{"id":78597,"date":"2024-03-09T16:59:01","date_gmt":"2024-03-09T16:59:01","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=78597"},"modified":"2024-03-09T16:59:05","modified_gmt":"2024-03-09T16:59:05","slug":"lenin-e-a-opressao-das-mulheres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2024\/03\/09\/lenin-e-a-opressao-das-mulheres\/","title":{"rendered":"L\u00eanin e a opress\u00e3o das mulheres"},"content":{"rendered":"\n<p><em>L\u00eanin nunca comparou ou subordinou a luta contra a opress\u00e3o \u00e0 luta pelas reivindica\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas neste sistema capitalista, mas considerou todas elas igualmente importantes e parte do programa da revolu\u00e7\u00e3o socialista. Suas elabora\u00e7\u00f5es baseadas nos ensinamentos de Marx e Engels, que ele soube sintetizar, bem como na experi\u00eancia hist\u00f3rica do movimento socialista de mulheres da Segunda e Terceira Internacionais, nos mostram o caminho para continuar lutando hoje pelos direitos das mulheres e de todos os setores oprimidos, numa perspectiva revolucion\u00e1ria.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: Laura Requena<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m nos ajudam a compreender que a luta contra a opress\u00e3o, como a das mulheres, al\u00e9m de ser essencial para a uni\u00e3o da classe, pode servir de motor na luta para derrubar este sistema, desde que seja dirigido com independ\u00eancia de classe. e estar ao servi\u00e7o da revolu\u00e7\u00e3o socialista. A classe oper\u00e1ria deve ser a vanguarda de todas as lutas democr\u00e1ticas e contra a opress\u00e3o, sem deix\u00e1-las nas m\u00e3os dos governos e da burguesia, que nos vendem a ilus\u00e3o de que \u00e9 poss\u00edvel acabar definitivamente com a opress\u00e3o sob o capitalismo. Para L\u00eanin, esta luta tinha de ser assumida pela classe trabalhadora antes, durante e depois da revolu\u00e7\u00e3o socialista.<\/p>\n\n\n\n<p>As posi\u00e7\u00f5es de L\u00eanin que foram aplicadas pelos bolcheviques na Revolu\u00e7\u00e3o Russa, adotadas pela Terceira Internacional Comunista e mais tarde defendidas por Trotsky, n\u00e3o s\u00f3 foram provadas corretas em diferentes momentos da hist\u00f3ria, mas mant\u00eam hoje uma validade extraordin\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As origens do socialismo e a quest\u00e3o da mulher<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O movimento socialista, apoiado na profunda forma\u00e7\u00e3o te\u00f3rica do marxismo revolucion\u00e1rio, foi o primeiro movimento pol\u00edtico que compreendeu a import\u00e2ncia do combate \u00e0 opress\u00e3o das mulheres e que debateu seriamente esta quest\u00e3o entre os seus seguidores. No s\u00e9culo XIX, os dois principais textos da \u00e9poca eram a obra de Friedrich Engels: <em>A Origem do Estado, da Fam\u00edlia e da Propriedade Privada<\/em> (1874) e o livro de August Bebel<strong>: Mulheres e socialismo<\/strong> (1879), que causou grande impacto. O estudo de August Bebel forneceu provas estat\u00edsticas de discrimina\u00e7\u00e3o de g\u00eanero a todos os n\u00edveis. O livro foi concebido para for\u00e7ar os partidos social-democratas a incorporar as necessidades e reivindica\u00e7\u00f5es das mulheres nos seus programas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 evidente que isto levaria muito tempo e foi uma luta dura de Zetkin, Luxemburgo e outras mulheres socialistas, na qual conseguiram algumas vit\u00f3rias, mas tamb\u00e9m sofreram v\u00e1rios reveses. Uma luta que