00eanin insistia para que programa refletisse o mais pr\u00f3ximo poss\u00edvel a realidade. L\u00eanin dizia que o defeito principal do projeto \u00e9 que n\u00e3o era um programa de um partido combativo, mas uma \u201cdeclara\u00e7\u00e3o de princ\u00edpios gen\u00e9rica\u201d mais adequada para a academia. Num programa, segundo L\u00eanin, devia constar s\u00f3 a <em>defini\u00e7\u00e3o precisa<\/em>, curta e direta. As explica\u00e7\u00f5es e coment\u00e1rios, comprova\u00e7\u00f5es, deveriam ficar para outros artigos, livros, folhetos explicativos etc.<\/li>\n<\/ol>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Ele introduziu a ideia de que o in\u00edcio do programa deveria ter uma parte te\u00f3rica que, entre outras quest\u00f5es, explicasse o predom\u00ednio do capitalismo na R\u00fassia e n\u00e3o o capitalismo em geral, como queria a comiss\u00e3o de programa. N\u00e3o houve acordo com essa proposta de L\u00eanin em debate principalmente com Plekhanov que tinha escrito o borrador. L\u00eanin insistia neste ponto dizendo que o programa era de uma organiza\u00e7\u00e3o combativa e n\u00e3o uma simples \u201cdeclara\u00e7\u00e3o de princ\u00edpios\u201d por isso, era uma declara\u00e7\u00e3o de guerra contra o capitalismo que j\u00e1 predominava na R\u00fassia e atacava o programa porque n\u00e3o definia precisamente a pequena burguesia como uma classe reacion\u00e1ria, que s\u00f3 poderia se falar condicionalmente do seu \u201crevolucionarismo\u201d na medida em que abandonasse sua defesa da pequena propriedade e assumisse o ponto de vista do proletariado.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>L\u00eanin fazia uma observa\u00e7\u00e3o que o programa estava confuso sobre a indigna\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea da classe e a agudiza\u00e7\u00e3o das lutas e o desenvolvimento da consci\u00eancia \u201cque <em>n\u00f3s<\/em> devemos impulsionar\u201d.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>\u201creconhecimento do direito de autodetermina\u00e7\u00e3o a todas as na\u00e7\u00f5es que formam parte do Estado\u201d j\u00e1 fazia parte do programa do POSDR desde 1903, ao contr\u00e1rio do que normalmente se pensa que s\u00f3 passou a fazer parte do programa depois da 1\u00aa Guerra Mundial.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>O projeto de programa de Plekhanov misturava o \u201cproletariado\u201d com \u201cmassas exploradas em geral\u201d e com \u201cpequenos produtores\u201d. L\u00eanin fez uma pol\u00eamica com isso, dizendo que no programa deveria constar apenas o proletariado como classe revolucion\u00e1ria e s\u00f3 depois disso falar de poss\u00edveis acordos de luta:<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>\u201c&#8230;O descontentamento das massas trabalhadoras e exploradas est\u00e1 crescendo\u201d: isto \u00e9 verdade, mas \u00e9 absolutamente errado identificar e confundir, como foi feito aqui, o descontentamento do proletariado com o dos pequenos produtores. pequenos produtores. O descontentamento dos pequenos produtores muitas vezes engendra (e \u00e9 inevit\u00e1vel que engendre neles ou numa parte consider\u00e1vel deles) a tend\u00eancia para <em>defender a sua exist\u00eancia como pequenos propriet\u00e1rios<\/em>, isto \u00e9, para defender os fundamentos da ordem existente e at\u00e9 para retroceder.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c&#8230;Aumenta a luta, sobretudo, a luta do seu representante avan\u00e7ado, o proletariado&#8230;\u201d \u00c9 verdade que a luta tamb\u00e9m se acentua entre os pequenos produtores. Mas, <em>muito frequentemente<\/em>, a sua \u201cluta\u201d \u00e9 dirigida <em>contra <\/em>o proletariado, uma vez que a pr\u00f3pria situa\u00e7\u00e3o dos pequenos produtores op\u00f5e <em>ostensivamente<\/em>, em muitos pontos, os seus interesses aos do proletariado. De um modo geral, o proletariado <em>n\u00e3o \u00e9 de forma alguma<\/em> o \u201crepresentante avan\u00e7ado\u201d da pequena burguesia. Se isto acontecer, s\u00f3 ocorrer\u00e1 quando os pequenos produtores perceberem a inevitabilidade da sua ru\u00edna, quando &#8220;a<em>bandonarem<\/em> as suas pr\u00f3prias opini\u00f5es para