{"id":79010,"date":"2024-06-06T02:45:28","date_gmt":"2024-06-06T02:45:28","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=79010"},"modified":"2024-06-06T02:47:41","modified_gmt":"2024-06-06T02:47:41","slug":"stalinismo-em-angola-o-massacre-do-27-de-maio-de-1977-parte-i","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2024\/06\/06\/stalinismo-em-angola-o-massacre-do-27-de-maio-de-1977-parte-i\/","title":{"rendered":"Stalinismo em Angola: O massacre do 27 de maio de 1977 \u2013 Parte I"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Apresenta\u00e7\u00e3o:<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Um grupo de trotsquistas de Angola apresenta neste texto um estudo inicial sobre os stalinismo naquele pa\u00eds ao final do per\u00edodo colonial, nos primeiros anos da independ\u00eancia e suas consequ\u00eancias atuais. O 27 de Maio \u00e9 o ponto de partida repressivo ap\u00f3s a independ\u00eancia. Pris\u00f5es, tortura, assassinatos, campos de concentra\u00e7\u00e3o e at\u00e9 desaparecimentos de crian\u00e7as cujas m\u00e3es deram a luz no cativeiro.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: J. G. Hata<\/p>\n\n\n\n<p>Um pa\u00eds que se transformou em uma ditadura usando inicialmente simbolos t\u00e3o caros ao movimento marxista&nbsp; e hoje sem pudores mantem diversos presos politicos, exilados ou simplesmente silenciados em seus mais elementares direitos. Confira o texto e entenda a politica e os m\u00e9todos usados pelo stalinismo em sua vers\u00e3o africana.<\/p>\n\n\n\n<p><em>I<\/em>ntrodu\u00e7\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<p><em><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-black-color\">Acusado fui nos tribunais conservadores\/Na corte dos ju\u00edzes reformistas\/Fui condenado\/Sem acusa\u00e7\u00e3o formada nem confirmada\/Sem julgamento nem sequer rudimentar\/Sem direito \u00e0 defesa elementar\/Fui para a cela do tempo e dos homens\/E ao p\u00fablico trabalhador n\u00e3o me deixaram apresentar documento que eu tenho a meu favor&#8230;<a id=\"_ftnref1\" href=\"#_ftn1\"><strong>[1]<\/strong><\/a>\u00a0\u00a0 Nito Alves<\/mark><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Em Cruzei-me com a Hist\u00f3ria, Jos\u00e9 Samuel Chiwale, um dos nacionalistas da luta de liberta\u00e7\u00e3o nacional de Angola, afirma que descrever a hist\u00f3ria de Angola \u00e9 como pedir a v\u00e1rios cegos que narrem as caracter\u00edsticas de um elefante. Um pegar\u00e1 a cauda e descrever\u00e1 o elefante de acordo a cauda que tocou, outro pegar\u00e1 na perna e vai associar o elefante com a perna, um outro que teve contato com a tromba descrever\u00e1 o elefante como tromba. Na verdade o elefante que nesta narrativa personifica o pa\u00eds e o somat\u00f3rio da descri\u00e7\u00e3o que cada um faz a partir do espa\u00e7o geogr\u00e1fico que manteve contato com este pa\u00eds. \u00c9 esta a complexidade da hist\u00f3ria pol\u00edtica angolana, sobretudo quando \u00e9 sequestrada por atores pol\u00edticos, politizados e partidarizados<a id=\"_ftnref2\" href=\"#_ftn2\">[2]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto ao 27 de Maio de 1977 a complexidade \u00e9 bem maior atendendo ao silenciamento das poucas fontes e do trauma de sobreviventes que assistiram na primeira pessoa ao assassinato de mais de 80.000 cidad\u00e3os, maioritariamente jovens, que numa dada fase das suas caminhadas