{"id":78739,"date":"2024-04-12T16:57:37","date_gmt":"2024-04-12T16:57:37","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=78739"},"modified":"2024-04-12T16:57:39","modified_gmt":"2024-04-12T16:57:39","slug":"sobre-a-legalizacao-do-casamento-homoafetivo-na-grecia-e-o-voto-contra-do-pc-grego","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2024\/04\/12\/sobre-a-legalizacao-do-casamento-homoafetivo-na-grecia-e-o-voto-contra-do-pc-grego\/","title":{"rendered":"Sobre a legaliza\u00e7\u00e3o do casamento homoafetivo na Gr\u00e9cia e o voto contra do PC Grego\u00a0"},"content":{"rendered":"\n<p><em>\u00c9 poss\u00edvel ter um programa revolucion\u00e1rio sem um posicionamento consequente sobre as opress\u00f5es?&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: Joana Salay<\/p>\n\n\n\n<p>No dia 15 de fevereiro, o parlamento grego votou pela legaliza\u00e7\u00e3o do casamento homoafetivo e a ado\u00e7\u00e3o para pais do mesmo sexo, tornando a Gr\u00e9cia o 37\u00ba pa\u00eds do mundo, o 17\u00ba pa\u00eds da Uni\u00e3o Europeia e o primeiro pa\u00eds crist\u00e3o ortodoxo a faz\u00ea-lo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar da forte oposi\u00e7\u00e3o da Igreja Ortodoxa, a lei foi aprovada com 176 votos a favor, 76 contra e 2 absten\u00e7\u00f5es. O Nova Democracia (ND), partido de direita que governa a Gr\u00e9cia, se dividiu na vota\u00e7\u00e3o. Uma parte dos 158 deputados do ND, votou contra, absteve-se ou abandonou a C\u00e2mara. Junto com os deputados da direita conservadora e de tr\u00eas partidos de extrema direita, votaram contra o projeto os deputados do KKE, o partido comunista grego. Esse posicionamento do KKE n\u00e3o \u00e9 novo e, j\u00e1 h\u00e1 algum tempo, que vem se posicionando contra os direitos LGBTIs, fazendo uso de uma argumenta\u00e7\u00e3o que pode ser confundida com discurso dos partidos da extrema direita.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O KKE \u00e9 apontado pela dire\u00e7\u00e3o do PCB-RR, na proposta de teses apresentada para o seu congresso extraordin\u00e1rio, como parte do setor revolucion\u00e1rio no campo do denominado \u201cMovimento Comunista Internacional (MCI)\u201d com o qual eles devem tentar a\u00e7\u00f5es e di\u00e1logos. Contudo, a posi\u00e7\u00e3o do KKE sobre o casamento homoafetivo trouxe \u00e0 tona as posi\u00e7\u00f5es homof\u00f3bicas do partido que j\u00e1 vem de antes e abriu uma pol\u00eamica nas tribunas de debate do PCB-RR acerca do car\u00e1ter deste partido e sobre qual postura adotar perante ele.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No texto \u201cQue MCI queremos?\u201d o(a) autor(a) faz a seguinte quest\u00e3o:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cCabe analisar que a cis\u00e3o do EIPCO (Encontro Internacional de Partidos Comunistas e Oper\u00e1rios) se d\u00e1 em dois blocos, um bloco de esquerda liderado pelo KKE e um bloco de direita liderado pelo PCFR e \u00e9 de maneira geral consenso que estamos no bloco da esquerda, no entanto, com mais uma declara\u00e7\u00e3o homof\u00f3bica e reacion\u00e1ria do KKE em rela\u00e7\u00e3o a luta LGBT surge uma quest\u00e3o central quais s\u00e3o as contradi\u00e7\u00f5es dentro do bloco? E se s\u00e3o contradi\u00e7\u00f5es antag\u00f4nicas?\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No sentido do questionamento colocado, queremos, neste artigo ent\u00e3o debater com os companheiros qual o conte\u00fado e origem das posi\u00e7\u00f5es do KKE e apontar as suas contradi\u00e7\u00f5es antag\u00f4nicas com o programa revolucion\u00e1rio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Afinal, o que levou o KKE a votar contra o casamento homoafetivo?