adotarem as do proletariado&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Por insist\u00eancia de L\u00eanin, o programa incorporou o <strong>car\u00e1ter prolet\u00e1rio do partido<\/strong> e a proposta de incorpora\u00e7\u00e3o da <strong>ditadura do proletariado, como tarefa fundamental da luta partid\u00e1ria, <\/strong>ponto inserido pela primeira vez num partido socialdemocrata depois da morte de Marx. Tanto L\u00eanin quanto Plekhanov opinavam que a aus\u00eancia deste importante ponto program\u00e1tico no Programa de Erfurt (1891) do PSD alem\u00e3o expressava uma capitula\u00e7\u00e3o ao revisionismo no interior do partido.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>L\u00eanin escreveu toda a parte do programa relativa ao campesinato, onde incluiu a forma\u00e7\u00e3o de comit\u00eas de camponeses para restituir a terra \u00e0s comunidades camponesas, mediante a expropria\u00e7\u00e3o. Veja todo o debate sobre a quest\u00e3o agraria mais abaixo.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Esse programa, aprovado no congresso de 1903, j\u00e1 trazia a reivindica\u00e7\u00e3o de <em>Assembleia Constituinte livre e soberana<\/em>.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Todo o debate sobre o programa comprovou, sem lugar a nenhuma d\u00favida, que L\u00eanin j\u00e1 trabalhava de igual para igual com Plekhanov, que aqui j\u00e1 n\u00e3o era mais seu \u201cmestre\u201d (em 1902). L\u00eanin j\u00e1 n\u00e3o tinha nada a aprender com Plekhanov e, ao contr\u00e1rio, j\u00e1 via todos os desvios de Plekhanov em rela\u00e7\u00e3o ao marxismo, al\u00e9m da sua conhecida arrog\u00e2ncia intelectual (que vimos em epis\u00f3dios anteriores). Neste momento, o \u201caluno\u201d j\u00e1 ultrapassou o \u201cprofessor\u201d. Por isso, a vis\u00e3o que L\u00eanin seguia Plekhanov como seu \u201cmestre\u201d at\u00e9 a guerra de 1914 n\u00e3o passa de uma lenda.<\/p>\n\n\n\n<p>No final, depois de v\u00e1rias pol\u00eamicas com Plekh\u00e1nov, L\u00eanin conseguiu introduzir no programa toda a parte mais importante, a te\u00f3rica, que definia a estrutura econ\u00f4mica e social da R\u00fassia, uma parte sobre o campo e a conclus\u00e3o do programa. Portanto, se aceitou a maioria das emendas de L\u00eanin. Depois de aprovado no II Congresso de 1903, este programa s\u00f3 foi modificado em 1919, no VIII congresso do Partido Comunista (bolchevique) da R\u00fassia.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin resumiu assim suas diferen\u00e7as com o projeto de programa elaborado por Plekhanov:<\/p>\n\n\n\n<p>Resumindo todas as observa\u00e7\u00f5es feitas, direi que encontro quatro defeitos fundamentais no projeto que, na minha opini\u00e3o, o tornam inaceit\u00e1vel:<\/p>\n\n\n\n<p>1) <em>o car\u00e1cter<\/em> extremamente <em>abstrato<\/em> de muitas das formula\u00e7\u00f5es, que n\u00e3o parecem destinadas a um partido combativo, mas sim a um ciclo de confer\u00eancias;<\/p>\n\n\n\n<p>2) o problema do <em>capitalismo<\/em> especificamente <em>russo <\/em>\u00e9 deixado de lado ou obscurecido, um defeito particularmente grave, uma vez que o Programa deve servir de norma e guia para a agita\u00e7\u00e3o contra o capitalismo russo. Devemos dar uma aprecia\u00e7\u00e3o clara do capitalismo russo e declarar-lhe uma guerra aberta;<\/p>\n\n\n\n<p>3) a exposi\u00e7\u00e3o totalmente unilateral e incorreta da <em>atitude do proletariado para com os pequenos produtores<\/em>, o que nos priva de bases para combater os \u201ccr\u00edticos\u201d e tantos outros;<\/p>\n\n\n\n<p>4) a tend\u00eancia de oferecer constantemente, no Programa, uma <em>explica\u00e7\u00e3o<\/em> do processo. Apesar de tudo, este objetivo n\u00e3o \u00e9 alcan\u00e7ado; por outro lado, a exposi\u00e7\u00e3o torna-se demasiado longa, repleta de in\u00fameras repeti\u00e7\u00f5es, e o Programa desvia-se continuamente para o terreno do coment\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto a quest\u00e3o agr\u00e1ria, no programa, foi motivo de grandes controv\u00e9rsias. Neste ponto, L\u00eanin caiu prisioneiro de esquemas, que n\u00e3o era comum nele:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAfirmamos \u2013 e trataremos