{"id":78653,"date":"2024-03-26T11:19:05","date_gmt":"2024-03-26T11:19:05","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=78653"},"modified":"2024-04-07T12:13:13","modified_gmt":"2024-04-07T12:13:13","slug":"nas-ruas-novamente-o-povo-cubano-pede-comida-e-eletricidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2024\/03\/26\/nas-ruas-novamente-o-povo-cubano-pede-comida-e-eletricidade\/","title":{"rendered":"Nas ruas novamente, o povo cubano pede comida e eletricidade"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Eletricidade e comida!<\/em> Foi assim que os habitantes de Santiago de Cuba, Bayamo, Artemisa, sa\u00edram \u00e0s ruas em 17 de mar\u00e7o, repetindo a dose no dia seguinte.<\/p>\n\n\n\n<p>Por: Helena N\u00e1huatl<\/p>\n\n\n\n<p>A situa\u00e7\u00e3o em Cuba piorou enormemente desde o 11J, data em que ocorreram os maiores protestos dos \u00faltimos 30 anos na ilha (o anterior havia sido o Maleconazo em 1994).<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 quase tr\u00eas anos, Cuba vivia sob a Tarefa de Ordenamento, uma reforma econ\u00f4mica e monet\u00e1ria que levou a resultados cada vez mais desastrosos na ilha, onde a moeda estava desvalorizada em 1.000% desde 2021 e, hoje, uma caixa de 30 ovos vale mais do que o sal\u00e1rio m\u00ednimo mensal do Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, mesmo assim, com todas as motiva\u00e7\u00f5es para a explos\u00e3o, respaldada pela raiva e pelo &#8220;basta&#8221; da popula\u00e7\u00e3o, o Presidente D\u00edaz-Canel, confrontado com as imagens de v\u00e1rios habitantes da ilha, que lhe chegaram diretamente das cidades onde houve manifesta\u00e7\u00f5es, disse que as manifesta\u00e7\u00f5es s\u00e3o &#8220;mentiras, v\u00eddeos falsos e constru\u00e7\u00f5es&#8221; onde se mostra a &#8220;perversidade&#8221; e o &#8220;desprezo do governo dos Estados Unidos&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>A realidade cubana, por outro lado, mostra algo muito diferente. A indigna\u00e7\u00e3o e a raiva vistas nas ruas mostram o desespero e o cansa\u00e7o de um povo que vive h\u00e1 longos dias sem energia el\u00e9trica, sem comida e sem perspectivas de mudan\u00e7a. E que n\u00e3o aguenta mais discursos vazios de solu\u00e7\u00f5es do governo, e grita em coro para seus representantes: &#8220;N\u00e3o queremos mentiras!&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, o mesmo governo, em fevereiro deste ano, pediu ajuda ao Programa Mundial de Alimentos, reconhecendo sua incapacidade de fornecer leite a crian\u00e7as menores de 7 anos, o que \u00e9 regulamentado na agenda de abastecimento (ra\u00e7\u00f5es mensais com subs\u00eddio do governo).<\/p>\n\n\n\n<p>A situa\u00e7\u00e3o angustiante de Cuba, que vive uma grande crise econ\u00f4mica, mas n\u00e3o para de investir a maior parte de seu PIB no setor de turismo, se expressa na popula\u00e7\u00e3o, al\u00e9m da falta de alimentos. Os rendimentos s\u00e3o m\u00ednimos em compara\u00e7\u00e3o com uma moeda que se desvaloriza todos os dias, e a que se seguem problemas com transportes, combust\u00edveis e uma profunda crise em setores que s\u00e3o sempre muito saudados fora da ilha, como a sa\u00fade, a educa\u00e7\u00e3o e a seguran\u00e7a social.<\/p>\n\n\n\n<p>Como resultado, o \u00eaxodo de pessoas para outros pa\u00edses, aproveitando a isen\u00e7\u00e3o de visto para a Nicar\u00e1gua (que pouqu\u00edssimos pa\u00edses do mundo oferecem aos cubanos), \u00e9 o maior da hist\u00f3ria do pa\u00eds, representando 4,8% da popula\u00e7\u00e3o. Mais de 500 mil pessoas de Cuba chegaram aos EUA entre 2022 e 2023. Quem pode, escapa, para ter a possibilidade de viver com alguma dignidade e perspectiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2024, ao contr\u00e1rio de 2021, a resposta inicial do governo foi dar comida aos manifestantes e tentar enviar seus representantes para as localidades, sem muito sucesso em convencer, embora os protestos tenham cessado.<\/p>\n\n\n\n<p>No final, como dissemos acima, tudo se transformou em uma acusa\u00e7\u00e3o de uma fantasiosa interven\u00e7\u00e3o imperialista dos EUA, como se os cubanos n\u00e3o pudessem sair \u00e0s ruas com suas pr\u00f3prias cabe\u00e7as e das profundezas de seus est\u00f4magos vazios e seu sangue quente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Repress\u00e3o como pr\u00e1tica sistem\u00e1tica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A crise de hoje reflete os ventos de 2021, n\u00e3o resolvidos e n\u00e3o esquecidos. Mesmo que todos saibam que a repress\u00e3o \u00e9 profunda para quem se manifesta na ilha.