{"id":78810,"date":"2024-04-29T21:43:44","date_gmt":"2024-04-29T21:43:44","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=78810"},"modified":"2024-04-29T21:43:47","modified_gmt":"2024-04-29T21:43:47","slug":"nahuel-moreno-uma-unica-corrente-trotskista-ortodoxa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2024\/04\/29\/nahuel-moreno-uma-unica-corrente-trotskista-ortodoxa\/","title":{"rendered":"Nahuel Moreno: \u201cUma \u00fanica corrente trotskista ortodoxa\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p><em>O dia 21 de abril marcou o 100\u00ba anivers\u00e1rio do nascimento de Nahuel Moreno, fundador da LIT-QI (em 1982) e, desde 1944, construtor da tend\u00eancia do trotskismo internacional conhecida como morenismo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: Alejandro Iturbe<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 quase imposs\u00edvel resumir a carreira pol\u00edtica e os desenvolvimentos de Moreno ao longo de suas mais de quatro d\u00e9cadas de milit\u00e2ncia trotskista. Digamos tamb\u00e9m que esta trajet\u00f3ria e essas elabora\u00e7\u00f5es t\u00eam sido muito criticadas por outras correntes que se dizem trotskistas ou provenientes dessa origem.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2012, escrevi um artigo no anivers\u00e1rio da sua morte (janeiro de 1987) do qual reivindico as suas considera\u00e7\u00f5es centrais<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Nesse artigo, dizia que \u201c<em>uma biografia<\/em> [pol\u00edtica] <em>completa ainda n\u00e3o foi escrita<\/em>\u201d. Continuo a considerar que esta biografia pol\u00edtica e um balan\u00e7o da carreira de Moreno, e da corrente morenista enquanto ele a dirigiu, \u00e9 uma tarefa essencial para n\u00f3s, como a LIT-QI, que nos reivindicamos morenistas. Um balan\u00e7o que ajude a orientar-nos na complexa situa\u00e7\u00e3o mundial atual e, essencialmente, nos ajude a compreender as mudan\u00e7as ocorridas desde a sua morte.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A funda\u00e7\u00e3o do LIT-QI<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>V\u00e1rios anos depois, me pergunto mais uma vez como resumir num pequeno artigo tantos anos da trajet\u00f3ria militante e das elabora\u00e7\u00f5es de Moreno. Optei por faz\u00ea-lo atrav\u00e9s das palavras do pr\u00f3prio Moreno, em 1982, quando foi fundada a LIT-QI. Uma Confer\u00eancia de Emerg\u00eancia foi realizada em janeiro daquele ano. A Fra\u00e7\u00e3o Bolchevique (a organiza\u00e7\u00e3o internacional das for\u00e7as morenistas ap\u00f3s sua ruptura com o Secretariado Unificado-SU, e alguns dirigentes da corrente trotskista conhecida como lambertismo, como o peruano Ricardo Napur\u00ed e o venezuelano Alberto Franceschi<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, participaram dela.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta reuni\u00e3o decidiu tornar-se a Confer\u00eancia Fundadora da LIT-QI, como uma nova organiza\u00e7\u00e3o trotskista internacional, com um funcionamento centralista democr\u00e1tico. Nela, Moreno fez uma importante interven\u00e7\u00e3o pr\u00e9via para explicar a necessidade da funda\u00e7\u00e3o da LIT-QI. O centro de sua interven\u00e7\u00e3o foi: <em>\u201cEsta Confer\u00eancia \u00e9 um fato pol\u00edtico que reflete a exist\u00eancia de uma \u00fanica corrente trotskista consistente em escala global, formada pela ex-FB, enriquecida e fortalecida pela presen\u00e7a de camaradas de outras vertentes, principalmente do antigo CORCI\u201d.<\/em> Moreno resumia esta vis\u00e3o com a express\u00e3o: <strong>\u201cO trotskismo ortodoxo existe\u201d<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\"><strong>[3]<\/strong><\/a><\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>A principal base de funda\u00e7\u00e3o da LIT-QI foi a Fra\u00e7\u00e3o Bolchevique (ou seja, a corrente morenista da \u00e9poca) \u00e0 qual se juntaram outros setores que n\u00e3o provinham do morenismo. Mais tarde, outras for\u00e7as que n\u00e3o vinham do morenismo se juntariam \u00e0 LIT-QI, como o setor brit\u00e2nico WRP liderado por Bill Hunter (hoje ISL), e o atual PdAC italiano.