juraram prote\u00e7\u00e3o m\u00fatua enquanto companheiros de trincheira. Ainda assim, a hist\u00f3ria \u00e9 teimosa, e aos poucos algumas fontes documentais, bibliogr\u00e1ficas e depoimentos v\u00e3o emergindo da longa noite sonolenta de quase 30 anos<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, observando algumas fontes bibliogr\u00e1ficas, documentais e depoimentos de sobreviventes, vamos analisar as raz\u00f5es profundas que estiveram na base do maior assassinato p\u00f3s colonial na \u00c1frica Austral, e buscar compreender as consequ\u00eancias dela nos dias atuais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O 27 de Maio de 1977&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O 27 de Maio de 1977 \u00e9 um acontecimento pol\u00edtico que se d\u00e1 no interior do Movimento Popular de Liberta\u00e7\u00e3o de Angola-MPLA, que apesar de ter esta data como o epicentro das convuls\u00f5es, protestos de massas para alguns e tentativa de golpe de estado para outros, as suas causas encontramo-las na pr\u00f3pria hist\u00f3ria de forma\u00e7\u00e3o do MPLA, na sua constru\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica e nos perfis de seus l\u00edderes, herdeiros diretos de uma cultura classista oriunda da Lei do Indigenato dos anos 20. No final da repress\u00e3o o saldo foi de mais de 80.000 cidad\u00e3os mortos e desaparecidos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As ra\u00edzes do 27 de Maio<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel percebermos as causas do 27 de Maio sem conhecermos a hist\u00f3ria do MPLA, apesar da sua reconhecida nebulosidade, que desde a funda\u00e7\u00e3o \u00e9 marcado por v\u00e1rios conflitos internos, muitos dos quais lograram-se em violentos confrontos armados. O MPLA funda-se a 10 de Dezembro de 1956, fruto da fus\u00e3o de partidos e movimentos, como o Partido Comunista Angolano-PCA, o Movimento para Independ\u00eancia de Angola-MINA, o Partido da Luta Unida dos Africanos de Angola-PLUAA, Comiss\u00e3o Federal do Partido Comunista Portugu\u00eas, Comiss\u00e3o de Luta contra o Imperialismo Colonial Portugu\u00eas, Gente da Angola Negra e da Mensagem<\/p>\n\n\n\n<p>Esta diversidade vai criar n\u00e3o s\u00f3 a uma vis\u00e3o inclusiva mas tamb\u00e9m crises internas em fun\u00e7\u00e3o das diferentes correntes ideol\u00f3gicas no seio do MPLA entre maoistas, Titistas, pro sovi\u00e9ticos e nacionalistas. Como tal apenas em Outubro de 1976, durante a III Reuni\u00e3o Plen\u00e1ria do Comit\u00ea Central do partido vai se adotar o Marxismo-leninismo como orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e econ\u00f3mica. Voltemos ent\u00e3o as crises internas:<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira crise decorre em 1962, ap\u00f3s a ascens\u00e3o de Agostinho Neto \u00e0 lideran\u00e7a do MPLA, opunha-lhe Viriato da Cruz, defensor de um recuo estrat\u00e9gico da elite crioula, contando que a maioria era negra, Viriato estava disposto a sacrificar a sua posi\u00e7\u00e3o na hierarquia sendo que ele tamb\u00e9m fazia parte desta elite, ao que Agostinho Neto n\u00e3o ter\u00e1 digerido muito bem. Ter\u00e1 contribu\u00eddo para esta posi\u00e7\u00e3o o fato de Agostinho Neto n\u00e3o querer ver muito distante dos c\u00edrculos do poder o antigo colega e padrinho de casamento L\u00facio Lara, que passa a controlar a forma\u00e7\u00e3o de quadros, e Iko