tamb\u00e9m tiveram de travar contra os seus pr\u00f3prios companheiros de partido, socialistas de carne e osso, que apesar de abra\u00e7arem teoricamente o marxismo, estavam imbu\u00eddos dos preconceitos machistas do seu tempo e recusavam-se a abrir m\u00e3o dos seus privil\u00e9gios. Tamb\u00e9m hoje vemos como fazer parte de um partido revolucion\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 uma \u201cvacina\u201d contra o machismo. Isto porque, felizmente, os nossos partidos n\u00e3o vivem \u201cinseridos no vazio\u201d, mas fazem parte da classe oper\u00e1ria, uma parte da qual, como express\u00e3o do atraso na sua consci\u00eancia, reproduz o machismo, o racismo, a lgtbifobia e todos os preconceitos e estere\u00f3tipos promovidos pela classe dominante e pelas institui\u00e7\u00f5es ao seu servi\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin leu Marx e os textos citados, que viam a situa\u00e7\u00e3o das mulheres na perspectiva do marxismo e em seus discursos repetia muitas vezes o que Fourier, o grande socialista ut\u00f3pico, disse em sua \u00e9poca: \u201c<em>a natureza progressista ou regressiva de uma sociedade pode ser julgada por um \u00fanico crit\u00e9rio; a maneira como trata as mulheres\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Pertenceu a uma nova gera\u00e7\u00e3o de revolucion\u00e1rios que aderiram ao marxismo, numa \u00e9poca em que as greves oper\u00e1rias estavam em ascens\u00e3o nas principais cidades industriais. Como outras mulheres contempor\u00e2neas de L\u00eanin, que dedicaram toda a sua vida ao partido e \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o e foram fundamentais no despertar para a luta de classes das mulheres oper\u00e1rias que, desde o in\u00edcio do capitalismo na R\u00fassia, entraram nas f\u00e1bricas em condi\u00e7\u00f5es ainda piores que os homens. Alexandra Kolont\u00e1i, Larissa Reissner, Vera Slutskaya, Eugenia Bosch, Ludmila Stal, Koncordiya Samoilova e muitas outras, como Nadejka Krupskaia ou Inessa Armand, que s\u00e3o frequentemente nomeadas depreciativamente pela historiografia burguesa como \u201cesposa e amante de L\u00eanin\u201d, respectivamente. Mas elas eram muito mais do que companheiras femininas de algu\u00e9m. Foram revolucion\u00e1rias e \u00e0 frente do seu tempo e desempenharam um papel essencial que deve ser reivindicado e estudado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>L\u00eanin, a constru\u00e7\u00e3o do partido e a situa\u00e7\u00e3o das mulheres na R\u00fassia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A Primeira Guerra Mundial, que levou milhares de homens para a frente de batalha, sem d\u00favida contribuiu para que a percentagem de mulheres que trabalham em f\u00e1bricas na R\u00fassia duplicasse e triplicasse. Em sintonia com o terr\u00edvel sofrimento que sofriam devido \u00e0 guerra e \u00e0 crise econ\u00f4mica que havia, as mulheres oper\u00e1rias foram radicalizando politicamente. \u00c9 importante notar que, embora as condi\u00e7\u00f5es em que viviam as mulheres oper\u00e1rias fossem terr\u00edveis na R\u00fassia czarista, as das mulheres camponesas eram iguais ou at\u00e9 piores. Sujeitas ao peso sufocante de uma ideologia patriarcal e da religi\u00e3o, eram consideradas pouco mais do que <em>bestas de carga<\/em> para os seus maridos.