{"id":79106,"date":"2024-06-25T16:13:00","date_gmt":"2024-06-25T16:13:00","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=79106"},"modified":"2024-06-25T21:48:00","modified_gmt":"2024-06-25T21:48:00","slug":"eleicoes-para-o-parlamento-europeu-2024-a-ultra-direita-avanca-fortemente-a-franca-entra-numa-crise-politica-profunda-e-a-uniao-europeia-acentua-o-seu-declinio-como-bloco-imperialista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2024\/06\/25\/eleicoes-para-o-parlamento-europeu-2024-a-ultra-direita-avanca-fortemente-a-franca-entra-numa-crise-politica-profunda-e-a-uniao-europeia-acentua-o-seu-declinio-como-bloco-imperialista\/","title":{"rendered":"Elei\u00e7\u00f5es para o Parlamento Europeu 2024: Uni\u00e3o Europeia acentua o seu decl\u00ednio como bloco imperialista"},"content":{"rendered":"\n<p><em>As elei\u00e7\u00f5es para o Parlamento Europeu de 2024 foram marcadas por uma grande ascens\u00e3o da extrema direita em toda a Uni\u00e3o Europeia (UE)<a id=\"_ftnref1\" href=\"#_ftn1\">[1]<\/a>. Um ascenso que foi facilitado pela sua crescente legitima\u00e7\u00e3o pelos partidos da direita europeia tradicional, como ficou evidente no caso de Georgia Meloni.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: Victor Alay<\/p>\n\n\n\n<p>O Rassemblement National (RN) de ultra-direita alcan\u00e7ou o primeiro lugar na Fran\u00e7a, um dos dois pa\u00edses centrais da UE, dando lugar a uma profunda crise pol\u00edtica que abala toda a Europa. Na Alemanha, o pa\u00eds mais poderoso da UE, a Alian\u00e7a para a Alemanha (AfD), de ultra-direita, ficou em segundo lugar, ultrapassando o Partido Social Democrata (SPD) e deixando o governo de coliga\u00e7\u00e3o de Scholz dependente de respira\u00e7\u00e3o artificial. Tamb\u00e9m venceram num pa\u00eds de import\u00e2ncia primordial como a It\u00e1lia. E o mesmo aconteceu em lugares como a Hungria, a \u00c1ustria e a Pol\u00f4nia (se contarmos os votos dos dois partidos de extrema-direita que concorreram). Na Holanda caminhamos para um governo hegemonizado pela extrema direita de Wilders. Da mesma forma, a extrema direita participa em governos de coliga\u00e7\u00e3o na Su\u00e9cia, na Finl\u00e2ndia e na Let\u00f3nia.<\/p>\n\n\n\n<p>Os resultados das elei\u00e7\u00f5es europeias trouxeram a crise pol\u00edtica para o cora\u00e7\u00e3o de uma UE com as suas principais pot\u00eancias, a Alemanha e a Fran\u00e7a, enfraquecidas e em crise. Significaram um n\u00edtido aumento das tend\u00eancias nacionalistas, precisamente em um momento em que a UE, imprensada no meio do confronto entre os dois principais imperialismos mundiais, os EUA e a China, desempenha um papel cada vez mais subordinado na economia e na pol\u00edtica mundiais. Uma eventual vit\u00f3ria de Trump em novembro nos EUA contribuiria sem d\u00favida para acentuar esta crise profunda.<\/p>\n\n\n\n<p>Os resultados eleitorais, embora tenham sido antecipados pelas sondagens, continuam a ser uma amea\u00e7a n\u00edtida para a classe trabalhadora e os sectores populares e oprimidos da Europa.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A extrema direita europeia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os avan\u00e7os eleitorais da extrema direita s\u00e3o, sem d\u00favida, relevantes. A atual ultra direita tem pontos de contacto e, em muitos casos, la\u00e7os hist\u00f3ricos com os antigos partidos fascistas da d\u00e9cada de 1930. \u00c9 o caso de RN na Fran\u00e7a ou o de Fratelli d&#8217;Italia de Meloni. A AfD alem\u00e3 assume a <em>hist\u00f3ria abrangente da Alemanha<\/em>, que inclui, \u00f3bvio, a era nazi. No entanto, sendo isto verdade, nas atuais circunst\u00e2ncias n\u00e3o podemos equipar\u00e1-los \u00e0s suas origens e devemos analisar as suas caracter\u00edsticas particulares em rela\u00e7\u00e3o aos antigos fascismos de Hitler, Mussolini ou Franco.