{"id":79216,"date":"2024-07-11T20:45:58","date_gmt":"2024-07-11T20:45:58","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=79216"},"modified":"2024-12-06T16:16:26","modified_gmt":"2024-12-06T16:16:26","slug":"bolivia-o-que-esta-por-tras-da-acao-de-26-de-junho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2024\/07\/11\/bolivia-o-que-esta-por-tras-da-acao-de-26-de-junho\/","title":{"rendered":"Bol\u00edvia: O que est\u00e1 por tr\u00e1s da a\u00e7\u00e3o de 26 de junho"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Na quarta-feira 26 de junho, a Bol\u00edvia apareceu em toda a imprensa internacional. Parecia que a tr\u00e1gica hist\u00f3ria dos golpes militares voltava a se repetir. Nas primeiras horas da tarde 2 tanques e v\u00e1rias dezenas de soldados sob comando do ex Comandante em Chefe do Ex\u00e9rcito general Z\u00fa\u00f1iga, ocuparam a Pra\u00e7a Murillo. Um dos tanques derrubou a porta de entrada da casa do governo, e Z\u00fa\u00f1iga junto com um grupo de soldados, entraram em busca do presidente Luis Arce. O presidente saiu, repreendeu o general, dizendo que ele era seu capit\u00e3o e lhe ordenou que retirasse seus soldados.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: Alicia Sagra<\/p>\n\n\n\n<p>Z\u00fa\u00f1iga n\u00e3o aceitou a ordem de retirada, mas se retirou do pal\u00e1cio para fazer declara\u00e7\u00f5es \u00e0 imprensa. Declarou que a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o podia continuar assim, que deveria haver mudan\u00e7as, que seu objetivo era restabelecer a democracia e libertar seus presos, entre eles, a ex presidenta Jeanine A\u00f1ez acusada de preparar o golpe de 2019.<\/p>\n\n\n\n<p>Nenhum setor pol\u00edtico apoiou essa a\u00e7\u00e3o militar. Inclusive, a pr\u00f3pria Jeanine A\u00f1ez declarou que era contra qualquer golpe militar e que iriam derrotar o MAS- Movimento ao Socilaismo- nas urnas em 2025.<\/p>\n\n\n\n<p>A COB- Central Oper\u00e1ria Boliviana- chamou greve geral por tempo indeterminado, o que foi apoiado por Evo Morales que tamb\u00e9m convocou os bloqueios de estrada, para enfrentar o golpe e defender a \u201cdemocracia\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto isso, o presidente Arce destituiu a c\u00fapula militar, nomeando novos comandantes em chefe para as tr\u00eas armas. E, ainda \u00e0 tarde, o movimento foi dominado e o General Z\u00fa\u00f1iga foi preso. Antes de ser levado pela pol\u00edcia, fez a seguinte declara\u00e7\u00e3o \u00e0 imprensa: <em>\u201cNo domingo, no Colegio La Salle, me reuni com o presidente. E o presidente me disse: \u2018A situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 muito ferrada, esta semana ser\u00e1 muito cr\u00edtica\u2026Ent\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1rio preparar alguma coisa para levantar minha popularidade\u2019\u201d<\/em><a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\"><em><strong>[1]<\/strong><\/em><\/a><em>, <\/em>dando assim a entender que havia sido um autogolpe. Acusa\u00e7\u00e3o que foi desmentida pela ministra da presid\u00eancia Mar\u00eda Nela Prada.<\/p>\n\n\n\n<p>O general Z\u00fa\u00f1iga, visto como pr\u00f3ximo a Arce, tinha sido retirado de seu cargo de Comandante em Chefe do Ex\u00e9rcito por inger\u00eancia na pol\u00edtica, depois que fez declara\u00e7\u00f5es insultuosas a Evo Morales, amea\u00e7ando prend\u00ea-lo caso se apresentasse como candidato \u00e0 presid\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que aconteceu?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Esta \u00e9 a pergunta que aparece em toda a m\u00eddia boliviana e \u00e9 certamente feita pelos trabalhadores, camponeses, estudantes, que foram convocados para enfrentar o \u201cgolpe\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m parece ter nitidez sobre o que aconteceu e diferentes hip\u00f3teses s\u00e3o apresentadas. Por exemplo, Mar\u00eda Galindo, da organiza\u00e7\u00e3o Mulheres Criando, fez uma forte declara\u00e7\u00e3o contra essa a\u00e7\u00e3o militar, apresentando tr\u00eas hip\u00f3teses: &nbsp;1- <a>foi <\/a>uma demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a dos militares, para mostrar o que podem