{"id":78560,"date":"2024-02-28T21:10:47","date_gmt":"2024-02-28T21:10:47","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=78560"},"modified":"2024-02-28T21:10:51","modified_gmt":"2024-02-28T21:10:51","slug":"lenin-a-covarde-burguesia-e-as-valentes-mulheres-revolucionarias-da-russia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2024\/02\/28\/lenin-a-covarde-burguesia-e-as-valentes-mulheres-revolucionarias-da-russia\/","title":{"rendered":"L\u00eanin, a covarde burguesia e as valentes mulheres revolucion\u00e1rias da R\u00fassia"},"content":{"rendered":"\n<p><em>O quinto tomo das Obras Completas de L\u00eanin cont\u00e9m as obras escritas entre maio e dezembro de 1901, quando L\u00eanin est\u00e1 na sua primeira emigra\u00e7\u00e3o ao estrangeiro.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: Nazareno Godeiro<\/p>\n\n\n\n<p>Neste ano, a principal luta de L\u00eanin foi pela publica\u00e7\u00e3o de \u201cIskra\u201d (A centelha, jornal) e \u201cZari\u00e1\u201d (Aurora, revista te\u00f3rica), \u00f3rg\u00e3os oficiais dirigidos diretamente por ele, cujo objetivo era unificar pol\u00edtica e teoricamente as centenas de c\u00edrculos marxistas dispersos na R\u00fassia. L\u00eanin, ademais de escrever muitos artigos, cuidava das finan\u00e7as de ambas publica\u00e7\u00f5es e do envio clandestino a R\u00fassia. Desde Munique, Alemanha, L\u00eanin se comunicou com diversos dirigentes que continuavam na R\u00fassia clandestinamente, para organizar a distribui\u00e7\u00e3o das publica\u00e7\u00f5es, arrecadar dinheiro para \u201cIskra\u201d e organizar o partido. L\u00eanin distribu\u00eda, tamb\u00e9m, os artigos a serem escritos pelos membros da reda\u00e7\u00e3o e colaboradores das publica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde o estrangeiro enviou uma carta a sua irm\u00e3 (Maria) e seu cunhado (Eliz\u00e1rov) que haviam sido presos, indicando as formas de aproveitar bem o tempo na cadeia: a realiza\u00e7\u00e3o de tradu\u00e7\u00f5es para aprender l\u00ednguas estrangeiras (indicando um m\u00e9todo de traduzir um livro do idioma original ao russo e depois do russo ao original), leituras de estudos econ\u00f4micos e pol\u00edticos, alternando com leituras mais leves (novelas, belas artes etc.), ademais de exerc\u00edcios f\u00edsicos di\u00e1rios enquanto dure a encarceramento.<\/p>\n\n\n\n<p>Em maio de 1901, escreveu o artigo \u201c<em>Por onde come\u00e7ar?<\/em>\u201d, publicada na primeira p\u00e1gina do \u201c<em>Iskra<\/em>\u201d:<\/p>\n\n\n\n<p>Este artigo foi a base do livro <em>\u201cQue fazer?\u201d,<\/em> que define o que \u00e9 um \u201cpartido de a\u00e7\u00e3o\u201d, \u201ccombativo\u201d \u00e0 diferen\u00e7a de um grupo fundacional (car\u00e1ter das organiza\u00e7\u00f5es anteriores, inclusive a organiza\u00e7\u00e3o \u201cEmancipa\u00e7\u00e3o do Trabalho\u201d, dirigida por Plekh\u00e1nov). L\u00eanin construiu, no decorrer de 3 ou 4 anos uma proposta de passagem do grupo fundacional para um partido de propaganda com implanta\u00e7\u00e3o no movimento oper\u00e1rio, isto \u00e9, a proposta pr\u00e1tica de mudan\u00e7a de fase da organiza\u00e7\u00e3o russa. Por isso, neste artigo, L\u00eanin come\u00e7ou discutindo que n\u00e3o se trata de uma quest\u00e3o de princ\u00edpios, mas de um \u201csistema e de um plano de atividade pr\u00e1tica\u201d. Se trata de discutir o car\u00e1ter da luta e de seus m\u00e9todos. E a\u00ed \u00e9 onde surgiram diferen\u00e7as importantes com os \u201ceconomicistas\u201d e seu suced\u00e2neo, o \u201cecletismo\u201d. L\u00eanin disse que \u201ctrabalhar para criar uma organiza\u00e7\u00e3o combativa e fazer agita\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 obrigat\u00f3rio em todas as circunst\u00e2ncias.