de demonstrar \u2013 que a exig\u00eancia de que \u201cos recortes sejam devolvidos\u201d \u00e9 o m\u00e1ximo que podemos propor neste momento no nosso programa agr\u00e1rio\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui L\u00eanin est\u00e1 prisioneiro do esquema da socialdemocracia da \u00e9poca sobre o programa m\u00e1ximo e programa m\u00ednimo, onde os dois aparecem separados rigidamente, sem palavras de ordem transit\u00f3rias, entre o programa m\u00ednimo e o m\u00e1ximo. Esse esquema impediu que L\u00eanin apresentasse orienta\u00e7\u00f5es anticapitalistas no campo (por exemplo, a nacionaliza\u00e7\u00e3o da terra), de acordo com sua pr\u00f3pria an\u00e1lise que o capitalismo j\u00e1 estava dominante no campo russo. Embora esteja correto em jogar peso nas palavras de ordem de ruptura com os vest\u00edgios feudais (o centro era devolu\u00e7\u00e3o dos recortes e n\u00e3o pagamento do resgate: de conte\u00fado era uma reforma agraria, completando o que n\u00e3o foi feito na reforma camponesa de 1961), nada impedia que j\u00e1 se avan\u00e7asse em consignas como tomada das terras dos latifundi\u00e1rios (burgueses inclusive) e a nacionaliza\u00e7\u00e3o da terra (ainda n\u00e3o era a coletiviza\u00e7\u00e3o, mas a estatiza\u00e7\u00e3o da terra no capitalismo) e a entrega aos camponeses pobres em usufruto (de acordo com decis\u00e3o dos comit\u00eas camponeses).<\/p>\n\n\n\n<p>No debate agr\u00e1rio ocorrido no II Congresso (que votou o programa geral e agr\u00e1rio do POSDR), L\u00eanin suavizou essa contraposi\u00e7\u00e3o r\u00edgida ao dizer:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cDizem-nos que o campesinato n\u00e3o ficar\u00e1 satisfeito com o nosso programa e ir\u00e1 mais longe; Mas n\u00e3o temos medo disso, porque para isso temos o nosso programa socialista, por isso tamb\u00e9m n\u00e3o temos medo da nova distribui\u00e7\u00e3o de terras.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A que se deve esse esquematismo pouco comum na trajet\u00f3ria de L\u00eanin? Uma hip\u00f3tese \u00e9 que este \u201cprograma agr\u00e1rio\u201d n\u00e3o era um texto individual e sim coletivo, da equipe de dire\u00e7\u00e3o do POSDR deste momento. Este texto se debateu por 4 meses na reda\u00e7\u00e3o da Iskra e cada dirigente pode fazer observa\u00e7\u00f5es e modifica\u00e7\u00f5es no texto, por isso, provavelmente L\u00eanin fez modifica\u00e7\u00f5es no texto para corresponder ao pensamento da socialdemocracia internacional sobre o tema agr\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>O que joga a favor dessa hip\u00f3tese \u00e9 a afirma\u00e7\u00e3o feita por L\u00eanin logo em seguida (no texto) onde diz:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cE uma vez determinada corretamente esta tend\u00eancia (em geral e em particular), somos obrigados, em nome dos nossos princ\u00edpios revolucion\u00e1rios e do nosso dever revolucion\u00e1rio, a lutar<em> com todas as nossas for\u00e7as<\/em>, sempre e em todo o lado, pelas nossas reivindica\u00e7\u00f5es m\u00e1ximas. Tentar estabelecer antecipadamente, antes do resultado definitivo da luta e no decurso dela, que provavelmente n\u00e3o alcan\u00e7aremos <em>todas<\/em> as nossas reivindica\u00e7\u00f5es m\u00e1ximas, significa cair no mais puro filiste\u00edsmo. Tais considera\u00e7\u00f5es levam sempre ao oportunismo, mesmo que os seus autores n\u00e3o o queiram\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><a>Se v\u00ea aqui que L\u00eanin ainda n\u00e3o trabalhava com o m\u00e9todo de um programa de transi\u00e7\u00e3o, que ser\u00e1 uma aquisi\u00e7\u00e3o da III Internacional nos seus 4 primeiros congressos e que, depois, Trotsky transformou em sistema de palavras de ordem, conectando o programa m\u00ednimo com o programa m\u00e1ximo atrav\u00e9s de palavras d ordem transit\u00f3rias. Por\u00e9m, a consigna de <em>Rep\u00fablica<\/em> que era defendida pelo POSDR cumpria um papel de consigna de transi\u00e7\u00e3o, independente da vontade ou da consci\u00eancia dos revolucion\u00e1rios.