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde 11J de 2021, o governo cubano prendeu mais de 1.000 pessoas e cerca de 500 ainda est\u00e3o detidas, com penas que variam de 5 a 25 anos por participarem dos protestos.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora isso em si seja esmagador, o regime repressivo de Cuba vai muito al\u00e9m da pris\u00e3o em dias de protesto. A Seguran\u00e7a do Estado, uma pol\u00edcia pol\u00edtica que persegue qualquer um que veja como suspeito, sequestra ativistas em plena luz do dia, interroga sem o direito de se defender e os amea\u00e7a de pris\u00e3o, ex\u00edlio ou de que nunca poder\u00e3o deixar o pa\u00eds. A pr\u00f3pria SE acompanha as pessoas diariamente, tornando suas vidas verdadeiras pris\u00f5es, inclusive colocando patrulhas em suas portas para que n\u00e3o saiam.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso leva muitos dos detidos ou sob vigil\u00e2ncia do governo cubano a decidir deixar o pa\u00eds da melhor forma poss\u00edvel, antes que seu destino seja a pris\u00e3o, como muitos dissidentes. Entre eles est\u00e3o muitos intelectuais, jornalistas, artistas e alguns dos que clamam por liberdades democr\u00e1ticas no per\u00edodo recente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Que tipo de Cuba os cubanos querem?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os cubanos vivem em uma realidade de extrema falta de perspectivas, sejam elas econ\u00f4micas, trabalhistas, pol\u00edticas ou mudan\u00e7as que possam trazer dignidade \u00e0s suas vidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao contr\u00e1rio do que ressoa uma esquerda latino-americana que procura tapar os olhos e os ouvidos \u00e0 realidade, Cuba atravessa uma situa\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria crescente e caminha para se tornar um dos pa\u00edses com a popula\u00e7\u00e3o mais empobrecida e a maior desigualdade social da Am\u00e9rica do Sul, bem como um dos pa\u00edses com menos liberdades democr\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>N\u00e3o h\u00e1 comida, n\u00e3o h\u00e1 liberdades, n\u00e3o h\u00e1 socialismo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Cuba, h\u00e1 muito tempo, restaurou completamente o capitalismo na ilha, mantendo um partido \u00fanico e uma ditadura atroz, que persegue e sufoca qualquer dissid\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>As empresas estatais foram entregues ao capital estrangeiro, principalmente ao imperialismo europeu, em particular por meio de <em>joint ventures<\/em> . Hoje, essas empresas dominam o principal setor da economia cubana, o turismo, com multinacionais espanholas como Meli\u00e1 e Iberostar controlando os grandes hot\u00e9is e resorts para turistas de classe m\u00e9dia europeus, norte-americanos e sul-americanos que podem arcar com seus altos custos.<\/p>\n\n\n\n<p>Se voc\u00ea for a Havana ou Varadero, o contraste \u00e9 n\u00edtido e avassalador: hot\u00e9is super modernos em meio a uma falta b\u00e1sica de comida e estrutura.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, as joint ventures controlam a explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo, ferro, n\u00edquel, cimento; produ\u00e7\u00e3o de sab\u00e3o e perfumaria; servi\u00e7os de telefonia e lubrificantes, e a maioria do agroneg\u00f3cio.<\/p>\n\n\n\n<p>Dizer que tudo \u00e9 estatal tornou-se mais uma anedota coletiva para n\u00e3o dar explica\u00e7\u00f5es de uma realidade que pode ser verificada em Cuba.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O bloqueio criminoso e a ret\u00f3rica do governo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ser contra o bloqueio dos EUA a Cuba n\u00e3o pode justificar o constante esmagamento do povo cubano e suas justas lutas por direitos.<\/p>\n\n\n\n<p>O bloqueio causou e ainda causa s\u00e9rios danos ao povo cubano. Trata-se de um ataque do pa\u00eds imperialista mais importante do mundo contra uma pequena ilha.<\/p>\n\n\n\n<p>Juntamo-nos aos que denunciam todos os governos norte-americanos, sejam republicanos ou democratas, seja Trump ou Biden, que falam em &#8220;democracia&#8221;, mas o que querem \u00e9 a devolu\u00e7\u00e3o das propriedades confiscadas em 1959 e a coloniza\u00e7\u00e3o da ilha. Por isso, n\u00e3o se importariam se Cuba fosse governada por outra ditadura.