&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A justificativa apresentada pelo KKE no texto de t\u00edtulo \u201cA posi\u00e7\u00e3o do KKE sobre o casamento civil para casais com pessoas do mesmo sexo e os efeitos nos direitos das crian\u00e7as\u201d \u00e9:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA primeira raz\u00e3o principal para a recusa do KKE em alargar o casamento civil a casais do mesmo sexo, que consagra o cuidado parental conjunto, \u00e9 a comercializa\u00e7\u00e3o da procria\u00e7\u00e3o e da ado\u00e7\u00e3o. Uma segunda raz\u00e3o, igualmente b\u00e1sica e inter-relacionada, \u00e9 que, na pr\u00e1tica, os artigos do projeto de lei ignoram o direito social da crian\u00e7a \u00e0 rela\u00e7\u00e3o m\u00e3e-paternidade, como uma rela\u00e7\u00e3o biossocial em evolu\u00e7\u00e3o. (\u2026) A base da posi\u00e7\u00e3o do KKE s\u00e3o os direitos da crian\u00e7a, ou seja, a sua necessidade social de ter la\u00e7os com a sua m\u00e3e e o seu pai. Esta necessidade tem uma base objetiva: A rela\u00e7\u00e3o bilateral de maternidade \u2013 paternidade, resultante da fun\u00e7\u00e3o complementar homem \u2013 mulher no processo de procria\u00e7\u00e3o. As leis promulgadas devem apoiar este direito e n\u00e3o o subverter.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, a partir da premissa de que a legaliza\u00e7\u00e3o do casamento homoafetivo afeta os direitos das crian\u00e7as (!) afirmam que: \u201co KKE \u00e9 contra o casamento civil de casais do mesmo sexo, porque garante a paternidade a pessoas do mesmo sexo e leva \u00e0 exclus\u00e3o da maternidade ou da paternidade. Estabelece a dupla maternidade parental ou a dupla paternidade parental, respectivamente. O conceito de dupla parentalidade entre pessoas do mesmo sexo separa essencialmente o conceito de responsabilidade parental da sua base social e biol\u00f3gica objetiva. \u00c9 por isso que em 2015 o KKE criticou, op\u00f4s-se e votou contra o acordo de coabita\u00e7\u00e3o para casais do mesmo sexo, prevendo que seria um prel\u00fadio ao casamento civil e \u00e0 procria\u00e7\u00e3o. No caso de procria\u00e7\u00e3o por uma \u00fanica pessoa \u2013 mulher ou homem e n\u00e3o casal \u2013 a substitui\u00e7\u00e3o da m\u00e3e biol\u00f3gica ou do pai biol\u00f3gico certamente se apresenta de forma unilateral, portanto incompleta. Mas n\u00e3o leva \u00e0 dupla maternidade, \u00e0 dupla paternidade ou mesmo \u00e0 tripla ou mesmo \u00e0 parentalidade m\u00faltipla \u2013 progenitor 1, progenitor 2, progenitor 3, etc. \u2013 o que j\u00e1 acontece em alguns estados.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Como o pr\u00f3prio KKE afirma, em 2015 foram contra a lei que autorizava a uni\u00e3o civil homoafetiva, articulada pelo Syriza em seu primeiro ano de governo. Nesta altura, o KKE publicou o artigo \u201cSobre o acordo de coabita\u00e7\u00e3o\u201d no qual busca argumentar o seu posicionamento contr\u00e1rio e onde est\u00e1 a base da argumenta\u00e7\u00e3o do texto de 2024. Cabe acrescentar que, em 2017, o KKE votou contra a lei transg\u00eanero junto com os grupos conservadores da Nova Democracia, a Uni\u00e3o de Centro e a organiza\u00e7\u00e3o fascista Aurora Dourada.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil acompanhar o racioc\u00ednio da argumenta\u00e7\u00e3o do KKE, mas toda justifica\u00e7\u00e3o fica em torno da ideia de que o casamento no capitalismo \u00e9 para a reprodu\u00e7\u00e3o, que s\u00f3 pode ocorrer entre o homem e a mulher, e que a educa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as tem de ser feita por um casal h\u00e9tero, somada de ainda mais absurdos homof\u00f3bicos que se assemelham ao discurso da direita mais reacion\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Afirmam que \u201ca origem biol\u00f3gica da humanidade \u00e9 o resultado de uma rela\u00e7\u00e3o sexual homem-mulher que, como tal, interessa e \u00e9 regulada pela sociedade. Objetivamente uma crian\u00e7a criada por um casal do mesmo sexo, desde os primeiros anos determinantes da sua vida, adquire uma percep\u00e7\u00e3o distorcida da rela\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica entre os sexos. A correta percep\u00e7\u00e3o desta rela\u00e7\u00e3o \u00e9 ingrediente essencial para o seu bom desenvolvimento psicossom\u00e1tico e social.