\u201d L\u00eanin criticou os economicistas que deram uma guinada das lutas econ\u00f4micas para a defesa do terrorismo como t\u00e1tica principal. L\u00eanin opinou que a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica n\u00e3o era de ofensiva geral, apesar de haver lutas importantes no pa\u00eds de camponeses, de estudantes e oper\u00e1rios:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>A princ\u00edpio, nunca renunciamos nem podemos renunciar ao terror. O terror \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o militar que pode ser muito \u00fatil e at\u00e9 indispens\u00e1vel num determinado momento da batalha, com um determinado estado de for\u00e7as e sob certas condi\u00e7\u00f5es. Mas o cerne da quest\u00e3o \u00e9 precisamente que o terror \u00e9 agora defendido n\u00e3o como uma opera\u00e7\u00e3o de um ex\u00e9rcito no campo, como uma opera\u00e7\u00e3o intimamente ligada a todo o sistema de luta e coordenada com ele, mas como meio de agress\u00e3o individual, independente e isolado de qualquer ex\u00e9rcito. E o terror n\u00e3o pode ser outra coisa quando falta uma organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria central e as organiza\u00e7\u00f5es locais s\u00e3o fracas. \u00c9 por isso que declaramos categoricamente que tal meio de luta nas atuais circunst\u00e2ncias n\u00e3o \u00e9 oportuno nem adequado; que separa os militantes mais ativos da sua verdadeira miss\u00e3o, que \u00e9 mais importante do ponto de vista dos interesses de todo o movimento; isso n\u00e3o desorganiza as for\u00e7as governamentais, mas sim as revolucion\u00e1rias<\/em>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A emerg\u00eancia de um novo momento do partido obrigava a decidir que m\u00e9todos utilizar para entrar no movimento oper\u00e1rio (participa\u00e7\u00e3o combativa do partido nas lutas para elevar o n\u00edvel de consci\u00eancia da massa atrav\u00e9s da agita\u00e7\u00e3o e da propaganda ampla) ou o terrorismo individual. A proposta dos economicistas significou uma guinada muito grande: das lutas econ\u00f4micas como t\u00e1tica central, para o terrorismo como t\u00e1tica central. Ambas colocam o movimento oper\u00e1rio cuidando das lutas econ\u00f4micas enquanto a pol\u00edtica, a luta pela liberta\u00e7\u00e3o e pela derrubada da autocracia, cabia \u00e0 intelectualidade burguesa.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin n\u00e3o negava o terror individual como t\u00e1tica (\u201cheroicos atos isolados\u201d), mas dizia que s\u00f3 era correto em determinadas circunst\u00e2ncias da guerra revolucion\u00e1ria e que neste momento da R\u00fassia, desorganizava as for\u00e7as revolucion\u00e1rias, principalmente como pretendia os economicistas, o terror como meio principal e fundamental de luta.