<\/p>\n\n\n\n<p>A extrema direita n\u00e3o depende, como na d\u00e9cada de 1930, da forma\u00e7\u00e3o de bandos fascistas armados<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, compostos principalmente por sectores sociais desesperados da pequena burguesia. Baseia-se, no entanto, no quadro parlamentar. Apesar de reivindicarem de forma mais ou menos evidente a heran\u00e7a fascista, de existirem nazis violentos nas suas estruturas e de manterem rela\u00e7\u00f5es, nem sempre f\u00e1ceis, com grupos fascistas armados. A extrema direita europeia n\u00e3o est\u00e1 atualmente trabalhando com perspectivas insurrecionais, mas com a ideia de confiar nos canais parlamentares para restringir os direitos e liberdades democr\u00e1ticas e estabelecer um Estado bonapartista autorit\u00e1rio. Geralmente t\u00eam grande simpatia e apoio nos setores policial e militar, o que representa um grande perigo potencial.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o partidos chauvinistas, <em>patri\u00f3ticos<\/em> e verdadeiramente nacional-imperialistas no caso dos pa\u00edses imperialistas Europeus. O seu lema \u00e9 <em>Menos Europa, mais p\u00e1tria<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\"><strong>[3]<\/strong><\/a><\/em> e s\u00e3o contra o novo projeto de amplia\u00e7\u00e3o da UE, em dire\u00e7\u00e3o ao leste, recentemente aprovado. Eles se definem como <em>soberanistas e patriotas<\/em>. Contrap\u00f5em a soberania nacional do seu pa\u00eds com a da UE e exigem a devolu\u00e7\u00e3o dos poderes aos Estados. Como diz a AfD alem\u00e3, defendem <em>um novo lar para uma comunidade de Estados soberanos<\/em>. No entanto, hoje, j\u00e1 n\u00e3o defendem, como antes, a sa\u00edda da UE. A ultra direita alem\u00e3 tamb\u00e9m defende, ao contr\u00e1rio de Meloni, a sa\u00edda das tropas norte-americanas e o fechamento da base americana em Ramstein, embora esteja dividida quanto \u00e0 ades\u00e3o da Alemanha \u00e0 OTAN.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A principal bandeira da extrema direita \u00e9 a luta contra a imigra\u00e7\u00e3o.<\/strong> A xenofobia, a islamofobia e o supremacismo racista constituem uma parte central do seu programa. Apoiam a tese da conspira\u00e7\u00e3o da <em>Grande Substitui\u00e7\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o<\/em> e a cultura crist\u00e3 ocidental pelas m\u00e3os de uma invas\u00e3o isl\u00e2mica em massa e defendem o fechamento de fronteiras e as expuls\u00f5es massivas. Em novembro passado, expoentes da extrema-direita alem\u00e3 reuniram-se em Potsdam em defesa da <em>Grande Reemigra\u00e7\u00e3o<\/em> para o Norte da \u00c1frica de dois milh\u00f5es de pessoas, incluindo solicitantes de asilo, estrangeiros com autoriza\u00e7\u00e3o de resid\u00eancia e cidad\u00e3os alem\u00e3es <em>n\u00e3o assimilados<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>O enorme aumento de migrantes provenientes de pa\u00edses semicoloniais arruinados, saqueados, oprimidos, com governos servis, com as suas popula\u00e7\u00f5es atingidas por situa\u00e7\u00f5es de guerra, fome, seca e falta de sa\u00eddas, se combina com a decad\u00eancia capitalista nas metr\u00f3poles anfitri\u00e3s, onde os mais pobres setores da classe trabalhadora e do campesinato vivem cada vez pior e sofrem maiores priva\u00e7\u00f5es. A ultra direita aproveita esta circunst\u00e2ncia dram\u00e1tica, faz demagogia com os crimes ou certos excessos cometidos por estrangeiros e coloca os pobres contra os mais pobres, apresentando os imigrantes como os culpados da sua situa\u00e7\u00e3o: como <em>ladr\u00f5es dos seus subs\u00eddios<\/em> e como respons\u00e1veis \u200b\u200bpelos seus baixos sal\u00e1rios e condi\u00e7\u00f5es de trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>A agenda econ\u00f4mica da extrema direita \u00e9 o ultraliberalismo e o rep\u00fadio aos direitos trabalhistas e \u00e0s conquistas sociais, embora nem todos os partidos de ultra direita o expressem com igual nitidez. N\u00e3o \u00e9 por acaso que Milei foi o grande convidado do encontro de ultra direita em Madrid organizado pelo Vox pouco antes das elei\u00e7\u00f5es europeias.