{"id":79007,"date":"2024-06-06T01:31:24","date_gmt":"2024-06-06T01:31:24","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=79007"},"modified":"2024-06-06T01:31:29","modified_gmt":"2024-06-06T01:31:29","slug":"quem-sao-os-verdadeiros-inimigos-do-povo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2024\/06\/06\/quem-sao-os-verdadeiros-inimigos-do-povo\/","title":{"rendered":"Quem s\u00e3o os verdadeiros inimigos do povo?"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Se ligarmos a televis\u00e3o a qualquer hora do dia, veremos not\u00edcias de roubos, assassinatos e tr\u00e1fico de drogas. Pol\u00edticos de direita e de esquerda falam em refor\u00e7ar o controle contra os \u201cdelinquentes\u201d. Alguns chegam at\u00e9 a solicitar a presen\u00e7a de militares nas ruas de suas comunas, como \u00e9 o caso de Tom\u00e1s Vodanovic, prefeito de Maip\u00fa, da Frente Ampla. A prefeita do Partido Comunista Irac\u00ed Hassler, no mesmo sentido, mostra diariamente em suas redes sociais suas a\u00e7\u00f5es para despejar as ocupa\u00e7\u00f5es de casas e perseguir o com\u00e9rcio ambulante.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: Ot\u00e1vio Calegari<\/p>\n\n\n\n<p>Uma grande campanha foi realizada pelos grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o e por estes pol\u00edticos. Prop\u00f5em que o principal problema do pa\u00eds \u00e9 a delinqu\u00eancia e o tr\u00e1fico de drogas. Mas eles n\u00e3o param por a\u00ed. Tentam relacionar o crime com a luta social: ocupa\u00e7\u00e3o de terras urbanas, ocupa\u00e7\u00e3o de terras Mapuche, luta estudantil, etc. Assim, querem que acreditemos que o inimigo \u00e9 o povo sem teto, o mapuche sem terra, o jovem que ocupa seu col\u00e9gio ou os imigrantes que n\u00e3o t\u00eam trabalho nem direitos.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o, n\u00f3s, trabalhadores, n\u00e3o podemos acreditar nessa propaganda. Ela tem um objetivo: desviar o foco da origem de todos os problemas que afetam o nosso pa\u00eds. A crise de seguran\u00e7a \u00e9 apenas mais um sintoma de um pa\u00eds em decomposi\u00e7\u00e3o, onde os problemas explodem por toda parte: na sa\u00fade, na educa\u00e7\u00e3o, na seguran\u00e7a, nos acidentes de trabalho, nos abusos di\u00e1rios por parte dos empregadores. E todos os problemas t\u00eam uma origem comum: o saque realizado pelas fam\u00edlias mais ricas do Chile e por algumas empresas transnacionais de toda a riqueza produzida pela classe trabalhadora, o que impede investimentos em todos os setores sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 isso que queremos discutir com mais detalhes.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Um pa\u00eds em benef\u00edcio de uma pequena minoria<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As 6 pessoas mais ricas do Chile e suas fam\u00edlias t\u00eam uma riqueza de US$ 35,6 bilh\u00f5es.1 Se distribu\u00edssemos essa riqueza poder\u00edamos pagar um sal\u00e1rio de 700.000 pesos a mais de 4 milh\u00f5es de chilenos por mais de um ano ou construir 684 mil casas de 50 milh\u00f5es de pesos. Ou seja, s\u00f3 com a riqueza dessas 6 pessoas acabar\u00edamos com o d\u00e9ficit habitacional do pa\u00eds. Essas fam\u00edlias s\u00e3o: Luksic, Paulmann, Pi\u00f1era, Ponce Lerou e Angelini (irm\u00e3os Roberto e Patricia). Estas fam\u00edlias s\u00e3o seguidas por outras, com bens estimados em milh\u00f5es de d\u00f3lares: Yarur, Matte, Saieh, Solari, Said.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas 10 fam\u00edlias s\u00e3o as mais poderosas do Chile e propriet\u00e1rias de grandes conglomerados econ\u00f4micos, que possuem neg\u00f3cios em todos os ramos da economia. A estas fam\u00edlias devemos acrescentar algumas dezenas de outros cl\u00e3s, como os Edwards, Vial, Larra\u00edn, Err\u00e1zuriz, Hurtado Vicu\u00f1a, Claro, grupo Penta, etc. No total, no Chile, existem aproximadamente 9 mil pessoas com uma renda mensal superior a 200 milh\u00f5es de pesos,2 enquanto mais da metade da classe trabalhadora chilena ganha menos de 500 mil pesos l\u00edquidos.3 Essa enorme desigualdade social \u00e9 consequ\u00eancia de um problema mais profundo, que discutiremos no final deste artigo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Um pa\u00eds semicolonial e exportador de produtos prim\u00e1rios<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m desse pequeno grupo de burgueses chilenos, alguns capitalistas internacionais tamb\u00e9m ganham muito dinheiro no Chile. S\u00e3o os acionistas de grandes empresas e bancos: minera\u00e7\u00e3o (BHP Billiton: Anglo-Australiana, AngloAmerican: Anglo-estadunidense, Glencore da Su\u00ed\u00e7a); as AFPs (Provida dos EUA, Capital da Col\u00f4mbia); banc\u00e1rio (Santander da Espanha, Scotiabank do Canad\u00e1, BBVA do Pa\u00eds Basco, Ita\u00fa do Brasil), energia (Enel da It\u00e1lia, CGE e Chilquinta da China), l\u00edtio (Tianqi da China, Albermale dos EUA); varejo (Wallmart nos EUA), etc.