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir da\u00ed, L\u00eanin apresentou um plano pr\u00e1tico de desenvolver o partido que constituiu principalmente na funda\u00e7\u00e3o de um jornal regular (peri\u00f3dico e sistem\u00e1tico) para toda a R\u00fassia. Essa era a \u00fanica forma, segundo L\u00eanin, para fazer uma agita\u00e7\u00e3o e uma propaganda sistem\u00e1ticas no movimento que estejam de acordo com os princ\u00edpios marxistas e que tratem todos os aspectos (econ\u00f4micos, pol\u00edticos e te\u00f3ricos). A proposta era esta porque o diagn\u00f3stico que fazia L\u00eanin nesse per\u00edodo era que a principal enfermidade do partido era a dispers\u00e3o local. E justamente essa dispers\u00e3o local \u00e9 a causa das vacila\u00e7\u00f5es e revis\u00f5es do marxismo em curso. J\u00e1 se havia dado um passo importante que foi despertar a classe oper\u00e1ria com as den\u00fancias econ\u00f4micas, atrav\u00e9s de panfletos, nas f\u00e1bricas. Agora era a hora de saltar para as den\u00fancias pol\u00edticas e isso s\u00f3 podia alcan\u00e7ar com um jornal pol\u00edtico, regular e peri\u00f3dico, pois j\u00e1 tinha uma classe \u00e1vida para escutar essas den\u00fancias: o proletariado, que chegou a um grau de concentra\u00e7\u00e3o grande e j\u00e1 est\u00e3o se formando os dirigentes revolucion\u00e1rios ligados a essa massa. A partir desse proletariado, este jornal penetraria no campesinato e na intelectualidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A miss\u00e3o do jornal era n\u00e3o s\u00f3 difundir ideias, educar politicamente e conquistar novos apoiadores \u201c<em>O jornal n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um agitador e um propagandista coletivo, \u00e9 tamb\u00e9m um organizador coletivo<\/em>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, L\u00eanin tra\u00e7ou os principais instrumentos para ligar-se ao movimento oper\u00e1rio e de massas e passar a segunda fase do partido, a fase da \u201cinf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia\u201d: um jornal central, que organizaria os militantes, lhes daria a base para a agita\u00e7\u00e3o e a propaganda, somado aos folhetos, panfletos e outros materiais mais populares, para agita\u00e7\u00e3o de massas, inclusive para a luta econ\u00f4mica.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui, L\u00eanin tra\u00e7ou a ideia de um militante ativo, vinculado a uma organiza\u00e7\u00e3o e que participa ativamente do movimento, fazendo agita\u00e7\u00e3o, propaganda ou organiza\u00e7\u00e3o do partido e do movimento oper\u00e1rio:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>Tal grau de disposi\u00e7\u00e3o combativa s\u00f3 pode ser alcan\u00e7ado com a atividade constante, que se dedica um ex\u00e9rcito regular. E se unirmos for\u00e7as para garantir a publica\u00e7\u00e3o de um jornal comum, esse trabalho ir\u00e1 preparar e desenvolver n\u00e3o s\u00f3 os mais h\u00e1beis propagandistas, mas tamb\u00e9m os mais h\u00e1beis organizadores, os mais capazes dirigentes pol\u00edticos do Partido, que possam, no momento necess\u00e1rio, lance a palavra de ordem do combate decisivo e dirija-o<\/em>.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Em 12 de junho, a reda\u00e7\u00e3o da \u201cIskra\u201d recebeu uma carta entusi\u00e1stica de um oper\u00e1rio, comentando este artigo.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste mesmo m\u00eas, escreveu o artigo \u201c<em>Os perseguidores dos zemstvos e os An\u00edbal do liberalismo<\/em>\u201d para a revista te\u00f3rica \u201cZari\u00e1\u201d:<\/p>\n\n\n\n<p>Neste artigo L\u00eanin discute a orienta\u00e7\u00e3o da autocracia de fazer pequenas reformas para dividir o movimento: pressionada pela luta camponesa e a situa\u00e7\u00e3o internacional convulsionada, a autocracia foi obrigada a decretar o fim da servid\u00e3o, em 1861, por\u00e9m, entregou