fazer a qualquer momento; 2- tratou-se de um acordo entre o governo de Arce e do General Z\u00fa\u00f1iga, para mostrar um presidente forte, disposto a enfrentar, diferente do que aconteceu com Evo em 2019, e assim recuperar parte do apoio popular que perdeu; 3- foi um golpe, que ainda permanece ativo e do qual n\u00e3o se conhecem as verdadeiras caras. Por outro, o professor da <em>Pontif\u00edcia Universidade Javeriana<\/em>, Manuel Camilo Gonz\u00e1lez, afirma: <em>\u201cN\u00e3o houve inten\u00e7\u00e3o de derrotar Arce nem a\u00e7\u00f5es tendentes a isso. Mas, houve uma press\u00e3o indevida da lideran\u00e7a dos militares para obrigar Arce a criar um novo gabinete, presumivelmente com menos presen\u00e7a do MAS, e inclusive de libertar presos pol\u00edticos como o opositor Camacho e a ex presidenta A\u00f1ez\u201d.<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\"><strong>[2]<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Independente de qual hip\u00f3tese for a verdadeira, o certo \u00e9 que provocou medo na popula\u00e7\u00e3o, que conhece muito bem as consequ\u00eancias de mortes, pris\u00e3o e persegui\u00e7\u00f5es da grande quantidade de golpes militares que ocorreram desde 1950. E sabe tamb\u00e9m, que sempre foi a mobiliza\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria e popular que permitiu sair dessas situa\u00e7\u00f5es. Por isso, o chamado \u00e0 greve geral por tempo indefinido pela Central Oper\u00e1ria Boliviana diante dessa a\u00e7\u00e3o militar foi correto.<\/p>\n\n\n\n<p>O resultado dessa a\u00e7\u00e3o foi o agravamento da crise econ\u00f4mica, \u00e0 qual se soma uma grande tens\u00e3o pol\u00edtica. E se foi uma tentativa de Arce aumentar sua popularidade, saiu-se mal, j\u00e1 que todos os dados indicam que o percentual de aprova\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 estava em 18%, caiu ainda mais, depois dos incidentes de quarta-feira 26 de junho.<\/p>\n\n\n\n<p>Por tr\u00e1s desta crise boliviana h\u00e1 tr\u00eas elementos que se destacam: o enfrentamento Arce-Morales, a crise econ\u00f4mica e o enorme descontentamento popular.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O enfrentamento Arce-Morales.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Arce foi ministro de finan\u00e7as de Evo, e \u00e9 considerado o \u201cpai do milagre boliviano\u201d. Entretanto, hoje existe uma forte rivalidade entre eles que levou \u00e0 divis\u00e3o do MAS entre \u201cevistas\u201d y \u201carcistas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Fa\u00e7amos um pouco de hist\u00f3ria para entender este enfrentamento..<\/p>\n\n\n\n<p>O governo do MAS \u00e9 consequ\u00eancia da revolu\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria, ind\u00edgena e popular de 2003 e 2005, que derrotou dois governos burgueses, Goni e Mesa, e impediu a sucess\u00e3o constitucional de Vaca Diez, homem de confian\u00e7a da burguesia naquela \u00e9poca. Para conter e desviar a revolu\u00e7\u00e3o, a burguesia mais l\u00facida recorreu \u00e0 sa\u00edda extrema de aceitar um governo liderado por um ind\u00edgena e, al\u00e9m disso cocaleiro, embora isso significasse enfrentar os setores burgueses mais reacion\u00e1rios. E a t\u00e1tica funcionou muito bem para a burguesia, com o governo do MAS a revolu\u00e7\u00e3o foi detida. E, com certeza, Evo Morales (e Luis Arce depois) aceitou as condi\u00e7\u00f5es exigidas, assim seu governo \u201cind\u00edgena\u201d defendeu, sem d\u00favida alguma, o sagrado direito burgu\u00eas da propriedade privada e do monop\u00f3lio total das armas pelas For\u00e7as Armadas da Na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Como j\u00e1 dissemos em outros artigos, o governo do MAS nunca foi revolucion\u00e1rio, mas para poder desviar a revolu\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria, ind\u00edgena e popular teve que realizar importantes reformas democr\u00e1ticas, como a elei\u00e7\u00e3o dos ju\u00edzes por sufr\u00e1gio universal e outras com um grande car\u00e1ter simb\u00f3lico para um povo desde sempre oprimido e humilhado, como a educa\u00e7\u00e3o bil\u00edngue e a wipala como s\u00edmbolo nacional. O