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>E a isso acrescentam: \u201cEsta conclus\u00e3o n\u00e3o \u00e9 prejudicada pelo fato de no casamento heterossexual poderem existir elementos reacion\u00e1rios, tais como a viol\u00eancia dom\u00e9stica e outros produtos da sociedade exploradora que podem gerar condi\u00e7\u00f5es negativas de cria\u00e7\u00e3o dos filhos. Nesta base, em qualquer caso, foram produzidas rela\u00e7\u00f5es desiguais de g\u00eanero, juntamente com o comportamento opressivo dos homens em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres, entre muitas outras coisas. \u00c9 um dado adquirido que os problemas sociais cr\u00f4nicos e os tipos de comportamento t\u00eam a sua raiz na divis\u00e3o de classes da sociedade (e em tudo o que isso implica em termos de rela\u00e7\u00f5es e percep\u00e7\u00f5es sociais). Este perigo n\u00e3o \u00e9 evitado mesmo no caso de pais do mesmo sexo. Pelo contr\u00e1rio, neste caso esses riscos s\u00e3o refor\u00e7ados pela percep\u00e7\u00e3o distorcida da rela\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O KKE defende tamb\u00e9m que a luta contra as opress\u00f5es divide a classe trabalhadora e que para alguns setores oprimidos bastam as conquistas econ\u00f4micas: \u201cO KKE luta por uma s\u00e9rie de direitos sociais para a classe trabalhadora e o povo (direitos trabalhistas, seguran\u00e7a social, aposentadorias, cuidados m\u00e9dicos) sem semear divis\u00f5es de acordo com o g\u00eanero, orienta\u00e7\u00e3o sexual, ra\u00e7a, religi\u00e3o. Acreditamos que as reivindica\u00e7\u00f5es do movimento trabalhista e popular cobrem alguns dos problemas enfrentados pelos casais do mesmo sexo, por exemplo, quest\u00f5es fiscais e benef\u00edcios sociais para crian\u00e7as, independentemente do estado civil, pens\u00f5es para todos com mais de 60 anos de idade.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A conclus\u00e3o seria de que, para o casal LGBTI, para al\u00e9m de ser negado o direito a ter filhos, tamb\u00e9m n\u00e3o faz qualquer diferen\u00e7a ter os direitos que salvaguardam as diferentes partes envolvidas num casamento, basta lutar pelos seus direitos trabalhistas. A hist\u00f3rica luta pelos direitos civis seria uma reivindica\u00e7\u00e3o p\u00f3s-moderna que divide a classe a trabalhadora.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Uma concep\u00e7\u00e3o fruto da degenera\u00e7\u00e3o da burocracia sovi\u00e9tica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para tentar dar um contorno marxista revolucion\u00e1rio \u00e0s suas posi\u00e7\u00f5es, o KKE apela ao legado da URSS. Contudo, as suas posi\u00e7\u00f5es em nada condizem com as medidas tomadas na R\u00fassia ap\u00f3s a conquista do poder pelos Bolcheviques e a forma\u00e7\u00e3o do Estado Oper\u00e1rio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Citamos aqui alguns exemplos apontados pela Secretaria Nacional LGBTI do PSTU no artigo \u201cNa contram\u00e3o do marxismo revolucion\u00e1rio, o stalinismo sempre tratou as LGBTIs como \u00b4doentes`\u201d. Onde podemos verificar como, logo ap\u00f3s a revolu\u00e7\u00e3o de outubro de 1917, os bolcheviques deitaram por terra todas as leis preconceituosas, fundamentalistas e opressivas do sistema czarista.