<\/p>\n\n\n\n<p>A nosso ver, a declara\u00e7\u00e3o de Moreno em 1982 implica um balan\u00e7o do morenismo at\u00e9 aquele momento e, de fato, de sua pr\u00f3pria trajet\u00f3ria. A corrente moreno\u00edsta era a principal for\u00e7a do \u201ctrotskismo ortodoxo\u201d e, portanto, a \u00fanica capaz de atrair e organizar na LIT-QI outras for\u00e7as \u201ctrotskistas ortodoxas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa refer\u00eancia de Moreno ao car\u00e1ter da corrente que dirigia havia come\u00e7ado muitos anos antes. Em 1957, dentro do Comit\u00ea Internacional do IV (que tinha reagrupado as for\u00e7as que se opunham \u00e0 pol\u00edtica de capitula\u00e7\u00e3o de Michel Pablo ao stalinismo e \u00e0 metodologia burocr\u00e1tica com a qual dirigiu o IV &#8220;oficial&#8221;), formou o SLATO (Secretariado Latino-Americano do Trotskismo Ortodoxo) com sua organiza\u00e7\u00e3o argentina (o POR), o peruano Hugo Blanco e o chileno Luis Vitale.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Uma longa batalha<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para compreender o significado que Moreno dava a este conceito, \u00e9 necess\u00e1rio compreender o complexo processo que as for\u00e7as trotskistas e a Quarta Internacional viveram ap\u00f3s o seu reagrupamento depois da Segunda Guerra Mundial, processo ao qual Moreno se incorporou em 1948.<\/p>\n\n\n\n<p>O pequeno n\u00facleo de quadros e militantes trotskistas agrupados na IV, ap\u00f3s o fim da Segunda Guerra Mundial, foi submetido a duras press\u00f5es e testes. Teve que faz\u00ea-lo sem a presen\u00e7a de Trotsky e da sua grande experi\u00eancia revolucion\u00e1ria acumulada, com uma lideran\u00e7a muito fraca e inexperiente.<\/p>\n\n\n\n<p>A guerra produziu, segundo as previs\u00f5es de Trotsky, um grande ascenso<\/p>\n\n\n\n<p>revolucion\u00e1rio no mundo e o surgimento de novos Estados oper\u00e1rios que se somaram \u00e0 ex-URSS. Ao mesmo tempo, contra estas previs\u00f5es, a IV n\u00e3o ganhou peso de massas e incid\u00eancia nestes processos, mas continuou a ser um pequeno n\u00facleo. Foi o stalinismo que os dirigiu. Algo que, somado ao papel da ex-URSS na derrota do nazi-fascismo, deu ao estalinismo a dire\u00e7\u00e3o principal do movimento oper\u00e1rio e de massas mundial.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, a maioria da nova dire\u00e7\u00e3o da IV n\u00e3o passou no teste. Diante desta realidade, as for\u00e7as trotskistas tenderam a dividir-se em duas grandes correntes. Uma delas, encabe\u00e7ada por Michel Pablo e Ernest Mandel, que assumiram a dire\u00e7\u00e3o da IV, adotaram um rumo oportunista. No seu desejo de intervir nos processos revolucion\u00e1rios em curso e de estar ligado a eles, capitulou cada vez mais \u00e0s suas dire\u00e7\u00e3oes burocr\u00e1ticas e pequeno-burguesas. Chegou ao extremo de n\u00e3o apoiar os processos de revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica na Europa Oriental na d\u00e9cada de 1950 (um ponto central do trotskismo ortodoxo).<\/p>\n\n\n\n<p>A outra corrente tomou um rumo sect\u00e1rio: como os processos n\u00e3o seguiam as previs\u00f5es de Trotsky, n\u00e3o foram revolu\u00e7\u00f5es nem surgiram novos Estados oper\u00e1rios. Ao n\u00e3o os reconhecerem como tais, foram incapazes de intervir nos novos processos revolucion\u00e1rios e refugiaram-se, ent\u00e3o, numa propaganda de defesa do programa, da estrat\u00e9gia e dos princ\u00edpios. Posteriormente, v\u00e1rias dessas organiza\u00e7\u00f5es (especialmente o healismo ingl\u00eas e o lambertismo franc\u00eas) separaram-se da constru\u00e7\u00e3o centralizada do IV, tornando-se o que Moreno chamou de nacional-trotskistas (o essencial era construir \u201cseu\u201d partido nacional. Na melhor das hip\u00f3teses, eles constru\u00edram partidos fracos organiza\u00e7\u00f5es colaterais internacionais.