<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Outra afirma\u00e7\u00e3o do L\u00eanin, no mesmo texto, demonstra que ele normalmente n\u00e3o fazia um esquema, n\u00e3o separava mecanicamente, entre os elementos feudais e burgueses:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cReconhecer esta condi\u00e7\u00e3o significa reconhecer que a evolu\u00e7\u00e3o da agricultura, apesar de todo o seu emaranhado e complexidade, apesar de toda a variedade das suas formas, \u00e9 tamb\u00e9m uma evolu\u00e7\u00e3o capitalista; que tamb\u00e9m ela (tal como a evolu\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria) engendra a luta de classes entre o proletariado e a burguesia; que esta luta de classes deve constituir precisamente a nossa primeira e fundamental preocupa\u00e7\u00e3o, deve ser a pedra de toque sobre a qual teremos de contrastar tanto as quest\u00f5es de princ\u00edpio como as tarefas pol\u00edticas e os m\u00e9todos de propaganda, agita\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Este \u00e9 o racioc\u00ednio que L\u00eanin vem aportando nos \u00faltimos 9 anos no POSDR, por isso fica uma inc\u00f3gnita do porqu\u00ea ele retrocedeu no programa agr\u00e1rio limitando a luta no campo russo a derrubar as \u201creminisc\u00eancias feudais\u201d?<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso \u00e9 incompreens\u00edvel a frase seguinte do programa agr\u00e1rio:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;2. Os comit\u00eas de camponeses t\u00eam o direito de desapropriar as terras dos propriet\u00e1rios, de trocar terras, etc. (pto. 4, b), com a particularidade de este direito estar limitado apenas aos casos de sobreviv\u00eancia direta de rela\u00e7\u00f5es de servid\u00e3o. Isto \u00e9 (3), o direito de expropria\u00e7\u00e3o e resgate \u00e9 concedido apenas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s terras que, em primeiro lugar, \u201cforam tomadas na forma de recortes aos camponeses durante a aboli\u00e7\u00e3o do regime de servid\u00e3o\u201d.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o existe clareza do porqu\u00ea n\u00e3o se deveria lutar pelo confisco de todo latif\u00fandio e porque deveria se lutar apenas pelo confisco dos latifundi\u00e1rios que s\u00e3o donos de 25% das terras da R\u00fassia neste tempo, os nobres. A \u00fanica explica\u00e7\u00e3o \u00e9 que o assunto n\u00e3o estava claro entre eles e prevaleceu a \u201cnorma\u201d da 2\u00aa Internacional que rezava:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cDe um modo geral, desenvolver pequenas explora\u00e7\u00f5es agr\u00edcolas e pequenas propriedades, apoi\u00e1-las, fortalec\u00ea-las e multiplic\u00e1-las n\u00e3o \u00e9 de forma alguma uma tarefa que caiba \u00e0 social-democracia. (\u2026.) De <em>modo geral<\/em>, o apoio \u00e0 pequena propriedade \u00e9 uma medida reacion\u00e1ria, <em>uma vez<\/em> que \u00e9 dirigida contra as grandes explora\u00e7\u00f5es agr\u00edcolas <em>capitalistas<\/em>, retardando consequentemente o desenvolvimento social e contribuindo para esfumar a luta de classes.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Esta orienta\u00e7\u00e3o estava correta para o campon\u00eas franc\u00eas, que havia adquirido terra na revolu\u00e7\u00e3o burguesa de 1789, mas como j\u00e1 vimos na R\u00fassia, o campon\u00eas pobre estava perdendo o acesso a terra e se proletarizando, enquanto surgia uma burguesia rural poderosa e latifundi\u00e1ria. L\u00eanin, mais na frente, neste mesmo programa agr\u00e1rio concordou com essa situa\u00e7\u00e3o contradit\u00f3ria do campon\u00eas russo e admitiu a defesa da pequena propriedade: \u201c&#8230;apoio excepcional e circunstancial \u00e0 pequena propriedade pela socialdemocracia\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Deste ponto de vista, era uma obriga\u00e7\u00e3o do proletariado apoiar a luta do pequeno campon\u00eas pobre russo para ter acesso \u00e0 terra, inclusive contra a grande propriedade rural burguesa, isto \u00e9, o proletariado devia ver esta luta como uma luta democr\u00e1tica do campesinato, portanto como uma alavanca para a luta socialista.