Estado Plurinacional foi contido dentro do simb\u00f3lico e sua maior express\u00e3o material \u00e9 a amplia\u00e7\u00e3o da representa\u00e7\u00e3o ind\u00edgena campesina, oper\u00e1ria e popular no Estado, deputados, funcion\u00e1rios p\u00fablicos e governos locais. Tudo isso, em meio a uma situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica favor\u00e1vel, pelo alto pre\u00e7o das mat\u00e9rias primas, em especial o g\u00e1s, que possibilitou um r\u00e1pido crescimento, estabilidade e capacidade para conter a infla\u00e7\u00e3o, o que veio a se chamar \u201cO milagre econ\u00f4mico boliviano\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas esta situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica come\u00e7ou a mudar em 2014. Isso somado \u00e0 pouca resposta \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de vida dos oper\u00e1rios, a repress\u00e3o aos ind\u00edgenas que protestavam pela constru\u00e7\u00e3o de uma mega rodovia que atravessava seus territ\u00f3rios, e as manobras de Evo para concretizar sua terceira reelei\u00e7\u00e3o, foram fazendo cair o prest\u00edgio do governo do MAS. Esse crescente desprest\u00edgio facilitou o reacion\u00e1rio golpe militar promovido pela direita do Oriente Boliviano, que obrigou Evo Morales a renunciar, em novembro de 2019.<\/p>\n\n\n\n<p>Frente ao golpe, ocorreu a tradicional rea\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria e popular, que impediu que o governo golpista de Jeanine A\u00f1ez se consolidasse e nas elei\u00e7\u00f5es de 2020 voltou a triunfar a f\u00f3rmula do MAS, liderada pelo professor universit\u00e1rio Luis Arce.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa f\u00f3rmula teve o apoio de Evo Morales, mas poucos anos depois o conflito que existia entre eles tornou-se p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Em outubro de 2023, realizou-se o congresso do MAS, que expulsou o presidente Luis Arce e o vice David Choquehuanca, (dirigente campon\u00eas, de origem aymara) e proclamou Evo Morales candidato \u00e0 presid\u00eancia. O que provocou uma impugna\u00e7\u00e3o, por parte de Luis Arce, que foi aceita pela justi\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse enfrentamento p\u00fablico entre os dirigentes, foi deslocado para o parlamento e levou a confrontos entre as bases que respondiam a um ou a outro e \u00e0 divis\u00e3o nas organiza\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dois se acusam, mutuamente, de corrup\u00e7\u00e3o. Evo acusa Arce de ineficiente, Arce acusa Evo de irrespons\u00e1vel, de colocar a institucionalidade em risco. O governo de Arce acusa de corrup\u00e7\u00e3o na ind\u00fastria do l\u00edtio e manda deter funcion\u00e1rios ligados a Evo Morales. Em janeiro-fevereiro deste ano, Evo impulsiona bloqueios de estradas exigindo a ren\u00fancia dos ju\u00edzes que confirmaram sua inabilita\u00e7\u00e3o eleitoral. E assim continuam usando recursos do estado e das organiza\u00e7\u00f5es sociais, em sua briga.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 agora n\u00e3o aparecem diferen\u00e7as pol\u00edticas. Por exemplo, a defesa dos recursos naturais era um dos pontos da Agenda da revolu\u00e7\u00e3o (2003-2005) e era uma das bandeiras do MAS. No entanto, concretizou-se uma impressionante entrega do l\u00edtio do Salar de Uyuni \u00e0 empresa privada chinesa Citic Cuoan Group e \u00e0 estatal russa Rosatom. Ante esse fato, n\u00e3o houve nenhuma oposi\u00e7\u00e3o de Evo, que \u00e9 tamb\u00e9m quem mais promoveu (e promove) as rela\u00e7\u00f5es com a ditadura capitalista chinesa e as grandes empresas desse pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo parece indicar, e \u00e9 o que a m\u00eddia boliviana reflete, que a briga tenha a ver com a quest\u00e3o eleitoral. O apoio popular ao MAS n\u00e3o \u00e9 o mesmo que durante o primeiro governo de Evo, mas segundo todas as pesquisas, estaria em primeiro lugar (se estiver unido) nas inten\u00e7\u00f5es de voto para a elei\u00e7\u00e3o presidencial de 2025, j\u00e1 que a direita saiu muito mal depois do golpe de 2019 e das mobiliza\u00e7\u00f5es que desestabilizaram o governo golpista.