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante os acontecimentos revolucion\u00e1rios de 1905, numerosas mulheres bolcheviques come\u00e7aram a trabalhar no movimento das mulheres russas, expondo a discrimina\u00e7\u00e3o de classe em rela\u00e7\u00e3o ao feminismo burgu\u00eas. Da mesma forma, durante algum tempo a imprensa do partido bolchevique dedicou espa\u00e7o aos problemas das mulheres. Em mar\u00e7o de 1913, o esfor\u00e7o do partido bolchevique para intensificar o trabalho entre as mulheres tomou forma na prepara\u00e7\u00e3o da primeira celebra\u00e7\u00e3o do Dia das oper\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin na sua atividade revolucion\u00e1ria, n\u00e3o perdeu nenhuma oportunidade de criticar a duplicidade de crit\u00e9rios e a hipocrisia da aristocracia e da burguesia, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 situa\u00e7\u00e3o das mulheres, como tamb\u00e9m fizeram Marx e Engels no seu tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1914, o Partido, com o apoio determinado de Lenin, decidiu divulgar uma publica\u00e7\u00e3o especialmente dedicada \u00e0s mulheres trabalhadoras, chamada Rabotnitsa. Era uma revista trimestral que, no primeiro ano, teve uma tiragem de 12 mil exemplares. Posteriormente, foi interrompido devido \u00e0s dificuldades da guerra, mas foi retomado em 1917 e conseguiu publicar o primeiro n\u00famero, apesar de em julho todos os membros da editora terem sido presos.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse mesmo ano de 1914, o comit\u00e9 central do partido bolchevique criou uma <em>comiss\u00e3o especial<\/em> com a miss\u00e3o de promover reuni\u00f5es para o Dia Internacional das mulheres trabalhadoras: foram organizadas assembleias em f\u00e1bricas e em locais p\u00fablicos, onde foram discutidos os principais assuntos sobre a opress\u00e3o feminina, al\u00e9m de eleger representantes com a tarefa, dentro da nova comiss\u00e3o, de aprofundar as propostas resultantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1917, o consenso em torno dos bolcheviques cresce e os pedidos para que as mulheres se juntem ao partido tamb\u00e9m aumentam. Sabe-se que a fa\u00edsca que desencadeou a revolta de fevereiro na R\u00fassia, que derrubou o czar, foi uma greve das mulheres da ind\u00fastria t\u00eaxtil, no seu duplo papel de oper\u00e1rias e, em muitos casos, de esposas dos soldados da frente batalha. Fizeram chamados aos oper\u00e1rios metal\u00fargicos para se juntarem a elas e no final do dia havia 50 mil trabalhadores manifestando-se nas ruas da capital. Se juntaram as donas de casa, que tamb\u00e9m foram \u00e0s portas da Duma para exigir p\u00e3o. Entre os protagonistas desse dia estavam Anastasia Devi\u00e1tkina, oper\u00e1ria industrial que organizou um sindicato de esposas de soldados, Nina Aghadzanova, representante do distrito de Vyborg no Soviete de Petrogrado, e Zenia Ezeghorova, secret\u00e1ria do Partido em Vyborg, uma das organizadoras das a\u00e7\u00f5es nas barricadas dos soldados, entre muitas outras.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s os epis\u00f3dios de fevereiro, eclodiu a greve das lavadeiras, camada mais atrasada da classe trabalhadora da \u00e9poca, exigindo a nacionaliza\u00e7\u00e3o das lavanderias sob o controle dos munic\u00edpios locais, posi\u00e7\u00e3o apoiada apenas pelos bolcheviques. Torna-se cada vez mais central a propaganda do jornal Rabotnitsa, cujo conselho editorial inclui mulheres que se dedicaram totalmente \u00e0 causa revolucion\u00e1ria, organizando reuni\u00f5es e assembleias contra a guerra: cada f\u00e1brica tem o seu representante no conselho editorial da revista, que participa de reuni\u00f5es semanais para discutir as rela\u00e7\u00f5es