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin sempre avistou a quest\u00e3o assim:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNa quest\u00e3o program\u00e1tica, pegamos muita coisa pronta \u201cdos alem\u00e3es\u201d, mas no dom\u00ednio agr\u00e1rio \u00e9 prov\u00e1vel que desenvolvamos algo novo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o camponesa na R\u00fassia era diferente da Europa nesta \u00e9poca: na R\u00fassia, o campon\u00eas pobre podia desempenhar um papel revolucion\u00e1rio, o que de fato ocorreu. Portanto, \u00e9 mais surpreendente ainda que L\u00eanin tenha aceitado estas emendas que pioraram o programa agr\u00e1rio do POSDR, j\u00e1 que ele tinha claro esta quest\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, o mais correto era apoiar a consigna de \u201creparto negro\u201d, isto \u00e9, a distribui\u00e7\u00e3o de terras entre os camponeses que era a consigna que expressava a aspira\u00e7\u00e3o dos camponeses a uma reparti\u00e7\u00e3o geral da terra, a liquida\u00e7\u00e3o de grande propriedade agraria.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin ia nessa dire\u00e7\u00e3o quando disse, neste mesmo programa agr\u00e1rio:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNa reivindica\u00e7\u00e3o do \u201creparto negro\u201d, a utopia de querer generalizar e perpetuar a pequena produ\u00e7\u00e3o camponesa \u00e9 reacion\u00e1ria, mas nela h\u00e1 tamb\u00e9m (al\u00e9m da utopia de que o \u201ccampesinato\u201d pode ser o portador da revolu\u00e7\u00e3o socialista) um aspecto revolucion\u00e1rio, nomeadamente: o desejo de varrer todos os vest\u00edgios do regime de servid\u00e3o com uma insurrei\u00e7\u00e3o camponesa.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Veja que L\u00eanin apontou no sentido correto, mas, em seguida retrocedeu. Fica a pergunta, porque? N\u00e3o houve acordo na reda\u00e7\u00e3o da Iskra? Ao contrapor de forma absoluta a \u201creforma agr\u00e1ria\u201d ou \u201creparto negro\u201d ao \u201cfim dos recortes\u201d, <em>L\u00eanin n\u00e3o utiliza as reformas como subproduto e alavanca da revolu\u00e7\u00e3o socialista<\/em>, que foi seu m\u00e9todo de toda a vida.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin reconhecer\u00e1 seu erro program\u00e1tico sobre a quest\u00e3o agraria dentro de 5 anos, em 1907, quando escreveu;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cOs acontecimentos demonstraram sem d\u00favida que o nosso programa de ent\u00e3o (a devolu\u00e7\u00e3o dos recortes) era desproporcionalmente estreito e <em>subestimava<\/em> as for\u00e7as do movimento campon\u00eas democr\u00e1tico-revolucion\u00e1rio&#8230;\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A proposta correta, segundo meu ponto de vista, seria a nacionaliza\u00e7\u00e3o da terra e a entrega em usufruto comunal ou individual, sem direito a vender e uma distribui\u00e7\u00e3o feita pelos comit\u00eas de camponeses pobres. Isto corresponderia a uma reforma agr\u00e1ria na R\u00fassia e seria uma palavra de ordem de transi\u00e7\u00e3o, democr\u00e1tica, que podia se converter em socialista ou ao menos atrair o campesinato para o lado do proletariado, na medida em que seria negada essa reforma pela via pac\u00edfica.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, o III Congresso do POSDR, de abril de 1905, aceitou a palavra de ordem de \u201cconfisco dos latif\u00fandios\u201d.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Foram preservadas duas variantes do projeto de estatutos do Partido, escritos por L\u00eanin por ocasi\u00e3o da convoca\u00e7\u00e3o do Segundo Congresso do POSDR. A primeira foi preparada um m\u00eas e meio antes do Congresso, depois de tomar conhecimento do projeto de M\u00e1rtov (ver Compila\u00e7\u00e3o Leninista VI, p\u00e1ginas 42-47). A segunda (que aqui se reproduz) &#8211; a \u00faltima &#8211; foi dada a conhecer, antecipadamente, ao Congresso, a todos os membros do Conselho Editorial do Iskra e depois aos delegados.<\/p>\n\n\n\n<p>O texto final do projeto de estatutos apresentado por L\u00eanin \u00e0 Comiss\u00e3o de Estatutos do Congresso n\u00e3o foi preservado, mas, como se pode verificar pelos debates a\u00ed realizados, difere do segundo no seguinte: 1) o Conselho do Partido n\u00e3o seria um \u00f3rg\u00e3o de arbitragem, mas o \u00f3rg\u00e3o supremo do Partido; 2) teria sido solicitado a esse \u00f3rg\u00e3o que a coopta\u00e7\u00e3o do CO e do CC fosse feita por unanimidade, e que fosse controlado por ambos os \u00f3rg\u00e3os de gest\u00e3o. -271.