<\/p>\n\n\n\n<p>Como a disputa ser\u00e1 por quem ser\u00e1 o candidato \u00e0 presid\u00eancia e, muito provavelmente, o pr\u00f3ximo presidente da Bol\u00edvia, a briga que n\u00e3o \u00e9 pelo prest\u00edgio do cargo, mas est\u00e1 estreitamente ligada \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o, \u00e0s vantagens que esse cargo oferece, \u00e0 medida em que as elei\u00e7\u00f5es se aproximam, a briga se fortalece.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja, exatamente igual ao que ocorre nos partidos burgueses. O que n\u00e3o \u00e9 estranho, porque esse tipo de partido, \u00e0 medida em que passam anos administrando o estado burgu\u00eas, v\u00e3o se parecendo cada vez mais aos partidos burgueses. E independente que seu principal dirigente seja um campon\u00eas de origem aymara ou um ex-oper\u00e1rio metal\u00fargico como Lula no PT do Brasil. Inclusive esses partidos podem chegar a mudar seu car\u00e1ter de classe. Foi isso o que aconteceu com o MNR-Movimento Nacionalista Revolucion\u00e1rio-, de origem pequeno burguesa, que depois da revolu\u00e7\u00e3o de 1952 deu origem a uma nova burguesia boliviana, a partir dos benef\u00edcios obtidos pela administra\u00e7\u00e3o das empresas estatais.<\/p>\n\n\n\n<p>E essa briga entre estes dois dirigentes do MAS pela candidatura presidencial, por si s\u00f3 &nbsp;complicada, j\u00e1 que o prest\u00edgio de Arce caiu muito e Evo est\u00e1 impedido de ser candidato pela Constitui\u00e7\u00e3o que s\u00f3 permite dois mandatos presidenciais, \u00e9 ainda mais complicada porque ocorre em meio a crescentes problemas econ\u00f4micos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A deteriora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A Bol\u00edvia destacou-se na Am\u00e9rica Latina pelo seu r\u00e1pido crescimento e capacidade para conter a infla\u00e7\u00e3o. Era quando se falava do \u201cmilagre econ\u00f4mico boliviano\u201d. Mas, em mar\u00e7o de 2023, se detectaram problemas, quando se evidenciou uma grave <em>escassez de d\u00f3lares <\/em>e come\u00e7aram a aparecer longas filas nas ruas daqueles que tentavam compr\u00e1-los<\/p>\n\n\n\n<p>Isso gerou um mercado paralelo e fala-se de que havia cerca de 13 tipos de c\u00e2mbio. O governo afirma que a economia continua est\u00e1vel e que s\u00f3 se trata de um <em>surto especulativo. <\/em>Mas n\u00e3o \u00e9 o que os especialistas dizem. Eles falam de um problema muito mais profundo, que se explica pela queda do n\u00edvel de produ\u00e7\u00e3o do g\u00e1s natural, que possibilitou grandes rendas para o pa\u00eds depois da nacionaliza\u00e7\u00e3o dos hidrocarbonetos.<\/p>\n\n\n\n<p>O economista e consultor financeiro Jaime Dunn, explica: \u201cDesde 2014 o efeito dessa bonan\u00e7a come\u00e7ou a se reverter e isto fez com que baixasse o n\u00edvel de d\u00f3lares que chegavam ao pa\u00eds.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Paralelamente, as reservas internacionais diminu\u00edram consideravelmente.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo os informes do Banco Central, estas passaram de&nbsp;US$15,122 bilh\u00f5es em 2014 para US$1,796 bilh\u00f5es em abril de 2024&nbsp;(data em que o \u00faltimo informe foi publicado).<\/p>\n\n\n\n<p>Com esses recursos foram mantidos alguns dos programas sociais dos governos de Evo Morales primeiro e Luis Arce depois, como o subs\u00eddio para a compra de combust\u00edveis, que a Bol\u00edvia tem que importar e pagar em d\u00f3lares nos mercados internacionais. \u201cIsso levou o pa\u00eds a uma crise porque, apesar das receitas terem ca\u00eddo, manteve-se um gasto muito alto. E desde 2014 as receitas do g\u00e1s natural come\u00e7aram a ser substitu\u00eddas por d\u00edvida interna e externa&#8221;<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[3]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>A escassez de d\u00f3lares repercutiu especialmente nos setores que importam ou exportam bens. A escassez de d\u00f3lares tamb\u00e9m afetou diretamente a <strong>importa\u00e7\u00e3o de combust\u00edvel. <\/strong>Isso \u00e9 problem\u00e1tico se considerarmos que, segundo o pr\u00f3prio presidente Arce, <strong>a Bol\u00edvia importa 56% da gasolina e 86% do diesel que consome. \u201c<\/strong>A Bol\u00edvia passou de ser um pa\u00eds exportador l\u00edquido de energia para ser um importador. Tendo sido uma esp\u00e9cie de centro energ\u00e9tico para a Am\u00e9rica do Sul h\u00e1 apenas 10 anos atr\u00e1s\u201d, afirma Jaime Dunn.