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos \u00faltimos anos, o capital chin\u00eas entrou fortemente no pa\u00eds. Contudo, a maioria dos investimentos estrangeiros prov\u00e9m, de longe, de pot\u00eancias capitalistas ocidentais, como o Canad\u00e1, os Estados Unidos, o Reino Unido e a Espanha.4 Estes grandes conglomerados estrangeiros t\u00eam disputas com a burguesia chilena, mas em geral o que prevalece \u00e9 a associa\u00e7\u00e3o entre eles. Os Acordos de Livre Com\u00e9rcio (TLC\u00b4s) s\u00e3o aqueles que garantem os termos dessa associa\u00e7\u00e3o. A economia chilena est\u00e1 estruturada para beneficiar este grande pacto entre as burguesias internacionais e nacionais.<\/p>\n\n\n\n<p>No mercado mundial, o lugar do Chile \u00e9, em primeiro lugar, como grande exportador de cobre (em m\u00e9dia 50% das suas exporta\u00e7\u00f5es); em segundo lugar, produtos de baixo valor agregado, como frutas, pescados, celulose, etc. H\u00e1 alguns anos, o l\u00edtio entrou nessa lista. O Chile tamb\u00e9m exporta alguns produtos industriais muito espec\u00edficos para as ind\u00fastrias do Brasil e da Argentina. O cobre continua sendo o produto mais importante do Chile para o mundo. No entanto, o Chile exporta cada vez mais concentrado de cobre (cobre antes da fundi\u00e7\u00e3o e refino). Isto tem duas consequ\u00eancias graves. A primeira \u00e9 que para o concentrado v\u00e3o muitos outros produtos de alto valor (ouro, platina, pal\u00e1dio, terras raras, etc.) e, por cuja extra\u00e7\u00e3o as mineradoras n\u00e3o pagam. Esses produtos permanecem nas empresas que refinam o cobre (principalmente chinesas). A segunda consequ\u00eancia \u00e9 que o Chile est\u00e1 cada vez mais desindustrializado, tornando-se ainda mais dependente de produtos importados e fechando empresas que geram empregos especializados (como fundi\u00e7\u00f5es e refinarias). Processo semelhante acontece com o l\u00edtio, que hoje \u00e9 exportado na forma de carbonato, hidr\u00f3xido e sulfato, ou seja, a primeira etapa da cadeia de valor. A transforma\u00e7\u00e3o do l\u00edtio em baterias \u00e9 realizada principalmente na China.5<\/p>\n\n\n\n<p>Como o Chile \u00e9 centralmente um grande produtor de mat\u00e9rias-primas, deve importar uma quantidade impressionante de produtos industrializados. Somos grandes importadores de combust\u00edveis, m\u00e1quinas para a ind\u00fastria, tecnologia e produtos de alto valor agregado (televisores, autom\u00f3veis, avi\u00f5es, telefones, equipamentos militares, etc.). Esta estrutura econ\u00f4mica tem consequ\u00eancias graves para a popula\u00e7\u00e3o trabalhadora:<\/p>\n\n\n\n<p>1 \u2013 A maior parte da riqueza produzida pelos trabalhadores permanece nas m\u00e3os de grandes monop\u00f3lios estrangeiros e chilenos;<\/p>\n\n\n\n<p>2 \u2013 A falta de ind\u00fastrias nacionais e de desenvolvimento tecnol\u00f3gico e cient\u00edfico pr\u00f3prio gera empregos pouco qualificados e um mercado de trabalho muito prec\u00e1rio. Isto \u00e9 complementado pelo atual C\u00f3digo do Trabalho, implementado na ditadura, mas atualizado em democracia, que n\u00e3o garante os direitos trabalhistas m\u00ednimos aos trabalhadores e enfraquece os sindicatos;<\/p>\n\n\n\n<p>3 \u2013 A necessidade de alcan\u00e7ar o equil\u00edbrio na balan\u00e7a comercial faz com que o Chile tenha que exportar milh\u00f5es de toneladas de mat\u00e9rias-primas para importar o que o mercado interno consome. Esta produ\u00e7\u00e3o \u201cextrativista\u201d em grande escala gera uma enorme destrui\u00e7\u00e3o ambiental.