<\/p>\n\n\n\n<p>A ultra direita questiona a pr\u00f3pria exist\u00eancia das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e da emerg\u00eancia clim\u00e1tica. Apoiam-se nas recentes mobiliza\u00e7\u00f5es dos agricultores europeus (na sua maioria dirigidos e influenciados por grandes patronais agr\u00edcolas) para se oporem frontalmente a qualquer medida de mitiga\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica (deve-se dizer tamb\u00e9m que, sem ir t\u00e3o longe como a extrema direita, a direita tradicional est\u00e1 chegando a acordos com a mesma nesta \u00e1rea num n\u00famero crescente de pa\u00edses). A ultra direita apresenta-se abertamente como antifeminista e defensora do homem oprimido e se enfrenta abertamente com o movimento em defesa dos direitos das mulheres e defende e da popula\u00e7\u00e3o LGTBI.<\/p>\n\n\n\n<p>Na pol\u00edtica internacional, todos eles, Le Pen, Meloni ou a AfD, defendem o seu pr\u00f3prio imperialismo. Todos eles tamb\u00e9m apoiam o rearmamento e a militariza\u00e7\u00e3o (juntamente com os governos de direita e social-democratas). Tamb\u00e9m apoiam, sem exce\u00e7\u00e3o, o genoc\u00eddio sionista contra o povo palestino. No entanto, est\u00e3o divididos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 R\u00fassia. Temos, por um lado, os amigos de Putin (Orb\u00e1n, a AfD, o italiano Salvini ou, com mais discri\u00e7\u00e3o, o RN franc\u00eas), que s\u00e3o contra qualquer tipo de ajuda militar ou econ\u00f4mica \u00e0 Ucr\u00e2nia e a favor da entrega do Donbass ucraniano para a R\u00fassia. A AfD defende expressamente o restabelecimento das rela\u00e7\u00f5es com a R\u00fassia, o fim das san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e a volta \u00e0s compras de g\u00e1s. Por outro lado, temos a italiana Meloni &nbsp;ou o Vox espanhol, nitidamente alinhados com a OTAN e contra a R\u00fassia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O avan\u00e7o da Alian\u00e7a pela Alemanha (AfD)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Na Alemanha, o principal partido do governo, o social-democrata SPD, ficou (com 14% dos votos) atr\u00e1s da extrema-direita AfD (Alternativa pela Alemanha), com 16%. A AfD tornou-se a segunda for\u00e7a pol\u00edtica no pa\u00eds (atr\u00e1s dos democratas-crist\u00e3os CDU-CSU com 30%) e a primeira nos land\u00ebr da antiga Alemanha Oriental.<\/p>\n\n\n\n<p>Alcan\u00e7ou estes resultados apesar dos esc\u00e2ndalos anteriores \u00e0s elei\u00e7\u00f5es (declara\u00e7\u00f5es protonazis do seu primeiro candidato, Maximilian Krah, e julgamentos de alguns dos seus l\u00edderes por espionagem a favor da R\u00fassia e da China).<\/p>\n\n\n\n<p>Antes das elei\u00e7\u00f5es, as 300 maiores corpora\u00e7\u00f5es patronais alem\u00e3s tomaram uma posi\u00e7\u00e3o p\u00fablica contra a AfD, que consideram, nas atuais circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas, um obst\u00e1culo aos seus interesses. A grande patronal alem\u00e3, com fortes investimentos no estrangeiro e grandes interesses exportadores, precisam vitalmente da UE para os seus neg\u00f3cios, tanto na Europa &#8211; o seu principal mercado de exporta\u00e7\u00e3o &#8211; como no estrangeiro, bem como para tentarem pesar politicamente num quadro internacional dominado pelo confronto entre os EUA e a China. Tamb\u00e9m precisa de trabalhadores especializados para a sua ind\u00fastria, cuja necessidade a Alemanha n\u00e3o consegue satisfazer. \u00c9 por isso que n\u00e3o concorda com as posi\u00e7\u00f5es ultranacionalistas da AfD, contr\u00e1rias \u00e0 UE. Da mesma forma, tamb\u00e9m n\u00e3o participa de sua extrema xenofobia. Embora utilize exaustivamente a divis\u00e3o nativo-estrangeiro no seio da classe oper\u00e1ria alem\u00e3, a grande&nbsp; patronal n\u00e3o concorda com teses como a da grande <em>Reemigra\u00e7\u00e3o<\/em>, o que implicaria a expuls\u00e3o massiva de estrangeiros <em>legais e de cidad\u00e3os alem\u00e3es n\u00e3o assimilados<\/em> que, nitidamente, necessita para suas f\u00e1bricas e neg\u00f3cios.