um ter\u00e7o das terras aos camponeses em troca de um resgate pago ao governo e aos nobres, que aprisionavam o campesinato russo e o levava \u00e0 fal\u00eancia. Essas reformas eram subproduto de uma situa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria na R\u00fassia, que amea\u00e7ava explodir em insurrei\u00e7\u00e3o camponesa. A nobreza e a burguesia liberal exigiam a convocat\u00f3ria de uma constitui\u00e7\u00e3o geral para o pa\u00eds, tentando limitar o poder do Tzar. Por\u00e9m, a autocracia convocou a forma\u00e7\u00e3o de Zemstvos, \u00f3rg\u00e3os de administra\u00e7\u00e3o local, dirigida pela nobreza, consultivos, com autonomia limitada a quest\u00f5es econ\u00f4micas locais e sem poder de decis\u00e3o. Tanto o governador quanto o ministro do interior poderiam anular qualquer decis\u00e3o destes \u00f3rg\u00e3os. Portanto, iniciou uma transi\u00e7\u00e3o controlad\u00edssima.<\/p>\n\n\n\n<p>A autocracia tratava de introduzir o capitalismo paulatinamente na R\u00fassia, mantendo sob controle das institui\u00e7\u00f5es feudais, combinando pequenas concess\u00f5es para as massas e uma violenta repress\u00e3o contra os movimentos revolucion\u00e1rios, especialmente a organiza\u00e7\u00e3o \u201cVontade do Povo\u201d, populista, que utilizava o terror individual como m\u00e9todo de luta.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui j\u00e1 podemos nos apropriar de uma ideia que era patrim\u00f4nio do marxismo no in\u00edcio do s\u00e9culo XX: se trata da ideia de que todas as concess\u00f5es (reformas parciais) que as classes dominantes fazem \u00e0 classe trabalhadora e aos pobres em geral, resultam da luta do povo trabalhador e tem uma dupla \u201cpersonalidade\u201d: \u00e9 conquista da luta que pode se converter no seu contr\u00e1rio, para desviar a revolu\u00e7\u00e3o a adequar-se ao status quo, com modifica\u00e7\u00f5es que n\u00e3o afetam os privil\u00e9gios das classes dominantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Os liberais burgueses russos, n\u00e3o entendiam que as reformas, as concess\u00f5es e as conquistas parciais resultavam da luta geral, por isso, se negavam a apoiar os movimentos revolucionarios da intelectualidade e tratavam de \u201cnegociar\u201d com a autocracia seu programa: liberdade de palavra e de imprensa, inviolabilidade pessoal e assembleia constituinte.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Outra ideia, que era tamb\u00e9m patrim\u00f4nio do marxismo de ent\u00e3o, \u00e9 que sem uma for\u00e7a social s\u00e9ria e organizada, coisa que a burguesia liberal n\u00e3o estava disposta a fundar, o regime autocr\u00e1tico n\u00e3o avan\u00e7aria at\u00e9 a implanta\u00e7\u00e3o de uma constitui\u00e7\u00e3o na R\u00fassia. Sem uma for\u00e7a revolucion\u00e1ria da classe prolet\u00e1ria (ainda engatinhando) e um partido revolucionario firme e disciplinado (ainda se constituindo) toda a luta pela constitui\u00e7\u00e3o retrocederia, como de fato ocorreu entre 1905 e 1907.<\/p>\n\n\n\n<p>A inconsist\u00eancia da oposi\u00e7\u00e3o liberal burguesa, deu tempo suficiente para a autocracia se localizar perante a onda revolucionaria, manter-se no poder e at\u00e9, no momento adequado, escantear a burguesia liberal.