{"id":78858,"date":"2024-05-08T23:22:43","date_gmt":"2024-05-08T23:22:43","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=78858"},"modified":"2024-05-08T23:22:46","modified_gmt":"2024-05-08T23:22:46","slug":"marx-206-anos-marx-e-a-impossibilidade-de-reformar-a-sociedade-capitalista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2024\/05\/08\/marx-206-anos-marx-e-a-impossibilidade-de-reformar-a-sociedade-capitalista\/","title":{"rendered":"Marx 206 anos: Marx e a impossibilidade de reformar a sociedade capitalista"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Em uma cena famosa da literatura espanhola, o nobre Dom Quixote, dominado pela loucura, luta contra moinhos de vento acreditando que s\u00e3o guerreiros gigantes. \u00c9 um personagem que procura mudar o mundo, for\u00e7ando-o a ser da sua maneira e se envolve em uma trapalhada atr\u00e1s da outra. Procura com todas suas for\u00e7as ser um her\u00f3i, mas luta em v\u00e3o contra o vento. Para Marx, os reformistas s\u00e3o como Dom Quixote. Em um texto preparat\u00f3rio de\u00a0O Capital, chamado\u00a0Grundrisse, ele chama as a\u00e7\u00f5es reformistas de quixotadas. \u00c9 uma refer\u00eancia ao personagem Dom Quixote. Para Marx, tentar reformar o capitalismo \u00e9 como dar murro em ponta de faca. Mas o que Marx entendia ser o reformismo?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: Gustavo Machado<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que \u00e9 reformismo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O que caracteriza o reformismo \u00e9 a cren\u00e7a de que \u00e9 poss\u00edvel consertar o capitalismo. A cren\u00e7a de que o capitalismo n\u00e3o funciona porque uma ou outra parte est\u00e1 desajustada. Bastaria acertar o que est\u00e1 errado e todo o sistema funcionaria de forma racional, coerente e justa. Nesse sentido, os reformistas n\u00e3o partem da sociedade tal como ela \u00e9, mas de como ela deveria ser. \u00c9 curioso, ent\u00e3o, que muitos considerem o marxismo como ut\u00f3pico. Ut\u00f3pico \u00e9 acreditar que o capitalismo pode ser reformado, que \u00e9 poss\u00edvel consert\u00e1-lo. \u00c9 o que veremos logo adiante.<\/p>\n\n\n\n<p>Um exemplo muito interessante foi o influente socialista franc\u00eas Joseph Proudhon. Em 1848, a classe oper\u00e1ria se colocou pela primeira vez em luta direta contra a burguesia: se iniciava a revolu\u00e7\u00e3o de 1848. Proudhon se manteve distante de todas as lutas e desprezava todos os seus l\u00edderes. Para ele, o fundamental era implementar seu projeto de reforma. Com seu projeto de sociedade ideal na cabe\u00e7a, Proudhon n\u00e3o gastou tempo com mobiliza\u00e7\u00f5es, barricadas e lutas de rua na revolu\u00e7\u00e3o que acontecia. Se elegeu deputado e apresentou seu projeto no parlamento franc\u00eas em 1848. Este projeto foi rejeitado por 600 votos contra 2.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu projeto era o seguinte: substituir o dinheiro por uma esp\u00e9cie de vale ou b\u00f4nus que remuneraria a hora de trabalho. A principal medida, portanto, era transformar as empresas em cooperativas de trabalhadores. Tais cooperativas, no entanto, continuariam a fazer mercadorias e despej\u00e1-las no mercado. O trabalhador seria, agora, um patr\u00e3o e trabalhador ao mesmo tempo. Proudhon quer manter a mercadoria e acabar com o dinheiro. Manter o capital acumulado nas empresas e acabar com o capitalista. Seria isto poss\u00edvel?