{"id":78668,"date":"2024-03-28T23:35:06","date_gmt":"2024-03-28T23:35:06","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=78668"},"modified":"2024-12-07T19:16:07","modified_gmt":"2024-12-07T19:16:07","slug":"stellantis-antiga-fiat-uma-analise-de-classe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2024\/03\/28\/stellantis-antiga-fiat-uma-analise-de-classe\/","title":{"rendered":"Stellantis (antiga Fiat): Uma an\u00e1lise de classe"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Entrevista realizada pela equipe editorial do site do<\/em> PdAC<\/p>\n\n\n\n<p>A situa\u00e7\u00e3o das f\u00e1bricas de autom\u00f3veis na It\u00e1lia \u00e9 dram\u00e1tica.&nbsp;Toda semana vem a not\u00edcia de um novo fechamento ou deslocamento, destinado a se transformar em centenas de demiss\u00f5es: al\u00e9m do caso da Marelli de Crevalcore, que j\u00e1 falamos em artigo anterior \u2013 e do qual hoje se fala em contratar 152 dos 299 trabalhadores (1)\u2013; agora \u00e9 a vez da f\u00e1brica da Marelli em Venaria (Turim), onde pelo menos 320 empregos est\u00e3o em risco (2). Emblem\u00e1tica \u00e9 a a\u00e7\u00e3o do grupo Stellantis (ex-Fiat) que, al\u00e9m de colocar grande parte dos trabalhadores do grupo em situa\u00e7\u00e3o de demiss\u00e3o (de Mirafiori a Pomigliano e Maserati em Modena), atinge duramente ativistas sindicais combativos, na tentativa de impedir a\u00e7\u00f5es de luta dos trabalhadores: os oper\u00e1rios Delio (Cub, f\u00e1brica de Cassino) e Francesca (Slai Cobas, Atessa) foram demitidos por motivos falsos.&nbsp;A resposta dos trabalhadores foi r\u00e1pida: em 8 de mar\u00e7o, por ocasi\u00e3o da greve pelo Dia Internacional da Mulher Trabalhadora, foi organizado um protesto em Atessa, em frente \u00e0 f\u00e1brica, com a presen\u00e7a de uma delega\u00e7\u00e3o de trabalhadores da f\u00e1brica de Cassino. Nossos militantes presentes na f\u00e1brica tamb\u00e9m foram seus promotores e nosso camarada Diego Bossi, oper\u00e1rio da Pirelli, se pronunciou trazendo a solidariedade de todo o Partido Alternativo Comunista (3).&nbsp;A solidariedade a Francesca, uma mulher e trabalhadora que foi demitida na v\u00e9spera de 8 de mar\u00e7o, tamb\u00e9m foi gritada em outras pra\u00e7as em 8 de mar\u00e7o, por exemplo em Modena, em um dos discursos de abertura da marcha na cidade (4). Relatamos aqui uma entrevista com Roberto, militante do Slai Cobas de Chieti e do PdAC, oper\u00e1rio da Stellantis, que explica a situa\u00e7\u00e3o das f\u00e1bricas do grupo.&nbsp;Tamb\u00e9m republicamos um artigo de profundidade hist\u00f3rica, de Fabiana Stefanoni, que reconstr\u00f3i alguns dos momentos mais importantes das lutas oper\u00e1rias na Fiat nas \u00faltimas d\u00e9cadas: as greves dos anos 1970 que culminaram com a ocupa\u00e7\u00e3o de Mirafiori em 1973. \u00c9 bom, ali\u00e1s, n\u00e3o esquecer que as lutas dos trabalhadores da Fiat \u2013 juntamente com as dos trabalhadores da Pirelli, Fincantieri, etc. \u2013 marcaram o destino do nosso pa\u00eds: uma demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a dos trabalhadores que devemos lembrar hoje em contraste com as dos burocratas sindicais que convidam os trabalhadores \u00e0 demiss\u00e3o e \u00e0 entrega.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Antes de entrar em detalhes mais espec\u00edficos sobre a f\u00e1brica de Atessa, o que voc\u00ea pode nos dizer sobre a situa\u00e7\u00e3o geral do grupo, \u00e0 luz das recentes declara\u00e7\u00f5es de Tavares, de que ele est\u00e1 se aproveitando do governo como seu antecessor, enquanto as f\u00e1bricas italianas est\u00e3o quase todas em um impasse (veja as demiss\u00f5es em Mirafiori, contra as quais os trabalhadores tamb\u00e9m entraram em greve, e na Maserati em Modena)?