<\/p>\n\n\n\n<p>O SWP dos EUA, ent\u00e3o o partido trotskista mais forte e que contava com quadros mais experientes, como James Cannon (e a quem Moreno considerava seus \u201cmestres\u201d), apesar de ter posi\u00e7\u00f5es semelhantes \u00e0s de Moreno em&nbsp; pontos centraiss, tanto em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 defesa das revolu\u00e7\u00f5es pol\u00edticas na Hungria e na Alemanha Oriental como ao reconhecimento dos novos Estados oper\u00e1rios deformados no Leste e em Cuba, sofreu um desvio que o levaria a desempenhar um papel extremamente negativo na a crise do IV. O SWP nunca assumiu a tarefa central de construir a dire\u00e7\u00e3o da IV, que lhe correspondia considerando seu peso e experi\u00eancia. Os seus dirigentes n\u00e3o viam como sua grande tarefa ser o eixo de constru\u00e7\u00e3o da Internacional e, de fato, viam a IV como uma federa\u00e7\u00e3o de partidos e n\u00e3o como uma dire\u00e7\u00e3o internacional centralizada.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa forma, foi respons\u00e1vel por omiss\u00e3o pela crise vivida pela organiza\u00e7\u00e3o. Precisamente, a grande batalha de Moreno contra a dire\u00e7\u00e3o do SWP, naqueles anos, foi sobre a necessidade de o Comit\u00ea Internacional do IV se tornar uma organiza\u00e7\u00e3o internacional centralizada. Este \u00e9 outro ponto essencial do que Moreno considerava \u201ctrotskismo ortodoxo\u201d. Posteriormente, o SWP come\u00e7ou a revisar o pr\u00f3prio trotskismo e finalmente o abandonou como sua refer\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Podemos dizer que toda a trajet\u00f3ria de Moreno, especialmente a sua milit\u00e2ncia internacional nas diversas organiza\u00e7\u00f5es em que participou ou construiu, foi uma longa batalha em defesa do trotskismo ortodoxo contra os revisionistas que capitularam e contra as vis\u00f5es nacional-trotskistas ou federativas da IV. .<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Algumas elabora\u00e7\u00f5es centrais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Neste contexto de divis\u00e3o e crise do trotskismo, Moreno teve que \u201cpensar com a pr\u00f3pria cabe\u00e7a\u201d para tentar manter o rumo trotskista ortodoxo. Por um lado, manter uma defesa intransigente dos princ\u00edpios e da estrat\u00e9gia trotskista. Neste quadro, procurou desenvolver explica\u00e7\u00f5es marxistas dos novos fen\u00f4menos e impulsionou as necess\u00e1rias atualiza\u00e7\u00f5es program\u00e1ticas. Ao mesmo tempo, sempre teve a obsess\u00e3o de que as organiza\u00e7\u00f5es trotskistas, especialmente as que ele dirigia, interviessem e se constru\u00edssem nos processos concretos de luta das massas, aproveitassem as oportunidades e superassem a marginalidade que as caracterizava. Por isso, grande parte de suas elabora\u00e7\u00f5es foram escritas em forma de pol\u00eamicas com outras correntes e pretendiam analisar, caracterizar e orientar-se em processos pol\u00edticos concretos e, neles, desenvolver quest\u00f5es te\u00f3ricas ou conceituais.<\/p>\n\n\n\n<p>Numa breve revis\u00e3o, certamente incompleta, queremos destacar alguns daqueles que consideramos mais importantes. Dos seus debates contra Ernest Mandel, reivindicamos <em>O Partido e a Revolu\u00e7\u00e3o<\/em> (tamb\u00e9m conhecido como \u201cO Morena\u00e7o\u201d), de 1973, que polemiza com a guerrilha, a ultraesquerda e o desvio vanguardista. Alguns dos seus cap\u00edtulos, como o Partido Leninista ou o Partido Mandelista, com a sua an\u00e1lise da rela\u00e7\u00e3o entre a\u00e7\u00e3o, experi\u00eancia e consci\u00eancia, o m\u00e9todo para elaborar consignas e a sua rela\u00e7\u00e3o com o programa, educaram toda uma gera\u00e7\u00e3o de quadros morenistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m <em>A Ditadura Revolucion\u00e1ria do Proletariado<\/em> que polemiza com um novo desvio de Mandel: uma tentativa de adaptar o conceito de ditadura do proletariado ao conte\u00fado da democracia burguesa. Junto com uma n\u00edtida sistematiza\u00e7\u00e3o do que significa a ditadura do proletariado e suas diferentes variantes, Moreno faz uma previs\u00e3o: se Mandel continuasse neste caminho, o mandelismo acabaria abandonando o campo do trotskismo e dos revolucion\u00e1rios para passar ao do reformismo. A previs\u00e3o, infelizmente, se concretizou.