Carreira, respons\u00e1vel pela seguran\u00e7a. Para Neto era prefer\u00edvel ter por perto um grupo que n\u00e3o fosse de negros, desta forma n\u00e3o teria o seu cargo amea\u00e7ado e permaneceria o centro das aten\u00e7\u00f5es junto das massas negras. Outro fator que ter\u00e1 contribu\u00eddo para a posi\u00e7\u00e3o de Neto \u00e9 a aura messi\u00e2nica que Neto trazia depois de algumas pris\u00f5es, nomeadamente 1955 e 1961, a primeira delas ter\u00e1 originado uma grande como\u00e7\u00e3o internacional, contando com c\u00e9lebres figuras mundiais em campanha para exigir a sua liberta\u00e7\u00e3o onde destacavam Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Fran\u00e7ois Mauriac e Nicol\u00e1s Guill\u00e9n. Por fim, Viriato da Cruz abandona o partido.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1968 instala-se outra crise, desta vez liderada pelos Comandantes Daniel Chipenda e Barros Freitas \u201cJiboia\u201c, ao que ficou conhecido como Revolta do Leste. Esta crise vai durar at\u00e9 bem pr\u00f3ximo da conquista da independ\u00eancia de Angola, as reivindica\u00e7\u00f5es centravam-se na exclus\u00e3o dos combatentes do leste em detrimento do norte e dos afro-europeus, e o autoritarismo de Neto. Sob media\u00e7\u00e3o da Organiza\u00e7\u00e3o de Unidade Africana e da Rep\u00fablica da Z\u00e2mbia surgiram algumas tentativas de reconcilia\u00e7\u00e3o das partes, contudo, as diverg\u00eancias mantiveram-se, dando origem a iniciativa de um Movimento de Reajustamento do partido, o grupo passou a ser denominado por Revolta Ativa, que trazem para a discuss\u00e3o a democracia interna e a gest\u00e3o do processo da luta de liberta\u00e7\u00e3o nacional, e outra vez Neto v\u00ea os dedos apontados contra si. S\u00e3o rostos vis\u00edveis desta frente, M\u00e1rio Pinto de Andrade, Fernando Paiva, Gentil Viana, Joaquim Pinto de Andrade e Manuel Videira. A posi\u00e7\u00e3o oficial do partido apenas vai ser conhecida em 1974 na confer\u00eancia de Lusaka, capital da Rep\u00fablica da Z\u00e2mbia.<\/p>\n\n\n\n<p>Tanto a Revolta do Leste quanto a Revolta Ativa travam acesos debates com a ala de Agostinho Neto, este que como num gesto de m\u00e1gica sai vitorioso por contar com um trunfo de ultima hora, a presen\u00e7a na confer\u00eancia dos guerrilheiros da I Regi\u00e3o Pol\u00edtica Militar do MPLA, a \u00fanica regi\u00e3o onde o MPLA mantinha uma guerrilha efetiva, sendo estas as vozes leg\u00edtimas para falarem da luta. \u00c9 aqui onde as aten\u00e7\u00f5es voltam-se para o Comandante Bernardo Alves Baptista \u201cNito Alves\u201c, que em defesa de Neto acusa os outros contendores de <em>oportunistas.<\/em> No fim, a conclus\u00e3o do Congresso foi o que era esperado com a vit\u00f3ria de Neto, expuls\u00e3o dos integrantes da Revolta dos Leste e da Revolta Ativa<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. Este Congresso coloca no palanque das lideran\u00e7as do MPLA Nito Alves e comandantes da I Regi\u00e3o<a href=\"#_ftn5\" id=\"_ftnref5\">[5]<\/a>, a exemplo de Jo\u00e3o Jacob Caetano \u201cMonstro Imortal\u201c, Jos\u00e9 C\u00e9sar Augusto \u201cKiluange\u201c, Benigno Vieira Lopes \u201cIngo\u201c, e Sebasti\u00e3o Francisco \u201cCerteza\u201c.