&nbsp;E o que a transi\u00e7\u00e3o el\u00e9trica significar\u00e1 para os trabalhadores?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em primeiro lugar, seria \u00fatil enquadrar a situa\u00e7\u00e3o financeira do grupo Stellantis, bem como contextualizar as palavras de Tavares.&nbsp;2023 foi um ano recorde para a gigante nascida em 2021 da fus\u00e3o (!) entre FCA e PSA, com receitas de 189,5 bilh\u00f5es de euros e um lucro l\u00edquido de 18,6 bilh\u00f5es de euros, n\u00fameros que n\u00e3o param de crescer h\u00e1 tr\u00eas anos.&nbsp;Estes n\u00fameros sublinham a solidez financeira do grupo e a sua capacidade de gerar lucros para os acionistas, que receber\u00e3o 6,6 bilh\u00f5es de euros em dividendos.&nbsp;As vendas de ve\u00edculos el\u00e9tricos e h\u00edbridos tiveram aumentos percentuais de dois d\u00edgitos em compara\u00e7\u00e3o com o ano passado, e as estimativas para 2024 seguem a mesma tend\u00eancia.&nbsp;Esses dados devem ser lidos a partir de uma perspectiva global e indicam uma multinacional presente em todo o mundo que produz muito e arrecada muito, mas, vistos sob a \u00f3tica das realidades nacionais, emergem as consequ\u00eancias desastrosas, especialmente sociais, da globaliza\u00e7\u00e3o mais extrema.&nbsp;Portanto, devemos lembrar, como j\u00e1 fizemos em in\u00fameras ocasi\u00f5es, que os processos de fus\u00f5es e aquisi\u00e7\u00f5es entre grupos industriais t\u00eam como \u00fanico objetivo otimizar recursos e se apropriar de novos segmentos de mercado para aumentar os lucros. No caso em apre\u00e7o, a parte franco-francesa (PSA) adquiriu a contraparte \u00edtalo-americana (FCA), principalmente para entrar no mercado norte-americano, o mais rent\u00e1vel, e eliminar ou, pelo menos, reduzir drasticamente um concorrente interno.&nbsp;A troca foi obviamente desigual: as r\u00e9deas est\u00e3o nas m\u00e3os dos franceses, basta ver o conselho de administra\u00e7\u00e3o e os principais cargos de gest\u00e3o, enquanto o lado italiano, apoiado nas cinzas da Fiat, perdeu toda a capacidade de decis\u00e3o e estrat\u00e9gica.&nbsp;Al\u00e9m disso, o pr\u00f3prio John Elkann, depois de ter vendido a FCA \u00e0 Peugeot e embolsado bilh\u00f5es, declarou laconicamente &#8220;j\u00e1 n\u00e3o podemos ocupar-nos da It\u00e1lia&#8221;. As consequ\u00eancias est\u00e3o a\u00ed para todos verem.&nbsp;O desmantelamento das f\u00e1bricas italianas est\u00e1 em curso, mas o processo come\u00e7ou h\u00e1 muito tempo, em nome dessa otimiza\u00e7\u00e3o de recursos que mencionei anteriormente, ou seja, transferir a produ\u00e7\u00e3o para locais mais rent\u00e1veis e onde h\u00e1 poucos ou nenhuma limita\u00e7\u00e3o legislativa ou ambiental: os novos alvos do grupo s\u00e3o o Norte de \u00c1frica e a Europa do Leste.&nbsp; onde as f\u00e1bricas j\u00e1 atingiram quotas de produ\u00e7\u00e3o consider\u00e1veis.&nbsp;\u00c9 f\u00e1cil, neste momento, para Tavares, com oper\u00e1rios com verbas rescis\u00f3rias e f\u00e1bricas fechadas, amea\u00e7ar se movimentar para conseguir recursos p\u00fablicos na forma de incentivos e redu\u00e7\u00e3o de direitos trabalhistas para operar sem problemas.&nbsp;Por outro lado, o pedido de fundos p\u00fablicos \u00e9 uma hist\u00f3ria antiga: estima-se que, de 1975 at\u00e9 hoje, primeiro a Fiat, depois a FCA e agora a Stellantis tenham recebido 220 bilh\u00f5es de euros sob v\u00e1rias formas, incluindo incentivos, reformas antecipadas, desmantelamento e financiamento para a abertura de novas f\u00e1bricas.&nbsp;Quanto \u00e0 transi\u00e7\u00e3o el\u00e9trica, n\u00e3o tem nada a ver com a quest\u00e3o ambiental porque \u00e9 guiada por uma l\u00f3gica capitalista.