{"id":78717,"date":"2024-04-07T20:47:53","date_gmt":"2024-04-07T20:47:53","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=78717"},"modified":"2024-04-07T20:47:57","modified_gmt":"2024-04-07T20:47:57","slug":"livro-que-fazer-e-suas-controversias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2024\/04\/07\/livro-que-fazer-e-suas-controversias\/","title":{"rendered":"\u00a0Livro Que fazer? E suas controv\u00e9rsias"},"content":{"rendered":"\n<p>Chegando aqui, no epis\u00f3dio 7, referente ao ano de 1902, L\u00eanin est\u00e1 com 32 anos e j\u00e1 \u00e9, incontestavelmente, um dos principais dirigentes do POSDR: tratemos ent\u00e3o de sintetizar, provisoriamente, os passos que deu em sua jornada revolucion\u00e1ria desde 1893, quando ingressou no partido, at\u00e9 1902, quando escreveu <strong><em>Que Fazer? Problemas candentes do nosso movimento.<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Por: Nazareno Godeiro<\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\" type=\"1\">\n<li>Suas primeiras obras s\u00e3o dedicadas a analisar a forma\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica da R\u00fassia, onde se apoiou nas elabora\u00e7\u00f5es de Marx e Engels, especialmente <strong><em>O Capital<\/em><\/strong>.<\/li>\n\n\n\n<li>A partir da\u00ed, analisou as classes sociais da R\u00fassia, para definir o sujeito social, a classe social revolucion\u00e1ria, a for\u00e7a motriz da revolu\u00e7\u00e3o, enfim, os amigos e inimigos da revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tico-burguesa russa.<\/li>\n\n\n\n<li>Em seguida, come\u00e7ou a elaborar sobre o sujeito pol\u00edtico, o partido, e sua subst\u00e2ncia: programa, princ\u00edpios de organiza\u00e7\u00e3o, estrat\u00e9gias, t\u00e1ticas, agita\u00e7\u00e3o e propaganda, quer dizer, as diversas formas de contato entre partido revolucion\u00e1rio e o proletariado.<\/li>\n\n\n\n<li>Toda esta elabora\u00e7\u00e3o ser\u00e1 confrontada nos debates internos, mas, fundamentalmente, na revolu\u00e7\u00e3o de 1905, que colocou \u00e0 prova tudo isso que L\u00eanin havia elaborado e retornou, em um c\u00edrculo conc\u00eantrico, ampliando os horizontes iniciais.<\/li>\n<\/ol>\n\n\n\n<p><strong>*****<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O s\u00e9timo epis\u00f3dio trata da obra <strong><em>Que Fazer?<\/em><\/strong> Que L\u00eanin come\u00e7ou a elaborar entre 1898 e 1901. Foi publicado em meados de mar\u00e7o de 1902, na Alemanha.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste livro, <strong>L\u00eanin exp\u00f5e sua concep\u00e7\u00e3o da estrutura do partido<\/strong>, que j\u00e1 vinha debatendo desde o ex\u00edlio siberiano com seus camaradas de infort\u00fanio e que, tamb\u00e9m, apresentou e debateu com os dirigentes da \u201cEmancipa\u00e7\u00e3o do Trabalho\u201d (Plekh\u00e1nov, Axelrod e Vera Zasulich).<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui tamb\u00e9m tem muitas frases famosas, que foram usadas, muitas vezes pelos militantes: \u201c<em>Sem teoria revolucion\u00e1ria, n\u00e3o pode haver movimento revolucion\u00e1rio<\/em>\u201d, \u201c<em>\u00c9 preciso sonhar, mas com a condi\u00e7\u00e3o de crer em nosso sonho<\/em>\u201d&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin j\u00e1 havia esbo\u00e7ado as ideias desenvolvidas neste livro em v\u00e1rias oportunidades desde 1894, que inclusive comentamos em epis\u00f3dios anteriores:<\/p>\n\n\n\n<p>Em <strong><em>&#8220;<\/em><\/strong><em>Quem s\u00e3o os &#8216;amigos do povo&#8217; e como lutam contra os social-democratas&#8221;, <\/em>de 1894, ele apresentou o proletariado como for\u00e7a motriz da revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tico-burguesa, junto com o campesinato pobre, a conex\u00e3o entre as lutas democr\u00e1ticas com as lutas pelo socialismo, a liga\u00e7\u00e3o indissol\u00favel entre a luta econ\u00f4mica e a luta pol\u00edtica, o pertencimento \u00e0 Internacional dos trabalhadores, a constru\u00e7\u00e3o do partido no movimento oper\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Na \u201c<em>Explica\u00e7\u00e3o do programa\u201d, <\/em>de1895, defendeu que a principal tarefa do partido era contribuir para o desenvolvimento da consci\u00eancia de classe do proletariado e da sua organiza\u00e7\u00e3o divulgando livros, folhetos, panfletos de agita\u00e7\u00e3o, jornais etc. e \u201c<em>indicar o verdadeiro objetivo da luta<\/em>\u201d, atrav\u00e9s de ampla agita\u00e7\u00e3o e propaganda, explicar pacientemente sua explora\u00e7\u00e3o e os objetivos finais da luta.<\/p>\n\n\n\n<p>No folheto, \u201c<em>As tarefas dos socialdemocratas russos<\/em>\u201d, de 1897, ele acrescentou as alian\u00e7as t\u00e1ticas tempor\u00e1rias (para a luta concreta), mantendo integralmente a independ\u00eancia do proletariado. Introduz a necessidade de uma organiza\u00e7\u00e3o clandestina para a luta revolucion\u00e1ria, centralizada nacionalmente, com uma s\u00f3lida implanta\u00e7\u00e3o na classe operaria industrial, utilizando a luta de massas e n\u00e3o o terrorismo individual. Retoma a elabora\u00e7\u00e3o sobre a utiliza\u00e7\u00e3o de jornais, folhetos, panfletos para um amplo trabalho de agita\u00e7\u00e3o e propaganda para desenvolver a consci\u00eancia de classe do proletariado e a prepara\u00e7\u00e3o de uma coluna de dirigentes oper\u00e1rios (agitadores e propagandistas) e, enfim, \u201c<em>um partido pol\u00edtico oper\u00e1rio independente que forme um todo \u00fanico com a socialdemocracia internacional<\/em>.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1899, dois antes de escrever <strong><em>Que fazer?<\/em><\/strong> J\u00e1 tocava na pol\u00eamica com os \u201ceconomicistas\u201d, que reproduziam as teses de revis\u00e3o do marxismo que Bernstein estava desenvolvendo na Alemanha. A\u00ed ele j\u00e1 afirmava que \u201c<em>a luta de classes do proletariado \u00e9 \u00fanica e deve necessariamente abranger a luta pol\u00edtica e econ\u00f4mica<\/em>.\u201d Explicou que o Congresso de 1889 do POSDR votou tr\u00eas princ\u00edpios fundamentais explicitados no Manifesto: \u201c<em>Em primeiro lugar, a social-democracia russa \u201cquer ser e continuar a ser um movimento de classe das massas trabalhadoras organizadas\u201d, unindo a luta pol\u00edtica e econ\u00f3mica, agitando as necessidades imediatas do proletariado e combatendo todas as express\u00f5es de opress\u00e3o, promovendo a propaganda do socialismo cient\u00edfico e das lutas por ideias democr\u00e1ticas.\u201d<\/em> Portanto, \u201c<em>Um partido oper\u00e1rio independente, na vanguarda da luta democr\u00e1tica<\/em>\u201d. Aqui L\u00eanin apresentou, sumariamente, a ideia central de <strong><em>Que fazer?<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA social-democracia n\u00e3o se reduz simplesmente a servir o movimento oper\u00e1rio, mas \u00e9 \u201ca fus\u00e3o do socialismo com o movimento oper\u00e1rio\u201d (de acordo com a defini\u00e7\u00e3o de K. Kautsky que reproduz as ideias b\u00e1sicas do <em>Manifesto Comunista<\/em>); A sua tarefa \u00e9 introduzir certos ideais socialistas no movimento oper\u00e1rio espont\u00e2neo, lig\u00e1-lo \u00e0s convic\u00e7\u00f5es socialistas, que devem corresponder ao n\u00edvel da ci\u00eancia contempor\u00e2nea, lig\u00e1-lo a uma luta pol\u00edtica sistem\u00e1tica pela democracia, como um meio de tornar o socialismo uma realidade, numa palavra, fundir este movimento espont\u00e2neo num todo indivis\u00edvel com a atividade do <em>partido revolucion\u00e1rio<\/em>.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Advogou pela forma\u00e7\u00e3o de um partido com militantes ativos, centralizados a partir de um jornal regular e dando import\u00e2ncia \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o do partido, a disciplina e a t\u00e9cnica da a\u00e7\u00e3o clandestina e a distribui\u00e7\u00e3o de tarefas de acordo \u00e0 especializa\u00e7\u00e3o individual dos militantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Em \u201c<em>Uma tend\u00eancia retr\u00f3grada na socialdemocracia russa<\/em>\u201d, de 1899, L\u00eanin explicou que: \u201c<em>A orienta\u00e7\u00e3o do socialismo para a fus\u00e3o com o movimento oper\u00e1rio \u00e9 o principal m\u00e9rito de C. Marx e F. Engels: criaram uma teoria revolucion\u00e1ria que explicou a necessidade desta fus\u00e3o e propuseram, como tarefa dos socialistas, organizar a luta de classes do proletariado<\/em>\u201d. Que era um erro grave dos \u201ceconomicistas\u201d colocar a luta pol\u00edtica contra o absolutismo nas m\u00e3os da burguesia, pois esta n\u00e3o lutaria de forma efetiva contra o absolutismo. L\u00eanin observava a verdadeira rela\u00e7\u00e3o que devia haver entre os oper\u00e1rios de vanguarda e a massa oper\u00e1ria. Trabalhava por formar uma \u201cintelectualidade oper\u00e1ria\u201d que dirigiria a massa oper\u00e1ria atrasada. Os marxistas, continuou L\u00eanin neste artigo, utilizam a luta econ\u00f4mica como base para organizar os trabalhadores, para desenvolver essa luta espont\u00e2nea em luta de classe contra o sistema capitalista. A luta econ\u00f4mica, por si, n\u00e3o tem nada de socialista. A tarefa dos socialistas \u00e9 contribuir para a fus\u00e3o da luta econ\u00f4mica com a luta pol\u00edtica numa \u00fanica luta de classes do conjunto das massas trabalhadoras. Por\u00e9m, ao ir ao movimento oper\u00e1rio n\u00e3o se podia esquecer que o partido representava os interesses estrat\u00e9gicos da classe operaria internacional. Devia-se utilizar todas as t\u00e1ticas, n\u00e3o ter venera\u00e7\u00e3o por nenhum meio de luta. Seu apoio a todo setor que lute revolucionariamente contra a autocracia <strong>n\u00e3o pode esquecer que o POSDR \u00e9 o partido da revolu\u00e7\u00e3o social, <\/strong>inimigo implac\u00e1vel de todas as classes exploradoras.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1900, no seu artigo<em> \u201cTarefas urgentes do nosso movimento\u201d <\/em>insistiu em que o centro das atividades do partido era levar as ideias socialistas e a consci\u00eancia pol\u00edtica \u00e0 massa prolet\u00e1ria e organizar o partido revolucion\u00e1rio, <strong>ligado indissoluvelmente <\/strong>ao movimento oper\u00e1rio espont\u00e2neo. Aqui formulou pela primeira vez a vis\u00e3o do militante como um membro ativo, ponto que vai \u201crachar\u201d o partido em 1903, no II Congresso do POSDR.<\/p>\n\n\n\n<p>Como voc\u00eas podem ver, os elementos centrais que ser\u00e3o desenvolvidos no livro <strong><em>Que Fazer?<\/em><\/strong> J\u00e1 haviam sido elaborados e discutidos coletivamente, pelo menos durante 3 anos, havendo amplo acordo entre a dire\u00e7\u00e3o do partido, inclusive foi discutido seu conte\u00fado na reda\u00e7\u00e3o da \u201c<em>Iskra<\/em>\u201d em janeiro de 1902. Portanto, foi uma obra coletiva. Depois do racha no congresso, em 1903, todos passaram a criticar duramente o livro.<\/p>\n\n\n\n<p>O t\u00edtulo desse livro foi uma refer\u00eancia direta \u00e0 novela do grande revolucion\u00e1rio Chernichevski<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a> (de quem L\u00eanin sofreu grande influ\u00eancia pol\u00edtica):<\/p>\n\n\n\n<p><em>O romance de Chernishevski fascinou e cativou meu irm\u00e3o. Tamb\u00e9m me cativou. Isso me deixou totalmente sobrecarregado. [\u2026] N\u00e3o adianta ler quando o leite materno ainda n\u00e3o secou dos l\u00e1bios. O romance de Chernishevski \u00e9 muito complexo, muito cheio de pensamentos e ideias, para ser compreendido e apreciado por uma pessoa muito jovem. Tentei l\u00ea-lo sozinho quando tinha quatorze anos. [\u2026] Foi uma leitura superficial, in\u00fatil, que n\u00e3o me levou a lugar nenhum. Mais tarde, por\u00e9m, ap\u00f3s a execu\u00e7\u00e3o de meu irm\u00e3o, sabendo que o romance de Chernishevski era uma de suas obras favoritas, comecei o que era uma verdadeira leitura e fiquei absorto no livro n\u00e3o apenas por v\u00e1rios dias, mas por v\u00e1rias semanas. S\u00f3 ent\u00e3o compreendi toda a sua profundidade. \u00c9 um trabalho que deixa um exemplo para toda a vida. [\u2026] O grande m\u00e9rito de Chernishevski \u00e9 que ele n\u00e3o s\u00f3 mostrou que toda pessoa que pensa corretamente e \u00e9 verdadeiramente honesta deve ser um revolucion\u00e1rio, mas tamb\u00e9m algo mais importante: como deveria ser um revolucion\u00e1rio, que regras ele deveria seguir, como ele deve abordar seus objetivos e quais meios e m\u00e9todos voc\u00ea deve usar para alcan\u00e7\u00e1-los. [\u2026] Antes de conhecer Marx, Engels e Plekhanov, Chernishevski era o \u00fanico que tinha uma influ\u00eancia dominante sobre mim, e tudo come\u00e7ou com Que fazer?<\/em> <a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a><em><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Este livro de L\u00eanin foi publicado em meio a uma grave crise econ\u00f4mica e industrial, reflexo de uma crise geral do mercado mundial capitalista (corroborando as an\u00e1lises da R\u00fassia feitas por L\u00eanin em v\u00e1rios livros), que acelerou a crise e a quebra dos camponeses pobres e o fechamento generalizado de f\u00e1bricas. Segundo Jean Jacques Marie:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cEm tr\u00eas anos \u2013 de 1900 a 1903 \u2013 3.000 empresas fecharam as portas. Em 1901-1902, a metalurgia russa despediu um ter\u00e7o da sua for\u00e7a de trabalho. Os trabalhadores respondem com a greve: em mar\u00e7o de 1901 em Batum, onde o ex\u00e9rcito dispara e mata catorze grevistas, em novembro de 1902 em Rostov, em julho de 1903 em Baku e Kiev, onde os cossacos matam oito grevistas. Camponeses se revoltam em mais de 150 localidades, ocupam terras e incendeiam pal\u00e1cios de grandes latifundi\u00e1rios\u201d.<\/em><a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\"><em><strong>[3]<\/strong><\/em><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Esta grave crise geral, impulsionou a abertura de uma situa\u00e7\u00e3o pr\u00e9-revolucion\u00e1ria no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, em 1902 foi fundado o Partido Socialista Revolucion\u00e1rio (SR), que reuniu os militantes e tradi\u00e7\u00f5es da corrente populista, com base no campesinato, cujo principal meio de luta continua sendo os atentados a autoridades governamentais.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin vai \u00e0 luta pol\u00edtica e ideol\u00f3gica com este partido, participando de uma rodada de debates sobre o campo russo, com os dirigentes dos SR (Chernov e outros) nos principais pa\u00edses da Europa.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste ano, L\u00eanin preparou notas cr\u00edticas e adendos ao <strong>esbo\u00e7o do programa do partido<\/strong>, que estava sendo elaborado por Plekhanov. O esbo\u00e7o foi discutido na reda\u00e7\u00e3o do Iskra, para ser apresentado no II Congresso do POSDR, que se realizar\u00e1 em 1903. Foi publicado na edi\u00e7\u00e3o de Iskra, em 1 de junho de 1902. No final, depois de v\u00e1rias pol\u00eamicas com Plekh\u00e1nov, L\u00eanin conseguiu introduzir no programa toda a parte mais importante, a te\u00f3rica, que definia a estrutura econ\u00f4mica e social da R\u00fassia, uma parte sobre o campo e a conclus\u00e3o do programa. Por insist\u00eancia de L\u00eanin, o programa incorporou o <strong>car\u00e1ter prolet\u00e1rio do partido<\/strong> e a proposta de incorpora\u00e7\u00e3o da <strong>ditadura do proletariado<\/strong>. Portanto, se aceitou a maioria das emendas de L\u00eanin. Este programa s\u00f3 foi modificado em 1919, no VIII congresso do Partido Comunista (bolchevique) da R\u00fassia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>RESENHA DE <em>QUE FAZER?<\/em> PROBLEMAS CANDENTES DO NOSSO MOVIMENTO<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>CAP\u00cdTULO I: DOGMATISMO E &#8220;LIBERDADE DE CR\u00cdTICA&#8221;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Uma caracter\u00edstica do L\u00eanin, quando come\u00e7ava um debate sempre partia das quest\u00f5es te\u00f3ricas gerais, antes de entrar nas diferen\u00e7as concretas ou conjunturais.<\/p>\n\n\n\n<p>Este cap\u00edtulo ele trata de caracterizar o significado de uma corrente internacional que pretendia revisar os fundamentos do marxismo: tal corrente existia nos principais pa\u00edses onde se organizava os partidos socialdemocratas (Fran\u00e7a, Inglaterra, Alemanha e R\u00fassia \u2013 a corrente economicista era solid\u00e1ria com Bernstein).<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin resumiu, j\u00e1 no in\u00edcio do cap\u00edtulo, as posi\u00e7\u00f5es fundamentais da tendencia revisionista internacional:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA social-democracia deve deixar de ser o partido da revolu\u00e7\u00e3o social e tornar-se um partido democr\u00e1tico das reformas sociais. Bernstein apoiou esta afirma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica com toda uma bateria de \u201cnovos\u201d argumentos e racioc\u00ednios dispostos de forma bastante harmoniosa. Foi negada a possibilidade de basear o socialismo em argumentos cient\u00edficos e demonstrar que ele \u00e9 necess\u00e1rio e inevit\u00e1vel do ponto de vista da concep\u00e7\u00e3o materialista da hist\u00f3ria; foi negado o fato da mis\u00e9ria crescente, da proletariza\u00e7\u00e3o e da exacerba\u00e7\u00e3o das contradi\u00e7\u00f5es capitalistas; O pr\u00f3prio conceito de \u201c<em>objetivo final<\/em>\u201d foi declarado infundado e a ideia da ditadura do proletariado foi categoricamente rejeitada: foi negada que exista oposi\u00e7\u00e3o de princ\u00edpios entre liberalismo e socialismo. A <em>teoria da luta de classes <\/em>foi negada, afirmando que \u00e9 inaplic\u00e1vel a uma sociedade estritamente democr\u00e1tica, governada de acordo com a da maioria, etc.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Para ele, se tratava de um \u201cgiro ao socialreformismo burgu\u00eas\u201d e a comprova\u00e7\u00e3o se d\u00e1 com a entrada, em 1899, de um socialdemocrata franc\u00eas, Millerand, como ministro do governo burgu\u00eas de Waldeck-Rousseau. No governo, esse ministro \u201csocialista\u201d fez vista grossa ao assassinato de oper\u00e1rios e felicitou o tzar russo que era o basti\u00e3o da contrarrevolu\u00e7\u00e3o europeia.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta concilia\u00e7\u00e3o de classes levava a \u201c<em>prostituir a consci\u00eancia socialista das massas trabalhadoras: a \u00fanica base que pode garantir a vit\u00f3ria<\/em>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A express\u00e3o espec\u00edfica russa dessa corrente internacional era o \u201ceconomicismo\u201d: \u201c<em>que o proletariado se encarregue da luta econ\u00f4mica \u2026e que a intelectualidade marxista se junte com os liberais para fazer a luta pol\u00edtica<\/em>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, o economicismo russo relegava a teoria para os \u201cacad\u00eamicos\u201d e \u201cintelectuais burgueses\u201d enquanto L\u00eanin dizia que \u201c<em>Sem teoria revolucion\u00e1ria n\u00e3o pode haver movimento revolucion\u00e1rio<\/em>\u201d. Para L\u00eanin, a indiferen\u00e7a perante a teoria marxista revela a indig\u00eancia de organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias que, para desenvolver-se, necessitam partir da experiencia internacional dos partidos socialistas agrupados na Internacional, mas sem copiar <em>ipsis literis<\/em>, pois cada pa\u00eds tem especificidades que determinam seu programa, sua estrat\u00e9gia e suas t\u00e1ticas. Para conseguir isso, deve-se dar import\u00e2ncia \u00e0 teoria, n\u00e3o decorar e repetir dogmaticamente o exemplo exterior.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin, recuperando uma orienta\u00e7\u00e3o de Engels, diz que a luta dos socialdemocratas combina tr\u00eas formas de luta: a luta te\u00f3rica (ideol\u00f3gica, cient\u00edfica), a luta pol\u00edtica (pela dire\u00e7\u00e3o da sociedade e do Estado) e a luta econ\u00f4mica-pr\u00e1tica (resist\u00eancia aos capitalistas). Veja nas palavras de Engels:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPela primeira vez desde a exist\u00eancia do movimento oper\u00e1rio, a luta desenvolve-se metodicamente nas suas tr\u00eas dire\u00e7\u00f5es combinadas e inter-relacionadas: te\u00f3rica, pol\u00edtica e econ\u00f3mico-pr\u00e1tica (resist\u00eancia aos capitalistas). Neste ataque conc\u00eantrico, por assim dizer, reside precisamente a for\u00e7a e a invencibilidade do movimento alem\u00e3o. (\u2026) Para isso ter\u00e3o que redobrar os esfor\u00e7os em todos os aspectos da luta e da agita\u00e7\u00e3o. Acima de tudo, os l\u00edderes devem educar-se cada vez mais em todas as quest\u00f5es te\u00f3ricas, livrar-se da influ\u00eancia da fraseologia tradicional, t\u00edpica da antiga concep\u00e7\u00e3o de mundo, e ter sempre em mente que o socialismo, desde que se tornou uma ci\u00eancia, exige que seja tratado como tal, isto \u00e9, que seja estudado. A consci\u00eancia assim alcan\u00e7ada, e cada vez mais l\u00facida, deve ser difundida entre as massas trabalhadoras com cada vez maior zelo, e tanto a organiza\u00e7\u00e3o do Partido como a dos sindicatos devem ser cimentadas cada vez mais fortemente.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A combina\u00e7\u00e3o destas tr\u00eas formas de luta \u00e9 que permitiria, segundo L\u00eanin, ao proletariado russo realizar a mais dif\u00edcil tarefa frente a todos os proletariados: derrubar o mais poderoso baluarte da contrarrevolu\u00e7\u00e3o europeia: a autocracia russa. Realizar essa tarefa converteria o proletariado russo na vanguarda do proletariado internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Justamente por enfocar a constru\u00e7\u00e3o do partido combinando essas tr\u00eas formas de luta, por\u00e9m subordinando (sem secundarizar) a luta te\u00f3rica e a econ\u00f4mica-pratica \u00e0 luta pol\u00edtica, foi que L\u00eanin conseguiu construir um partido que tornou realidade esse prognostico.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>CAP\u00cdTULO II: A ESPONTANEIDADE DAS MASSAS E A CONSCI\u00caNCIA DA SOCIALDEMOCRACIA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O centro da pol\u00eamica entre L\u00eanin e os economicistas era a rela\u00e7\u00e3o entre a luta espont\u00e2nea das massas e a consci\u00eancia socialista.<\/p>\n\n\n\n<p>A tendencia economicista cresceu na socialdemocracia russa a partir do entusiasmo dos jovens militantes que assumiram o comando das a\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias em grandes greves oper\u00e1rias, substituindo os quadros mais antigos, que foram presos e desterrados para Sib\u00e9ria. Come\u00e7aram a desenvolver uma ideia de que \u201cconseguir um aumento de um centavo por rublo estava mais pr\u00f3ximo e valia mais que todo socialismo e toda pol\u00edtica\u201d. Atacavam os \u201cvelhos\u201d que, segundo eles, superestimavam o papel do elemento consciente na luta. L\u00eanin retrucou dizendo: \u201c&#8230;.tudo que seja diminuir o papel do &#8220;elemento consciente&#8221;, o papel da socialdemocracia, significa \u2014 independente por completo da vontade de quem o faz \u2014 aumentar a influ\u00eancia da ideologia burguesa no proletariado.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O desenvolvimento espont\u00e2neo do movimento oper\u00e1rios leva \u00e0 sua subordina\u00e7\u00e3o \u00e0 ideologia burguesa economicista, que separada da luta socialista, subjuga ideologicamente o movimento oper\u00e1rio \u00e0 burguesia.<\/p>\n\n\n\n<p>Historiando o ascenso do proletariado industrial na d\u00e9cada de 1890, L\u00eanin disse que este j\u00e1 tinha mais elementos de consci\u00eancia que os motins plebeus do s\u00e9culo XVIII, que quebravam as m\u00e1quinas. Por isso, afirmou que \u201cIsso demonstra que, no fundo, o &#8220;elemento espont\u00e2neo n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o a forma embrion\u00e1ria do consciente.