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 aqui temos o encerramento do primeiro per\u00edodo de crises internas no MPLA, que s\u00f3 n\u00e3o atingem dimens\u00f5es cataclisticas porque Neto tinha a necessidade de fazer a gest\u00e3o interna para as outras frentes pelos quais o partido encontrava-se envolvido, os sucessivos choques com a Frente Nacional de Liberta\u00e7\u00e3o de Angola-FNLA, as tropas coloniais portuguesas e posteriormente a Uni\u00e3o Nacional para Independ\u00eancia Total de Angola-UNITA, e mesmo no exterior face a hostilidade de alguns pa\u00edses fronteiri\u00e7os com os quais a FNLA mantinha acentuada rela\u00e7\u00e3o como foi o caso do antigo Zaire<a id=\"_ftnref6\" href=\"#_ftn6\">[6]<\/a>. No entanto outro cen\u00e1rio estava a ser desenhado com a emerg\u00eancia da I Regi\u00e3o, o seu controle das bases, os sinais claros do avizinhar da independ\u00eancia de Angola, os alinhamentos geo ideol\u00f3gicos, e o poder de influ\u00eancia que este grupo teria no pr\u00f3ximo Congresso, ademais, ao longo dos debates de Lusaka a I Regi\u00e3o havia deixado claro apesar de terem apoiado Neto, que a implanta\u00e7\u00e3o do MPLA na sua regi\u00e3o em nada tinha a ver com os dirigentes do partido maioritariamente no exterior, mas sim aos jovens guerrilheiros que n\u00e3o mediam esfor\u00e7o em nome da causa.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A Independ\u00eancia e o In\u00edcio das Diverg\u00eancias com a I Regi\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Na madrugada do dia 11 de Novembro de 1975 \u00e9 proclamada a independ\u00eancia da Rep\u00fablica de Angola e 4 dias depois Nito Alves \u00e9 nomeado ministro da Administra\u00e7\u00e3o Interna.<\/p>\n\n\n\n<p>As primeiras diverg\u00eancias manifestadas logo ap\u00f3s a proclama\u00e7\u00e3o da independ\u00eancia surgem na forma\u00e7\u00e3o do ex\u00e9rcito angolano, as For\u00e7as Armadas Populares de Liberta\u00e7\u00e3o de Angola-FAPLA, com a insatisfa\u00e7\u00e3o do patenteamento dos militares e da nomea\u00e7\u00e3o de Iko Carreira a Ministro da Defesa, contrariando as expectativas que estavam \u00e0 volta do lend\u00e1rio Comandante Monstro Imortal.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro epis\u00f3dio que acirrou as clivagens deu-se \u00e0 quando da participa\u00e7\u00e3o de Nito Alves e Jos\u00e9 Van Dunem ao XXV Congresso do Partido Comunista da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica-PCUS, em Mar\u00e7o de 1976, chegando a serem recebidos \u00e0 t\u00edtulo excecional com honras de Estado, gerando ci\u00fames e abrindo espa\u00e7o para especula\u00e7\u00f5es de que uma conspira\u00e7\u00e3o contra Neto estava ser montada, e que Nito Alves preparava-se para substitui-lo, acusam-no tamb\u00e9m de fomentador de um debate racista contra lideres pr\u00f3ximos a Neto e a sua esposa de origem portuguesa. Em Abril j\u00e1 falava-se de um golpe de Estado em forja por Nito Alves e seus companheiros, maioritariamente da I Regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>De Mar\u00e7o a Outubro vai se registar um clima de agita\u00e7\u00e3o em todos bairros de Luanda e arredores, com a elevada onda de criminalidade, saques em lojas e sucessivo aumento do custo de vida, para al\u00e9m das trocas de acusa\u00e7\u00f5es entre as partes que agora andavam em guerra aberta.