<\/p>\n\n\n\n<p>A segunda parte do artigo debate com Struve, o marxista \u201clegal\u201d que exortava o Tzar a conceder os \u201czemstvos dotados de poder\u201d sen\u00e3o a revolu\u00e7\u00e3o violenta o derrubaria. Representava a posi\u00e7\u00e3o da burguesia liberal que n\u00e3o estava disposta a enfrentar a autocracia e derrub\u00e1-la pela mobiliza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, mas pelas reformas pac\u00edficas e constitucionais, convocadas pela autocracia.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao discutir este artigo na reda\u00e7\u00e3o do jornal se revelaram as diferen\u00e7as de L\u00eanin com Plekh\u00e1nov e Axelrod (ambos membros, tamb\u00e9m, da reda\u00e7\u00e3o da <em>Iskra<\/em> e <em>Zari\u00e1<\/em>) sobre as rela\u00e7\u00f5es do proletariado com a burguesia liberal russa. Ambos sugeriram a L\u00eanin mudar a orienta\u00e7\u00e3o e o tom do artigo, para permitir rela\u00e7\u00f5es amistosas com a burguesia liberal. L\u00eanin fez todas as mudan\u00e7as sugeridas no \u201ctom\u201d do artigo, mas se negou a modificar o conte\u00fado do artigo. Como se v\u00ea, as diferen\u00e7as do Plekh\u00e1nov foram se intensificando em pontos centrais do programa, da estrat\u00e9gia e da t\u00e1tica (sobre materialismo, sobre rela\u00e7\u00f5es com a burguesia, sobre os m\u00e9todos de conduta na dire\u00e7\u00e3o entre outros).<\/p>\n\n\n\n<p>O jornal Iskra foi publicando artigos que atualizavam os trabalhadores na pol\u00edtica do governo e nas crises econ\u00f4micas. Por exemplo, no artigo \u201c<em>Uma confiss\u00e3o valiosa<\/em>\u201d, L\u00eanin historia todos os auges grevistas e como o governo fez pequenas concess\u00f5es para derrotar o movimento. De forma simples, ele mostrou a for\u00e7a do proletariado e como o inimigo trabalhou para derrotar as greves. Em outro artigo \u201c<em>As li\u00e7\u00f5es das crises<\/em>\u201d, L\u00eanin discutiu as causas das crises econ\u00f4micas no capitalismo e foi dando exemplos concretos, como os lucros e produ\u00e7\u00e3o do grande cartel petrol\u00edfero dos irm\u00e3os Nobel. Nomeou todos os grandes milion\u00e1rios da R\u00fassia. Em outro artigo \u201c<em>Os senhores feudais em a\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d mostrou que o governo entregou terras na Sib\u00e9ria aos nobres com 3 mil hectares ou mais, para pagar em 37 anos e se arrendasse a terra n\u00e3o pagaria nos primeiros 5 anos. Na regi\u00e3o de Uf\u00e1, esses nobres latifundi\u00e1rios compraram terras no valor de 60 mil rublos e em dois anos, venderam estas mesmas terras por 580 mil rublos! Aos camponeses se entregava 15 hectares, por fam\u00edlia, sem facilidades de pagamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim foi educando, pelas p\u00e1ginas do <em>Iskra<\/em> ou de <em>Zari\u00e1<\/em>, a revista te\u00f3rica, a vanguarda oper\u00e1ria do pa\u00eds, ao mesmo tempo que formava uma coluna de quadros no marxismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Em setembro, L\u00eanin escreveu o artigo \u201c<em>O problema agr\u00e1rio e os \u2018cr\u00edticos de Marx\u2019<\/em>\u201d, fundamentando o programa agr\u00e1rio do POSDR:<\/p>\n\n\n\n<p>Neste livreto, L\u00eanin critica a vis\u00e3o de Bulg\u00e1kov, economista da corrente marxista \u201clegal\u201d, pr\u00f3ximo da corrente de Bernstein, que tentou refutar a vis\u00e3o de Marx sobre a \u201crenda da terra\u201d, quer dizer, uma renda que o propriet\u00e1rio ou arrendat\u00e1rio recebe por possuir ou arrendar a terra. Segundo Bulg\u00e1kov, existiria uma lei universal, absoluta, que ocorre sim ou sim, da \u201cfertilidade decrescente do solo\u201d. Marx dizia que isso era relativo, pois dependia do