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O capitalismo enquanto sistema articulado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Toda a obra econ\u00f4mica de Marx, principalmente&nbsp;O Capital, procura demostrar que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel resolver os problemas do capitalismo por meio de reformas como queria Proudhon. Na contram\u00e3o das quixotadas caracter\u00edsticas dos socialistas ut\u00f3picos e reformistas de ent\u00e3o, ao pretenderem construir a sociedade do futuro por meio de uma \u201creforma na bolsa\u201d ou de um banco emissor de b\u00f4nus hor\u00e1rio, Marx assinala o car\u00e1ter radicalmente contradit\u00f3rio e potencialmente explosivo das rela\u00e7\u00f5es sociais capitalistas ao gestarem em seu interior as condi\u00e7\u00f5es que possibilitam a sua supera\u00e7\u00e3o. A \u201cconcorr\u00eancia gera concentra\u00e7\u00e3o de capital, monop\u00f3lios, sociedades an\u00f4nimas\u201d, \u201ca troca privada gera o com\u00e9rcio mundial, a independ\u00eancia privada gera a total depend\u00eancia do assim chamado mercado mundial\u201d, \u201ca divis\u00e3o do trabalho gera aglomera\u00e7\u00e3o, coordena\u00e7\u00e3o, coopera\u00e7\u00e3o\u201d e, sobretudo, \u201ca ant\u00edtese dos interesses privados gera interesses de classe\u201d. Como se v\u00ea, o capital \u00e9 uma \u201cmassa de formas antit\u00e9ticas da unidade social cujo car\u00e1ter antit\u00e9tico [\u2026]&nbsp;jamais pode ser explodido por meio de metamorfoses silenciosas\u201d (MARX, 2011, p. 107).<\/p>\n\n\n\n<p>Marx mostra como cada parte do capitalismo est\u00e1 relacionada a outra. \u00c9 um sistema por natureza irracional, contradit\u00f3rio, opressivo e, por isso mesmo, incontrol\u00e1vel. Vejamos!<\/p>\n\n\n\n<p>O centro desse sistema \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o voltada para a acumula\u00e7\u00e3o de riquezas pelas empresas individuais. Empresas que s\u00e3o uma propriedade privada. N\u00e3o importa se s\u00e3o cooperativas ou controladas por um capitalista ou mais de um. Dentro dessas empresas, enquanto propriedade privada, existe um controle de ferro das atividades, fun\u00e7\u00f5es, hor\u00e1rios com objetivo de produzir a maior quantidade poss\u00edvel de riqueza e obter lucro.<\/p>\n\n\n\n<p>Se, por um lado, no interior das empresas tudo \u00e9 rigorosamente controlado, por outro lado, n\u00e3o existe controle algum na rela\u00e7\u00e3o entre as empresas na sociedade. Cada empresa produz mercadorias para serem trocadas no mercado, consumidas por um comprador que, de in\u00edcio, ningu\u00e9m sabe quem \u00e9. Como tudo \u00e9 trocado no mercado, surge a necessidade do dinheiro que permite comparar toda essa multid\u00e3o de mercadorias. Como podemos ver, se dentro da empresa tudo \u00e9 padronizado, dividido e regulado; fora dela reina a total inseguran\u00e7a: nada pode ser previsto com exatid\u00e3o. Os ve\u00edculos produzidos por uma montadora ser\u00e3o vendidos? O min\u00e9rio extra\u00eddo das minas encontrar\u00e3o compradores? Pode ser que sim, pode ser que n\u00e3o. Ningu\u00e9m sabe com certeza quando e onde.<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa imensid\u00e3o de empresas, existir\u00e3o aquelas dedicadas a produ\u00e7\u00e3o de mercadorias propriamente ditas: \u00e9 o capital industrial. A\u00ed entra as montadoras de ve\u00edculos, produtoras de cal\u00e7ados, alimentos e assim por diante. Mas \u00e9 preciso fazer a mercadorias chegar \u00e0s m\u00e3os dos consumidores individuais, em sua maior parte trabalhadores. Por isso existe o capital comercial, respons\u00e1vel por distribuir as mercadorias. No entanto, como n\u00e3o existe controle de todas essas in\u00fameras rela\u00e7\u00f5es entre as empresas, dois ramos ir\u00e3o se desenvolver para estabelecer as condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas para esse sistema continuar a existir.