das diversas \u00e1reas. L\u00eanin escreve v\u00e1rios artigos sobre a necessidade de propor novas estrat\u00e9gias e modelos organizacionais para aproximar as oper\u00e1rias do socialismo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>L\u00eanin e os decretos a favor das mulheres nos primeiros anos da revolu\u00e7\u00e3o russa<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Aqui saltamos para a Revolu\u00e7\u00e3o Russa de Outubro, dirigida pelo Partido Bolchevique com L\u00eanin \u00e0 frente. E com isto abrimos um cap\u00edtulo emocionante na hist\u00f3ria, porque pela primeira vez, um governo oper\u00e1rio poderia tentar transformar as bases econ\u00f4micas e sociais nas quais a discrimina\u00e7\u00e3o milenar contra as mulheres tinha as suas ra\u00edzes, tendo o poder pol\u00edtico nas suas m\u00e3os. Tinha a possibilidade de p\u00f4r em pr\u00e1tica o programa de emancipa\u00e7\u00e3o das mulheres defendido pelas mulheres socialistas da Segunda Internacional, que o Partido Bolchevique Russo tamb\u00e9m defendia. Naquela \u00e9poca havia apenas duas mulheres no Comit\u00e9 Central Bolchevique: Alexandra Kollontai e Elena Stasova. Varvara Y\u00e1kovleva ingressou um ano depois, foi Ministra da Educa\u00e7\u00e3o em 1922 e mais tarde Ministra das Finan\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>Para compreender o enorme avan\u00e7o que a Revolu\u00e7\u00e3o Russa significou para as mulheres sovi\u00e9ticas em todas as \u00e1reas, \u00e9 necess\u00e1rio primeiro saber qual era a sua situa\u00e7\u00e3o. As mulheres prolet\u00e1rias eram for\u00e7adas a trabalhar em oficinas e f\u00e1bricas 12 e 13 horas por dia em dur\u00edssimas e insuport\u00e1veis condi\u00e7\u00f5es, ganhando metade ou dois ter\u00e7os menos do que os seus companheiros do sexo masculino,<\/p>\n\n\n\n<p>Como n\u00e3o existiam direitos trabalhistas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 maternidade, \u00e0s vezes davam \u00e0 luz na pr\u00f3pria oficina, o que significava que mais de um ter\u00e7o dos filhos das fam\u00edlias oper\u00e1rias morriam antes de completar um ano de idade. Aos 30-40 anos, a mulher oper\u00e1ria j\u00e1 era inv\u00e1lida. Quanto \u00e0s camponesas, que eram a grande maioria, eram pouco mais que escravas do marido, a quem, segundo a doutrina bizantina, deviam obedi\u00eancia absoluta. Nas \u00e1reas mu\u00e7ulmanas, a tradi\u00e7\u00e3o dava aos maridos o direito de matar as suas esposas. 88% das mulheres russas eram analfabetas. O c\u00f3digo civil da R\u00fassia czarista exigia que a mulher tivesse permiss\u00e3o do marido para ter passaporte ou conseguir um trabalho. Conseguir o div\u00f3rcio era praticamente imposs\u00edvel. A agress\u00e3o contra a esposa por parte do marido n\u00e3o era aceita como motivo de separa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Como Wendy Z.Goldman explica no seu livro, <em>Mulheres, o Estado e a Revolu\u00e7\u00e3o<\/em>, que o partido Bolchevique, com L\u00eanin \u00e0 frente, tinha uma vis\u00e3o da liberta\u00e7\u00e3o das mulheres que se baseava em quatro princ\u00edpios. Primeiro, \u201camor livre\u201d ou \u201cuni\u00e3o livre\u201d, o que significava que as rela\u00e7\u00f5es deveriam ser livres de restri\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, controle parental, interfer\u00eancia de autoridades religiosas ou do Estado. Em segundo lugar, a emancipa\u00e7\u00e3o das mulheres atrav\u00e9s da independ\u00eancia econ\u00f4mica. Terceiro, a socializa\u00e7\u00e3o do trabalho dom\u00e9stico. E