\u201d Mas, assim mesmo n\u00e3o deixavam de ser embri\u00f5es da luta de classes, n\u00e3o passavam de lutas econ\u00f4micas e sindicais, movimentos espont\u00e2neos, onde os oper\u00e1rios adquiriam consci\u00eancia sindical, antipatronal (chegando, no m\u00e1ximo, a apresentar reivindica\u00e7\u00f5es ao governo para melhoria de suas condi\u00e7\u00f5es de trabalho). Ainda n\u00e3o era uma luta socialista, onde os oper\u00e1rios adquiriam uma consci\u00eancia socialista (\u201coposi\u00e7\u00e3o inconcili\u00e1vel entre seus interesses e todo o regime pol\u00edtico e social contempor\u00e2neo\u201d, isto \u00e9, ter consci\u00eancia da necessidade de realizar uma revolu\u00e7\u00e3o violenta para derrubar o capitalismo).<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, desde o in\u00edcio da organiza\u00e7\u00e3o socialdemocrata russa seu objetivo era casar as lutas operarias com o socialismo, atrav\u00e9s da agita\u00e7\u00e3o e propaganda dos militantes do partido no movimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde os primeiros programas elaborados pelos socialdemocratas russos j\u00e1 se estabeleceu que a principal tarefa dos militantes era desenvolver a consci\u00eancia de classe, socialista, no meio oper\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, se lutou desde o in\u00edcio da constru\u00e7\u00e3o do partido marxista russo para unir a juventude revolucion\u00e1ria que abra\u00e7ou o marxismo com o movimento grevista do proletariado industrial e esta organiza\u00e7\u00e3o embrion\u00e1ria do POSDR tendia a unir a luta grevista com o movimento revolucion\u00e1rio contra a autocracia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cDissemos que os trabalhadores n\u00e3o poderiam ter consci\u00eancia social-democrata. Isso s\u00f3 poderia ser trazido de fora. A hist\u00f3ria de todos os pa\u00edses mostra que a classe trabalhadora est\u00e1 em condi\u00e7\u00f5es de desenvolver exclusivamente com as suas pr\u00f3prias for\u00e7as apenas uma consci\u00eancia sindical, isto \u00e9, a convic\u00e7\u00e3o de que \u00e9 necess\u00e1rio agrupar-se em sindicatos, lutar contra os patr\u00f5es, exigir que o Governo promulga tais ou tais leis necess\u00e1rias para os trabalhadores, etc.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A luta dos trabalhadores surgiu espontaneamente no local de trabalho, a partir da explora\u00e7\u00e3o capitalista desatada pelos patr\u00f5es. O marxismo surgiu da jun\u00e7\u00e3o de tr\u00eas ci\u00eancias: econ\u00f4micas, filos\u00f3ficas e pol\u00edticas do s\u00e9culo XIX, elaborado por pessoas instru\u00eddas, na maioria oriundas da intelectualidade burguesa. A uni\u00e3o destes dois elementos contradit\u00f3rios \u00e9 o que permitiu a forma\u00e7\u00e3o dos partidos socialdemocratas.<\/p>\n\n\n\n<p>O partido revolucion\u00e1rio \u00e9 o \u00fanico instrumento que pode unir estes dois polos: a luta espont\u00e2nea e a ci\u00eancia marxista, a ci\u00eancia da transforma\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>A luta espont\u00e2nea sem o partido revolucion\u00e1rio se converte em sindicalismo de resultados ou explos\u00f5es selvagens que se perdem como energia dissipada no ar. A ci\u00eancia marxista sem a espontaneidade das lutas oper\u00e1rias se transforma em academicismo (teoria separada da vida), em livros empoeirados, hermeticamente fechados em estantes seculares, sem vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Chegando aqui, L\u00eanin citou longamente a Kautsky, que exp\u00f4s a experi\u00eancia do marxismo, nos \u00faltimos 50 anos, de 1850 a 1900, em rela\u00e7\u00e3o ao tema:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO projeto diz: \u201cQuanto mais o proletariado cresce com o desenvolvimento capitalista, mais for\u00e7ado ele \u00e9 a empreender a luta contra o capitalismo e mais capaz ele \u00e9 de empreend\u00ea-la. O proletariado toma consci\u00eancia de que o socialismo \u00e9 poss\u00edvel e necess\u00e1rio\u201d. Nesta ordem de ideias, a consci\u00eancia socialista aparece como o resultado necess\u00e1rio e imediato da luta de classes do proletariado. Isso \u00e9 claramente falso. \u00c9 claro que o socialismo, como doutrina, tem as suas ra\u00edzes nas rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas atuais, tal como a luta de classes do proletariado; e esta luta de classes surge da luta contra a pobreza e a mis\u00e9ria das massas, a pobreza e a mis\u00e9ria que o capitalismo engendra. Agora, o socialismo e a luta de classes surgem juntos, mas n\u00e3o derivam um do outro; eles surgem de premissas diferentes.<\/p>\n\n\n\n<p>A consci\u00eancia socialista moderna s\u00f3 pode emergir de um conhecimento cient\u00edfico profundo. Com efeito, a ci\u00eancia econ\u00f4mica contempor\u00e2nea \u00e9 uma premissa da produ\u00e7\u00e3o capitalista no mesmo grau que, digamos, a tecnologia moderna; e o proletariado, por mais que deseje, n\u00e3o pode criar nem um nem outro; ambos surgem do processo social contempor\u00e2neo. Pois bem, o portador da ci\u00eancia n\u00e3o \u00e9 o proletariado, mas sim a <em>intelectualidade burguesa<\/em> (sublinhada por K. K.): foi dos c\u00e9rebros de alguns membros deste setor que surgiu o socialismo moderno, e foram eles que o transmitiram aos prolet\u00e1rios conscientes, que o introduz na luta de classes do proletariado onde as condi\u00e7\u00f5es o permitem. Assim, a consci\u00eancia socialista \u00e9 algo introduzido de fora na luta de classes do proletariado, e n\u00e3o algo que surgiu espontaneamente dentro dele.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin fez uma emenda nesta tese, que considerava corret\u00edssima, por\u00e9m, ampliou a vis\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cIsto n\u00e3o significa, evidentemente, que os trabalhadores n\u00e3o participem nesta elabora\u00e7\u00e3o. Mas eles n\u00e3o participam como trabalhadores [isto \u00e9, como participantes na luta espont\u00e2nea, NZ], mas como te\u00f3ricos do socialismo, como os Proudhon e os Weitling; ou seja, s\u00f3 participam no momento e na medida em que conseguem, em maior ou menor grau, dominar a ci\u00eancia do seu s\u00e9culo e faz\u00ea-la avan\u00e7ar. E para que o consigam com maior frequ\u00eancia \u00e9 necess\u00e1rio preocupar-se ao m\u00e1ximo em elevar o n\u00edvel de consci\u00eancia dos trabalhadores em geral; \u00e9 necess\u00e1rio que n\u00e3o se limitem ao quadro artificialmente restrito das \u201cpublica\u00e7\u00f5es para trabalhadores\u201d, mas aprendam a assimilar cada vez mais publica\u00e7\u00f5es gerais. Seria ainda mais justo dizer, em vez de \u201cn\u00e3o se limite\u201d, que \u201cn\u00e3o fique preso\u201d, porque os trabalhadores leem e querem ler o que foi escrito tamb\u00e9m para os intelectuais, e apenas alguns maus intelectuais acreditam que &#8220;para os trabalhadores&#8221;, basta relatar o que acontece nas f\u00e1bricas e repetir coisas conhecidas h\u00e1 muito tempo\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Este par\u00eantese \u00e9 muito importante porque n\u00e3o excluiu os oper\u00e1rios na elabora\u00e7\u00e3o do programa, da estrat\u00e9gia e das t\u00e1ticas que ser\u00e3o levadas ao movimento oper\u00e1rio para desenvolver a consci\u00eancia socialista, apenas encontra o \u00fanico caminho por onde os oper\u00e1rios podem se converter em \u201cintelectuais\u201d oper\u00e1rios: como militantes, no interior do partido revolucionario. Esta ser\u00e1 uma obsess\u00e3o de L\u00eanin e uma das caracter\u00edsticas do partido leninista: a forma\u00e7\u00e3o de uma coluna de dirigentes oper\u00e1rios profissionais, dedicados \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o, que se formar\u00e3o em p\u00e9 de igualdade com os militantes provenientes de outros setores sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin concluiu este cap\u00edtulo mostrando o erro fundamental da nova corrente \u201ceconomicista\u201d: \u201cadora\u00e7\u00e3o da espontaneidade\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao contr\u00e1rio dos economicistas que op\u00f5e de forma absoluta a espontaneidade X consci\u00eancia, L\u00eanin afirmou que a espontaneidade das massas exige uma elevada consci\u00eancia do partido marxista revolucion\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>CAP\u00cdTULO III &#8211; POL\u00cdTICA SINDICALISTA E POL\u00cdTICA SOCIALDEMOCRATA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A luta econ\u00f4mica (gremial, sindical, de resist\u00eancia aos capitalistas) teve um ascenso gigantesco na R\u00fassia na passada do s\u00e9culo XIX ao XX. Os social democratas tiveram um papel importante confeccionando panfletos de den\u00fancias dos capitalistas\/fabricantes quanto \u00e0s condi\u00e7\u00f5es salariais e de trabalho. Essa foi a forma mais f\u00e1cil que os revolucion\u00e1rios tiveram para penetrar e dirigir as lutas oper\u00e1rias. Por\u00e9m, essa luta econ\u00f4mica \u2013 a luta para vender a for\u00e7a de trabalho em melhores condi\u00e7\u00f5es aos capitalistas &#8211; eram, para L\u00eanin, \u201co ponto de partida para despertar a consci\u00eancia de classe e a difus\u00e3o do socialismo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, L\u00eanin n\u00e3o op\u00f4s a luta econ\u00f4mica e sindical \u00e0 luta socialista. Apenas ligava uma \u00e0 outra, subordinando a luta econ\u00f4mica \u00e0 luta pelo socialismo. Os economicistas opunham a luta econ\u00f4mica \u00e0 luta pol\u00edtica e socialista, subordinando esta \u00e0 luta sindical, ao apresentar uma vis\u00e3o rebaixada da luta pol\u00edtica, que se reduzia a formular exig\u00eancias ao governo que promulgue uma lei que favore\u00e7a aos trabalhadores e, no m\u00e1ximo, ser hostil ao tzar e a patronal.<\/p>\n\n\n\n<p>Veja como Mart\u00ednov, o economicista mais consequente, explicou essa vis\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A luta pol\u00edtica do proletariado \u00e9 s\u00f3 a forma mais desenvolvida, ampla e eficaz da luta econ\u00f4mica&#8221; (programa de Rab. Delo: veja n\u00famero 1, p\u00e1g. 3).<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Na atualidade, os socialdemocratas tem como tarefa dar \u00e0 luta econ\u00f4mica, na medida do poss\u00edvel, um car\u00e1ter pol\u00edtico&#8221; (Mart\u00ednov no n\u00fam. 10, p\u00e1g. 42).<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A luta econ\u00f4mica \u00e9 o meio que se pode aplicar, com mais amplitude, para incorporar as massas \u00e0 luta pol\u00edtica ativa&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo L\u00eanin, o erro dos economicistas era que encerrava o movimento no estreito marco das lutas econ\u00f4micas que, por mais importante que fossem, n\u00e3o englobavam toda a pol\u00edtica do pa\u00eds. Para realizar uma luta pol\u00edtica e educar politicamente a classe trabalhadora pode-se partir de muitos acontecimentos da vida \u2013 n\u00e3o necessariamente da rela\u00e7\u00e3o entre trabalhadores e patr\u00f5es no marco trabalhista &#8211; que mostram a podrid\u00e3o do sistema e do governo (por exemplo, o assassinato de camponeses, a opress\u00e3o contra os povos asi\u00e1ticos, dominados pelos russos ou o alistamento militar de estudantes grevistas).<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cDar a luta econ\u00f4mica um car\u00e1ter pol\u00edtico\u201d significava, para os economicistas, introduzir nos discursos sindicais exig\u00eancias aos governantes de medidas legislativas e administrativas que melhorassem as condi\u00e7\u00f5es de trabalho de uma determinada categoria profissional, isto \u00e9, lutar por <em>reformas econ\u00f4micas<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso n\u00e3o significava \u201cdesenvolver a consci\u00eancia de classe (a consci\u00eancia socialista) entre os trabalhadores\u201d, ao contr\u00e1rio, levava a classe trabalhadora a confiar que o sistema capitalista podia lhe garantir, atrav\u00e9s de melhorias paulatinas, boas condi\u00e7\u00f5es de vida e trabalho sob o capitalismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Significava transformar a luta socialista pela luta por reformas econ\u00f4micas, significava transformar o partido da revolu\u00e7\u00e3o socialista por um partido reformista.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin defendia uma rela\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica entre reforma e revolu\u00e7\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cA social-democracia revolucion\u00e1ria sempre incluiu e inclui a luta pelas reformas nas suas atividades. (\u2026) Numa palavra, subordina a luta pelas reformas, como a parte ao todo, \u00e0 luta revolucion\u00e1ria pela liberdade e pelo socialismo\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Quer dizer, o marxismo utiliza a luta por reformas como alavancas para a luta revolucionaria e socialista.<\/p>\n\n\n\n<p>Mart\u00ednov, aprofundando sua vis\u00e3o economicista, tentou modificar a vis\u00e3o da agita\u00e7\u00e3o e da propaganda do partido no interior do movimento:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAgora ter\u00edamos que definir a diferen\u00e7a entre propaganda e agita\u00e7\u00e3o de uma forma diferente da que Plekhanov fez&#8221; (Mart\u00ednov acaba de citar as palavras de Plekhanov: &#8220;O propagandista comunica muitas ideias a uma ou v\u00e1rias pessoas, enquanto o agitador comunica uma \u00fanica ideia ou algumas ideias, para toda uma multid\u00e3o.&#8221;) &#8220;Entendemos por propaganda a explica\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria de todo o regime atual ou das suas manifesta\u00e7\u00f5es parciais, independentemente de ser feita de forma acess\u00edvel, apenas para algumas pessoas ou para a multid\u00e3o. Por agita\u00e7\u00e3o, no sentido estrito da palavra (sic), entender\u00edamos o apelo dirigido \u00e0s massas para determinadas a\u00e7\u00f5es concretas, ajuda \u00e0 interven\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria direta do proletariado na vida social.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Para os marxistas e revolucion\u00e1rios, a agita\u00e7\u00e3o e a propaganda s\u00e3o os meios que o partido utiliza para se relacionar com a classe trabalhadora e seus elementos de vanguarda. Por isso, ter uma vis\u00e3o correta do que \u00e9 uma ou outra \u00e9 muito importante. Mart\u00ednov queria modificar essa rela\u00e7\u00e3o opondo agita\u00e7\u00e3o (que seria o chamado a \u201ca\u00e7\u00f5es concretas\u201d do proletariado) \u00e0 propaganda (que seria a \u201cexplica\u00e7\u00e3o da sociedade em geral\u201d).<\/p>\n\n\n\n<p>Apresentamos uma longa cita\u00e7\u00e3o de L\u00eanin, em resposta a Mart\u00ednov sobre este problema porque essa rela\u00e7\u00e3o entre agita\u00e7\u00e3o e propaganda nem sempre \u00e9 entendida corretamente at\u00e9 hoje:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cParabenizamos a social-democracia russa \u2013 e internacional \u2013 por esta nova, mais rigorosa e profunda terminologia martinoviana. At\u00e9 agora acredit\u00e1vamos (com Plekhanov e com todos os l\u00edderes do movimento oper\u00e1rio internacional) que se um propagandista trata, por exemplo, com o problema do desemprego, ele deve explicar a natureza capitalista das crises, mostrar a causa que as torna inevit\u00e1veis \u200b\u200bem sociedade atual, exp\u00f5em a necessidade de transformar a sociedade capitalista em socialista, etc.<\/p>\n\n\n\n<p>Em uma palavra, deve comunicar \u201cmuitas ideias\u201d, tantas que todas elas juntas possam ser assimiladas imediatamente por apenas algumas (relativamente) pessoas. Por outro lado, o agitador, ao falar sobre este mesmo problema, tomar\u00e1 um exemplo, o mais proeminente e mais conhecido do seu p\u00fablico \u2013 digamos, o de uma fam\u00edlia desempregada que morre de fome, o aumento da mis\u00e9ria, etc. , aproveitando este facto conhecido de todos, dirigir\u00e1 todos os seus esfor\u00e7os para incutir na \u201cmassa\u201d uma \u00fanica ideia: a ideia de qu\u00e3o absurda \u00e9 a contradi\u00e7\u00e3o entre o aumento da riqueza e o aumento da mis\u00e9ria; Ele tentar\u00e1 despertar o descontentamento e a indigna\u00e7\u00e3o nas massas contra esta flagrante injusti\u00e7a, deixando a explica\u00e7\u00e3o completa desta contradi\u00e7\u00e3o ao propagandista. Por isso, o propagandista atua principalmente por meio da palavra impressa, enquanto o agitador atua por meio da palavra falada. S\u00e3o exigidas qualidades diferentes do propagandista e do agitador. Assim, chamaremos de propagandistas Kautsky e Lafargue; agitadores, Bebel e Guesde. Mas segregar um terceiro terreno ou terceira fun\u00e7\u00e3o da atividade pr\u00e1tica, incluindo nesta fun\u00e7\u00e3o \u201co apelo dirigido \u00e0s massas para determinadas a\u00e7\u00f5es concretas\u201d, constitui o maior erro, pois o \u201cchamado\u201d, como ato isolado, ou \u00e9 um ato natural e complemento inevit\u00e1vel do tratado te\u00f3rico, do panfleto de propaganda e do discurso de agita\u00e7\u00e3o, ou \u00e9 uma fun\u00e7\u00e3o puramente executiva\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Veja que L\u00eanin ampliou a vis\u00e3o de agita\u00e7\u00e3o e propaganda, que se restringia \u00e0 quantidade de pessoas, precisando a propaganda como a explica\u00e7\u00e3o mais detalhada da agita\u00e7\u00e3o e n\u00e3o apenas a uma propaganda individual ou uma palestra para um audit\u00f3rio reduzido. Segundo L\u00eanin, a propaganda pode ser feita para muitas pessoas (ainda que pela profundidade e amplitude do assunto, possa ser entendida por uma parte do conjunto). Hoje, com a internet e as redes sociais, essa vis\u00e3o de propaganda ampla, se tornou mais importante ainda.<\/p>\n\n\n\n<p>Mart\u00ednov reduzia a agita\u00e7\u00e3o apenas a palavras de ordem para a a\u00e7\u00e3o do movimento, pois da luta econ\u00f4mica brotaria, naturalmente, a consci\u00eancia socialista. Por isso, a atividade central se resumia a agita\u00e7\u00e3o e as den\u00fancias econ\u00f4micas. Secundarizava completamente a agita\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, as den\u00fancias pol\u00edticas e a propaganda, cujo objetivo era uma explica\u00e7\u00e3o mais aprofundada da sociedade capitalista, explica\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para a educa\u00e7\u00e3o do proletariado em luta, para a eleva\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia de classe, para ganhar o proletariado para uma consci\u00eancia socialista, para que entendam, partindo de fatos corriqueiros que impactam toda a sociedade, da agita\u00e7\u00e3o de den\u00fancias pol\u00edticas, a necessidade de uma revolu\u00e7\u00e3o violenta para transformar o sistema. Esse entendimento, por sua amplitude, seria alcan\u00e7ado por uma parte do audit\u00f3rio: os oper\u00e1rios avan\u00e7ados, mais conscientes, que o partido trataria de recrutar para suas fileiras.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin sempre insistia que essa atividade de elevar a consci\u00eancia de classe (que s\u00f3 era poss\u00edvel de alcan\u00e7ar, utilizando uma agita\u00e7\u00e3o centrada em den\u00fancias pol\u00edticas e uma explica\u00e7\u00e3o paciente, atrav\u00e9s da propaganda) era a atividade central de um partido marxista revolucion\u00e1rio, que subordinava todas as outras atividades do partido, pelo menos enquanto era um partido de vanguarda, na sua \u201cinf\u00e2ncia\u201d ou \u201cadolesc\u00eancia\u201d, cuja tarefa central era convencer a maioria dos trabalhadores da justeza das suas posi\u00e7\u00f5es, em contraposi\u00e7\u00e3o aos outros partidos.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir daqui, L\u00eanin explicou como desenvolver a consci\u00eancia pol\u00edtica da classe trabalhadora at\u00e9 chegar numa consci\u00eancia socialista.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao fazer isso, ele ampliou o conceito expressado por Kautsky de que a \u201cconsci\u00eancia socialista \u00e9 introduzida de fora da luta de classes do proletariado\u201d:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Todos concordam\u201d que \u00e9 necess\u00e1rio desenvolver a consci\u00eancia pol\u00edtica da classe trabalhadora. Mas <em>como<\/em> fazer e o que \u00e9 necess\u00e1rio para fazer? A luta econ\u00f4mica \u201cfaz com que os trabalhadores pensem\u201d apenas sobre quest\u00f5es relativas \u00e0 atitude do Governo para com a classe trabalhadora; Portanto, <em>por mais que nos esforcemos<\/em> para &#8220;dar \u00e0 pr\u00f3pria luta econ\u00f3mica um car\u00e1ter pol\u00edtico&#8221;, nunca seremos capazes, dentro dos limites desta tarefa, de desenvolver a consci\u00eancia pol\u00edtica dos trabalhadores (ao n\u00edvel da consci\u00eancia pol\u00edtica social-democrata), j\u00e1 que <em>os pr\u00f3prios limites s\u00e3o estreitos<\/em>. A f\u00f3rmula de Mart\u00ednov \u00e9 valiosa para n\u00f3s, mas n\u00e3o somente ilustra a capacidade do autor de confundir as coisas. \u00c9 valioso porque real\u00e7a o erro fundamental de todos os \u201ceconomistas\u201d: a convic\u00e7\u00e3o de que a consci\u00eancia pol\u00edtica de classe dos trabalhadores pode ser desenvolvida a partir <em>de dentro<\/em>, por assim dizer, da sua luta econ\u00f3mica, isto \u00e9, come\u00e7ando apenas (ou, pelo menos, principalmente) desta luta, baseada apenas (ou, pelo menos, principalmente) nesta luta.<\/p>\n\n\n\n<p>(\u2026)<\/p>\n\n\n\n<p>Ao trabalhador s\u00f3 pode ser dada consci\u00eancia pol\u00edtica de classe <em>a partir de fora<\/em>, isto \u00e9, de fora da luta econ\u00f4mica, de fora do campo das rela\u00e7\u00f5es entre trabalhadores e patr\u00f5es. A \u00fanica esfera da qual este conhecimento pode ser extra\u00eddo \u00e9 a esfera das rela\u00e7\u00f5es de todas as classes e setores sociais com o Estado e o Governo, a esfera das rela\u00e7\u00f5es de <em>todas<\/em> as classes entre si.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui L\u00eanin diz que o trabalhador s\u00f3 pode adquirir consci\u00eancia socialista, \u201cde fora da luta econ\u00f4mica\u201d, porque seus limites s\u00e3o estreitos: a agita\u00e7\u00e3o, as den\u00fancias pol\u00edticas e a propaganda devem partir de fatos concretos atuais, que afetam o conjunto das classes na sociedade, que n\u00e3o est\u00e3o limitados \u00e0 esfera da luta trabalhista.<\/p>\n\n\n\n<p>Para L\u00eanin, \u201ca luta espont\u00e2nea do proletariado n\u00e3o se converter\u00e1 na verdadeira \u2018luta de classe\u2019 enquanto n\u00e3o esteja dirigida por uma forte organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA convic\u00e7\u00e3o de que a luta de classes do proletariado \u00e9 \u00fanica e deve necessariamente abranger a luta pol\u00edtica e econ\u00f4mica enraizou-se na social-democracia internacional. \u201c<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira cr\u00edtica do L\u00eanin era que desde que o marxismo se consolidou mundialmente, partindo do Manifesto Comunista, que considerava toda luta de classes como uma luta pol\u00edtica e que o movimento oper\u00e1rio para superar sua inf\u00e2ncia s\u00f3 se converteria em movimento de classe quando passasse a lutar politicamente. S\u00f3 se educaria quando passava a fazer uma luta pol\u00edtica geral.