desenvolvimento t\u00e9cnico, do n\u00edvel das for\u00e7as produtivas. Toda a produ\u00e7\u00e3o mundial agr\u00edcola e industrial refutou essa vis\u00e3o de Bulg\u00e1kov: diminuiu drasticamente a popula\u00e7\u00e3o rural enquanto aumentou vertiginosamente a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola. Bulg\u00e1kov tamb\u00e9m pretendia provar que Marx estava errado quando dizia que o capital constante (m\u00e1quinas e equipamentos) cresce com mais velocidade que o capital vari\u00e1vel (m\u00e3o-de-obra). Todo o desenvolvimento da agricultura nos \u00faltimos 200 anos mostrou que a produtividade da agricultura foi acompanhada necessariamente pelo crescimento mais r\u00e1pido do capital constante em rela\u00e7\u00e3o ao capital vari\u00e1vel. Seria equivocado usar o argumento que essa produ\u00e7\u00e3o capitalista em larga escala \u00e9 destrutiva da natureza para negar essa lei geral da produ\u00e7\u00e3o capitalista. Ela \u00e9 destrutiva porque \u00e9 usada para enriquecer um punhado de capitalistas que controlam a produ\u00e7\u00e3o mundial de alimentos no s\u00e9culo XXI. Isso n\u00e3o nega o salto da produtividade do oper\u00e1rio por hectare usando m\u00e1quinas modernas. Outro debate importante neste artigo se refere a compara\u00e7\u00e3o de produtividade entre a grande e a pequena propriedade rural. Bulg\u00e1kov (e os bernsteinianos em geral, inclu\u00eddo os populistas russos) tratam de provar que a pequena propriedade \u00e9 mais rent\u00e1vel que a grande. Para isso, modificam todos os dados estat\u00edsticos para provar algo que n\u00e3o ocorre na realidade: a \u00fanica \u201cvantagem\u201d da pequena propriedade \u00e9 que ela passa fome para poder colocar seu produto no mercado, al\u00e9m de estender a jornada para limites quase insuport\u00e1veis. Todas as estat\u00edsticas analisadas por L\u00eanin (da R\u00fassia, da Alemanha, da Inglaterra, etc.) d\u00e3o uma superioridade muito grande \u00e0 grande propriedade, seja pelo uso de m\u00e1quinas, de adubos e de m\u00e3o de obra assalariada em grande escala. Mas, isso importa pouco para quem quer provar a excel\u00eancia da pequena propriedade, idealizando preconceitos \u201cnaturais\u201d ou \u201cmorais\u201d. Quando os marxistas analisavam que a grande propriedade era mais produtiva que a pequena propriedade rural, os ide\u00f3logos da pequena propriedade criticavam os marxistas porque diziam que isso ocorre porque havia uma superexplora\u00e7\u00e3o do oper\u00e1rio rural pelo grande propriet\u00e1rio. Por\u00e9m, os marxistas ao dizer que a grande propriedade era tecnicamente mais produtiva n\u00e3o queria dizer que as condi\u00e7\u00f5es de vida do trabalhador rural na grande propriedade melhoravam continuamente. Apenas, os marxistas faziam notar que os ide\u00f3logos da pequena burguesia embelezavam e idealizavam as condi\u00e7\u00f5es de vida e trabalho da pequena propriedade sob o sistema capitalista. Para os marxistas, \u00e9 necess\u00e1rio denunciar a mentira da burguesia que o pequeno produtor vai melhorar sua vida paulatinamente e convoc\u00e1-los para lutar unidos ao movimento revolucion\u00e1rio do proletariado como \u00fanica forma de salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin recebeu \u201c<em>A mulher trabalhadora<\/em>\u201d, primeiro folheto de N\u00e1dia Krupskaya, escrito no desterro siberiano, sobre a quest\u00e3o da opress\u00e3o das mulheres trabalhadoras. Al\u00e9m de elaborar sobre a quest\u00e3o da