quarto, o desaparecimento gradual e inevit\u00e1vel da fam\u00edlia. Esta vis\u00e3o s\u00f3 poderia ser parcialmente aplicada por muitas raz\u00f5es pol\u00edticas, sociais e econ\u00f4micas que n\u00e3o podemos explicar aqui. Mas mesmo assim nos deixa muitas li\u00e7\u00f5es. Os ide\u00f3logos do capitalismo dizem-nos que as mulheres j\u00e1 se <em>libertaram<\/em>. Mas se examinarmos cada um destes aspectos, vemos que s\u00e3o cada vez mais dif\u00edceis de serem alcan\u00e7ados pelas mulheres, \u00e0 medida que avan\u00e7a a podrid\u00e3o deste sistema de opress\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Como dirigente do Partido Bolchevique, L\u00eanin redigiu e supervisionou muitos dos decretos e medidas a favor das mulheres que foram aprovados naqueles anos. Em 1918, foi aprovado um novo C\u00f3digo da Fam\u00edlia, o mais avan\u00e7ado de todos os tempos e que instituiu o casamento civil, simplificou ao m\u00e1ximo o div\u00f3rcio e depois as uni\u00f5es de fato. Concedeu direitos iguais aos menores nascidos dentro ou fora do casamento. Especificamente, o acesso \u00e0 pens\u00e3o aliment\u00edcia em caso de separa\u00e7\u00e3o dos pais ou div\u00f3rcio, algo que, ali\u00e1s, deu muitas dores de cabe\u00e7a ao novo governo sovi\u00e9tico. Descriminalizou a homossexualidade, que se tornou um assunto privado.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1920, o aborto gratuito foi aprovado nos hospitais do Estado. A prostitui\u00e7\u00e3o, difundida e regulamentada na R\u00fassia czarista, era considerada a express\u00e3o mais extrema da explora\u00e7\u00e3o e degrada\u00e7\u00e3o das mulheres. Mas quem o praticava n\u00e3o era criminalizado, mas sim, foram tomadas medidas para resolver as causas que obrigavam as mulheres \u00e0 prostitui\u00e7\u00e3o. Foram tratados gratuitamente em hospitais e procurou-se melhorar o seu n\u00edvel cultural e as possibilidades de emprego.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde o primeiro ano e apesar da situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, o governo esfor\u00e7ou-se pela cria\u00e7\u00e3o de creches, lavandarias, restaurantes p\u00fablicos e outros estabelecimentos, para libertar as mulheres do peso das tarefas dom\u00e9sticas. Houve um enorme problema que persistiu at\u00e9 ao stalinismo e que se agravou depois da guerra civil. Eram os chamados \u201cbesprizorniky\u201d; menores que vagavam pelas ruas e chegavam a dezenas de milhares, seja porque eram \u00f3rf\u00e3os ou porque a m\u00e3e sozinha n\u00e3o conseguia cuidar deles. O governo sovi\u00e9tico fez um enorme esfor\u00e7o para alimentar, abrigar e educar estas crian\u00e7as que tamb\u00e9m eram potenciais criminosos, mas os recursos de que dispunham para resolver este problema eram insuficientes.<\/p>\n\n\n\n<p>Para que as mulheres pudessem cumprir novas e maiores responsabilidades, tanto nas zonas rurais como nas cidades, o Estado fez um enorme esfor\u00e7o para acabar com o analfabetismo e milhares de mulheres foram integradas massivamente em cursos t\u00e9cnicos e superiores, numa aut\u00eantica \u201crevolu\u00e7\u00e3o cultural feminina\u201d. Em 1928 o n\u00famero de mulheres nos diferentes cursos era de 83.137 e em 1933 passou para mais de meio milh\u00e3o!