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO marxismo uniu a luta econ\u00f3mica e pol\u00edtica da classe trabalhadora num todo indissol\u00favel (\u2026) separar estas formas de luta constitui um dos seus desvios mais infelizes e deplor\u00e1veis \u200b\u200bdo marxismo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, para L\u00eanin, o militante ideal deve ser um <em>tribuno popular<\/em> e n\u00e3o um <em>l\u00edder sindical. <\/em>Um tribuno popular utilizar\u00e1 um fato arbitr\u00e1rio da autocracia para desenvolver uma agita\u00e7\u00e3o e uma propaganda para toda a sociedade (desde o ponto de vista prolet\u00e1rio) denunciando a autocracia e o sistema capitalista, para expor suas convic\u00e7\u00f5es socialistas e democr\u00e1ticas e expor diante de todos, \u201ca import\u00e2ncia hist\u00f3rica universal da luta emancipadora do proletariado\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Evidentemente, L\u00eanin n\u00e3o propunha aqui deslocar os militantes do movimento oper\u00e1rio para ir viver e militar nas outras classes sociais. Ele entendia de ir \u00e0 todas as classes sociais como te\u00f3ricos, propagandistas, agitadores e organizadores. Realizando campanhas de den\u00fancias pol\u00edticas sobre toda a sociedade, onde o jornal centralizado de toda a R\u00fassia seria a tribuna.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>CAP\u00cdTULO IV &#8211; OS M\u00c9TODOS ARTESANAIS DOS ECONOMISTAS E A ORGANIZA\u00c7\u00c3O DOS REVOLUCION\u00c1RIOS&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Neste cap\u00edtulo, L\u00eanin exp\u00f5e a situa\u00e7\u00e3o atual da organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria na R\u00fassia: centenas de c\u00edrculos dispersos por todo o pa\u00eds, sem conex\u00e3o internacional, nacional ou mesmo local, dirigidos por jovens pouco capacitadas (devido \u00e0 pris\u00e3o dos militantes mais antigos), sem disciplina, com uma exist\u00eancia de seis meses no m\u00e1ximo, antes que a pol\u00edcia desmontasse o grupo, prendendo as lideran\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa situa\u00e7\u00e3o deplor\u00e1vel da organiza\u00e7\u00e3o dos revolucion\u00e1rios foi suplantada pelo crescimento vertiginoso do movimento oper\u00e1rio e das suas lutas, assim como do movimento democr\u00e1tico contra a autocracia.<\/p>\n\n\n\n<p>Por tudo isso, nos \u00faltimos anos, L\u00eanin come\u00e7ou a desenhar a estrutura do partido revolucion\u00e1rio: uma <strong>organiza\u00e7\u00e3o de revolucion\u00e1rios s\u00f3lida, centralizada e combativa<\/strong> de toda R\u00fassia, <strong>formada por revolucion\u00e1rios profissionais<\/strong>, baseada numa <strong>rigorosa sele\u00e7\u00e3o dos seus militantes<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, sem contrapor a lutas econ\u00f4micas (espont\u00e2neas) dos oper\u00e1rios \u00e0 luta socialista, L\u00eanin queria recrutar oper\u00e1rios para o partido e convert\u00ea-los em revolucion\u00e1rios profissionais, dedicados full time \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEstes trabalhadores, os setores m\u00e9dios das massas, podem demonstrar enorme energia e abnega\u00e7\u00e3o numa greve, na luta contra a pol\u00edcia e as tropas nas ruas, podem <em>decidir<\/em> (e s\u00e3o os \u00fanicos que podem) o resultado de todo nosso movimento; mas precisamente a luta contra a pol\u00edcia <em>pol\u00edtica<\/em> exige qualidades especiais, exige revolucion\u00e1rios <em>profissionais<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>E devemos nos preocupar n\u00e3o s\u00f3 que as massas \u201clevantem\u201d reivindica\u00e7\u00f5es concretas, mas tamb\u00e9m que a massa de trabalhadores \u201cdestaque\u201d, em n\u00fameros crescentes, estes revolucion\u00e1rios profissionais\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>(\u2026)<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c\u2026a nossa obriga\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria e mais urgente \u00e9 ajudar a formar trabalhadores revolucion\u00e1rios que, <em>do ponto de vista da sua atividade no Partido<\/em>, estejam ao mesmo n\u00edvel dos intelectuais revolucion\u00e1rios\u2026. \u00c9 por isso que devemos dirigir a nossa aten\u00e7\u00e3o principal para <em>elevar <\/em>os trabalhadores ao n\u00edvel dos revolucion\u00e1rios e n\u00e3o para descermos inevitavelmente ao n\u00edvel da \u201cmassa trabalhadora&#8230;\u201d.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Essa obsess\u00e3o por captar oper\u00e1rios e oper\u00e1rias para o partido e ajudar a que se convertam em intelectuais oper\u00e1rios, que armados com o marxismo, o programa, a estrat\u00e9gia e as t\u00e1ticas adequadas, \u201cvoltem\u201d para a sua classe, n\u00e3o mais como simples oper\u00e1rios, mas como militantes revolucion\u00e1rios, para levar a agita\u00e7\u00e3o e a propaganda, para levar a consci\u00eancia de classe, socialista, isto \u00e9, a compreens\u00e3o por parte do proletariado da necessidade de uma revolu\u00e7\u00e3o para derrubar a autocracia e o capitalismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa consci\u00eancia socialista n\u00e3o brotar\u00e1 naturalmente da luta econ\u00f4mica, ela vir\u00e1 \u201cde fora\u201d desta luta econ\u00f4mica \u2013 da rela\u00e7\u00e3o entre empregados e patr\u00f5es, da rela\u00e7\u00e3o trabalhista \u2013 e ser\u00e1 \u201cintroduzida\u201d na classe trabalhadora n\u00e3o por intelectuais de outras classes, mas pelo partido, pelos militantes do partido, oriundos do pr\u00f3prio meio prolet\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>A diferen\u00e7a essencial com os economicistas se ampliou muito quando a discuss\u00e3o entrou no terreno da organiza\u00e7\u00e3o, pois a confus\u00e3o entre organiza\u00e7\u00e3o sindical de massas para a luta econ\u00f4mica e a organiza\u00e7\u00e3o de um partido da revolu\u00e7\u00e3o social \u00e9 fatal para ambas organiza\u00e7\u00f5es:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cQual foi, ent\u00e3o, a origem das nossas diverg\u00eancias? Precisamente porque os \u201ceconomistas\u201d se afastam a cada passo das concep\u00e7\u00f5es social-democratas para cair no sindicalismo, tanto em tarefas organizativas como pol\u00edticas. A luta pol\u00edtica da social-democracia \u00e9 muito mais ampla e complexa do que a luta econ\u00f4mica dos trabalhadores contra os patr\u00f5es e o Governo. Da mesma forma (e como consequ\u00eancia disto), a organiza\u00e7\u00e3o de um partido social-democrata revolucion\u00e1rio deve inevitavelmente ser de um tipo diferente da organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores para esta luta. A organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores deve ser, em primeiro lugar, profissional; segundo, t\u00e3o amplo quanto poss\u00edvel; terceiro, o menos clandestino poss\u00edvel (aqui e mais tarde refiro-me, claro, apenas \u00e0 R\u00fassia autocr\u00e1tica). Pelo contr\u00e1rio, a organiza\u00e7\u00e3o dos revolucion\u00e1rios deve reunir, antes de mais nada, pessoas cuja profiss\u00e3o \u00e9 a atividade revolucion\u00e1ria (\u00e9 por isso que falo de uma organiza\u00e7\u00e3o de revolucion\u00e1rios, tendo em conta os revolucion\u00e1rios social-democratas). Dada esta caracter\u00edstica comum dos membros de tal organiza\u00e7\u00e3o, todas as diferen\u00e7as entre trabalhadores e intelectuais devem desaparecer completamente, para n\u00e3o mencionar a diferen\u00e7a entre as v\u00e1rias profiss\u00f5es de cada um. Esta organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o deve necessariamente ser muito ampla e t\u00e3o clandestina quanto poss\u00edvel.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Para L\u00eanin era sumamente importante diferenciar a organiza\u00e7\u00e3o sindical da organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica revolucion\u00e1ria. Os militantes revolucion\u00e1rios deviam apoiar com tudo os sindicatos, mas seria um grave erro exigir que todo associado ao sindicato fosse militante do partido. Por isso, os revolucion\u00e1rios lutaram para que as organiza\u00e7\u00f5es sindicas fossem as mais amplas poss\u00edveis, que organizassem toda a classe trabalhadora, independente da sua filia\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ou religiosa. Mas seria um grave equ\u00edvoco confundir as duas organiza\u00e7\u00f5es pois <em>restringiria<\/em> o alcance da luta sindical enquanto <em>rebaixaria<\/em> o programa do partido para a revolu\u00e7\u00e3o e o <em>car\u00e1ter combativo<\/em> da organiza\u00e7\u00e3o de revolucion\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEm suma, em que deveriam consistir as fun\u00e7\u00f5es desta organiza\u00e7\u00e3o de revolucion\u00e1rios?<\/p>\n\n\n\n<p>(\u2026)<\/p>\n\n\n\n<p>Como j\u00e1 salientei mais de uma vez, apenas os revolucion\u00e1rios profissionais deveriam ser entendidos como \u201cinteligentes\u201d em quest\u00f5es de organiza\u00e7\u00e3o, independentemente de serem estudantes ou trabalhadores que se tornam tais revolucion\u00e1rios profissionais. Bem, eu afirmo: 1) que n\u00e3o pode haver um movimento revolucion\u00e1rio s\u00f3lido sem uma organiza\u00e7\u00e3o est\u00e1vel de l\u00edderes que mantenha a continuidade; 2) que quanto maior for a massa que se junta espontaneamente \u00e0 luta \u2013 e que constitui a base do movimento e dele participa \u2013 mais imperativa ser\u00e1 a necessidade de tal organiza\u00e7\u00e3o e mais s\u00f3lida ela dever\u00e1 ser pois sen\u00e3o ser\u00e1 mais f\u00e1cil para os demagogos de todos os matizes arrastarem os setores atrasados \u200b\u200bdas massas); 3) que tal organiza\u00e7\u00e3o deve ser formada, fundamentalmente, por homens que fa\u00e7am da atividade revolucion\u00e1ria a sua profiss\u00e3o; 4) que num pa\u00eds autocr\u00e1tico, quanto mais restringirmos o contingente de membros da referida organiza\u00e7\u00e3o, incluindo apenas aqueles que fazem da atividade revolucion\u00e1ria a sua profiss\u00e3o e que t\u00eam forma\u00e7\u00e3o profissional na arte de lutar contra a pol\u00edcia pol\u00edtica, tanto mais dif\u00edcil ser\u00e1 para \u201cca\u00e7ar\u201d esta organiza\u00e7\u00e3o, e 5) maior ser\u00e1 o n\u00famero de pessoas da classe trabalhadora e de outras classes da sociedade que poder\u00e3o participar do movimento e nele colaborar de forma ativa.<\/p>\n\n\n\n<p>(\u2026)<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c\u2026. \u201ctanto do ponto de vista hist\u00f3rico como l\u00f3gico, ver numa organiza\u00e7\u00e3o de combate revolucion\u00e1ria algo espec\u00edfico da <em>Vontade do Povo<\/em>, porque <em>toda<\/em> tend\u00eancia revolucion\u00e1ria que realmente pense numa luta s\u00e9ria n\u00e3o pode prescindir de tal organiza\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>(\u2026)<\/p>\n\n\n\n<p>Pela sua <em>forma<\/em>, uma organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria desse tipo, em um pa\u00eds autocr\u00e1tico, tamb\u00e9m pode ser chamada de organiza\u00e7\u00e3o &#8220;de conspiradores&#8221;, pois a palavra francesa &#8220;<em> conspiration<\/em> &#8221; equivale a &#8220;conspira\u00e7\u00e3o&#8221;, e o car\u00e1ter conspirat\u00f3rio \u00e9 essencial, no mais alto grau, para tal organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A natureza conspirat\u00f3ria \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o t\u00e3o essencial de tal organiza\u00e7\u00e3o que as outras condi\u00e7\u00f5es (n\u00famero, sele\u00e7\u00e3o, fun\u00e7\u00f5es, etc. dos membros) devem ser subordinadas a ela.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>(\u2026)<\/p>\n\n\n\n<p>Somente uma organiza\u00e7\u00e3o combativa centralizada que aplique firmemente a pol\u00edtica social-democrata e satisfa\u00e7a, por assim dizer, todos os instintos e aspira\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rios pode preservar o movimento de um ataque impensado e preparar um ataque com perspectivas de sucesso.<\/p>\n\n\n\n<p>(\u2026)<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO \u00fanico princ\u00edpio organizacional s\u00e9rio ao qual os l\u00edderes do nosso movimento devem aderir deve ser o seguinte: a mais estrita discri\u00e7\u00e3o conspirat\u00f3ria, a mais rigorosa sele\u00e7\u00e3o de membros e a forma\u00e7\u00e3o de revolucion\u00e1rios profissionais. Se voc\u00ea possui essas qualidades, est\u00e1 assegurado algo muito mais importante que o \u201cambiente democr\u00e1tico\u201d, a saber: a plena confian\u00e7a m\u00fatua, t\u00edpica dos camaradas, entre revolucion\u00e1rios. E \u00e9 indiscut\u00edvel que precisamos mais desta confian\u00e7a porque na R\u00fassia n\u00e3o podemos sequer falar em substitu\u00ed-la por um controlo democr\u00e1tico geral.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin n\u00e3o contrap\u00f5e, de forma absoluta, uma organiza\u00e7\u00e3o sindical a uma organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica (como insistem os economicistas), mas relaciona-as dialeticamente. N\u00e3o s\u00e3o a mesma coisa, s\u00e3o organiza\u00e7\u00f5es com prop\u00f3sitos diferentes, mas conectadas e combinadas estreitamente, se tornam poderosas e se refor\u00e7am mutuamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Da mesma forma, L\u00eanin n\u00e3o contrap\u00f5e a a\u00e7\u00e3o clandestina dos revolucion\u00e1rios profissionais do partido com a a\u00e7\u00e3o legal ou semilegal do movimento oper\u00e1rio. \u201cA centraliza\u00e7\u00e3o de fun\u00e7\u00f5es clandestinas da <em>organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria<\/em> n\u00e3o implica de modo algum a centraliza\u00e7\u00e3o de todas as fun\u00e7\u00f5es do <em>movimento<\/em>\u201d. Ao contr\u00e1rio, quanto mais centralizada a a\u00e7\u00e3o de revolucion\u00e1rios profissionais, maior amplitude e participa\u00e7\u00e3o da massa de trabalhadores em atividades de distribui\u00e7\u00e3o de publica\u00e7\u00f5es clandestinas, de distribui\u00e7\u00e3o de tarefas em manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, a organiza\u00e7\u00e3o de grupos por local de trabalho e estudo por simpatizantes e um largo etec\u00e9tera&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cTais c\u00edrculos, sindicatos e organiza\u00e7\u00f5es s\u00e3o necess\u00e1rios em todo o lado, em grande n\u00famero e com as mais diversas fun\u00e7\u00f5es \u2013 mas \u00e9 absurdo e prejudicial confundir estas organiza\u00e7\u00f5es com as dos revolucion\u00e1rios, apagar as fronteiras entre elas, extinguir a consci\u00eancia dos massas, j\u00e1 incrivelmente obscurecidas, que para \u201catender\u201d o movimento de massas precisamos de homens dedicados de uma forma especial e inteiramente \u00e0 a\u00e7\u00e3o social-democrata, e que estes homens devem ser forjados com paci\u00eancia e tenacidade como revolucion\u00e1rios profissionais.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin pensava em formar dirigentes revolucion\u00e1rios, oriundos do proletariado e do povo pobre, para dirigir a classe trabalhadora em uma revolu\u00e7\u00e3o violenta. Tal tarefa demandava anos de trabalho deste militante no meio oper\u00e1rio, nas lutas, na participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica geral, para se converter nos quadros que iam dirigir uma revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria que \u201cabalaria o mundo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>CAP\u00cdTULO V: \u00abPLANO\u00bb DE UM JORNAL POL\u00cdTICO CENTRAL PARA TODA A R\u00daSSIA&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A principal obje\u00e7\u00e3o ao plano de L\u00eanin de ligar todos os grupos locais atrav\u00e9s do jornal Iskra foi que devia se come\u00e7ar por \u201cfortalecer as organiza\u00e7\u00f5es locais\u201d e n\u00e3o come\u00e7ar por cima, com um jornal nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin respondeu a esta obje\u00e7\u00e3o dizendo que a observa\u00e7\u00e3o \u00e9 justa, mas que para fortalecer e educar as organiza\u00e7\u00f5es locais, necessitava precisamente do \u00f3rg\u00e3o nacional, que estabelecesse uma conex\u00e3o te\u00f3rica, pol\u00edtica e program\u00e1tica entre as diversas organiza\u00e7\u00f5es locais e que permitisse formar os dirigentes locais e, inclusive, apoiar as lutas dos oper\u00e1rios, camponeses, estudantes, \u201c<em>com a agita\u00e7\u00e3o pol\u00edtica viva, coisa imposs\u00edvel sem um jornal central para toda R\u00fassia que apare\u00e7a frequentemente e que se distribua com regularidade<\/em>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto \u00e9, o jornal seria uma esp\u00e9cie de \u201cfio condutor\u201d que daria organicidade e combatividade ao conjunto dos participantes:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cToda a arte de um pol\u00edtico reside precisamente em encontrar e agarrar-se criteriosamente ao pequeno elo que menos pode ser arrancado das m\u00e3os, que \u00e9 o mais importante num determinado momento e que melhor<\/p>\n\n\n\n<p>Como todas as obje\u00e7\u00f5es feitas ao projeto do jornal e da organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria na R\u00fassia, esta obje\u00e7\u00e3o de contrapor as organiza\u00e7\u00f5es locais \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o nacional era equivocada: a centraliza\u00e7\u00e3o nacional de centenas de c\u00edrculos locais fortaleceria a a\u00e7\u00e3o isolada, pois a liga\u00e7\u00e3o nacional e internacional permite a amplifica\u00e7\u00e3o das experiencias bem sucedidas como tamb\u00e9m dos fracassos. Justamente, a organiza\u00e7\u00e3o nacional, centralizada por um jornal peri\u00f3dico, permitiria organizar e especializar regi\u00f5es e militantes em tarefas essenciais para o movimento nacionalmente. Ademais, permitiria a utiliza\u00e7\u00e3o de milhares de militantes coordenados em uma agita\u00e7\u00e3o e propaganda comuns, unificados em todo o pa\u00eds, al\u00e9m de permitir a transfer\u00eancia de quadros de uma regi\u00e3o \u00e0 outra, de acordo com as necessidades locais. O sentido de pertencimento a uma organiza\u00e7\u00e3o nacional e internacional amplifica o trabalho local: essa era toda a argumenta\u00e7\u00e3o do L\u00eanin em favor do \u201cIskra\u201d como \u201cagitador, propagandista e organizador coletivo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cOrganizador coletivo\u201d sim pois:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAgora, na maioria dos casos, essas for\u00e7as se transformam em um trabalho local restrito; Por outro lado, haveria ent\u00e3o possibilidade e oportunidades constantes para transferir um agitador ou organizador mais ou menos capaz de um extremo ao outro do pa\u00eds. A partir de uma pequena viagem para resolver quest\u00f5es do Partido e \u00e0s suas custas, os militantes habituar-se-iam a viver inteiramente \u00e0s custas do Partido, a tornarem-se revolucion\u00e1rios profissionais, a formar-se como verdadeiros guias pol\u00edticos. E se realmente consegu\u00edssemos que todos ou a grande maioria dos comit\u00eas, grupos e c\u00edrculos locais empreendessem ativamente um trabalho comum, num futuro n\u00e3o muito distante estar\u00edamos em condi\u00e7\u00f5es de publicar um jornal semanal que seria distribu\u00eddo regularmente em dezenas de milhares de c\u00f3pias em toda a R\u00fassia. Este jornal seria uma part\u00edcula de um enorme fole de forja que ati\u00e7aria cada centelha da luta de classes e da indigna\u00e7\u00e3o do povo, transformando-a num grande inc\u00eandio. Em torno deste trabalho, em si muito cinzento e ainda muito pequeno, mas regular e comum no sentido pleno da palavra, o ex\u00e9rcito permanente de combatentes comprovados seria sistematicamente concentrado e treinado. N\u00e3o demoraria muito para vermos os Zheli\u00e1bov social-democratas erguerem-se nos andaimes deste edif\u00edcio organizacional comum e destacarem-se entre os nossos revolucion\u00e1rios; dentre os nossos trabalhadores, aos Bebel russos, que estaria \u00e0 frente do ex\u00e9rcito mobilizado e levantaria todo o povo para acabar com a ignom\u00ednia e a maldi\u00e7\u00e3o da R\u00fassia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c\u00a1\u00c9 com isto que tem que sonhar!\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 preciso dizer que esse \u201csonho\u201d de L\u00eanin se fez realidade na constru\u00e7\u00e3o de um partido revolucion\u00e1rio que dirigiu uma revolu\u00e7\u00e3o que mudou a face do mundo, somente 15 anos depois desse debate.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u201cQUE TIPO DE ORGANIZA\u00c7\u00c3O NECESITAMOS?\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin n\u00e3o contrap\u00f4s o \u201cespont\u00e2neo\u201d ao \u201cconsciente\u201d, como fizeram os economicistas, conectou os dois (sem confundir um com outro), tornando-os indestrut\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin almejava construir um partido para dirigir uma revolu\u00e7\u00e3o violenta, um partido combativo, formado por militantes ativos, de prefer\u00eancia dedicados full time ao partido e \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o (\u201crevolucion\u00e1rios profissionais\u201d).<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cN\u00e3o se deve ver a revolu\u00e7\u00e3o como um ato \u00fanico (&#8230;) mas como uma r\u00e1pida sucess\u00e3o de explos\u00f5es mais ou menos violentas, alternadas com per\u00edodos de calma mais ou menos profunda. Portanto, o conte\u00fado fundamental das atividades da nossa organiza\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria, centro de gravidade dessas atividades, deve consistir num trabalho poss\u00edvel e necess\u00e1rio tanto durante o per\u00edodo da explos\u00e3o mais violenta como durante o per\u00edodo da mais completa calmaria, a saber: num trabalho de agita\u00e7\u00e3o pol\u00edtica unificada em toda a R\u00fassia que lan\u00e7a luz sobre todos os aspectos da vida e se dirige \u00e0s grandes massas. E este trabalho \u00e9 inconceb\u00edvel na R\u00fassia de hoje sem um jornal central de toda a R\u00fassia que aparece com frequ\u00eancia. A organiza\u00e7\u00e3o que se forma em torno deste jornal, a organiza\u00e7\u00e3o dos seus colaboradores (&#8230;) estar\u00e1 precisamente disposta a tudo, desde salvar a honra, o prest\u00edgio e a continuidade do Partido nos momentos de maior \u201cdepress\u00e3o\u201d revolucion\u00e1ria, at\u00e9 preparar a insurrei\u00e7\u00e3o armada de todo o povo, marcando uma data para o seu in\u00edcio e colocando-a em pr\u00e1tica\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>EPISODIO 7 SEGUNDA PARTE: AS POL\u00caMICAS AO REDOR DO LIVRO <em>QUE FAZER<\/em>?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As cr\u00edticas ao livro <em>Que Fazer?<\/em> em geral partem de um sofisma (que arranca de uma premissa verdadeira: o espont\u00e2neo e o consciente s\u00e3o duas coisas diferentes e opostas, mas da\u00ed chega a uma conclus\u00e3o falsa: logo n\u00e3o se pode combin\u00e1-las).<\/p>\n\n\n\n<p>Os cr\u00edticos de L\u00eanin, transformam essas contradi\u00e7\u00f5es em absolutas, separando-as com uma muralha da China, e atribuem a L\u00eanin essa oposi\u00e7\u00e3o irredut\u00edvel e est\u00e1tica: A \u00e9 igual a A, que \u00e9 diferente de B.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, L\u00eanin n\u00e3o trabalhava esses elementos contradit\u00f3rios da realidade como duas coisas opostas pelo v\u00e9rtice, que nunca se encontram. Por exemplo, ele disse que &#8220;o espont\u00e2neo \u00e9 a forma embrion\u00e1ria do consciente&#8221;. Para L\u00eanin, utilizando a dial\u00e9tica materialista, esses dois elementos contradit\u00f3rios s\u00f3 adquirem vida e movimento em suas rela\u00e7\u00f5es rec\u00edprocas.<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\">[4]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Ao escrever <em>Que Fazer?