<\/p>\n\n\n\n<p>A ascens\u00e3o da extrema-direita alem\u00e3 \u00e9 proporcional ao decl\u00ednio do pa\u00eds. O capitalismo alem\u00e3o, que j\u00e1 se destacava como o mais poderoso da Europa, teve um enorme impulso na d\u00e9cada de 90 do s\u00e9culo passado com a unifica\u00e7\u00e3o alem\u00e3 (na verdade a <em>anexa\u00e7\u00e3o<\/em> da Alemanha Oriental) e com a expans\u00e3o para a Europa Oriental, <em>semicolonizada<\/em> pelo capitalismo alem\u00e3o baseado no amplia\u00e7\u00e3o da UE. O antigo Glacis foi convertido num novo mercado e numa base para deslocar f\u00e1bricas para pa\u00edses com menor n\u00edvel de escolaridade sal\u00e1rios e direitos e com poucas regulamenta\u00e7\u00f5es ambientais e sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a Alemanha oriental nunca foi realmente equiparada ao ocidente. Ainda hoje existem duas Alemanhas, com alem\u00e3es de primeira classe e alem\u00e3es de segunda classe. 70% da ind\u00fastria da Alemanha oriental foi desmantelada e o resto entregue a grandes corpora\u00e7\u00f5es do ocidente, com sal\u00e1rios e aposentadorias mais baixos, regulamenta\u00e7\u00f5es laborais mais baixas e pior acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e aos cuidados de sa\u00fade. A Alemanha oriental tornou-se uma esp\u00e9cie de laborat\u00f3rio de <em>experimentos sociais<\/em> a serem posteriormente aplicadas no ocidente.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois, em 2003, o chanceler social-democrata Gerhard Schr\u00f6der (hoje um proeminente empres\u00e1rio e associado de Putin) tornou-se, com a sua <em>Agenda 2010<\/em> e o apoio do SPD, a vanguarda europeia da desregulamenta\u00e7\u00e3o do mercado de trabalho, da redu\u00e7\u00e3o dos subs\u00eddios de desemprego e do estabelecimento de um setor de baixos sal\u00e1rios e sem direitos.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora, seguramente, atingimos o fim do <em>excepcionalismo alem\u00e3o<\/em>. O capitalismo alem\u00e3o vive o esgotamento do impulso que lhe deu a unifica\u00e7\u00e3o, a expans\u00e3o para os pa\u00edses orientais e a Agenda 2010 de Schr\u00f6der. A guerra de agress\u00e3o de Putin contra a Ucr\u00e2nia levou a uma ruptura no acesso ao g\u00e1s e ao mercado russo. Com um forte atraso em rela\u00e7\u00e3o aos EUA e \u00e0 China em novos ramos tecnol\u00f3gicos, bem como economicamente estagnada, a Alemanha encontra-se sem novos mercados para as suas exporta\u00e7\u00f5es e com uma rela\u00e7\u00e3o substancialmente diferente com a China em compara\u00e7\u00e3o com a d\u00e9cada de 2000. Agora, as empresas alem\u00e3s competem com a China na pr\u00f3pria UE e na pr\u00f3pria Alemanha, por exemplo, com o carro el\u00e9trico (que ainda n\u00e3o ganhou impulso) ou com os pain\u00e9is solares. Ao mesmo tempo, uma pot\u00eancia exportadora como a Alemanha n\u00e3o pode, como fazem os EUA, promover medidas protecionistas contra a China, ainda mais quando grandes empresas alem\u00e3s t\u00eam ali enormes investimentos orientados para o mercado chin\u00eas. Tal como expresso no genoc\u00eddio sionista de Gaza, o imperialismo alem\u00e3o atua como um an\u00e3o pol\u00edtico subordinado aos EUA.