&nbsp;As verdadeiras raz\u00f5es s\u00e3o a necessidade de recriar um mercado autom\u00f3vel saturado e a redu\u00e7\u00e3o da m\u00e3o-de-obra necess\u00e1ria para aumentar os lucros.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A antiga f\u00e1brica da Sevel \u00e9 atualmente a \u00fanica na \u00f3rbita da Stellantis que produz com alguma continuidade na It\u00e1lia.&nbsp;No entanto, tamb\u00e9m aqui, ap\u00f3s a aquisi\u00e7\u00e3o da Psa, surgiram d\u00favidas sobre o futuro da f\u00e1brica, apesar das garantias verbais de Tavares.&nbsp;O que mudou sob a lideran\u00e7a francesa?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 mais de 40 anos, a f\u00e1brica de Atessa produz ve\u00edculos comerciais de forma cont\u00ednua e crescente, gra\u00e7as \u00e0 especificidade do produto, mas sobretudo gra\u00e7as \u00e0 dedica\u00e7\u00e3o e sacrif\u00edcio de milhares de trabalhadores.&nbsp;No entanto, com o nascimento da Stellantis, a f\u00e1brica sofre o mesmo destino de outras f\u00e1bricas italianas, ou seja, est\u00e1 imersa em uma l\u00f3gica competitiva descendente que tem os trabalhadores como as \u00fanicas v\u00edtimas.&nbsp;Pela primeira vez, a produ\u00e7\u00e3o de ve\u00edculos comerciais \u00e9 compartilhada com outra f\u00e1brica, a Gliwice, na Pol\u00f4nia, que anteriormente montava carros.&nbsp;A f\u00e1brica polaca se beneficia das mais recentes tecnologias (robotiza\u00e7\u00e3o) e de um regime fiscal preferencial, bem como de custos de m\u00e3o-de-obra muito baixos, todos vantajosos para a explora\u00e7\u00e3o patronal.&nbsp;\u00c9 evidente que a compara\u00e7\u00e3o agora \u00e9 Gliwice, por isso o mantra de Tavares \u00e9 cortar custos, o que tem levado a condi\u00e7\u00f5es de trabalho cada vez mais extremas e a repercuss\u00f5es sombrias para os trabalhadores de empresas contratadas e ind\u00fastrias afins, desde empresas de limpeza a fabricantes de componentes, que o CEO portugu\u00eas aconselhou explicitamente a transferir a produ\u00e7\u00e3o para o polo polaco, mais rent\u00e1vel (para ele).&nbsp;Em suma, al\u00e9m do desastroso CCSL, Tavares pode contar com a amea\u00e7a de realoca\u00e7\u00e3o para impor as suas condi\u00e7\u00f5es aos trabalhadores.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como Slai Cobas, voc\u00eas s\u00e3o promotores, juntamente com Usb, de uma s\u00e9rie de lutas contra o ritmo e a carga de trabalho e contra medidas disciplinares falsas contra trabalhadores militantes.&nbsp;Quais s\u00e3o especificamente os problemas nas linhas de montagem?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Sempre fomos promotores de lutas contra ritmos e cargas de trabalho, obviamente porque elas s\u00e3o necess\u00e1rias para contrapor o lucro dos patr\u00f5es em detrimento da sa\u00fade e dos bolsos da classe oper\u00e1ria.&nbsp;A estipula\u00e7\u00e3o do CCSL e as estrat\u00e9gias atuais da Stellantis exacerbaram a luta;&nbsp;as redu\u00e7\u00f5es de custos preconizadas por Tavares traduzem-se em condi\u00e7\u00f5es de trabalho cada vez mais dif\u00edceis que comprometem a sa\u00fade e a seguran\u00e7a dos trabalhadores.&nbsp;Trabalhar em uma linha mecanizada envolve uma varredura de tempos e uma an\u00e1lise de movimentos e posturas que, se n\u00e3o forem devidamente controlados, levam a um aumento da velocidade (mais produ\u00e7\u00e3o, ou seja, mais lucro para o empregador) de opera\u00e7\u00f5es individuais e riscos concretos de danos musculoesquel\u00e9ticos para os trabalhadores.