<\/em> L\u00eanin estava preocupado em superar o est\u00e1gio embrion\u00e1rio, espont\u00e2neo, do movimento oper\u00e1rio. Estava vendo o processo <em>em movimento<\/em> do espont\u00e2neo ao consciente: que ferramentas ia utilizar para elevar a consci\u00eancia sindical\/econ\u00f4mica a uma consci\u00eancia socialista. Se para ele era importante definir o que era \u201cespont\u00e2neo\u201d e o que era \u201cconsciente\u201d, buscava essa defini\u00e7\u00e3o apenas para ver como acelerar a transforma\u00e7\u00e3o de uma consci\u00eancia embrion\u00e1ria (luta salarial contra seu patr\u00e3o) em uma consci\u00eancia socialista (entendimento da necessidade de uma revolu\u00e7\u00e3o violenta para derrubar todo o sistema salarial capitalista). Por isso, come\u00e7ou discutindo a necessidade de um instrumento pol\u00edtico (o partido marxista revolucion\u00e1rio), analisou a rela\u00e7\u00e3o entre o objetivo final (estrat\u00e9gia) com os meios (t\u00e1ticas) para alcan\u00e7\u00e1-lo, analisou o conte\u00fado da agita\u00e7\u00e3o e da propaganda necess\u00e1rio para elevar essa consci\u00eancia e por fim, analisou que tipo de militante necessitaria para construir esse partido nas condi\u00e7\u00f5es imperantes na R\u00fassia de ent\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Os cr\u00edticos de L\u00eanin, contempor\u00e2neos e atuais, polemizavam com ele utilizando-se dessas contradi\u00e7\u00f5es absolutas:<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin s\u00f3 via o partido como sujeito e o proletariado como massa amorfa, como objeto.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin defendia um partido composto apenas de revolucion\u00e1rios profissionais e desprezava a massa oper\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin defendia um partido de conspiradores, por fora da legalidade.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin defendia um partido centralista em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 democracia da base.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin defendia a revolu\u00e7\u00e3o em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s melhorias para a classe trabalhadora.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, L\u00eanin sempre trabalhou essas contradi\u00e7\u00f5es n\u00e3o separadas de forma absoluta. L\u00eanin partia que eram duas coisas diferentes (e \u00e9 importante demarcar essa diferen\u00e7a, fun\u00e7\u00e3o essencial da l\u00f3gica formal), mas elas estavam conectadas uma com a outra: por exemplo, o marxismo n\u00e3o \u00e9 contra a luta por reformas (a luta econ\u00f4mica-sindical-pr\u00e1tica), ao contr\u00e1rio, elas s\u00e3o muito importantes porque na maioria das vezes, s\u00e3o estas lutas que incorporam boa parte da massa trabalhadora, inclusive aqueles que n\u00e3o s\u00e3o participativos, a massa atrasada. Por\u00e9m, os marxistas tratam de ligar essa luta pelas reformas com a luta pela transforma\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria da sociedade, subordinando a luta pelas reformas \u00e0 luta pela revolu\u00e7\u00e3o, pois os trabalhadores podem conquistar essa reforma (por exemplo, um aumento de sal\u00e1rios) que ser\u00e1 logo depois tomado pelo patr\u00e3o, via infla\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, os marxistas participam dessa luta e tratam de educar a massa na necessidade de derrubar o capitalismo que origina todas as desgra\u00e7as, inclusive os baixos sal\u00e1rios e a explora\u00e7\u00e3o. Tratam de incutir no movimento a necessidade de realizar uma revolu\u00e7\u00e3o socialista, que acabe com a explora\u00e7\u00e3o salarial. Ent\u00e3o os marxistas n\u00e3o separam estes dois elementos contradit\u00f3rios, mas <em>utilizam a luta pelas reformas como alavanca para a revolu\u00e7\u00e3o socialista<\/em>. Para a dial\u00e9tica materialista, essa contradi\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 separada de forma estanque, ao contr\u00e1rio, estes dois elementos contradit\u00f3rios s\u00f3 ganham vida em rela\u00e7\u00e3o uma com a outra, exemplificamos: as reformas sem a luta pela revolu\u00e7\u00e3o terminam por fortalecer o sistema capitalista. A revolu\u00e7\u00e3o sem as reformas n\u00e3o tem vida porque as massas partem da defesa dos seus interesses imediatos e s\u00f3 nesta luta pode adquirir uma consci\u00eancia socialista (levada ao movimento pelos militantes do partido revolucion\u00e1rio). N\u00e3o existe revolu\u00e7\u00e3o \u201cpura\u201d, sem as massas, com reivindica\u00e7\u00f5es exclusivamente socialistas, sem as suas ilus\u00f5es e confus\u00f5es. A revolu\u00e7\u00e3o s\u00f3 pode acontecer como desenvolvimento de uma luta por reformas da sociedade capitalista que, em seu movimento, transborda os objetivos iniciais e entra no caminho da revolu\u00e7\u00e3o, da derrubada de todo o sistema, desde que tenha um partido marxista revolucion\u00e1rio, atrav\u00e9s dos seus militantes &#8211; que s\u00e3o tamb\u00e9m trabalhadores &#8211; que esteja \u201cincutindo\u201d na massa a necessidade dessa revolu\u00e7\u00e3o.&nbsp; Quem separa estes dois elementos, de forma absoluta s\u00e3o os reformistas que utilizam a luta pelas reformas para perpetuar o capitalismo (para mostrar que se pode melhorar a vida neste sistema, basta votar em fulano ou sicrana) ou os ultra-esquerdistas que s\u00f3 defendem a \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d, isto \u00e9, a luta pela tomada do poder, em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 luta pelas reformas. Evidentemente, se o objetivo do movimento for a luta cotidiana por melhorias para os oper\u00e1rios nas f\u00e1bricas, a organiza\u00e7\u00e3o correspondente seria um sindicato. Se a luta for para eleger parlamentares e, com isso, conseguir melhorias para a popula\u00e7\u00e3o em geral era desnecess\u00e1rio um partido combativo, centralizado e disciplinado, conspirativo e formado por militantes dedicados \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o. Para este tipo de partido, uma m\u00e1quina eleitoral, mais vale um caudilho adorado pelas massas que mil militantes. Mais vale 1 minuto na TV que a edi\u00e7\u00e3o de um di\u00e1rio oper\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, veremos que as pol\u00eamicas com o livro <em>Que Fazer?<\/em> partem dessas oposi\u00e7\u00f5es absolutas que, depois de se exagerar ao extremo, ser\u00e3o imputadas a L\u00eanin.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Uma primeira quest\u00e3o, para limpar o terreno do debate:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O objetivo de qualquer partido pol\u00edtico (ou qualquer organiza\u00e7\u00e3o social) determina sua composi\u00e7\u00e3o, seu programa, suas t\u00e1ticas, seus estatutos e sua moral.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta verdade est\u00e1 dita de forma precisa no <em>Que Fazer?<\/em>:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c\u201cA estrutura de qualquer organismo est\u00e1 determinada, de modo natural e inevit\u00e1vel, pelo conte\u00fado da atividadede tal organismo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>As diferen\u00e7as de fundo que apareceram nas p\u00e1ginas deste livro revelam que as correntes debatedoras tinham vis\u00f5es diferentes do tipo de partido que queriam construir.<\/p>\n\n\n\n<p>O tipo de partido que L\u00eanin queria construir era um partido combativo, um instrumento pol\u00edtico para dirigir uma revolu\u00e7\u00e3o socialista, para destruir o estado burgu\u00eas, para implantar uma ditadura do proletariado.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, L\u00eanin utilizava uma terminologia militar pois se tratava da guerra de classes.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas pessoas n\u00e3o entendem a virul\u00eancia do debate e a firmeza de L\u00eanin discutindo as \u201cmin\u00facias\u201d de um discurso agitativo ou a explica\u00e7\u00e3o do conte\u00fado da propaganda. Por\u00e9m, L\u00eanin j\u00e1 era um general discutindo uma quest\u00e3o de vida ou morte para o proletariado russo: como as tropas do proletariado participar\u00e3o de uma guerra, a guerra de classes, que ocorrer\u00e1 dentro de 3 anos: a revolu\u00e7\u00e3o de 1905. Veremos, mais na frente, que a derrota dessa revolu\u00e7\u00e3o se deu, principalmente, pela insuficiente prepara\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o do proletariado russo que, apesar desta luta de L\u00eanin, ele n\u00e3o conseguiu avan\u00e7ar o quanto almejava. Somente 15 anos depois desta discuss\u00e3o de <em>Que Fazer?<\/em> teremos uma revolu\u00e7\u00e3o vitoriosa, que mudou a face da R\u00fassia e do mundo, justamente porque L\u00eanin soube construiu um partido que estava \u00e0 altura dos acontecimentos revolucion\u00e1rios, cujos alicerces foram estabelecidos no <em>Que Fazer?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, este general, no meio do debate disse: \u201c<em>Deem-nos uma organiza\u00e7\u00e3o de revolucion\u00e1rios e viraremos a R\u00fassia de cabe\u00e7a para baixo!<\/em>\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o falava por falar, isso n\u00e3o era do feitio do L\u00eanin!<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Primeira pol\u00eamica:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>um partido combativo, centralizado, de militantes ativos, de vanguarda, ou um partido frouxo, de simpatizantes sem compromisso, de massas?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os principais dirigentes que polemizaram, por escrito, com <em>Que Fazer?<\/em> naquele momento, foram Rosa Luxemburgo e Trotsky, que contavam com o apoio da dire\u00e7\u00e3o do Partido Socialdemocrata alem\u00e3o (o maior partido da II Internacional). Rosa Luxemburgo, apesar de ser militante do partido alem\u00e3o, ela dirigia a organiza\u00e7\u00e3o Social Democracia do Reino da Pol\u00f4nia e Litu\u00e2nia, que fazia parte do POSDR.<\/p>\n\n\n\n<p>Os cr\u00edticos atuais do livro <em>Que Fazer?<\/em> seguem as cr\u00edticas de Rosa e Trotsky ou falsificam a posi\u00e7\u00e3o de L\u00eanin, se escondendo no desconhecimento geral que reina sobre a obra dele. Comentaremos, mais abaixo, as principais cr\u00edticas dos autores contempor\u00e2neos nossos.<\/p>\n\n\n\n<p>A cr\u00edtica fundamental de Rosa Luxemburgo dizia:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c\u2026.o ultracentralismo defendido por L\u00eanin parece-nos imbu\u00eddo n\u00e3o de um esp\u00edrito positivo e criativo, mas do esp\u00edrito do vigia noturno. Toda a sua preocupa\u00e7\u00e3o est\u00e1 dirigida a controlar a atividade do Partido e n\u00e3o a fecund\u00e1-la, a restringir o movimento em vez de o desenvolver, a destru\u00ed-lo em vez de unific\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>Trotsky,<a href=\"#_ftn5\" id=\"_ftnref5\">[5]<\/a> por outro lado, afirmava em <em>Nossas tarefas pol\u00edticas<\/em>, livro de 1904:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cOu seja, revelou-se necess\u00e1rio instituir, para bem do partido, o regime de \u201cestado de s\u00edtio\u201d; devemos colocar na dire\u00e7\u00e3o, de acordo com a terminologia romana, um dictator seditionis sedandae et rei gerundae causa [um ditador para reprimir a sedi\u00e7\u00e3o e administrar os assuntos].\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>(\u2026)<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNa pol\u00edtica interna do partido, estes m\u00e9todos levam\u2026 a organiza\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria a \u201csubstituir\u201d o partido, ao comit\u00e9 central substituir a organiza\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria e, finalmente, ao ditador a substituir o comit\u00e9 central.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O centro da cr\u00edtica de Rosa e de Trotsky era que o centralismo partid\u00e1rio tinha a fun\u00e7\u00e3o de criar um ditador interno para controlar e sufocar a voz da base partid\u00e1ria, para regular a atividade revolucion\u00e1ria e criadora da classe trabalhadora.<\/p>\n\n\n\n<p>Estas posi\u00e7\u00f5es se apoiavam numa ideia equivocada: o regime interno de funcionamento de um partido n\u00e3o pode ser centralizado e, ao mesmo tempo, democr\u00e1tico: quer dizer, em nenhuma hip\u00f3tese poderia existir um <em>centralismo democr\u00e1tico<\/em>.<a href=\"#_ftn6\" id=\"_ftnref6\">[6]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin defendia um partido de combate, centralizado e disciplinado para uma guerra, por\u00e9m, sempre defendeu uma ampla democracia na discuss\u00e3o interna.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso era parte intr\u00ednseca do seu projeto:&nbsp; o livro <em>Que Fazer?<\/em> tem uma cita\u00e7\u00e3o de abertura que diz:<\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8220;&#8230;A luta interna d\u00e1 ao partido for\u00e7a e vitalidade; a maior prova de fraqueza de um partido \u00e9 seu car\u00e1ter gelatinoso e a aus\u00eancia de fronteiras bem definidas; o partido se fortalece delimitando-se&#8230;&#8221;<a href=\"#_ftn7\" id=\"_ftnref7\"><strong>[7]<\/strong><\/a><\/em><em><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Para L\u00eanin, a democracia interna era a mola propulsora de um partido revolucion\u00e1rio, inclusive para assegurar uma centraliza\u00e7\u00e3o e uma disciplina revolucion\u00e1ria, sem a qual nenhum partido pode dirigir uma revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Como podemos provar isso? No decorrer de toda a milit\u00e2ncia de L\u00eanin todas as grandes decis\u00f5es partid\u00e1rias sempre foram bastante pol\u00eamicas e cada bando teve total liberdade para defender sua posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Por exemplo, na revolu\u00e7\u00e3o de outubro de 1917 havia diverg\u00eancias com uma minoria importante do CC do Partido que era contra a tomada do poder (Zinoviev, Kamenev e outros) que chegaram inclusive a publicar essa opini\u00e3o em jornais burgueses e, pior, todavia, entregaram publicamente a informa\u00e7\u00e3o da data da tomada do poder pelo proletariado da capital. Por isso, mereceram o ep\u00edteto de \u201cfura greves\u201d e \u201ctraidores\u201d por parte de L\u00eanin, que prop\u00f4s expuls\u00e1-los do partido, com toda raz\u00e3o. Por\u00e9m, no dia seguinte da tomada do poder, Kamenev foi proposto como presidente do Congresso dos Sovietes de Toda a R\u00fassia representando o partido bolchevique. O partido, sob a dire\u00e7\u00e3o de L\u00eanin, ao mesmo tempo que tinha uma forte centraliza\u00e7\u00e3o e disciplina, debatia tudo internamente, com toda liberdade de opini\u00e3o e, na maioria das vezes, deixava que a vida demonstrasse a raz\u00e3o de um ou outro bando no debate, ainda que se exigia que a posi\u00e7\u00e3o majorit\u00e1ria decidida nas inst\u00e2ncias decis\u00f3rias deveria ser aplicada por todos (maioria e minoria, que deveria se disciplinar \u00e0 posi\u00e7\u00e3o majorit\u00e1ria).<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin era minoria em abril de 1917 dentro do pr\u00f3prio partido bolchevique, mas conseguiu convencer a maioria da base para dar uma guinada no partido e se tornar oposi\u00e7\u00e3o ao governo de Kerensky. Da mesma forma que tinha toda a paci\u00eancia do mundo para \u201cexplicar pacientemente\u201d aos oper\u00e1rios e camponeses a posi\u00e7\u00e3o do partido, ele tinha toda a paci\u00eancia para convencer a base partid\u00e1ria da justeza das suas posi\u00e7\u00f5es. Neste ent\u00e3o, em mar\u00e7o de 1917, Kamenev e St\u00e1lin imprimiram uma orienta\u00e7\u00e3o oportunista, de apoio ao governo provis\u00f3rio de Kerensky. Nem por isso L\u00eanin pediu a expuls\u00e3o de ambos. Imagine uma diferen\u00e7a dessa no partido sob o comando de St\u00e1lin.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois da tomada do poder, onde L\u00eanin era muito respeitado, podendo inclusive impor uma ditadura pessoal, ele fez todo o contr\u00e1rio: logo depois da tomada do poder, se colocou a quest\u00e3o da paz com o imp\u00e9rio alem\u00e3o, que imp\u00f4s condi\u00e7\u00f5es draconianas para acabar a guerra com a R\u00fassia. O ex\u00e9rcito russo estava em frangalhos e o novo poder sovi\u00e9tico ainda n\u00e3o tinha um novo ex\u00e9rcito revolucion\u00e1rio, portanto, n\u00e3o havia condi\u00e7\u00f5es de seguir a guerra com a Alemanha. L\u00eanin prop\u00f4s aceitar as severas condi\u00e7\u00f5es alem\u00e3s, inclusive perdendo parte importante do territ\u00f3rio (Polonia, Ucr\u00e2nia, etc), para manter viva a revolu\u00e7\u00e3o comunista na R\u00fassia. Um setor consider\u00e1vel dos quadros jovens do partido, com Bukharin \u00e0 cabe\u00e7a, prop\u00f4s fazer a guerra revolucion\u00e1ria para levar a revolu\u00e7\u00e3o at\u00e9 a Alemanha. Uma posi\u00e7\u00e3o aventureira que levaria \u00e0 perda da revolu\u00e7\u00e3o e a ocupa\u00e7\u00e3o de todo o territ\u00f3rio pela Alemanha. L\u00eanin era minoria no partido e discutiu, discutiu, discutiu e apelou, apelou, apelou e mesmo assim ainda era minoria. Ele n\u00e3o imp\u00f4s a posi\u00e7\u00e3o pessoal dele. Esperou semanas decisivas at\u00e9 que o ex\u00e9rcito alem\u00e3o rompesse a tr\u00e9gua e come\u00e7ou a invadir todo o territ\u00f3rio da R\u00fassia. O ex\u00e9rcito russo (que ainda era o velho ex\u00e9rcito tzarista) se desmilinguiu e as tropas desertavam em massa. S\u00f3 assim, o partido se convenceu que a posi\u00e7\u00e3o correta era a do L\u00eanin, que aprovou a paz de Brest-Litovsky, uma paz miser\u00e1vel para a R\u00fassia, que perdeu parte importante do territ\u00f3rio por um erro pol\u00edtico de uma minoria \u201cultrarrevolucion\u00e1ria\u201d. Mesmo assim, no poder e com condi\u00e7\u00f5es de impor sua posi\u00e7\u00e3o, L\u00eanin n\u00e3o fez isso, em respeito \u00e0 democracia do partido e ao amadurecimento do partido no poder de Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>Da mesma forma ocorreu a maioria dos debates do partido bolchevique, inclusive quando o partido ainda estava unificado: no congresso de 1903, L\u00eanin perdeu a vota\u00e7\u00e3o sobre o par\u00e1grafo 1 do estatuto do partido (que versava sobre quem podia ser militante do partido). Ganhou uma posi\u00e7\u00e3o de um partido laxo, frouxo, com fronteiras partid\u00e1rias indefinidas, difuso, sem uma centraliza\u00e7\u00e3o e disciplina firmes. L\u00eanin continuou defendendo sua posi\u00e7\u00e3o internamente at\u00e9 que 3 anos depois, no congresso de 1906, todo mundo aceitou a f\u00f3rmula do \u201ccentralismo democr\u00e1tico\u201d do L\u00eanin. Outro exemplo: em 1905 defendeu que deveria ter 8 oper\u00e1rios para cada intelectual nos comit\u00eas dirigentes do partido. Perdeu essa vota\u00e7\u00e3o no congresso e aceitou disciplinadamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Todas as grandes decis\u00f5es partid\u00e1rias foram tomadas em congressos, que eram precedidos por grandes debates internos, com v\u00e1rias posi\u00e7\u00f5es enfrentadas: era assim como L\u00eanin entendia que era um partido revolucion\u00e1rio: um partido chamado a mudar o mundo n\u00e3o pode ter militantes \u201cobedientes\u201d \u00e0 dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto esteve no poder, inclusive em per\u00edodo de guerra civil, onde o pa\u00eds estava sendo invadido por v\u00e1rios ex\u00e9rcitos imperialistas, se realizava congresso do partido todos os anos, onde se reuniam delegados eleitos pela base partid\u00e1ria, para decidir os destinos do partido bolchevique e do Estado sovi\u00e9tico. Durante o per\u00edodo de vida de L\u00eanin, a III Internacional, realizava congresso todo ano, com gente vindo de todas as partes do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses fatos, demonstram de forma evidente que \u00e9 poss\u00edvel ter uma estrutura partid\u00e1ria baseada no centralismo democr\u00e1tico, isto \u00e9, \u201cdemocracia nas decis\u00f5es, unidade total na aplica\u00e7\u00e3o\u201d, uma m\u00e1xima democracia para as discuss\u00f5es internas, f\u00e9rrea disciplina e centraliza\u00e7\u00e3o total na a\u00e7\u00e3o militante na sociedade. Significa que as decis\u00f5es s\u00e3o tomadas atrav\u00e9s de vota\u00e7\u00f5es entre os membros da organiza\u00e7\u00e3o, vencendo uma proposta por maioria simples, se aplica a posi\u00e7\u00e3o majorit\u00e1ria e a <strong>minoria se subordina \u00e0 maioria<\/strong> (esse \u00e9 um princ\u00edpio democr\u00e1tico universal).<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 agora, estamos nos referindo a diferen\u00e7as pol\u00edticas e t\u00e1ticas, n\u00e3o diferen\u00e7as de princ\u00edpios ou de programa que justificariam uma ruptura e a forma\u00e7\u00e3o de outro partido. S\u00f3 houve separa\u00e7\u00e3o ou expuls\u00e3o de militantes do partido, depois de amplo debate, onde as posi\u00e7\u00f5es n\u00e3o podiam coabitar no mesmo partido (por exemplo, o economicismo em 1900 e boicotistas em 1908). Enquanto as posi\u00e7\u00f5es n\u00e3o fossem opostas nos princ\u00edpios, permitia at\u00e9 debate nos jornais partid\u00e1rios, como ocorreu no grande debate sobre economia, quando os bolcheviques j\u00e1 estavam no poder.<\/p>\n\n\n\n<p>O congresso partid\u00e1rio, que deve ocorrer regularmente, \u00e9 a principal inst\u00e2ncia de decis\u00e3o porque representa a democracia de toda a base partid\u00e1ria que elegeu delegados pela base em assembleias onde discutiu as principais quest\u00f5es em litigio e, inclusive, o congresso elege a dire\u00e7\u00e3o que vai comandar o partido entre um congresso e outro.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso \u00e9 t\u00e3o importante delimitar as fronteiras partid\u00e1rias: quem s\u00e3o os militantes, quem s\u00e3o simpatizantes, quem s\u00e3o os amigos e amigas do partido, justamente porque cabe somente aos militantes (todos eles) decidir democraticamente, nos organismos partid\u00e1rios, a quest\u00f5es em debate: em congressos, conferencias, nos \u00f3rg\u00e3os dirigentes eleitos pelos congressos, nos n\u00facleos regionais e locais de base, etc.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin sempre trabalhou com este crit\u00e9rio: um dos elementos que levou \u00e0 ruptura entre bolcheviques e mencheviques no congresso de 1903, foi a proposta de eleger uma reda\u00e7\u00e3o do Iskra que tivesse 3 pessoas apenas (Plekh\u00e1nov, M\u00e1rtov e L\u00eanin), que eram os que de fato dirigiam o jornal, que escreviam regularmente artigos. Prop\u00f4s retirar da reda\u00e7\u00e3o outros 3 membros que n\u00e3o cumpriam seu dever com o jornal (Vera Zasulich, Axelrod, Potr\u00e9sov). Quer dizer, L\u00eanin queria ter rela\u00e7\u00f5es profissionais na dire\u00e7\u00e3o, queria que na dire\u00e7\u00e3o estivesse os dirigentes de fato e n\u00e3o pessoas que estavam na dire\u00e7\u00e3o por antiguidade ou por simpatia ou antipatia pessoal, por ter acordos ou desacordos com a dire\u00e7\u00e3o. Na maioria das vezes, nos partidos pol\u00edticos, inclusive de esquerda, prevalece uma atitude de conformar dire\u00e7\u00f5es homog\u00eaneas ou baseada em simpatias pessoas com o dirigente ou a dirigente ocasional.