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em seu livro \u201cSexualidade e Socialismo: hist\u00f3ria, pol\u00edtica e liberta\u00e7\u00e3o LGBT\u201d (2009), Sherry Wolf descreve o impacto da revolu\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 homossexualidade e a transexualidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEm 1917, todas as leis contra a homossexualidade foram derrubadas pelo novo governo revolucion\u00e1rio, juntamente com o resto do c\u00f3digo criminal czarista. Sexo consensual foi declarado como uma quest\u00e3o privada e os gays n\u00e3o somente eram livres para viver como eles\/elas quisessem sem a interven\u00e7\u00e3o do Estado, mas as cortes sovi\u00e9ticas tamb\u00e9m aprovaram o casamento entre homossexuais e, de forma extraordin\u00e1ria, foram reportadas at\u00e9 opera\u00e7\u00f5es para mudan\u00e7a de sexo nos anos 1920.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Com a degenera\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica, fruto do isolamento da URSS, a pol\u00edtica contrarrevolucion\u00e1ria de Stalin, negando a tradi\u00e7\u00e3o do leninismo, fez-se sentir em todos os \u00e2mbitos das conquistas da revolu\u00e7\u00e3o de 1917. Os direitos dos setores oprimidos, entre eles a popula\u00e7\u00e3o LGBTI n\u00e3o ficaram imunes. A partir de 1934, o C\u00f3digo Penal da URSS passou a criminalizar rela\u00e7\u00f5es sexuais consensuais entre homens adultos e a considerar pr\u00e1ticas n\u00e3o heterocisg\u00eaneras como sinais de decad\u00eancia burguesa e pervers\u00e3o fascista. Essa vis\u00e3o repressiva resultou em uma persegui\u00e7\u00e3o criminosa \u00e0s pessoas LGBTIs, com cerca de 60 mil condena\u00e7\u00f5es entre 1934 e 1980 apenas na URSS.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O retrocesso foi tamb\u00e9m na imposi\u00e7\u00e3o do retorno ao lar para as mulheres, a repress\u00e3o \u00e0s nacionalidades oprimidas e o abandono da luta antirracista. Por isso, afirmamos que o stalinismo representou uma ruptura com os ideais de Marx, Engels e L\u00eanin e exportou a contrarrevolu\u00e7\u00e3o para o conjunto dos PCs.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na It\u00e1lia, o PCI em meados da d\u00e9cada de 1940 era parte de um projeto de defesa da fam\u00edlia como fundamento da nova rep\u00fablica, empenhado em evitar \u201cquest\u00f5es morais divisivas\u201d, eram contra a legaliza\u00e7\u00e3o do div\u00f3rcio, afirmando que o pa\u00eds n\u00e3o tinha maturidade para \u201clegisla\u00e7\u00f5es t\u00e3o avan\u00e7adas\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na Fran\u00e7a, o PCF, que na d\u00e9cada de 20 foi parte importante da luta pelo aborto a partir dos anos 30, passa a defender uma pol\u00edtica oposta. No artigo do L`Humanitt\u00e9 de 1935 de t\u00edtulo \u201cAjudar a fam\u00edlia\u201d, o PCF, depois de afirmar que a decad\u00eancia capitalista e o imperialismo destroem a fam\u00edlia, defendem que \u201cos comunistas querem lutar para defender a fam\u00edlia francesa, o ideal de esterilidade \u00e9 pequeno-burgu\u00eas, anarquista e individualista. Eles (os comunistas) querem herdar um pa\u00eds forte e uma ra\u00e7a numerosa\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Portugal, a concep\u00e7\u00e3o stalinista levou ao c\u00famulo do PCP n\u00e3o defender um dos seus principais dirigentes, J\u00falio Foga\u00e7a, preso pela ditadura de Salazar em 1960 quando estava com seu companheiro. A pris\u00e3o de Foga\u00e7a deu-se em condi\u00e7\u00f5es bastante question\u00e1veis pelo fato de ser o partido a saber o local onde encontrava-se, e n\u00e3o haver registros do delator. Foga\u00e7a teve a sua pena aumentada pelo \u201ccrime\u201d de ser homossexual. N\u00e3o foi apenas pela ditadura que teve a sua pena agravada, Foga\u00e7a foi deixado para tr\u00e1s na fuga protagonizada pelo PCP na pris\u00e3o de Caxias e expulso do partido por colocar a seguran\u00e7a da organiza\u00e7\u00e3o em risco, numa pena muito superior