&nbsp;Estamos lutando contra as cl\u00e1usulas de v\u00ednculo de um contrato de trabalho abusivo e contra aqueles que o lideram, incluindo os dirigentes sindicais signat\u00e1rios. Essas condi\u00e7\u00f5es de trabalho exasperantes criam um clima de descontentamento entre os oper\u00e1rios e tens\u00f5es nas linhas de produ\u00e7\u00e3o: a resposta dos patr\u00f5es \u00e9 a repress\u00e3o da dissid\u00eancia por meio de medidas disciplinares falsas contra os trabalhadores combativos que n\u00e3o baixam a cabe\u00e7a.&nbsp;Emblem\u00e1ticos s\u00e3o as recentes demiss\u00f5es ileg\u00edtimas e discriminat\u00f3rias impostas ao camarada Delio da Flmu-Cub de Cassino e \u00e0 camarada Francesca da Slai Cobas de Chieti, &#8220;culpados&#8221; de exercerem uma atividade sindical coerente e determinada.&nbsp;Uma coisa \u00e9 certa: defenderemos aqueles que s\u00e3o atacados com todos os meios poss\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Voc\u00ea acha que lutas sindicais como a sua podem se espalhar e se conectar com as outras f\u00e1bricas do grupo?&nbsp;Na linha do que fez com os companheiros do Filhote de Cassino, na ex &#8211; Sevel, para denunciar o deslocamento for\u00e7ado de trabalhadores.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Com certeza as recentes respostas disciplinares, bem como a cont\u00ednua transfer\u00eancia de oper\u00e1rios de uma f\u00e1brica para outra e as condi\u00e7\u00f5es de trabalho na f\u00e1brica, tornam auspiciosa e necess\u00e1ria uma resposta un\u00edvoca dos trabalhadores do grupo;&nbsp;vamos trabalhar para que isso aconte\u00e7a para combater as estrat\u00e9gias de lucro e explora\u00e7\u00e3o por parte dos patr\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>1 <a href=\"https:\/\/www.partitodialternativacomunista.org\/articoli\/sindacato\/marelli-di-crevalcore-non-si-svende-la-lotta\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/www.partitodialtracomunista.org\/articoli\/sindacato\/marelli-di-crevalcore-non-si-svende-la-lotta<\/a>.&nbsp;Aqui est\u00e3o as \u00faltimas not\u00edcias, que confirmam nossa an\u00e1lise: <a href=\"https:\/\/www.ilpost.it\/2024\/03\/12\/vendita-marelli-crevalcore\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/www.ilpost.it\/2024\/03\/12\/vendita-marelli-crevalcore\/<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>2 <a href=\"https:\/\/torinocronaca.it\/news\/cronaca\/312582\/si-spegne-anche-la-marelli-a-rischio-320-lavoratori.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/torinocronaca.it\/news\/cronaca\/312582\/si-spegne-anche-la-marelli-a-rischio-320-lavoro.html<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>3 <a href=\"https:\/\/fb.watch\/qSG8qs3jSt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/fb.watch\/qSG8qs3jSt\/<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>4 <a href=\"https:\/\/fb.watch\/qSGfUIwBMN\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/fb.watch\/qSGfUIwBMN\/<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Artigo publicado em <a href=\"http:\/\/www.partitodialternativacomunista.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">www.partitodialternativacomunista.org<\/a>, 19\/3\/2024.-<\/p>\n\n\n\n<p>Traduzido do italiano ao espanhol por: Natalia Estrada.<\/p>\n\n\n\n<p>Traduzido do espanhol para o portugu\u00eas: Lilian Enck<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista realizada pela equipe editorial do site do PdAC A situa\u00e7\u00e3o das f\u00e1bricas de autom\u00f3veis na It\u00e1lia \u00e9 dram\u00e1tica.&nbsp;Toda semana vem a not\u00edcia de um novo fechamento ou deslocamento, destinado a se transformar em centenas de demiss\u00f5es: al\u00e9m do caso da Marelli de Crevalcore, que j\u00e1 falamos em artigo anterior \u2013 e do qual hoje 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