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin debatia tudo nos organismos e foi assim toda a vida. Quando estava se formando a equipe dirigente da Iskra (tinha 3 antigos dirigentes e 3 novos, como comentamos em epis\u00f3dios passados), L\u00eanin prop\u00f4s que entrasse Trotsky (apelidado de Pluma, porque escrevia bem, ainda que muito floreado) para que tivesse 7 membros e n\u00e3o empatasse a vota\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra express\u00e3o dessa democracia no interior do partido, se refletiu na posi\u00e7\u00e3o de L\u00eanin de que os \u00f3rg\u00e3os \u201c<em>Iskra<\/em>\u201d e \u201c<em>Zari\u00e1<\/em>\u201d permitisse a publica\u00e7\u00e3o de matizes de opini\u00e3o entre os(as) dirigentes. Essa exce\u00e7\u00e3o era feita tanto para medir o grau de diferen\u00e7as, se eram diferen\u00e7as epis\u00f3dicas ou diferen\u00e7as de fundo que justificavam uma ruptura do partido, quanto para exigir a disciplina na a\u00e7\u00e3o, a subordina\u00e7\u00e3o da minoria \u00e0 maioria na atividade partid\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa vis\u00e3o do L\u00eanin n\u00e3o tem nada a ver com a \u201cdisciplina militar\u201d da caricatura que o stalinismo fez do partido leninista. Essa \u201cdisciplina militar\u201d concebia um partido aonde a c\u00fapula dirigente decidia a pol\u00edtica e a atividade e a base s\u00f3 restava acatar as decis\u00f5es sem discuss\u00e3o. No partido stalinista imperava um \u201ccentralismo burocr\u00e1tico\u201d que, inclusive levou a que se executasse milh\u00f5es de opositores, entre eles, os principais dirigentes da revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, sob acusa\u00e7\u00e3o de \u201cagentes do imperialismo\u201d. Cal\u00fania para que a burocracia governante da URSS, que assumiu o poder ap\u00f3s a morte de L\u00eanin impusesse a ditadura do \u201cpartido \u00fanico\u201d na sociedade. Perguntamos: em qual congresso partid\u00e1rio se decidiu dissolver a III Internacional, uma decis\u00e3o ditatorial de Stalin para agradar seus \u201caliados\u201d democr\u00e1ticos imperialistas? Respondemos: nenhum congresso votou a dissolu\u00e7\u00e3o da III Internacional. Durante a exist\u00eancia de L\u00eanin, os congressos internacionais se realizavam anualmente, inclusive em meio a guerra civil. Sob Stalin, de 1928 a 1943, quando foi dissolvida a Internacional Comunista, s\u00f3 se realizou 1 congresso internacional em 1935, que n\u00e3o discutiu o assunto. Qual congresso partid\u00e1rio decidiu executar mais de 2 milh\u00f5es de militantes pelo simples fato de serem opositores? Foram executados, inclusive, os quadros dirigentes da revolu\u00e7\u00e3o de outubro, que atuaram sob as orienta\u00e7\u00f5es de L\u00eanin (Zinoviev, Kamenev, Trotsky, Bukharin, etc) que se converteram, misteriosamente, em \u201cagentes do imperialismo\u201d sem que L\u00eanin se desse conta? A vis\u00e3o de L\u00eanin n\u00e3o tinha nada a ver com \u201cpartido \u00fanico\u201d<a href=\"#_ftn8\" id=\"_ftnref8\">[8]<\/a> e muito menos com o m\u00e9todo de acusar todo militante que defendia uma posi\u00e7\u00e3o diferente, de ser \u201ccontrarrevolucion\u00e1rio\u201d. Durante a vida de L\u00eanin, o partido bolchevique nunca executou nenhum militante como \u201cagente do imperialismo\u201d Inclusive, o governo sovi\u00e9tico, levou um ano para executar a fam\u00edlia real dos Romanov e s\u00f3 fez isso porque as tropas contrarrevolucion\u00e1rias se aproximavam do lugar onde estava reclu\u00edda a fam\u00edlia real. L\u00eanin n\u00e3o executou Plekh\u00e1nov, n\u00e3o executou M\u00e1rtov, que tinha uma atua\u00e7\u00e3o legal na R\u00fassia sovi\u00e9tica e participava dos sovietes. Kerensky morreu de velho em 1970, nos Estados Unidos. Chernov, o dirigente dos socialistas revolucion\u00e1rios de direita, dirigente dos camponeses russos, que fez parte do governo Kerensky e, posteriormente, defendeu a contrarrevolu\u00e7\u00e3o tzarista, morreu de velho em Nova Iorque no ano de 1952.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin defendia um partido e um movimento de massas com grandes debates internos, realizados democraticamente, ao contr\u00e1rio do stalinismo e da socialdemocracia que prenderam, exilaram ou mataram seus opositores pol\u00edticos: Trotsky foi assassinado, em 1940, por um agente stalinista enquanto Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht foram assassinados, em 1919, pelo governo socialdemocrata da Alemanha.<\/p>\n\n\n\n<p>Curiosamente, no partido social-democrata, ou como gosta de se autodenominar, \u201cpartido democr\u00e1tico de massas\u201d, prevalece o mesmo \u201ccentralismo burocr\u00e1tico\u201d: aparentemente, \u00e9 um partido ultrademocr\u00e1tico, porque todos os filiados t\u00eam os mesmos direitos, por\u00e9m, o \u00fanico direito que cabe ao filiado destes partidos \u00e9 participar de uma conven\u00e7\u00e3o anual ou bianual para eleger os candidatos que v\u00e3o participar das elei\u00e7\u00f5es burguesas. Na vida normal destes partidos, quem decide \u00e9 o \u201ccacique\u201d pol\u00edtico, \u00e0s vezes sem discutir em nenhum organismo do seu partido:&nbsp; qual decis\u00e3o de governo do Lula que foi tomada pela base em Congresso do PT.? O acordo com o centr\u00e3o e a uni\u00e3o com a burguesia contrarrevolucion\u00e1ria, foi decidido pela base do PT em que evento? Cinco partidos da base do governo Lula participaram no ato golpista\/bolsonarista da Avenida Paulista, que inst\u00e2ncia de base decidiu aceitar estes bandidos no governo? H\u00e1 um acordo geral na esquerda que o agroneg\u00f3cio destr\u00f3i a natureza, envenena o brasileiro, mata ind\u00edgenas e camponeses. Perguntamos: em que encontro de base dos filiados do PT se decidiu governar em alian\u00e7a com o agroneg\u00f3cio? Em que inst\u00e2ncia de base ou da dire\u00e7\u00e3o do PSOL se decidiu que Guilherme Boulos lavasse a m\u00e3os diante do genoc\u00eddio palestino ao afirmar que \u201cSou candidato a prefeito de SP n\u00e3o de Telavive\u201d? Ou que decidiu uma alian\u00e7a com o senador Alexandre Giordano (MDB), ex-apoiador de Bolsonaro? Nenhuma inst\u00e2ncia da base partid\u00e1ria tomou essas decis\u00f5es. Reina a\u00ed, nestes partidos autodenominados \u201cdemocr\u00e1ticos e de massas\u201d uma ditadura dos caudilhos eleitorais.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltando ao tipo de partido que L\u00eanin estava defendendo no livro <em>Que Fazer?<\/em>, ao contr\u00e1rio do que previu Trotsky em 1904, L\u00eanin n\u00e3o se converteu em um ditador interno, todas as decis\u00f5es eram tomadas no coletivo partid\u00e1rio ou nos organismos de poder sovi\u00e9ticos. L\u00eanin tinha t\u00e3o pouco apego ao poder que um afamado fil\u00f3sofo e historiador ingl\u00eas, Bertrand Russel, visitou-o em 1920, e extraiu a seguinte impress\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cS\u00f3 encontrei L\u00eanin uma vez: tive uma conversa de uma hora com ele em seu escrit\u00f3rio no Kremlin em 1920. Ele me pareceu mais com Cromwell do que qualquer outra figura hist\u00f3rica. (\u2026) Tal como Cromwell, ele combinou uma rigorosa ortodoxia no seu pensamento com grande habilidade e adaptabilidade na a\u00e7\u00e3o, embora nunca tenha permitido que lhe fossem extra\u00eddas concess\u00f5es que tivessem qualquer outro prop\u00f3sito que n\u00e3o o estabelecimento final do comunismo. Ele parecia, e era, um homem completamente sincero, desprovido de ambi\u00e7\u00f5es pessoais. Estou convencido de que ele estava preocupado apenas com o bem comum e n\u00e3o com o seu pr\u00f3prio poder; parece-me que L\u00eanin estava pronto para se afastar a qualquer momento se, ao faz\u00ea-lo, tivesse favorecido a causa do comunismo.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Tariq Ali, em sua biografia de L\u00eanin, explica muito bem que n\u00e3o havia contradi\u00e7\u00e3o, para L\u00eanin, entre a centraliza\u00e7\u00e3o e a democracia partid\u00e1ria:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNo seu famoso p\u00f3s-escrito para <em>Que fazer?<\/em>, Lenin usou a imagem de uma orquestra para ilustrar como o partido deveria ser organizado a partir de um aparato central:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>Para que o centro possa n\u00e3o s\u00f3 aconselhar, convencer e debater com a orquestra \u2013 como tem acontecido at\u00e9 agora \u2013 mas verdadeiramente dirigi-la, precisamos de informa\u00e7\u00e3o detalhada: quem toca qual violino e onde? Qual instrumento est\u00e1 sendo dominado e qual domina e onde? Quem est\u00e1 tocando uma nota falsa (quando a m\u00fasica come\u00e7a a machucar o ouvido), e onde e quando? Quem precisa ser realocado, onde e como, para corrigir a disson\u00e2ncia?<\/em>\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O que este conceito pressup\u00f5e \u00e9 uma vontade forte, mas tamb\u00e9m a intera\u00e7\u00e3o de igualdade, democracia e autoridade dentro do partido e, por extens\u00e3o, na sociedade como um todo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>*****<\/p>\n\n\n\n<p>As cr\u00edticas atuais ao <em>Que Fazer?<\/em> vem de diferentes setores da \u201cesquerda\u201d. Elencarei apenas alguns que s\u00e3o ilustrativos do conjunto das cr\u00edticas, que reproduzem, com varia\u00e7\u00f5es, as cr\u00edticas feitas por Trotsky e Rosa Luxemburgo, vistas acima:<\/p>\n\n\n\n<p>Fredric Jameson escreveu:<a href=\"#_ftn9\" id=\"_ftnref9\">[9]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA palavra parece abrigar leituras e associa\u00e7\u00f5es que a mentalidade atual rejeita com profundo desagrado; em primeiro lugar, o autoritarismo e o sectarismo da primeira forma do partido de L\u00eanin.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Kevin Anderson<a href=\"#_ftn10\" id=\"_ftnref10\">[10]<\/a> complementa a cr\u00edtica afirmando que L\u00eanin no livro <em>Que Fazer? <\/em>tem<em>:<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>\u201c\u2026 fraquezas importantes em seu pensamento. A primeira \u00e9 a sua ades\u00e3o ao papel dirigente do partido de vanguarda, um conceito que n\u00e3o pode ser encontrado em Marx, e que tem sido um fardo que nos sobrecarregou durante demasiado tempo com um modelo pobre de organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria\u2026.conceito elitista do partido de vanguarda\u2026\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns autores de esquerda contempor\u00e2neos nossos, separam o L\u00eanin que escreveu <em>Que Fazer?<\/em> do L\u00eanin mais amadurecido pela revolu\u00e7\u00e3o e se apoiam no fato de que ele orientou, durante a revolu\u00e7\u00e3o de 1905, a recrutar militantes de forma ampla, modificando a estrita sele\u00e7\u00e3o de revolucion\u00e1rios profissionais do <em>Que Fazer?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ora, neste caso, L\u00eanin n\u00e3o est\u00e1 modificando a estrutura do partido marxista revolucion\u00e1rio. Est\u00e1 apenas adaptando a estrutura do partido de vanguarda para um momento em que a classe trabalhadora fornece militantes revolucion\u00e1rios em grande quantidade e com uma qualidade superior pois est\u00e3o sendo formados no pr\u00f3prio processo revolucion\u00e1rio. Seu recrutamento massivo, permite ao partido acelerar sua forma\u00e7\u00e3o, dentro das suas fileiras, diminuindo as regras da \u201ctriagem\u201d individual.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin far\u00e1 o contr\u00e1rio depois da tomada do poder quando houve uma enxurrada de oportunistas que aderiam ao partido que dirigia o Estado. Ele fez uma depura\u00e7\u00e3o, expulsando boa parte destes oportunistas e estabelecendo regras duras para ingresso no partido: por exemplo, estipular um per\u00edodo de prova de 1 ano para quem trabalhou em grandes f\u00e1bricas por 10 anos enquanto o campon\u00eas teria per\u00edodo de 2 anos de prova antes de serem admitido como militante comunista.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, essas regras draconianas para ingresso no partido n\u00e3o devem ser vistas como uma mudan\u00e7a da estrutura do partido: segue como um partido de vanguarda, que n\u00e3o incorpora toda a massa prolet\u00e1ria, ainda que neste per\u00edodo o partido bolchevique j\u00e1 tinha mais de meio milh\u00e3o de militantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto a outra cr\u00edtica, de Kevin Anderson, que o partido de vanguarda, defendido por L\u00eanin n\u00e3o tinha amparo em Marx, se trata de um equ\u00edvoco. Marx n\u00e3o era apenas um te\u00f3rico do movimento prolet\u00e1rio. Ele foi dirigente da Liga dos Comunistas e nesta condi\u00e7\u00e3o escreveu, junto com Engels o <em>Manifesto do Partido Comunista<\/em>, que se converteu na base program\u00e1tica da Liga dos Comunistas. O estatuto dessa Liga j\u00e1 continha alguns elementos embrion\u00e1rios que ir\u00e3o constituir a estrutura centralizada do partido bolchevique. Como dirigentes da Associa\u00e7\u00e3o Internacional dos Trabalhadores, AIT ou I Internacional, Marx e Engels travaram em cada congresso internacional uma luta te\u00f3rica e program\u00e1tica contra a corrente bakuninistas e proudhonista, delimitando-se programaticamente e, por fim, estatutariamente onde estabeleceu uma embrion\u00e1ria centraliza\u00e7\u00e3o internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>As cr\u00edticas de Jameson e Anderson elencadas acima, emitidas no in\u00edcio do s\u00e9culo XXI, portanto 100 anos ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o de <em>Que Fazer?<\/em>, sequer se preocupam em explicar suas afirma\u00e7\u00f5es. Fazem isso, seguramente, apoiados na \u201cmentalidade atual\u201d da esquerda que, na sua maioria, s\u00e3o socialdemocratas ou ex-comunistas desiludidos com \u201ca queda do socialismo\u201d, ambos convertidos \u00e0 democracia burguesa e que abandonaram as barricadas da luta revolucion\u00e1ria para se instalarem comodamente nos pal\u00e1cios ministeriais e governamentais da burguesia.<\/p>\n\n\n\n<p>O horizonte da luta desta \u201cesquerda\u201d n\u00e3o passa de pequenas reformas do sistema capitalista e na idealiza\u00e7\u00e3o da democracia burguesa, isto \u00e9, est\u00e3o tentando aperfei\u00e7oar a democracia burguesa como corol\u00e1rio da perpetua\u00e7\u00e3o do sistema capitalista \u201ccom rosto humano\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Evidentemente, o projeto de partido destes setores j\u00e1 n\u00e3o corresponde com o partido marxista revolucion\u00e1rio, leninista, porque suas tarefas j\u00e1 n\u00e3o correspondem a preparar uma revolu\u00e7\u00e3o comunista para varrer o sistema capitalista mundial. Para que um partido revolucion\u00e1rio, cuja coluna vertebral \u00e9 composta militantes full time (necess\u00e1rios para dirigir uma revolu\u00e7\u00e3o socialista nacional e internacional) se a tarefa se reduziu a conquistar milh\u00f5es de votos e chegar ao poder pela \u201cvia pac\u00edfica\u201d?<\/p>\n\n\n\n<p>Para esta tarefa se necessita de um partido laxo, frouxo, de simpatizantes sem compromisso firme, que dedicam seus momentos livres para ajudar a diminuir a desigualdade no mundo, postando mensagens anticapitalistas nas redes sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>Para que um partido revolucion\u00e1rio, que exige uma disciplina f\u00e9rrea dos seus militantes e uma dedica\u00e7\u00e3o pessoal para adquirir uma profunda educa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, se a tarefa agora se trata de \u201c<em>mudar o mundo sem tomar o poder<\/em>\u201d?<a href=\"#_ftn11\" id=\"_ftnref11\">[11]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>O proletariado s\u00f3 pode acreditar nessa ilus\u00e3o no dia em que a burguesia mundial e o imperialismo entregar o poder de estado e suas propriedades e dom\u00ednios semicoloniais <em>voluntariamente<\/em> ao proletariado.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, pelo visto, est\u00e1 muito longe o dia em que a burguesia vai se desfazer das suas riquezas para ajudar a democratizar a sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao contr\u00e1rio, o que estamos vendo \u00e9 a destrui\u00e7\u00e3o maci\u00e7a da natureza e do ser humano para perpetuar a domina\u00e7\u00e3o imperialista do mundo, que est\u00e1 \u00e0 beira do precip\u00edcio, da barb\u00e1rie.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Segunda pol\u00eamica:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>introduzir a consci\u00eancia socialista \u201cde fora da luta econ\u00f4mica\u201d da classe trabalhadora ou a consci\u00eancia socialista brotar\u00e1 espontaneamente da auto-organiza\u00e7\u00e3o das massas?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A tese fundamental do livro <em>Que Fazer?<\/em> pode-se resumir assim:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA consci\u00eancia socialista n\u00e3o surge do movimento oper\u00e1rio espont\u00e2neo, ela \u00e9 introduzida no movimento prolet\u00e1rio pelo partido marxista revolucion\u00e1rio.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin alerta que a classe enquanto mat\u00e9ria bruta, no processo produtivo, \u00e9 material de explora\u00e7\u00e3o que possui uma consci\u00eancia rudimentar, pode-se dizer que \u00e9 uma consci\u00eancia espont\u00e2nea, que j\u00e1 arrasta experiencias de vida e de trabalho, assim como de lutas dos antepassados, por isso L\u00eanin diz que \u00e9 espont\u00e2nea, mas entendida como \u201cforma embrion\u00e1ria do consciente\u201d).<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 uma consci\u00eancia suficiente para agrupar e organizar os trabalhadores para uma luta de resist\u00eancia contra seu patr\u00e3o ou mesmo v\u00e1rios patr\u00f5es, mas muito distante de uma consci\u00eancia de classe, socialista, de uma compreens\u00e3o da necessidade de lutar contra todo o sistema capitalista. Essa luta sindical pode avan\u00e7ar at\u00e9 uma luta pol\u00edtica mais geral, onde a classe trabalhadora exige do governo de turno determinadas leis que melhoram as condi\u00e7\u00f5es de vida e trabalho. Por\u00e9m, essa \u201cpolitiza\u00e7\u00e3o\u201d n\u00e3o alcan\u00e7a a consci\u00eancia de lutar pela dire\u00e7\u00e3o da sociedade de conjunto, para derrubar o capitalismo e substituir pelo socialismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa consci\u00eancia de classe, socialista, \u00e9 adquirida por uma parte do proletariado, sua parte mais consciente, que por suas condi\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias de vida e de trabalho ou estudo, permitiram que sua consci\u00eancia se elevasse a um patamar superior ao da sua classe, que segue mergulhada nas piores condi\u00e7\u00f5es de vida, onde se gasta a maior parte do tempo para sobreviver e nada mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa vanguarda que se \u201cdestaca\u201d da multid\u00e3o de prolet\u00e1rios, constitui o partido marxista revolucion\u00e1rio, que \u00e9 o meio, a alavanca, que o proletariado utiliza para sair da sua condi\u00e7\u00e3o de \u201cclasse em si\u201d (a classe que cria toda riqueza no sistema capitalista enquanto \u00e9 empobrecida, material e psicologicamente, transformada em material bruto de explora\u00e7\u00e3o) a \u201cclasse para si\u201d (que adquire a consci\u00eancia da necessidade de realizar uma revolu\u00e7\u00e3o violenta que derrube todo o sistema econ\u00f4mico, pol\u00edtico e social capitalista e implante uma verdadeira democracia prolet\u00e1ria, baseadas em sovietes).<\/p>\n\n\n\n<p>O partido marxista revolucion\u00e1rio corporifica a ci\u00eancia marxista (o materialismo hist\u00f3rico e dial\u00e9tico, conformada pela jun\u00e7\u00e3o de tr\u00eas ci\u00eancias: a economia pol\u00edtica inglesa, a filosofia alem\u00e3 e o socialismo franc\u00eas) mas o partido revolucion\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 ci\u00eancia \u201cpura\u201d. Essa ci\u00eancia \u00e9 traduzida para a linguagem <em>pol\u00edtica<\/em> e corporificada nos princ\u00edpios, no programa e na estrat\u00e9gia do partido.<a href=\"#_ftn12\" id=\"_ftnref12\">[12]<\/a> Da\u00ed, essa ci\u00eancia j\u00e1 modificada, \u00e9 traduzida para a linguagem da massa atrav\u00e9s das t\u00e1ticas e das palavras de ordem que permitem a conex\u00e3o do partido com a luta espont\u00e2nea do proletariado. Nesse trajeto, a \u201cci\u00eancia\u201d perde sua forma pura e se mescla com sua forma \u201cmundana\u201d, originando as especificidades partid\u00e1rias de acordo com o pa\u00eds e o partido em quest\u00e3o. Mas, essa \u201cci\u00eancia\u201d depois de decodificada pelo partido \u00e9 levada desde \u201cfora\u201d da luta econ\u00f4mica e sindical pelo partido, na forma de t\u00e1ticas, atrav\u00e9s da agita\u00e7\u00e3o e da propaganda.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, \u00e9 correta a afirma\u00e7\u00e3o feita por Kautsky (seguindo a ideia do Manifesto Comunista) de que o partido revolucion\u00e1rio \u00e9 a uni\u00e3o da ci\u00eancia marxista com a luta do movimento prolet\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, temos que matizar essa afirma\u00e7\u00e3o com duas quest\u00f5es:<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira \u00e9 que j\u00e1 n\u00e3o se trata de uma ci\u00eancia \u201cpura\u201d (pois j\u00e1 foi \u201cdecodificada\u201d para outro canal, atrav\u00e9s do partido revolucion\u00e1rio), j\u00e1 foi matizada pelos militantes do partido na sua a\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica, assim como pela massa que receber\u00e1 a agita\u00e7\u00e3o e a propaganda partid\u00e1ria j\u00e1 devidamente adaptada, pedagogicamente, ao meio a que se dirige.<\/p>\n\n\n\n<p>A segunda \u00e9 que L\u00eanin faz um \u201cadendo\u201d a Kautsky e diz que a consci\u00eancia de classe socialista \u00e9 introduzida \u201cde fora da luta econ\u00f4mica\u201d. Isto \u00e9, \u201cde fora\u201d da luta por melhores sal\u00e1rios e condi\u00e7\u00f5es de trabalho, da luta por reformas dentro do sistema capitalista, de onde n\u00e3o vai brotar espontaneamente a consci\u00eancia socialista. Essa educa\u00e7\u00e3o, essa eleva\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia se fazem, segundo L\u00eanin, atrav\u00e9s do partido que \u00e9 \u201co elemento consciente de um processo inconsciente\u201d, citando uma frase de M\u00e1rtov que ele gostava.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse adendo \u00e9 importante porque L\u00eanin partia da vis\u00e3o que quem introduziria a consci\u00eancia de classe no movimento espont\u00e2neo seriam os militantes do partido, na sua maioria oriundos do meio prolet\u00e1rio e n\u00e3o a \u201cintelectualidade burguesa\u201d, como pensava Kautsky.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, \u00e9 equivocada a interpreta\u00e7\u00e3o \u201cintelectualista\u201d do <em>Que Fazer?<\/em> onde intelectuais burgueses e pequeno burgueses \u201censinariam\u201d o marxismo para os brutos oper\u00e1rios. L\u00eanin afirmou a impossibilidade de eleva\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia nas formas mais prim\u00e1rias de luta de classe, a luta econ\u00f4mica e sindical, deixando em aberto que formas mais elevadas da luta de classes, como guerras ou insurrei\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias, possam impulsionar a consci\u00eancia de classe do proletariado at\u00e9 se aproximar \u201cassintoticamente\u201d<a href=\"#_ftn13\" id=\"_ftnref13\">[13]<\/a> da consci\u00eancia socialista. Por\u00e9m, a hist\u00f3ria da luta de classes demonstrou que, sem a exist\u00eancia do partido revolucion\u00e1rio, essas explos\u00f5es terminaram sendo deglutidas pelo sistema capitalista, ainda que este tenha sido obrigado a \u201centregar os dedos, para n\u00e3o perder a m\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, a forma revolucion\u00e1ria da ci\u00eancia se corporifica na forma \u201cpol\u00edtica\u201d, isto \u00e9, no partido, que vai \u201cincutir\u201d o marxismo, atrav\u00e9s da agita\u00e7\u00e3o e da propaganda, entendida a agita\u00e7\u00e3o como a divulga\u00e7\u00e3o de poucas palavras de ordem que ajudam a luta espont\u00e2nea a se enfrentar com o cora\u00e7\u00e3o do sistema capitalista. J\u00e1 a propaganda explica pacientemente essas poucas palavras de ordem, recorrendo \u00e0 sua origem cientifica profunda, de forma simples e entend\u00edvel para a parte mais consciente do proletariado. O objetivo do partido \u00e9 elevar a consci\u00eancia espont\u00e2nea do movimento a uma consci\u00eancia de classe socialista.