<\/p>\n\n\n\n<p>Nas \u00e1reas rurais, a coletiviza\u00e7\u00e3o da agricultura foi de enorme import\u00e2ncia. A coletiviza\u00e7\u00e3o cortou o isolamento em que viviam as fam\u00edlias camponesas, cortou as ra\u00edzes da religi\u00e3o e assim conseguiu, aos poucos, emancipar as mulheres. O Partido Bolchevique trouxe uma primeira mensagem de liberdade a estas \u00e1reas: foram fundadas cl\u00ednicas infantis onde as mulheres nativas mostravam os seus corpos na presen\u00e7a de outras pessoas. Mesmo assim, foi uma luta muito dura, onde as mulheres nos koljoses tiveram que superar a desconfian\u00e7a, o rid\u00edculo e at\u00e9 a viol\u00eancia e a oposi\u00e7\u00e3o hostil das camadas mais atrasadas dos camponeses.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O zhenotdel<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em novembro de 1918, quase 1.200 mulheres trabalhadoras e camponesas vestidas com trajes tradicionais das regi\u00f5es mais distantes da R\u00fassia Sovi\u00e9tica convergiram para o Sal\u00e3o da Uni\u00e3o do Kremlin, em Moscou, para participar no primeiro Congresso Pan-Russo de Mulheres Oper\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp; Como resultado da Confer\u00eancia em que L\u00eanin participou proferindo um discurso que foi recebido com grande entusiasmo pelos participantes, foram criadas comiss\u00f5es de agita\u00e7\u00e3o e propaganda entre as mulheres trabalhadoras. As comiss\u00f5es foram reorganizadas em agosto de 1919 como Zhenotdel (Departamento da mulher) do Secretariado do Comit\u00ea Central, sob a dire\u00e7\u00e3o de Inessa Armand que l\u00e1 trabalhou por apenas um ano, antes de morrer de c\u00f3lera em 24 de setembro de 1920. Ela foi sucedida por Alexandra Kollontai<\/p>\n\n\n\n<p>O Zhenotdel publicou o seu pr\u00f3prio jornal, <em>Kommunitska<\/em>, e apesar de todas as dificuldades e obst\u00e1culos que os seus dirigentes tiveram de superar, desempenhou um papel fundamental na introdu\u00e7\u00e3o das mulheres na pol\u00edtica, encaminhando-as para o trabalho do partido, dos sindicatos, dos sovietes. e promovendo a sensibiliza\u00e7\u00e3o e a concretiza\u00e7\u00e3o das reivindica\u00e7\u00f5es espec\u00edficas das mulheres prolet\u00e1rias, para o que realizou medidas especiais de organiza\u00e7\u00e3o e propaganda.<\/p>\n\n\n\n<p>Para compreender as dificuldades que tiveram de enfrentar, devemos ter em conta que quando a guerra civil terminou, tanto a popula\u00e7\u00e3o como a economia sovi\u00e9tica estavam devastadas. Entre 1918 e 1919, um milh\u00e3o de pessoas morreram em consequ\u00eancia do tifo. No final de 1920, as doen\u00e7as, a fome e o frio mataram cerca de 7 milh\u00f5es e meio de russos\/as e a guerra tinha feito 4 milh\u00f5es de v\u00edtimas. A esta terr\u00edvel destrui\u00e7\u00e3o das for\u00e7as produtivas somou-se o atraso industrial, a baixa popula\u00e7\u00e3o urbana e a preponder\u00e2ncia do campo. Isto fez com que os bolcheviques decidissem promover uma Nova Pol\u00edtica Econ\u00f4mica (NEP) entre 1921 e 1928, o que teve consequ\u00eancias para as mulheres sovi\u00e9ticas.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp; O regresso da for\u00e7a de trabalho masculina, que substituiu parcialmente as mulheres nas f\u00e1bricas ap\u00f3s o fim da guerra civil, foi acompanhado pelo fechamento de muitas das oficinas e f\u00e1bricas onde as mulheres foram as primeiras a serem despedidas. Durante a NEP, o Estado teve que reduzir os gastos sociais com creches, orfanatos e outras institui\u00e7\u00f5es para apoiar as m\u00e3es trabalhadoras, o que dificultou a sua procura de emprego ou a forma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica de que necessitavam ou a participa\u00e7\u00e3o na vida pol\u00edtica. Segundo W.Goldman, entre 1921 e 1927, o n\u00famero