mulher, Krupskaya ser\u00e1 \u201ca\u201d organizadora do jornal \u201cIskra\u201d e da revista \u201cZari\u00e1\u201d, a partir de 1901, quando termina seu confinamento na Sib\u00e9ria e ela vai encontrar L\u00eanin no Estrangeiro. Ela seria a secretaria de organiza\u00e7\u00e3o do partido, um papel fundamental na organiza\u00e7\u00e3o dos militantes profissionais que estavam na R\u00fassia. Ela que mantinha todos os contatos com os quadros na R\u00fassia, a partir do jornal, que era quinzenal, no in\u00edcio do s\u00e9culo XX. Krupskaya tamb\u00e9m elaborou muitos materiais sobre a educa\u00e7\u00e3o e pedagogia (escrevia artigos para jornais), inclusive depois da tomada do poder ajudou na organiza\u00e7\u00e3o da nova escola, tendo alto cargo no Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tico. Esse papel importante da Kr\u00fapskaya no partido, seguia uma tradi\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria das mulheres na R\u00fassia. Estamos falando de um pa\u00eds que h\u00e1 100 anos atr\u00e1s vendia jovens mulheres no mercado, junto com outras \u201cpropriedades\u201d. O c\u00f3digo civil da R\u00fassia tzarista obrigava a mulher a ter permiss\u00e3o do marido para ter passaporte ou para conseguir emprego. Conseguir o div\u00f3rcio era praticamente imposs\u00edvel. A agress\u00e3o \u00e0 esposa por parte do marido n\u00e3o era aceitado como motivo para a separa\u00e7\u00e3o. A partir de 1861, com a abertura de grandes transforma\u00e7\u00f5es na R\u00fassia, as mulheres entraram com tudo na luta revolucion\u00e1ria. Na dire\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o populista tinha v\u00e1rias mulheres como Vera Figner, Anna Korba, Olga Liubatovich, Sophia Perovskaya, Gesia Gelfman, Anna Yakimova, Tatiana Lebedeva entre outras. Sophia Perovskaya, de descend\u00eancia da alta nobreza, foi respons\u00e1vel pelo assassinato do Tzar Alexandre II em 1881. Foi enforcada, junto com seus companheiros, em Pra\u00e7a P\u00fablica, cercada por 12 mil soldados. Na primeira organiza\u00e7\u00e3o marxista, A Emancipa\u00e7\u00e3o do Trabalho, Vera Zasulich, que havia atentado contra o chefe de pol\u00edcia de S\u00e3o Petersburgo, dando um tiro, que n\u00e3o foi fatal. Depois foi fundadora, junto com Plekhanov da organiza\u00e7\u00e3o marxista. L\u00eanin trabalhou junto com ela na reda\u00e7\u00e3o da Iskra por dois anos. Krupskaya estava seguindo essa tradi\u00e7\u00e3o e o POSDR ter\u00e1 toda uma coluna de dirigentes revolucion\u00e1rias profissionais dedicadas toda a vida ao partido e \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o, como Inessa Armand, Alexandra Kolont\u00e1i, Larissa Reissner, Vera Slutskaya, Eugenia Bosch, Ludmila Stal, Koncordiya Samoilova entre muitas outras. Estas eram dirigentes do Partido Bolchevique, por\u00e9m foram mulheres oper\u00e1rias bolcheviques que dirigiram a revolu\u00e7\u00e3o de fevereiro e cumpriram papel importante na revolu\u00e7\u00e3o de outubro: Anastasia Devi\u00e1tkina, oper\u00e1ria industrial, que organizou um sindicato de esposas de soldados, Nina Aghadzanova, representante do distrito de Vyborg no Soviete de Petrogrado e Zenia Ezeghorova, Secret\u00e1ria do Partido em Vyborg, uma das organizadoras das a\u00e7\u00f5es nas barricadas de soldados entre muitas outras. Estas j\u00e1 eram express\u00e3o do grande crescimento de mulheres nas f\u00e1bricas. Como vimos no epis\u00f3dio anterior, em 1897, j\u00e1 tinham 2,5 milh\u00f5es de mulheres oper\u00e1rias industriais na R\u00fassia (25% da m\u00e3o de obra fabril). Em pouco mais de 50 anos, com a revolu\u00e7\u00e3o socialista de 1917, como produto desta luta das mulheres, se conquistar\u00e3o os maiores direitos sociais e uma legisla\u00e7\u00e3o mais avan\u00e7ada que em qualquer pa\u00eds capitalista do mundo, conquistas que veremos no epis\u00f3dio correspondente.