<\/p>\n\n\n\n<p>Outras pol\u00eamicas est\u00e3o em suas obras sobre a revolu\u00e7\u00e3o boliviana de 1952, a revolu\u00e7\u00e3o portuguesa de 1974 e os textos de ruptura com o lambertismo, que cont\u00eam importantes elabora\u00e7\u00f5es sobre a frente popular e a teoria dos \u201ccampos\u201d<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\">[4]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Outras elabora\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Consideramos que uma das suas principais elabora\u00e7\u00f5es se baseou numa revis\u00e3o cr\u00edtica das Teses da Revolu\u00e7\u00e3o Permanente, escritas por Le\u00f3n Trotsky em 1929, como conclus\u00e3o da sua avalia\u00e7\u00e3o da derrota da revolu\u00e7\u00e3o chinesa de 1923-1928. Para Moreno, esta formula\u00e7\u00e3o de Trotsky era muito \u201cfechada\u201d e entrava em contradi\u00e7\u00e3o com o que aconteceu na Segunda P\u00f3s-guerra e os processos que tinham levado ao surgimento de novos Estados oper\u00e1rios deformados. Completou sua vis\u00e3o cr\u00edtica estudando os processos de luta contra as ditaduras latino-americanas no final dos anos 70 e in\u00edcio dos anos 80. Ou seja, estamos no campo te\u00f3rico das tarefas e revolu\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas e da sua inser\u00e7\u00e3o no processo geral da revolu\u00e7\u00e3o permanente.<\/p>\n\n\n\n<p>Moreno chegou \u00e0 conclus\u00e3o de que era necess\u00e1rio corrigir e atualizar esta formula\u00e7\u00e3o das Teses. E fez com um m\u00e9todo marxista muito s\u00e9rio: reivindicou os fundamentos da revolu\u00e7\u00e3o permanente (ou se avan\u00e7a em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o socialista a n\u00edvel nacional e internacional ou as revolu\u00e7\u00f5es s\u00e3o \u201ccongeladas\u201d, derrotadas ou retrocedem). Neste sentido, como afirmou Trotsky, as tarefas da revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica fazem parte da revolu\u00e7\u00e3o socialista e s\u00f3 podem ser garantidas at\u00e9 ao fim atrav\u00e9s dela.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, Moreno chegou \u00e0 conclus\u00e3o de que podem alcan\u00e7ar triunfos e avan\u00e7ar at\u00e9 certo ponto com sujeitos sociais e pol\u00edticos diferentes dos previstos por Trotsky. Ao mesmo tempo, o desenvolvimento de um processo de revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica requer uma resposta program\u00e1tica espec\u00edfica de interven\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn5\" id=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. Esta elabora\u00e7\u00e3o de Moreno \u00e9 uma das mais criticadas por algumas for\u00e7as trotskistas constru\u00eddas com vis\u00f5es antimorenistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, queremos destacar uma obra puramente te\u00f3rica: \u201cL\u00f3gica Marxista e Ci\u00eancias Modernas\u201d (1973), inicialmente escrita como pr\u00f3logo de um livro do americano George Novack e posteriormente publicada como um caderno independente. Em suas p\u00e1ginas compactas, Moreno afirma a influ\u00eancia de Hegel sobre Marx, exp\u00f5e brevemente as leis da dial\u00e9tica, apresenta uma hist\u00f3ria das l\u00f3gicas e, entre elas, destaca a l\u00f3gica hipot\u00e9tico-dedutiva descoberta por Jean Piaget, que ele considerava um sistema an\u00e1logo ao da l\u00f3gica marxista e que o enriquece<a href=\"#_ftn6\" id=\"_ftnref6\">[6]<\/a>. Para n\u00f3s que j\u00e1 atu\u00e1vamos no morenismo naqueles anos, foi tamb\u00e9m uma obra fundamental na nossa forma\u00e7\u00e3o te\u00f3rica. Do nosso ponto de vista, nele Moreno mostra seu profundo conhecimento do marxismo e, ao mesmo tempo, sua disposi\u00e7\u00e3o de atualiz\u00e1-lo com as contribui\u00e7\u00f5es que surgiram em outros campos da ci\u00eancia e do conhecimento e que o enriqueciam.