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> Veja no final deste texto um resumo dos debates sobre o programa do POSDR.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> 1. \u00c9 membro do Partido quem aceita o seu programa e apoia o Partido, tanto financeiramente como atrav\u00e9s da participa\u00e7\u00e3o pessoal numa das suas organiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\">[4]<\/a> \u201cEl querer demostrar la &#8220;incapacidad de obrar&#8221; de los organismos centrales por medio del boicot contra ellos constituye una infracci\u00f3n de los deberes ante el Partido, inaudita y sin precedente, y no hay sofisma capaz de ocultar el hecho de que el boicot es un paso hacia la destrucci\u00f3n del Partido. La socialdemocracia rusa ha de atravesar la \u00faltima y dif\u00edcil etapa de tr\u00e1nsito del esp\u00edritu de c\u00edrculo al esp\u00edritu de partido, de la mentalidad peque\u00f1oburguesa a la conciencia del deber revolucionario, del chismorreo y la presi\u00f3n de c\u00edrculos a la disciplina.\u201d L\u00eanin, informaci\u00f3n sobre el II Congreso del POSDR, tomo 8, p\u00e1gina 22.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\" id=\"_ftn5\">[5]<\/a> L\u00eanin afirmou em carta a Plekhanov \u201cPor favor, no interprete la entrega de la Redacci\u00f3n en el sentido del famoso boicot. Ello estar\u00eda en contradicci\u00f3n con lo que le dije con toda franqueza el 1 de noviembre del a\u00f1o en curso en mi declaraci\u00f3n. Como es natural, comunicar\u00e9 ahora a los camaradas mi renuncia a la Redacci\u00f3n.\u201d \u201cPor favor, n\u00e3o interprete a entrega do meu cargo no Conselho Editorial no sentido do famoso boicote. Isto estaria em contradi\u00e7\u00e3o com o que eu disse francamente em 1\u00ba de novembro deste ano em minha declara\u00e7\u00e3o. Naturalmente, informarei agora os camaradas da minha ren\u00fancia da Equipe Editorial.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref6\" id=\"_ftn6\">[6]<\/a> Veja discurso de Rosa Luxemburgo no congresso do POSDR em maio-junho de 1907, realizado em Londres<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref7\" id=\"_ftn7\">[7]<\/a> Lenin, Carta al grupo bolchevique de Zurich, 18 de enero de 1905, Tomo 9, p\u00e1gina 170.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref8\" id=\"_ftn8\">[8]<\/a> Lenin, Obras Completas, Tomo 41, ano 1920.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Chegando aqui, no epis\u00f3dio 8, entre 1902 e 1903, estudaremos o desenrolar do Congresso e os debates pr\u00e9-congressuais, para entender melhor o porqu\u00ea da ruptura entre bolcheviques e mencheviques. Por: Nazareno Godeiro O II Congresso teve um car\u00e1ter fundacional, porque votou um programa e um estatuto da organiza\u00e7\u00e3o, coisa que o I Congresso de 1898 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":79224,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[8806,8076],"tags":[8808,1069],"class_list":["post-79223","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-100-anos-sem-lenin","category-especiais","tag-100-anos-sem-lenin","tag-nazareno-godeiro"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Lenin-1903.jpg","categories_names":["100 anos sem L\u00eanin","Especiais"],"author_info":{"name":"lena","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/b9eb35b4c023b96c29c4a145a82c6c381b68f2c889c5427106ad5aab6df45b9d?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79223","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=79223"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79223\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":79227,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79223\/revisions\/79227"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/79224"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=79223"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=79223"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=79223"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}