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro \u00e9 o capital banc\u00e1rio que fornece cr\u00e9dito e empr\u00e9stimo com uma dada taxa de juros, o cr\u00e9dito \u00e9 uma forma particular do capital portador de juros. Parte expressiva das empresas que comp\u00f5em o capital industrial necessitam de investimentos gigantes. Suas instala\u00e7\u00f5es s\u00e3o enormes e o sistema de maquinaria muito caro. Dessa forma, o capital banc\u00e1rio deve fornecer ao conjunto das empresas, na forma de empr\u00e9stimos, o capital que possibilite seu neg\u00f3cio funcionar: \u00e9 o com\u00e9rcio de dinheiro. Contrapor, assim, o capital banc\u00e1rio ao capital produtivo \u00e9 um absurdo nos termos. Como indica Marx:<\/p>\n\n\n\n<p>O sistema de cr\u00e9dito completa seu desenvolvimento como rea\u00e7\u00e3o contra a usura. Mas isso n\u00e3o deve ser mal entendido, e de forma nenhuma interpretado ao modo dos autores antigos, dos padres da Igreja, de Lutero ou dos antigos socialistas. O sistema de cr\u00e9dito n\u00e3o significa nada al\u00e9m da submiss\u00e3o do capital portador de juros \u00e0s condi\u00e7\u00f5es e \u00e0s necessidades do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista. (MARX, 2017, p.659-60).<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, o sistema de cr\u00e9dito \u00e9 uma exig\u00eancia necess\u00e1ria do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, sem o qual a reprodu\u00e7\u00e3o do conjunto do sistema torna-se imposs\u00edvel. Por isso, Marx ironiza as reformas propostas por Proundhon, fundadas no cr\u00e9dito gratuito:<\/p>\n\n\n\n<p><em>enquanto o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista continuar a existir, perdurar\u00e1 tamb\u00e9m, como uma de suas formas, o capital portador de juros, que de fato constitui a base de seu sistema de cr\u00e9dito. Somente aquele escritor sensacionalista, Proudhon, que queria manter a produ\u00e7\u00e3o de mercadorias e abolir o dinheiro, foi capaz de imaginar o monstruoso cr\u00e9dito&nbsp;gratuito, essa pretensa realiza\u00e7\u00e3o do desejo piedoso do ponto de vista da pequena burguesia. (MARX, 2017, p.667)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Nos dias de hoje, como se sabe, a maior parte das correntes que acreditam ser poss\u00edvel domar o capitalismo fazem o contr\u00e1rio: sacralizam o capital produtivo e demonizam o capital banc\u00e1rio sem perceber a conex\u00e3o necess\u00e1ria entre eles.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a principal institui\u00e7\u00e3o \u00e9 o Estado. O Estado garante um padr\u00e3o monet\u00e1rio, como d\u00f3lar e real, que seja aceito tanto pelos vendedores como pelos compradores no interior de um pa\u00eds. Para regular a concorr\u00eancia entre as empresas, o Estado determina uma jornada de trabalho e os direitos m\u00ednimos para cada trabalhador. Como a for\u00e7a de trabalho \u00e9 uma mercadoria vendida e comprada no mercado, uma luta entre trabalhadores e capitalistas define o padr\u00e3o m\u00ednimo de direitos. O Estado institui esse padr\u00e3o para todas empresas. Define, ainda, as condi\u00e7\u00f5es de compra e venda das mercadorias de empresas de pa\u00edses diferentes e, portanto, negocia com outros Estados. Como podemos perceber, o Estado n\u00e3o \u00e9 capaz de controlar o mercado, mas de estabelecer as condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas para ele funcionar. Por isso mesmo, para garantir que a economia capitalista n\u00e3o saia dos trilhos, por meio do Estado os capitalistas podem concentrar suas for\u00e7as para reprimir toda e qualquer amea\u00e7a a esse sistema. Da\u00ed as for\u00e7as armadas, o direito, os ju\u00edzes e as leis. Da\u00ed as constantes mudan\u00e7as nas formas pol\u00edticas do Estado de modo a se adequar as necessidades de momento, tendo em vista garantir a manuten\u00e7\u00e3o do sistema e das classes sociais que o parasitam.