<\/p>\n\n\n\n<p>Claudia Pacheco, presidenta do Col\u00e9gio de Economistas de Santa Cruz, destaca que \u201ca Bol\u00edvia \u00e9 importadora de insumos e de bens de capital em quase 80% por isso se viu muito afetada pela escassez de d\u00f3lares&#8221;<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\">[4]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>E essa realidade \u00e9 sentida na economia popular, com o aumento do valor de alguns produtos b\u00e1sicos como o arroz ou o tomate e com a falta de outros.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;Descontentamento e resposta popular<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isso est\u00e1 gerando um grande descontentamento popular que se expressa em diferentes a\u00e7\u00f5es. Comerciantes e transportadores t\u00eam realizado manifesta\u00e7\u00f5es e bloqueios de estradas em diferentes cidades do pa\u00eds. Em 2023, houve em torno de 200 bloqueios, denunciando a escassez de d\u00f3lares e de combust\u00edvel. Nos postos de gasolina h\u00e1 longas filas, alguns tem que passar a noite para conseguir combust\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma grande manifesta\u00e7\u00e3o de vendedores ambulantes, de diferentes partes do pa\u00eds, ocorreu em La Paz denunciando a escassez de d\u00f3lares e de combust\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Perspectiva<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 evidente que existe uma importante crise pol\u00edtica que se combina com a econ\u00f4mica, situa\u00e7\u00e3o intensificada pelos acontecimentos de 26 de junho, onde se voltou a jogar com os sentimentos e temores do povo boliviano. \u00c9 dif\u00edcil prever como acabar\u00e1 o enfrentamento dos dirigentes do MAS. Mas qualquer que seja o resultado dessa briga e das elei\u00e7\u00f5es, o certo \u00e9 que nada ser\u00e1 a favor dos trabalhadores e dos pobres da Bol\u00edvia.<\/p>\n\n\n\n<p>Aos sofrimentos econ\u00f4micos que se intensificam, soma-se uma nova frustra\u00e7\u00e3o. Foram muitos camponeses e trabalhadores que participaram nas revolu\u00e7\u00f5es de 2003-2005 e que colocaram suas expectativas em Evo Morales e no MAS. Mas, o que algum dia foi o Instrumento Pol\u00edtico dos Trabalhadores, hoje se transformou em um partido muito parecido aos burgueses, onde os dirigentes brigam por cargos, por vantagens e usam os trabalhadores e suas organiza\u00e7\u00f5es, como armas dessa briga.<\/p>\n\n\n\n<p>Aos trabalhadores, camponeses pobres e estudantes s\u00f3 resta um caminho para superar essa situa\u00e7\u00e3o, a luta pela revolu\u00e7\u00e3o socialista, pelo poder dos trabalhadores que inicie o caminho para o socialismo e, para alcan\u00e7\u00e1-lo, a constru\u00e7\u00e3o do partido que oriente nesse caminho: um partido oper\u00e1rio, revolucion\u00e1rio e internacionalista. \u00c9 uma tarefa dif\u00edcil, mas \u00e9 a \u00fanica que pode proporcionar uma sa\u00edda.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> <em>&nbsp;Semana<\/em>, 28-06-24, <a href=\"http:\/\/www.semana.com\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.semana.com<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> <em>idem<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> BBC New Mundo, 28-06-2024<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\">[4]<\/a> idem<\/p>\n\n\n\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: L\u00edlian Enck<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na quarta-feira 26 de junho, a Bol\u00edvia apareceu em toda a imprensa internacional. Parecia que a tr\u00e1gica hist\u00f3ria dos golpes militares voltava a se repetir. Nas primeiras horas da tarde 2 tanques e v\u00e1rias dezenas de soldados sob comando do ex Comandante em Chefe do Ex\u00e9rcito general Z\u00fa\u00f1iga, ocuparam a Pra\u00e7a Murillo. 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