<\/p>\n\n\n\n<p>4 \u2013 Devido a esta natureza dependente, a nossa economia est\u00e1 totalmente exposta ao mercado capitalista mundial, em particular ao pre\u00e7o do cobre;<\/p>\n\n\n\n<p>5 \u2013 Para exportar produtos agr\u00edcolas e florestais, os grandes grupos econ\u00f4micos necessitam de produzir em grandes propriedades, localizadas principalmente no territ\u00f3rio hist\u00f3rico mapuche. O conflito entre o Estado chileno e o povo Mapuche nada mais \u00e9 do que um reflexo da estrutura econ\u00f3mica do pa\u00eds;<\/p>\n\n\n\n<p>Somadas a essas 5 caracter\u00edsticas, a ditadura e os governos democr\u00e1ticos privatizaram quase todos os chamados \u201cservi\u00e7os p\u00fablicos\u201d, como sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, transportes e aposentadorias, o que torna quase imposs\u00edvel a sobreviv\u00eancia di\u00e1ria da popula\u00e7\u00e3o trabalhadora. A privatiza\u00e7\u00e3o das aposentadorias tem sido fundamental para garantir enormes quantidades de capital nas m\u00e3os dos grandes grupos econ\u00f4micos, permitindo-lhes investir nos seus neg\u00f3cios com o nosso dinheiro.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O cerne do problema: propriedade privada dos grandes meios de produ\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Esta estrutura econ\u00f4mica, que vai muito al\u00e9m do que se conhece como \u201cneoliberalismo\u201d, \u00e9 o que impede as transforma\u00e7\u00f5es no nosso pa\u00eds.6 Portanto, os governos entram e os governos saem e nada muda, porque ningu\u00e9m est\u00e1 disposto a enfrentar o problema de fundo: o controle de grandes grupos econ\u00f4micos sobre todo o pa\u00eds e a natureza semicolonial da nossa economia. E pior, todos os governos acabam por administrar o Estado precisamente para esses grupos, que dominam as institui\u00e7\u00f5es estatais atrav\u00e9s de v\u00e1rios mecanismos que discutiremos nas pr\u00f3ximas edi\u00e7\u00f5es de La Voz de los Trabajadores.<\/p>\n\n\n\n<p>Por sua vez, o poder dos grandes empres\u00e1rios baseia-se na propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de riqueza: minas, f\u00e1bricas, portos, bancos, terras, estradas, etc. O cerne dos problemas do pa\u00eds tem nome: propriedade privada.7 \u00c9 isto que gera um punhado de multimilion\u00e1rios, por um lado, e uma massa de pobres, por outro. Destruir essa estrutura social \u00e9 a \u00fanica forma de quebrar as cadeias que prendem o povo trabalhador. Para isso, devemos primeiro identificar quem s\u00e3o os verdadeiros inimigos do povo: os grandes capitalistas nacionais e estrangeiros e aqueles que administram o Estado chileno em seu benef\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<p>1 Consulte https:\/\/ceoworld.biz\/2024\/01\/24\/wealthiest-people-in-chile-january-24-2024\/#google_vignette. N\u00e3o consideramos a fortuna de Jean Salata, empres\u00e1rio de origem chilena mas que vive e tem seus principais neg\u00f3cios fora do Chile.<\/p>\n\n\n\n<p>2 https:\/\/www.df.cl\/economia-y-politica\/df-tax\/alza-de-impuesto-a-la-renta-afectaria-a-mas-de-235-mil-contribuyentes<\/p>\n\n\n\n<p>3 https:\/\/fundacionsol.cl\/cl_luzit_herramientas\/static\/adjuntos\/7479\/SAL2022.pdf<\/p>\n\n\n\n<p>4 &nbsp;https:\/\/www.bcentral.cl\/documents\/33528\/2546302\/IED_pais_sector_region.xlsx\/2e76c523-b6b1-5582-8096-fde1e429e923?t=1712579520345<\/p>\n\n\n\n<p>5 https:\/\/repositorio.cepal.org\/server\/api\/core\/bitstreams\/5c1c160a-557d-42d9-bfa8-929142d2fa21\/content<\/p>\n\n\n\n<p>6 Algumas organiza\u00e7\u00f5es, como o Partido Comunista, argumentaram que o principal problema do Chile \u00e9 o neoliberalismo, reduzindo os problemas do pa\u00eds \u00e0 privatiza\u00e7\u00e3o dos chamados servi\u00e7o p\u00fablicos, sem questionar fundamentalmente toda a estrutura econ\u00f4mica do pa\u00eds. Isto \u00e9 evidente hoje, quando fazem parte do governo e tudo o que fazem \u00e9 lutar por reformas superficiais do capitalismo neoliberal chileno.<\/p>\n\n\n\n<p>7 N\u00e3o nos referimos \u00e0 propriedade privada de cada trabalhador, como uma casa, um carro, uma PME, etc. Estamos nos referindo a grandes empresas, que utilizam a m\u00e3o de obra de milhares de pessoas que geram toda a riqueza do pa\u00eds.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se ligarmos a televis\u00e3o a qualquer hora do dia, veremos not\u00edcias de roubos, assassinatos e tr\u00e1fico de drogas. Pol\u00edticos de direita e de esquerda falam em refor\u00e7ar o controle contra os \u201cdelinquentes\u201d. 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