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, nada pode ser mais contr\u00e1rio a concep\u00e7\u00e3o marxista que a ideia de transformar a sociedade se apossando do estado capitalista. Nesse sentido, Marx dir\u00e1:<\/p>\n\n\n\n<p><em>As formas jur\u00eddicas, nas quais essas transa\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas aparecem como atos de vontade dos envolvidos, como exterioriza\u00e7\u00f5es de sua vontade comum e como contratos cuja execu\u00e7\u00e3o pode ser imposta \u00e0s partes contratantes pelo Estado, n\u00e3o podem determinar, como meras formas que s\u00e3o, esse conte\u00fado. Elas podem apenas express\u00e1\u200b-lo. Quando corresponde ao modo de produ\u00e7\u00e3o, quando lhe \u00e9 adequado, esse conte\u00fado \u00e9 justo; quando o contradiz, \u00e9 injusto. A escravid\u00e3o, sobre a base do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, \u00e9 injusta, assim como a fraude em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 qualidade da mercadoria. (MARX, 2017, p.386-7)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Como se v\u00ea, a cr\u00edtica \u00e0 sociedade burguesa exposta por Marx n\u00e3o se fundamenta em uma condena\u00e7\u00e3o moral da mesma, tampouco em uma \u00e9tica universal do homem alicer\u00e7ada em princ\u00edpios eternos de justi\u00e7a. Antes disso, os pressupostos para as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o socialistas aparecem no seio da pr\u00f3pria sociedade burguesa. Se \u201cn\u00e3o encontr\u00e1ssemos veladas na sociedade [burguesa], tal como ela \u00e9, as condi\u00e7\u00f5es materiais de produ\u00e7\u00e3o e as correspondentes rela\u00e7\u00f5es de interc\u00e2mbio para uma sociedade sem classes, todas as tentativas para explodi-la seriam quixotadas\u201d. (MARX, 2011, p. 107)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>O reformismo n\u00e3o \u00e9 um mal menor<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Todo o sistema, portanto, est\u00e1 orientado para garantir a origem e fonte de toda a riqueza dentro das empresas. Isto \u00e9: que o dono da empresa se aproprie de parte da riqueza produzida por seus respectivos trabalhadores e que continue a fazer o mesmo ano ap\u00f3s ano.<\/p>\n\n\n\n<p>A ilus\u00e3o dos reformistas, portanto, \u00e9 acreditar que algumas das partes desse sistema pode ser alterada em sua natureza e fazer o conjunto funcionar de outra maneira. Que \u00e9 poss\u00edvel, como pensava Proudhon, abolir o dinheiro e manter a mercadoria. Acabar com os capitalistas e manter a acumula\u00e7\u00e3o de capital dentro das empresas.<\/p>\n\n\n\n<p>Da mesma forma que Proudhon, nos dias de hoje, in\u00fameras organiza\u00e7\u00f5es acreditam ser poss\u00edvel humanizar o capitalismo. Ou seja, resolver os problemas da classe trabalhadora sem destruir em seu conjunto o sistema que produz esses mesmos problemas. Alguns, como Ciro Gomes no Brasil, acreditam que o problema \u00e9 o capital banc\u00e1rio e financeiro. Seu programa defende o capital produtivo e industrial contra o capital que comercializa dinheiro. Outros acreditam que por meio do Estado \u00e9 poss\u00edvel transformar a sociedade e transferir a riqueza produzida para os mais pobres, fomentando pol\u00edticas do consumo das fam\u00edlias. Existe ainda uma vertente nacionalista. Eles acreditam que a solu\u00e7\u00e3o \u00e9 favorecer as empresas nacionais, privadas ou estatais, contra as empresas estrangeiras. Como podemos ver, temos v\u00e1rios tipos de reformismos.