<\/p>\n\n\n\n<p>Entendido assim, a interpreta\u00e7\u00e3o de que a agita\u00e7\u00e3o se resume a lan\u00e7ar \u201cpoucas ideias para muita gente\u201d e a propaganda como \u201cmuitas ideias para pouca gente\u201d n\u00e3o pode originar um \u201cmovimentismo agitativo\u201d para as massas e uma propaganda restrita a um punhado de pessoas ou mesmo a indiv\u00edduos isolados, a \u201cvanguarda\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Fazer isto significa uma capitula\u00e7\u00e3o ao espontane\u00edsmo porque \u201cesquece\u201d que estas palavras de ordem e a agita\u00e7\u00e3o e a propaganda, assim como a t\u00e1tica espec\u00edfica usada nesse momento, todas elas s\u00e3o origin\u00e1rias do programa, dos princ\u00edpios e estes, por sua vez, se originam na ci\u00eancia marxista, na ci\u00eancia da revolu\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, a \u201cpedagogia\u201d pol\u00edtica que o partido utiliza para se conectar com a massa de conjunto, n\u00e3o pode levar a subestimar as possibilidades de educar e elevar a consci\u00eancia de classe do proletariado at\u00e9 a revolu\u00e7\u00e3o e ao socialismo. A propaganda assume um papel importante neste momento em que o partido est\u00e1 se ligando ao movimento de massas e vai at\u00e9 o momento em que o partido ainda n\u00e3o conquistou a maioria da classe trabalhadora para seu programa revolucion\u00e1rio. L\u00eanin sintetizava esta tarefa como a mais importante para esta segunda fase do partido, a fase da \u201cinf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia\u201d:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Enquanto se tratava \u2014 e na medida em que ainda se trata \u2014 de ganhar para o comunismo a vanguarda do proletariado, a prioridade recaia e recai no trabalho de propaganda.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Durante muito tempo e at\u00e9 o momento presente, muitos militantes em todo o mundo, n\u00e3o entenderam plenamente a import\u00e2ncia da propaganda e da luta te\u00f3rica na constru\u00e7\u00e3o de um partido leninista, na disputa da dire\u00e7\u00e3o das massas e, por isso, priorizou as lutas econ\u00f4micas e as palavras de ordem para a a\u00e7\u00e3o. Assim, o partido leninista foi caricaturizado como \u201cpartido das lutas\u201d. Por\u00e9m, se o partido marxista revolucion\u00e1rio \u00e9 o partido que leva o socialismo \u00e0s lutas deve ser denominado como o partido das lutas e da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O entendimento do L\u00eanin em <em>Que Fazer?<\/em> sobre a rela\u00e7\u00e3o da agita\u00e7\u00e3o e da propaganda era a seguinte:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>&#8230;um propagandista, se tratar por exemplo da quest\u00e3o do desemprego, deve explicar a natureza capitalista das crises, assinalar a inevitabilidade das mesmas na situa\u00e7\u00e3o atual, indicar a necessidade de transformar a sociedade capitalista em socialista, etc. Em suma deve dar \u201cmuitas ideias\u201d, tantas que&#8230;, no seu conjunto, s\u00f3 poder\u00e3o ser assimiladas no momento por (relativamente) poucas pessoas. (&#8230;)o agitador, ao contr\u00e1rio, ao tratar do mesmo problema, tomar\u00e1 um exemplo, o mais flagrante e conhecido (e far\u00e1 todos os esfor\u00e7os para inculcar nas \u201cmassas\u201d uma s\u00f3 ideia <\/em>(&#8230;)\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Veja que L\u00eanin n\u00e3o circunscreve a propaganda a poucas pessoas. Ele diz que por N motivos poucas pessoas (relativamente) compreender\u00e3o a propaganda realizada massivamente pelo partido. Esse aspecto da propaganda adquire mais peso com o surgimento da internet e das redes sociais, onde a mensura\u00e7\u00e3o de \u201cpoucas pessoas\u201d ou \u201cmuitas pessoas\u201d n\u00e3o depende mais da presen\u00e7a f\u00edsica, que se pode medir.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, essa propaganda \u201ccient\u00edfica\u201d n\u00e3o pode ser entendida como \u201cacad\u00eamica\u201d, onde s\u00e1bios professores ensinam o socialismo para uma chusma ignorante.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m deve ser negada a caricatura stalinista que mostra os militantes partid\u00e1rios como rob\u00f4s externos \u00e0 classe (uma categoria ass\u00e9ptica de militante impessoal), que substituem a classe e afogam suas lutas espont\u00e2neas para impedir que elas se transformem em insurrei\u00e7\u00f5es contra a burocracia governante, que usurpou o poder pol\u00edtico da classe trabalhadora na URSS.<\/p>\n\n\n\n<p>Para L\u00eanin, s\u00e3o os militantes do partido, a ampla maioria oriunda do meio oper\u00e1rio, que far\u00e3o esta propaganda revolucion\u00e1ria entre a classe, que elevar\u00e1 seu n\u00edvel de consci\u00eancia e ao mesmo tempo, aproximar\u00e1 e recrutar\u00e1 os(as) prolet\u00e1rios(as) mais conscientes para as fileiras do partido marxista revolucion\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Vista assim, a discuss\u00e3o se a consci\u00eancia vem de \u201cfora\u201d ou de \u201cdentro\u201d, em uma contraposi\u00e7\u00e3o absoluta, \u00e9 falsa e tem o objetivo de \u201cqueimar\u201d a posi\u00e7\u00e3o de L\u00eanin como antidemocr\u00e1tica e ditatorial, substitutiva da classe trabalhadora, ou de demonstrar um L\u00eanin \u201cexterior\u201d \u00e0 classe, um g\u00eanio parido do nada, que trazia a ci\u00eancia e a guerra na cabe\u00e7a, desde o ber\u00e7o, como uma Minerva prolet\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Um exemplo para que se entenda melhor que a \u201cconsci\u00eancia \u00e9 introduzida de fora da luta espont\u00e2nea\u201d: h\u00e1 8 anos atr\u00e1s praticamente ningu\u00e9m tinha conhecimento da corrente de ultradireita internacional. Com a subida de Trump, Bolsonaro e outros todo o mundo ficou espantado com a virul\u00eancia dessa corrente pol\u00edtica. Pois bem, a ideologia burguesa de ultradireita estava hibernando h\u00e1 mais 60 anos e de repente come\u00e7ou a aparecer, primeiro na figura de intelectuais como Steve Bannon e Olavo de Carvalho, que se disseminaram via internet (ajudados por contribui\u00e7\u00f5es bilion\u00e1rias de uma parte da burguesia mundial), at\u00e9 alcan\u00e7ar uma influ\u00eancia nas grandes massas de trabalhadores. A\u00ed encontrou seus propagandistas e agitadores, escolheu seus \u201cimbecis\u201d do tipo Bolsonaro (pois para destruir n\u00e3o se necessita de nenhuma qualidade especial) para ser porta-vozes de uma antici\u00eancia. Para que essa ideologia contrarrevolucion\u00e1ria tivesse peso na massa <em>foi preciso ter partidos pol\u00edticos que levaram essa ideologia contrarrevolucion\u00e1ria de \u201cfora\u201d<\/em> <em>das lutas espont\u00e2neas. <\/em>Mas, \u00e9 preciso dizer, que n\u00e3o foi de fora da luta de classes, se entendemos que a disputa ideol\u00f3gica \u00e9 parte da luta de classes.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, concluindo, n\u00e3o h\u00e1 uma contradi\u00e7\u00e3o <em>absoluta<\/em> entre \u201cci\u00eancia\u201d (consci\u00eancia socialista) e o movimento espont\u00e2neo (consci\u00eancia econ\u00f4mica-sindical) desde que haja o partido revolucion\u00e1rio como mediador, n\u00e3o como qualquer mediador, mas o \u00fanico que pode assumir o protagonismo, que subordina a ci\u00eancia (luta ideol\u00f3gica\/program\u00e1tica) e a espontaneidade (luta econ\u00f4mica-sindical) em uma s\u00f3 luta pol\u00edtica, isto \u00e9, a luta pelo dom\u00ednio da sociedade pela classe revolucion\u00e1ria. S\u00f3 assim, a ci\u00eancia marxista e a espontaneidade das massas (subordinadas pela luta pol\u00edtica, mas n\u00e3o secundarizadas) podem se converter em fatores revolucion\u00e1rios na sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo L\u00eanin, no momento da insurrei\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria \u00e9 o momento em que a ci\u00eancia, a pol\u00edtica e a luta espont\u00e2nea se fundem num mesmo caudal e, aparentemente, a vanguarda se funde com a massa, onde:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNadezhdin fica confuso porque imagina que este ex\u00e9rcito sistematicamente organizado est\u00e1 ocupado com algo que o separa da multid\u00e3o, quando, na realidade, est\u00e1 exclusivamente ocupado com uma agita\u00e7\u00e3o pol\u00edtica m\u00faltipla e geral, isto \u00e9, precisamente com o trabalho que <em>aproxima e se funde<\/em> <em>num todo<\/em> a for\u00e7a destrutiva espont\u00e2nea da multid\u00e3o e a for\u00e7a destrutiva consciente da organiza\u00e7\u00e3o dos revolucion\u00e1rios.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Como podem ver, L\u00eanin n\u00e3o contrap\u00f5e o \u201cespont\u00e2neo\u201d ao \u201cconsciente\u201d, mas conecta os dois, tornando-os indestrut\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, a transforma\u00e7\u00e3o do proletariado de \u201cclasse em si\u201d a \u201cclasse para si\u201d s\u00f3 pode ocorrer com a media\u00e7\u00e3o do partido marxista revolucion\u00e1rio, da vanguarda prolet\u00e1ria organizada em partido pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p>*****<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 a cr\u00edtica central ao livro do L\u00eanin, feita no per\u00edodo da sua publica\u00e7\u00e3o, no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, come\u00e7ando por Rosa Luxemburgo dizia:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c\u2026o \u00fanico sujeito a quem corresponde hoje o papel de l\u00edder \u00e9 o Eu coletivo da classe trabalhadora, que exige resolutamente o direito de cometer erros.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Trotsky, por outro lado, afirmava em <em>Nossas tarefas pol\u00edticas<\/em>, livro de 1904:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cMas cada processo parcial na luta de classes geral do proletariado\u2026 desenvolve as suas pr\u00f3prias tend\u00eancias imanentes: os seus pr\u00f3prios m\u00e9todos de pensamento e t\u00e1cticas, os seus pr\u00f3prios slogans e a sua pr\u00f3pria psicologia espec\u00edfica. Cada processo parcial tende a superar os seus limites (definidos pela sua natureza) e a imprimir a sua t\u00e1ctica, o seu pensamento, os seus slogans e a sua moral, em todo o movimento hist\u00f3rico por si desencadeado.<\/p>\n\n\n\n<p>(\u2026)<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cMas na medida em que temos que realizar uma tarefa mais complexa: transformar estes \u201cinstintos\u201d em aspira\u00e7\u00f5es conscientes de uma classe trabalhadora que se determina politicamente, tendemos a recorrer aos atalhos e simplifica\u00e7\u00f5es do \u201cpensar por eles\u201d e \u201csubstitucionismo\u201d. Na pol\u00edtica interna do partido, estes m\u00e9todos levam, como veremos mais adiante, \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o do partido \u201csubstituir\u201d o partido, ao comit\u00e9 central substituir a organiza\u00e7\u00e3o do partido e, finalmente, ao ditador substituir o comit\u00e9 central. \u2026 \u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Como se pode ver, a cr\u00edtica que Rosa e de Trotsky fazem a L\u00eanin \u00e9 que este n\u00e3o concordava que a consci\u00eancia de classe seria um produto autom\u00e1tico da luta espont\u00e2nea do proletariado.<\/p>\n\n\n\n<p>Justamente, seus argumentos respondem a discuss\u00e3o central do <em>Que Fazer?<\/em> onde L\u00eanin fazia a diferencia\u00e7\u00e3o entre classe trabalhadora e partido marxista revolucion\u00e1rio, entre a classe e a vanguarda.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cIsto prova (\u2026) que <em>tudo o que cultua<\/em> a espontaneidade do movimento oper\u00e1rio, tudo o que diminui o papel do \u201celemento consciente\u201d, o papel da social-democracia, significa &#8211; de uma <em>forma completamente estranha \u00e0 vontade de quem o faz isso<\/em> \u2013 <em>aumentar a influ\u00eancia da ideologia burguesa entre os trabalhadores<\/em>. Aqueles que falam de &#8220;superestima\u00e7\u00e3o da ideologia&#8221;, de exagero do papel do elemento consciente, etc., imaginam que o movimento puramente oper\u00e1rio pode e ir\u00e1 desenvolver por si s\u00f3 uma ideologia independente, desde que os trabalhadores &#8220;tomem o seu destino das m\u00e3os dos l\u00edderes&#8221;. Mas isso \u00e9 um grande erro.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Rosa e Trotsky viam a o desenvolvimento da consci\u00eancia da classe trabalhadora de forma espont\u00e2nea e aut\u00f4noma do partido e, em certo sentido, contra o partido ou contra \u201cseus dirigentes\u201d. Em suma, uma luta onde o partido desempenharia um papel secund\u00e1rio, quase como um tutor que acompanha de longe seu pupilo.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosa chegou a essa posi\u00e7\u00e3o devido a uma an\u00e1lise fatalista do capitalismo, que marcha para a cat\u00e1strofe, levando o proletariado a assumir uma posi\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria. O partido seria o ponto de encontro desse proletariado que se radicalizava nas lutas. Partindo dessas an\u00e1lises objetivistas, Rosa dava um peso menor ao elemento consciente (que seria produto das pr\u00f3prias contradi\u00e7\u00f5es) e aumentava geometricamente as potencialidades revolucionarias do proletariado.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, a luta pol\u00edtica n\u00e3o tem nada a ver com uma luta id\u00edlica. \u00c9 uma luta mortal entre institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que disputam a dire\u00e7\u00e3o da sociedade e das classes. \u00c9 uma luta ideol\u00f3gica, pol\u00edtica e sindical onde se utiliza a luta de ideias, petrificadas em institui\u00e7\u00f5es que utilizam a for\u00e7a material da sociedade para impor sua vontade.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, essas organiza\u00e7\u00f5es, como os partidos burgueses e reformistas, com o conjunto das suas institui\u00e7\u00f5es, disputam a dire\u00e7\u00e3o do proletariado para desviar sua luta e submet\u00ea-lo ao dom\u00ednio capitalista, para que n\u00e3o entre na via da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A luta pela consci\u00eancia \u00e9 uma luta entre organiza\u00e7\u00f5es pela disputa da consci\u00eancia, n\u00e3o \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o \u201cpedag\u00f3gica\u201d entre o partido e as massas, \u00e9 uma luta de ideias, de programas enfrentados, entre partidos pol\u00edticos e organiza\u00e7\u00f5es sociais, enfrentadas umas com as outras, para influir decisivamente na consci\u00eancia do movimento de massas. A luta de ideias \u00e9 uma express\u00e3o fundamental da luta de classes. L\u00eanin adverte em <em>Conversa com os defensores do economismo<\/em> este aspecto da luta:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEles n\u00e3o entendem que o \u201cide\u00f3logo\u201d s\u00f3 merece o nome de ide\u00f3logo quando <em>est\u00e1 \u00e0 frente<\/em> do movimento espont\u00e2neo, mostrando-lhe o caminho, quando sabe resolver, diante dos outros, todos os problemas te\u00f3ricos, pol\u00edticos, t\u00e1ticos e org\u00e2nicos que trope\u00e7a com os \u201celementos materiais\u201d do movimento. Para realmente \u201cter em conta os elementos materiais do movimento\u201d devemos julg\u00e1-los criticamente, devemos saber apontar os perigos e defeitos do movimento espont\u00e2neo, devemos saber elevar o espont\u00e2neo ao consciente. Mas dizer que os ide\u00f3logos (isto \u00e9, os l\u00edderes conscientes) n\u00e3o podem desviar o movimento do caminho determinado pela interdepend\u00eancia do ambiente e dos elementos significa esquecer a verdade bem conhecida de que a consci\u00eancia participa nesta interdepend\u00eancia e nesta determina\u00e7\u00e3o. Os sindicatos cat\u00f3licos e mon\u00e1rquicos da Europa s\u00e3o tamb\u00e9m um resultado necess\u00e1rio da interdepend\u00eancia entre o meio ambiente e os elementos, mas nesta interdepend\u00eancia participou mais a consci\u00eancia dos padres e dos Zub\u00e1tov, e n\u00e3o a consci\u00eancia dos socialistas. As opini\u00f5es te\u00f3ricas dos autores da carta (as mesmas do Rab. Delo) n\u00e3o s\u00e3o marxismo, mas uma par\u00f3dia do marxismo, com a qual nossos &#8220;cr\u00edticos&#8221; e os Bernsteinianos que n\u00e3o sabem vincular a evolu\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea com o revolucion\u00e1rio consciente atividade.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin nunca disse que a classe operaria era incapaz de alcan\u00e7ar uma consci\u00eancia socialista. O que ele afirmou \u00e9 que a consci\u00eancia socialista n\u00e3o \u00e9 um produto autom\u00e1tico da luta econ\u00f4mica, entre patr\u00f5es e trabalhadores, e que era necess\u00e1rio a interven\u00e7\u00e3o decidida dos elementos de vanguarda organizados no partido marxista revolucion\u00e1rio para ganhar a dire\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora em uma luta mortal com os partidos burgueses e reformistas. A eleva\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia de classe do espontane\u00edsmo para a consci\u00eancia socialista, n\u00e3o pode ser alcan\u00e7ada pela classe, deixada \u00e0 sua pr\u00f3pria sorte, em luta contra essas poderosas organiza\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas que inoculam todos os dias uma consci\u00eancia burguesa na classe trabalhadora. A exist\u00eancia do partido marxista revolucion\u00e1rio, para varrer a influ\u00eancia dessas organiza\u00e7\u00f5es no movimento oper\u00e1rio, \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o para a vit\u00f3ria dessa luta e, portanto, para a eleva\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia de classe e socialista do proletariado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As caracter\u00edsticas de um partido leninista<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Depois de tudo que foi exposto anteriormente, gostar\u00edamos de apresentar o que consideramos essencial na estrutura de um partido leninista.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, antes quer\u00edamos debater uma quest\u00e3o: pode-se denominar o partido marxista revolucion\u00e1rio como <em>leninista<\/em>, depois da forma\u00e7\u00e3o do partido bolchevique na R\u00fassia? Ou n\u00e3o existe uma universalidade neste tipo de partido comunista que justifique o nome de <em>leninista<\/em>?<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA necessidade de construir o partido para a revolu\u00e7\u00e3o nessas condi\u00e7\u00f5es objetivas, onde a norma era a clandestinidade absoluta, onde n\u00e3o havia sindicatos legais nem, muitos menos, elei\u00e7\u00f5es peri\u00f3dicas, explica o surgimento de um novo tipo de partido: o bolchevique. Ser\u00e1 uma forma de organiza\u00e7\u00e3o inovadora, revolucion\u00e1ria&#8230;\u201d<a href=\"#_ftn14\" id=\"_ftnref14\">[14]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Para muitos marxistas, o <em>Que Fazer?<\/em> foi um livro importante do L\u00eanin, mas respondia as necessidades da organiza\u00e7\u00e3o naquele momento e naquele pa\u00eds e que rapidamente se tornou obsoleto, que n\u00e3o tinha um car\u00e1ter de partido especial, universal, de um tipo diferente dos partidos da II Internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>A universalidade do partido bolchevique n\u00e3o se deve ao que era especificamente russo: a clandestinidade rigorosa, devido \u00e0 n\u00e3o exist\u00eancia de sindicatos e partidos legais, que obrigou L\u00eanin a formar um partido composto essencialmente de revolucion\u00e1rios profissionais, centralizados nacionalmente e com uma disciplina f\u00e9rrea, para enfrentar a repress\u00e3o da autocracia.<\/p>\n\n\n\n<p>A universalidade do partido bolchevique se deve ao seu objetivo: um partido para dirigir a revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria e isso deu caracter\u00edsticas universais que at\u00e9 hoje s\u00e3o atuais (respeitando as especificidades), para qualquer partido revolucion\u00e1rio que queira dirigir uma revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, \u00e9 muito importante separar as <strong>normas de constru\u00e7\u00e3o do partido<\/strong> ou os <strong>princ\u00edpios organizativos<\/strong> (que se referem a natureza e a estrat\u00e9gia do partido, a destrui\u00e7\u00e3o do Estado burgu\u00eas, que d\u00e3o universalidade ao partido leninista) das <strong>t\u00e1ticas<\/strong> (isto \u00e9, das formas de rela\u00e7\u00e3o entre o partido e as massas, que tem a ver com a especificidade do pa\u00eds e do momento conjuntural da luta de classes e da organiza\u00e7\u00e3o em quest\u00e3o).<\/p>\n\n\n\n<p>Seguramente que o leitor n\u00e3o ver\u00e1 como inconveniente, que fa\u00e7amos uma sistematiza\u00e7\u00e3o do que acreditamos ser as caracter\u00edsticas universais de um partido de tipo <em>bolchevique<\/em> ou <em>leninista<\/em>:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Princ\u00edpios gerais de organiza\u00e7\u00e3o do partido leninista<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Acreditamos que um partido leninista se estrutura em base a princ\u00edpios fundamentais de organiza\u00e7\u00e3o, que pode ter N combina\u00e7\u00f5es de acordo com as especificidades do pa\u00eds em que se organiza ou da etapa pol\u00edtica que atravessa o pa\u00eds ou mesmo o momento da organiza\u00e7\u00e3o e da localiza\u00e7\u00e3o dos seus militantes.<\/p>\n\n\n\n<p>O livro <em>Que Fazer?<\/em> de L\u00eanin foi uma tentativa de dotar o POSDR de uma estrutura partid\u00e1ria baseada nestes 6 pontos que, no momento em que se escreveu o livro, ainda estavam desigualmente combinados no partido.<\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\" type=\"1\" start=\"1\">\n<li><strong>Partido internacionalista<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n\n\n\n<p>O capitalismo \u00e9 um sistema mundial.&nbsp; A burguesia e proletariado s\u00e3o classes internacionais. S\u00f3 se entende, verdadeiramente, um pa\u00eds vendo-o dentro do mundo. Aprendendo com a experiencia pol\u00edtica e organizativa dos outros partidos e pa\u00edses.<\/p>\n\n\n\n<p>O verdadeiro internacionalismo n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 apoio aos povos, mas construir o partido leninista como parte insepar\u00e1vel da Internacional Comunista.<\/p>\n\n\n\n<p>O internacionalismo significa que, caso seja necess\u00e1rio, sacrificar a revolu\u00e7\u00e3o em um pa\u00eds determinado para que ven\u00e7a a revolu\u00e7\u00e3o mundial.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin via assim este aspecto universal do partido leninista:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c\u2026o movimento socialdemocrata \u00e9 internacional por natureza. &#8230;.Isto significa que o movimento inicial em um pa\u00eds jovem s\u00f3 pode desenvolver-se com \u00eaxito com a condi\u00e7\u00e3o de que aplique a experiencia de outros pa\u00edses. E para isso n\u00e3o basta conhecer simplesmente esta experiencia ou copiar as \u00faltimas resolu\u00e7\u00f5es adotadas; para isso \u00e9 necess\u00e1rio saber enfocar criticamente esta experiencia e comprov\u00e1-la por si mesmo.\u201d <strong>L\u00eanin, <em>Que Fazer?<\/em> 1902<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u201c&#8230; o internacionalismo prolet\u00e1rio exige: I) a subordina\u00e7\u00e3o dos interesses da luta prolet\u00e1ria em um pa\u00eds aos interesses desta luta em escala mundial; 2) que a na\u00e7\u00e3o que triunfa sobre a burguesia seja capaz e esteja disposta a fazer os maiores sacrif\u00edcios nacionais em defesa da derrubada do capital internacional.\u201d (&#8230;) \u201cEstamos todos dispostos a morrer para ajudar os oper\u00e1rios alem\u00e3es a levar adiante a revolu\u00e7\u00e3o que se iniciou na Alemanha. Conclus\u00e3o : 1) decuplicar os esfor\u00e7os para obter cereais (usar todas as reservas, tanto para n\u00f3s quanto para os oper\u00e1rios alem\u00e3es). 