<\/p>\n\n\n\n<p>De 23 a 29 de Outubro de 1976 realiza-se a III Reuni\u00e3o Plen\u00e1ria do Comit\u00e9 Central do MPLA, que entre outras quest\u00f5es vai analisar o per\u00edodo conturbado econ\u00f4mico, pol\u00edtico e social, a restrutura\u00e7\u00e3o das FAPLA, a restrutura\u00e7\u00e3o da Organiza\u00e7\u00e3o da Mulher Angolana-OMA, a vincula\u00e7\u00e3o da juventude diretamente ao partido e a extin\u00e7\u00e3o dos Minist\u00e9rios da Informa\u00e7\u00e3o e da Administra\u00e7\u00e3o, este \u00faltimo dirigido por Nito Alves. Se a extin\u00e7\u00e3o deste Minist\u00e9rio era sinal claro de que havia necessidade de se reduzir o poder que Nito Alves detinha no seio da sociedade, n\u00e3o menos importante foi a constata\u00e7\u00e3o sa\u00edda do Plen\u00e1rio do Comit\u00e9 Central que se mostrou inclinado \u00e0 dire\u00e7\u00e3o, como ficou constatado em nota:<\/p>\n\n\n\n<p><em>O Pleno do Comit\u00e9 Central do MPLA constatou a a\u00e7\u00e3o perniciosa de sectores ligados \u00e0 rea\u00e7\u00e3o interna e externa, e grupos esquerdistas que tentam, alimentando correntes desagregadoras e utilizando o nome de dirigentes, provocar a confus\u00e3o ideol\u00f3gica, perturbar a coes\u00e3o das estruturas do Movimento e dividir militantes<a href=\"#_ftn7\" id=\"_ftnref7\"><strong>[7]<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>No fim, cria-se uma comiss\u00e3o de inqu\u00e9rito, encarregada de investigar a realidade ou n\u00e3o da prepara\u00e7\u00e3o de um golpe de estado liderado por Nito Alves e Jos\u00e9 Van Dunem e termina exortando os militantes a combater o divisionismo, sectarismo e o oportunismo, prometendo sancionar duramente todos que atentassem contra a unidade no seio do MPLA<a href=\"#_ftn8\" id=\"_ftnref8\">[8]<\/a>. Palavras muito familiares a Nito Alves s\u00f3 que desta vez sendo ele mesmo a v\u00edtima, diferentemente da confer\u00eancia de Lusaka de 1974 quando o centro da acusa\u00e7\u00e3o foram os integrantes da Revolta do Leste e a Revolta Ativa, e para agravar o quadro, desta vez o partido estava investido de poderes de Estado, que tornava a sua a\u00e7\u00e3o mais contundente. Meses depois, em sua defesa, como que acreditando talvez no seu poder de persuas\u00e3o ou na inoc\u00eancia de Neto no conluio montado contra si, Nito Alves envia uma carta ao Comit\u00e9 Central do MPLA onde come\u00e7a por protestar o isolamento a que foi submetido, com as seguintes palavras:<\/p>\n\n\n\n<p><em>O comit\u00e9 Central n\u00e3o pode permitir que eu permane\u00e7a, diante dos meus acusadores, com as m\u00e3os abusiva e agressivamente amarradas sobre as minhas costas vergastadas e o meu corpo preso e atado a mil cordas e mil n\u00f3s a um poste de supl\u00edcio e mart\u00edrio, onde a rea\u00e7\u00e3o <\/em>interna<em> exibe e rema o seu chicote <\/em>contra<em>-revolucion\u00e1rio<a href=\"#_ftn9\" id=\"_ftnref9\"><strong>[9]<\/strong><\/a>. &nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Fez igualmente cr\u00edticas \u00e0 dire\u00e7\u00e3o do partido pelo facto de durante os seus 20 anos de exist\u00eancia n\u00e3o ter realizado um \u00fanico congresso onde discutisse as quest\u00f5es fundamentais de cada fase da luta anticolonialista e anti-imperialista. N\u00e3o deixa de lado a Comiss\u00e3o de Inqu\u00e9rito, a quem chama de indisciplinada, pelo incumprimento do seu papel, nem tao pouco ser ouvido ao longo dos 2 meses que ela teria para o apuramento dos factos, o que no dizer de Nito Alves indiciava haver uma senten\u00e7a pr\u00e9via. E assim aconteceu.