<\/p>\n\n\n\n<p>A ascens\u00e3o da AfD \u00e9 apoiada por este decl\u00ednio e incerteza do imperialismo alem\u00e3o. Ganha for\u00e7a no profundo sentimento de frustra\u00e7\u00e3o do leste do pa\u00eds, na desesperan\u00e7a de setores das classes m\u00e9dias, na perda de poder de compra devido \u00e0 infla\u00e7\u00e3o e na deteriora\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios e das condi\u00e7\u00f5es de trabalho dos setores mais empobrecidos dos trabalhadores alem\u00e3es. Aparece como uma <em>alternativa<\/em> \u00e0 social-democracia e aos partidos de direita. A sua principal express\u00e3o \u00e9 a rejei\u00e7\u00e3o xen\u00f3foba da popula\u00e7\u00e3o estrangeira<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\">[4]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 preciso acompanhar com muita aten\u00e7\u00e3o ao BSW, que \u00e9 uma for\u00e7a parda-avermelhada da ex-lider do Die Linke Sara Wagenknecht, que obteve 6,2% dos votos, com especial impacto no land\u00ebr oriental. Este partido afirma-se como defensor dos direitos dos trabalhadores, reivindica o passado estalinista da RDA e assume as principais bandeiras da AfD: \u00e9 contra a imigra\u00e7\u00e3o e \u00e9 islamof\u00f3bico e nacionalista; apoia o genoc\u00eddio israelense; \u00e9 contra qualquer ajuda \u00e0 Ucr\u00e2nia e \u00e9 pr\u00f3-Putin; rejeita a agenda verde e as pol\u00edticas de igualdade de g\u00eanero. As pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es de Outono nos land\u00ebr da Tur\u00edngia, Sax\u00f3nia e Brandemburgo, no Leste, dar-nos-\u00e3o pistas sobre o seu futuro (e o de for\u00e7as semelhantes noutros pa\u00edses).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A vit\u00f3ria do RN na Fran\u00e7a provoca uma crise profunda no pa\u00eds, que arrasta a UE<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os resultados das elei\u00e7\u00f5es europeias na Fran\u00e7a, embora antecipados pelas sondagens, foram um grande choque. O colapso de Macron (14,6% dos votos) e o triunfo da extrema direita do RN (31,37%) colocaram o governo e o Presidente Macron numa situa\u00e7\u00e3o insustent\u00e1vel. A sua decis\u00e3o inesperada e denunciada de dissolver a Assembleia Nacional e convocar elei\u00e7\u00f5es gerais imediatas colocou a Fran\u00e7a num cen\u00e1rio novo e perigoso e a UE num futuro incerto.<\/p>\n\n\n\n<p>O colapso de Macron \u00e9 um verdadeiro reflexo do decl\u00ednio do imperialismo franc\u00eas, o segundo maior pa\u00eds europeu que, juntamente com a Alemanha, constitui o pilar da UE. A arrog\u00e2ncia de Macron n\u00e3o conseguiu esconder esta realidade. A Fran\u00e7a est\u00e1 sendo expulsa das suas antigas col\u00f4nias africanas, os seus servi\u00e7os p\u00fablicos sofrem uma grave deteriora\u00e7\u00e3o, a sua economia est\u00e1 estagnada, com elevados n\u00edveis de d\u00edvida (110,6%) e de d\u00e9ficit p\u00fablico (5,5%). Desde as mobiliza\u00e7\u00f5es dos Coletes Amarelos (2018-2019), tem sido uma vanguarda europeia na repress\u00e3o da dissid\u00eancia e dos ataques \u00e0s liberdades democr\u00e1ticas e aos direitos sociais fundamentais, como as aposentadorias p\u00fablicas. O principal benefici\u00e1rio deste decl\u00ednio \u00e9 atualmente o RN, que aspira a formar governo e que, como diz o seu candidato a primeiro-ministro, Jordan Bardella, quer <em>p\u00f4r ordem nas ruas e nas contas e atender ao princ\u00edpio da realidade<\/em> (isto \u00e9, n\u00e3o cumprir algumas das suas antigas promessas demag\u00f3gicas, como a retirada da reforma previdenci\u00e1ria de Macron)<\/p>\n\n\n\n<p>Foi muito animadora a ida para a rua do 09 de junho e posteriores, com a juventude \u00e0 frente, e, mais tarde, a manifesta\u00e7\u00e3o de centenas de milhares &nbsp;do \u201cpovo de esquerda\u201d no dia 15 de junho.