2) decuplicar o alistamento no ex\u00e9rcito. Devemos ter um ex\u00e9rcito de 3 milh\u00f5es na primavera, para ajudar a revolu\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria internacional.\u201d <strong>L\u00eanin, Cartas de 1920.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\" type=\"1\" start=\"2\">\n<li><strong>Partido composto por militantes ativos<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n\n\n\n<p>O Partido busca ter apenas militantes ativos entre seus membros. Por isso, o partido trata de delimitar bem suas fronteiras, aceitando apenas membros que concordam com sua doutrina e programa e est\u00e3o dispostos a construir o partido no interior do movimento dos trabalhadores, especialmente na classe oper\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>A disciplina de ferro que necessitamos s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel de conquistar num ex\u00e9rcito que combate cotidianamente na luta de classes. Essa \u201cconfian\u00e7a militante\u201d s\u00f3 se adquire na milit\u00e2ncia comum.<\/p>\n\n\n\n<p>A dire\u00e7\u00e3o do partido, nacional e local, deve se apoiar em militantes que dediquem uma parte da sua vida ao partido e \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, o partido leninista tem uma estrutura oposta \u00e0 do partido reformista que se apoia em eleitores cadastrados (filiados), que s\u00e3o procurados apenas em v\u00e9speras de elei\u00e7\u00f5es e que n\u00e3o decidem nada no partido. S\u00e3o apenas currais eleitorais usados pelos dirigentes para defender seus interesses particulares ou suas candidaturas parlamentares.<\/p>\n\n\n\n<p>A coluna vertebral do partido leninista s\u00e3o os militantes profissionais, \u201cpessoas cuja profiss\u00e3o \u00e9 a a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria\u201d, \u201coper\u00e1rios devotados de corpo e alma a revolu\u00e7\u00e3o\u201d. N\u00e3o s\u00e3o apenas militantes remunerados pelo partido (essa \u00e9 uma camada menor), s\u00e3o os militantes que dedicam a vida ao partido.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin resumiu assim essa caracter\u00edstica essencial do partido leninista:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cTemos que preparar homens que dediquem toda sua vida a revolu\u00e7\u00e3o e n\u00e3o apenas suas tardes livres. Temos que preparar uma organiza\u00e7\u00e3o t\u00e3o numerosa que possa dividir as diversas tarefas partid\u00e1rias<strong>.\u201d&nbsp; L\u00eanin, Tomo 4, ano 1900, P\u00e1gina 396<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEm ess\u00eancia, toda a posi\u00e7\u00e3o dos oportunistas em mat\u00e9ria de organiza\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a revelar-se j\u00e1 na discuss\u00e3o do par\u00e1grafo primeiro: na sua defesa de uma organiza\u00e7\u00e3o do partido difusa e n\u00e3o fortemente cimentada; na sua hostilidade \u00e0 ideia (\u00e0 ideia &#8220;burocr\u00e1tica&#8221;) da edifica\u00e7\u00e3o do partido de cima para baixo, a partir do congresso do partido e dos organismos por ele criados; na sua tend\u00eancia para atuar de baixo para cima, permitindo a qualquer professor, a qualquer estudante do liceu e a &#8220;qualquer grevista&#8221; declarar-se membro do partido; na sua hostilidade ao &#8220;formalismo&#8221;, que exige a um membro do partido que perten\u00e7a a uma organiza\u00e7\u00e3o reconhecida pelo partido; na sua tend\u00eancia para uma mentalidade de intelectual burgu\u00eas, pronto apenas a &#8220;reconhecer platonicamente as rela\u00e7\u00f5es de organiza\u00e7\u00e3o&#8221;; na sua inclina\u00e7\u00e3o para essa sutileza de esp\u00edrito oportunista e as frases anarquistas; na sua tend\u00eancia para a descentraliza\u00e7\u00e3o contra o centralismo; numa palavra, em tudo o que hoje floresce t\u00e3o exuberantemente no novo Iskra, e que contribui para o esclarecimento cada vez mais profundo e evidente do erro inicial.\u201d <strong>Lenin, Tomo 8, 1904, pagina 199<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\" type=\"1\" start=\"3\">\n<li><strong>Partido baseado no centralismo democr\u00e1tico<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n\n\n\n<p>O objetivo fundamental ao qual o partido se prop\u00f5e (a tomada do poder pela classe oper\u00e1ria, destrui\u00e7\u00e3o do Estado burgu\u00eas e implanta\u00e7\u00e3o da ditadura do proletariado) determina a necessidade de uma forte disciplina e centraliza\u00e7\u00e3o no seu funcionamento.<\/p>\n\n\n\n<p>A disciplina \u00e9 necess\u00e1ria, tamb\u00e9m, para que o partido estabele\u00e7a uma rela\u00e7\u00e3o permanente com as massas. Para isso precisa atuar junto \u00e0s massas como \u201cum s\u00f3 homem\u201d, como dizia Lenin, o que exige disciplina e centraliza\u00e7\u00e3o em torno da pol\u00edtica definida para ser levada ao movimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, o partido necessita de uma ampla democracia interna, para que a elabora\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica levada ao movimento seja coletiva, envolva toda a milit\u00e2ncia e as pr\u00f3prias massas onde o partido interv\u00e9m (as massas participam da elabora\u00e7\u00e3o do partido atrav\u00e9s dos militantes que com elas tem contato na implementa\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica votada).<\/p>\n\n\n\n<p>Isso n\u00e3o implica negar os direitos das minorias dentro do partido. Pelo contr\u00e1rio, eles devem ser assegurados. O direito \u00e0 controv\u00e9rsia, al\u00e9m de uma exig\u00eancia democr\u00e1tica, pode ser um ponto de apoio tamb\u00e9m ao conjunto do partido, para refletir sobre suas decis\u00f5es e eventualmente corrigi-las. Especialmente nos per\u00edodos congressuais as minorias poder\u00e3o se organizar em tend\u00eancias ou fra\u00e7\u00f5es e disputar todo o partido para suas opini\u00f5es, tendo os mesmos direitos que a dire\u00e7\u00e3o do partido. O que est\u00e1 dito acima implica tamb\u00e9m que a luta por ideias levadas a cabo dentro do partido por uma tend\u00eancia ou fra\u00e7\u00e3o deve ser feita conforme rezam os estatutos, pelos organismos; e que n\u00e3o deve prejudicar a interven\u00e7\u00e3o unificada do partido no movimento de massas com a pol\u00edtica votada.<\/p>\n\n\n\n<p>Deriva da\u00ed o centralismo democr\u00e1tico como princ\u00edpio de funcionamento do partido revolucion\u00e1rio. Neste, a minoria se subordina \u00e0 maioria, a parte ao todo, permitindo uma unidade de a\u00e7\u00e3o \u00fanica de todo o partido numa disciplina quase militar.<\/p>\n\n\n\n<p>O centralismo democr\u00e1tico \u00e9 uma combina\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica entre centraliza\u00e7\u00e3o e democracia ou, como dizem as Teses da III Internacional, \u201cuma verdadeira s\u00edntese, uma fus\u00e3o da centraliza\u00e7\u00e3o e da democracia oper\u00e1ria\u201d. N\u00e3o h\u00e1 f\u00f3rmula exata que descreva esta rela\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 mecanismo estatut\u00e1rio que a resolva de forma precisa e determinada.<\/p>\n\n\n\n<p>Constitui-se num desvio de tipo anarquista e pequeno-burgu\u00eas a vis\u00e3o de que a minoria (parte) n\u00e3o se subordina \u00e0 maioria (ao todo). Parte do conceito da democracia burguesa, onde predomina a individualidade sobre o coletivo, a propriedade privada sobre a sociedade. V\u00ea o partido como arena para a express\u00e3o da livre individualidade, isto \u00e9, um clube de debates. A democracia \u00e9 vital no Partido, por\u00e9m est\u00e1 ao servi\u00e7o de preparar o partido para a luta contra a burguesia e o oportunismo, para a vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A defesa do direito das minorias n\u00e3o deve levar \u00e0 vis\u00e3o de que o Partido \u00e9 constitu\u00eddo por uma federa\u00e7\u00e3o (frente) de tend\u00eancias permanentes, onde prevalece o \u201cacordo\u201d ou o \u201cconsenso\u201d entre as correntes pol\u00edticas. Esse funcionamento se d\u00e1 nos partidos reformistas, onde h\u00e1 uma subordina\u00e7\u00e3o da maioria dos membros do partido \u00e0 minoria dirigente.<\/p>\n\n\n\n<p>Aprecia\u00e7\u00e3o de L\u00eanin e da III Internacional sobre o \u201ccentralismo democr\u00e1tico\u201d:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEstamos dispostos a repetir uma vez mais os <strong>princ\u00edpios organizativos fundamentais<\/strong> cuja aceita\u00e7\u00e3o \u00e9, a nosso entender, indispens\u00e1vel para a fus\u00e3o: 1) A minoria deve submeter-se \u00e0 maioria. O organismo supremo do Partido deve ser o congresso, &#8230;. a decis\u00e3o destes delegados deve ser definitiva. O conceito de membro do Partido deve ser definido com absoluta precis\u00e3o. Igualmente devem ser definidos com precis\u00e3o nos Estatutos do Partido os direitos de toda minoria. Tais s\u00e3o, a nosso ju\u00edzo, os princ\u00edpios organizativos absolutamente obrigat\u00f3rios e cuja n\u00e3o aceita\u00e7\u00e3o torna imposs\u00edvel a fus\u00e3o.\u201d <strong>Lenin \u2013 Obras Completas: Tomo XI (1905)<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO centralismo democr\u00e1tico na organiza\u00e7\u00e3o do Partido Comunista deve ser uma verdadeira s\u00edntese, uma fus\u00e3o da centraliza\u00e7\u00e3o e da democracia oper\u00e1ria. Essa fus\u00e3o s\u00f3 pode ser obtida por uma atividade comum permanente, por uma luta igualmente comum e permanente do conjunto do partido.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>(&#8230;)<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA centraliza\u00e7\u00e3o no Partido Comunista n\u00e3o deve ser formal e mec\u00e2nica; deve ser uma centraliza\u00e7\u00e3o da atividade comunista; isto \u00e9, a forma\u00e7\u00e3o de uma dire\u00e7\u00e3o poderosa, pronta para o ataque e ao mesmo tempo capaz de adapta\u00e7\u00e3o. Uma centraliza\u00e7\u00e3o formal ou mec\u00e2nica ser\u00e1 apenas a centraliza\u00e7\u00e3o do \u201cpoder\u201d nas m\u00e3os de uma burocracia para dominar os outros membros do partido ou as massas do proletariado revolucion\u00e1rio exteriores ao partido.\u201d <strong>Teses da III Internacional, Estrutura e m\u00e9todos de organiza\u00e7\u00e3o dos Partidos Comunistas, 1921<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\" type=\"1\" start=\"4\">\n<li><strong>Partido com maioria de oper\u00e1rios na base e na dire\u00e7\u00e3o<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n\n\n\n<p>Os partidos marxistas, socialistas, sempre tiveram uma base social predominante de oper\u00e1rios industriais.<\/p>\n\n\n\n<p>Parte de uma concep\u00e7\u00e3o onde o proletariado \u00e9 a classe mais importante da sociedade, em especial o oper\u00e1rio industrial, que \u00e9 a sua vanguarda.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Marx, em <strong><em>O Capital<\/em><\/strong>, o oper\u00e1rio industrial e rural \u00e9 o \u00fanico que cria valor e mais-valia, que cria mercadorias na forma de bens materiais, que transforma mat\u00e9ria-prima em produto final. Neles se concentra a produ\u00e7\u00e3o de riquezas desta sociedade. Depois dele, toda a cadeia subsequente de servi\u00e7os (com\u00e9rcio que circular\u00e1 as mercadorias, bancos que auxiliam a produ\u00e7\u00e3o com empr\u00e9stimos, Estado que arrecada impostos sobre estas mercadorias) se apropria de peda\u00e7os desta riqueza produzida nas f\u00e1bricas, minas, canteiros de obras, refinarias, transporte ferrovi\u00e1rio, rodovi\u00e1rio e a\u00e9reo de mercadorias. A isto se soma a concentra\u00e7\u00e3o dos oper\u00e1rios em grandes f\u00e1bricas e bairros oper\u00e1rios que permitem uma maior consci\u00eancia e combatividade, como demonstra o caso brasileiro cujo proletariado industrial foi e \u00e9 a vanguarda indiscut\u00edvel da luta do povo desde 1978.<\/p>\n\n\n\n<p>Come\u00e7ando com a vis\u00e3o de Marx e Engels que trataram de todas as formas de acabar com o socialismo de sal\u00e3o, intelectualizado e acad\u00eamico, para lig\u00e1-lo com o movimento oper\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p><em>&nbsp;\u201cO novo na Internacional \u00e9 que ela foi fundada pelos oper\u00e1rios e para os oper\u00e1rios. As demais organiza\u00e7\u00f5es diferentes da Internacional foram sociedades fundadas pelos elementos radicais das classes dominantes para as classes trabalhadoras&#8230;\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cUm dos primeiros passos e mais importantes de todo pa\u00eds que se incorpora ao movimento ser\u00e1 o da organiza\u00e7\u00e3o de um partido oper\u00e1rio independente, n\u00e3o importa por qual caminho conseguiu desde que este partido seja verdadeiramente oper\u00e1rio.\u201d <\/em>Obras de Karl Marx e F. Engels, tomo 36 p\u00e1g. 489, citado por L\u00eanin, Obras Completas, tomo 15<\/p>\n\n\n\n<p>Esta orienta\u00e7\u00e3o formou partidos com grande peso oper\u00e1rio na sua composi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Na composi\u00e7\u00e3o social do POSDR russo sempre predominou os oper\u00e1rios industriais, desde o in\u00edcio do s\u00e9culo XX quando o partido deixou de ser um c\u00edrculo propagand\u00edstico. A prioridade n\u00famero 1 do partido sempre foi a atua\u00e7\u00e3o no proletariado industrial.<\/p>\n\n\n\n<p><em>&nbsp;\u201cNosso trabalho est\u00e1 dirigido, antes de tudo e sobretudo, aos oper\u00e1rios fabris da cidade. A socialdemocracia russa n\u00e3o deve dispersar for\u00e7as, e sim concentrar sua atividade entre o proletariado industrial&#8230; consideramos inoportuno orientar suas for\u00e7as para os artes\u00e3os e oper\u00e1rios agr\u00edcolas&#8230;\u201d&nbsp; <\/em>Para L\u00eanin, os oper\u00e1rios fabris eram as<em> \u201cfilas avan\u00e7adas, a vanguarda\u201d do proletariado em geral.\u201d <\/em><strong>L\u00eanin, O. C. tomo II p. 486<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>Partido que combina a\u00e7\u00e3o legal e ilegal<\/strong><\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>O Partido combina permanentemente a\u00e7\u00e3o legal e ilegal. A participa\u00e7\u00e3o no parlamento, nos sindicatos e associa\u00e7\u00f5es culturais da classe oper\u00e1ria s\u00e3o oportunidades legais que o partido deve utilizar para propagandear o programa revolucion\u00e1rio. Por\u00e9m, sua estrutura fundamental de ex\u00e9rcito combatente deve se manter na ilegalidade. No partido leninista, a estrutura ilegal subordina a estrutura legal. Por outro lado, o Partido deve desenvolver trabalho pol\u00edtico e de organiza\u00e7\u00e3o nas fileiras dos aparatos de repress\u00e3o do Estado, tratando de ganhar a base destes aparatos (que \u00e9 composta por trabalhadores, filhos e pais de trabalhadores) para a defesa da revolu\u00e7\u00e3o socialista.<\/p>\n\n\n\n<p>O partido leninista n\u00e3o se prende a uma determinada forma ou m\u00e9todo de trabalho pol\u00edtico na sociedade: atua nos sindicatos sem ser economicista ou corporativista. Atua na pol\u00edtica sem ser eleitoralista ou parlamentarista. Atua na guerrilha sem ser militarista ou guerrilheirista. Atua na classe oper\u00e1ria sem ser obreirista. Utiliza a teoria sem ser academicista. Atua na legalidade sem ser legalista. Atua na ilegalidade sem ser clandestino.<\/p>\n\n\n\n<p>Todas as formas e m\u00e9todos podem ser utilizados como meios de mobiliza\u00e7\u00e3o das massas trabalhadoras e nunca devem se converter em estrat\u00e9gias para todo o sempre e todo lugar.<\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8220;A socialdemocracia n\u00e3o amarra as m\u00e3os, n\u00e3o se restringe a procedimentos de luta inventados de antem\u00e3o: admite todos os meios de luta desde que correspondam \u00e0s for\u00e7as efetivas do partido&#8221;, etc. (n\u00fam. 1 de Iskra). <\/em><strong>Lenin, Tomo 6, O que fazer? 1902. Pagina 50<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O Partido deve ter uma estrutura clandestina para proteger a identidade dos militantes e da dire\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que tal informa\u00e7\u00e3o nas m\u00e3os da pol\u00edcia ou da patronal podem levar \u00e0 quebra da organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cEm quase todos os pa\u00edses da Europa e da Am\u00e9rica, a luta de classes est\u00e1 entrando na fase da guerra civil. Em tais condi\u00e7\u00f5es, os comunistas n\u00e3o podem confiar na legalidade burguesa e devem formar em toda parte um aparelho clandestino paralelo que possa, no momento decisivo, ajudar o Partido a cumprir seu dever perante a revolu\u00e7\u00e3o.\u201d <\/em><strong>As 21 Condi\u00e7\u00f5es de ingresso na Internacional Comunista.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, o partido utiliza todas as possibilidades de atua\u00e7\u00e3o legal nos parlamentos, nos sindicatos ou associa\u00e7\u00f5es de todo tipo.<\/p>\n\n\n\n<p>O Partido Bolchevique russo soube se chocar com uma corrente oportunista (os mencheviques) que defendiam uma atua\u00e7\u00e3o exclusivamente legal, mas soube tamb\u00e9m enfrentar-se com uma corrente que recusava toda a\u00e7\u00e3o legal, defendendo o abandono de todos os cargos legais, como cargos de deputados, dirigentes sindicais, etc.<\/p>\n\n\n\n<p>O Partido revolucion\u00e1rio se prepara para dirigir uma insurrei\u00e7\u00e3o de massas, portanto deve dar toda aten\u00e7\u00e3o ao armamento geral de todo o povo, condi\u00e7\u00e3o n\u00famero 1 para a vit\u00f3ria de uma revolu\u00e7\u00e3o socialista.<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cTodo Partido Comunista legal deve saber preparar, da maneira mais en\u00e9rgica, para a necessidade de uma exist\u00eancia clandestina e estar particularmente armado para os levantes revolucion\u00e1rios. E, de outra parte, cada Partido Comunista ilegal deve saber utilizar todas as possibilidades do movimento oper\u00e1rio legal para se transformar, por um trabalho pol\u00edtico intensivo, no organizador e verdadeiro guia das grandes massas revolucion\u00e1rias. A dire\u00e7\u00e3o do trabalho legal e do trabalho ilegal deve estar constantemente nas m\u00e3os da dire\u00e7\u00e3o central do Partido.\u201d <\/em><strong>Teses sobre a estrutura, os m\u00e9todos e a a\u00e7\u00e3o dos partidos comunistas, III Internacional, tese 30.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o das revolu\u00e7\u00f5es burguesas at\u00e9 1848 incorporava o armamento geral do povo em mil\u00edcias civis armadas. Neste per\u00edodo a burguesia ainda tinha um papel revolucion\u00e1rio e usava a massa do povo para derrotar, de armas na m\u00e3o, as monarquias. Armamento do povo era sin\u00f4nimo de revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa tarefa de armar o povo n\u00e3o deixou de ter import\u00e2ncia, apenas passou para as m\u00e3os do partido revolucion\u00e1rio e da classe revolucion\u00e1ria, o proletariado.<\/p>\n\n\n\n<p>Para isso, o partido revolucion\u00e1rio deve dar aten\u00e7\u00e3o \u00e0s for\u00e7as armadas na sociedade burguesa.<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cDeve ampliar-se e intensificar-se a atividade socialdemocrata no ex\u00e9rcito&#8230; Devemos formar grupos socialdemocratas em todas as unidades militares. Devemos explicar a inevitabilidade hist\u00f3rica e a legitimidade, desde o ponto de vista do socialismo, do emprego das armas na \u00fanica guerra leg\u00edtima, a guerra do proletariado contra a burguesia para libertar a humanidade da escravid\u00e3o assalariada. Devemos fazer propaganda contra os atentados isolados e a favor da vincula\u00e7\u00e3o da luta do setor revolucion\u00e1rio do ex\u00e9rcito com o amplo movimento do proletariado e da popula\u00e7\u00e3o explorada em geral. Devemos fazer uma propaganda mais intensa para que os soldados se neguem a obedecer a ordens contra os grevistas&#8230;&#8221;. <\/em><strong>Lenin, tomo 30, 1916, p\u00e1gina 212<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\" type=\"1\" start=\"6\">\n<li><strong>Partido que utiliza, de forma combinada, as tr\u00eas formas de luta: te\u00f3rica, pol\u00edtica e econ\u00f4mica.<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n\n\n\n<p>Independente do peso dado especificamente a qualquer uma destas formas de luta, um partido leninista utiliza estas tr\u00eas formas de luta simultaneamente. Tanto a luta te\u00f3rica (program\u00e1tica, ideol\u00f3gica) quanto a luta econ\u00f4mica (sindical, pr\u00e1tica, de resist\u00eancia aos capitalistas) apesar de serem muito importantes no arsenal do partido leninista, ambas est\u00e3o subordinadas \u00e0 luta pol\u00edtica, isto \u00e9, a luta pelo poder de Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAcrescentaremos as observa\u00e7\u00f5es feitas por Engels em 1874 sobre o significado da teoria no movimento social-democrata. Engels reconhece <em>tr\u00eas<\/em> formas da grande luta da social-democracia e <em>n\u00e3o duas<\/em> (a pol\u00edtica e a econ\u00f4mica) \u2013 como \u00e9 habitual, entre n\u00f3s \u2013, <em>colocando tamb\u00e9m a luta te\u00f3rica ao seu lado<\/em>.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>(\u2026)<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAcima de tudo, os l\u00edderes devem tornar-se cada vez mais educados em todas as quest\u00f5es te\u00f3ricas, livrar-se da influ\u00eancia da fraseologia tradicional, t\u00edpica da velha concep\u00e7\u00e3o do mundo, e ter sempre em mente que o socialismo, desde que se tornou uma ci\u00eancia, exige que seja tratado como tal, ou seja, que seja estudado. A consci\u00eancia assim alcan\u00e7ada, e cada vez mais l\u00facida, deve ser difundida entre as massas trabalhadoras com cada vez maior zelo, e tanto a organiza\u00e7\u00e3o do Partido como a dos sindicatos devem ser cimentadas cada vez mais fortemente&#8230;&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>A tendencia a utilizar qualquer destas formas de luta sem relacionar com as outras constitui desvios na a\u00e7\u00e3o do partido leninista. As condi\u00e7\u00f5es espec\u00edficas de um pa\u00eds podem tornar a utiliza\u00e7\u00e3o de alguma forma de luta destas quase imposs\u00edvel, mesmo assim o partido se esfor\u00e7ar\u00e1 para utilizar estas tr\u00eas formas de luta num s\u00f3 feixe para a disputa da dire\u00e7\u00e3o do movimento prolet\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>*****<\/p>\n\n\n\n<p>Visto assim a heran\u00e7a organizativa de L\u00eanin, ficamos assombrados com a superficialidade com que At\u00edlio Bor\u00f3n descarta o partido leninista como \u201cimpratic\u00e1vel\u201d, foge da discuss\u00e3o de qual objetivo ele almeja para este \u201cgrande movimento de massas\u201d que prop\u00f5e agora no s\u00e9culo XXI, para entrar com as especificidades do in\u00edcio do s\u00e9culo XXI na Am\u00e9rica Latina, negando que o partido leninista tenha \u201cprinc\u00edpios organizativos\u201d universais, derivados da sua meta revolucion\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cIsso n\u00e3o significa, \u00e9 claro, que o modelo partid\u00e1rio que L\u00eanin prop\u00f4s em 1902 possa ser o paradigma organizacional de um grande movimento de massas, ou de um grande partido pol\u00edtico, em 2004. O pr\u00f3prio L\u00eanin descartou essa eventualidade depois de 1905, portanto, \u00e9 inimagin\u00e1vel supor que ser\u00edamos fi\u00e9is ao seu legado te\u00f3rico pol\u00edtico se propus\u00e9ssemos essa f\u00f3rmula mais de um s\u00e9culo depois e em condi\u00e7\u00f5es muito diferentes daquelas que prevaleceram no seu tempo. Mas se o modelo de um partido ultracentralizado for\u00e7ado a agir clandestinamente j\u00e1 \u00e9 anacr\u00f4nico e, portanto, impratic\u00e1vel, ainda existe algum elemento resgat\u00e1vel das p\u00e1ginas do <em>Que Fazer?