<\/p>\n\n\n\n<p>No dia 21 de Maio de 1977 Nito Alves e Jos\u00e9 Van Dunem s\u00e3o expulsos do Comit\u00e9 Central do MPLA, sem qualquer conclus\u00e3o dos trabalhos da Comiss\u00e3o de Inqu\u00e9rito, aumenta a onda de indigna\u00e7\u00e3o nos \u00f3rg\u00e3os de base do partido e em resposta h\u00e1 um movimento de massas que se estrutura para protestos, \u00e0 fim de chamar aten\u00e7\u00e3o do Presidente Neto sobre a injusti\u00e7a que cometera, claro, com a inclus\u00e3o de militares, numa sociedade rec\u00e9m independente e com uma guerra civil em curso, como tal militarizada em todos setores, o que ao mesmo tempo facilita a infiltra\u00e7\u00e3o da Dire\u00e7\u00e3o de Informa\u00e7\u00e3o e Seguran\u00e7a de Angola-DISA. Dias depois Agostinho Neto re\u00fane no pal\u00e1cio presidencial com Nito Alves e Jos\u00e9 Van Dunem e tenta persuadi-los a fazerem uma autocritica p\u00fablica, e estes rejeitam por entenderem nada ter feito. Neto termina a reuni\u00e3o dizendo que a partir daquele momento n\u00e3o responderia pela integridade f\u00edsica dos mesmos.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> FRAGOSO, Jos\u00e9, PEDRO, Lucas, 2010, p.47<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> FNLA, MPLA, UNITA<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> O meu primeiro contacto com uma obra que aborda o massacre do 27 de Maio aconteceu em 2008, o livro Nuvem Negra: o drama do 27 de Maio, de Miguel Francisco Michel, ex militar sobrevivente e agora advogado. Curiosamente em 2015 Francisco Michel tornou-se advogado no processo 15+Duas, jovens igualmente acusados de tentativa de golpe de estado.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\">[4]<\/a> At\u00e9 1976 integrantes da Revolta Ativa ainda procuravam o seu reingresso no MPLA, sem encontrar o parecer favor\u00e1vel do partido.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\" id=\"_ftn5\">[5]<\/a> A I Regi\u00e3o Pol\u00edtica Militar do MPLA abrangia as prov\u00edncias de Luanda\/Bengo, Kwanza Norte, Zaire, U\u00edge e Malange.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref6\" id=\"_ftn6\">[6]<\/a> Atual Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo. Segundo Dalila Cabrita Mateus e \u00c1lvaro Mateus, em Mar\u00e7o de 1973 Monstro Imortal acabaria detido no Porto de Kinshasa, quando se preparava para apanhar o barco que o levaria para Brazzaville gra\u00e7as \u00e0 den\u00fancia dos Servi\u00e7os de Seguran\u00e7a do Governo Revolucion\u00e1rio Angolano no Ex\u00edlio (GRAE),criado por \u00c1lvaro Holden Roberto, L\u00edder da FNLA.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref7\" id=\"_ftn7\">[7]<\/a> Ver MATEUS e MATEUS\u00ad 2007, p.65.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref8\" id=\"_ftn8\">[8]<\/a> A Comiss\u00e3o era dirigida por Jos\u00e9 Eduardo dos Santos e teria 2 meses para apresentar as conclus\u00f5es, a contar da data de 8 de novembro de 1976, o que nunca chegou a acontecer.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref9\" id=\"_ftn9\">[9]<\/a> Ver FRAGOSO e PEDRO 2010, P.82.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Apresenta\u00e7\u00e3o: Um grupo de trotsquistas de Angola apresenta neste texto um estudo inicial sobre os stalinismo naquele pa\u00eds ao final do per\u00edodo colonial, nos primeiros anos da independ\u00eancia e suas consequ\u00eancias atuais. O 27 de Maio \u00e9 o ponto de partida repressivo ap\u00f3s a independ\u00eancia. 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