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos esses programas reformistas, podem at\u00e9 ter raz\u00e3o em v\u00e1rias de suas cr\u00edticas a esse ou aquele problema particular. No entanto, quando tentam alterar o sistema usando suas pr\u00f3prias engrenagens, s\u00e3o engolidos por ele. Isto acontece porque todas essas partes: mercadoria, dinheiro, trabalhadores e capitalistas, capital industrial, banc\u00e1rio e o pr\u00f3prio Estado est\u00e3o articulados entre si e fazem parte de um mesmo sistema. Alimentam as mesmas engrenagens. Por isso, Marx lutou contra os reformistas nacionalistas como o italiano Mazzini, l\u00edder da unifica\u00e7\u00e3o Italiana em um s\u00f3 Estado. Lutou tamb\u00e9m contra os reformistas sindicalistas que se limitavam \u00e0s pautas salariais e por emprego nos limites do capitalismo e das leis institu\u00eddas pelo Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o principal problema, para Marx, n\u00e3o \u00e9 unicamente o fato de que as ideias reformistas estejam erradas. O problema principal \u00e9 que tais ideias s\u00e3o disputadas no interior das organiza\u00e7\u00f5es dos trabalhadores. Quando colocados em pr\u00e1tica, tais projetos de reforma, levam \u00e0 desmoraliza\u00e7\u00e3o por se mostrarem impotentes na consecu\u00e7\u00e3o de seus fins. Da\u00ed a necessidade de um programa claro que aponte no sentido da destrui\u00e7\u00e3o do capitalismo e seu Estado e da impossibilidade de reform\u00e1-lo. Por isso, o reformismo n\u00e3o era, para Marx, um mal menor. Tratava-se de concep\u00e7\u00f5es a serem derrotadas e destru\u00eddas no interior das organiza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, toda sua obra econ\u00f4mica n\u00e3o foi escrita com um interesse unicamente te\u00f3rico. Seu primeiro manuscrito sobre O Capital, os Grundrisse, foi escrito justamente com a crise europeia e a possibilidade de uma revolu\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, Marx informa a Engels: \u201cEu estou trabalhando como louco, noite adentro, para reunir meus estudos de economia para que possa ao menos compreender os contornos claramente antes do dil\u00favio [o dil\u00favio \u00e9 a revolu\u00e7\u00e3o europeia que Marx previa]\u201d.&nbsp;Por que Marx quer concluir um estudo de economia no momento em que se aproxima uma revolu\u00e7\u00e3o? A resposta est\u00e1 em outra carta enviada a seu amigo Joseph Weydemeyer onde diz o seguinte: nesse escrito \u201cse destro\u00e7a o socialismo proudhoniano em seus fundamentos, atualmente em moda na Fran\u00e7a, que pretende deixar subsistir a produ\u00e7\u00e3o privada, mas organizar a troca de produtos privados. Quer a mercadoria, mas n\u00e3o o dinheiro. O comunismo deve desfazer-se antes de tudo desse irm\u00e3o falso\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A luta de Marx contra os reformistas, portanto, foi a luta contra os irm\u00e3os falsos do comunismo. Afinal, n\u00e3o \u00e9 suficiente as boas inten\u00e7\u00f5es. Um caminho equivocado leva o movimento \u00e0 desmoraliza\u00e7\u00e3o e \u00e0 derrota. Como dir\u00e1 Marx em O Capital: \u201co caminho para o inferno est\u00e1 pavimentado de boas inten\u00e7\u00f5es\u201d. \u00c9 necess\u00e1rio um programa que tenha por objetivo destruir o capitalismo em suas bases. Se n\u00e3o for assim, estaremos a lutar contra o vento.<\/p>\n\n\n\n<p>Publicado originalmente no&nbsp;<a href=\"https:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/marx-e-a-impossibilidade-de-reformar-a-sociedade-capitalista\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">blog Teoria e Revolu\u00e7\u00e3o<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em uma cena famosa da literatura espanhola, o nobre Dom Quixote, dominado pela loucura, luta contra moinhos de vento acreditando que s\u00e3o guerreiros gigantes. \u00c9 um personagem que procura mudar o mundo, for\u00e7ando-o a ser da sua maneira e se envolve em uma trapalhada atr\u00e1s da outra. 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