oficial de mulheres desempregadas multiplicou-se por seis, de 60.975 para 369.800. As mulheres tamb\u00e9m ganhavam sal\u00e1rios mais baixos, porque tinham empregos menos qualificados, uma vez que um dos efeitos da NEP foi deslocar as mulheres da ind\u00fastria pesada para empregos tradicionalmente femininos, como a costura ou a produ\u00e7\u00e3o de alimentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Para tentar amenizar esta situa\u00e7\u00e3o, o XIII Congresso do Partido, em maio de 1924, decidiu que a conserva\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho feminina nas empresas tinha import\u00e2ncia pol\u00edtica. Foi proibido despedir m\u00e3es solteiras e foi imposto a todas as organiza\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas refor\u00e7ar o trabalho das mulheres e ajud\u00e1-las a adquirir uma qualifica\u00e7\u00e3o. Em novembro do mesmo ano, com o acordo de Zhenotdel, a proibi\u00e7\u00e3o do trabalho noturno para as mulheres foi revogada numa tentativa de que os administradores tivessem menos desculpas para despedir mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p>Por seu lado, o Zhenotdel organizou um grande congresso de mulheres trabalhadoras e camponesas em Moscou, onde puderam analisar e discutir as condi\u00e7\u00f5es das mulheres no campo e na cidade e as causas do desemprego feminino. Apesar de todos os decretos e legisla\u00e7\u00e3o a seu favor, a discrimina\u00e7\u00e3o contra as mulheres persistiu, n\u00e3o tanto por causa dos efeitos da NEP, mas porque as medidas legais n\u00e3o foram suficientes para acabar por si s\u00f3 com s\u00e9culos de discrimina\u00e7\u00e3o e estere\u00f3tipos machistas. O desemprego feminino durante a NEP tamb\u00e9m levou a um aumento da prostitui\u00e7\u00e3o. O novo c\u00f3digo familiar, que foi amplamente discutido e finalmente aprovado em 1926, aprovou novas disposi\u00e7\u00f5es para aliviar os efeitos negativos da NEP entre mulheres e crian\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de tudo isto, podemos afirmar sem d\u00favida que nenhum pa\u00eds capitalista do mundo, nem mesmo o mais avan\u00e7ado, deu \u00e0s mulheres o que a Revolu\u00e7\u00e3o Russa fez nos seus primeiros anos, embora o avan\u00e7o na liberta\u00e7\u00e3o das mulheres tenha estado inextricavelmente ligado desde o primeiro minuto ao avan\u00e7o da pr\u00f3pria revolu\u00e7\u00e3o. Quando a revolu\u00e7\u00e3o avan\u00e7ou, a situa\u00e7\u00e3o das mulheres avan\u00e7ou com ela e quando a revolu\u00e7\u00e3o teve que recuar como aconteceu durante a NEP ou retrocedeu, a situa\u00e7\u00e3o das mulheres tamb\u00e9m recuou.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A Terceira Internacional e as Mulheres<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No seu livro Mem\u00f3rias de L\u00eanin, Zetkin regista como L\u00eanin lhe disse que sem as mulheres a revolu\u00e7\u00e3o russa n\u00e3o teria sido poss\u00edvel: <em>\u201csem elas n\u00e3o a ter\u00edamos alcan\u00e7ado\u201d.<\/em> L\u00eanin lamentava que o Terceiro Congresso da Internacional Comunista, realizado de 19 de julho a 7 de agosto de 1920, n\u00e3o conseguiu examinar a fundo o problema das mulheres e que, apesar dos esfor\u00e7os feitos: <em>\u201cainda n\u00e3o temos um movimento comunista internacional de mulheres, e devemos alcan\u00e7\u00e1-lo de qualquer maneira.