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Moreno \u201cconstrutor\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Como vimos, Moreno desenvolveu sua milit\u00e2ncia em condi\u00e7\u00f5es muito dif\u00edceis. No campo subjetivo, com as for\u00e7as trotskistas divididas, e muitas delas em processo de revis\u00e3o e at\u00e9 de abandono dos princ\u00edpios e estrat\u00e9gia trotskista. No terreno objetivo ocorreram numerosos processos revolucion\u00e1rios nos quais surgiram fortes vanguardas. Mas estas vanguardas foram atra\u00eddas por dire\u00e7\u00f5es que n\u00e3o eram trotskistas (algumas eram at\u00e9 claramente contrarrrevolucion\u00e1rias). J\u00e1 nos referimos ao stalinismo. Em muitos pa\u00edses latino-americanos, as lideran\u00e7as nacionalistas burguesas, como o peronismo, tiveram uma forte influ\u00eancia. Mais tarde foi acrescentado o atrativo da lideran\u00e7a cubana (castro-guevarismo) e at\u00e9 do maoismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, em sua longa carreira, Moreno mostrou-se um \u201cmestre\u201d na tarefa de desenvolver e propor t\u00e1ticas concretas para intervir na realidade, aproveitar as oportunidades que ela oferecia e conquistar um setor da vanguarda para construir organiza\u00e7\u00f5es no cora\u00e7\u00e3o do movimento de massas, especialmente na classe oper\u00e1ria. Com base em an\u00e1lises rigorosas das diferentes situa\u00e7\u00f5es na Argentina e em outros pa\u00edses, as numerosas t\u00e1ticas \u201cposs\u00edveis\u201d e \u201caplic\u00e1veis\u201d propostas constituem, em conjunto, um verdadeiro \u201ccat\u00e1logo\u201d de constru\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria. V\u00e3o desde interven\u00e7\u00f5es em processos eleitorais e aproveitamento da legalidade at\u00e9 a milit\u00e2ncia na mais absoluta clandestinidade, luta armada contra ditaduras e participa\u00e7\u00e3o nas lutas e organiza\u00e7\u00e3o sindical dos trabalhadores.<\/p>\n\n\n\n<p>Seria muito longo listar todas. Mas, gra\u00e7as a elas, em v\u00e1rios pa\u00edses (como Argentina, Brasil, Peru, Col\u00f4mbia e Nicar\u00e1gua) as organiza\u00e7\u00f5es orientadas por Moreno conseguiram \u201cromper o cerco\u201d da marginalidade, ser participantes proeminentes em importantes processos de luta de classes e construir-se neles<a href=\"#_ftn7\" id=\"_ftnref7\">[7]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m do curso posterior dessas experi\u00eancias, permanecem como li\u00e7\u00f5es importantes de que, com uma pol\u00edtica correta e ousada, o trotskismo pode dar saltos importantes na sua constru\u00e7\u00e3o, mesmo em momentos que parecem realmente muito dif\u00edcil. \u00c9 um dos principais legados que Moreno nos deixou.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Autocr\u00edtica como ferramenta<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nesta \u201clonga marcha\u201d em defesa do trotskismo ortodoxo para se vincular aos processos da realidade e a\u00ed construir as suas for\u00e7as, Moreno cometeu muitos erros tanto em algumas elabora\u00e7\u00f5es como em algumas das t\u00e1ticas que aplicou.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele tinha muita consci\u00eancia disso: sempre dizia \u00e0s for\u00e7as militantes que dirigia: <em>\u201ccometemos muitos erros, voc\u00eas devem pensar por si mesmos, pois a nossa dire\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 garantia de genialidades. Queremos por todos os meios incutir um esp\u00edrito autocr\u00edtico, marxista, e n\u00e3o uma f\u00e9 religiosa em uma modesta dire\u00e7\u00e3o, provinciana pela sua forma\u00e7\u00e3o e b\u00e1rbara pela sua cultura [&#8230;] Avan\u00e7amos atrav\u00e9s de erros e golpes e n\u00e3o temos vergonha de dizer.