<\/p>\n\n\n\n<p>O Governo Provis\u00f3rio n\u00e3o acabou com a guerra, ignorando as necessidades do povo trabalhador. Isso levou a novos protestos, muitos liderados por mulheres. Um exemplo foram as 40.000 lavandeiras organizadas em um sindicato liderado pela bolchevique Sonia Gonsch\u00e1rkaia.<\/p>\n\n\n\n<p>Em setembro de 1901, L\u00eanin foi o delegado das organiza\u00e7\u00f5es <em>Iskra<\/em> e <em>Zari\u00e1<\/em> para um congresso que tentou realizar a unifica\u00e7\u00e3o de 4 grupos socialdemocratas no estrangeiro. O congresso deu em nada, mas L\u00eanin a\u00ed j\u00e1 foi o representante da corrente social-democrata mais forte na R\u00fassia e fez o discurso central sobre a impossibilidade da unifica\u00e7\u00e3o, pois uma parte destas organiza\u00e7\u00f5es eram simp\u00e1ticas ao Bernstein, ao terrorismo e ao economicismo:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cDevemos deixar claras as diverg\u00eancias que implicam, saber em que terreno se situa a Uni\u00e3o e se \u00e9 poss\u00edvel a unifica\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, sem a qual a unifica\u00e7\u00e3o org\u00e2nica n\u00e3o tem sentido: n\u00e3o procur\u00e1mos e n\u00e3o poder\u00edamos procurar uma unifica\u00e7\u00e3o desse tipo.\u201d (\u2026) N\u00e3o devemos esquecer que, sem uma base ideol\u00f3gica comum, n\u00e3o podemos sequer falar de unifica\u00e7\u00e3o.\u201d<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O quinto tomo das Obras Completas de L\u00eanin cont\u00e9m as obras escritas entre maio e dezembro de 1901, quando L\u00eanin est\u00e1 na sua primeira emigra\u00e7\u00e3o ao estrangeiro. Por: Nazareno Godeiro Neste ano, a principal luta de L\u00eanin foi pela publica\u00e7\u00e3o de \u201cIskra\u201d (A centelha, jornal) e \u201cZari\u00e1\u201d (Aurora, revista te\u00f3rica), \u00f3rg\u00e3os oficiais dirigidos diretamente por [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":78561,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[8806,8076],"tags":[8808,1069],"class_list":["post-78560","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-100-anos-sem-lenin","category-especiais","tag-100-anos-sem-lenin","tag-nazareno-godeiro"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/arton13081-9881e.jpg","categories_names":["100 anos sem L\u00eanin","Especiais"],"author_info":{"name":"lena","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/b9eb35b4c023b96c29c4a145a82c6c381b68f2c889c5427106ad5aab6df45b9d?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/78560","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=78560"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/78560\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":78562,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/78560\/revisions\/78562"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/78561"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=78560"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=78560"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=78560"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}