<\/p>\n\n\n\n<p>Por essas raz\u00f5es, lutamos contra esse bloqueio h\u00e1 mais de cinquenta anos. Da mesma forma, est\u00e1vamos do lado de Cuba contra todas as tentativas de interven\u00e7\u00e3o militar do imperialismo, como o fracassado desembarque na Ba\u00eda dos Porcos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Defender o socialismo em Cuba hoje \u00e9 defender uma nova revolu\u00e7\u00e3o social<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A LIT-QI acompanhou todo o processo recente do povo cubano e sua luta contra a ditadura do Partido Comunista Cubano.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida para n\u00f3s de que a raiva que o povo cubano carrega, se baseia na escassez provocada pela desigualdade, pela restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo e pela queda completa do n\u00edvel dos setores-chave da Cuba p\u00f3s-revolu\u00e7\u00e3o: sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, seguran\u00e7a social.<\/p>\n\n\n\n<p>Dizer que Cuba \u00e9 movida por um suposto compl\u00f4 imperialista e n\u00e3o contra uma ditadura que explora o povo e gera a grande mis\u00e9ria que leva os cubanos \u00e0s ruas \u00e9 tapar os olhos diante de um fato t\u00e3o transparente quanto palp\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Como disse Eduardo Almeida em seu artigo &#8220;Para onde vai Cuba?&#8221;:<\/p>\n\n\n\n<p>Uma grande explos\u00e3o est\u00e1 se formando em Cuba contra essa ditadura burguesa e corrupta. N\u00e3o sabemos quando ou como isso vai acontecer. Mas essa \u00e9 a din\u00e2mica.<\/p>\n\n\n\n<p>O apoio da esquerda pr\u00f3-stalinista \u00e0 ditadura castrista atira a forma\u00e7\u00e3o de alternativas democr\u00e1ticas em Cuba nos bra\u00e7os do imperialismo. Isso pode levar que a queda da ditadura castrista acabe sendo capitalizada por lideran\u00e7as imperialistas, como Yeltsin na R\u00fassia, agora atrav\u00e9s da burguesia imperialista de Miami.<\/p>\n\n\n\n<p>Propomos o contr\u00e1rio: lutar contra a ditadura cubana como parte de uma estrat\u00e9gia socialista e anti-imperialista. Queremos uma nova revolu\u00e7\u00e3o socialista, renacionalizando as empresas privatizadas, mesmo aquelas nas m\u00e3os do imperialismo europeu, com uma planifica\u00e7\u00e3o da economia e o controle direto e real dos trabalhadores. Queremos uma democracia oper\u00e1ria em Cuba, oposta \u00e0 ditadura stalinista, que de fato tenha sua ess\u00eancia na participa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores em todas as decis\u00f5es fundamentais e estrat\u00e9gicas da ilha.<\/p>\n\n\n\n<p>A popula\u00e7\u00e3o cubana precisa hoje do apoio de setores socialistas, progressistas e contr\u00e1rios \u00e0s injusti\u00e7as sociais na Am\u00e9rica Latina. Esse ser\u00e1 o maior reconhecimento poss\u00edvel da revolu\u00e7\u00e3o mais poderosa que j\u00e1 ocorreu no continente americano.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pela constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade justa e democr\u00e1tica em Cuba, que possamos realmente chamar de socialista.<\/strong><br>Tradu\u00e7\u00e3o: L\u00edlian Enck<br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eletricidade e comida! Foi assim que os habitantes de Santiago de Cuba, Bayamo, Artemisa, sa\u00edram \u00e0s ruas em 17 de mar\u00e7o, repetindo a dose no dia seguinte. Por: Helena N\u00e1huatl A situa\u00e7\u00e3o em Cuba piorou enormemente desde o 11J, data em que ocorreram os maiores protestos dos \u00faltimos 30 anos na ilha (o anterior havia [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":78654,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[1182],"tags":[],"class_list":["post-78653","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cuba"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/signal-2024-03-18-165215_002.jpeg","categories_names":["Cuba"],"author_info":{"name":"Kely","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/19003bf6219614b90207b39bd4a2733ce9cf96693efdfd639b15a829beed53d1?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/78653","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=78653"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/78653\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":78715,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/78653\/revisions\/78715"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/78654"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=78653"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=78653"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=78653"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}