perante outros casos semelhantes. A sua expuls\u00e3o foi instrumental para a derrota definitiva do chamado \u201cdesvio de direita\u201d numa das v\u00e1rias depura\u00e7\u00f5es dirigidas por \u00c1lvaro Cunhal, utilizando-se da homofobia e da repress\u00e3o da ditadura salazarista para consolidar a sua vit\u00f3ria. Assim, n\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia que Cunhal tenha se referido \u00e0 homossexualidade como \u201cuma coisa triste na sociedade, mesmo muito triste\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Como vemos, as posi\u00e7\u00f5es reacion\u00e1rias quanto \u00e0 fam\u00edlia e aos LGBTIs n\u00e3o s\u00e3o exclusividade do KKE, mas tradi\u00e7\u00e3o em v\u00e1rios PCs, introduzida no movimento comunista pela degenera\u00e7\u00e3o stalinista. Essa pol\u00edtica reacion\u00e1ria, longe de combater o identitarismo, o policlassismo e o p\u00f3s-modernismo, acabou por incentiv\u00e1-los. Carla Lonzi, italiana feminista radical, afirmou \u201cEscrevi Sputiamo su Hegel porque me inquietou muito constatar que a quase totalidade das feministas italianas dava mais cr\u00e9dito \u00e0 luta de classes do que \u00e0 sua opress\u00e3o (\u2026) As pr\u00f3prias mulheres aceitam serem consideradas \u2018segundas\u2019 se quem as convencia parecia merecer a estima do g\u00eanero humano: Marx, Lenine, Freud e todos os outros.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A partir de uma falsa concep\u00e7\u00e3o, introduzida pelo stalinismo no movimento oper\u00e1rio e aplicada amplamente pelos PCs no mundo todo, que deturpava a tradi\u00e7\u00e3o marxista no terreno das opress\u00f5es, foram crescendo ideologias opostas ao marxismo, que hoje s\u00e3o tamb\u00e9m um problema para a luta consequente contra as opress\u00f5es. Como afirmam as Teses Sobre as Opress\u00f5es da LIT-QI \u201ca deturpa\u00e7\u00e3o do marxismo pelo stalinismo \u00e9 respons\u00e1vel pelo desenvolvimento de muitas teorias reformistas que nasceram criticando uma suposta incapacidade do \u00b4marxismo\u00b4 em responder ao tema das opress\u00f5es.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Um programa s\u00f3 pode ser revolucion\u00e1rio se faz o combate consequente contra as opress\u00f5es&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O marxismo desnaturalizou as opress\u00f5es, mostrando que s\u00e3o constru\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas. Sob o capitalismo, essas opress\u00f5es s\u00e3o perpetuadas ou surgem das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o caracter\u00edsticas desse sistema. Assim, no contexto capitalista, as opress\u00f5es t\u00eam suas ra\u00edzes nas rela\u00e7\u00f5es entre capital e trabalho, essenciais para a manuten\u00e7\u00e3o do sistema de explora\u00e7\u00e3o atual. A solu\u00e7\u00e3o definitiva para as opress\u00f5es s\u00f3 ser\u00e1 alcan\u00e7ada com a supera\u00e7\u00e3o do capitalismo, o fim da explora\u00e7\u00e3o e a instaura\u00e7\u00e3o do socialismo. Mas isso em nada significa opor a luta democr\u00e1tica \u00e0 luta pelo socialismo. Como afirmava L\u00eanin em 1915:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c\u00c9 absurdo opor a revolu\u00e7\u00e3o socialista e a luta revolucion\u00e1ria contra o capitalismo a um dos problemas da democracia (\u2026). Devemos combinar a luta revolucion\u00e1ria contra o capitalismo com um programa e uma t\u00e1tica revolucion\u00e1rios para o conjunto das reivindica\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas: rep\u00fablica, mil\u00edcia, elei\u00e7\u00e3o dos funcion\u00e1rios pelo povo, igualdade jur\u00eddica das mulheres, direito das na\u00e7\u00f5es \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o etc. Enquanto existir capitalismo, todas essas reivindica\u00e7\u00f5es s\u00f3 podem ser realizadas de maneira excepcional, incompleta e desvirtuada.