<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn15\" id=\"_ftnref15\">[15]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Bor\u00f3n j\u00e1 havia conclu\u00eddo que L\u00eanin, ao dizer que a consci\u00eancia socialista \u00e9 introduzida de fora do movimento espont\u00e2neo, da luta econ\u00f4mica, teria ca\u00eddo na substitui\u00e7\u00e3o da classe pelo partido como for\u00e7a motriz revolucion\u00e1ria (como sujeito social). Interpreta\u00e7\u00e3o equivocada, pois, mistura alhos com bugalhos (sujeito social com sujeito pol\u00edtico) e encontra uma justificativa para tentar mostrar L\u00eanin como precursor do stalinismo, que substituiu a a\u00e7\u00e3o classe trabalhadora sovi\u00e9tica pelo dom\u00ednio ditatorial do partido comunista stalinizado, depois da morte de L\u00eanin.<\/p>\n\n\n\n<p>O que \u00e9 interessante notar \u00e9 que os mesmos autores que tentam negar a universalidade do partido leninista (bolchevique) tratam de apresentar o \u201cpartido democr\u00e1tico de massas\u201d, que \u00e9 a universaliza\u00e7\u00e3o do partido menchevique (reformista), como a \u00faltima palavra em organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica democr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p>Independentemente das especificidades que o partido leninista ou o partido reformista assuma num determinado pa\u00eds, a universalidade deles est\u00e1 relacionado com o posicionamento de um ou outro frente ao Estado burgu\u00eas e a revolu\u00e7\u00e3o socialista. Ambos elementos n\u00e3o s\u00e3o espec\u00edficos da R\u00fassia de 1900, tanto que a socialdemocracia \u201cmoderna\u201d (o reformismo-burgu\u00eas internacional hoje) tem a mesma estrat\u00e9gia em todos os pa\u00edses do mundo em 2024, apesar das caracter\u00edsticas espec\u00edficas que possa assumir em pa\u00eds A ou B.<\/p>\n\n\n\n<p>Seguindo na mesma pisada, Augusto Buonicore (da dire\u00e7\u00e3o do Partido Comunista do Brasil) diz que:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cN\u00e3o existe a priori um modelo \u00fanico de organiza\u00e7\u00e3o leninista. Nesta nova fase de luta pelo socialismo, no in\u00edcio do s\u00e9culo XXI, \u00e9 preciso que repensemos coletivamente a forma-partido.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Quer dizer, Buonicore quer legitimar a transforma\u00e7\u00e3o do PcdoB de organiza\u00e7\u00e3o comunista (stalinista-mao\u00edsta-albanesa) em organiza\u00e7\u00e3o reformista socialdemocrata. Para isso, tem que negar a exist\u00eancia de um partido leninista com caracter\u00edsticas universais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Partido leninista: um novo tipo de partido?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Alguns camaradas rejeitam a tese de que o partido leninista \u00e9 um novo <em>tipo<\/em> de partido. Para comprovar essa tese dizem que L\u00eanin se baseou no Partido Socialdemocrata Alem\u00e3o (PSD) para a constru\u00e7\u00e3o do partido russo e o que n\u00e3o correspondeu a estrutura do PSD se deveu \u00e0s especificidades russas. Agregam o fato de que j\u00e1 existiam organiza\u00e7\u00f5es prolet\u00e1rias revolucion\u00e1rias anteriores como a <em>Conspira\u00e7\u00e3o do Iguais<\/em>, dirigida por Graco Babeuf no final do s\u00e9culo XVIII na Fran\u00e7a, como a <em>Liga Comunista<\/em> de 1850, que j\u00e1 tinha um estatuto com uma certa centraliza\u00e7\u00e3o ou mesmo a <em>AIT<\/em>, dirigida por Marx e Engels, que realizaram uma delimita\u00e7\u00e3o program\u00e1tica por v\u00e1rios anos, que concluiu com uma centraliza\u00e7\u00e3o da <em>AIT<\/em>. Poder\u00edamos completar com a organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria e centralizada dos primeiros populistas russos (<em>Terra e Liberdade<\/em>) que L\u00eanin aprendeu a admirar em sua juventude e que foi um dos elementos constitutivos do partido leninista.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, partindo dessas experiencias embrion\u00e1rias de organiza\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria, <em>L\u00eanin construiu algo novo<\/em>, atualizando o partido marxista revolucion\u00e1rio para dirigir uma revolu\u00e7\u00e3o socialista, antecipando-se \u00e0 nova realidade do s\u00e9culo XX.<\/p>\n\n\n\n<p>Se \u00e9 verdade que L\u00eanin se apoiou no exemplo da socialdemocracia alem\u00e3, maior partido da Internacional, \u00e9 verdade tamb\u00e9m que n\u00e3o podia copiar tudo, exatamente pela diferen\u00e7a das condi\u00e7\u00f5es da luta pol\u00edtica em um e outro pa\u00eds. A partir destas condi\u00e7\u00f5es se produziu uma diferencia\u00e7\u00e3o entre os dois partidos que levou a <em>tipos<\/em> de partidos diferentes, ambos se tornando <em>universais<\/em>: o partido leninista se tornou, <em>universalmente<\/em>, o partido da revolu\u00e7\u00e3o socialista enquanto o partido socialdemocrata alem\u00e3o se tornou, <em>universalmente<\/em>, o partido reformista, isto \u00e9, num partido oper\u00e1rio-burgu\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>As condi\u00e7\u00f5es de legalidade e o grande peso que o PSD assumiu na Alemanha, dirigindo in\u00fameras prefeituras, quarenta e tr\u00eas di\u00e1rios, dezenas de revistas, universidades, fundos de solidariedade, \u201ccasas do povo\u201d e centenas de deputados e milh\u00f5es de eleitores, levou a que a dire\u00e7\u00e3o do partido se adaptasse a t\u00e1tica de a\u00e7\u00e3o legal (sindical e parlamentar), fomentando os elementos reformistas do partido, convertendo-o num partido de reformas sociais, ao contr\u00e1rio do partido russo, que se formou na ilegalidade total e dirigindo greves radicalizadas de oper\u00e1rios e se preparava, meticulosamente, para dirigir uma revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0s v\u00e9speras do congresso do POSDR, em 1903, se produziu uma greve geral no sul da R\u00fassia enquanto na Alemanha havia entusiasmo geral pela vit\u00f3ria eleitoral do PSD, que alcan\u00e7ou 31,7% dos votos do pa\u00eds!<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui, os dois caminhos se bifurcaram para formar dois tipos de partido totalmente diferentes!<\/p>\n\n\n\n<p>A defini\u00e7\u00e3o do militante como a pessoa que participa de um organismo do partido e que realiza uma atividade no partido ou no movimento \u00e9 uma especificidade do partido leninista.<\/p>\n\n\n\n<p>Devido a esta situa\u00e7\u00e3o, os elementos de universalidade do partido leninista n\u00e3o correspondiam no partido alem\u00e3o, como L\u00eanin observou:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cDevemos expor com maior detalhe o que n\u00e3o existe na maioria dos partidos legais do Ocidente. N\u00e3o tem trabalho cotidiano (trabalho revolucion\u00e1rio) de cada membro do partido. Esse \u00e9 o mal b\u00e1sico. Mudar isto \u00e9 o mais dif\u00edcil. Por\u00e9m \u00e9 o mais importante<strong>.\u201d L\u00eanin, Tomo 44, 1921, p\u00e1gina 14<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A concep\u00e7\u00e3o de partido que L\u00eanin elaborou na passada do s\u00e9culo XIX para o XX, tinha uma caracter\u00edstica onde a a\u00e7\u00e3o central do partido era desenvolver a consci\u00eancia de classe na necessidade de uma revolu\u00e7\u00e3o violenta.<\/p>\n\n\n\n<p>Analisando toda a hist\u00f3ria dos partidos pol\u00edticos, descobrimos que essa concep\u00e7\u00e3o de L\u00eanin era totalmente nova na estrutura dos partidos marxistas. N\u00e3o nos referimos ao centralismo democr\u00e1tico e sim sobre todos os outros aspectos. Por exemplo, o partido alem\u00e3o n\u00e3o tinha como a\u00e7\u00e3o central desenvolver a consci\u00eancia para uma revolu\u00e7\u00e3o violenta. Se dava uma grande pol\u00eamica quando Rosa Luxemburgo defendia uma greve geral para derrotar o Estado burgu\u00eas. O partido alem\u00e3o sequer tinha uma estrutura ilegal, junto da estrutura majoritariamente legal.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma inova\u00e7\u00e3o no partido leninista era a combina\u00e7\u00e3o entre o trabalho ilegal e legal. Isso n\u00e3o havia na II Internacional, n\u00e3o havia no partido alem\u00e3o. A II Internacional tinha um regime de funcionamento federativo.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, o PSD alem\u00e3o subordinou seu trabalho extraparlamentar ao trabalho parlamentar. Transformou a luta pol\u00edtica revolucion\u00e1ria ilegal numa luta pol\u00edtica sindical-parlamentar legal. Seus militantes, ao inv\u00e9s de serem militantes profissionais, dedicados \u00e0 causa revolucion\u00e1ria, se transformaram na sua ampla maioria em funcion\u00e1rios do aparato partid\u00e1rio ou parlamentar ou sindical. Sua estrutura foi se transformando em uma estrutura baseada em caudilhos pol\u00edticos e sindicais que debatiam em assembleias as posi\u00e7\u00f5es gerais do partido, numa estrutura laxa, de filiados, que n\u00e3o tinham uma atividade cotidiana, que vez ou outra participava de uma assembleia onde ouvia discursos dos dirigentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto L\u00eanin preparava um partido para destruir o Estado burgu\u00eas e dirigir uma insurrei\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria e camponesa, o partido alem\u00e3o assumiu o comando de boa parte desse Estado burgu\u00eas imperialista da Alemanha.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto L\u00eanin preparava um partido com uma estrutura centralista-democr\u00e1tica, de combate, para dirigir uma revolu\u00e7\u00e3o, o PSD alem\u00e3o criava uma estrutura laxa e frouxa entre os dirigentes, que decidiam tudo e uma massa de eleitores e filiados que se diziam do partido, mas que n\u00e3o eram militantes ativos, dedicados ao partido e a revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O desenvolvimento posterior desta estrutura foi tornando o PSD alem\u00e3o num <em>novo tipo<\/em> de partido: o partido reformista cl\u00e1ssico.<\/p>\n\n\n\n<p>A comprova\u00e7\u00e3o que o partido leninista n\u00e3o era uma continuidade das experiencias marxistas anteriores se expressou nas 21 condi\u00e7\u00f5es para admiss\u00e3o na Internacional Comunista. Das 21 condi\u00e7\u00f5es, a \u00fanica que havia nos outros partidos era o ponto 9: <a>\u201c<em>os partidos que desejam filiar-se \u00e0 Internacional Comunista ter\u00e3o que realizar uma atividade sistem\u00e1tica e permanente nos sindicatos, nos conselhos oper\u00e1rios<\/em>\u201d<\/a>. Essa \u00e9 a \u00fanica das 21 condi\u00e7\u00f5es que era comum ao partido leninista e aos outros partidos da II Internacional, especialmente o partido alem\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a eclos\u00e3o da guerra em 1914 e a trai\u00e7\u00e3o da II Internacional, L\u00eanin tirou a seguinte conclus\u00e3o sobre a quest\u00e3o do partido:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO tr\u00e2nsito a organiza\u00e7\u00e3o revolucionaria \u00e9 uma necessidade, exigida pela mudan\u00e7a da situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, assim o exige a \u00e9poca das a\u00e7\u00f5es revolucionarias do proletariado; por\u00e9m, este tr\u00e2nsito s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel se passar por cima dos antigos l\u00edderes, estranguladores da energia revolucionaria, se passar por cima do velho partido, destruindo-o.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>(&#8230;)<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA \u00e9poca imperialista n\u00e3o tolera a coexist\u00eancia num mesmo partido dos elementos de vanguarda do proletariado revolucion\u00e1rio e a aristocracia semi-pequeno burguesa da classe oper\u00e1ria, que se beneficia com as migalhas dos privil\u00e9gios proporcionados pela condi\u00e7\u00e3o &#8220;dominante&#8221; de &#8220;sua&#8221; na\u00e7\u00e3o. A velha teoria de que o oportunismo \u00e9 um &#8220;matiz leg\u00edtimo&#8221; dentro de um partido \u00fanico e alheio aos &#8220;extremismos&#8221; se converteu no maior engano da classe oper\u00e1ria, no maior obst\u00e1culo para movimento oper\u00e1rio.\u201d&nbsp; <strong>L\u00eanin, tomo 26, 1915<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1918, L\u00eanin faz uma afirma\u00e7\u00e3o categ\u00f3rica:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c\u2026 o proletariado se encontra diante da tarefa de adequar suas organiza\u00e7\u00f5es de classe \u00e0s novas necessidades revolucion\u00e1rias do futuro.\u201d&#8230; Formas de organiza\u00e7\u00e3o do proletariado alem\u00e3o que, de acordo com a situa\u00e7\u00e3o anterior da Alemanha, obrigou o proletariado a seguir por d\u00e9cadas uma t\u00e1tica predominantemente reformista, partia, nas quest\u00f5es organizativas, do princ\u00edpio do caudilhismo e no trabalho pratico exclusivamente da atividade parlamentar.<\/p>\n\n\n\n<p>Nahuel Moreno analisou o partido leninista no processo hist\u00f3rico e concluiu que:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAo mesmo tempo, \u00e9 preciso dizer que a hist\u00f3ria j\u00e1 mostrou a import\u00e2ncia do funcionamento disciplinado. Disciplina, centraliza\u00e7\u00e3o, militantes que se entregam inteiramente ao partido, s\u00e3o caracter\u00edsticas que podem ser aceitas ou rejeitadas, amadas ou odiadas, mas n\u00e3o houve uma \u00fanica revolu\u00e7\u00e3o que n\u00e3o tenha sido liderada por uma organiza\u00e7\u00e3o deste tipo. Um organismo frouxo, indisciplinado e n\u00e3o jacobino n\u00e3o pode assumir o poder. \u2026. Nenhuma revolu\u00e7\u00e3o deste s\u00e9culo triunfou sem um elevado grau de disciplina e centralismo. \u00c9 l\u00f3gico porque se trata de enfrentar o Estado com o seu ex\u00e9rcito, a sua pol\u00edcia, todo o seu aparato.\u201dPr\u00f3logo ao texto sobre centralismo democr\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p>Cremos que esse balan\u00e7o hist\u00f3rico demonstra a <em>originalidade e a universalidade do partido leninista<\/em>, do partido bolchevique, ao mesmo tempo que revelou uma das maiores contribui\u00e7\u00f5es de L\u00eanin ao marxismo e ao proletariado mundial: ele <em>atualizou a organiza\u00e7\u00e3o marxista revolucion\u00e1ria<\/em> para enfrentar as grandes turbul\u00eancias de uma nova \u00e9poca que estava surgindo com o s\u00e9culo XX, uma \u00e9poca de guerras e revolu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa grande contribui\u00e7\u00e3o de L\u00eanin ao marxismo em geral \u00e9 subestimada porque se trata de uma vis\u00e3o administrativa e burguesa da <em>organiza\u00e7\u00e3o<\/em>. L\u00eanin sempre considerou a <em>organiza\u00e7\u00e3o<\/em> como a respons\u00e1vel, em \u00faltima inst\u00e2ncia, pela vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria. Por isso, essa seja, talvez, a maior contribui\u00e7\u00e3o de L\u00eanin para o marxismo pois n\u00e3o tratou de copiar e repetir o que havia anteriormente: <em>criou um prot\u00f3tipo novo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio abrir um par\u00eantese aqui: da burocratiza\u00e7\u00e3o deste prot\u00f3tipo revolucion\u00e1rio surgiu um novo tipo de partido, o partido stalinista. O partido bolchevique-leninista foi destru\u00eddo por uma contrarrevolu\u00e7\u00e3o interna que modificou sua estrutura se mesclando com a burocracia estatal, e se transformou numa organiza\u00e7\u00e3o para controlar o partido e a URSS, se transformou num instrumento de uma contrarrevolu\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica que esvaziou as caracter\u00edsticas revolucion\u00e1rias do partido bolchevique leninista, deixando apenas a forma exterior com a apar\u00eancia do partido do L\u00eanin. Como uma folha seca reproduz a imagem original, s\u00f3 que morta, sem vida&#8230; A partir daqui toda oposi\u00e7\u00e3o ser\u00e1 castigada e um regime burocr\u00e1tico asfixiou o partido leninista, que se converteu num partido onde 6 milh\u00f5es de burocratas (com a alta burocracia tendo um n\u00edvel de vida que se assemelhava aos capitalistas norte-americanos), dominavam a vida pol\u00edtica do partido e da III Internacional. Esse tipo de partido se transformou no 3\u00ba prot\u00f3tipo universal de partido prolet\u00e1rio: <em>o partido oper\u00e1rio-burocr\u00e1tico<\/em>, que tinha uma especificidade de viver parasitando o Estado oper\u00e1rio burocratizado que lhe deu vida. Essa caracter\u00edstica espec\u00edfica \u00e9 que lhe dar\u00e1 transitoriedade pois, restaurado o capitalismo nestes Estados (opera\u00e7\u00e3o realizada pelos burocratas stalinistas e seus partidos), se abriu uma tendencia da social-democratiza\u00e7\u00e3o destes partidos, isto \u00e9, seu aburguesamento.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Chernishevski, N. G. (1828-1889): democrata revolucion\u00e1rio russo, escritor, fil\u00f3sofo, economista e cr\u00edtico liter\u00e1rio. Guia ideol\u00f3gico do movimento democr\u00e1tico revolucion\u00e1rio do final dos anos 50 e in\u00edcio dos anos 60 do s\u00e9culo XIX na R\u00fassia, diretor da revista <em>Sovrem\u00e9nik<\/em>. Preso pelo Governo de Alexandre II em 1862, passou mais de 20 anos em pris\u00f5es, em trabalhos for\u00e7ados e confinado na Sib\u00e9ria. Nota do editor russo.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> Relato de Nikol\u00e1i Valentinov, <em>Encounters with Lenin<\/em>, Nueva York, 1968, citado por Tariq Ali em <em>Os dilemas de L\u00eanin<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> Jean Jaques Marie<em>, L\u00eanin<\/em>, pagina 57.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\">[4]<\/a> \u201cA imagina\u00e7\u00e3o comum capta a diferen\u00e7a e a contradi\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o a transi\u00e7\u00e3o de uma para outra, e <em>isso \u00e9 o mais importante<\/em>. Engenhosidade e intelig\u00eancia. A engenhosidade capta a contradi\u00e7\u00e3o, <em>enuncia-a<\/em>, p\u00f5e as coisas em rela\u00e7\u00e3o umas com as outras, obriga o \u201cconceito a brilhar atrav\u00e9s da contradi\u00e7\u00e3o\u201d, mas n\u00e3o <em>expressa<\/em> o conceito das coisas e das suas rela\u00e7\u00f5es. A raz\u00e3o pensante (intelig\u00eancia) agu\u00e7a a diferen\u00e7a mon\u00f3tona da diversidade, a pura multiplicidade da imagina\u00e7\u00e3o, e transforma-a numa diferen\u00e7a <em>essencial<\/em>, numa oposi\u00e7\u00e3o. S\u00f3 quando atingem o \u00e1pice da contradi\u00e7\u00e3o \u00e9 que as diversas entidades se tornam ativas e vivas nas suas rela\u00e7\u00f5es rec\u00edprocas, adquirem a negatividade que \u00e9 a <em>pulsa\u00e7\u00e3o imanente do automovimento<\/em> <em>e da vitalidade<\/em>.\u201d L\u00eanin, Obras Completas, Volume 29.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\" id=\"_ftn5\">[5]<\/a> Trotsky far\u00e1 uma profunda autocr\u00edtica dessas posi\u00e7\u00f5es relacionadas com a constru\u00e7\u00e3o do partido e a divis\u00e3o entre mencheviques e bolcheviques. A tentativa de unir revolucion\u00e1rios e reformistas foi o maior erro da sua trajet\u00f3ria pol\u00edtica. Por outro lado, quando Trotsky concluiu que essa unidade n\u00e3o era poss\u00edvel, \u201cse converteu no melhor bolchevique\u201d, em 1917, segundo as palavras de L\u00eanin.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref6\" id=\"_ftn6\">[6]<\/a> O termo \u201c<em>centralismo democr\u00e1tico\u201d<\/em> s\u00f3 foi incorporado aos textos do POSDR em 1906, no congresso de \u201creunifica\u00e7\u00e3o\u201d do partido, que naufragou devido ao grau de diverg\u00eancias existentes entre bolcheviques e mencheviques.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref7\" id=\"_ftn7\">[7]<\/a> De uma carta de Lassalle a Marx, 24 de junho de 1852.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref8\" id=\"_ftn8\">[8]<\/a> L\u00eanin partia de uma diferencia\u00e7\u00e3o taxante entre o partido e a classe. Portanto, a classe deveria estar representada por v\u00e1rios partidos pol\u00edticos, refletindo estas classes e os setores de classes.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref9\" id=\"_ftn9\">[9]<\/a> Frederic Jameson ensina Literatura Comparada na Duke University. Cr\u00edtico liter\u00e1rio, fil\u00f3sofo e te\u00f3rico pol\u00edtico marxista americano. Ele \u00e9 mais conhecido por sua an\u00e1lise das tend\u00eancias culturais contempor\u00e2neas, particularmente por sua an\u00e1lise da p\u00f3s-modernidade e do capitalismo.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref10\" id=\"_ftn10\">[10]<\/a> O professor Kevin Anderson \u00e9 um dos principais pesquisadores marxistas dos Estados Unidos, lecionando as disciplinas de Sociologia, Ci\u00eancia Pol\u00edtica e Estudos Feministas da Universidade da Calif\u00f3rnia, Santa B\u00e1rbara. Tem atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica nas lutas de movimentos sociais por justi\u00e7a social, articula a Organiza\u00e7\u00e3o Internacional Marxista-Humanista (IMHO).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref11\" id=\"_ftn11\">[11]<\/a> Ver Jonh Holloway, no livro &#8220;Mudar o Mundo sem tomar o Poder&#8221;, 2002, em conjunto com o Subcomandante Marcos.&nbsp;&nbsp; John Holloway, irland\u00eas, \u00e9 jurista, fil\u00f3sofo e economista de linha marxista com fortes influ\u00eancias anarquistas.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref12\" id=\"_ftn12\">[12]<\/a> &#8220;&#8230;<em>n\u00e3o se pode formular os interesses de classe de outro modo que n\u00e3o seja por meio de um programa, como tampouco se pode defender um programa sem criar um partido. [&#8230;]A classe, tomada em si, n\u00e3o \u00e9 mais que terreno para explora\u00e7\u00e3o. O papel do proletariado come\u00e7a no momento em que de classe social em si passa a classe pol\u00edtica para si. S\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel conseguir isso por meio de um partido. O partido \u00e9 essa ferramenta hist\u00f3rica com qual a classe adquire consci\u00eancia [&#8230;]. O desenvolvimento da consci\u00eancia de classe, isso \u00e9, a constru\u00e7\u00e3o de um partido revolucion\u00e1rio que arraste atr\u00e1s de si o proletariado, \u00e9 um processo complicado e contradit\u00f3rio.&#8221;<\/em> Le\u00f3n Trotsky, Aonde vai a Alemanha? (1933).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref13\" id=\"_ftn13\">[13]<\/a> \u201c<em>As massas n\u00e3o chegam automaticamente \u00e0 consci\u00eancia de classe, \u00e0 consci\u00eancia universal e hist\u00f3rica. Podemos dizer que o movimento de massas se aproxima dela assintoticamente, isso \u00e9, em cada etapa est\u00e1 mais pr\u00f3ximo dela, por\u00e9m, nunca a alcan\u00e7a por seus pr\u00f3prios meios. O partido \u00e9 o \u00fanico que pode fazer com que essas duas linhas, cada vez mais pr\u00f3ximas uma da outra, deixem de ser ass\u00edntotas; que o movimento de massas se confunda com a consci\u00eancia pol\u00edtica de classe<\/em>.\u201d Nahuel Moreno, O partido e a revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref14\" id=\"_ftn14\">[14]<\/a> Nahuel Moreno, Teoria e Hist\u00f3ria da Organiza\u00e7\u00e3o Oper\u00e1ria-Revolucion\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref15\" id=\"_ftn15\">[15]<\/a> <em>Atualidade de Que fazer?<\/em> Atilio A. Bor\u00f3n, 2004. Atilio Alberto Bor\u00f3n \u00e9 um soci\u00f3logo, polit\u00f3logo, catedr\u00e1tico e ensa\u00edsta argentino. Doutor em Ci\u00eancia Pol\u00edtica pela Universidade de Harvard. Professor consultor da Faculdade de Ci\u00eancias Sociais da Universidade de Buenos Aires<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Chegando aqui, no epis\u00f3dio 7, referente ao ano de 1902, L\u00eanin est\u00e1 com 32 anos e j\u00e1 \u00e9, incontestavelmente, um dos principais dirigentes do POSDR: tratemos ent\u00e3o de sintetizar, provisoriamente, os passos que deu em sua jornada revolucion\u00e1ria desde 1893, quando ingressou no partido, at\u00e9 1902, quando escreveu Que Fazer? Problemas candentes do nosso movimento. 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