&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Clara Zetkin explica que L\u00eanin reagiu com raiva quando ela o informou que muitos \u201cbons camaradas\u201d eram hostis a qualquer proposta de que o partido criasse \u00f3rg\u00e3os especiais para \u201ctrabalho sistem\u00e1tico entre as mulheres\u201d e que pensavam que L\u00eanin se tinha rendido ao oportunismo nessa quest\u00e3o: \u201cInfelizmente, ainda pode ser dito sobre muitos dos nossos camaradas; procure um comunista e voc\u00ea encontrar\u00e1 um filisteu.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Lenin pede-lhe que escreva \u201calgumas teses orientadoras sobre o trabalho comunista entre as mulheres\u201d e Clara Zetkin escreve as suas famosas Teses para a propaganda entre as mulheres, aprovadas no Terceiro Congresso da Internacional Comunista, realizado de 22 de junho a 12 de julho de 1921. Estas teses, cujas resolu\u00e7\u00f5es tratavam dos aspectos pol\u00edticos e organizacionais da Internacional, significaram um salto no arsenal te\u00f3rico e pol\u00edtico do movimento marxista, em rela\u00e7\u00e3o a esta quest\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Morte de L\u00eanin e contrarrevolu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 por acaso que uma das \u00faltimas lutas de L\u00eanin foi contra o tratamento dado por Stalin \u00e0s nacionalidades oprimidas, naquele momento a Ge\u00f3rgia. Aproveitando a morte de L\u00eanin e da grande maioria dos dirigentes bolcheviques na frente de batalha, Stalin come\u00e7ou a ter uma pol\u00edtica de recuo em rela\u00e7\u00e3o aos direitos das mulheres que tinham sido conquistados, dos quais a dissolu\u00e7\u00e3o do Zenotdel em 1930 foi uma express\u00e3o. A homossexualidade, as uni\u00f5es livres e o chamado adult\u00e9rio foram novamente declarados crimes em 1934, pun\u00edveis com um m\u00ednimo de oito anos de pris\u00e3o, enquanto muitos obst\u00e1culos foram colocados ao div\u00f3rcio. Dois anos depois, o novo C\u00f3digo da Fam\u00edlia tornou o aborto ilegal.<\/p>\n\n\n\n<p>O estalinismo necessitou manter e refor\u00e7ar a incorpora\u00e7\u00e3o das mulheres na vida profissional, nos seus esfor\u00e7os para igualar e superar o desenvolvimento industrial e econ\u00f4mico das pot\u00eancias imperialistas. As mulheres na URSS alcan\u00e7aram maior independ\u00eancia econ\u00f4mica e uma participa\u00e7\u00e3o mais igualit\u00e1ria na vida social, se as compararmos com as mulheres no resto da Europa, onde o direito de voto s\u00f3 foi alcan\u00e7ado nas d\u00e9cadas de 1920 e 1930 e a legisla\u00e7\u00e3o nazi e fascista foi um enorme retrocesso. Mas as sovi\u00e9ticas pagaram um pre\u00e7o elevado por isso.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi imposta uma pol\u00edtica familiar reacion\u00e1ria, que voltou \u00e0 glorifica\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia e da maternidade, cujo objetivo era manter os privil\u00e9gios de uma casta burocr\u00e1tica no poder. Uma pol\u00edtica que colocou o fardo e a responsabilidade das tarefas dom\u00e9sticas e de cuidados sobre os ombros das mulheres, imp\u00f4s a maternidade e a heterossexualidade compuls\u00f3ria e um regresso a uma moralidade sexual burguesa. E o pior \u00e9 que, como salienta Goldman, \u201ctudo isto foi feito em nome do socialismo\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>L\u00eanin nunca comparou ou subordinou a luta contra a opress\u00e3o \u00e0 luta pelas reivindica\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas neste sistema capitalista, mas considerou todas elas igualmente importantes e parte do programa da revolu\u00e7\u00e3o socialista. 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