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O marxismo revolucion\u00e1rio parte da compreens\u00e3o que o capitalismo \u00e9 um sistema de opress\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o e que \u00e9 parte da tarefa dos revolucion\u00e1rios responder aos problemas dos oprimidos. Como dizia L\u00eanin, sobre a emancipa\u00e7\u00e3o das mulheres, \u201cse n\u00e3o est\u00e3o conosco, a contrarrevolu\u00e7\u00e3o poder\u00e1 conduzi-las contra n\u00f3s\u201d. Essa mesma l\u00f3gica temos de aplicar para o conjunto dos setores oprimidos, \u00e9 preciso ser vanguarda na luta contra as opress\u00f5es e nos postular nessas lutas de maneira revolucion\u00e1ria, combinando-as com a luta pelo socialismo. Sabendo que a classe trabalhadora \u00e9 dividida pelas opress\u00f5es, o programa revolucion\u00e1rio compreende a necessidade de \u201ccombater as opress\u00f5es para unir a classe no interesse da revolu\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, defender que os casais homoafetivos tenham legalmente acesso aos mesmos direitos que os casais heterossexuais, reconhecendo os seus direitos civis, \u00e9 parte do programa revolucion\u00e1rio consequente que combina a luta pelos direitos democr\u00e1ticos com a luta revolucion\u00e1ria. N\u00e3o h\u00e1 programa revolucion\u00e1rio, sem a luta consequente contra as opress\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Voltamos ent\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o inicial deste artigo, as concep\u00e7\u00f5es do KKE sobre a quest\u00e3o LGBTI s\u00e3o antag\u00f4nicas com o programa revolucion\u00e1rio marxista, diferente do que afirma Ivan Pinheiro, n\u00e3o s\u00e3o meramente desvios pol\u00edtico-ideol\u00f3gicos e s\u00f3 podem ser compreendidas se analisamos a evolu\u00e7\u00e3o e atua\u00e7\u00e3o dos PCs sobre o tema das opress\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>A n\u00f3s n\u00e3o resta d\u00favidas de que n\u00e3o existe um movimento internacional revolucion\u00e1rio que abarque essas concep\u00e7\u00f5es homof\u00f3bicas, seria importante que os companheiros do PCB-RR tamb\u00e9m fizessem essa reflex\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 poss\u00edvel ter um programa revolucion\u00e1rio sem um posicionamento consequente sobre as opress\u00f5es?&nbsp; Por: Joana Salay No dia 15 de fevereiro, o parlamento grego votou pela legaliza\u00e7\u00e3o do casamento homoafetivo e a ado\u00e7\u00e3o para pais do mesmo sexo, tornando a Gr\u00e9cia o 37\u00ba pa\u00eds do mundo, o 17\u00ba pa\u00eds da Uni\u00e3o Europeia e o primeiro [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":78740,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[3923,3477,238],"tags":[1657,8836],"class_list":["post-78739","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opressao","category-grecia","category-lgbt","tag-joana-salay","tag-pc-grego"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Grecia.png","categories_names":["Gr\u00e9cia","LGBT","Opress\u00e3o"],"author_info":{"name":"lena","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/b9eb35b4c023b96c29c4a145a82c6c381b68f2c889c5427106ad5aab6df45b9d?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/78739","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=78739"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/78739\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":78746,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/78739\/revisions\/78746"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/78740"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=78739"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=78739"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=78739"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}