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, fez da autocr\u00edtica uma ferramenta de sua milit\u00e2ncia. Todos n\u00f3s que o conhecemos na sua a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica lembramos como dias, meses ou anos depois de defender apaixonadamente um conceito ou uma proposta pol\u00edtica ele dizia que tinha cometido um erro e que era preciso corrigi-lo. Chegou a formular, embora nunca tenha escrito, uma hist\u00f3ria da corrente morenista na Argentina em que as diferentes etapas da constru\u00e7\u00e3o foram analisadas n\u00e3o com base em acertos e avan\u00e7os (que existiram em quase todos os per\u00edodos), mas com base em desvios em cada um deles.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das coisas que mais me marcou foi a que ele fez sobre suas expectativas de que a dire\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o cubana avan\u00e7asse em dire\u00e7\u00e3o a posi\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias relacionadas ao trotskismo e \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o de nos construirmos dentro da ampla corrente de vanguarda guerrilheira que havia surgido na Am\u00e9rica Latina. Mais tarde compreendeu que, por raz\u00f5es de classe, esta din\u00e2mica da dire\u00e7\u00e3o cubana era imposs\u00edvel e retomou plenamente a pol\u00edtica de constru\u00e7\u00e3o de um partido oper\u00e1rio leninista-trotskista dentro da classe oper\u00e1ria. O seu debate com Mandel em O Morena\u00e7o expressou esta mudan\u00e7a. Posteriormente, elaborou um documento sobre a guerrilha e sua base de classe, que foi discutido e votado pela LIT-QI<a href=\"#_ftn8\" id=\"_ftnref8\">[8]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A LIT-QI \u00e9 o principal legado de Moreno<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O movimento trotskista que Moreno conheceu e do qual participou (que ele definiu como \u201cuma corrente ou movimento independente do aparato burocr\u00e1tico embora n\u00e3o tivesse uma unidade organizacional\u201d) n\u00e3o existe mais como tal. Num verdadeiro \u201cvendaval oportunista\u201d, setores importantes desse movimento \u201cultrapassaram a linha\u201d e abandonaram o campo revolucion\u00e1rio, o trotskismo e a sua estrat\u00e9gia. Outras correntes continuam a reivindicar o trotskismo e a IV, mas sofreram uma forte adapta\u00e7\u00e3o eleitoral \u00e0 democracia burguesa.<\/p>\n\n\n\n<p>A LIT-QI tamb\u00e9m sofreu as consequ\u00eancias do \u201c vendaval oportunista\u201d e, ap\u00f3s a morte de Nahuel Moreno, passou por uma crise profunda e divis\u00f5es que quase levaram ao seu desaparecimento. Mas, tentando seguir o conselho de Moreno, superou a crise e seguiu em frente. Hoje, no contexto da pior crise econ\u00f3mica internacional desde 1929, que nega categoricamente o triunfo ou a superioridade do capitalismo, sua se\u00e7\u00f5es e militantes procuram intervir ativamente nos processos reais da luta de classes.<\/p>\n\n\n\n<p>No quadro de uma grande dispers\u00e3o das for\u00e7as trotskistas ou dessa origem, a LIT-QI \u00e9 o principal legado que Moreno nos deixou. Sua constru\u00e7\u00e3o principal est\u00e1 de p\u00e9 e ainda em combate. \u00c9 a \u00fanica organiza\u00e7\u00e3o internacional que merece ser definida como \u201ctrotskista ortodoxa\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, como consta dos seus estatutos, n\u00e3o se autoproclama a IV, e sim coloca a sua pr\u00f3pria constru\u00e7\u00e3o ao servi\u00e7o da Reconstru\u00e7\u00e3o da IV Internacional como uma dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria alternativa para as massas, num momento em que isso \u00e9 cada vez mais necess\u00e1rio<a href=\"#_ftn9\" id=\"_ftnref9\">[9]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, a LIT-QI tamb\u00e9m est\u00e1 sujeita a testes