<\/p>\n\n\n\n<p>Retomando o velho nome de Frente Popular de 1936, a esquerda pol\u00edtica se constituiu com Nova Frente Popular (NFP) o sal\u00e1rios e direitos e com poucas regulamenta\u00e7\u00f5es ambientais e sociais. \u00c9 composta por, desde a abertamente burguesa <em>Place Publique<\/em> at\u00e9 ao ex-trotskista NPA-<em>canal historique<\/em>, abrangendo partidos (La France Insoumise, o PS, Verdes, PCF) e com o apoio dos sindicatos e de uma centena de associa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>O acordo eleitoral inclui nas listas alguns personagens especialmente odiosos como Aur\u00e9lien Rousseau, chefe de gabinete do antigo primeiro-ministro de Macron durante 2022-2024 e arquiteto da reforma da previd\u00eancia ou Fran\u00e7ois Hollande, presidente socialista entre 2012-2017, que chegou a ser mais impopular at\u00e9 mesmo do que Macron devido \u00e0s suas pol\u00edticas radicalmente neoliberais e antioper\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>O programa NFP, que se move no quadro do capitalismo imperialista franc\u00eas e da UE, cont\u00e9m exig\u00eancias como a anula\u00e7\u00e3o da reforma da previd\u00eancia e do seguro de desemprego de Macron, o aumento do sal\u00e1rio m\u00ednimo, o bloqueio dos pre\u00e7os dos bens de primeira necessidade, a indexa\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios com o aumento dos pre\u00e7os ou a efetiva gratuidade da escola p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas se conseguirem chegar ao governo, ter\u00e3o de enfrentar o boicote \u00e0 presid\u00eancia de Macron, uma ofensiva raivosa da extrema direita e a sabotagem econ\u00f4mica da grande patronal francesa e internacional. Enfrentar esta ofensiva conjunta e garantir o cumprimento das medidas sociais prometidas \u00e9 imposs\u00edvel sem levantar um movimento revolucion\u00e1rio de massas que permita a expropria\u00e7\u00e3o dos bancos e das grandes corpora\u00e7\u00f5es, que coloque os meios de produ\u00e7\u00e3o nas m\u00e3os da classe trabalhadora e que acabe com o imperialismo franc\u00eas no exterior. Tudo isto \u00e9 imposs\u00edvel no quadro do capitalismo franc\u00eas, da Quinta Rep\u00fablica Francesa e da UE, que nada mais \u00e9 do que a Europa do capital.<\/p>\n\n\n\n<p>Momentos de enorme import\u00e2ncia est\u00e3o para chegar para a classe trabalhadora francesa, europeia e do resto do mundo num futuro pr\u00f3ximo, quer a extrema-direita do RN ou o NFP ganhem.<\/p>\n\n\n\n<p>Junho de 2024<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Ainda que em alguns pa\u00edses pequenos como a Su\u00e9cia, a Finl\u00e2ndia ou Portugal experimentou retrocessos.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> A exce\u00e7\u00e3o foi a grega Aurora Dourada<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> Exatamente o contr\u00e1rio do recente relat\u00f3rio de Maria Draghi para a EU, onde defende que a <em>\u201cEuropa tem que atuar como uma na\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, n\u00e3o como uma federa\u00e7\u00e3o assim\u00e9trica\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\">[4]<\/a> A Alemanha \u00e9 o segundo pa\u00eds do mundo, depois dos EUA, em n\u00famero de imigrantes. Em 2015-2016, chegaram um milh\u00e3o de cidad\u00e3os s\u00edrios e, em 2022, um milh\u00e3o de ucranianos. H\u00e1 tamb\u00e9m um grande n\u00famero de pessoas provenientes da Turquia, muitas delas naturalizadas, mas n\u00e3o integradas culturalmente, como a grande maioria dos imigrantes. Em 1990 eram 5,9 milh\u00f5es; trinta e um anos depois, segundo dados da ONU, quase 16 milh\u00f5es, 16% da popula\u00e7\u00e3o total.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As elei\u00e7\u00f5es para o Parlamento Europeu de 2024 foram marcadas por uma grande ascens\u00e3o da extrema direita em toda a Uni\u00e3o Europeia (UE)[1]. Um ascenso que foi facilitado pela sua crescente legitima\u00e7\u00e3o pelos partidos da direita europeia tradicional, como ficou evidente no caso de Georgia Meloni. 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