exigentes: um mundo convulsionado por guerras, grandes processos de luta, no quadro de uma crise profunda do capitalismo imperialista e de uma destrui\u00e7\u00e3o acelerada da natureza. Mudan\u00e7as muito profundas ocorreram desde a morte de Moreno e devemos responder sem a sua presen\u00e7a a todo este desafio de atualiza\u00e7\u00e3o na elabora\u00e7\u00e3o e nas respostas program\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta atualiza\u00e7\u00e3o essencial deve ser feita tendo Moreno como refer\u00eancia e ponto de partida. Isto \u00e9, com o seu m\u00e9todo autocr\u00edtico em rela\u00e7\u00e3o aos erros cometidos e com a seriedade e profundidade com que atualizou e enriqueceu a teoria da revolu\u00e7\u00e3o permanente de Trotsky. Em outras palavras, com base na nossa ess\u00eancia: a LIT-QI \u00e9 o trotskismo ortodoxo.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> <a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/nahuel-moreno-un-militante-por-la-clase-obrera-el-socialismo-y-el-internacionalismo\/\">https:\/\/litci.org\/es\/nahuel-moreno-un-militante-por-la-clase-obrera-el-socialismo-y-el-internacionalismo\/<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> Para profundizar la historia del morenismo previa a la fundaci\u00f3n de la LIT-CI, recomendamos leer: <a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/un-breve-esbozo-de-la-historia-de-la-lit-ci-2\/\">https:\/\/litci.org\/es\/un-breve-esbozo-de-la-historia-de-la-lit-ci-2\/<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> <a href=\"https:\/\/archivoleontrotsky.org\/view?mfn=2409\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/archivoleontrotsky.org\/view?mfn=2409<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\">[4]<\/a> <a href=\"https:\/\/nahuelmoreno.org\/1982-la-traicion-de-la-oci\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">LA TRAICI\u00d3N DE LA OCI (1982) &#8211; Nahuel Moreno<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\" id=\"_ftn5\">[5]<\/a> Para quem tenha interesse em conhecer a aplica\u00e7\u00e3o concreta desta vis\u00e3o, recomendamos ler <a href=\"https:\/\/nahuelmoreno.org\/1983-1982-comienza-la-revolucion\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">1982: COMIENZA LA REVOLUCI\u00d3N (1983) &#8211; Nahuel Moreno<\/a>,&nbsp; escrito no qual analisou a ca\u00edda da ditadura argentina e orientou a constru\u00e7\u00e3o do MAS.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref6\" id=\"_ftn6\">[6]<\/a> <a href=\"https:\/\/nahuelmoreno.org\/1973-logica-marxista-y-ciencias-modernas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">L\u00d3GICA MARXISTA Y CIENCIAS MODERNAS (1973) &#8211; Nahuel Moreno<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref7\" id=\"_ftn7\">[7]<\/a> Ver a parte sobre este ponto em <a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/nahuel-moreno-un-militante-por-la-clase-obrera-el-socialismo-y-el-internacionalismo\/\">Nahuel Moreno: un militante por la clase obrera, el socialismo y el internacionalismo &#8211; Liga Internacional de los Trabajadores (litci.org)<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref8\" id=\"_ftn8\">[8]<\/a> <a href=\"https:\/\/nahuelmoreno.org\/1986-tesis-sobre-el-guerrillerismo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">TESIS SOBRE EL GUERRILLERISMO (1986) &#8211; Nahuel Moreno<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref9\" id=\"_ftn9\">[9]<\/a> <a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/la-reconstruccion-la-iv-internacional\/\">Por la reconstrucci\u00f3n de la IV Internacional &#8211; Liga Internacional de los Trabajadores (litci.org)<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O dia 21 de abril marcou o 100\u00ba anivers\u00e1rio do nascimento de Nahuel Moreno, fundador da LIT-QI (em 1982) e, desde 1944, construtor da tend\u00eancia do trotskismo internacional conhecida como morenismo. 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